15 de fevereiro de 2012 às 0h43
Whitney Houston foi importante por que mesmo?
Logo que saiu a notícia da morte de Whitney Houston, a Sony correu para aumentar o preço de seu catálogo no iTunes. Pegou mal e a gravadora voltou atrás.
Para alguns, a jogada pareceu procedimento normal. Uma matéria da Reuters cita um executivo da Universal que explica: “Você não quer parecer ganancioso demais, mas também quer capitalizar em cima da atenção que a estrela está tendo agora”.
Faturar em cima da morte é coisa que a indústria cultural faz sem culpa. No caso de Whitney, deve haver um carinho especial. Seus hits foram a trilha de um tempo onde ser capitalista selvagem e especulador tinha voltado a ser motivo de orgulho (idealismos hippie, disco e punk já devidamente ultrapassados).
Em 1987, quando saiu o segundo álbum da cantora, Whitney, os yuppies, com seus ternos Armani de ombreira, Rolex no pulso e BMW na garagem, estavam no topo do mundo. Eram os vitoriosos das eras Ronald Reagan e Margaret Thatcher (assista Dama de Ferro, onde Meryl Streep interpreta a primeira-ministra britânica, para sentir o clima).
Foi neste ano que o escritor Bret Easton Ellis lançou American Psycho (Psicopata Americano), um thriller movido a morte e dinheiro. O protagonista Patrick Bateman é um investidor financeiro, amante de chocolate Godiva e vinho Chardonnay. Quando ninguém está olhando, é também um serial killer frio e cruel. Bateman é fã de Phil Collins, Robert Palmer e, em especial, de Whitney Houston.
Na versão para o cinema do livro, ele diz o seguinte sobre a cantora: “Difícil escolher uma favorita entre tantas músicas boas, mas ‘The Greatest Love of All’ é uma das melhores, mais poderosas músicas já escritas sobre auto-preservação e dignidade. Já que é impossível nesse mundo em que vivemos ter empatia com os outros, então podemos sempre ter empatia com nós mesmos. É uma mensagem importante, crucial na verdade. E é lindamente declarada no álbum.”
Whitney Houston representou um ponto alto na escalada social da soul music. Esse processo começou ainda na Motown, gravadora que diluiu o soul para se tornar “o som da América jovem”. Nos anos 70, veio da Philadelphia o soul de smoking e taça de champanhe na mão. Era uma mudança estética que acompanhava o crescimento das classes média e alta negras nos EUA. Consequência da igualdade de direitos civis e maior acesso a trabalho e estudo.
Na década de 80, vieram os “buppies” (“black yuppies”) e o que o escritor Nelson George chamou de The Death of Rhythm’n'Blues. O soul foi inundado por baladas mela-cueca e grooves caretas. Black music aguada, insípida e castrada. O conteúdo cada vez menos importante que a forma. O vocal soul apenas como clichê de intensidade emocional, pura embalagem. O groove funkeado como balancinho inofensivo, sem suor nem sacanagem.
Whitney Houston foi a rainha desse tempo, desse som, desse “soul”. Sua linhagem era nobre (Cissy Houston era a mãe, Dionne Warwick a prima, Aretha Franklin a madrinha), por isso Whitney ainda tinha um certo “mojo” na interpretação (o que prova o punhado de músicas boas que tinha).
Mas o “mojo” provou ser secundário. Nas retrospectivas, o que se lembra da carreira musical de Whitney é a técnica, as vendagens, as sete músicas consecutivas em primeiro lugar nos EUA. Símbolos de status e desempenho profissional.
Depois de Whitney, estava aberta a porta para ginastas da voz com hits melodramáticos e açucarados. Vieram Mariah Carey, Toni Braxton, Celine Dion, Vanessa Williams. Veio toda uma escola onde “cantar bem” significa apenas técnica e derramamento. Música de vitrine, sem empatia exceto com si mesmo.
Na madrugada de sábado para domingo, quando a morte de Whitney corria por todas as mídias, liguei na CNN e vi Piers Morgan conversando com Simon Cowell pelo telefone.
Na conclusão do papo, os dois jurados do X-Factor explicaram porque Whitney era tão especial: quando os calouros do seu programa escolhiam interpretar uma música da cantora sempre derrapavam naquelas notas mais difíceis. Notas essas que Whitney alcançava sem suar.
Parâmetros típicos de um mundo que esqueceu da empatia.
31 Comentários





DJ que escreve, jornalista que toca 




15 de fevereiro de 2012 às 1h04
Camilo, mandou bem demais no texto! Apesar de ser sobre a Whitney, deixo um comentário a respeito desse processo evolutivo que o soul passou: no final das contas, o estilo sofreu com o pós-modernismo e ficou aguado mesmo. Parece que foi só a Inglaterra se meter no meio com o acid jazz que as coisas aos poucos voltaram ao eixo com o r&b americano noventista bebendo desta fonte.
Abraço
Raphael
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15 de fevereiro de 2012 às 1h27
Excelente texto, mas essas letrinhas cinza magérrimas e esse fundo branco não ajuda.
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15 de fevereiro de 2012 às 1h35
Texto foda!
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15 de fevereiro de 2012 às 1h39
matou a pau, Camilo.
Até pra quem (eu) não é conhecedor do bom soul, essa estética diluída sempre soou barata – e com o perdão da troca de sentidos, pra vender de baciada. e só.
e bem, só pra deixar uma idéia no ar: talvez essa leva de malabaristas seja a última geração a cantar sem auto-tune. quero dizer, ainda dá pra piorar…
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15 de fevereiro de 2012 às 2h13
não é como todos os artistas de hoje usassem auto-tune pela voz ser ruim, nenhuma gravadora, por mais plastico e merda-comercial que seja o artista, vai botar no seu casting alguem que ela não pode ter um pingo de confiança… especialmente na ala do “soul”.
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15 de fevereiro de 2012 às 2h50
Falar é fácil. Escrever um texto virtuoso e com algumas citações, também. Vá cantar como a Whitney e essa “leva” de cantores ruins, segundo seu texto, depois a gente conversa. Abraço
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15 de fevereiro de 2012 às 4h53
Concordo com você, Gustavo!
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15 de fevereiro de 2012 às 14h25
Acho que o autor não falou que a Whitney e suas sucessoras são ruins. Pelo contrário. Foi ressaltada a prioridade à técnica acima de qualquer coisa. A interpretação de texto mandou um abraço.
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15 de fevereiro de 2012 às 14h40
Woow se engana muito colega. Não é nada fácil escrever um texto contextual como esse. Cantar, pra quem tem o dom, pode ser mais fácil do que escrever, e ambas as técnicas exigem aperfeiçoamento e treino – sem citar a bagagem
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15 de fevereiro de 2012 às 6h12
Adele with Rolling in the Deep. Gnarls Barkley with Crazy. Kanye & Daft Punk with Stronger. Greatest Grammy performances in my days.
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15 de fevereiro de 2012 às 11h50
Excelente!!!
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15 de fevereiro de 2012 às 13h42
Ótimo texto. O papel do crítico é analisar, não é trocar de lugar com o artista. Esse pensamento é pueril.
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15 de fevereiro de 2012 às 14h26
Muito bom o texto concordo inteiramente com o que foi escrito. Parabéns!!!
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15 de fevereiro de 2012 às 14h26
Bom, sem querer defender o articulista, eu acho que a Whitney tb não era capaz de escrever um bom texto (como este), um artigo qualquer ou um ensaio notável. Fica empate. Então cada um na sua.
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15 de fevereiro de 2012 às 14h50
E mais WH:
,
Whitney Houston: the making of a superstar – a feature from the vaults
.
http://apps.facebook.com/theguardian/music/2012/feb/14/whitney-houston-making-superstar
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15 de fevereiro de 2012 às 16h18
Ótima análise, Camilo! Realmente, dá até uma dorzinha pensar nas mudanças de mentalidade nos 80. Fico lembrando do “Last Days of Disco” com os yuppies nas discotecas, prenunciando a cultura do $$$.
Um painel interessante desses anos 80 na Inglaterra pra mim é o livro “A Linha da Beleza” do Allan Hollinghurst. (Passou uma adaptação uma vez na HBO). Está tudo lá: o dinheiro, o status, a hipocrisia, a Aids, a Tatcher. Recomendo!
Ah, “Thinking About You” da Whitney, na versão dub, é a cara de uma festa sua
(Agora posso dizer que sinto uma dor “ontológica” quando alguém comenta sem entender o texto? Típico caso de quem lê o título do post e vai cagar-regra no comentário)
Abraço!
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15 de fevereiro de 2012 às 16h28
essa é do twitter do bret easton ellis:
“Whitney Houston: Yes, somewhere tonight Patrick Bateman is weeping, shocked but not surprised, and ordering three hookers instead of two…”
https://twitter.com/#!/BretEastonEllis/status/168505561128775680
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15 de fevereiro de 2012 às 19h12
O Texto chama a atenção pela profundidade e qualidade. Fazendo intertextualização com a história da época e com boas referências. Parabéns!
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15 de fevereiro de 2012 às 20h37
O autor contextualiza que o problema não é cantar bem ou mal, mas sim trazer algo a mais do que isso. O soul e o jeito de cantar soul e r&b nasce num ambiente de improvisos, impurezas e autenticidade, quando perde isso, perde a “alma”. Depois disso cantar bem passou a ser importante e parece que apontar o contraponto, heresia.
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15 de fevereiro de 2012 às 20h38
bela reflexão, camilo !
bjs para vc !
manu ; )
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15 de fevereiro de 2012 às 22h25
Obrigado Manu, outro!
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15 de fevereiro de 2012 às 22h25
Excelente, merece ser postado! Vlw!
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15 de fevereiro de 2012 às 23h06
Sério, coisa linda de se ler da semana.
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15 de fevereiro de 2012 às 23h11
Das cantoras pós-Whitney citadas, acho que a Mariah Carey tem coisas ótimas ali no começo de carreira, e ouvindo sem preconceito, dá pra sacar que faixas tipo “Someday”, “Emotions” (chupando “Best Of My Love” das, hããã, Emotions) e “Dreamlover” são pop sublime… e o primeiro álbum da Toni Braxton também tem umas coisas aproveitáveis (especialmente o que tem a mão do Babyface). No mais, o que dizer além de “parabéns pelo texto impecável”?
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16 de fevereiro de 2012 às 6h40
”Esse processo começou ainda na Motown, gravadora que diluiu o soul para se tornar “o som da América jovem”.
Esse papo de “Motown diluiu o soul” é um dos clichês mais horrorosos já perpetrados. Papo de crítico branco que não entende a cultura negra. Quem diz isso insiste na ideia de que que todo músico negro popular (não estou falando de jazz, ok?) tem que ser “de raiz”. Que saco. Colocam os artistas negros em um escaninho, dizem o que eles podem ou não podem fazer (em nome da “autenticidade”), enquanto os ”veneráveis” artistas brancos sempre fazem o que querem, apropriam qualquer expressão e escapam sem lesões. Seu texto é um amontoado de clichês sobre música negra popular, Camilo. Que decepção.
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16 de fevereiro de 2012 às 12h29
Vc não entendeu. Não falei que toda música negra tem de ser “de raiz”. Não falei que a diluição no caso da Motown ou da Philadelphia é ruim, apenas que é diluição.
Aliás, adoro Motown, Philadelphia, Miles Davis, Sly Stone, Michael Jackson, disco music, Prince, Chic, Barry White, Jam & Lewis, todos diluidores e misturadores geniais.
Falei que a diluição é ruim nos anos 80 c/ artistas como Whitney pq o resultado ficou mto chato.
Não sou o primeiro a falar desse processo de diluição, é um processo já descrito à exaustão por críticos brancos e negros.
Um deles é Nelson George, no livro citado na matéria. Ele é considerado o maior crítico da cultura pop negra americana (escreveu um livrão sobre a Motown, Where Did Our Love Go, recomendo, tbem aborda o fator diluição).
Ah, e George é negro, já que isso é importante pra vc.
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16 de fevereiro de 2012 às 12h30
Respondido
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Pingback por Top 10 – Whitney Houston nas mídias | Bate Estaca
16 de fevereiro de 2012 às 13h53
[...] Nos comentários do texto que fiz sobre o histórico e a influência da Whitney, o Rodrigo Sanches avisou desse tweet do escritor Bret Easton Ellis falando do seu personagem [...]
16 de fevereiro de 2012 às 16h23
O que é isso que vc escreveu cara?
A sony quer capitalizar?
A sony está quebrada, e só ainda existe no mapa por causa da morte de Michael Jackson que está mantendo o caixa cheio, a “gigante” agora é gigante só na arrogância, com seu valor estimado em 18 milhoes, está muito aquem da Aple que está avaliada em média em 360 milhões.
A sony só acumula prejuízos nas suas diversas áreas: setor de tv um fracasso, só tem prejuízo e a samsung já dominou o mercado; na área de celulares, sua parceria com a ericson acumula prejuízos ano após ano; no setor de games, não consegue concluir o ps4 e o desastroso sistema de segurança mostrou que a sony não tem nada para oferecer de inovação, qualquer hackerzinho deixa a sony fora do ar por meses se quiser.
A aple com o ipd e itunes, passou uma rasteira no “gigante”, que de grande atualmete só tem prejuízo.
Acho muito conveniente a morte de Whitney Houston para a sony, que tem nas mãos o filme inédito da cantora que acaba de sair do forno e está quentinho e pronto para faturar alto, além dos albuns que estão com a sony.
Com a morte de Michael Jackson a sony consegue se manter de pé na área entretenimento, com o doc This is it e a renovação do contrato do catalogo de MJ, coisa que ele jamais faria se estivesse vivo. MJ disse adeus a sony a muito tempo, e ainda levou 50% do catalogo deles, muito conveniente a morte de MJ para a sony.
A sony está prostada, devido a sua incompetência ela ficou para trás.
A única forma de faturar algum dinheiro é matando os artistas e roubando o seu trabalho, WH vai garantir um bom dinheiro ao caixa da sony.
Ávidos por um resultado positivo em meio a tantos fracassos, a sony age de forma degradante, pior que os abutres, e nem esperam a “carniça” esfriar.
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16 de fevereiro de 2012 às 19h56
Eu escrevi, mas foi declaração de outra pessoa
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Pingback por LANA DEL REY E AS DIVAS DE MENTIRINHA « Cafezine
12 de abril de 2012 às 15h35
[...] acho que a primeira delas e campeã absoluta é a finada Whitney Houston que, como bem definiu o Camilo Rocha, foi a rainha de uma era em que todo o conteúdo emocional, social e sensual da soul music foi [...]