7 de maio de 2012 às 23h53
Brasileiro não gosta de índio
Esses tempos, a mídia do mundo inteiro andou repercutindo, em choque, a ameaça de extinção sofrida pelos Awá-Guajá, a tribo “mais ameaçada” do mundo. Estão prestes a ser varridos do mapa por um punhado de toras de madeira. Uma campanha internacional estrelada pelo ator britânico Colin Firth bateu recordes de adesão.
Já a opinião pública brasileira, em geral, não parece preocupada. Normal, assuntos indígenas não nos sensibilizam. Para muitos, essas tribos “primitivas” são um estorvo, gente que deveria ser incorporada à força ao “nosso” modo de viver, pagar imposto e parar de encher o saco.
E é muito por isso que quando o cidadão médio se depara com um cartaz escrito “Xingu” no multiplex do shopping, vira para a bilheteira e pede um ingresso para Os Vingadores. A saga dos Villas-Boas, por mais heróica que seja, não tem poderes para competir com os super-heróis da Marvel. (aliás, nada contra Os Vingadores, pelo contrário…)
No dia em que vi Xingu estava acontecendo o seguinte. Era a última sessão dos cinemas do Shopping Bourbon, em São Paulo. Na fila, faltando uma hora para começar, uma funcionária avisa: “Tá tudo esgotado, só tem ingresso pra Xingu“. Muitos abandonam a fila. Outros tantos continuam, num espírito: “já que tô aqui…”.
Lá dentro, a sala está cheia. Público inquieto. “É documentário, né? Se não for filme de ação eu durmo”, solta um ao meu lado. A conversa rola animada até a primeira cena entrar: uma tomada das águas do rio Xingu, lindamente fotografadas.
Xingu não demora muito para prender. Os protagonistas em excelentes atuações. Os personagens retratados de maneira complexa, sem maniqueísmo. A bem conduzida dramatização dos fatos. As paisagens grandiosas e inóspitas. O choque cultural entre brancos e índios. Os índios que são índios de verdade. O idealismo dos irmãos Villas-Boas. Pessoas que conheço acharam que o ritmo do filme às vezes vacila. Não senti. Lá pelas tantas, a sala está em silêncio, aparentemente engajada no filme.
Não sei se todo mundo ali tinha sido mesmo conquistado. Mas a sala ficou cheia até o fim (só vi um casal saindo) e arrisco dizer que muita gente saiu dali feliz por ter, por acaso, visto um ótimo filme sobre uma grande história brasileira. Fui checar no Twitter e vi muito comentário do tipo: “acabei vendo por falta de escolha e curti muito.”
Até agora foram 280 mil espectadores nas três primeiras semanas de exibição. Parece um número bom para um filme nacional com tema não-comercial? Até é, mas não é o bastante para o filme se pagar. Por conta do resultado, o produtor Fernando Meirelles desistiu de fazer filme no Brasil por um tempo.
“Brasileiro não gosta de índio”, diz o presidente Jânio Quadros no filme em certo momento. Por isso, acaba ignorando um filmaço como Xingu. Mas isso não é o pior. É por isso também que quem está agitando a campanha para salvar os índios Awá-Guajá é um ator nascido em Hampshire, Inglaterra.
Veja aqui onde assistir “Xingu”.
7 Comentários





DJ que escreve, jornalista que toca 




8 de maio de 2012 às 2h47
A questão da pequena platéia para o filme, me parece, é um pouco mais profunda.
Isso acontece também com a música brasileira e até mesmo com a língua oficial do país.
O Brasileiro, por múltiplas influências na sua formação, talvez por isso, não gosta não é de índios; ele não gosta de brasileiros.
Veja que nunca houve rejeição aos índios americanos, os apaches e outros; aqueles o brasileiro acha bonitos.
Mesmo filme premiado em Cannes como foi o “O Pagador de Promessas” não alcançou bilheteria com justiça.
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8 de maio de 2012 às 3h52
É, mas lembra que nesses filmes americanos o índio quase sempre se ferra
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9 de maio de 2012 às 0h58
Fui ver Xingu no último domingo. Achei um bom filme. A interpretação do João Miguel é muito boa. A história é muito bonita. O que os irmãos Villas Boas fizeram deveria ser de conhecimento de todo mundo. Quando saí da sessão, levei um susto com a muvuca fazendo fila para assistir aos Vingadores.
Eu concordo com o Carlos, infelizmente o brasileiro assiste pouco ao cinema feito aqui. Talvez por complexo de inferioridade, talvez pela fama injusta de que filme brasileiro é ruim (resultado da época das pornochanchadas). A verdade é que pouca gente sai de casa para ver um filme brasileiro, com poucas exceções, como Tropa de Elite e algumas comédias.
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10 de maio de 2012 às 1h09
Por mim, índio é índio até colocar um short Adidas. Colocou, paga imposto, e para de encher o saco mesmo! Fazer o que? O mundo está fadado à modernidade, que hipnotisa à todos nós. Se a natureza humana leva à querer as facilidades do mundo moderno, a pessoa se enquadra na categoria cidadão do mundo, e vive como qualquer um que pisa nesta terra. Se isso vai acabar bem ou não, pouco importa! Aliás, tô de saco cheio deste troço de dívida histórica! O oriente médio tá em chamas até hoje por causa do raio da dívida histórica de mil anos atrás…
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10 de maio de 2012 às 10h39
O mundo está fadado à modernidade e respeitar a escolha e o direito de cada um é ainda mais moderno… um dia vc chega lá
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12 de junho de 2012 às 14h38
Respeitar os indígenas está certo, claro. São seres humanos, merecem respeito. Mas gastar dinheiro público para preservar a todo custo a cultura deles, cercar o ambiente onde vivem como se fossem animais de um zoológico para deleite e estudo de alguns cientistas, é tarefa inglória fadada ao mais completo fracasso. Colocar as crianças em escolas comuns e depois profissionalizantes, disponibilizar tratamento médico, vacinas. Incluí-los devagar na nossa cultura, isso sim é respeitar nossos indígenas, tratá-los como seres humanos.
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7 de agosto de 2012 às 21h53
Mais que besteira , como não vou gostar de indios se eu sou decendente deles? Além do mais os verdadeiros brasileiros são eles
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