7 de fevereiro de 2013 às 15h39
Em São Paulo, a praça é a nova pista
Grafite de Dafne Sampaio e Ana Lima Cecílio
Conversava eu com um amigo que sabe dessas coisas e ele me pintou o seguinte cenário: “Vai ser complicado para eventos pagos esse ano. A impressão é que as pessoas só querem coisas de graça, na rua.”
A gente estava em frente ao Paribar, na praça Dom José Gaspar, centro de São Paulo. Era a festa Selvagem, de Augusto Olivani e Millos Kaiser, onde eu tocaria como convidado. O evento é gratuito, basta aparecer. Conforme a noite de domingo chegava, o povo também. A pista logo entrou em modo disco fever. Espalhadas pelo bar e praça, havia facilmente umas 300 pessoas.
Em outra roda, o papo era a explosão dos blocos de rua na cidade. O pré-Carnaval paulistano há tempos não parecia tão energizado. No sábado, a Vila Madalena ficou trancada, de tanta gente que apareceu para brincar nos blocos. Um carioca, que estava na conversa, tirou uma: “É estranho para vocês isso, né?”
São Paulo em começo de 2013 está assim. Com sede de rua. Depois de anos de estímulo ao prédio e desencorajamento à praça, há um forte sentimento de que esse ano vai ser diferente. Ainda não vale para toda cidade, claro. O cinturão periférico segue encurralado e amedrontado depois que escurece.
A gestão Haddad está ciente da demanda reprimida. Juca Ferreira, novo secretário de Cultura da cidade, tocou no assunto em reunião com cerca de 1.000 representantes de coletivos, produtores de teatro e cinema, empresários, atores, artistas de rua e de outras áreas da cultura na terça-feira (absurdamente ignorada pela mídia em geral). Entre muitas coisas, o secretário disse que ruas e praças podem “se transformar em espaços de manifestação cultural” para artistas da cidade, com calendário para o ano todo.
Sou um grande entusiasta de festar na rua. É ótimo que cidadãos e autoridades estejam na mesma sintonia e isso vire uma opção viável na cidade.
Ao mesmo tempo, não seria bom se essa onda esvaziasse os eventos pagos, em lugares fechados. Clubes, festas e festivais são importantes para a economia da diversão. Além de viabilizar o sustento de artistas, o preço da entrada paga o salário de várias categorias de trabalhadores da noite. E, se a gente quer ver um show como Kraftwerk ou Hot Chip não tem jeito, vai custar dinheiro (obviamente não deveria custar TANTO quanto nos cobram aqui no Brasil, mas isso é outra conversa, apesar de também relacionada ao movimento em direção à rua).
Juca Ferreira também contemplou o ramo da diversão noturna no encontro dessa semana. ”É preciso pensar uma política cultural para a noite, mudar a visão de que em São Paulo se dorme à noite e se trabalha de dia. A cidade vai ganhar muito se disponibilizar cultura à noite.”
Apesar da empolgação momentânea por dançar no asfalto, acredito que a coisa tende a se equilibrar. E São Paulo, claro, tem gente de sobra pra todo tipo de festa.
















DJ que escreve, jornalista que toca 



