OEsquema

Arquivo: REGGAE/DUB/RAGGA

Wayne Smith (1965-2014)

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Semana passada, morreu Wayne Smith, o homem que colocou a música jamaicana na trilha digital com seu clássicaço “Under Me Sleng Teng”, produzido por King Jammy. O ano era 1985 e o instrumento rítmico um teclado Casio chinfrim. Incrível, porém, o ritmo que a dupla tira dele, uma onda elástica, serrilhada, tão eficiente que acabou sendo usado depois em mais de 200 outros discos. Foi uma virada importante, com o surgimento do ragga e a conversão do dancehall ao eletrônico. Enquanto isso, o reggae pacifista tradicional se tornava cada vez mais algo antiquado e para turista. Smith tinha 48 anos e sofreu uma parada cardíaca.

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Junior Murvin (1949-2013)

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Em toda Jamaica, duvido que existisse voz com mais mel que a de Junior Murvin. E isso porque é uma terra pródiga em falsetes (Horace Andy é um exemplo que logo vem à cabeça). E o contraste entre essa doçura de timbre e a temática de violência urbana é o que fazia de “Police & Thieves” uma música tão especial. De ouvir muitas e muitas vezes e o efeito não passar. Mas Murvin tinha muito mais coisa legal na discografia. Com sua morte aos 64 anos, no dia 2 de dezembro, é hora de redescobrir seu trabalho.

Junior Murvin – Police & Thieves

Junior Murvin – Bad Weed

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Batalha de DJs – 8º episódio

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Aê, capítulo oito da saga. Com direito a participação do DJ Hum e o primeiro e único confronto direto entre eu e o Billy nas picapes… tocando dub!

Um belo desafio da produção para nós dois.

Agradecimentos ao DJ George M por subir no YouTube.

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Mais Massive Attack: um set novinho do Daddy G

Sincronia é isso. Comecei a semana lembrando “Unfinished Sympathy” na seção DNA aqui do blog e eis que aparece agora um set novinho em folha do Daddy G.

Foi gravado para o programa 6Mix, da BBC, e é o primeiro que ele publica desde seu DJ Kicks, de 2004.

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PODTUDO 14 Brisando

Tempo de pausar para uma brisa…

Céu – Contravento
Marcos Valle – Mentira
Marlena Shaw – Mercy Mercy Mercy
Supremes – Come Together
Caetano Veloso – Eles
Rodrigo Campos – Sete Vela
Angus & Julia Stone – Big Jet Plane
Seals & Crofts – Summer Breeze
Roxy Music – More Than This
Bobby Womack – Stupid
Gil Scott-Heron & Jamie XX – Running
Colourbox – Baby I Love You So
Dr. Buzzard’S Original Savannah Band – Sunshower

Outros Podtudos

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Filmes raros de reggae

Vi que vai ter um festival de filmes raros de reggae em Nova York (“Do the Reggae”). Um deles é o documentário Deep Roots Reggae, que, fui descobrir, tem na íntegra no YouTube.

Aí embaixo tem as duas primeiras partes, começando com entrevista com Tommy McCook, dos Skatalites.

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Don Letts em SP, na tela e na cabine

Estamos no meio de mais um In-Edit, o festival de docs musicais que é sempre firmeza. Começou na sexta (1) e vai até domingo que vem (depois tem em Salvador, de 14 a 21 de junho). Como sempre, tem coisa boa pra todos os gostos.

O DJ e diretor inglês Don Letts é um dos homenageados dessa edição. Letts era DJ do Roxy, ponto de encontro da primeira geração punk inglesa. Como ele mesmo explicou uma vez: “Não havia discos de punk ainda, então eu tocava dub jamaicano hardcore”.

Letts começou a filmar a cena à sua volta e disso saiu o pioneiro documentário The Punk Rock Movie, rodado em 8 mm. Foi o começo de uma carreira de muitos documentários e clipes.

No In-Edit estão programados esse filme e outros três de Letts: The Clash – Westway to the World, Punk: Attitude e Rock’n'Roll Exposed: The Photography of Bob Gruen (este lançado em 2012). Aqui mais detalhes.

Letts nunca largou sua porção DJ. E mandou avisar que queria lugar para tocar em São Paulo. Rolou um corre e o Matias encaixou o cara na sua próxima festa Trabalho Sujo, nessa quarta. Pode ser que Letts ainda toque em outros lugares em São Paulo também.

Tem uma entrevista bem legal com o cara no Estadão, feita pelo Roberto Nascimento. Olha o que ele conta:

“Acabo de fazer um documentário sobre contracultura, que analisa a progressão do underground no Reino Unido desde os anos 50. Há uma linhagem de movimentos: teddy boys, mods, skin heads, punks, até o início do britpop. Mas, no final do século 20, esses movimentos desaparecem. Não há mais nichos identificáveis de contracultura. Falo do Reino Unido mas isso se aplica ao resto do mundo. Com a ascensão da internet, o mistério do mundo parece ter sumido. Movimentos de contracultura se formavam porque faltava algo no mainstream e as pessoas procuravam isto no underground. Agora, não há nada que não possa ser encontrado. Não há nada abaixo do radar. A internet acomoda todos os gostos e tendências. É um fato. Temos que analisar os benefícios disso. “

Escrevi sobre Letts quando saiu Superstonic Sound, um documentário sobre sua história dirigido pelo brasileiro Raphael Erichsen (pena que o In-Edit não colocou na programação).

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Um Sonar a cada dois meses é pedir demais?

Squarepusher (foto: Ariel Martini)

Foi bonito, foi animado, foi diverso. O festival Sonar São Paulo preencheu com êxito uma enorme lacuna musical da cidade e do País. Faz tempo que faltava por aqui um evento de música polirrítmica e multifacetada, um evento que fosse tanto de entretenimento quanto de descoberta,  onde surpresa com novas sonoridades fosse a regra, não a exceção.

Faça um rápido mash-up na cabeça, um time-lapse mental das 25 horas de atrações. Um loop do groove ciclista de “Tour de France”, um coice drum’n'bass do Marky com o Patife, o clima introspectivo de Alva Noto & Ryuichi Sakamoto, uma distorção do Mogwai, uma frase do Criolo, um sopro analógico do Modeselektor, um refrão do Cee-Lo, uma virada de rima do Emicida, um teclado nu disco do John Talabot, o pulso do Psilosamples, um acorde soturno do James Blake, uma síncope suja do Rustie, um riff cafona do Justice, uma melodia sintética do Chromeo etc.

James Blake trio (foto: Ariel Martini)

Essa riqueza fez do Sonar um festival que podia ser vivido de muitas maneiras: balada de pista, show de pop, apresentação de hip hop, concerto de música erudita de vanguarda, viagem psicodélica, delírio extasiado, exercício puramente corporal.

É por essa diversidade de experiências, mais importante do que o show X ou Y, que o Sonar acabou sendo um dos melhores festivais já realizados nestas terras.

Ryuichi Sakamoto e Alva Noto (foto: Ariel Martini)

Pena que tantos comentaristas, inclusive profissionais, não se ligaram disso e tentaram medir tudo com a mesma fita métrica, insistindo em parâmetros convencionais de “show”. Foi a partir desse equívoco que vieram aqueles papos de “Kraftwerk foi muito parado” ou que James Blake “não agitou a galera”.

No geral, o público mostrou ter entendido e embarcado na viagem bem mais do que os tais comentaristas. Artistas tão distintos como Alva Noto, Four Tet, Criolo, James Blake e Justice foram recebidos com respeito, calor e empolgação. Prova de que, ao contrário do que prega a ladainha conformista, o complexo de vira-lata, não é preciso subestimar a plateia brasileira colocando no palco o óbvio, os de sempre, o mínimo denominador comum.

Justice (foto: Ariel Martini)

E quem era essa plateia? Mais uma vez, contrariando o discurso da obviedade, era mista, com caras de todas as procedências e perfis. A atmosfera era de paz e curtição. Para ficar melhor ainda, precisaríamos só de um ingresso mais acessível. Quem sabe o ano que vem?

Apesar da estrutura bem montada e boa organização, ocorreram escorregões no esquema. Entre eles, falta de sinalização com os horários dos artistas nas pistas, demora na entrada no primeiro dia e opções limitadas de alimentação.

Os atrasos no lineup também foram falhas chatas. Em especial, no caso do Rustie que foi lançado para mais de uma hora depois do horário original. O motivo é que seus subgraves estavam invadindo a ambiência do show de Alva Noto & Ryuichi Sakamoto. Será que na passagem de som não dava pra ter sacado isso?

Talvez o maior pecado tenho sido a escalação de Psilosamples, dos melhores artistas brasileiros hoje (eletrônico ou não), para abrir os trabalhos do evento, às 16h. Como a largada inicial acabou atrasando, o projeto do Zê Rolê conseguiu tocar meia hora, se muito. Bem injusto.

SEXTA-FEIRA

O Kraftwerk foi uma experiência vintage, afetiva e reverencial. Seu futurismo é antigo, flagrantes de uma sociedade se acostumando a auto-estradas, robôs, computadores e radioatividade. Predomina neles uma visão irônica da relação entre homem e tecnologia. Sim, o Kraftwerk, ao fingir ser robozinho no palco, mostra ter grande senso de humor. Taí uma mensagem que continua atualíssima no Kraftwerk: não vamos levar esse fascínio pela tecnologia tão a sério.

Eles podem não ser mais representantes de “música avançada”. Mesmo o seu 3D, a novidade desse show, assim como as faixas mais recentes, tem bem pouco de inovação. Mas é graças a suas visões e conceitos lá de trás que surgiram ao longo das décadas carreiras tão diversas como Ryuichi Sakamoto, Gang do Eletro, Four Tet, Jeff Mills e (preencha a lacuna com qualquer nome do Sonar). Assistir a um show deles meio que basta pelo aspecto presencial para quem curte música eletrônica. Estar ali é o que importa. É um pouco como ir à Meca para um muçulmano.

Alguns chamaram o show de “frio”, “parado” (meio como criticar a Claudia Leitte por ser muito “agitada”, é o jeito, a imagem deles, duh).

Disseram também que os alemães “não empolgaram” e eu fiquei pensando se tinham visto o mesmo show que eu ou que o pessoal no vídeo aí embaixo. Como você vê, o problema não era com o público, nem com o Kraftwerk. Emocionante.

O outro grande show de sexta foi de uma banda bem mais atual, mas absolutamente obcecada com os anos 80. O Chromeo, que sempre chamei de electro-cafajeste (vide as pernas de mulher no suporte dos teclados), fez algo mais absurdo ontem: synth-funk-boogie… de arena. 

O grande DJ set da noite (do que vi) trouxe o encontro de dois veteranos brasileiros: Marky e Patife. Coice atrás de coice, com uma interação e energia entre os dois que contaminou toda a plateia.

Marky (foto: Ariel Martini)

Um set de drum’n'bass rasgado, claro, com toques clássicos aqui e ali, como uma versão quebrada para “Show Me Love”, de Robin S, e o final com “Big Fun”, do Inner City (a original).

Vi também Skream, que foi bem meia-boca. Rolou até um Nirvana, momento de desespero para conseguir alguma resposta de uma plateia dispersa (o MC Sgt. Spokes até zoou: “essa é pro pessoal do karaokê). Gui Boratto entrou depois e fez seu live eficiente, a melhor pedida para animar o público que minguava.

Perdi o Hudson Mohawke, que me falaram ter sido incrível. E o Cut Chemist, e o Doom e quase todo o James Pants. Mas era tanta coisa…

SÁBADO

Em meio a tanto vanguardismo, ninguém estava dando muito bola para Cee-Lo Green. Ele e a banda não tiveram o melhor dos sons tecnicamente falando. Mas a figuraça e seus hits trouxeram um contraponto pop para o festival que mexeu bem com a audiência (apesar de ter arrastado metade do público do Kraftwerk).

No mesmo palco, o Justice arrebatou mais. Pedradas electro-rock abraçadas com fervor por uma multidão de sábado à noite. Confesso que não me pega, a pisada de seu ritmo é quadrada demais para o meu gosto. A repetição dos mesmos truques para levantar a massa (subidas, subidas, subidas e explosão) perde o efeito depois de usada pela terceira, quarta vez. Você discorda? Tudo bem, a pista tomada de braços levantados também discordaria.

No palco do SonarVillage/Red Bull, um quarteto de DJ mostrou um caminho bem mais redondo e que deu certo do mesmo jeito. Cada um na sua praia: o americano Flying Lotus, com seu set desengonçadamente gracioso; o inglês James Holden com um progressivo cheio de camadas e propulsão; o conterrâneo Four Tet trazendo house e techno fora do eixo; e outro americano, Seth Troxler, mandando tech-house balístico “big room”.

Enquanto isso, no SonarHall acontecia um dos pontos altos do festival: o show ao vivo de James Blake. Tocando synths analógicos e cantando, com um baterista e guitarrista de apoio, Blake representou um dos lados mais “avançados” da música do festival. Soul pós-dubstep, que vai de música de fossa digital a dub-house introvertido. Climas sombrios, linhas de baixo de tremer o chão e um final grandioso com “The Wilhelm Scream”.

Finalizei o sábado vendo a primeira parte do set de John Talabot, que fez um dos álbuns de 2012 até agora (Fin). Seu som estava ótimo, cool disco com fluidez e pegada. Mas sua postura era das mais estranhas. Talvez tomado de timidez extrema, passou o tempo todo curvado sobre o mixer sem levantar a cabeça um milímetro que fosse.

Minhas forças tinham acabado aí… não fiquei para ver Modeselektor e Squarepusher (assim como cheguei tarde para o Rustie). Pode me xingar. Eu já fiz o mesmo. Segundo meu amigo Fernão (VJ do Embolex) disse, “o Modeselektor fez uma apresentação audiovisual incrível, as melhores imagens do festival, sorry Kraftwerk”.

PS

Assistir ao show de James Blake, música nova, com a cabeça olhando para a frente, no Palácio das Convenções do Anhembi foi especial por mais um motivo.

Foi lá que, em 1986, aos 17 anos, vi dois shows que para mim tiveram exatamente essas características, abrindo janelas e consolidando meu mundo musical de então: Siouxsie & The Banshees e Public Image Limited.

Tenho certeza de que o Sonar em 2012 fez o mesmo para muita gente.

O canal do Sonar SP no YouTube tem mais um monte de vídeos das apresentações

Aqui mais fotos do Ariel Martini do Sonar

 

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DNA#27 Augustus Pablo – King Tubby Meets Rockers Uptown

O que é o dub?

À primeira vista, parece um estilo. Simplificando para quem não conhece, é uma releitura lisérgica, mais instrumental e cheia de efeitos do reggae.

Mas chamar o dub de estilo é impreciso. Dub é também uma técnica. Está presente em cada uma daquelas faixas (seja disco, techno, pop, rock e house) que vem acompanhada da descrição “dub mix”. Dá pra “fazer dub” em qualquer tipo de música, no Michel Teló ou na Sinfônica de Londres.

Samplear e remixar é do nosso DNA

Mas, seria uma blasfemia falar em dub sem citar o terceiro e mais profundo signficado por trás da palavrinha. Dub, na Jamaica, no universo rastafari, traz também uma conexão religiosa.

Em Bass Culture, tratado definitivo da música jamaicana de Lloyd Bradley, diz mais ou menos o seguinte:

“Pegar cada elemento da música como parte separado e então mudar o foco de cada parte ajustando, mexendo, trazendo para frente ou para trás até que o todo esteja satisfatoriamente reequilibrado é voltar à África e àspráticas que vieram para a Jamaica como obeah [curandeirismo]. É medicina africana antiga, que divide o corpo em sete centros ou ‘eus’ – sexual, digestivo, cérebro etc – para que se possa prescrever as ervas e poções que fariam os diferentes centros ‘ir para frente ou para trás’, remixando, por assim dizer, o estado físico ou mental de uma pessoa em algo diferente.”

É esse mix de espiritualidade com motivações mais terrestres (a rivalidade entre sound systems que pedia sempre material exclusivo, por exemplo) que está por trás do espírito “open source” que prevalece na cultura jamaicana

O dub não considera uma canção uma obra acabada, mas sim uma estrutura aberta que pode ser modificada e ajustada. À exaustão. Um único original pode gerar um sem número de “versions” (o nome deles para remix). Um único ritmo (“riddim”) pode ser retrabalhado até virar um álbum inteiro.

Ao desmembrar a canção, dar mais atenção às partes que o todo, o dub se integra às várias correntes do século 20 que buscaram redefinir o que seria exatamente “uma canção”. Sem fim, sem começo, como vimos acima, mas também sem refrão, sem “bridge”, melodia em segundo plano, ritmo em primeiro.

Em 1975, o dub vinha sendo desenvolvido por produtores jamaicanos como Augustus Pablo, Lee Perry, King Tubby e Keith Hudson. Eram os primeiros anos do estilo, mas já se contavam dezenas de faixas e alguns álbuns. Coube a Pablo, que tinha na melodica (ou escaleta) sua marca registrada sonora, gravar um dos grandes sons dessa primeira fase. Como uma música gravada há 37 anos pode soar tão atual?

A original é a bonita “Baby I Love You So”, de Jacob Miller (regravada em 86 pelo Colourbox, o mesmo grupo de onde saíram dois dos integrantes do M/A/R/R/S, pra você ver que não tem coincidência nessa história aqui). Pablo, auxiliado por King Tubby, explode a música em fragmentos, fantasmas sonoros que não pertencem a nenhum ponto físico específico, mas que estão em todos ao mesmo tempo.

“Baby I Love You So”, de Jacob Miller…

… “King Tubby Meets Rockers Uptown”, de Augustus Pablo.

Aqui outros episódios da série DNA.

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Rraurl Sessions Vol 1 – Dubology

Durante os muitos anos em que colaborei para o Rraurl (site que fundei com Gil Barbara e Gaia Passarelli e a primeira casa do Bate-Estaca), mantive ali um espaço de podcasts chamado La Jaca Sessions.

Foram muitos episódios dos mais variados estilos: dub, synthpop, funk, house, soul, techno etc etc

Achei que seria uma boa ideia reapresentar alguns desses podcasts para os novos leitores aqui n’O Esquema. Cruzei o Gil outro dia e ele autorizou o “empréstimo”.

(Vale a pena, aliás, conhecer o Rraurl se você nunca foi lá. É uma ótima referência para boa informação musical e festeira).

O primeiro dos podcasts do Rraurl que trago pra cá é o Dubology, de 2006, só com pérolas do chapado gênero jamaicano.

Abaixo o texto de introdução e lista comentada das músicas, do jeito que saíram no endereço original.

DUBOLOGY

A música eletrônica deve muito ao dub. Veja só: foi o dub que inventou a idéia do remix. Pegando sucessos dos sound systems de reggae, produtores como King Tubby, Augustus Pablo e Lee Perry começaram a gravar versões praticamente sem vocais, com o ritmo realçado e carregadas de efeitos como delay, reverb e phaser. Um verdadeiro reggae lisérgico. A mesa do estúdio virava instrumento e o produtor a estrela do disco.

A prática e as técnicas se espalharam que nem fogo, não existindo artista jamaicano que não tenha gravado um dub. Mas o dub transbordou e foi influenciar a disco, o punk, o hip hop, o pop e gêneros da música eletrônica como tecno, trip hop e jungle/drum’n'bass. Nesse processo, o “dub mix”, mais instrumental, viajandão, virou um ítem encontrado em infinitos vinis de tudo que é gênero.

Termos do estilo como “dubplate” (disco de acetato com faixas que acabaram de sair do estúdio) e “drum & bass” (se referindo a faixas despojadas de quase tudo menos da parte rítmica) também acabaram ressurgindo no contexto da música eletrônica. E a herança não termina: um dos novos estilos mais comentados se chama justamente “dubstep”.

“Morphing Dub” Mad Professor & Jah Shaka (1996)
Um dos tops do dub nasceu na Guiana e desde os 13 mora em Londres. Aos oito anos de idade, Mad Professor construiu seu primeiro rádio. Quer dizer: ele gosta mesmo de fuçar num equipamento! Nos anos 80, ele se tornou o principal nome da segunda geração do dub. Nesta faixa ele colabora com outro anglo-jamaicano, o militante Jah Shaka.

“Great Mens Dub” Burning Spear (1994) 
Também conhecido como Winston Rodney, Burning Spear grava desde os anos 70. Como todo reggaeman que se preza, tem uma porção de faixas dub. Esta tem uma ligeira influência hip hop e saiu no segundo volume da famosa compilação Rebirth of Cool.

“Baby I Love You So” Jacob Miller / “King Tubby Meets The Rockers Uptown” Augustus Pablo (1976) 
Para entender bem o antes e o depois do dub, um de seus momentos clássicos. Primeiro, a original, o reggae romântico de Jacob Miller, produzida por Augustus Pablo (o homem da melodica, espécie de flauta com teclado). Depois Pablo se tranca no estúdio com King Tubby (esse também um monstro!) e os dois convertem a música num groove de outra galáxia, com trechos de Miller gravitando entre delays tridimensionais e reverbs vastos.

“Night Train” Lee Scratch Perry & Dub Syndicate (1987) 
Lee Perry é o James Brown do dub: seu maior gênio e inovador, aquele que levou o gênero até o limite e além. De seu estúdio Black Ark, o mago jamaicano, assinou centenas de faixas, produzindo, dubmixando e cantando. Aqui ele aparece colaborando com a banda inglesa Dub Syndicate, pelo selo On-U Sound, QG do dub comandado pelo inglês Adrian Sherwood.

“Part 1-2 Dubwise” Keith Hudson (1974) 
Hudson é um pioneiro tão fundamental quanto Perry e Tubby, só que acabou bem menos conhecido. Esta faixa vem do álbum Pick A Dub, o primeiro álbum de dub da história. Hudson morreu tragicamente aos 38 anos, de câncer no pulmão.

“Rock Vibration” King Tubby & Yabby You (1976) 
O Rei Tubby é considerado o inventor do dub, o primeiro a alterar músicas de reggae para que virassem alucinadas paisagens de outro planeta. No álbum King Tubby’s Prophecy of Dub ele junta forças com outro veterano de respeito, o produtor e vocalista Yabby You.

“Leaving Babylon Dub” King Tubby & Soul Syndicate (1978) 
Não muito conhecida, mas muito importante, o Soul Syndicate foi uma banda muito ativa na fase clássica da música jamaicana. Aqui eles aparecem reprocessados pela “mixing desk” de sua majestade King Tubby. Este e outros dubs de Tubby para o SS lançados nos anos 70 (pelo selo Blood & Fire) aparecem na coletânea Freedom Sounds In Dub.

“Black Panta” The Upsetters (1973) 
A banda do estúdio Black Ark, de Lee Perry, além de ter tocado com o A a Z do reggae (incluindo os Wailers), lançava discos-solo de monte. Esta abre o álbum Blackboard Jungle In Dub (também conhecido como 14 Dub Blackboard Jungle), um dos primeiros e imortalizados do estilo.

“African Culture” Black Uhuru (1982) 
O trio que foi uma das bandas mais populares do reggae de todos os tempos, muito famosos nos anos 80, chegando a excursionar com Rolling Stones e The Police. O Black Uhuru contava com a americana Puma Jones (que nome ótimo!) na formação. Este é só um dos inúmeros dubs que eles gravaram, do álbum In Dub, produzido por Prince Jammy.

“Bad Weed” Junior Murvin (1978)
O falsete mais doce da Jamaica foi Junior Murvin, mais conhecido pela faixa “Police & Thieves”, que foi gravada pelo Clash. Aliás, como no reggae a reciclagem é tradição, “Bad Weed” usa a base de “Police & Thieves”. Produção de Lee “Scratch” Perry.

“Righteous Dub” Sly & Robbie (2000) 
A dupla de baixo e bateria mais famosa da Jamaica, requisitada não só no universo do dub/reggae mas também no pop e no rock. Uma estimativa dá que eles já tocaram em quase 200 mil faixas! Nos anos 70, S&R foram responsáveis por trazer uma batida mais pesada para o reggae, sendo dos primeiros a levar esse estilo para um futuro mais eletrônico.

“Depth Charge” Mad Professor (1983) 
Faixa tirada de um dos melhores álbuns do Professor, The African Connection: Dub Me Crazy Pt. 3. Esse tipo de groove devia ser ensinado nas escolas de música e de produção. O Professor já remixou um monte de nomes contemporâneos como Beastie Boys, The Orb e Massive Attack, para quem remixou o álbum Protection, que virou No Protection.

“Irie Feelings” Rupie Edwards (1974) 
Um dos primeiros hits internacionais do dub. O álbum que contém a faixa se chama Chapter & Version e consiste em nada menos que 21 versões, dubs, regravações com outros vocalistas e reconstituições da mesma música. A originalidade pede socorro mas, de qualquer forma, estava aí um precursor do formato de álbum de remixes.

“Pressurized” Doctor Pablo & Dub Syndicate (1984) 
O inglês Pete Stroud, tocador de melodica, era tão fã de Augusts Pablo que lhe tomou emprestado até o nome. Ao lado do Dub Syndicate, da On-U Sound, Pablo (o discípulo) faz dub bem espaçado para seu sopro poder ficar solto desenhando a melodia.

“Dinosaur’s Lament” African Headcharge (1982) 
Das melhores bandas a sair das fileiras da On-U Sound, de Adrian Sherwood. Nos anos 80, esses ingleses deram uma nova cara pro dub, tornando ele mais eletrônico e experimental. Sherwood acabou colaborando com artistas de todo tipo como Depeche Mode, Simply Red, Ministry e Cabaret Voltaire.

“Satta Dread Dub” King Tubby (1975) 
Baseado no estereótipo rastafari dos fumantes de ganja, cheios de conversa espiritual, pode-se associar o reggae com uma filosofia paz e amor. A realidade é bem diferente: a ilhazinha do Caribe é um dos países mais violentos das Américas. Tubby mesmo, criador-mor do dub, foi morto a tiros por desconhecidos em 1989.

“Drum Dub” Jah Shaka & Aswad (1985) 
Um dos nomes mais ativos do dub colide com uma das bandas britânicas de reggae de maior sucesso comercial (a alegrinha “Don’t Turn Around” foi hit mundial em 1988). O resultado é uma levada cristalina e hipnótica, onde viradas de percussão e efeitos vem e vão.

“Black Panther Dub” Mad Professor (1997) 
Há alguns anos o Professor veio ao Brasil pra shows. Apareceu no programa do Jô que pediu a ele que fizesse “dub” em cima do som da banda do programa. Professor olhou para a banda e olhou para seu equipamento, incrédulo: “Mas não está conectado!”. Talvez o Jô achasse que o som não precisava de fio pra chegar na mesa do Professor. Talvez foi para melhor: o dubmaster mandou uma sequência estonteante de sons próprios com seu equipamento que valeu por muitas bandas.

“Blood Brother” Keith Hudson (1974) 
Outra faixa do histórico Pick A Dub. Hudson numa viagem minimalista, um ótimo exemplo de como o dub valoriza o espaço dentro da música.

“Rockers Delight” Mikey Dread (1980) 
Este aqui trabalhou muito com King Tubby, não só produzindo mas também como toaster(espécie de rapper jamaicano). A banda punk mais fã de reggae que já existiu, o Clash, chamou Mikey Dread para produzir a maior parte do seu álbum Sandinista!

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