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Arquivo: SÃO PAULO

Seminário da Noite Paulistana

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Já está rolando o evento que pretende promover uma reflexão sobre a noite urbana e suas implicações econômicas, sociais e culturais. São mais de 23 horas de programação lá na Biblioteca Mário de Andrade, entre os dias 18 e 21 de março de 2014. Devem rolar vídeos depois.

Nesta quinta, eu participo de uma mesa sobre mediação, legislação e as relações entre a noite e a cidade. Ao meu lado estarão o jornalista Gilberto Dimenstein, o escritor Ferréz e a doutora em psicologia Elaine Bortolanza. Vai das 19h às 20h30.

Informações completas sobre o evento aqui.

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A balada que é a cara de São Paulo hoje acaba de ser legalizada

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Foto: Chico Tchello

A balada mais comentada no momento em São Paulo não tem valet, nome na porta ou cerveja do tipo IPA. As paredes e o teto são sujas de fuligem e pixo. O chão é de asfalto e a gerência diz que não aceita cartão. Aliás, que gerência o quê. No Buraco da Minhoca não tem disso, não. Ali, quem manda é o povo. Que chega, monta som, começa a tocar e logo tem uma pista de centenas pronta para atravessar a noite. O Buraco da Minhoca é um resumo de conceitos legais de São Paulo, de ontem e hoje: o faça-você-mesmo do punk, o hedonismo maratonista da música eletrônica, a capacidade realizadora dos coletivos, a reocupação do Centro e a retomada das vias públicas. Como diz na página da festa no Facebook: “O buraco da minhoca é uma passagem para outra dimensão de ocupação do espaço público.

Uma história como essa merecia um tratamento mais caprichado aqui no blog. Achei que seria uma ótima oportunidade para promover a estreia da Stefanie Gaspar como colaboradora aqui desse espaço. A Stefanie é parceira das antigas, trabalhamos juntos na editoria de música do Virgula. Ela conhece música de maneira detalhada e intensa e já escreveu para Deep Beep, Estadão e UOL. Para mim, que ando precisando de reforço nessa lida diária que envolve paternidade, editoria do Link e outras cousas mais, é um apoio que vem em ótima hora. Go, Stefanie, go!

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Foto: Facebook do Buraco da Minhoca

Sair de casa para dançar e se jogar na pista é um ato político – e em São Paulo, cidade que por vezes entende apenas a lógica dos lugares fechados, preços inacessíveis e listas VIP, a festa é ainda mais significativa quando o cenário é a céu aberto.

Nos últimos meses, festas na rua vêm proliferando de maneira significativa em São Paulo, com inúmeras opções para quem quer não só economizar como ter o prazer de ocupar as ruas, aproveitar o verão e juntar os amigos. Nomes como Metanol, Free Beats e Selvagem já são conhecidos entre o público ligado da cidade, e todo fim de semana traz alguma festa inédita, normalmente anunciada em cima da hora pelas redes sociais.

Ainda mais importante é o precedente, já que cada vez mais artistas, organizadores e performers perceberam que a cidade é terreno livre para invenção e ocupação. Um bom exemplo disso é o SP na Rua, que colocou todo mundo para dançar ao som de diversos coletivos sob o cenário do centro antigo da cidade.

O movimento de festas em espaços públicos foi logo atraindo atenção suficiente para virar assunto da esfera política. Com a mudança de administração, que sob o comando de Kassab chegou a proibir a atuação de artistas de rua nas principais vias da cidade, a atitude em relação à ocupação do espaço público também começou a se transformar.

Em janeiro deste ano, Haddad vetou o projeto de lei que proibia a utilização de vias públicas para a realização de bailes funk e qualquer outro evento musical/cultural que não tenha sido pré-aprovado pela prefeitura – vale lembrar que o projeto era de autoria dos vereadores Conte Lopes, do PTB, e de Coronel Camilo, do PSD, ex-comandante da Rota. O fim da proibição abriu espaço para manifestações culturais eventuais, em um começo de ano também marcado pelo primeiro Carnaval no qual os blocos de rua foram oficialmente autorizados pela prefeitura.

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Foto: Facebook do Buraco da Minhoca

Foi nesse contexto que mais uma área “marginal” da cidade se tornou local de comemoração. No dia 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, o túnel entre o Minhocão e a Rua Augusta, debaixo da Praça Roosevelt, ganhou um novo nome: Buraco da Minhoca. Aproveitando que o tráfego de veículos é proibido durante a madrugada – e transformando a tristeza das fortes luzes “anti-mendigo” em estrobos da pista de dança -, um grupo de artistas, DJs e performers acabou ocupando o espaço de maneira inesperada.

“A primeira festa aconteceu por acaso. Eu já caminhava há mais de um ano pela cidade carregando uma caixa amplificada presa ao corpo, e comecei a discotecar nos eventos da galera do Organismo Vivo Parque Augusta. No dia 25 rolou o primeiro protesto ‘Não Vai Ter Copa’, e o coletivo decidiu ir para a Paulista. No fim, rolou um confronto com a PM e descemos para a Roosevelt. Soltamos um som e começou a chegar gente, e umas 22h a GCM avisou que a festa precisaria acabar. Daí que falei pro pessoal para descermos para o túnel. O povo foi aglomerando e assim nasceu a festa. Cheguei em casa, batizei como Buraco da Minhoca, criei a página no Facebook e tivemos mais cinco eventos espontâneos”, explica o DJ Chico Tchello.

No dia 22 de fevereiro o local teve sua primeira grande festa, a Circolando no Buraco, que contou com Tchello, Dani Maddox e Márcio Vermelho. Segundo a organização, cerca de 5 mil pessoas passaram pela festa.

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Capslock embaixo da Roosevelt Foto: Paulo Tessuto

Acabou a festa

Semanas depois, foi a vez de mais uma festa ocupar o espaço do Buraco da Minhoca. Em pleno Carnaval, a festa Capslock botou o bloco na rua e convidou os foliões a dançarem de graça no centro a partir do fim da tarde. Desta vez, entretanto, a Polícia Militar parou a festa sob a alegação de que não havia autorização prévia para o evento. De acordo com o Artigo 5º do Decreto 49.969/08 e Seção 3.5 da Lei 11.228/92, qualquer manifestação tida como eventual que se utilize de logradouros públicos (ruas, praças viadutos e parques) precisa de uma autorização prévia da prefeitura, que tem até 30 dias para liberar ou não um alvará de autorização para eventos temporários.

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“Leve o lixo e deixe a saudade” (Foto: Facebook do Buraco da Minhoca)

“A festa tinha autorização, porém faltou a palavra dispersão no documento, o que foi usado como instrumento para barrar a festa. O grande problema que tivemos foi uma denúncia que ocorreu antes da festa, com os policiais monitorando o evento por conta de uma denúncia de prováveis moradores da região”, explicou Paulo Tessuto, organizador da Capslock. Segundo ele, todas as festas são “ilegais” no sentido estrito, já que os eventos são organizados de maneira independente e orgânica, o que dificulta uma articulação meses ante diante das autoridades.

“O ideal é que todo mundo que for organizar uma festa procure a subprefeitura da região para viabilizar uma autorização, que blinda o evento de eventuais denúncias ou reclamações relativas a um barulho eventual. Se ocupar a via dos carros, é necessário entrar em contato também com a CET”, completou ele, que organizou outro evento no último domingo (9). “Foi mais uma festa sem autorização. A polícia apareceu após uma reclamação de barulho, mas como o denunciante não formalizou a reclamação, assinei um B.O e a festa continuou”, explicou Tessuto.

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Agenda oficial

Na noite de quinta-feira (13), o Buraco da Minhoca anunciou em sua página no Facebook que o espaço está oficialmente regularizado. “É com muita emoção que informo a todos vocês que o Buraco da Minhoca foi aceito como evento oficial e será devidamente regularizado pela prefeitura, CET, GCM e Secretaria de Segurança Pública”.

Em entrevista, Paulo Tessuto confirmou que a nova administração está aberta a conversas, e que a Capslock está em negociação. “Vamos discutir uma agenda de ocupação. Anteriormente, nunca tínhamos ido atrás de autorização porque era difícil e burocrático. Mas com o crescimento desse movimento as coisas estão ficando mais fáceis, e pretendemos discutir isso”, explicou.

Chico Tchello adiantou que duas festas já estão a caminho para os próximos dias. “Uma delas provavelmente irá se chamar ‘noite do rala tanga’ (a festa com essa nome foi confirmada – CR), festa escrachada com temática inspirada na pornochanchada. A ideia é tocar o roots da MPB, com nomes desconhecidos de artistas e grupos que estamos garimpando em lojas de CD”.

PS CAMILO ROCHA: Foi anunciado também a Vaca Mirim, primeiro evento vespertino, “para todas as idades”, do Buraco. 

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A noite em que a pista de dança venceu o medo

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Fotos: Marcelo Paixão

Leitor e cidadão, aqui vai uma verdade incontestável: os atos mais políticos muitas vezes não precisam de palanque ou cartaz.

A maneira mais eficiente de arrebanhar para uma causa não passa necessariamente por marchas ou gritos de ordem.

Sábado passado, dia 9 de fevereiro, o festerê do SP na Rua nos trouxe um grande exemplo de como isso funciona.

Foi a noite em que a pista de dança venceu o medo.

O SP na Rua juntou uma porção de coletivos da cidade para promover um baile a céu aberto, fazendo de salão as ruas do Centro antigo dessa cidade judiada. Em vez de parede e teto, a decoração era o Martinelli, o Banespão, o prédio do CCBB.

A gandaia mixou o maracatu da Pilantragi com o eletrônico udigrudi da Voodoo Hop, o beat fino da Laço, o bass da Free Beats e muito, muito mais. O pout-pourri se reproduziu no chão do baile, onde cada foi o que quis, do jeito que quis. Deu pinta, pôs fantasia, rasgou seda ou ficou de canto em pose blasé. Ninguém igual, ninguém mais do que ninguém.

Afinal, não custava nada para participar, era só chegar.

Em época de cordões VIP, cobrança de taxa de 10% em buate, água mineral com preço de uísque 18 anos e outras exorbitâncias mais, tem coisa mais refrescante?

Woodstock teve três dias de paz e música, São Paulo conseguiu uma noite inteira. Para uma cidade onde muitos só acreditam em grade e guarita, não é um ótimo começo?

Com uma vibe dessas, os agentes da lei e da ordem não tiveram opção a não ser bater o pezinho. A amiga Luciana Rabassalo, repórter de musica do Virgula, relatou esse encontro com dois policiais: “Ouvi de dois PMs que até aquele momento (às 3h) NENHUMA ocorrência havia sido registrada e que eles estavam adorando a movimentação. ‘Isso aqui é diferente de tudo’, me disse um deles. O outro me deu a informação que precisava e me desejou ‘boa noite’.”

Só faltou ligar a sirene na hora do break pra bombar a pista.

Vídeo: Márcio Vermelho

ABAIXO AS VIVANDEIRAS

Enquanto as vivandeiras do apocalipse berram na sala brasileira que não se pode mais sair de casa, que estamos cercados de bandidagem por todos os lados, o SP na Rua respondeu na base do beijo e da contradança. Enquanto os trolls da intolerância querem desvalorizar a gente bronzeada do Brasil e dizer para todo mundo o que pode ou o que não pode, o SP na Rua era um fuzuê colorido de identidades.

O amigo Vitor Angelo postou uma foto de dois caras se beijando, com a legenda: “É beijo gay ou é só beijo?” É por aí. Na hora da pista boa, não importa se é gay, hetero ou trans, centro, direita ou esquerda.

Raciocine comigo, quem merece mais confiança? O DJ Márcio Vermelho ou o lineup dus infernus: Rezende, Sheherazade e Datena? O SP na Rua foi uma noite que marcou um golaço contra as mil e uma noites do terror da contadora de trololó do SBT.

O escritor Hakim Bey, muito citado nos tempos áureos da rave, tinha uma boa frase sobre o potencial ideológico de uma boa festa: “Vamos admitir que fomos a festas onde por uma noite uma república de desejos satisfeitos foi conseguida. Não confessaríamos que a ideologia dessa noite tem mais realidade e força para nós do que, digamos, todo o governo americano?”

Nesse ótimo texto sobre festa na rua, a Camila Hessel lembrou o escritor e professor Clay Shirky para falar sobre o potencial da mobilização de recorte horizontal:

“Ao dar aos indivíduos uma habilidade que antes era institucionalizada, você substitui planejamento por coordenação, você flexibiliza, evita as limitações inevitavelmente trazidas pela institucionalização”.

Agora põe o ouvido na janela. Tem muito mais dobrando a esquina. Olha aqui.

P.S. Eu não fui ao evento e baseei meu relato em dezenas de depoimentos no Facebook e de pessoas próximas. Como a intenção era mais elogiar a iniciativa do que fazer uma “resenha” do evento, não vi problema nisso.

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A internet remixa o rei do camarote em pedacinhos

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Um cara desses é um prato cheio para a internet. Parece inventado de tão bom.

Conseguiu ser melhor que aquele personagem do Adnet.

A essas alturas, você já deve ter ouvido falar. É um empresário paulistano que saiu na Veja SP contando os detalhes da sua balada milionária. Só pérola. Daí, “bombou nas redes”.

Aqui o original.

Como você vê, dinheiro não compra senso de ironia.

É claro que o homem já ganhou Tumblr.

Nessa matéria do YouPix tem vários GIFs bons.

Aqui uma seleção.

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‘Não deixe que se torne só uma foto bacana no Facebook’

Veio daqui (via Drica Pacheco)

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#SP17J: Hoje é dia de ir pra rua

O Facebook, tão criticado por sua futilidade, esteve tomado nos últimos dias por politização, solidariedade, espírito cívico, esperança e engajamento.

São pessoas repassando informações, advogados oferecendo serviços, informações sobre primeiros socorros, táticas de manifestação, frases de motivação, pequenos manifestos políticos pessoais.

É bonito de ver, é inspirador.

Eu certamente nunca vi um Facebook assim. Fiquei pensando se já vivi algo parecido e lembrei do tempo das Diretas Já, quando era adolescente.

A comunicação era muito mais restrita e controlada. A Globo fingia que o movimento não existia. Isso não impediu que a campanha circulasse intensamente por bocas, panfletos, imprensa alternativa e mesmo veículos maiores que tratavam do assunto (como a Folha, que ainda não tinha o alcance de hoje; ganhou muito porque apoiou as Diretas).

As Diretas Já guardam, claro, muitas diferenças com o que acontece hoje. Era um movimento bem mais focado e socialmente abrangente. O que acontece hoje pode vir a ser ou não isso, mas também pode seguir seu próprio desenho.

Mas as análises ficam para depois.

Vamos ao dia, porque é hoje.

Vamos às informações práticas:

O EVENTO DE SP NO FACEBOOK

LISTA DE CIDADES COM MANIFESTAÇÕES ESSA SEMANA

TÁTICAS DE DEFESA EM PROTESTOS

VÍDEO COM DICAS DE COMO FILMAR UM PROTESTO

ORIENTAÇÕES JURÍDICAS PARA QUEM FOR NA MANIFESTAÇÃO:

1. A polícia PODE te deter, por alguns minutos, para “averiguação”. Ou seja, para verificar se você está carregando bombas, armas, drogas, etc. A polícia NÃO PODE te prender para averiguação, te jogar em um camburão, e te levar para a delegacia;

2. Se você for pego cometendo algum crime (independente das razões para isso), você poderá ser preso. Se você estiver portando drogas, bombas, armas, ou estiver depredando o patrimônio público, a polícia PODE te prender e te levar para a delegacia;

3. Você tem o direito de permanecer calado diante de qualquer pergunta, de qualquer autoridade. Você também tem direito, na delegacia, de contar com o auxílio de um advogado. Se você for preso, levado para a delegacia, e quiserem tomar o seu depoimento, EXIJA um advogado presente. Se não permitirem a presença de um, dê como declaração o seguinte: “PERMANECEREI EM SILÊNCIO, PORQUE ME FOI NEGADO O DIREITO DE TER UM ADVOGADO ACOMPANHANDO ESTE ATO”. Isso tem que ficar documentado no papel. Se o delegado ou o agente da polícia civil se negar a colocar isso no papel, NÃO ASSINE NADA!

4. Na delegacia, LEIA TUDO ANTES DE ASSINAR! Se o que estiver escrito não for a realidade, ou se você não disse alguma coisa que está escrita, NÃO ASSINE;

5. Se você for preso, não adianta discutir com o policial. Não reaja. Anote o nome de todos. Grave-os na sua memória. Se você vir alguém sendo preso, FILME! E, se souber o nome de quem está sendo preso, colete outros nomes ao redor, com telefone para contato, que poderão no futuro servir de testemunhas. Após, entre em contato com a pessoa que foi presa e repasse as informações.

6. Qualquer revista da polícia, em você ou em mochilas, DEVE SER FEITA NA PRESENÇA DE TODOS. A polícia NÃO PODE pegar a sua mochila e ir verificá-la longe dos olhos de todos.

7. Se você estiver machucado, EXIJA ATENDIMENTO MÉDICO IMEDIATO, mesmo antes de ir para a delegacia. A sua saúde deve ser mais importante do que a sua prisão.

8. Alguém foi preso ou está precisando de auxílio de algum advogado, entre em contato pela página “Habeas Corpus Movimento Passe Livre Manifestação 17/6”. Já somos mais de 4000 dispostos a te ajudar, gratuitamente.

9. E o mais importante: viu alguém sofrendo qualquer tipo de abuso? FILME! A polícia levou a mochila para revistar, sem o acompanhamento de ninguém? FILME! Viu alguém sendo preso por portar coisas legais, como vinagre ou máscaras, FILME! Anote o nome dos policiais que abusarem. Se ele não estiver portando alguma identificação, TIRE UMA FOTO! Depois buscaremos, com esses dados e com essas provas, a responsabilização do Estado e do policial que cometer os abusos.

RÁDIO-ATIVISMO

Aqui uma rádio-protesto que fiz no Deezer (c. Sons para inspirar para o dia de hoje. De Aretha Franklin a Chemical Brothers a Sérgio Sampaio. Deixe rolando.

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#SP13J: Quem ignora as redes está em perigo de extinção

Quando cheguei do trabalho na quinta, corri para a TV atrás de imagens dos protestos em São Paulo e Rio.

Nos quase 20 canais, abertos e fechados, que contam com equipe de jornalismo, não encontrei menção aos eventos. Passou-se meia hora até que aparecesse algo.

A televisão brasileira estava em descompasso com o mundo real e parecia querer o mesmo para seus espectadores.

A solução? Entrar no Facebook ou Twitter para encontrar timelines com informações novas a cada segundo.

Relatos fortes, quentes, ao vivo, in loco, de todo tipo de pessoa: jornalistas, estudantes, advogados, ativistas, publicitários, DJs, artistas, técnicos, empresários, amigos e desconhecidos.

Os protestos de São Paulo marcam um ponto de virada negativo para a credibilidade de alguns setores da imprensa.

Havia um Grand Canyon entre o que se lia nas redes sociais e a cobertura de certos veículos e a opinião de certos colunistas, com seu tom raivoso, oficialesco, parcial, com pouco ou nenhum contexto ou discussão.

Entre ficar do lado de uma demonstração que, apesar dos excessos de alguns, brigava por causas justas, e a tropa bárbara de um estado insensível, que dispara a esmo contra civis, escolheu-se o time do Darth Vader.

A cada lixeirinha incendiada, a cada muro pichado, aquele destaque, aquele horror. Pouco ou nenhum espaço para histórias como a da bomba de gás disparada para dentro de um apartamento de sétimo andar, onde moradores cometiam o “crime” de estarem filmando os eventos. Ou da senhora de quase 70 anos alvejada com tiro de borracha no rosto quando voltava da missa.

Já as redes estavam cheias de casos assim, de flagrantes de abuso, de posts incrédulos diante de violência tão irracional. Era impossível não prestar atenção ao calor vindo das redes, tanto que acabaram fornecendo uma sucessão de pautas, personagens, links, fotos e vídeos para a imprensa tradicional.

As redes também indicaram com todas as letras que uma mudança de tom era necessária.

Poucos prestaram atenção. O portal G1 chegou a publicar entrevista com “especialistas” dizendo que a atitude da PM foi correta. Quem eram os especialistas? Ex-PMs. Uau, mas que surpresa.

O programa do Datena só se ligou quando a notícia chegou na porta de casa. Surpreendido quando uma enquete do seu programa mostrou uma maioria de 2.179 contra 915 apoiando os protestos (e ainda “com baderna”), o apresentador baixou a bola: “Entre povo e polícia, prefiro o povo”.

O resultado da postura anti-povo será implacável. Milhares de leitores e espectadores perdidos, assinaturas canceladas e mudanças de canal assim num flash, questão de dias. Poucos voltam. Quando voltam, têm os pés bem atrás.

Não é preciso pesquisa para sacar que grande fatia desse contingente têm menos de 30 anos. É o leitor/espectador de amanhã se afastando.

Qualquer recém-formado em publicidade sabe que é no público jovem que se detecta o que vem por aí. São os primeiros a adotar novas tecnologias e ferramentas de comunicação, por exemplo. Ignore o que os jovens querem e você estará ignorando o futuro.

A internet e as redes sociais são cada vez mais o jornal, a televisão e o rádio das gerações mais novas.

Por estatísticas recentes da ComScore, o número de brasileiros usando o Facebook em maio era 74 milhões, sendo que 18,5 milhões com idade entre 15 e 24 anos e quase 19 milhões entre 25 e 34. Mas esse dado é só para quem acessa em laptops e PCs em casa e no trabalho. Não inclui acesso via celular.

Enquanto isso, só para ficar em um exemplo de mídia tradicional, são 53 milhões de assinantes totais da TV paga.

Na rede e nas redes, além disso,  as pessoas podem participar e se expressar. Pode-se fazer um vídeo de um policial quebrando o vidro da própria viatura e alcançar milhões.

Ou ainda escrever um comentário assim:

“Sou um pai de família normal, não sou vândalo e não quebro nada, vou sair do meu sofá e na segunda-feira estarei lá no Largo da Batata SP ! A minha arma será a Constituição Federal na mão e minha voz!”

O ato de segunda já tem quase 150 mil 180 mil confirmados no Facebook

Vídeo convidando para o evento:

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Em São Paulo, a praça é a nova pista

Grafite de Dafne Sampaio e Ana Lima Cecílio

Conversava eu com um amigo que sabe dessas coisas e ele me pintou o seguinte cenário: “Vai ser complicado para eventos pagos esse ano. A impressão é que as pessoas só querem coisas de graça, na rua.”

A gente estava em frente ao Paribar, na praça Dom José Gaspar, centro de São Paulo. Era a festa Selvagem, de Augusto Olivani e Millos Kaiser, onde eu tocaria como convidado. O evento é gratuito, basta aparecer. Conforme a noite de domingo chegava, o povo também. A pista logo entrou em modo disco fever. Espalhadas pelo bar e praça, havia facilmente umas 300 pessoas.

Em outra roda, o papo era a explosão dos blocos de rua na cidade. O pré-Carnaval paulistano há tempos não parecia tão energizado. No sábado, a Vila Madalena ficou trancada, de tanta gente que apareceu para brincar nos blocos. Um carioca, que estava na conversa, tirou uma: “É estranho para vocês isso, né?”

São Paulo em começo de 2013 está assim. Com sede de rua. Depois de anos de estímulo ao prédio e desencorajamento à praça, há um forte sentimento de que esse ano vai ser diferente. Ainda não vale para toda cidade, claro. O cinturão periférico segue encurralado e amedrontado depois que escurece.

A gestão Haddad está ciente da demanda reprimida. Juca Ferreira, novo secretário de Cultura da cidade, tocou no assunto em reunião com cerca de 1.000 representantes de coletivos, produtores de teatro e cinema, empresários, atores, artistas de rua e de outras áreas da cultura na terça-feira (absurdamente ignorada pela mídia em geral). Entre muitas coisas, o secretário disse que ruas e praças podem “se transformar em espaços de manifestação cultural” para artistas da cidade, com calendário para o ano todo.

Sou um grande entusiasta de festar na rua. É ótimo que cidadãos e autoridades estejam na mesma sintonia e isso vire uma opção viável na cidade.

Ao mesmo tempo, não seria bom se essa onda esvaziasse os eventos pagos, em lugares fechados. Clubes, festas e festivais são importantes para a economia da diversão. Além de viabilizar o sustento de artistas, o preço da entrada paga o salário de várias categorias de trabalhadores da noite. E, se a gente quer ver um show como Kraftwerk ou Hot Chip não tem jeito, vai custar dinheiro (obviamente não deveria custar TANTO quanto nos cobram aqui no Brasil, mas isso é outra conversa, apesar de também relacionada ao movimento em direção à rua).

Juca Ferreira também contemplou o ramo da diversão noturna no encontro dessa semana. ”É preciso pensar uma política cultural para a noite, mudar a visão de que em São Paulo se dorme à noite e se trabalha de dia. A cidade vai ganhar muito se disponibilizar cultura à noite.”

Apesar da empolgação momentânea por dançar no asfalto, acredito que a coisa tende a se equilibrar. E São Paulo, claro, tem gente de sobra pra todo tipo de festa.

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Retrospectiva Oesquema 2012: Um futuro para SP no Minhocão

Dois domingos atrás, fui a um evento que, se não foi especialmente grande em número de pessoas, foi enorme em termos de simbolismo.

Aconteceu em cima da cicatriz mais feia da cidade-baranga, o Minhocão. Aglomerados de pessoas dançaram e socializaram sobre o asfalto interditado no final da tarde. Uma ocupação lúdica desafiando o castigo diário do concreto e da via expressa.

Diversos sound systems com DJs mandavam som. Uma banda tocou perto de uma instalação inflável chamada Bolha Imobiliária. Foi uma das ações ligadas à rede Preliminares, de discussão de propostas para São Paulo em 2013.

Uma tenda da VoodooHop oferecia quitutes de um pessoal conhecido como Creative Comes. Era um mini-festival com boas doses de humor, música e social (quantas pessoas? Sou ruim de contar gente, mas pelo menos 300).

Entre o evento e seu cenário, um gritante contraste entre a cidade que queremos e a cidade que abominamos.

Andando por esse Minhocão em dia de folga, fiquei impressionado com a proximidade da via às janelas de vários apartamentos. Que projeto de cidade era esse, que destruiu a qualidade de vida em prol do escoamento automotivo?

Quarenta anos depois da inauguração do Minhocão, o erro da abordagem é sentido por todos. Porque além dos moradores da região que pioraram de vida, temos agora também a quase totalidade dos motoristas amarrados em vias congestionadas.

São Paulo não parou de reincidir em políticas urbanas que assassinam o bem-estar. Nos últimos anos, seu solo ficou entregue a uma violação sem precedentes, conluio entre oficiais corruptos e incorporadoras gananciosas. Armação ilimitada, construção irrestrita. Estacas de concreto seguiram batendo sem dó, derrubando casas charmosas, desfigurando bairros, multiplicando o trânsito em ruas esgotadas, desafiando leis do urbanismo, da física, da estética, do bom senso.

Nada mais simbólico então que subverter um marco dessa mentalidade, o Minhocão, promovendo nele necessárias ações de comunhão, de coletividade, de engajamento, de lazer, de sorrisos, de gente encontrando gente na rua.

Há muita esperança com a administração do Haddad, mas não por se achar que ele é o prefeito perfeito, alguma espécie de salvador. Mas porque articulações de propostas e mobilização cidadã estão a todo vapor e sente-se que existe abertura para conversa. A nova administração só terá a ganhar se escutar com atenção.

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Um grande esquenta para São Paulo 2013

Já entra dezembro e logo mais teremos prefeito novo em São Paulo. Como vai ser? Vai melhorar? Mais importante: como podemos acompanhar e participar?

O evento Preliminares nasceu dessa necessidade de dar pitacos no que vem por aí. Se define como “uma grande conspiração pública para a construção de uma rede independente de mídia, mapeamento e ação pública”. E mais:

9 dias, 9 pontos da cidade, 9 temas gerais: a lista de coletivos e convidados só cresce. E a programação do Preliminares vai tomando forma.

Já são mais de 30 mesas, debates e oficinas. Ocupações, transmissões, festas. Mas a agenda estará aberta até o final.

Copa do Mundo, Especulação Imobiliária, Jornalismo Investigativo, Educação, Arquitetura, Tecnologias de Ocupação, Economia Solidária, Lixo, Redes e Códigos, Carnaval de Rua…

Alguns exemplos:

No sábado, às 18h, na Casa Fora do Eixo, tem o jornalista escocês Andrew Jennings, autor do livro Jogo Sujo: O Mundo Secreto da Fifa.

Na terça, mesmo horário, tem Hermano Vianna falando no Studio SP.

Quarta, 9 da manhã, na Sala Crisantempo, tem um seminário dos 25 anos da ONG educacional Cenpec com Marina Silva, Nabil Bonduki, Maria Alice Setubal e Maria do Pilar Lacerda.

Sábado, tem 20 blocos de rua num Manifesto Carnavalista pelas ruas da Vila Madalena.

E, para fechar, no domingo, tem festa no Minhocão, com intervenções, sound systems (eu vou tocar no trio do Carlos Capslock) e show histórico do Akira S.

Acompanhe e se informe mais aqui no Facebook.

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