OEsquema

O aleatório enciclopédico

A Enciclopédia Britânica foi impressa pela última vez. Agora, só em plataformas digitais.

Eu fico entre ir correndo comprar os 32 volumes (e dar um jeito de me livrar de 32 volumes das minhas lotadas estantes para dar lugar) ou comprar um tablet. E a última edição da enciclopédia é bem mais cara que um tablet, custa quase US$ 1.400.

Se o orçamento fosse irrestrito, comprava os dois (e contratava um marcineiro para fazer mais estantes). Mas danem-se as minhas contas. Quero falar de enciclopédias. Eu amo enciclopédias.

Elas trazem em si o mundo do acaso. São um livro mágico em que você pode ler sobre abdômens, Abraham Lincoln ou ábaco. Lá em casa não tinha Britânica. Tinha Conhecer e Larousse. E eu e meu irmão inventamos um jogo, éramos CDF, que funcionava assim: um cantava uma palavra e o outro tinha que percorrer a estante (que tinha outras coleções de biologia, história, geografia, nossos pais são CDFs também) e formular uma definição. Lembro direitinho de quando minha mãe ganhou um vaso de cyclamen e a gente descobriu que ele vinha da Pérsia, que precisava de sol e crescia de um tubérculo.

Anos depois, quando eu trabalhava no caderno de Turismo da Folha, sempre que alguém precisava tirar alguma dúvida enciclopédica e virava para o computador e começava a digitar Wikip… O editor do caderno, Silvio Cioffi, levantava apressado já com sua edição miniatura da Britânica, uma caixinha linda, com três volumes, e interrompia e ia abrindo e procurando a dúvida em questão dizendo que não dá, na Wikipedia não, tem a Britânica aqui, é menor mas é melhor. Eu adorava fuçar aqueles livrinhos, que tinham umas ilustrações delicadas e miúdas.

Daí esses dias, a gente publicou, no Link, um texto incrível do Evgeny Morozov sobre o fim do flâneur na internet. E o Luiz Américo contou que flana na Wikipedia. E é legal também flanar na Wikipedia. Ele resumiu assim: “Não é incrível começar lendo um verbete sobre pinot noir, ir pulando de link em link e acabar nos hititas?”. É lindo.

Mas aí ontem conversando sobre o fim da versão impressa da Britânica eu pensei no seguinte: uma coisa é ir para um link dentro de um verbete que, num primeiro momento, foi procurado com intenção. Outra é abrir o livro e cair num verbete como quem abre a Bíblia procurando uma luz. Abriu na página de Nsukka. E aprende que é uma cidade no estado de Enugu, na Nigéria. Onde vive o povo lgbo que cultiva milho, mandioca e inhame.

Eu nunca pensaria em digitar Nsukka.

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A revolução da salsinha

(A troca de correspondências continua. Hoje eu respondo a carta da Belle)

É mais ou menos por aqui

De Heloisa Lupinacci, São Paulo
Para Isabelle Moreira Lima, Chicago

Minha vontade é que mude tudo! Mudança é das minhas coisas favoritas. Gosto até de mudar de casa. Encaixota, fitacrepa, etiqueta. Carrega. Desencaixota, desetiqueta. E tudo que era meio velho fica meio novo. Aqueles móveis cansados ficam atordoados. A cômoda incomodada. É como aqueles suvenires de lugar com neve, que você chacoalha e a neve sobe toda e fica flutuando. Acho lindo.

Mas eu não quero mudar de casa que estou bem aqui. Queria, sim, que você mudasse, de volta aqui pra sua casa do lado da minha. Isso sim! Mas beleza, esse período em Chicago vai ser bom pra você, vai ser bom pro Chico, e, por consequência, pra mim, que estou certa de que você vai ficar muito amiga do Rahm Emanuel. Daí ele vem te visitar e você me chama pra tomar umas no baiano com ele. Aliás, faz isso com o Achatz também? (Aliás aliás, esse perfil que você fez para o Comida hoje parece amuse bouche: dá vontade de muito mais. Aposto que você deve estar aí se contorcendo com a dor de ser jornalista e escrever um texto enorme que precisou se encaixar num espaço que não era nem a metade do tamanho… eu passei por isso recentemente, fazia tempo que não acontecia. Adoro, com cada veia e artéria, o jornal impresso, dedo manchado, braço aberto pra virar a página. Mas bem que podia ter um ‘carregar mais parágrafos’ clicável no fim de cada retranca. Aliás aliás aliás, estou bem digressiva, esses dias ouvi uma história incrível. Vou contar e já volto pras mudanças)

Eu estava conversando com um mineiro das baixelas e ele me contou que na casa dele, todas as manhãs, o jornal era passado. Na tábua de passar roupa, com ferro quente. “Sem vapor, claro”. Havia um ferro específico para o jornal. A empregada abria a edição em cima da tábua e passava página por página. Disse ele que, com isso, o jornal não solta tinta e os dedos continuam limpos depois da leitura. Eu estou para experimentar. Deve ficar lindo o jornal todo lisinho.

Então voltando à mudança. Eu queria muitas. Mas queria muito uma:

Eu queria que todo mundo prestasse atenção ao que come. Que quando as pessoas abrissem o pote de iogurte de manhã, se perguntassem como ele foi feito. Como o leite virou iogurte. Como o leite saiu da teta da vaca? Como vive a vaca?

Comer está na moda, todo mundo vai aos restaurantes do momento, todo mundo sabe de vinhos tais e quetais. Mas e o pão nosso de cada dia?

Num segundo momento, queria que todo mundo de repente pegasse pra si alguns desses processos. Pão? Mistura a farinha com água, coloca o fermento, escolhe suas castanhas favoritas, vê o bichinho crescer, assar, dourar, queimar. Aprende o pão. É o iogurte? Descola um fermento e bastam 10 minutos por dia para ter iogurte fresquinho feito em casa diariamente. E aí você escolhe qual leite usar. E vê como tudo muda se o dia tá quente, se tá frio, se o leite é bom, se o leite é médio. E que se você coar, vira coalhada. Se coar muito e apertar, vira queijinho.

Aí, viria a revolução: todas as pessoas iam querer cultivar suas próprias cebolas, seu próprios chuchus. E iam arrumar cantinhos pela cidade para fazer hortas. No topo do prédio, no canto da varanda, no canteiro do condomínio. No teto da loja da frente, que fica ali só refletindo o calor do sol. E a cidade seria tomada por hortas. E se a minha horta desse muita beterraba e a sua estiver bombando de couve, a gente troca! Eu dou umas beterrabas pra você, que me dá uns pés de couve. E a gente se conhece e conhece aquele outro vizinho que deu de cobrir a fachada do prédio com lindos pés de maracujá!

Ok, talvez minha utopia roceira não aconteça e São Paulo não se transforme numa enorme fazenda… Mas essa minha sugestão é só um meio para um fim, para a mudança que eu quero e venho tentando fazer na minha vida: parar de consumir sem pensar. E não estou falando de bolsa cara, sapato de grife.

Estou falando de você ir ao supermercado e ter: frango.

Como assim frango? Queria que o consumidor do meu bairro, da minha cidade e, no limite, do Brasil, ficasse cricri e se perguntasse: como assim frango? Eu quero frango criado livre, quero frango caipira. Galinho carijó, galinha d’Angola. Pato, ganso, codorna.

É isso. E você tava achando que tava hippie demais porque queria um pouco mais de paz…

Beijo, que agora eu vou lá vestir meu poncho e tocar flauta de pan.

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Por que eu adoro morar na Santa Cecília

A loja de toldo azul é a bomboniére que vende saco de lixo

Porque depois de rodar diversas lojas de jardinagem, dessas enormes, e de chafurdar na internet, atrás de floreiras de 20 cm x 10 cm que não fossem pretas mas sim coloridas, eu passei na floricultura da Terezinha e em dois dias ela me ligou pra eu ir lá buscar um arco-íris de floreiras, na medida certa.

Aí o cartão não passou, porque a máquina de Visa dela tava com problema. E ela: passa aqui depois e paga.

Porque depois de rodar diversas lojas de jardinagem e de chafurdar na internet atrás de cactos bonitos, pequenos mas bem espinhentos (jajá explico porque), lembrei da lojinha de R$ 1 do largo Sta Cecília em que, sabe Deus porque motivo, sempre há pelo menos uma estante com as suculentas mais suculentas e os cactos mais cactáceos que eu já vi. A R$ 2, cada.

Porque no caminho pra casa, com uma caixa cheia de cactos na mão, eu vi um senhor saído de um filme italiano sentado no boteco nordestino comendo uma mocofava. Boina, óculos escuro, cabelo branco, suéter listrado. Se minhas mãos não estivessem ocupadas, teria tirado uma foto.

E bem quando eu pensava em tirar a foto, olhei pra frente e vi um cara vestido de Chaves. Do Chaves da infância. Com o chapéu cobrindo a orelha, a camiseta listrada e a bermuda, o suspensório torto e tudo. Ele parou na calçada e fez a pose do Chaves, aquela de quando ele trava. E lá ficou.

Eu subi a rua rindo, mano, que bairro divertido. E parei pra comprar saco de lixo na bomboniére. Ah, sim.

Porque na Santa Cecília a gente vai na bomboniére comprar saco de lixo.

E, como eu disse, eu tava carregando uma caixa de cactos, as duas mãos ocupadas. O moço já veio rindo, dá aqui a caixa, moça, eu vou guardar aqui no escritório. Peguei o saco de lixo e fui pagar.

- Oi, se o tamanho do saco de lixo estiver errado, posso trocar? Eu nunca sei se é 60 litros, 100 litros, 30 litros…

E o cara:

- Hm, poderia, mas só se a embalagem não estiver aberta.

Ficamos os dois pensando… Com a embalagem fechada eu não tenho como saber se o saco de lixo é do tamanho certo. Se abrir a embalagem e descobrir que está errado não posso trocar. Então a resposta é…

- Ah, quer saber? Abre o saco com cuidado, vê se é o tamanho certo, se não for, coloca direitinho na embalagem e vem aqui que eu troco.

Paguei e logo já apareceu o moço com minha caixa cactácea.

As jardineiras e os cactos são pra fazer essa linda barreira para as gatas não saírem pela janela,. Os cactos dessa foto ainda são os antigos. Os que comprei hoje são muito mais bonitos

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Na Tcheca

No ano passado eu fui à República Tcheca fazer uma reportagem sobre cerveja. O resultado saiu no Paladar há algumas semanas. Hoje, publiquei a versão redux (isso quer dizer: aqueles textos longos que os jornalistas escrevem mas que nunca cabem no espaço designado a eles) do texto no Drum Bun, o blog que criei com a Ana sobre viagens.

São quatro textos:

Pilsen, a Praga
Entre, sente e diga: Pivo!
Zatec: a terra do lúpulo e das casas com narinas
Em Chodovar, à moda antiga

Espero que seja tão divertido ler quando foi apurar e escrever.

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Guacamole

Incrível dica da incrível Thea

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O pior vilão do mundo

Você precisa muito saber quem é esse cara

Quem é o maior vilão do mundo hoje? O maior criminoso? O mais cruel e maldito de todos os seres humanos?

Eu entendo se você ficar na dúvida agora que o Kaddafi morreu. O Assad tá caprichando na síria para ganhar esse posto. Mas, na boa, esses dois são fichinha. E não sou eu que estou falando isso. Quem fala isso é a lista dos maiores criminosos do mundo do órgão responsável por levar essas pessoas a tribunais internacionais.

Quer saber em que lugar da lista o Kaddafi tava? VIGÉSIMO QUARTO. Tem 23 pessoas mais cruéis e malditas que ele. E se você acompanhou as notícias depois da queda dele, em que começaram a surgir as histórias de anos de abusos, imagino que a sua espinha esteja gelada neste momento ao saber que ela era só o vigésimo quarto.

A minha espinha está totalmente congelada.

Então vamos ao primeiro da lista. O mais cruel dos cruéis é Joseph Kony.

O que leva à segunda pergunta: quem é Joseph Kony? Ele é lider de um exército rebelde em Uganda. Ele sequestra crianças, transforma as meninas em escravas sexuais e os meninos em soldados. Eles são forçados a matar os pais e todo mundo mais que cruzarem pela frente. Baseado em que? Nada. Por quê? Por nada. Quer dizer, não há uma causa. Não é guerra étnica. Não é pela independência de um país. É só para ele continuar sendo líder.

Uganda. É lá que ele está. Uganda faz fronteira com o Sudão do Sul, o mais jovem país do mundo, criado depois de anos de guerra e crimes contra a humanindade. Uganda faz fronteira com Ruanda, outro país que foi palco de crimes contra a humanidade. O cara está lá barbarizando. A comunidade internacional dos escritórios da ONU quer o cara preso. Por que ele não está preso? Porque ele está na selva de Uganda e é difícil achar alguém na selva de Uganda.

Eles, lá em Uganda, precisam de ajuda, das coisas que os exércitos de outros lugares sabem fazer. Por isso, os caras da Organização Invisible Children conseguiram um quase-milagre. Eles tanto atazanaram Washington que convenceram o governo a mandar tropas para um conflito que não tem interesse nenhum para os EUA (não oferece risco ao país nem interesse a ele financeiramente). Um grupo de militares norte-americanos está em Uganda para dar assistência e ajudar a pegar Kony e levá-lo a julgamento.

Agora, acompanhe dois raciocínios meus:

1. A corrida eleitoral norte-americana já começou, certo? Certo. O Obama mandou essas tropas para Uganda em outubro. E já está dito que elas vão sair de lá até o final deste ano. O Obama, e eu sou obamete assumida, topou esse movimento inédito de mandar tropas para um país pelo bem do país, e, num sentido maior, pelo bem do que eu considero O Humano. Ele fez isso de livre e espontânea vontade? Não. Ele fez isso porque um monte de jovens se uniu e resolveu atazanar a vida dos políticos. Ele apenas cedeu à pressão. À pressão de quem mesmo? DE UM GRUPO (enorme) DE JOVENS.

Eu tenho um sonho. E nesse sonho uma medida como essa é alardeada aos quatro cantos. No mundo dos meus sonhos, uma medida como essa pode ser chamada de eleitoreira. Porque no mundo dos meus sonhos todo mundo vota por um governo que decide ajudar um país que não tem nada a ver com nada. Um pedaço de selva no meio da África. E isso num momento em que os EUA estão em crise. Em que o Irã e Israel se alfinetam. Em que a comunidade internacional está na dúvida entre apoiar ou não uma intervenção armada na Síria. Tudo isso serviria como (boas) desculpas para falar para os caras da Invisible Children: Crianças, eu tenho problemas mais sérios que Joseph Kony.

Vote Obama. Obrigada.

2. Em 2004, saiu o filme Hotel Ruanda, que contava uma parte da história do genocídio naquele país. O filme termina com uma tela preta com escrito dizendo alguma coisa como ‘não podemos deixar isso acontecer de novo’. Depois de Ruanda teve o Sudão. E isso só do que a gente sabe. Do que chegou no conforto das nossas casas via jornal, revista, YouTube etc. Eu sinto um grande desconforto por saber e admitir que é isso. Eu estou em casa, alguém me manda o vídeo que eu recebi hoje falando sobre o Joseph Kony e eu fico doida querendo que todo mundo comece a conversar sobre isso agora. Estou em casa, alguém me indica o livro O Que é o Quê, que conta a história de um menino no Sudão, e eu leio e fico doida querendo que todo mundo saiba o que aconteceu com o Valentino Achak Deng e seu país. MAS nesse vídeo de hoje o que os caras pedem é justamente isso.

Eles só querem tornar o Kony famoso. Querem que você e eu, que a gente saiba quem é o cara. Que a gente saiba que ele está em Uganda tornando o mundo um lugar pior. Por quê? 1. Porque precisa né? 2. Porque se a gente souber, aumenta a pressão para que ele seja preso e julgado pelos crimes que cometeu. E com mais pressão, maiores as chances de isso acontecer.

Então por favor, e eu nunca pedi nada nesse blog, veja o vídeo (é só clicar aqui). É meia hora. É bem longo eu sei. Mas é meia hora, vai. Veja o filme, conte para os seus amigos, explique para seus pais. Espalhe o vídeo na internet. Se você ficar envolvido, entre no site dos caras e veja como pode ajudar mais. Eu vou fazer tudo o que puder para ajudar esses caras. Eu prefiro viver num mundo em que o Kaddafi não é mais o vigésimo quarto pior criminoso. Mas, mais ainda, eu prefiro viver num mundo em que pior criminoso que existe é preso e julgado pelos crimes que cometeu.

Obrigada

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Onde clica pra compartilhar?

(A Belle respondeu minha carta na nossa troca de correspondências! Ó só:)

Nunca tive muito jeito pra hippie, mas pela paz no mundo eu faria o momento John-Yoko na boa

De Isabelle Moreira Lima, Chicago
Para Heloisa Lupinacci, São Paulo

Minha saudosa Cuíca, Helozita-amada,

Entendo sua piração no possessivo porque, de fato, é muito bom sentir-se dono das coisas que ama. Das pessoas, dos lugares, etc. e tal. E, convenhamos, mais legal pirar no possessivo do que no imperativo. É mais doce e causa menos espanto alheio. Ainda assim, acho que requer cuidado. Pra ficar só na língua e não virar uma neurose real. (E realmente acho que não é seu caso.)

Confesso que invejei o fato de você já ter conhecido a pequena e gloriosa filha do nosso Otto. De longe, a sensação que eu tenho é que a vida tá passando rápido demais e eu não tô vendo nada, não tô compartilhando as coisas importantes que estão acontecendo aos amigos, boas e ruins. O botão share do Facebook ainda não dá conta disso. Hoje mesmo, quando entrei na internet pela primeira vez, descobri que uma tinha mudado de marido, outra perdeu a mãe (:~), outra pediu demissão para ser empreendedora. Foi rápido, ninguém teve tempo de me contar (e por que parariam tudo pra me contar?), mas eu vi que aconteceu. E aqui, às vezes parece que o tempo tá meio parado, só o vento se mexe.

Quer dizer, pensando bem não parece não. São seis meses desde que parti e eu acho que (ufa, finalmente) me adaptei. Eu tenho uma vida aqui. Só não tenho tanta excitação e tantos amigos pra compartilhar as minhas coisas e com quem compartilhar as coisas deles, mas tenho alguma coisa. O Chico falou em versão desidratada, mas eu acho que é mais minimalista. Notei que até o nas roupas a coisa minguou – trouxe 40, uso seis. E isso pode não ser ruim. A galera consciente fica falando em viver com menos, né? Acho que tô levando isso a sério, inconscientemente. E não é ruim, parece que a gente começa a valorizar mais tudo. E no final, a gente também se adapta a tudo, né?

Sobre o conservadorismo, eu acho que gosto quando é do bem, mas tenho medo das ideias extremas, da direita à esquerda. Eu gosto do F da família, mas TFP é sim FDP, mesmo achando que às vezes tradição pode ser ok e até desejando algo do gênero, como o lance de ser noiva e tal.

E gosto também quanto tem mudança boa. Se a moda pega e as gordinhas gostosas voltarem com tudo, eu vou adorar. Eu quero muito que mude o padrão de beleza. Eu também queria, pra variar, que o mundo ficasse um pouco em paz. Parece meio hippie, né? Mas, como o Clint falou, isso já foi um ideal até dos republicanos… Hoje a coisa é bem diferente e eu temo pelo Irã e Israel. O mundo tá estranho e dá um medinho daqueles.

Mas pensando bem, o mundo sempre foi estranho. Isso é um fato que consta da ala conservadora, não muda.

O que será que muda, e o que não vai mudar? O que a gente quer que mude e o que não mude? Me conta a SUA vontade, continuando na onda possessiva, que eu vou pensar na MINHA.

Saudades, amor,

Belle

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Nosso, seu e meu-meu-meu

Essa é a primeira carta da minha correspondência com a Belle. Para entender que porra é essa, leia isso. A referência é essa.

Diga lá, meu velho

Minha Mattosa, aqui é sua Cuíca. Ando pirando no possessivo, meu, minha, as minha pira. E eu piro e se botasse lenha na pira acabaria escrevendo um Mein Kunin, a minha luta anarquista, com a bênção de Bakunin e o perdão do trocadilho infame.

É que, você sabe, o Cuenca, do seu Mattoso, minha Belle, veio na primeira carta dele com um nosso isso, nosso aquilo. E esse possessivo do plural virou possessão. E assim foi que eu pirei no que é meu, no que é seu e no que veio a ser nosso.

Ele disse:

“Nosso Rubem Braga virou, de facto, um fazendeiro. Nosso Otto está experimentando as alegrias e dificuldades da paternidade.”

Eu pensei: Se é um nosso e outro nosso, também quero ser nossa. Achei o meu:

- Nossa Assim Você me Mata.

(Obrigada, Veri, Nossa Senhora dos Achados Infames, que esse é de facto malandro.)

Voltando aos nossos assuntos: hoje, bem hoje, conheci a filha do Nosso Otto, meu querido, e puxa vida. Ela é inacreditável. Ela não dá chances. Ela espia, faz alguma coisa aleatória, olha pra cima e abre um sorrisão. E aí você tem certeza que é pra você. Que aquilo foi especial. E tudo fica glorioso. E a manhã passa devagarinho e você começa a achar, de repente, que tomar café da manhã é igual a ir jantar.

A família. Anda tão fora de moda, né. Mas aí você vai vai lá e percebe que poucas coisas fazem tannto sentido como o pronome possesivo da família quando você começa uma. Eu mandei um e-mail para ele dizendo: Sua família é linda. E é a família dele mesmo. E ela é linda mesmo. A mulher dele é linda e a filha dele é linda. E ele é lindo. E eles três juntos são lindos e eles três juntos formam essa família. Portanto, a Família deles é linda. Mas esse F…, quando aparece com o T e P de TFP fica meio FDP. Mas, né.

Isso está entre algumas das coisas que você que me ensinou. Que o conservadorismo às vezes não está onde a gente acha. E às vezes eles está bem onde a gente acha que não tá. Ah, você e suas seriedades…. Pois bem, isso me fez lembrar que hoje, ainda que tarde, eu vi um trecho da entrevista do Clint Eastwood na GQ. Veja só, na minha tradução livríssima:

“Eu era um republicano-Eisenhower quando comecei aos 21, porque ele prometeu tirar a gente da Guerra da Coreia. E, ao longo dos anos, eu percebi que havia uma filosofia republicana de que eu gostava. E aí eles perderam isso. E os libertários tinham isso. Porque eu acredito no seguinte: vamos gastar mais tempo deixando as pessoas em paz.”

Você acha que dá para entender?
Beijo

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Correspondência paralela

Quadra de selos de caixas de Correios. Tudo obsoleto

Então cá estamos nós de volta à programação normal. Normal é pouco, eu diria. Voltamos à programação e ela está anormal. É que aconteceu o seguinte: o blog do IMS está promovendo uma troca de correspondências (eles já fizeram várias, sugiro a leitura de todas, a minha favorita até agora é a do Aldir Blanc com o Dapieve, só por causa dessa carta aqui) entre o meu querido amigo Chico Mattoso e o amigo dele João Paulo Cuenca, que eu só conheço de vista.

Quando vi essa correspondência, fiquei com faniquito. É que me acho chique e digna de trocar cartas naquela que é a plataforma mais elegante da internet, nessa espécie de fumoir da rede (aquela sala chique das casas mais chiques em que os homens chiques, depois de jantares chiques, fumavam e discutiam os assuntos relevantes – e chiques). Mas a verdade é que eu e a linda Belle, que é mulher do Chico e autora do incrível Isabelle Époque, estamos é na cozinha mesmo, onde também estão, e com muito orgulho, nossos blogs totalmente dedicados a assuntos irrevelantes, de novo com muito orgulho.

Pois bem. Decidimos inaugurar uma troca de correspondência aí mesmo, entre a pia e o fogão, enquanto os caras ficam lá tirando o pigarro da garganta (veja bem, eu adoro o blog do IMS e toda essa aparente birra é inveja pura de não ter sido eu chamada para trocar correspondências lacradas com meu sinete cheio de iniciais rebordadas. Só eu tenho cinco iniciais, a Belle tem três, mas o nome dela soa até mais aristocrático do que o meu).

Essa linda troca de cartas paralela (off-Fumoir, que tudo que é off e paralelo sempre é mais hype) acontecerá neste Caracteres com Espaço e naquele Isabelle Époque. Toma essa, IMS.

A primeira carta vem a seguir.

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Só viagem, sem bad trip

Vai lá ver, a gente ainda tá em soft opening, abertas a palpites

As coisas têm andado devagar por aqui porque eu tenho concentrado as minhas energias num outro empreendimento editorial digital online, o Drum Bun, um site sobre viagens.

Por que ler o Drum Bun em meio a tantos outros sites de viagem? Porque ele é feito por mim e pela Ana Freitas, do excelente Olhômetro, vizinha de OEsquema, ex-vizinha de Link e super vizinha de brisa. E a gente tenta escrever de um jeito que você viaje junto, sem nem perceber que na verdade está lendo.

O Drum Bun tem uns textos à la Caracteres e Olhômetro, em que a gente conta dos lugares a que já fomos. Tem outros mais práticos, dicas mesmo, mas sem perder a ternura. Tem sugestões de leitura, a seção Overbooking. E tem histórias de suvenires, na seção, er, Suvenir.

Além de republicar lá posts daqui (processo que ainda está em processo), tem lá alguns textos novos.

Espero que todo mundo se divirta por lá como costuma se divertir aqui. E se tiver sugestão de coisas a melhorar, de pautas, de roteiros, de viagens, do que for, estamos ávidas por elas.

Ah, o Caracteres continua funcionando. Só ficou paradinho por que esse ano tá que tá e começou com o Drum e depois isso e aquilo. Depois do Carnaval a programação volta ao normal.

E não vou nem contar letrinhas hoje.

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