OEsquema

Acabou-se o som da viola

É muito estilo, viu

Já que ando dada a confissões, tocada pela tristeza do anúncio da morte do Tinoco, vou fazer mais duas. Graves. Que servem para ilustrar, de um jeito bem egocêntrico (mas o que é um blog pessoal se não um exercício de egocentrismo), a minha ligação com a música caipira e explicar porque estou realmente emocionada com a morte do Tinoco.

Confissão 1. Chorando com Sérgio Reis

Eu fui ao aniversário de 80 anos do Tinoco. Trabalhava na coluna social e fui pautada para ir ao show/festa. Foi lindo, todos os caipiras-ídolos da minha infância reunidos para prestar homenagem àquele que era figura certa entre discos, fitas e CDs de todos os meus familiares e amigos. Abracei o Tinoco, desejei a ele muitos anos de vida (e foram mais 11, o que considero que o desejo deu certo) e fui cada vez mais me emocionando. É o que o Tinoco, o Tonico, o Pena Branca, o Xavantinho, o Milionário e o Zé Rico, apesar de não serem parecidos entre si, parecem todos com meu avô querido (que era então vivo e talvez quando eu desejei ao Tinoco muitos anos de vida tenha desejado muitos anos de vida ao meu avô também. Ambos tiveram muitos. Aliás, ambos morreram com a mesma idade, se não me falhe a memória).

Então eu fui falar com o Sérgio Reis. E quando ficamos frente a frente, notamos que estávamos com camisas iguais. Uma camisa de manga comprida azul marinho de bolinhas brancas. Rimos e elogiamos um a camisa do outro. Fiz ali umas perguntas, e aí, o que você anda fazendo. E o Sérgio Reis foi respondendo e eu fui ficando com saudade da minha casa. Não da casa que eu morava aqui em São Paulo, mas da casa dos meus pais. Eu estava morando aqui fazia pouco tempo. E a minha casa de lá estava meio em crise. Então foi dando uma dor e uma saudade de tudo. Da minha mãe cantando as músicas do Sérgio Reis. Do meu tio ouvindo Pena Branca e Xavantinho. Da porta verde na carçada. Do Chico Mineiro, da panela velha, da goteira, do pé de araçá na beira da estrada. Dos shows do Chitãozinho e Xororó nas festas juninas do colégio. Das festas juninas. Bateu um baita banzo. E eu comecei a chorar. Claro que ele não entendeu nada. Perguntou e eu fui tentar explicar mas só saiu uma frase:

- Tô com saudade da minha mãe.

Como num passe de mágica, eu virei uma criancinha perdida no supermercado. Como bom caipira, ele foi doce. Me abraçou e disse baixinho:

- Ela deve ter muito de orgulho de você.

O que, obviamente, só me fez chorar ainda mais.

Confissão 2. Chorando com o Menino da Porteira

A história é quase a mesma, então vou resumir. Num fim de semana na praia, uma dupla caipira veio visitar. E começou a cantar o Menino da Porteira. E quando berrante não toca mais, abri o berreiro. Ninguém entendeu nada. Quando eu fui tentar explicar, só saiu uma frase:

- Tô com saudade.

Uns riram, outros ficaram com pena. Eu submergi na saudade, no vergonha e no gin tônica.

Aqui dentro, música caipira é a trilha da parte boa da infância. A morte do Tinoco é triste por si mesma. Afinal, acabou-se o som da viola. (Mas é verdade, vá lá, que ninguém vai durar para sempre e ele já estava velhinho, poderia, é claro, ter vivido mais. Poderia ter feito o show que estava programado para a Virada Cultural, poderia um monte de coisas legais.) Mas aqui, nessa longa (oxalá) estrada da (minha) vida, a morte do Tinoco não é só a morte dele, é mais uma das mortes da minha meninice.

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FYI, os canibais, os zumbis e os vampiros

Braaaaaaaaaaaaaaaains

Entre tentar massacrar o Império Britânico, descobrir a tecnologia “Masonry” e desenvolver uma rede de estradas eficiente que ligue as cidades do meu país (egípcios no 4 ou bizantinos no 3), arrumei um tempo na minha agenda de chefe de Estado virtual para brisar, com o Matias, a respeito dos canibais de Garanhuns e a relação deles com os vampiros e os hypados zumbis na FYI, nossa seção no blog do IMS, o fumoir da internet.

E no intervalo entre a expansão ultamarina e as explorações espaciais, eu escrevi sobre minha viagem ao Peru no Drum Bun, o blog que eu e a Ana criamos para dar vazão às nossas viagens e às nossas viagens.

São muitos caracteres espalhados por aí. A boa notícia é que o vício em Civilization tá passando.

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Você, eu e todas as jornalistas

A Lisa Simpson também é jornalista

De Heloisa Lupinacci, São Paulo
Para Isabelle Moreira Lima, Chicago

Belle, que vergonha essa minha demora. Eu ando um pouco inábil com o tempo. Mas isso não é desculpa, porque nossas cartas são prioritárias. Par avion. Prioritaire. (Tenho quase certeza de que essas foram as duas primeiras palavras que eu aprendi em francês. Sei lá porque tenho uma lembrança ancestral de um envelope com vários avisos de prioridade em vários idiomas.)

Vou direto ao ponto: eu amo seu amor renovado pelo jornalismo.

Quando pintou esse papo de Chicago e você começou a falar das coisas que pensava em fazer aí, eu até torci secretamente para que você acabasse numa cozinha profissional e virasse a chef Belle. Mas quando você se reapaixonou pelo reportagem eu reverberei.

Pode ser que tenha a ver com a idade ou pode ser que tenha a ver com o tempo de profissão, e essas duas coisas podem ser uma só, mas recentemente eu me vi tentando identificar a “nossa geração”. Será que ela tem uma cara? Será que daqui 30 anos, nas redações dos jornais paulistanos, será mencionada a geração dos anos 2000? Será que somos a geração dos anos 2000? Será que ficar pensando nisso é sinal de loucura, narcisismo e falta do que fazer? Pode ser.

Mas, sério, eu comemoro muito a sua renovação de votos com o jornalismo. Gosto de ser sua colega de profissão. E, pra mim, você é peça central nessa tal geração que eu fico procurando. Você e um punhado de outras pessoas que trabalharam com a gente. E sem falar que seu novo amor pelo ofício recria e reforça a chance de a gente trabalhar juntas de fato algum dia. Já foram, o que, duas tentativas? Uma hora vai. E vai ser demais.

E eu vibro ainda mais quando vejo textos seus fora dos primeiros cadernos do jornal. Acho graça dessa sua mania de gostar de assunto sério. Uma coisa meio visconde partido ao meio. A metade sua que trabalhou no caderno de economia, na cobertura das eleições, que até em jornal só de economia já trabalhou, estava sempre trabalhando enquanto a metade sua que fala de seriados, comida e sapatos tomava vinho comigo. Acho que as duas se encontraram numa dia em que a gente tentou decidir quantos por cento do salário era permitido gastar nas liquidações de verão. Mas foi um encontro bem relâmpago, que logo o assunto voltou a ser só o vestido. Parcela no cartão de crédito e pronto.

E agora, tcharã, a sua metade lá continua às voltas com chatices macroeconômicas, mas a outra, iuhuuu, se juntou a mim e ao maravilhoso mundo do soft news, que de hard já basta a vida. Nesse mundo macio, os assuntos, quase sempre, coincidem com os hobbies. Verdade que isso pode virar um problema, porque ao menor sinal de descuido lá está você apurando no meio das férias, preocupada em tirar uma foto mais caprichada, porque vai que a matéria vira capa.

Quando eu trabalhava no Turismo era assim. Em todos os meses do ano, meu expediente era das 14h às 20h, menos em dia de fechamento, que não tinha hora pra sair. E no mês de férias era plantão de 24 horas por quantos dias fosse que eu estivesse na estrada. Anota, pergunta, fotografa, pega mapa, preço e o escambau.

Daí eu saí do jornal e do caderno. E dois meses depois fui pra França. E ia pra cima e pra baixo com meu caderninho, anotando as coisas, como se ainda escrevesse sobre isso. Um belo dia, fui de Velib pro canal St. Martin. Parei num boteco para tomar uma cerveja e fui pegar o caderninho para anotar as aventuras do dia. Cadê? Tinha esquecido na cestinha da Velib. Foi uma libertação. Achei poético demais perder meu caderno na cestinha da vélo em Paris. (Fiquei torcendo pra Sophie Calle encontrar meu petit cahier e fazer uma arte com ele. Vai que…)

Só que tem uma coisa que o Milton Hatoum me disse numa entrevista que nunca saiu da minha cabeça. Ele disse assim: “O diabo é que, para onde vou, levo esse rio dentro de mim”. Depois de algumas viagens sem caderninho, não teve jeito. Ele voltou para a bolsa. Você sai do negócio, mas o negócio não sai de você. E na mala que eu vou levar praí nas minhas férias, lá estará meu caderninho. Vou levar um de presente pra você. O Rafa faz uns cadernos lindos, à mão, com papeis incriveis, costurados.

Voltando ao papo “nossa geração”, pra mim tem duas jornalistas que eu vejo como próximas a mim, você e a Pri, que trabalhou comigo no Turismo. Vocês são totalmente diferentes mas, olha que engraçado, têm duas coisas muito específicas em comum: são duas amantes da comida e já trabalharam na TV, na frente das câmeras. Quando eu penso nessa nossa geração, começo daí. Eu, você e a Pri.

E vou colocando outras pessoas incríveis. E quando me dou conta, é só mulher. E quase todas têm uma mesma característica: fazem alguma outra coisa. Não são, como dizia o Silvio, meu editor lá no Turismo, “mulheres de redação”. Um tipo que parece que não existe fora daquele contexto. A Julia, por exemplo, é bailarina. A Alê Moraes faz O Pintinho. A Marinão traduz poesia. A Olívia, essa você não conhece, trabalha comigo lá no Estadão, toca piano, mano. Piano. A Raq, como eu pago pau pra essa menina, é humorista. Haha, talvez ela não saiba, mas é. Aliás, se tudo der errado, você e a Raq têm essa chance: ganhar a vida fazendo humor. É um belo dum plano B.

(E tem mais tantas, tantas… tem a Jana, a Carol Arantes, a Marreiro, mano, a Marreiro, e a Tati K., que é tipo uma Marreiro digital, a Leca!, a Mari Bastos, a melhor jornalista de esportes que eu conheço, se eu for listar todas, vai acabar o papel almaço… E isso sem falar da new generation, tô apaixonada pelas jornalistas sub-25 que conheci nesses últimos tempos.)

Depois até vou concedendo espaço para alguns homens. Mas aí desisto e fico com a mulherada mesmo, pago uma homenagem mental à minha primeira editora e guru espiritual, Fátima Mesquita. E depois faço um agradecimento silencioso e sincero a outras mulheres que me inspiram, a minha ídala (esses dias em pensei num trocadilho tão infame: amígdala, a amiga que é ídala, ui), Iara Biderman, a melhor editora de texto que eu já vi em ação, minha xará Helô Helvécia, e a inspiradora Teté Martinho, a quem eu sempre recorro em busca de conselhos. Êta mulherada porrêta. Dia desses eu fui tomar umas com as três naquele baiano novo aqui perto de casa, o Sotero, que eu considero, hoje, a melhor opção para comer, beber e viver aqui na região. Daí quando eu estava na mesa com essa gatíssima trindade eu fiquei pensando: como é lindo que a palavra seja jornalista, e não jornalisto.

Não é nada contra os jornalistas homens, que eu adoro e admiro muitos colegas e o meu maior parceiro de jornalismo na vida, ou da vida de jornalismo, é homem, o Matias (aliás, você viu que eu consegui me infiltrar no fumoir da internet?).

Mas quando vejo, lá estou eu pensando em todas essas mulheres. E sempre começa com você.

Com amor e admiração
Helo

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FYI, a estreia

Finalmente aconteceu. Cheguei ao fumoir da internet. Chegamos. Eu e o Matias de uma vez só. E ganhamos uma poltrona própria. Estreamos, na sexta-feira, a coluna FYI no blog do IMS.

O Matias mandou bem na descrição do primeiro texto: “Para começar, misturamos Lana Del Rey com Nigella com Instagram com Adele com Foodspotting para falar do lado bom de vivermos uma época de aparências”.

Eu adoraria poder dizer que é por isso que ando tão ausente. Seria cool, seria chique, seria digno. Mas seria mentira. Eu ando é viciada em Civilization mesmo.

Ô vida....

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Comer, beber, viver

(A troca de correspondências continua. Embora eu esteja lenta pra xuxu. A Belle respondeu minha carta há tipo uma semana, desculpem a demora)

De Isabelle Moreira Lima, Chicago
Para Heloisa Lupinacci, São Paulo

Helozita,

Segui seus conselhos e publiquei neste blog a íntegra do que rolou entre o Grant Achatz e eu – oh my! -, que convenhamos foi uma linda relação que durou exatamente… uma hora e dois minutos. Tipo assim, o MAIORCHEFDOSEUA me deu uma hora e dois minutos da vida dele. Morry. E o cara é desses que você fica acreditando que tá se abrindo pra você, (talvez ele estivesse mesmo) e eu fiquei feliz. Foi um lindo exercício de jornalismo que dá certo. E é bom quando dá, né? Pena que nem sempre é assim.

Com o jornalismo, eu tô vivendo essa louca história de novo. Quando eu vim pra cá, tava bem de saco cheio, rezando pra descobrir algo que pudesse fazer. Valia qualquer coisa, só tinha que me render um sustendo e me dar felicidade. Aos poucos, eu fui fazendo um bico aqui, outro acolá de jornalismo pra ganhar uns trocados e vi que era isso aí. Ser repórter é legal. E funciona. Começou uma lua-de-mel e tal. Mas aí, passei dessa fase e comecei a me sobrecarregar, o que me deu um certo desespero – medo de errar, medo de perder a mão, de deixar cair a qualidade dos textos. Tô respirando fundo e sendo atenta que ainda tenho dois textos bem importantes (pra mim, principalmente) pra terminar. E o foco é todo deles.

Ainda nesse assunto, tenho pensado que tenho a sorte de ter os dois lados: ser jornalista e leitor novato no que diz respeito às publicações. Aqui, eu tento ler o Chicago Tribune. O jornal é grande, é o segundo maior grupo dos EUA, se não me engano. E naquele documentário sobre o New York Times, o Page One, sabe? Ele aparece como uma empresa vilã, o que é meio engraçado porque me fez pensar no histórico de gângsters da cidade. Enfim, mas na vida real, pra mim-leitora, o jornal me parece mesmo é inocente. O tipo de matéria que leva a chamada de capa – e estou falando mesmo é da versão online – é uma coisa meio jornal de bairro, buraco de rua, problema de vizinhança, alerta sobre pólen. Daí, outro dia, conversando com uma moça muito legal que é editora lá, ela me contou que é o jeito que os jornais estão fazendo para sobreviver, pra vencer a crise. Eles focam nas notícias locais como diferencial, uma vez que todo mundo tem o mesmo conteúdo nacional de agência. A estratégia me parece inteligente, mas que fica uma primeira página bem caipira, ah, isso fica!

Eu fico lendo a versão online sempre, de todo jornal, até quando o Chico compra o papel. (Ele sempre compra e é muito melhor leitor que eu.) Eu ODEIO ficar com o dedo sujo (sim, eu tenho um pé no patricismo, apesar de não ter problema em limpar privada entre outras coisas que a vida na América me presenteou). E fiquei sabendo dessa tecnológica técnica de passar o jornal ao assistir Downton Abby, uma das melhores coisas que me aconteceram nos últimos anos. Já viu? Se não, vai ver! Foram duas temporadas em três dias. Pense!

E, falando em séries, isso me fez pensar em outra ainda e em tudo o que você me disse sobre prestar atenção na comida. Eu acho que você tá certa e eu gosto dessa ideia. (E eu acho que a gente vai ter muito assunto sobre esse assunto daqui pra frente!) Mas, antes de mais nada, você já viu o episódio de Portlandia sobre a origem do frango? Você usou justamente o frango como exemplo e eu não pude deixar de morrer de histeria ao lembrar do episódio. É longo, cheio de desdobramentos, mas a primeira parte tá aqui:

Tudo o que você me disse me fez pensar também em um texto que li esses dias, do Mario Batali, na edição de primavera da Lucky Peach. Ele conta de revolução da cozinha que ocorreu na California nos anos 60, 70, um movimento pós-Julia Child, que levou as pessoas a se interessarem mais por cozinha. As pessoas lá se tocaram que tinham características bem próximas (clima, solo, etc.) às da França e que poderiam produzir uma série de ingredientes para melhorar as suas vidas. Nessa onda, passaram a fazer queijo de cabra, a cultivar vários tipos de mini alfaces… A coisa funcionou tanto que os hábitos se transformaram e não era mais uma questão de “encher o bucho”. Ir a um restaurante era como ir à ópera, conta o Batali. Já pensou nisso? Eu gosto tanto dessa ideia… Pra mim, comida é isso aí, um evento!

Não, é mais. Comida é uma das coisas mais importantes do mundo e eu tenho tido, cada vez mais, uma relação forte com ela. Não sei se presto atenção a cada detalhe e às maneiras como são feitos os ingredientes, como eles chegam até mim e tal, mas eu sei que eu uso tudo o que passa pela minha cozinha pra me comunicar. Principalmente e ultimamente, a comida foi minha grande aliada no meu casamento. Quando o Chico virou o mais louco do mundo com trabalho no mestrado, a comida era usada pra atrai-lo e a mesa era onde acontecia a nossa comunhão. Já pensou que louco? Loucão, mas funcionou. As coisas voltaram ao normal já, mas eu sei que, se os prazos apertarem pra ele, se ele se afogar em trabalhos, eu tenho uma arma de guerra – ou do amor.

Nesse fim de semana, assisti pela primeira vez ”Comer, Beber, Viver”, do Ang Lee, e me emocionei. Me vi. Entendi tudo. A comida. É importante pra nossa vida, e não só pra nos manter em pé, vivos, saudáveis, mas pra nos alegrar, pra nos unir, pra nos fazer mais criativos. Eu acho que a comida tem poder. Muito poder, aliás.

Talvez seja uma visão menos hippie. Talvez eu não esteja pronta pra tocar a flauta. Mas eu posso fazer uma massinha pra você comer depois do seu show. Que tal?

Beijos, saudades,
Belle.

A família do Mestre Chu, de "Comer, Beber, Viver"

PS: O Rahm Emanuel, esqueci de falar dele! Bem, esse é outro caso. Um célebre morador da Chicagaloka que tá meio difícil de eu conseguir chegar junto. Aliás, ele é tão polêmico que em mais de sete meses aqui ainda não consegui decidir se é do bem ou do mal. Só continuo curtindo as frases de efeito – ainda que ele ande meio sumido – e achando ele beeeeem gatinho. Não sei se te contei, mas o vi pessoalmente uma vez, num show da Feist, logo que cheguei. Achei ele mais acabado que nas fotos, mas ainda assim Gato, com G maiúsculo.

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E falando de cornucópia

Michael Pollan’s Food Rules from Marija Jacimovic on Vimeo.

A Fátima Mesquita, minha primeira guia (e fundamental) pelo mundo das redações, postou no Face esse vídeo hoje, baseado no livro Food Rules, do Michael Pollan, que foi minha leitura recente mais impactante. Que saborosa coincidência.

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Control X, Control V

Eu tenho estado cornucópia

Desde ontem, eu mudei de cadeira. Dá pra dizer também que eu mudei de emprego. Depende da ênfase. Eu mudei de editoria, mas acho essa descrição técnica demais. Mudei de equipe, mudei de ares. Mudou bastante coisa. E minha cabeça tá um frevo.

Sexta-feira foi meu último dia no Link. E ontem foi meu primeiro dia no Paladar. E pra cada uma dessas frases há uma fileira enorme de coisas. Vou começar pelo que começa. Meu começo no Paladar.

Desde que o Paladar começou eu comecei a querer trabalhar lá. Eu saía da terapia, que era às quintas, passava na banca, comprava o Estadão e ia pra padaria tomar café da manhã e ler o Paladar. Tem uma jequice em pagar pau assim para um suplemento semanal de jornal, ainda mais quando você é jornalista e esse suplemento semanal é feito na sua cidade e você mais ou menos conhece as pessoas que fazem. Mas caguei pra jequice. E assumo que sempre paguei pau.

Então no primeiro dia (que na verdade não foi ontem, porque teve um primeiro dia antes do primeiro dia, mas eu não vou explicar que é pra não ficar confuso), quando eu li a coluna do Dias Lopes (aliás, hoje é aniversário dele, parabéns, Dias Lopes, muitas felicidades para você), eu fiquei tocada. Porque sempre li ela impressa, ‘fechada’, e um texto aberto, estourando, com viúvas, é mais, digamos, íntimo.

E quando a segunda coisa que eu fiz foi pegar um texto da Neide Rigo, que conheci há menos tempo mas que impactou radicalmente coisas tão importantes da minha vida como meus cafés da manhã (aprendi a fazer tapioca lendo o blog dela, o meu kefir veio da casa dela pelas mãos da Jana, e todos os dias de manhã eu como tapioca e tomo lassi feito com o kefir), eu assustei.

Porque o texto era gigante e a retranca não, e o texto falava de umbu, Uauá, bode, refrigério, caatinga, vinagre de umbu, almoço para o ministro e coisa e tal e tal e coisa e corta e corta e corta e corta. E doeu cortar. Mas acho que deu tudo certo. E quem quiser ler o texto inteiro (recomendo muito), a íntegra está no blog dela. (Falando em íntegras, a Belle, minha pen-pal também publicou a íntegra do perfil que fez sobre o Grant Achatz para o Comida no blog dela. Outra leitura que vale a pena).

Bom, são muitas coisas, que ainda estão sendo processadas, enquanto outras tantas vão entrando na fila de coisas e assuntos que eu vou aprendendo a cada conversa.

E isso sem falar de sair do Link… O Link, pouca gente sabe, é uma espécie experimento utópico operante. Quase tudo o que eu achava que a prática do jornalismo deveria ter mais, tem ali. E eu não vou nem tentar explicar, porque é difícil. Mas, em suma, a equipe do Link (e isso engloba as pessoas que já saíram e foram para outro lugares) trabalha de um jeito especial. E, de um ângulo mais pessoal, o Link me devolveu a vontade de fazer jornalismo, que vinha enfraquecendo, enfraquecendo, enfraquecendo…

Eu queria conseguir escrever um comentário sobre cada uma das pessoas de lá, pra deixar registrado esse momento para a posteridade. Mas eu não achei um tom que não fosse piegas. Então vou esperar um pouco para ver se a coisa, mais processada, ganha uma forma melhor.

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Demora nos comentários

Eu estou demorando para aprovar os comentários (e, arram, também para atualizar o blog).
Dos comentários, é que eu estava acostumada a receber avisos quando tivesse comentários novos e isso não acontece mais. Daí eu esqueço de vim ver se tem comentário novo. Desculpem. Das atualizações, a história é mais longa e jajá eu conto.

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Gaaato gato gato gato

A Tapioca, com o abacaxi, é a mãe da Shoyu, com a meia

Eu já tinha detectado que havia alguma coisa estranha no ar. Daí hoje, estava passeando pelos meus vizinhos de OEsquema e vi que o plano é maior. O alerta veio no post da Jô no Defeito:

“Dei para ter comportamentos estranhos. Comecei a postar fotos do gato em diversas poses de forma obsessiva. Tentei parar, não consigo. Cada fofura se transforma em algo necessário de registro, praticamente o desembarque das tropas aliadas na Normandia. Tico com os bichinhos. Tico dormindinho. Tico brincandinho. Mostro a foto do gato no celular quando tenho a oportunidade. Sou aquilo que sempre odiei.
(…)
Eu, que gostava de conversar sobre os rumos do mundo, agora só frequento blogs temáticos como “Gatos e Fatos”, “Felino Amigo” e “Meu xodó meu xodozinho”. Acompanho discussões sobre a funcionalidade da areia patagônica para o animal fazer xixi. É uma argila rara. Quando estou em casa com ele, falo com voz de palhacinho. A coisa não vai bem.
(…)
E juro, também, que um dia pretendo retornar ao mundo da normalidade.

Por enquanto, gato, leve-me ao seu líder!”

Idem, idem e miau.

PS: O título do post saiu daqui.

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O aleatório enciclopédico

A Enciclopédia Britânica foi impressa pela última vez. Agora, só em plataformas digitais.

Eu fico entre ir correndo comprar os 32 volumes (e dar um jeito de me livrar de 32 volumes das minhas lotadas estantes para dar lugar) ou comprar um tablet. E a última edição da enciclopédia é bem mais cara que um tablet, custa quase US$ 1.400.

Se o orçamento fosse irrestrito, comprava os dois (e contratava um marceneiro para fazer mais estantes). Mas danem-se as minhas contas. Quero falar de enciclopédias. Eu amo enciclopédias.

Elas trazem em si o mundo do acaso. São um livro mágico em que você pode ler sobre abdômens, Abraham Lincoln ou ábaco. Lá em casa não tinha Britânica. Tinha Conhecer e Larousse. E eu e meu irmão inventamos um jogo, éramos CDF, que funcionava assim: um cantava uma palavra e o outro tinha que percorrer a estante (que tinha outras coleções de biologia, história, geografia, nossos pais são CDFs também) e formular uma definição. Lembro direitinho de quando minha mãe ganhou um vaso de cyclamen e a gente descobriu que ele vinha da Pérsia, que precisava de sol e crescia de um tubérculo.

Anos depois, quando eu trabalhava no caderno de Turismo da Folha, sempre que alguém precisava tirar alguma dúvida enciclopédica e virava para o computador e começava a digitar Wikip… O editor do caderno, Silvio Cioffi, levantava apressado já com sua edição miniatura da Britânica, uma caixinha linda, com três volumes, e interrompia e ia abrindo e procurando a dúvida em questão dizendo que não dá, na Wikipedia não, tem a Britânica aqui, é menor mas é melhor. Eu adorava fuçar aqueles livrinhos, que tinham umas ilustrações delicadas e miúdas.

Daí esses dias, a gente publicou, no Link, um texto incrível do Evgeny Morozov sobre o fim do flâneur na internet. E o Luiz Américo contou que flana na Wikipedia. E é legal também flanar na Wikipedia. Ele resumiu assim: “Não é incrível começar lendo um verbete sobre pinot noir, ir pulando de link em link e acabar nos hititas?”. É lindo.

Mas aí ontem conversando sobre o fim da versão impressa da Britânica eu pensei no seguinte: uma coisa é ir para um link dentro de um verbete que, num primeiro momento, foi procurado com intenção. Outra é abrir o livro e cair num verbete como quem abre a Bíblia procurando uma luz. Abriu na página de Nsukka. E aprende que é uma cidade no estado de Enugu, na Nigéria. Onde vive o povo lgbo que cultiva milho, mandioca e inhame.

Eu nunca pensaria em digitar Nsukka.

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