5 de maio de 2012 às 16h56
Acabou-se o som da viola
Já que ando dada a confissões, tocada pela tristeza do anúncio da morte do Tinoco, vou fazer mais duas. Graves. Que servem para ilustrar, de um jeito bem egocêntrico (mas o que é um blog pessoal se não um exercício de egocentrismo), a minha ligação com a música caipira e explicar porque estou realmente emocionada com a morte do Tinoco.
Confissão 1. Chorando com Sérgio Reis
Eu fui ao aniversário de 80 anos do Tinoco. Trabalhava na coluna social e fui pautada para ir ao show/festa. Foi lindo, todos os caipiras-ídolos da minha infância reunidos para prestar homenagem àquele que era figura certa entre discos, fitas e CDs de todos os meus familiares e amigos. Abracei o Tinoco, desejei a ele muitos anos de vida (e foram mais 11, o que considero que o desejo deu certo) e fui cada vez mais me emocionando. É o que o Tinoco, o Tonico, o Pena Branca, o Xavantinho, o Milionário e o Zé Rico, apesar de não serem parecidos entre si, parecem todos com meu avô querido (que era então vivo e talvez quando eu desejei ao Tinoco muitos anos de vida tenha desejado muitos anos de vida ao meu avô também. Ambos tiveram muitos. Aliás, ambos morreram com a mesma idade, se não me falhe a memória).
Então eu fui falar com o Sérgio Reis. E quando ficamos frente a frente, notamos que estávamos com camisas iguais. Uma camisa de manga comprida azul marinho de bolinhas brancas. Rimos e elogiamos um a camisa do outro. Fiz ali umas perguntas, e aí, o que você anda fazendo. E o Sérgio Reis foi respondendo e eu fui ficando com saudade da minha casa. Não da casa que eu morava aqui em São Paulo, mas da casa dos meus pais. Eu estava morando aqui fazia pouco tempo. E a minha casa de lá estava meio em crise. Então foi dando uma dor e uma saudade de tudo. Da minha mãe cantando as músicas do Sérgio Reis. Do meu tio ouvindo Pena Branca e Xavantinho. Da porta verde na carçada. Do Chico Mineiro, da panela velha, da goteira, do pé de araçá na beira da estrada. Dos shows do Chitãozinho e Xororó nas festas juninas do colégio. Das festas juninas. Bateu um baita banzo. E eu comecei a chorar. Claro que ele não entendeu nada. Perguntou e eu fui tentar explicar mas só saiu uma frase:
- Tô com saudade da minha mãe.
Como num passe de mágica, eu virei uma criancinha perdida no supermercado. Como bom caipira, ele foi doce. Me abraçou e disse baixinho:
- Ela deve ter muito de orgulho de você.
O que, obviamente, só me fez chorar ainda mais.
Confissão 2. Chorando com o Menino da Porteira
A história é quase a mesma, então vou resumir. Num fim de semana na praia, uma dupla caipira veio visitar. E começou a cantar o Menino da Porteira. E quando berrante não toca mais, abri o berreiro. Ninguém entendeu nada. Quando eu fui tentar explicar, só saiu uma frase:
- Tô com saudade.
Uns riram, outros ficaram com pena. Eu submergi na saudade, no vergonha e no gin tônica.
Aqui dentro, música caipira é a trilha da parte boa da infância. A morte do Tinoco é triste por si mesma. Afinal, acabou-se o som da viola. (Mas é verdade, vá lá, que ninguém vai durar para sempre e ele já estava velhinho, poderia, é claro, ter vivido mais. Poderia ter feito o show que estava programado para a Virada Cultural, poderia um monte de coisas legais.) Mas aqui, nessa longa (oxalá) estrada da (minha) vida, a morte do Tinoco não é só a morte dele, é mais uma das mortes da minha meninice.
3.350 caracteres com espaço














Adepta do aleatório, sou jornalista, mas me formei em Moda. Já fui repórter de viagens e fiz resumo de novelas e coluna social de jornal popular. Para falar comigo, helolupi@gmail.com.
Se você não sabe porque esse blog existe, veja 