OEsquema

Você, eu e todas as jornalistas

A Lisa Simpson também é jornalista

De Heloisa Lupinacci, São Paulo
Para Isabelle Moreira Lima, Chicago

Belle, que vergonha essa minha demora. Eu ando um pouco inábil com o tempo. Mas isso não é desculpa, porque nossas cartas são prioritárias. Par avion. Prioritaire. (Tenho quase certeza de que essas foram as duas primeiras palavras que eu aprendi em francês. Sei lá porque tenho uma lembrança ancestral de um envelope com vários avisos de prioridade em vários idiomas.)

Vou direto ao ponto: eu amo seu amor renovado pelo jornalismo.

Quando pintou esse papo de Chicago e você começou a falar das coisas que pensava em fazer aí, eu até torci secretamente para que você acabasse numa cozinha profissional e virasse a chef Belle. Mas quando você se reapaixonou pelo reportagem eu reverberei.

Pode ser que tenha a ver com a idade ou pode ser que tenha a ver com o tempo de profissão, e essas duas coisas podem ser uma só, mas recentemente eu me vi tentando identificar a “nossa geração”. Será que ela tem uma cara? Será que daqui 30 anos, nas redações dos jornais paulistanos, será mencionada a geração dos anos 2000? Será que somos a geração dos anos 2000? Será que ficar pensando nisso é sinal de loucura, narcisismo e falta do que fazer? Pode ser.

Mas, sério, eu comemoro muito a sua renovação de votos com o jornalismo. Gosto de ser sua colega de profissão. E, pra mim, você é peça central nessa tal geração que eu fico procurando. Você e um punhado de outras pessoas que trabalharam com a gente. E sem falar que seu novo amor pelo ofício recria e reforça a chance de a gente trabalhar juntas de fato algum dia. Já foram, o que, duas tentativas? Uma hora vai. E vai ser demais.

E eu vibro ainda mais quando vejo textos seus fora dos primeiros cadernos do jornal. Acho graça dessa sua mania de gostar de assunto sério. Uma coisa meio visconde partido ao meio. A metade sua que trabalhou no caderno de economia, na cobertura das eleições, que até em jornal só de economia já trabalhou, estava sempre trabalhando enquanto a metade sua que fala de seriados, comida e sapatos tomava vinho comigo. Acho que as duas se encontraram numa dia em que a gente tentou decidir quantos por cento do salário era permitido gastar nas liquidações de verão. Mas foi um encontro bem relâmpago, que logo o assunto voltou a ser só o vestido. Parcela no cartão de crédito e pronto.

E agora, tcharã, a sua metade lá continua às voltas com chatices macroeconômicas, mas a outra, iuhuuu, se juntou a mim e ao maravilhoso mundo do soft news, que de hard já basta a vida. Nesse mundo macio, os assuntos, quase sempre, coincidem com os hobbies. Verdade que isso pode virar um problema, porque ao menor sinal de descuido lá está você apurando no meio das férias, preocupada em tirar uma foto mais caprichada, porque vai que a matéria vira capa.

Quando eu trabalhava no Turismo era assim. Em todos os meses do ano, meu expediente era das 14h às 20h, menos em dia de fechamento, que não tinha hora pra sair. E no mês de férias era plantão de 24 horas por quantos dias fosse que eu estivesse na estrada. Anota, pergunta, fotografa, pega mapa, preço e o escambau.

Daí eu saí do jornal e do caderno. E dois meses depois fui pra França. E ia pra cima e pra baixo com meu caderninho, anotando as coisas, como se ainda escrevesse sobre isso. Um belo dia, fui de Velib pro canal St. Martin. Parei num boteco para tomar uma cerveja e fui pegar o caderninho para anotar as aventuras do dia. Cadê? Tinha esquecido na cestinha da Velib. Foi uma libertação. Achei poético demais perder meu caderno na cestinha da vélo em Paris. (Fiquei torcendo pra Sophie Calle encontrar meu petit cahier e fazer uma arte com ele. Vai que…)

Só que tem uma coisa que o Milton Hatoum me disse numa entrevista que nunca saiu da minha cabeça. Ele disse assim: “O diabo é que, para onde vou, levo esse rio dentro de mim”. Depois de algumas viagens sem caderninho, não teve jeito. Ele voltou para a bolsa. Você sai do negócio, mas o negócio não sai de você. E na mala que eu vou levar praí nas minhas férias, lá estará meu caderninho. Vou levar um de presente pra você. O Rafa faz uns cadernos lindos, à mão, com papeis incriveis, costurados.

Voltando ao papo “nossa geração”, pra mim tem duas jornalistas que eu vejo como próximas a mim, você e a Pri, que trabalhou comigo no Turismo. Vocês são totalmente diferentes mas, olha que engraçado, têm duas coisas muito específicas em comum: são duas amantes da comida e já trabalharam na TV, na frente das câmeras. Quando eu penso nessa nossa geração, começo daí. Eu, você e a Pri.

E vou colocando outras pessoas incríveis. E quando me dou conta, é só mulher. E quase todas têm uma mesma característica: fazem alguma outra coisa. Não são, como dizia o Silvio, meu editor lá no Turismo, “mulheres de redação”. Um tipo que parece que não existe fora daquele contexto. A Julia, por exemplo, é bailarina. A Alê Moraes faz O Pintinho. A Marinão traduz poesia. A Olívia, essa você não conhece, trabalha comigo lá no Estadão, toca piano, mano. Piano. A Raq, como eu pago pau pra essa menina, é humorista. Haha, talvez ela não saiba, mas é. Aliás, se tudo der errado, você e a Raq têm essa chance: ganhar a vida fazendo humor. É um belo dum plano B.

(E tem mais tantas, tantas… tem a Jana, a Carol Arantes, a Marreiro, mano, a Marreiro, e a Tati K., que é tipo uma Marreiro digital, a Leca!, a Mari Bastos, a melhor jornalista de esportes que eu conheço, se eu for listar todas, vai acabar o papel almaço… E isso sem falar da new generation, tô apaixonada pelas jornalistas sub-25 que conheci nesses últimos tempos.)

Depois até vou concedendo espaço para alguns homens. Mas aí desisto e fico com a mulherada mesmo, pago uma homenagem mental à minha primeira editora e guru espiritual, Fátima Mesquita. E depois faço um agradecimento silencioso e sincero a outras mulheres que me inspiram, a minha ídala (esses dias em pensei num trocadilho tão infame: amígdala, a amiga que é ídala, ui), Iara Biderman, a melhor editora de texto que eu já vi em ação, minha xará Helô Helvécia, e a inspiradora Teté Martinho, a quem eu sempre recorro em busca de conselhos. Êta mulherada porrêta. Dia desses eu fui tomar umas com as três naquele baiano novo aqui perto de casa, o Sotero, que eu considero, hoje, a melhor opção para comer, beber e viver aqui na região. Daí quando eu estava na mesa com essa gatíssima trindade eu fiquei pensando: como é lindo que a palavra seja jornalista, e não jornalisto.

Não é nada contra os jornalistas homens, que eu adoro e admiro muitos colegas e o meu maior parceiro de jornalismo na vida, ou da vida de jornalismo, é homem, o Matias (aliás, você viu que eu consegui me infiltrar no fumoir da internet?).

Mas quando vejo, lá estou eu pensando em todas essas mulheres. E sempre começa com você.

Com amor e admiração
Helo

6.453 caracteres com espaço

4 Comentários
por: Heloisa Lupinacci postado em: Correspondência, Destaque tags: ,

4 Comentários

Comentário por Marina Maria
24 de abril de 2012 às 0h53

Ainda que hoje esteja longe da profissão, sempre ando com bloquinho, anoto pautas (hoje teve uma: quem será que trabalha fazendo palavras cruzadas? que profissão é essa? como se aprende?) e conversas engraçadas que ouço por aí. Quando vou preencher minha profissão nas fichas, ainda escrevo “jornalista” e não “analista de comunicação”. Acho que isso é uma coisa que fica na gente. Ou então é só algo do que me orgulho e não quero largar. Essa turma de jornalisAs que vc citou, então, tem muito o que se orgulhar mesmo. A Alê, putz, o Pintinho é simplesmente a melhor tirinha ever. Não faço parte da geração, mas tenho muita admiração por todos. Inclusive e principalmente por você.

Responder

Comentário por Thá Albieri
24 de abril de 2012 às 17h29

Que beleza de carta, Helozita!
Aliás, estava com saudade dessa troca tão bacana! AMEI!
PS: acho que devia rolar uma exposição dos cadernos que o Rafa faz…”azamiga” ficaram curiosas pra ver…

Responder

Comentário por nana tucci
3 de maio de 2012 às 2h27

” Daí quando eu estava na mesa com essa gatíssima trindade eu fiquei pensando: como é lindo que a palavra seja jornalista, e não jornalisto.” hahahaha gênia. adoro seu humor, Helô! E viva las chicas \o/

Responder

Pingback por Pra dentro « Is a Belle Époque
11 de maio de 2012 às 17h15

[...] (A troca de correspondências continua. Eu respondo a carta da Helo.) [...]

Deixe um comentário