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É, tatuagem é permanente

tatuapagada
Tatuagem apagada não é exatamente apagada

Quando eu tinha 18 anos, eu era anarquista. Autoridade, hierarquia, até as fronteiras entre países, tudo isso me sufocava. Eu desejava um mundo sem poder centralizado em figura nenhuma, nem Estado nem Mercado. Odiava tudo que impusesse algo. Queria ser livre.

E na minha imensa profundidade de então (de lá pra cá consegui ficar ainda menos profunda), decidi que o símbolo da opressão era a lei da gravidade. Essa maldição que nos mantinha presos ao chão. Ela era a prova última de que nunca seríamos livres (e daí vieram mil delírios de fazer mudança para o espaço sideral, único lugar em que se experimenta a liberdade total. Ainda sonho com o dia que poderei experimentar a ausência da gravidade, mas hoje já não tenho mais angústias infinitas quando percebo que estou colada ao colchão quando deito para dormir – acredite, isso era o motivo de muita angústia na minha profunda alma adolescente e anarquista).

Como além de ser livre eu queria muito ser engraçada, eu também me afiliava intelectualmente aos abolicionistas penais, um grupo que previa a extinção de todas as leis – “inclusive a da gravidade”, dizia eu, com um sorriso meio ensaiado, misturando um grupo de estudiosos sérios a uma ideia de desenho animado (eu tinha assistido um episódio de A Vaca e o Frango ou Eu Sou o Máximo, não lembro mais, em que os personagens viravam legisladores e revogavam a lei da gravidade e tudo voava, depois eles revogavam a lei apenas para vacas, apenas para geladeiras, apenas para isso, apenas para aquilo, e tudo ficava caindo e voando, era engraçado).

Parêntese:
Eu deveria esperar fazer 36 anos para escrever este texto. Porque a partir de lá vai fazer mais tempo que eu convivo com a tatuagem do que o tempo que eu não convivi com ela. Mas deu vontade de falar isso hoje, depois de ler este texto aqui.

Bom, meu anarquismo-abolocionista-penal somado à certeza de que eu deveria sempre lembrar da angústia de não ser livre me fizeram tatuar nas costas um par de asas.

Quác! diria eu, hoje, desafiando a Helô de 18 anos a revisar a falta de lógica desse salto de pensamento. E quác, eu digo, às vezes, quando vejo as asinhas meio tortas, meio pequenas, meio desbotadas, uma delas tem até um erro mesmo, uma pena que começa direito mas termina errada porque na hora que a agulha bateu no osso da costela eu dei um pulo e o risco foi pro lado (tipo aquele comercial, lembra, de uma mulher que ia cortar o cabelo e o cara ligava a máquina e ela espirrava e ele cortava sem querer um monte de cabelo).

Mas por mais defeitos que essas asinhas tenham e por mais que às vezes eu pense que preferia ter as costas lisas, livres de desenhos e principalmente livres de desenhos com penas erradas, eu adoro o bilhete que a Helô-anarquista-abolicionista-penal-de-meia-tigela deixou pra mim. Esse bilhete-lembrete me faz sempre lembrar que imposições existem para ser contrariadas, que tudo deve ser questionado e, de preferência, mudado e, de preferência, para melhor (ainda hoje, tantos anos depois, eu me vi pensando, na janela, que quem diz que regras são regras esquece de notar que não existe nenhuma regra dizendo que as regras não podem ser mudadas, o que invalida, portanto, todas as regras. Percebam como a lógica dessa minha cabeça oca não evoluiu tanto assim).

A diferença é que aos 18 eu achava que todas as imposições eram pequenas prisões, jaulinhas doidas para conter um pedaço da minha vida. Hoje, vejo cada uma delas como um convite a um exercício de achar a brecha e ser livre. Parece que tudo virou ao contrário. Acho que a Helô de 18 anos se orgulharia de ler isso aqui. Do mesmo jeito que eu me orgulho do que ela escreveu nas minhas costas, embora, hoje, ache super cliché.

Dez anos depois, quando fui fazer a tatuagem que fica sobre o meu cotovelo direito, pedi para o tatuador dar uma olhada para ver se rolava cobri-las. Quando eu levantei a blusa e ele viu a tatuagem, soltou um:

– Ah, asinhas…

Ele falou algumas coisas sobre como teria de trabalhar para cobri-las e perguntou em que tipo de desenho eu pensava. Sem pensar muito respondi:

– Asinhas, sei lá, mais bem desenhadas.

Ele não entendeu nada, soltou um “outras asinhas?!”, fez uma cara engraçada e me disse tchau.

Elas continuam aqui. Decidi não cobrir e me recuso a apagar tatuagem, assim como eu não retiro o que eu disse (embora seja a primeira a pedir desculpas quase sempre). E apesar de preferir ser essa metamorfose ambulante, sei bem que o princípio que levou a pseudo-anarquista de 18 anos ao estúdio de tatuagem continua aqui inteirinho. Um pouco transformado pelos anos, talvez levemente amaciado, mas ainda assim aqui.

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Dois mil e crazy

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“Doismil e crazy, doismil e catarse” – linda frase, lindo stêncil e linda foto, todos do Zé Vicente (@zevicent no Instagram, de onde peguei essa imagem)

A retrospectiva de 2013 aqui n’O Esquema é pra ter 13 itens. Mas neste ano nasceu meu filho então a minha tem 1 item e 12 notas de rodapé.

1. Um
Neste ano nasceu meu filho, o Tomé. E eu nunca mais fui a mesma.

2. Uruguai
Fui para lá, achei uma loja chamada Urugrow e fui perguntar sobre a lei. O cara disse: avisa os brasileiros que não é assim que vocês vão chegar aqui e comprar maconha e sementes. Então estejam avisados. Mesmo assim, e eu nem fumo maconha (fui na Urugrow porque tinha prometido sementes pra uma amiga), o Uruguai virou neste ano o lugar mais legal do mundo (se for viajar para lá, corta essa de ficar um fim de semana, cinco dias. Fica no mínimo 15. Eu fiquei três semanas). Parabéns, Mujica. Parabéns, uruguaios.

3. Finalmente, mobilização popular
As manifestações estarão em todas as retrospectivas do ano. Eu estava em pleno puerpério – período pós-parto em que as mulheres ficam loucas – então não tenho o que dizer. Mas nas últimas semanas, vendo o trânsito parado por causa das faixas de ônibus pensei: finalmente a verdadeira mobilização popular! Tem alguma coisa mudando. Eu sempre achei que as medidas relativas a transporte em São Paulo deveriam ser radicais. E finalmente isso está acontecendo (para mim, juro, parece um sonho). Com erros e acertos, o transporte individual finalmente está saindo da prioridade. Parabéns, Haddad. E adoraria emendar com parabéns, paulistanos, mas ouço muito mais gente reclamar do que elogiar.

4. Você praça/acho graça/você prédio/acho tédio
Tem um toque de torcida, mas neste ano acho que mais gente passou a concordar que espaço público é importante demais. Eu comecei a achar isso no dia da feira Tijuana na Casa do Povo (a Casa do Povo foi, pra mim, a descoberta arquitetônica do ano). Aquela feira com publicações incríveis, naquele espaço sensacional, cheio de gente comprando coisas legais e combinando de se encontrar depois na festa junina do Minhocão… E renovei minha esperança há duas semanas, no Parque Augusta: todo mundo canga estendida no chão para protestar na forma de festa que ali deveria ser o que ali já é: um parque. Tomara que seja verdade. Tomara que em breve dê para dizer: Parabéns, Haddad, pela consolidação do Parque Augusta como espaço integralmente público. Parabéns, prefeito, por priorizar para valer o que é público.
VIVAAA!! Dias depois de escrever esse texto (ele ainda estava nos rascunhos, não tinha sido publicado), o Haddad sancionou a lei que transforma o parque em parque. Parabéns, Haddad. Parabéns a todos que pediram o parque. Viva o parque!

6. Haddad
Putaqueopariu, será que é verdade que temos um prefeito que prioriza o que é público? Temos um prefeito que quer fazer aquilo que é melhor pra cidade mesmo que isso custe na porcentagem de aprovação ou de popularidade que ele vai ter? Jura? Será que é verdade? Tomara que seja, tomara que seja, tomara que seja.

7. Breaking Bad
O que foi aquilo?

8. Candy Crush
Que porra é essa? Pela primeira vez na vida eu gastei alguns trocados com um app (me recuso a pedir coisas no Facebook, denunciando que joguei essa porcaria). De toda forma, fui pega, fiquei craque e saí dessa.

9. Homem, mulher, bicha, sapata, traveca, transgênero, transex, qual é seu sexo? Tesão.
Eu fui no show do Ney Matogrosso pela primeira vez neste ano. Estava grávida do meu filho. E quando vi o Ney Matogrosso ali na minha frente entendi que o que eu mais desejo para o mundo – e isso ganhou contornos bem menos abstratos para mim desde que me tornei mãe, porque agora quando eu desejo alguma coisa para mundo, no fundo no fundo estou desejando isso para o meu filho – é que os gêneros saiam dessas caixinhas estúpidas em que foram colocados e que possam ser vividos em formas mais flexíveis, livres e imprevisíveis. Quero que meu filho possa dizer “não sei” quando se questionar sobre sua sexualidade e possa experimentá-la mais livremente do que a minha geração pode.

10. Cervejeiros
As maravilhosas cervejas brasileiras que podemos tomar agora são fruto do trabalho de uma gente com vocação para ser pirata, lobo do mar, saltimbanco. O povo da cerveja tem alguma coisa de revolucionário, de fora da lei e de artista. Um quê de gente do circo e um tanto de nerd. Com poucos meses de dedicação a essa área eu já posso dizer que algumas das pessoas mais legais que eu conheci na vida eu conheci pela cerveja.

11. A importância da comunidade
A gente vai se deixando levar por esse modo de vida contemporâneo cada-um-por-si e acha que é isso aí… até que a vida vem e de leve mostra pra gente que somos gregários. Para mim, este ano foi de redescobrir a força da comunidade, seja pra exigir que a passagem do ônibus não aumentasse, seja para conseguir continuar amamentando apesar de todas as dificuldades. Seja para o Parque Augusta virar parque, seja para trocar informações sobre fraldas de pano.

12. Poesia em alta
O livro do Leminski em primeiro lugar como mais vendido. O livro da Angélica Freitas esgotado antes que eu pudesse comprá-lo. (Tem outros exemplos, mas eu não to lembrando agora. A memória não é mais a mesma e o tempo de pesquisar para escrever aqui também não. Mas esses dois são bons exemplos). A poesia está contaminando mais e mais gente. Viva doismilecrazy, esse ano com mais poesia, mais praça e mais comunidade.

13. Uma família
Em um nascimento não nasce só um bebê. Nasce uma mãe, um pai e uma família. A coisa mais linda deste ano foi ver meu namorado virar o pai do meu filho e a gente virar uma família.

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Esta foto concentra os itens 1, 2 e 13 (estamos aí eu, Tomé e Rafa, minha família, no Uruguai)

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O motorista, o ciclista e os pedestres assustados

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Foi na esquina da Angélica com a Jaguaribe. Um carro vinha, fez a curva e fechou a bicicleta. A bicicleta ia reto, mas fez a curva também. O ciclista emparelhou com o carro, gritou bastante com o motorista, deu um soco no vidro e voltou pra trás na contramão, no maior gás, subiu na calçada, tirou uma fina de uns dois pedestres assustados e foi.

O motorista do carro estava muito errado, ele não deu seta para avisar que ia fazer a curva, ele estava falando no celular, ele fechou o ciclista e quase provocou um acidente. Mas o ciclista, depois de xingar o motorista, entrar na contramão e subir na calçada no maior gás tirando fina de dois pedestres conseguiu virar o jogo, ficar ainda mais errado que o motorista e angariar a antipatia de todos os presentes.

Eu quero muito que São Paulo se transforme numa cidade em que as pessoas usam mais qualquer outro tipo de transporte que não seja o carro. E quero muito que a bicicleta possa ser um desses transportes. E sou muito a favor de que cada pessoa cobre da outra o seguimento às regras de civilidade e da boa convivência. Mas que isso seja feito com civilidade, boa convivência.

E, principalmente, respeitando as regras também.

(Essa linda ilustração eu peguei emprestada daqui)

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As vantagens e as desvantagens de não saber falar bem um idioma

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Estávamos em um café na rambla de Montevidéu. Fazia calor e, naquele dia, meu filho vestia uma camiseta rosada. A senhora-caolha estava na mesa ao lado e elogiou nossa filha:

- Ela tem um olhar muito vivo. Dizem que é sinal de inteligência.

Agradecemos e, em seguida, o Rafa corrigiu:

- Es varón. (Sei lá como escreve em espanhol, mas diz ‘é barón’ e quer dizer que é menino.)

Foi a senha para ela sentar mais perto para conversar mais. Eu fui ao banheiro trocar o barón que tava todo cagado.

Quando voltei, a vovó-pirata me disse umas tantas coisas dentre as quais eu pesquei que ela tinha achado prafrentex que a gente usasse roupa rosa no nosso filho. Contou que tinha umas fazendas a leste de Montevidéu, que tinha 85 anos e se chamava Silvia, mas que todo mundo a conhecia como Bimba, o que faz dela uma autêntica Tia Nenê da banda oriental do rio Uruguai (Bimba é Nenê, e eu me fascino com as velhas-nenês, essas oxímoras em extinção).

Dei a maior bola pra avuela-de-un-ojo. Ela encerrou a conversa, o Rafa mandou um galanteio (gracias por la charla), que arrancou dela um elogio (que gentil é o seu marido), que, por sua vez, arrancou de mim um agradecimento e um auto-elogio (obrigada, eu escolhi muito bem).

Lá pelas tantas ela foi embora do café. Eu fiquei olhando e fiz um pensamento bem positivo para ela, uma coisa tipo “que-sua-vida-seja-ótima,-tia-nenê-pirata”.

Daí veio o Rafa:

- Você não entedeu direito o que ela te disse, né?

E eu:

- Hãn? O que? Em que momento?

- Quando você voltou do banheiro, você não entendeu tudo o que ela disse.

- Não, acho que não.

- Ela disse:  ”Olha! Você parece um homem”.

Burn in hell, véia zarolha.

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Passe livre: cinco brisas

carbusbike

1.
Numa conversa por email entre todos os membros d’OEsquema (o Caracteres está dentro desse grande veículo chamado OEsquema, que tem homepage e que você pode curtir no Feice), a ideia era escolher uma tag para os posts sobre os protestos, e o Cristiano Bastos, do Nova Carne, sugeriu #passelivre. Eu fiz uma ressalva: a tag restringia a história toda ao lance da tarifa. Ele respondeu:

Quando sugeri “passe livre” quis depreender passe livre no sentido – “holístico” – de ir e vir, de manifestar-se, de não ser repreendido…Também.

Caiu uma ficha.

2.
Em entrevista à Ana, do Olhômetro (também d’OEsquema), o Emicida falou uma frase mais ou menos assim: “quem tem medo de andar pela cidade é quem mora na área nobre. Eu não tenho medo de ir pra lugar nenhum. Vou para todos os lugares.”

Eu invejei o Emicida.

3.
Esses dias, eu fui visitar um amigo e passei na frente de um colégio em Higienópolis. (Era começo da noite do dia seguinte àquele em que um funcionário do Sion foi assassinado na frente da escola.) Tinha uns meninos saindo da escola. Os pais deles esperando no carro na porta. O segurança falou para um deles enquanto eu passava:

- Tá ali seu pai, vai lá, rápido, rápido, rápido.

O menino, de no máximo 10 anos, deu uns quatro passos ligeiros e chegou ao carro do pai. Segui meu rumo triste, pensando que ele aprende na escola que calçada é lugar perigoso. Que andar é perigoso. Que seguro é estar dentro do carro.

4.
A recuada no preço da tarifa do transporte público é uma vitória. Mas é UMA vitória. É preciso melhorar o transporte público até o ponto em que ele seja tão bom que as pessoas prefiram andar de ônibus e metrô a andar de carro. 4.1. E, olha, isso não tem relação com posicionamento no espectro político. Eu tenho um amigo super liberal, que nas horas livres assiste discursos do Ronald Reagan no Youtube, e que só usa transporte público. Por amor à causa, por amor à cidade, porque quer que SP seja um lugar melhor. 4.2. A melhoria do transporte público é o primeiro passo para uma ocupação efetiva do espaço público.

5.
Passe livre não é pouco. Não precisa diluir essa causa com esse discurso aguado de “paz”, “corrupção” (e nem com o discurso cifrado e sabichão de pec37 – como alguém sugeriu por aí “faz uma enquete na rua perguntando se a pessoa é a favor ou contra a pec7 e depois pede pra ela explicar o que é pec e o que é a pec37″. Sejamos honestos… quem consegue explicar de verdade, sem usar a palavra mensaleiros na explicação?).

Isso aí só vai servir pra que “o gigante pegue a cobertinha, assista um espisódio de Mad Men e vá fazer naninha de novo”, como li no Twitter.

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Não vou, mas…

tres e vinte
O post hoje tem ilustração do ilustre elRafa Miranda, meu marido

É contraditório. 1. O fato de eu ter um bebê de dois meses me impede de ir à manifestação hoje. 2. O fato de eu ter um bebê de dois meses me faz querer ainda mais ir à manifestação hoje (aquele papo de que mundo vamos deixar pra eles?).

É assim que eu me divido nesta manhã.

Eu não vou (meu filho já chora demais, não quero nada lacrimogêneo perto dele/isso é só um gracejo, a verdade é que não dá mesmo), mas queria muito. Tenho tentado acreditar que faço meu papel ao falar sobre isso sempre que ouço alguém repetindo algum bordão anti-protesto, alguma frase colhida de algum dos meios de comunicação que estão fazendo o papelão de não perceber do que se trata. Acho que para todos que não poderão ir hoje, por estar longe, por ter outro compromisso, por ter um bebê para amamentar, esse é um consolo e um dever. Mas não é a mesma coisa de estar lá.

Eu não estarei lá. Mas ficarei aqui torcendo para que esse protesto se torne cada vez maior. A esta altura já está mais do que claro que não são só os R$ 0,20 (embora sejam, sim, os R$ 0,20 – e é bom não perder isso de vista). É também a violência, de todos os lados, que todos sofrem todos os dias. E eu realmente torço pra que a coisa aumente mais um pouquinho, “dá um passinho pra frente, pessoal” (quem nunca ouviu essa no busão lotado?): eu torço pra que essa movimentação devolva à lista de reinvindicações genuínas coisas que já foram relegadas à lista de desejos impossíveis.

Coisas que nós paulistanos já aceitamos que nunca serão nossas. Coisas que esquemos que temos direito de pedir. Que vamos procurar em viagens para outros países – ou indo morar em outro país. Dá para condenar alguém que se muda para outro país em busca de coisas tão elementares como o direito de circular pela cidade sem limitações (trânsito, violência, etc)? Não dá. E dá pra aceitar que já estamos tão acostumados a São Paulo como ela é (transporte individual, segurança particular, cada um por si e sabe-lá-Deus-o-que por todos)? Não, não dá.

Eu vou ficar por aqui torcendo para que a coisa continue, para que todo mundo dê um passinho pra frente e reinvindique coisas tão “irreais” (estava escrito sem aspas no editorial da Folha) como a tarifa zero e uma cidade melhor.

Vou ficar torcendo muito para que a polícia não repita a barbárie de quinta. Mas também vou ficar torcendo para que a ausência de violência da polícia não esfrie o ímpeto coletivo de exigir o que é nosso por direito.

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O vizinho estragou Heal the World

Todo domingo, não falha um, um vizinho aqui perto de casa coloca Heal the World, do Michael Jackson, para tocar. A primeira execução é sempre no fim da manhã. Durante a tarde, ela pode se repetir mais umas 3 ou 4 vezes, intercalada a outras músicas que não conheço ou que conheço mas não sei o nome.

Eu gosto de ouvir as músicas do vizinho. Simpatizo com quem acorda no domingo e cria um clima. Eu capricho no café da manhã, preparo tapioca, cuscuz, café e separo o jornal, crio meu clima ‘breafast at comercial de margarina’. Ele cria o clima dele ouvindo as músicas de que gosta todo santo domingo. Estamos juntos nessa, nunca vou reclamar dele.

Mas hoje, apenas hoje, depois de anos e anos de convivência com o setlist dominical notei que ele teve um efeito colateral gravíssimo, que abala a própria noção de quem eu sou.

É que uma das esquisitices que eu cultivava como sendo parte desse personagem a que eu chamo de eu era o fato de eu nutrir uma relação muito forte com Heal The World. Era, ao lado de You Are Not Alone, a minha música favorita secreta do Michael Jackson. Em público eu sempre direi que é Billie Jean. Mas aqui dentro sei que na verdade sou brega e sentimentalista e gosto mesmo de Heal the World e You Are not Alone. Tipo vamos todos juntos salvar o mundo, as crianças da África, vamos odiar a guerra e você não está só, estamos juntos, eu estou aqui, mesmo que estejamos longe.

E eu curtia muito essa minha verruga musical. Me afeiçoei muito a ela nos últimos tempos, tempos de voga do Michael pelo mais triste dos motivos, a morte.

Pois hoje, quando eu tostava duas fatias de pão germânico da padaria Aracaju (uma delícia, recomendo) com manteiga e passava o café, depois de já ter preparado uma colorida salada de frutas e ter transformado o leite em espuma para fazer a minha cena “o mundo pode cair, mas o meu café da manhã sempre será incrível” começou a tocar a Heal the World de todo santo domingo e eu percebi que o vizinho estragou minha verruga.

Eu não gosto mais da música. De tanto ouvi-la, de ouvi-la todo domingo, banalizou. Fodeu. Ela não é mais minha música favorita do Michael empatada com You Are No Alone. Agora You Are Not Alone está alone. Mas em público eu vou sempre dizer Billie Jean.

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No ouro do brasileiro, a língua do chinês

Obrigada Ben Stansall, da France Presse, que teve a sensibilidade de tirar esta foto. Aposto que você estava mordendo a língua na hora que fotografou

Eu gosto médio de Olimpíadas, trocaria fácil Olimpíadas por Copa, para a gente ter com mais frequência aquela rotina de encontros com os amigos no meio da semana típica de jogo do Brasil, mas agora que moro com a Lu, uma entusiasta dos esportes olímpicos, me deixei contaminar e tenho visto algumas provas em horários em que normalmente eu estaria fazendo outras coisas – em geral mais úteis.

Faz algumas horas que o Brasil levou o ouro nas argolas. E dessa competição histórica e emocionante, a minha cena favorita não envolve o brasileiro. É que eu fiquei muito tocada, mas muito tocada mesmo, quando o chinês, medalha de prata, ao aterrisar perfeitamente de sua sequência de equilíbrios e cambalhotas, abriu um sorrisão e mordeu a língua.

Eu simpatizo muito com as pessoas que mordem a língua em momentos de muita emoção. Eu mordo a língua quando faço força, o que sempre rende uma ou outra piadinha. Quando eu era uma criança e adolescente karateca, o meu sensei, que é como karatecas chamam o professor principal, sempre fazia troça: “Cuidado com a língua, Helô. Se você tomar um uraken, vai cair um pedaço fora”. Meu pai morde a língua quando precisa se concentrar, por exemplo, se precisa passar a linha pelo buraco da agulha.

Só quem tem o cacoete de morder a língua sabe o quanto ele é incontrolável. É dessas coisas que mostram o quanto o corpo pode ter vontade própria. Então quando o cara terminou a sua apresentação cravado, perfeitinho, lá foi a língua para o meio dos dentes.

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Comic SIM

Qual é a fonte mais horrível?
Helvetica é a pior fonte que já existiu. É sem graça, grossa e foi criada por um engenheiro.

O que acha das críticas à Comic Sans?
Quem a odeia não tem um pensamento liberal. Dizer que você odeia a Comic Sans significa que tem uma visão limitada e não entende que ela foi feita para alguém que não é você.

Essa pérola, esse trecho pequeno porém absolutamente conciso, está na entrevista que o Link publicou hoje com o criador da Comic Sans, Vincent Connare.

Perceba, esse trecho é uma declaração de liberdade. Ai, eu nunca achei que defenderia a Comic Sans. Mas o fato de o bom gosto ser escrito em Helvetica – o que de fato é fato – não deveria levar à conclusão direta de que a Comic Sans escreve mau gosto – embora seja fato que se conclua diretamente isso. Ou talvez seja exatamente isso, mas tudo bem. Porque, também, bom gosto sempre é uma chateação sem fim.

E aí olha o que eu achei procurando a linda imagem lá de cima. Um monólogo da Comic Sans criado pela McSweeney’s com o lindo título de I’m Comic Sans, Asshole. Veja um maravilhoso trecho:

” You don’t like that I’m all over your sister-in-law’s blog? You don’t like that I’m on the sign for that new Thai place? You think I’m pedestrian and tacky? Guess the fuck what, Picasso. We don’t all have seventy-three weights of stick-up-my-ass Helvetica sitting on our seventeen-inch MacBook Pros. Sorry the entire world can’t all be done in stark Eurotrash Swiss type. Sorry some people like to have fun. Sorry I’m standing in the way of your minimalist Bauhaus-esque fascist snoozefest. Maybe sometime you should take off your black turtleneck, stop compulsively adjusting your Tumblr theme, and lighten the fuck up for once.”

YEAH

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Hoje vou ao Bar Balcão

Essa foto eu tirei numa visita clandestina

Na minha separação, dois anos atrás, na divisão de bens, o Bar Balcão ficou com o meu ex. Foi a primeira coisa que decidimos. A conversa foi assim:

- É isso mesmo?
- É.
- Então é isso, né? É.
- É isso? É.
- Tá.
- Tá.
(breve silêncio)
- E quem vai ficar com o Balcão?

A discussão foi longa. Ele conhecia o bar primeiro. A primeira vez que fui lá, foi porque ele me levou. Mas, no caminho para o banheiro, tem um quadrinho com um texto meu para o Divirta-se falando sobre o hamburguer do Dudu (é verdade que eu tive a manha de errar o endereço, mas quando você vai sempre ao lugar, o endereço acaba perdendo relevância). E eu sou jornalista e todo mundo sabe que o Balcão é bar de jornalista. O que naturalmente deixaria o Balcão comigo.

Bem, como eu queria muito ficar com o sofá e com um quadro de luta-livre mexicana (ambos itens potencialmente polêmicos na hora de decidir o que era de quem), cedi o Balcão para garantir El Enmascarado de Plata.

Banida no Balcão, passei a frequentar o Bar da Dida (que eu já frequentava e sempre esteve na lista de bares favoritos). Eu achei bom mudar de ares, e os ares tinham definitivamente mudado. Embora não tenha nem mudado de quadra.

Mas como as regras são feitas para serem quebradas – e eu tenho meus informantes – quando o ex tá viajando ou dormindo (tenho a impressão de que a notivaguice ficou pra mim), volta e meia eu volto o Balcão. Já cheguei lá bem tarde, meia dúzia de gato-pingado, pra tomar dois bloody marys e falar mal do jantar afetado que nunca terminava num restaurante ali perto. E quando marco de encontrar amigos lá, amigos que sabem que fui banida do bar, adoro os primeiros momentos da conversa, em que faço uma cara de clandestina e digo: ‘eu não poderia estar aqui’.

Por obra do destino, a dona do Bar Balcão ficou sabendo dessa história e decretou:

- Ela pode vir aqui sim!

Bom, ela é a dona do estabelecimento, né. Então hoje, se o Bar Balcão abrir, eu faço questão de ir lá tomar um chope.

Quero manifestar meu carinho aos garçons, que ontem à noite foram agredidos no mais recente caso da onda de arrastões que parece querer dar o tiro na testa, aquele último, com indícios de execução, na vida paulistana.

Eu aceitei abrir mão do Balcão na divisão de bens. Mas me recuso – me recuso – a permitir que roubem o Balcão (e o Carlota, e a pizzaria Bráz etc etc e os resturantes e o bares e os bares que abrem às segundas-feiras e as pessoas que vão a bares na segunda-feira e essa coisa paulistana de se achar capital da gastronomia e da vida noturna mundial, que é um pouco jeca, mas tem uma graça toda própria) de mim e de todo mundo. Vamo?

Tunguei essa foto do Instagram do ex. Então aqui vai o crédito. Foto: Daniel Trench

PS. Ontem eu fui ao Dry, bar que não combina muito com meu estilão, e, na volta pra casa, passei na frente do Balcão. Era tipo meia-noite e pouco. E eu pensei: ai, a gente podia parar pra tomar uma saiderinha no Balcão. Mas era segunda-feira e o pessoal aqui em casa acorda cedo e tava aquela neblina toda sugerindo cama-cama-cama-cama. Um hora depois, cinco homens armados renderam um garçom do Balcão que estava fechando a casa, roubaram os poucos clientes que deviam estar insistindo naquela última rodada, e agrediram os garçons para roubar o caixa, de onde levaram R$ 200. Agrediram os garçons, mano. Os garçons do Balcão. Que são os garçons mais legais do mundo depois do Eugênio, o garçom do Prainha (de Higienópolis, não da Prainha da Paulista).

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