OEsquema

Salve o Dia Nacional do Samba

No início desta semana, o Rafa me pediu uma lista dos melhores sambas na minha opinião. Ele queria mostrar para uma amiga mexicana quais são os sambas fundamentais. Aproveito que hoje, dia 2 de dezembro é o Dia Nacional do Samba e coloco aqui as minhas indicações. Aliás, bem interessante o porquê desse Dia Nacional do Samba. Ele surgiu por iniciativa de um vereador baiano, Luis Monteiro da Costa, para homenagear Ary Barroso. Ary já tinha composto seu sucesso “Na Baixa do Sapateiro”, mas nunca havia posto os pés na Bahia. Esta foi a data que ele visitou Salvador pela primeira vez.

Voltando para a lista, ela está longe de contemplar todas as possibilidades de melhores, mas priorizei aqueles com os quais eu tenho maior afinidade, uma relação sentimental. Misturei pagode, samba-enredo, samba de roda, etc. Abaixo o meu Top Ten Samba – não estão em ordem de preferência:

- União da Ilha – “De Bar em Bar, Didi um Poeta”

Em primeiro lugar, o intérprete desse samba-enredo é Aroldo Melodia, um dos maiores puxadores de samba do Rio e, obviamente, do Brasil. Gosto do timbre de voz – meio mole, mesmo estilo do Ito Melodia, filho dele, e do Quinho do Salgueiro. Fora que ele imortalizou a frase “segura a marimba”. Esse enredo, de 1991, homenageia Didi, um grande compositor da União da Ilha. A letra é pérola atrás de pérola: “Hoje eu vou tomar um porre, não me socorre, que eu tô feliz”; “no bar da ilusão, eu chego, é pura paixão, que eu bebo”; “minha alegria deu um porre na tristeza”; “o sol vai renascer do meu astral”; “num gole eu faço carnaval”. Enfim, um verdadeiro clássico da boêmia. Como diversos sambas-enredos imortais, não sagrou-se campeão na avenida, a escola ficou em 9° lugar naquele ano.

- Candeia – “Ouro Desça do Seu Trono / Mil Réis”

Essas duas músicas, gravadas juntas, foram a minha grande iniciação ao repertório de Candeia. Na primeira parte, ele basicamente fala da perda de valores morais. É uma crítica social à valorização do dinheiro em detrimento do valor humano. A segunda parte é a típica dor-de-cotovelo, uma canção que chora a traição. Percebam que ele chama a mulher de “perdida”. Fino.

- Ismael Silva – “Antonico”

Falar o que de Ismael Silva? O cara simplesmente fez parte dos primeiros sambistas do Estácio. A história desse samba é interessante. Depois de ter sido preso por atirar num homem, Ismael foi preso e depois, em liberdade, ficou recluso. Na década de 50, gravou “Antonico”. Há boatos de que o personagem central dessa música se trata dele mesmo, que ele seria o Nestor e teria escrito uma carta a Pixinguinha na década de 50 pedindo ajuda.

- Noite Ilustrada – “Volta Por Cima”

A primeira vez que me deparei com uma música de Noite Ilustrada, fiquei confuso, uma vez que seu pesudônimo era o mesmo nome da coluna de Erika Palomino na Folha de S Paulo. Na verdade, Mário Sousa Marques Filho, ganhou esse apelido através de Zé Trindade, que comandava a revista musical Noite Ilustrada em Além Paraíba (MG), onde o jovem Mário começou a carreira de violonista. Essa música, de Paulo Vanzolini, caiu como uma luva na voz de Noite Ilustrada.

- Geraldo Filme – “Tradição”

Apesar de Adoniran Barbosa ser considerado pela opinião pública o único sambista de São Paulo, a cidade teve outros grandes compositores. Geraldo Filme trouxe para São Paulo a tradição do samba de Pirapora. Frequentou as rodas de samba do Largo da Banana, ponto fundamental do samba paulistano e passou por várias escolas de samba, mas ficou eternizado na Vai Vai. Foi lá, que compôs esse samba, um dos mais bonitos sobre a cidade, para entrar na Ala de Compositores da escola. Segundo Fernando Penteado, da Velha Guarda da Vai Vai – e diretor da Ala de Compositores no período em que Geraldo pediu admissão – quando viu a letra de Tradição ele disse: “Geraldo, eu pedi um samba, não um hino”.

- Beth Carvalho – “Vou Festejar”

Tem alguém que não conheça essa música? Impossível. O maior hino da dor de cotovelo da música brasileira.

- Grupo Tempêro – “Sexo Falado”

Na lista que eu mandei para o Rafa, eu incluí um dos maiores representantes do samba-canalha: “Deixa Eu Te Amar”, do Agepê. Mas lembrei que o primeiro disco de pagode que eu comprei tinha essa faixa do Grupo Têmpero, que é bem cafajeste também. Sente o clima: “Na cama o lençol manchado, revela o fato consumado. Fizemos um amor gostoso, transamos sexo falado”. Gênio.

- Colorado – “Catopês do Milho Verde, de escravo a rei da festa”

Além de ser considerado um dos maiores sambas-enredo da história de São Paulo, tenho uma ligação afetiva bem grande com ele. Meu tio e padrinho era diretor do Colorado do Brás. Nesse ano, 1988, grande parte da minha família desfilou pela escola. Lembro das pessoas cantando esse samba em casa e nas festas familiares. “Em forma de quilombo na avenida, Colorado se agita no desfile principal”.

- Zeca Pagodinho – “Maneiras”

Daqui 50 anos, Zeca Pagodinho vai ser lembrado como um dos maiores nomes da música popular brasileira. Por enquanto, ainda é visto com ressalvas, infelizmente. O grande lance de Zeca é ter entre seus amigos, compositores anônimos, gente do povo, que escreve crônicas musicais como essa.

- Alcione – “História de Pescador”

Considero Alcione a grande voz feminina do samba. Além de hilária, essa faixa é a faixa que abre o disco de estréia, de 1975, da Marrom. No mínimo, histórico.

2 Comentários
por: Luiz Pattoli postado em: Espeto tags: , , , , ,

2 Comentários

Comentário por Luiz Augusto Estacheski.
8 de fevereiro de 2013 às 15h51

puts Pattoli… esse post é demais… sempre tô voltando aqui pra lembrar algo e só agora declarando meu amor por essa seleção!

abrass!

Responder

Comentário por Luiz Pattoli
8 de fevereiro de 2013 às 15h56

opa, valeu!

Responder

Deixe um comentário