21 de maio de 2013 às 22h36
Ellen Ullman: ‘como ser uma programadora’
Ellen Ullman começou a programar na década de 70. Ela escolheu a carreira mais pela influência da família de seu pai, que tinha cientistas da computação e matemáticos, do por seu talento nativo. Ela ajudou a desenvolver interfaces gráficas que precederam o Windows.
Eu não tinha ouvido falar dela até cruzar com esse artigo no NY Times: ‘How to Be a ‘Woman Programmer’. É uma reflexão sobre o machismo no ambiente técnico (por que há tão poucas mulheres programando?) que eu acho que vale para outras áreas também. E por isso vou reproduzir alguns trechos dele aqui.
Ellen começa falando que era uma programadora comum – eficiente, mas não extraordinária. “O que parece que me distinguia era o fato de eu ser uma ‘mulher programadora’. As questões que muitas vezes me perguntam sobre a carreira tendem a se concentrar não em como aprendi a escrever códigos, mas em como uma mulher o faz”.
Quando Ellen começou, não havia nenhum tipo de proteção contra ambientes hostis contra mulheres. Um “cliente suado” acariciou suas costas enquanto trabalhava para consertar o sistema dele. Ellen cogitou se vingar estragando o trabalho, mas “percebeu que havia algo maior”: o desejo de criar bons sistemas.
Um chefe chegou a lhe dizer: “eu odeio contratar meninas, mas vocês são espertas pra cacete”. Ele havia contratado três mulheres. Em uma reunião, o chefe elogiou o cabelo dela. E, em vez de explodir de raiva, ela resolveu se concentrar no que estava aprendendo ali – resignou-se diante daquela que seria uma relação profissional complicada, em que surgiria a necessidade do chefe de exercer a sua dominância machista.
Ao longo de duas décadas de carreira, Ellen percebeu que o fato de ser mulher a tornava diferente de todos os outros. E a distância, ela explica, lhe deu uma visão clara da profissão e de seus impactos na sociedade. Nesta profissão, as mulheres estão isoladas. A “doença” que exterminou as mulheres deixou as sobreviventes com um fardo: elas não podem apenas ser boas. Tem de ser as melhores.
Hoje esse sexismo permanece. “A definição de sucesso se transformou em tocar a sua própria startup”, ela escreveu. Os investidores decidem em quem colocarão o dinheiro, e em geral são claros em relação ao que procuram: uma dupla de caras que possam escrever um aplicativo em um final de semana.
Uma mulher lhe contou que trabalha em uma empresa com 24 pessoas – quatro são mulheres, o que é considerada uma boa proporção. Nas áreas técnicas, essa proporção é ainda menor. Elas trabalham com marketing ou atendimento ao cliente, mas não assumem o comando técnico. “E a tecnologia”, diz ela, “está proporcionando mudanças fundamentais na vida pessoal, social e política”.
Como reagir a isso? É possível ter mudanças na lei e certo ativismo social, mas Ellen acredita que a mudança social é mais profunda – sempre haverá a piadinha. “Eu não estou aconselhando as mulheres mais jovens a aguentar. Você pode atacar de volta, você pode procurar outros empregos”, ela escreveu. Mas o preconceito continuará. O caminho certo é encará-lo de frente, o que demanda uma disciplina cruel: canalizar a raiva para “alcançar a dignidade”, ela diz.
(Ainda sobre esse tema, vale a leitura: RodAda Hacker ajuda mulheres a programar)
(A foto é uma reprodução do Guardian)
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