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Ellen Ullman: ‘como ser uma programadora’

Ellen Ullman começou a programar na década de 70. Ela escolheu a carreira mais pela influência da família de seu pai, que tinha cientistas da computação e matemáticos, do por seu talento nativo. Ela ajudou a desenvolver interfaces gráficas que precederam o Windows.

Eu não tinha ouvido falar dela até cruzar com esse artigo no NY Times: ‘How to Be a ‘Woman Programmer’. É uma reflexão sobre o machismo no ambiente técnico (por que há tão poucas mulheres programando?) que eu acho que vale para outras áreas também. E por isso vou reproduzir alguns trechos dele aqui.

Ellen começa falando que era uma programadora comum – eficiente, mas não extraordinária. “O que parece que me distinguia era o fato de eu ser uma ‘mulher programadora’. As questões que muitas vezes me perguntam sobre a carreira tendem a se concentrar não em como aprendi a escrever códigos, mas em como uma mulher o faz”.

Quando Ellen começou, não havia nenhum tipo de proteção contra ambientes hostis contra mulheres. Um “cliente suado” acariciou suas costas enquanto trabalhava para consertar o sistema dele. Ellen cogitou se vingar estragando o trabalho, mas “percebeu que havia algo maior”: o desejo de criar bons sistemas.

Um chefe chegou a lhe dizer: “eu odeio contratar meninas, mas vocês são espertas pra cacete”. Ele havia contratado três mulheres. Em uma reunião, o chefe elogiou o cabelo dela. E, em vez de explodir de raiva,  ela resolveu se concentrar no que estava aprendendo ali – resignou-se diante daquela que seria uma relação profissional complicada, em que surgiria a necessidade do chefe de exercer a sua dominância machista.

Ao longo de duas décadas de carreira, Ellen percebeu que o fato de ser mulher a tornava diferente de todos os outros. E a distância, ela explica, lhe deu uma visão clara da profissão e de seus impactos na sociedade. Nesta profissão, as mulheres estão isoladas. A “doença” que exterminou as mulheres deixou as sobreviventes com um fardo: elas não podem apenas ser boas. Tem de ser as melhores.

Hoje esse sexismo permanece. “A definição de sucesso se transformou em tocar a sua própria startup”, ela escreveu. Os investidores decidem em quem colocarão o dinheiro, e em geral são claros em relação ao que procuram: uma dupla de caras que possam escrever um aplicativo em um final de semana.

Uma mulher lhe contou que trabalha em uma empresa com 24 pessoas – quatro são mulheres, o que é considerada uma boa proporção. Nas áreas técnicas, essa proporção é ainda menor. Elas trabalham com marketing ou atendimento ao cliente, mas não assumem o comando técnico. “E a tecnologia”, diz ela, “está proporcionando mudanças fundamentais na vida pessoal, social e política”.

Como reagir a isso? É possível ter mudanças na lei e certo ativismo social, mas Ellen acredita que a mudança social é mais profunda – sempre haverá a piadinha. “Eu não estou aconselhando as mulheres mais jovens a aguentar. Você pode atacar de volta, você pode procurar outros empregos”, ela escreveu. Mas o preconceito continuará. O caminho certo é encará-lo de frente, o que demanda uma disciplina cruel: canalizar a raiva para “alcançar a dignidade”, ela diz.

(Ainda sobre esse tema, vale a leitura: RodAda Hacker ajuda mulheres a programar)

(A foto é uma reprodução do Guardian)

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O mapa do ódio nos EUA

Genial esse projeto Geography of hate.

Os criadores pegaram tweets geolocalizados para mapear mensagens de ódio e intolerância. É possível analisar o mapa de menções negativas à palavras como palavras como “homo”, “queer” e “nigger”. O resultado é um belo mapa da intolerância nos Estados Unidos:

O mapa analisou 150 mil tweets nos Estados Unidos entre junho de 2012 e abril de 2013. Os pesquisadores usaram um algoritmo para identificar palavras de ódio e classificar as mensagens como negativas. O robô, no entanto, é falho – e é por isso que estudantes ajudaram a avaliar as mensagens. Segundo os pesquisadores, apenas os tweets analisados pelos humanos entrou no mapa.

Fiquei curiosa: como seria a versão brasileira?

(via @Träsel).

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Como surgiu o SP Honesta

Eu estava em uma semana totalmente atípica no trabalho – muitas mudanças – quando vi no Facebook um post sobre o Boicota SP. Achei a ideia ótima, mas não fazia muito sentido para mim – afinal, eu já praticava esse boicote sem querer por não frequentar quase nenhum dos lugares listados ali.

Não tinha nenhuma grande pretensão quando postei no Facebook:

Os amigos receberam a ideia muito bem. Várias pessoas comentaram que tinham indicações. A Rebeca abraçou a ideia de cara. Eram umas 20h de quarta-feira, dia 10, quando eu tentei criar a primeira versão do Tumblr, mas eu estava cansada demais – foi a Rê que criou os perfis no Gmail e no Tumblr.

No dia seguinte, lá pelas 11h, resolvi mexer no negócio. Já tinha umas quatro ideias de posts. Entrei no Tumblr, escolhi o layout, avisei a Rê e começamos a alimentar. Ele ainda era um bebê com três míseros posts quando eu postei a ‘versão beta’ do site em forma de comentário.

E então começou uma das coisas mais surreais que eu já vivi. Eu escrevo sobre tecnologia e cultura digital há seis anos, sempre cobri muito fenômenos de internet, mas eu nunca tinha sentido isso na pele. O site foi criado ao meio-dia; a página do Facebook apareceu às 13h.

Às 14h já havia pedidos de entrevista – inclusive de emissoras de televisão. Um dos lugares indicados, um pequeno comércio, pediu para ser retirado do site. Ele não estava dando conta de tantos pedidos e não queria prejudicar os fregueses.

O dia acabou com 3 mil likes na página do Facebook, um logotipo lindo criado por um leitor que se entusiasmou com a ideia, vários pedidos de parceria, algumas entrevistas dadas para vários veículos e eu, a Rebeca e o Arnaldo – que começou a nos ajudar com a parte tecnológica e sabe como é, em casa de ferreiro o espeto é de ferro mesmo – discutindo ideias e possibilidades via Skype à 1h da manhã.

O Circo Voador sugeriu que criassem uma versão carioca do site. Outras versões já apareceram em Belo Horizonte e já procuraram a gente sugerindo a criação de um site para Curitiba.

E as entrevistas? Descobrimos como é estranho duas jornalistas darem entrevista depois de anos sentadas do outro lado. De repente, na tarde de sexta-feira, eu estava sentada onde trabalho, no Estadão, no meio da editoria de Economia, quando vejo o próprio Estadão compartilhando algo sobre o SP Honesta no Facebook. Entrei no link, vi que a notícia havia sido escrita por uma repórter de Economia e falei alto: “quem é a Yolanda?”. Ela estava sentada praticamente do meu lado. Eu falei: “você que escreveu sobre o SP Honesta? O site é meu!”. Demos risada quando descobrimos que ela conheceu o site através de uma amiga em comum do Rio de Janeiro que ela conheceu na África.

Eu e a Rebeca ficamos em um estado estranho. Acordamos cedo e começamos freneticamente a postar, organizar e planejar coisas para o site. Só naquela sexta-feira, o site teve 23 mil visitantes únicos.

“Estamos falando de uma ferramenta colaborativa pra ser feliz!”, escreveu a Thais Caramico no Facebook. “E a cidade vai se mexendo pro bem, como tem que ser”, postou o Ian Black.

Como era esperado, muita gente começou a questionar os nossos critérios. Normal. Se você se identifica com o site e com as indicações, ótimo. Se você discorda, tudo bem também. Não precisa entrar no site, não precisa seguir a página do Facebook. O SP Honesta surgiu de uma necessidade nossa – só isso – e cresceu porque muita gente também sente a mesma coisa. E a diversidade de opiniões torna tudo mais bonito.

A gente não quer estabelecer nenhum padrão de honestidade para nada. Aliás, ‘honesto’ é um conceito bem subjetivo, né? Os nossos critérios acabaram sendo o lugar onde nós iríamos, o lugar que entrega o que promete, o lugar que não cobra um preço excessivo por nada, o lugar que conquista os clientes com gentilezas. E também o lugar onde dá para beber cerveja 600 ml por R$ 5.

Quando eu conhecia um lugar novo (e surpreendentemente barato) eu sempre queria encontrar um jeito de divulgar, promover, valorizar aquilo. E eu fiquei muito feliz por ter criado algo que faz isso – e o grande número de indicações que recebemos comprova que muita gente também compartilha esse sentimento de querer dividir o que é bom. E alimentado por pessoas que gostam e usam os serviços, um guia funciona muito melhor.

Eu ainda não sei para onde tudo isso vai. A gente quer fazer um site com mais funcionalidades, um aplicativo, uma boa ferramenta de busca, pensar em novos conteúdos. A Rebeca abraçou a ideia com toda a força dela e tem sido a parceira perfeita para esse projeto – embora até agora a gente não tenha sentado direito e tomado sequer UMA cerveja honesta. (Ela só estava errada em uma coisa: ela comentou ainda no post inicial: “é colaborativo, não deve dar tanto trabalho”. Dá trabalho, sim – e muito. Mas é um dos trabalhos mais gostosos de se fazer).

A internet é maravilhosa :)

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Haddad e os sem-teto

Do Estadão, via @brutaflor:

Sete meses após serem expulsos pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) da frente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo de São Francisco, moradores de rua encheram o salão nobre da instituição de ensino, no centro da capital paulista.

A escolha do local, feita pela gestão do prefeito Fernando Haddad (PT), foi um recado, sinalizando rompimento com a política de Gilberto Kassab (PSD) para essa população. Entre as mudanças, está o fim das tendas, principal projeto social do ex-prefeito.

Haddad vestiu a camiseta vermelha do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) e ouviu o coro GCM cantando Caçador de Mim, de Milton Nascimento, para uma plateia nada acostumada a gentilezas vindas de gente fardada. “Hoje a GCM canta para a gente. Antes jogava jato d’água”, disse Anderson Lopes Miranda, do MRPR, que inflamou a plateia em seu discurso contra abusos da corporação.

O prefeito anunciou a criação do Comitê Intersetorial de Políticas para a População de Rua, que inclui os sem-teto. “Vamos encontrar soluções alternativas à mera repressão, que não é solução para nada”, disse Haddad. Ele também anunciou uma parceria com o Sesi/Senai, que vai dar cursos profissionalizantes para os moradores de rua. A primeira turma terá 200 alunos.

Ok, cantar música e etc é piegas, mas estou curiosa para saber como é que vai ser tudo isso na prática. Para uma cidade que convive com bancos, praças e rampas antimendigo, isso sinaliza uma mudança bem grande.


(para a gente não esquecer. via)

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Duas aulas de música

Um monte de crianças e dois professores incríveis:

(o vídeo do Tame Impala foi uma cortesia da @babee)

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Streaming, o queridinho

Eu já falei um monte de vezes que eu acredito no streaming como um modelo bacana de negócios para consumir música. Não acho que é a salvação – porque hoje em dia é muito difícil apostar em apenas um modelo para qualquer coisa – mas é uma coisa que entrega o que as pessoas mais querem: preço justo, comodidade e um acervo extenso.

Fazia um tempo que estávamos para falar de streaming no Link. Finalmente essa capa saiu: falamos com todos os serviços de música, com os grandes e também os novatos neste mercado, com quem dança a música do Ecad e com quem arranjou um jeito de se estabelecer fora disso. E tem também o lado dos músicos.

O gancho – se é que é preciso de um – que eu aproveitei no início do texto foi o 4me.fm, serviço criado por dois garotos de 18 anos e também por um titã da indústria da internet, Marcelo Ballona (que fundou, entre outras coisas, o Submarino).  Ele chegou a trabalhar com música no início do ano 2000, logo depois do terremoto do Napster, e me disse que ficou muito feliz de voltar a esse mercado agora – é, talvez essa seja mesmo a hora.

Eu praticamente só ouço música em streaming. Perdi meu iPod e minha biblioteca musical várias vezes nos últimos tempos. Isso poderia ter causado pânico e crise em outras épocas, mas agora nem dá tempo de sentir falta. Na verdade, tenho ouvido coisas diferentes (e meu ponto de partida sempre é o YouTube e/ou o Grooveshark).

O 4me.fm me chamou a atenção porque tem coisas que eu gosto em qualquer área, qualquer pessoa, qualquer serviço, qualquer empresa. Primeiro: ele é despretensioso. Começou em uma brincadeira, foi criado em uma noite, e cresceu de maneira orgânica. Segundo: ele é audacioso. Seus criadores usam a base musical do YouTube (que já paga direitos autorais) e conseguiram se encaixar em uma brecha que, de certa forma, peita a burocracia.

E eles apareceram num momento chave, em que os grandes serviços começam a aparecer – e a demanda por um Spotify ou algo do tipo por aqui começa a aumentar.

O site conseguiu milhares e milhares de usuários em poucos dias. “Isso mostra a necessidade do usuário final”, me disse Ballona, em entrevista por Skype. “É boca-a-boca, os usuários estão voltando. O Anderson (Ferminiano, que teve a ideia original) viu um problema, buscou uma solução, e criou um software. Eu não vejo isso como um negócio. Eu vejo isso como inovação”.

O 4me.fm, é claro, não bate de frente com os grandes serviços de música. Essa concorrência, aliás, nem está nos planos deles (embora pessoas já tenham se manifestado querendo investir no projeto).  O site não tem um modelo de negócios – por enquanto é um player bem bonitinho que recomenda músicas com um algoritmo próprio, permite a criação de playlists e torna as músicas do YouTube organizadas de uma forma um pouco mais coerente. Só isso. Funcionalidades estão sendo desenvolvidas de maneira aberta – já há vários colaboradores.

Quem pode não gostar muito são os concorrentes – e as gravadoras. E é aí que está a sacada do trio que criou o serviço: o YouTube já paga ao Ecad. Eles apenas ‘embedam’ os vídeos no serviço.

Se o Google não tivesse se posicionado no ano passado afirmando que o Ecad não poderia cobrar por execuções do YouTube em sites de terceiros, e se os criadores do 4me.fm tivessem levado a lei de direitos autorais ao pé da letra, o serviço não teria sido criado. (Já escrevi sobre como o combate à pirataria pode atrapalhar a inovação.)

“Falta conhecimento das autoridades. Elas precisam entender que a inovação vai acontecer de um jeito ou de outro, então é melhor se preparar a entender as necessudades do usuário. E aí sim criar uma lei que incentiva a inovação”, me disse Ballona. “Regulamentação é uma coisa, teto para a criatividade é outra. Neste caso, a legislação não pode ser um teto para a criatividade”.

A capa, publicada na última segunda-feira, foi feita junto com o Camilo e me deu um orgulho enorme. Além de ter ficado linda – acho que foi uma das mais bonitas em todo o meu tempo de Link, e lá se vão mais de três anos – a apuração foi extensa, o texto está bem completo e agora eu começo a ver que o tema está pautando o resto da mídia. Todo mundo está de olho nisso – as empresas grandes, as gravadoras, os empreendedores, os músicos – e vai ser divertido ver como esse negócio vai crescer neste ano.

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Eu não quero ser quantificada

A capa do Link de hoje foi sobre pessoas que monitoram a própria vida com a tecnologia. Usam aplicativos para calcular, por exemplo, quantos cafés são tomados. Ou para fazer gráficos e relatórios sobre suas despesas pessoais. Ou mesmo para calcular quanto tempo estão fazendo alguma tarefa e, assim, se lembrarem da hora de dar um tempo. O app com o sugestivo nome de RescueTime, por exemplo, monitora os períodos de trabalho e lazer e ajuda a estabelecer limites para as atividades.

Não tenho nenhum problema com nenhum desses aplicativos. Eu provavelmente seria uma pessoa melhor se conseguisse gerar relatórios de meus maus hábitos e, assim, ter uma perspectiva mais ampla sobre meus problemas e possíveis correções. Já até tentei usar o Expensify, que faz relatórios dos gastos, mas minha experiência durou exatos dois dias. Não tenho disciplina, nem mesmo quando há uma série de ferramentas que me ajudariam nessa função.

Na verdade eu fiquei um pouco aflita com isso tudo. Será que as pessoas estão com tão pouco controle sobre a própria vida que é necessário uma ferramenta externa para ajudar a retomar as rédeas? Que época é essa em que a nossa vida é regulada pelo tempo que passamos fazendo uma função que não faz bem para nós mesmos e precisamos de um aplicativo de celular para nos lembrar a sair do espiral?

Que tempos estranhos são esses em que precisamos recorrer à própria tecnologia para nos livrar do nosso vício em tecnologia?

Eu mesma sou vítima disso. Instalei várias extensões para o Chrome para tentar me impedir de me distrair com a falação da internet enquanto preciso me concentrar em alguma coisa. Nos momentos em que a fuga é inevitável, eu sou craque na auto-sabotagem: abro uma tab anônima no Chrome, e pronto, tudo fica liberado novamente.

É uma sabotagem tecnológica tão besta quanto ouvir música no shuffle do iPod esperando por uma música específica (e passar para frente para ver se ela será tocada aleatoriamente).

Nós somos acostumados a uma série de mecanismos e regras de funcionamento. A nossa vida está cada vez mais cercada por padrões, formatos, alarmes, lembretes, gráficos. Eu acho incrível que um aplicativo possa analisar o nosso sono e fornecer um relatório sobre isso (para sabermos, por exemplo, que as insônias são mais frequentes em fevereiro). Mas também vou achar estranho se, no futuro, todos nós nos acostumarmos a sermos monitorados o tempo todo, conhecendo aspectos obscuros de nossas vidas (como o tempo de vida que perdemos falando besteira no Gtalk, entre outras coisas menos publicáveis) que poderiam muito bem permanecer desconhecidos.

Afinal, todo mundo faz besteiras, procrastina, pula uma noite de sono, come bacon ou enche a cara de vez em quando. A diferença é que hoje há mecanismos para armazenar tudo isso e te lembrar coisas que o curso natural da vida trataria de esquecer. Todo mundo faz coisas que eventualmente, digamos, ‘baixam’ a nossa média de coisas boas. Mas os fatos, o dia-a-dia, a vida real, precisam ser mais importantes do que os gráficos. Eu prefiro a lei natural das coisas.

 


(taí um bom infográfico)

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Udigrudi, 40 anos

O Udigrudi, movimento musical, político e artístico que marcou Recife no início dos anos 70, completa 40 anos. E para comemorar a data, Bruno Firmino, responsável pelo saudoso Som Barato, lançou um novo blog só para celebrar essa cultuada cena.

Deixo a apresentação com ele:

Há 40 anos, entre os dias 20 e 31 de janeiro, Lula Côrtes e Laílson conceberam o disco Satwa nos estúdios da gravadora Rozenblitz. O LP é considerado o primeiro disco independente da música brasileira, além de abrir os trabalhos da cena musical recifense do udigrudi ou da turma do barato, como eram conhecidos na década de 70.
Para comemorar este marco musical, lanço este blog com todo o acervo desta época que tive acesso.

O blog servirá como um acervo permanente de tudo relacionado à época, com toda a discografia, vídeos, textos e algumas matérias. No decorrer do mês serão postadas algumas matérias e uma ilustração da amiga-designer Isabella Alves (A Firma) para compor o layout do blog.

Baixem, ouçam, leiam, compartilhem… udigrudirecife.blogspot.com.br

(e obrigada, Bruno, por me fazer ouvir “Satwa” de novo :~)

*A imagem acima é uma ilustração de Laílson, um dos autores de Satwa, gentilmente cedida para o livro Psicodelia Brasileira

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Depois de Aaron

Hoje me avisaram que a Eliane Brum me citou em seu artigo semanal na revista Época. Diz um trecho do texto:

É importante pensar sobre o significado da tragédia de Aaron Swartz. E, para começar, só o fato de ela poder significar algo para todos, sendo ele um jovem americano encontrado morto num apartamento em Nova York, é bastante revelador desse mundo novo que Aaron ajudava a construir. Esse mundo que nos une em rede, simultaneamente, que faz o longe ficar perto. Nesse contexto, a tragédia de Aaron Schwartz não é apenas um episódio, mas o marco de um momento histórico específico. Nele, diferentes forças econômicas, políticas e culturais se batem para impor ou derrubar barreiras no acesso ao conhecimentona internet. E este é, junto com a questão socioambiental, o maior debate atual. E é ele que está moldando nosso futuro.

Como disse Tatiana de Mello Dias, em seu blog no Estadão, “poucas pessoas traduziram tão bem a época em que nós estamos vivemos quanto Aaron Swartz”. Isso faz com que possamos pensar que sua morte é também, simbolicamente, um fracasso da geração a qual pertenço. Essa geração que testemunhou o nascimento da internet, que está decidindo – na maioria dos casos por omissão – como o conhecimento vai circular dentro dela e que, por ter crescido num mundo sem ela, nem chega a compreender totalmente o que está em jogo. E por isso deixa a geração de Aaron tão só.

Eu não seria tão pessimista. Como respondi a ela por um comentário, eu também sinto um desânimo e uma melancolia. E acho que a morte de Aaron pode sim simbolizar o fracasso de uma geração, mas significa também o surgimento de um herói para a geração dele – e para as que virão por aí. Eu tenho ficado tocada com o que está acontecendo nos EUA e no mundo depois disso.

No Link desta semana, eu falo um pouco sobre o que está acontecendo nos EUA e na internet após o suicídio dele: uma deputada já propôs uma lei para afrouxar as penas de quem comete crimes eletrônicos nos EUA, e a internet se organiza em diversos tributos. O #PDFTribute, apesar da ingenuidade em liberar arquivos no formato PDF (que não é exatamente um formato aberto), é um deles. O que aconteceu no esforço colaborativo para traduzir o Manifesto da Guerrilha pelo Acesso Aberto também.

E hoje eu vi mais uma coisa: a deputada responsável pela “Aaron’s law” nos EUA foi discutir o projeto no Reddit. E o papo está correndo solto, com a participação de gente como Lawrence Lessig (que, aliás, está profundamente tocado e mobilizado após a morte do amigo). Quem dera se o processo de discussão de projetos de lei fosse tão aberto e participativo quanto são os tópicos no Reddit. Exemplar:

 

Todas as circunstâncias são terríveis, mas eu não estou tão pessimista quanto a Eliane Brum. Eu entendo que muito da movimentação tem a ver com a perda de um garoto jovem e brilhante, e isso toca as pessoas, mas sei também que há coisas acontecendo que despertam mudanças que são mais permanentes e profundas.

 

(foto: reprodução/Link)

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Como é condenar uma pessoa

Como é a sensação de olhar para os olhos de alguém e decidir que aquela pessoa passará anos e anos na prisão? Como é a sensação de olhar para alguém que cometeu um crime e se colocar em uma posição para julgá-lo? Como é tomar uma decisão que mudará para sempre a vida de um desconhecido?

Hoje ajudei a condenar uma pessoa por tentativa de homicídio duplamente qualificado (5 votos a 2). A vítima sobreviveu aos golpes de facada. As versões da história oscilaram. A cada relato, uma coisa diferente: um insulto, uma cerveja que não foi paga, um tapa no rosto. “Lá no nordeste, tapa no rosto é questão de honra”.

Mas a verdade é que não importa a justificativa, não importam as condições de pressão e temperatura, a cultura, a região do país, a desestrutura familiar, o sistema educacional falho, a comunidade sem leis ou a falência da integridade policial e penitenciária. Não posso ser conivente com qualquer tipo de atentado à vida.

Confesso que me parte o coração. E me dói muito ter que me responsabilizar por uma decisão que vai mudar a vida inteira de uma pessoa. Vítimas de um país refém da corrupção e da ganância de poucos. E da reprodução dessa negligência nas esferas mais cotidianas da vida. Resta a ignorância, a dificuldade de lidar com as próprias emoções e com os conflitos, que são inerentes a vida e inevitáveis. Os maus tratos e o pior a se esperar dentro de uma cadeia.

Sigo pela máxima de que não vale a tortura de 1 para salvar 100. Nem mesmo um. A injustiça não pode ser combatida por meios injustos. Termino os meus trabalhos de juri deste e do próximo ano. Mas guardo na memória cada olhar de desamparo e arrependimento.

A minha querida amiga Dea Nunes foi convocada a participar de um júri popular. Ela fez parte de cinco audiências por dois anos. “No começo foi mais difícil”, ela conta. “Eu ficava realmente pensando e tinha grandes dilemas morais. Depois que achei uma linha pra seguir… vou por ela sempre”. Esse relato foi publicado no final do ano passado, um dos anos em que ela cumpriu suas obrigações com a justiça. E eu pedi licença para repostar aqui.

Eu fiquei procurando uma imagem para ilustrar isso. Pensei, pensei e lembrei desse desenho, que estava em uma parede da faculdade de direito da UFPE, em Recife. Tirei a foto em 2007.

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