19 de maio de 2013 às 1h20
oS mATADORES dE cALÇAS jUSTAS*
NO BLACK APARECE A FRASE.
“… Eles vieram de um sonho perverso de William Burroughs.”
A partir daí, intercalam-se planos do diálogo entre a costureira e os dois personagens do seu ateliê com o black dos créditos.
Cena 1 - Ateliê da costureira, interior/noite.
Enquanto recorta e costura alguns panos, a costureira, Dona Goreti, explica, de uma maneira quase filosófica, aos dois hard rockers, Dimas e Alisson, como é feito o cós de uma calça perfeitamente apertada. No começo, vemos apenas a costureira, uma mulher de seus 40 anos, cabelo curto, que faz um monólogo sobre a “arte do ajuste perfeito das calças” e algumas curiosidades do ofício, comuns a astros do rock dos anos 1970.
Donas Goreti - O cós de uma calça bem apertada precisa ser tratado com dedicação, principalmente quando o cliente deseja suas calças muito, muito justas. Requer habilidades com a tesoura, braços firmes para o manuseio da máquina de costura e, acima de tudo, dedos rápidos e precisos, como os de um bom guitarrista. Pois algumas roupas, meus caros, têm uma força toda particular, elas têm uma energia muito forte. Uma calça desajustada é como o Black Sabbath sem o Ozzy! Calças desajustadas são como o Black Sabbath com os vocais do Dio!
Entra o Black com o nome do filme e volta para um plano, agora mais aberto, da costureira perguntando:
Dona Goreti – De que maneira você gostaria o ajuste das suas calças, meu rapaz? E aparecem os dois, como boçais:
Dimas - Hmm… Quero minhas calças muito apertadas! E, depois dos créditos, surge a costureira sob o olhar dos caras:
Dona Goreti – Escutem… Aposto que tenho algumas histórias que podem agradar vocês um bocado…
Cena 2 – Exterior, em frente ao Garagem Hermética/noite Dimas e Alison vêm caminhando pela Barros Cassal, rumo à Garagem Hermética. Estão arrumados para a festa, glamour decadente:
Alison - Sabe, Dimas, descobri que ter sífilis é o canal.
Dimas – Como é que é?
Alison – É, é isso mesmo que você ouviu.
Dimas – Como você pode achar legal ter uma moléstia, uma moléstia que ataca seu órgão sexual?(coloca a mão no saco, apertando), Sabe, um Treponema. Um treponema pallium. Só o nome mete medo.
Alison – É simples, pense pela ótica de que sífilis tem cura. Isso faz com que seja uma doença simpática. Pode-se dizer que a sífilis ainda é o maior símbolo do sexo promíscuo. A sífilis permite que você dê uma trepada a qualquer hora, sem camisinha. Depois é só tomar uma vacina e curar. Com a AIDS não tem essa barbada.
Dimas – É verdade, me dê mais argumentos pra eu simpatizar com a sífilis.
Alison – Ah é? Por causa da AIDS os roqueiros de hoje não são completos. (pequena pausa) Antigamente era aquela coisa: (enquanto enumera, vai gesticulando) Orgias. Champanhe no café da manhã, uma dezena de garotas de biquini fio- dental de bunda pra cima na beira da piscina, drinques coloridos. Enfim, tudo que eu sempre sonhei…
Dimas – Mas alguns roqueiros modernos se arriscaram mesmo assim, não é verdade?
Alison – É, mas e se tu parar pra pensar, nenhum cara realmente legal morreu de AIDS. Só tipos sexualmente polivalentes: Freddy Mercury, Cazuza, Renato Russo… Na entrada do Garagem, eles entregam dois ingressos ao porteiro, vão subindo as escadas e passam por uns rappers e saem praguejando: “Odeio esses carinhas do rap, olha as calça deles, como sempre parecem que vão cair!.”
Cena 3 – Interior/ Ateliê da Costureira/ noite De volta, a Dona Goreti vai contando pra eles estórias. Uma delas é sobre a mãe do Slash, o guitarrista do Guns Roses. A costureira que fazia as calças de Alice Cooper e de outros rock stars setentistas.
Dona Goreti – Em 1970, em Detroit, nos estates, havia uma costureira de mão cheia. Ela fazia roupas apenas para rock stars. Naquela época, todos os pop stars decidiram que era importante se vestir bem. Eles eram egocêntricos – demais! Alison e Dimas aparecem dando de ombros, como quem não entende do que se está falando.
Dona Goreti – Ellen Slash, a mãe do guitarrista do Guns N Roses, o Slash. Esse era o nome dela. Certamente, foi por isso que o guri decidiu ser um rocker. Ele ainda era só um pequeno fedelho, quando sua mãe recebia em seu ateliê astros do rock que estavam no topo. Eles vinham de todos os lados fazer modelitos com ela: David Bowie, Alice Cooper, Iggy Pop – tipos assim.
Dimas – Uau!
Dona Goreti – Naquela época, não existiam butiques especializadas em roupas pra bandas de rock, de modo que os próprio rockeiros tinham de bolar seu próprio figurino. Não havia algo como uma moda “rock wear”. Isso fazia com que os rockeiros também fossem um pouco estilistas.
Alison – Eles levavam isso tão a sério?
Dona Goreti – Claro! As calças bem ajustadas eram, sem exagerar, uma continuação dos discos. Para esses caras, obter o ajuste desejável, aquele ajuste “delineador”, que os tornava sexy, era um dilema tão grande quanto gravar um bom disco. Era tão desafiador como tirar da guitarra o timbre perfeito.
Dimas – (meditativo) As calças justas são mais importantes do que sempre imaginei…
Dona Goreti – Sem falar que sujeitos com calças justas, nas capas dos elepês, eram a certeza de milhões de discos vendidos. Podem acreditar: a indústria fonográfica está sempre em busca de novos Matadores de Calças Justas.
Cena 4 – Interior do Garagem Hemética/ Pista de dança em frente ao palco/ noite Rola o show de uma banda chamada Savannah. Os dois protagonistas estão assistindo à apresentação. Lá pelas tantas, Dimas começa a rir de Alisson, que fica puto da cara.
Dimas – A-li-son!
Alison – O que tem meu nome, velhinho?
Dimas – Teu nome é legal pacas! Pense bem: é um nome perfeito pro rock. Assim como a sífilis é a doença ideal. Alisson é um nome unissex, saca? Além do mais, tem uma pronuncia que soa internacional. A fonética também é outra coisa legal desse nome: A-li-son (e soletra, separando as sílabas). É pomposo. Sabe, vou te contar um troço, uma coisa que nunca contei para ninguém, jamais:
Alison – O que?
Dimas – Não gosto do meu nome. Na verdade gostaria de me chamar Dereck. Dereck Jewel, tá sabendo?!
Alison – É mesmo? Olha só para o teu nome, rapaz. Di-mas, mais demodé que isso, só camiseta pólo amarela! Mas…, por que diabos tu quer se chamar Dereck…. Dereck o quê?
Dimas – Jewel. Dereck Jewel. Dereck jóia, preza, massa, é um nome cool véio! Um bando de rappers olha pruns hippies:
Rapper1 – Alguém pode me dizer porque tudo quanto é hippie parece que veio da Bahia?
Rapper2 – Ah, sei lá. Odeio hippies e suas chinelas de couro.
Cena 5 – Interior/ fundos do Garagem Hermética/ mesa de bar/ noite Plano fechado, mostra um sujeito fracassado, Clóvis, que foi deixado pela namorada e reclama dela. Enquanto vai contando seus infortúnios, o plano vai se abrindo e mostrando todo um séquito de fracassados que está assistindo às lamentações dele e se comovendo junto. Estabelecido um plano geral, mostra Alisson entre os caras que estão compreendendo o que Clóvis quer dizer. Dimas está curtindo um filme que está passando numa TV, do outro lado:
Clóvis – O que eu não entendo é que ela nunca disse que, definitivamente, eu não a estava agradando. Quando a gente táva junto, ela até me disse que gostava de mim, sem muita convicção, mas disse. Fui eu, eu sei, que estragou tudo, deixando transparecer que táva tão apaixonado. Tá na cara que ela planejou, desde o começo, que seria uma vagabunda pro resto de sua vida. Todas mulheres que ainda não são putas, sonham um dia em serem putas, putas convictas, putas até os ossos! Porque as mulheres nascem putas, cara, e não há nada no mundo que possa mudar isso nelas. É um dogma. Elas não são sensíveis e carinhosas como são os homens. Elas estão sempre procurando um macho pra perpetrar a espécie. Elas têm um calendário programático para desenvolver sua prole. No fundo, são malditas antropólogas, cara! Por natureza. Dimas cutuca Alison:
Dimas – Velho, esse filme é legal. Mas porque os filmes feitos por gurizada têm sempre que ter morte? Tu sabe?
Alison – Ah, sei lá. Tu não tá vendo que o parceiro aqui tá enfrentando uma barra. O cara tá mal pacas!
Dimas – Ah, meu, tu nem conhece esse cara…
Alison – Mas não interessa. Ele é um dos nossos. Alisson vê, junto à TV, um sujeito que o chama com a mão estendida.
Alisson – Puta! Aquele ali não é o Telecaster. Dimas (se virando pra ver) – Merda, é mesmo! Mas onde será que ele andava? Faz anos que eu não via ele nas bocada. Vamos lá falar com ele. Enquanto eles se levantam, Alison dá um tapinha nas costas do Clóvis, que tá falando com a mão na perna de um sujeito, que tá do lado dele. E diz:
Clóvis – Só os homens me entendem.
Sujeito – Eu sei, Clóvis.
Cena 6 – Interior, bar, perto da TV. Dimas e Alison se encontram com Telecaster, que fuma cigarros compulsivamente.
Dimas – E aí, meu? Onde tu andava todo esse tempo?
Telecaster – (lacônico) Plêiades. Alison – Onde diabos é isso?
Telecaster – (responde com olhar injetado, voz grave e pausada, como se ainda estivesse sequestrado por aliens) Sistemas solares a 150 anos luz da terra. Alienígenas benevolentes. Uns sujeitos bem camaradas. Me convidaram pra dar uma volta na sua nave. Uns tipo bem amigáveis. Haviam dois deles, um casal: Quiche Lorraine e Crepe Suzétte.
Alison – O que fizeram com você?
Telecaster – Nada. Na verdade, não fizeram nada. Quem fez algo fui eu. O que eles curtiam mesmo é serem abduzidos: já estavam entediados desse negócio de papai e mamãe, de sempre ter que introduzir coisas nas pessoas e nunca sentir nada em troca. Eles gostavam mesmo é de bancar o papel de vítimas. Ah! E como gostavam!… Trepamos. Trepadas verdadeiramente cósmicas. Nada desse papo ultrapassado de fêmea, macho; fêmea e fêmea; macho e macho.
Dimas – Uau! Mas que afudê! E me diga uma coisa: o que mais tu fez de interessante por lá?
Telecaster – Rock. Montamos um power trio: The Pretty Cosmic of Love. Nada dessa estória ridícula de crossover de ritmos. Dessa coisa atual, dessa coisa de…Argh! (como se relutasse a falar, tal seu desprezo por este tipo de gente), tipos alternativos carequinhas que usam óculos de aro grosso. Nada de bandas de rock que ficam se lamentando. Abaixo às bandas que se lamentam! Abaixo todos os frescos indies e alternativos!!! (seentusiasma, exasperando-se)
Alison – Pô preza.! E me diga uma coisa: não rolô por lá uns bagulhinhos sofisticados? Algo do tipo que nos faça viajar pra outras latitudes – tá me entendendo?
Telecaster – Tenho comigo uma droga que faria a Madre Tereza de Calcutá cometer latrocínio: Spaceball Ricochet. Pílulas de poder telúrico. Maremotos interiores. Translação dos sentidos. O espaço sideral, logo ali! (exclama com o dedo em riste, apontando pro nada)
]Dimas – Tá, e tu não tem um troço desses pra gente experimentar?
Telecaster – Óbvio. Meu dever na terra é praticar o bem, disseminando as virtudes de Spaceball Ricochet entre todos: hipsters, mods, hells angels, o pessoal da Klux Klan, rastafáris, pop rockers, cantores românticos, pós-modernos neuróticos, todos da turma “cyber-alguma coisa”, bichinhas lounge, mecatrônicos depressivos, neonazistas simpáticos, seguidores da new wave of the wave, Bay City Rollers, freak outs, sonic reducers, yippies, zippies, cretinos em geral. (e, por segundos, para pra pensar). E até mesmo clubbers. Oh sim: clubbers! Meu Deus! O que será de mim?
Dimas – Puxa vida!!! Não consegue um space aí?
Telecaster – (com a mão estendida com algumas pílulas brancas) – Tomem. Um pra cada um. E mandem lembranças minhas a Ashtar Sheran, aquela bicha loura. Dimas e Alisson tomam a droga e vão saindo de perto. Deixam Telecaster, enquanto um deles comenta:
Alisson – O Peróba tinha me dito que ele andava internado lá em Belém Velho.
Dimas – tomara que esse barato dê no melão.
Cena 7 – Interior do ateliê da costureira, dia. Dna Goreti – Mas nada disso teria a mínima importância se não tivesse existido os New York Dolls. Eles foram os mais junkies entre todos de todos. Mas tiveram muita elegância. Vestiam-se como mulherzinhas, mas comiam todas garotas: tinham todas aquelas groupies no papo. Poderiam até mesmo ter ganho o Prêmio Nobel, não fosse a quantidade de drogas que tomavam. Drogas e aquele tal Malcon McLaren…
Alison – Não foi esse tipo que fez o Sex Pistols…
Dona Goreti – É aí que está, garotos. Se não fosse os New York Dolls, não teria existido o Sex Pistols. E, provavelmente, não teria existido o punk. Naturalmente, se não tivesse existido o punk, não existiria o pós-punk. Nem a new wave, nem os new romantics, nem as guitar bands. Nem porra nenhuma! Imagina: não teria existido nada, absolutamente nada, se os New York Dolls não tivessem aparecido!
Dimas – Tá, mas e Malcon McLaren?
Dona Goreti – McLaren era uma espécie de Meridiano de Greenwich entre as duas bandas. Antes dele inventar os Sex Pistols, ele era empresário dos New York Dolls. Lá por 75, ele vestiu toda banda com couro vermelho, e deu a eles um discurso comunista.
Alison – Vai me dizer que eles começaram a pregar o apocalipse do capitalismo?
Dona Goreti – Não nada disso. Era apenas uma coisa visual. Era só uma grande piada com tudo aquilo. Imaginem comunistas viciados em drogas pesadas, vestidos de mulher e em plena guerra fria!
Dimas – E porque não deu certo? Dona Goreti – Por que Johnny Thunders, o guitarrista, e Jerry Nolan, o batéra, eram tão, mas tão viciados, que no meio duma turnê na Flórida resolveram voltar pra Nova York. E, lá na Flórida eles não encontravam heroína.
Cena 8 – Interior, Garagem Hermética Os caras da banda Savannah estão perto do palco do Garagem, com várias garotas ao redor, lhes paparicando. Dimas está passando por ali e para pra cumprimentar os caras da banda pelo grande show: Dimas – Grande show, véio. Vocês realmente pareciam um bando de poodles no palco.
Spades – (cool) É! O que a gente quer mesmo é fazer os caras do Poison parecerem machões, tá sabendo? Surgem uns grunges. Spades comenta com o Dimas:
Spades – A melhor coisa dos anos 90 foi a morte do Kurt Cobain. Odeio Grunges!
Dimas ri e sai de perto, outro dos caras da banda, Freb, aparece, explicando pruma mina:
Freb – Então entende de uma vez por todas! O F significa que a nota é FÁ. E o F, com o joguinho da velha do lado, é FÁ Sustenido. Sustenido – não é bemo! Pelamordedeus!
Cena 9 – interior, Garagem Hermética Alison tá na pista, em frente ao vidro que dá na mesa de som, pedindo ao DJ: “Toca um boogie woogie. Toca um Boogie Woogie!”. De dentro da salinha, pelo ponto de vista do DJ, não se ouve nada do que o cara tá gritando. Mas o DJ pega um CD do T-Rex e põe no som. Tudo isto sendo acompanhado pelo olhar desesperado do Alisson, que vibra com a música que o cara põe (“20th Century Boy”) e ensaia com uns amigos uma coreografia patética. Enquanto está dançando, vê um sujeito vestido de gaudério, com um machado ensanguentado na mão. Ele comenta com um dos amigos, mas ao olharem novamente, o tal gaudério desapareceu.
Cena 10 – Interior, Garagem Hermética. No banheiro do garagem, surge na história uma garota, Mesopotâmia, que está mijando. Ela é uma garota de seus 24 anos, que está descontente com a vida que leva, com o tipo de caras que conhece, com seu novo corte de cabelo… Ela e umas amigas estão falando sobre estas “efemérides femininas”. Comentam que os caras que elas conhecem não sabem se vestir bem, usam calças horríveis e meias que não combinam com os sapatos:
Mesopotâmia – (divagando) É que eu acho que chegou uma determinada fase da minha vida que…. sabe, eu tenho que mudar… Cansei de conhecer caras que se parecem os mesmos com os quem sempre andei. Estes caras entram na minha vida, eu cômo eles, mas depois não consigo diferenciá-los do meu irmão…
Valkíria (passando batom na frente do espelho) – E eu saí um dia desses com uma colega minha da faculdade, que é mais velha e se encarna um monte no lance de pedagogia. Só que, putz!, quando vi o jeito que a guria táva saindo de casa, não deu pra crer. Ela táva com um daqueles blusões vermelhos de lã, cheio daquelas bolinhas, e uma daquelas calças fusô de lã, tipo de camelô, preta, e com um cabelo desgrenhado – uÓ. E o pior é que eu acho que ela táva afim de curtir, sabe? Mas, báh!.., me deu pena, sabe?
Mesopotâmia – (insistindo no figurino dos caras) E esses caras com suas várias formas de se vestir… Estilinhos mil… Tô querendo fugir disso. Tô atrás de pessoas com maneiras simples de pensar, quero ser pragmática pra amar. Quero um lance tipo Meg Ryan/ Tom Hanks. Quero o American way of love!
Valkíria (se virando pra Mesopotâmia, enquanto esta puxa as calças/ saias) – Sério mesmo: adorei teu cabelo, guria.
Mesopotâmia - É? Báh, eu tava cagada de medo de cortar assim, mas … ah, eu também curti. Fora do banheiro está um Grunge que comenta que odeia clubbers, enquanto um “modernóide” está passando.
Cena 11- interior, Garagem Hermética. Cena do encontro de Mesopotâmia e Dimas. Começa uma música e seus olhares se encontram. Ele vai dançando até ela e fazendo pose, com uma ceva na mão, e chega na garota.
Dimas – Aceita uma ceva? Mesopotâmia – Tudo bem (e estica o copo vazio)
Dimas – Me chamo Dimas.
Mesopotâmia – Preza!!! ( Ela tá sendo irônica, essa puta!)
Dimas – Vem de Jimi Hendrix, saca? Meus pais eram hippies (Eles riem do som do nome, da fonética soletrada ). E o teu, qualé?
Mesopotâmia – Mesopotâmia.
Dimas – EEEmmme!( Ele se faz de surpreso)
Mesopotâmia – O que foi, tá tirando onda do meu nome, é?
Dimas – Preste atenção: A letra “M” rege tua vida. Pense bem: tudo na tua vida começa com a letra M. Isso, entre outras coisas, deve tornar você mais, digamos…., MULHER, isso ai! – mulher!. Mas sem machismo da minha parte. Eu, por me chamar Dimas, não passo de um débil mental. Ela ri, e se mostra bastante interessada no papo de Dimas.
Mesopotâmia – Me fala mais sobre isso. È que eu estudo psicologia, sabe? Achei legal!
Dimas – Ah, tu é psicóloga, é?
Mesopotâmia – Tô estudando pra isso. E tu, o que faz?
Dimas – Eu? Sou roqueiro. Isso aí: roqueiro. É só.
Mesopotâmia – Como assim? Tu tem uma banda de rock, é isso?
Dimas – Não! (Ele ri) Eu sou roqueiro; fico em casa ouvindo rock, lendo revista, vendo vídeos. Roqueiro, apenas. Ela meio que se desilude, mas larga de mão e resolve ceder. Mesopotâmia – Me fale mais sobre a letra “M” então.
Dimas – É uma letra complicada, sabe?! ( Eles se olham e ela não entende) Ela não fica atrás de outras consoantes – só de “P” ou de “B”…
Mesopotâmia – Mas e o D? Dimas – Pois é… ah, mas a gente dá um jeito. Mesopotâmia – Tu acha que o D pode ficar atrás do M? Dimas – Claro! E o que tu acha da palavra “admirar, admirável”? Mesopotâmia – Adoro!
Cena 12 – Interior, Garagem Hermética. Alisson encontra-se “viajando” pelo Garagem Hermética. Dá de cara novamente com Telecaster, que lhe diz:
Telecaster – Se ele tentar falar com você, não dê ouvidos. Eu sei que você também o viu por aí. Mas ele tem aquela voz aguuuuda, cara! Muito aguda… Alisson – Me explique que diabos de droga foi essa que você nos deu. O meu copo de céva tá se mexendo, meus neurônios tão todos ricocheteando, sinto como se meus órgãos estivessem todos soltos dentro de mim. Eu tô exalando felicidade pelos póros, cara! Essa é a droga da felicidade absoluta!!!
Telecaster – Hormônios, terráqueo. Dopamina versus endorfina. Você não vai acreditar, mas eu vi o Burt Reynolds virar uma mulherzinha na minha frente quando tomou Spaceball Ricochet. Isso tem poderes. Posso me transformar na Cláudia Cardinale, com peitões e tudo, se eu quiser. Quer ver? Alisson – Não, valeu. Depois de se separarem, Alisson vê de longe o Dimas, conversando com uma pessoa fantasiada de algo absurdo. E sai gritando pelo bar. Alisson – Eu quero uma lésbica hoje à noite. Meus peitinhos estão eriçados! (E depois cai no chão, bêbado.)
Cena 13 – Exterior/interior, frente da casa de Mesopotâmia, dentro. Dimas e Mesopotâmia saem do Garagem se agarrando e entram na casa dela – se agarrando. Quando ele vai tirar as calças, elas se rasgam. Ele então perde o entusiasmo e fica sentado ouvindo ela dizer: isto acontece, meu bem. E ele responde: comigo não, baby.
Cena 14 – exterior, Bric Musical – dia O dono do Bric Musical caminha pelo corredor do local e encontra um cliente, munido de sua guitarra e um mini amplificador de cintura, que o espera: Gladimir (dono do bric) – É, os pedais Cry Baby estão em falta…
Sá (cliente) – Puta-que-o-pariu! (e abaixa a cabeça, decepcionado)
Gladimir – Mas o Wah-Wah que eu tenho tá em perfeitas condições! É usado, mas tá novo.
Sá (triste, decepcionado) – Não, cara. Eu quero Cry Baby. E vou achar!
O Sá vai embora e, na saída, encontra os dois protagonistas, em frente à loja: Dimas e Alisson (com as mesmas roupas que vestiam nas cenas da costureira. Alisson, literalmente, está um zumbi, sequelado de Spaceball. Dimas está também “meio” liquidado).
Dimas – E aí, Sá? Achei que ia te encontrar no show da Savannah, no Garagem.
Sá – Não, meu. Tô numa jornada moderna de engajamento elétrico. Busco a verdade das guitarras amplificadas. E, porra!, não consigo achar um pedal Cry Baby em lugar nenhum dessa cidade.
Alisson – Mas do que tu tá falando?
Sá – Pentatônicas, meu: escalas criadas a partir de um tom, tipo o Lá, e seguida por outras notas que combinam entre si. (ele pára de falar e demonstra a pentatônica na guitarra, seguido pelo olhar abobalhado dos protagonistas) Essa escala serve pra enfeitar o rock da mesma forma que um sofá tem a capacidade de embelezar a sua sala com praticidade e comodidade insuperável. (ele pára pra ver se os dois entenderam, mas eles estão observando uma garota que está passando na rua). Mas como estava o show ontem? Mulherada?
Eles começam a falar junto, confusos, mentindo e se vangloriando:
Dimas – Comi uma mina que é filha do prefeito de Coronel Bicaco e mora sozinha num apê na Bela Vista, com vista pro Guaíba e tudo. Muito Afudê, meu. Tu tinha que tá lá, velho. Alisson – Tomamos um lance do espaço, que o Telecaster nos deu. Aquele cara que tava desaparecido desde 94, depois que o Senna morreu – lembra? Fiquei muito louco. No fim da noite, comecei a viajar que táva flutuando, mas daí apareceu uma fada, Rubenstein, se bem me lembro, era o nome dela. Nunca vou esquecer. Ela me disse: “garoto, você é aquele que vai livrar o seu povo e o guiar pelo deserto!” . Depois, fizemos amor loucamente. Seguem caminhando, os três, até que os protagonistas entram em um edifício.
Cena 16 – interior, edifício da costureira, dia.
No elevador, Dimas e Alisson questionam a qualidade da costureira que vão conhecer e que vai arrumar a calça rasgada do Dimas:
Dimas – Como é o nome desta costureira?
Alison – Sei lá. Costureiras têm nomes comuns, tipo: Dona Goreti… Dimas – Será que ela vai sacar que quero as minhas calças muito justas?
Alisson – Me disseram que ela dáva uma mão pros caras do Repli. Dimas – Ah, cara… Mas os Replicantes eram punks. E você nunca sabe como um punk deve se vestir.
Alison – É aí é que tá cara. Uma costureira é essencial no plano de amizades de um homem! Comentam que costureiras têm nomes comuns, tipo Dona Goreti. Ao abrir a porta para eles, ela lhes examina da cabeça aos pés e diz: “Então vocês são roqueiros, hein? Mas no que exatamente eu posso ajudá-los”?
Dimas – Esse papo é totalmente Funhouse. Se bem que os Stooges eram todos uns perdedores. Sabe que uma época Ron Ashenton pegou gonorréia uma dúzia de vezes? Não dá pra imaginar essa coisa de fazer rock e não comer mulher. Só esse bando de frescos de hoje, esses ( e cospe, como se estivesse enojado e com raiva) alternativos é que conseguem. Esses carinhas aí, que ficam cantando coisas como…. ah, sei lá…
*Roteiro inacabado escrito por mim e pelo Carlinhos Carneiro (achado em um e-mail perdido – que, claro, nunca foi realizado), ainda na faculdade de jornalismo, em 1999.
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Self Made-Man. Jornalista. Autor do livro Gauleses Irredutíveis. Colaborava com a Bizz. Foi repórter da Bien'Art (Fundação Bienal de São Paulo). Escreve reportagens especiais para a Rolling Stone. Diretor do documentário Nas Paredes da Pedra Encantada, sobre o álbum Paêbirú - Caminho da Montanha do Sol (1975), de Lula Côrtes e Zé Ramalho. Proprietário da Nouveau Comunicação. 
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