OEsquema

oS mATADORES dE cALÇAS jUSTAS*

Sticky Fingers Russian Cover Front

NO BLACK APARECE A FRASE.

“… Eles vieram de um sonho perverso de William Burroughs.”

A partir daí, intercalam-se planos do diálogo entre a costureira e os dois personagens do seu ateliê com o black dos créditos.

Cena 1 -  Ateliê da costureira, interior/noite.

Enquanto recorta e costura alguns panos, a costureira, Dona Goreti, explica, de uma maneira quase filosófica, aos dois hard rockers, Dimas e Alisson, como é feito o cós de uma calça perfeitamente apertada. No começo, vemos apenas a costureira, uma mulher de seus 40 anos, cabelo curto, que faz um monólogo sobre a “arte do ajuste perfeito das calças” e algumas curiosidades do ofício, comuns a astros do rock dos anos 1970.

Donas Goreti - O cós de uma calça bem apertada precisa ser tratado com dedicação, principalmente quando o cliente deseja suas calças muito, muito justas. Requer habilidades com a tesoura, braços firmes para o manuseio da máquina de costura e, acima de tudo, dedos rápidos e precisos, como os de um bom guitarrista. Pois algumas roupas, meus caros, têm uma força toda particular, elas têm uma energia muito forte. Uma calça desajustada é como o Black Sabbath sem o Ozzy! Calças desajustadas são como o Black Sabbath com os vocais do Dio!

Entra o Black com o nome do filme e volta para um plano, agora mais aberto, da costureira perguntando:

Dona Goreti – De que maneira você gostaria o ajuste das suas calças, meu rapaz? E aparecem os dois, como boçais:

Dimas - Hmm… Quero minhas calças muito apertadas! E, depois dos créditos, surge a costureira sob o olhar dos caras:

Dona Goreti – Escutem… Aposto que tenho algumas histórias que podem agradar vocês um bocado…

Cena 2 – Exterior, em frente ao Garagem Hermética/noite Dimas e Alison vêm caminhando pela Barros Cassal, rumo à Garagem Hermética. Estão arrumados para a festa, glamour decadente:

Alison - Sabe, Dimas, descobri que ter sífilis é o canal.

Dimas – Como é que é?

Alison – É, é isso mesmo que você ouviu.

Dimas – Como você pode achar legal ter uma moléstia, uma moléstia que ataca seu órgão sexual?(coloca a mão no saco, apertando), Sabe, um Treponema. Um treponema pallium. Só o nome mete medo.

Alison – É simples, pense pela ótica de que sífilis tem cura. Isso faz com que seja uma doença simpática. Pode-se dizer que a sífilis ainda é o maior símbolo do sexo promíscuo. A sífilis permite que você dê uma trepada a  qualquer hora, sem camisinha. Depois é só  tomar uma vacina e curar. Com a AIDS não tem essa barbada.

Dimas – É verdade, me dê mais argumentos pra eu simpatizar com a sífilis.

Alison – Ah é? Por causa da AIDS os roqueiros de hoje não são completos. (pequena pausa) Antigamente era aquela coisa: (enquanto enumera, vai gesticulando) Orgias. Champanhe no café da manhã, uma dezena de garotas de biquini fio- dental de bunda pra cima  na beira da piscina, drinques coloridos. Enfim, tudo que eu sempre sonhei…

Dimas – Mas alguns roqueiros modernos se arriscaram mesmo assim, não é verdade?

Alison – É, mas e se tu parar pra pensar, nenhum cara realmente legal morreu de AIDS. Só tipos sexualmente polivalentes: Freddy Mercury, Cazuza, Renato Russo… Na entrada do Garagem, eles entregam dois ingressos ao porteiro, vão subindo as escadas e passam por uns rappers e saem praguejando: “Odeio esses carinhas do rap, olha as calça deles, como sempre parecem que vão cair!.”

Cena 3 – Interior/ Ateliê da Costureira/ noite De volta, a Dona Goreti vai contando pra eles estórias. Uma delas é sobre a mãe do Slash, o guitarrista do Guns Roses. A costureira que fazia as calças de Alice Cooper e de outros rock stars setentistas.

Dona Goreti – Em 1970, em Detroit, nos estates, havia uma costureira de mão cheia. Ela fazia roupas apenas para rock stars. Naquela época, todos os pop stars decidiram que era importante se vestir bem. Eles eram  egocêntricos – demais! Alison e Dimas aparecem dando de ombros, como quem não entende do que se está falando.

Dona Goreti – Ellen Slash, a mãe do guitarrista do Guns N Roses, o Slash. Esse era o nome dela. Certamente, foi por isso que o guri decidiu ser um rocker. Ele ainda era só um pequeno fedelho, quando sua mãe recebia em seu ateliê astros do rock que estavam no topo. Eles vinham de todos os lados fazer modelitos com ela: David Bowie, Alice Cooper, Iggy Pop – tipos assim.

Dimas – Uau!

Dona Goreti –  Naquela época, não existiam butiques especializadas em roupas pra bandas de rock, de modo que os próprio rockeiros tinham de bolar seu próprio figurino. Não havia algo como uma moda “rock wear”. Isso fazia com que os  rockeiros também fossem um pouco estilistas.

Alison – Eles levavam isso tão a sério?

Dona Goreti – Claro! As calças bem ajustadas eram, sem exagerar, uma continuação dos discos. Para esses caras, obter  o ajuste desejável, aquele ajuste “delineador”, que os tornava sexy, era um dilema tão grande quanto gravar um bom disco. Era tão desafiador como tirar da guitarra o timbre perfeito.

Dimas –  (meditativo) As calças justas são mais importantes do que sempre imaginei…

Dona Goreti – Sem falar que sujeitos com calças justas, nas capas dos elepês, eram a certeza de milhões de discos vendidos. Podem acreditar: a indústria fonográfica está sempre em busca de novos Matadores de Calças Justas.

Cena 4 – Interior do Garagem Hemética/ Pista de dança em frente ao palco/ noite Rola o show de uma banda chamada Savannah. Os dois protagonistas estão assistindo à apresentação. Lá pelas tantas, Dimas começa a rir de Alisson, que fica puto da cara.

Dimas –  A-li-son!

Alison – O que tem meu nome, velhinho?

Dimas – Teu nome é legal pacas! Pense bem: é um nome perfeito pro rock. Assim como a sífilis é a doença ideal. Alisson é um nome unissex, saca? Além do mais, tem uma pronuncia que soa internacional. A fonética também é outra coisa legal desse nome: A-li-son (e soletra, separando as sílabas). É pomposo. Sabe, vou te contar um troço, uma coisa que nunca contei para ninguém, jamais:

Alison – O que?

Dimas – Não gosto do meu nome. Na verdade gostaria de me chamar Dereck. Dereck Jewel, tá sabendo?!

Alison – É mesmo? Olha só para o teu nome, rapaz. Di-mas, mais demodé que isso, só camiseta pólo amarela! Mas…, por que diabos tu quer se chamar Dereck…. Dereck o quê?

Dimas – Jewel. Dereck Jewel. Dereck jóia, preza, massa, é um nome cool véio! Um bando de rappers olha pruns hippies:

Rapper1 – Alguém pode me dizer porque tudo quanto é hippie parece que veio da Bahia?

Rapper2 – Ah, sei lá. Odeio hippies e suas chinelas de couro.

Cena 5 – Interior/ fundos do Garagem Hermética/ mesa de bar/ noite Plano fechado, mostra um sujeito fracassado, Clóvis, que foi deixado pela namorada e reclama dela. Enquanto vai contando seus infortúnios, o plano vai se abrindo e mostrando todo um séquito de fracassados que está assistindo às lamentações dele e se comovendo junto. Estabelecido um plano geral, mostra Alisson entre os caras que estão compreendendo o que Clóvis quer dizer. Dimas está curtindo um filme que está passando numa TV, do outro lado:

Clóvis – O que eu não entendo é que ela nunca disse que, definitivamente, eu não a estava agradando. Quando a gente táva junto, ela até me disse que gostava de mim, sem muita convicção, mas disse. Fui eu, eu sei, que estragou tudo, deixando transparecer que táva tão apaixonado. Tá na cara que ela planejou, desde o começo, que seria uma vagabunda pro resto de sua vida. Todas mulheres que ainda não são putas, sonham um dia em serem putas, putas convictas, putas até os ossos! Porque as mulheres nascem putas, cara, e não há nada no mundo que possa mudar isso nelas. É um dogma. Elas não são sensíveis e carinhosas como são os homens. Elas estão sempre procurando um macho pra perpetrar a espécie. Elas têm um calendário programático para desenvolver sua prole. No fundo, são malditas antropólogas, cara! Por natureza. Dimas cutuca Alison:

Dimas – Velho, esse filme é legal. Mas porque os filmes feitos por gurizada têm sempre que ter morte? Tu sabe?

Alison – Ah, sei lá. Tu não tá vendo que o parceiro aqui tá enfrentando uma barra. O cara tá mal pacas!

Dimas – Ah, meu, tu nem conhece esse cara…

Alison – Mas não interessa. Ele é um dos nossos. Alisson vê, junto à TV, um sujeito que o chama com a mão estendida.

Alisson – Puta! Aquele ali não é o Telecaster. Dimas (se virando pra ver) – Merda, é mesmo! Mas onde será que ele andava? Faz anos que eu não via ele nas bocada. Vamos lá falar com ele. Enquanto eles se levantam, Alison dá um tapinha nas costas do Clóvis, que tá falando com a mão na perna de um sujeito, que tá do lado dele. E diz:

Clóvis – Só os homens me entendem.

Sujeito – Eu sei, Clóvis.

Cena 6 – Interior, bar, perto da TV. Dimas e Alison se encontram com Telecaster, que fuma cigarros compulsivamente.

Dimas – E aí, meu? Onde tu andava todo esse tempo?

Telecaster – (lacônico) Plêiades. Alison – Onde diabos é isso?

Telecaster – (responde com olhar injetado, voz grave e pausada, como se ainda estivesse sequestrado por aliens) Sistemas solares a 150 anos luz da terra. Alienígenas benevolentes. Uns sujeitos bem camaradas. Me convidaram pra dar uma volta na sua nave. Uns tipo bem amigáveis. Haviam dois deles, um casal: Quiche Lorraine e Crepe Suzétte.

Alison – O que fizeram com você?

Telecaster – Nada. Na verdade, não fizeram nada. Quem fez algo fui eu. O que eles curtiam mesmo é serem abduzidos: já estavam entediados desse negócio de papai e mamãe, de  sempre ter que introduzir coisas nas pessoas e nunca sentir nada em troca. Eles gostavam mesmo é de bancar o papel de vítimas. Ah! E como gostavam!… Trepamos. Trepadas verdadeiramente cósmicas. Nada desse papo ultrapassado de fêmea, macho; fêmea e fêmea; macho e macho.

Dimas – Uau! Mas que afudê! E me diga uma coisa: o que mais tu fez de interessante por lá?

Telecaster – Rock. Montamos um power trio: The Pretty Cosmic of Love. Nada dessa estória ridícula de crossover de ritmos. Dessa coisa atual, dessa coisa de…Argh! (como se relutasse a falar, tal seu desprezo por este tipo de gente), tipos alternativos carequinhas que usam óculos de aro grosso. Nada de bandas de rock que ficam se lamentando. Abaixo às bandas que se lamentam! Abaixo todos os frescos indies e alternativos!!!   (seentusiasma, exasperando-se)

Alison – Pô preza.! E me diga uma coisa: não rolô por lá uns bagulhinhos sofisticados? Algo do tipo que nos faça viajar pra outras latitudes – tá me entendendo?

Telecaster – Tenho comigo uma droga que faria a Madre Tereza de Calcutá cometer latrocínio: Spaceball Ricochet. Pílulas de poder telúrico. Maremotos interiores. Translação dos sentidos. O espaço sideral, logo ali! (exclama com o dedo em riste, apontando pro nada)

]Dimas – Tá, e tu não  tem um troço desses pra gente experimentar?

Telecaster – Óbvio. Meu dever na terra é praticar o bem, disseminando as virtudes de Spaceball Ricochet entre todos: hipsters, mods, hells angels, o pessoal da Klux Klan, rastafáris, pop rockers, cantores românticos, pós-modernos neuróticos, todos da turma “cyber-alguma coisa”, bichinhas lounge, mecatrônicos depressivos,  neonazistas simpáticos, seguidores da new wave of the wave, Bay City Rollers, freak outs, sonic reducers, yippies, zippies, cretinos em geral. (e, por segundos, para pra pensar). E até mesmo clubbers. Oh sim: clubbers! Meu Deus! O que será de mim?

Dimas – Puxa vida!!! Não consegue um space aí?

Telecaster – (com a mão estendida com algumas pílulas brancas) – Tomem. Um pra cada um. E mandem lembranças minhas a Ashtar Sheran, aquela bicha loura. Dimas e Alisson tomam a droga e vão saindo de perto. Deixam Telecaster, enquanto um deles comenta:

Alisson – O Peróba tinha me dito que ele andava internado lá em Belém Velho.

Dimas – tomara que esse barato dê no melão.

Cena 7  – Interior do ateliê da costureira, dia. Dna Goreti – Mas nada disso teria a mínima importância se não tivesse existido os New York Dolls. Eles foram os mais junkies entre todos de todos. Mas tiveram muita elegância. Vestiam-se como mulherzinhas, mas comiam todas garotas: tinham todas aquelas groupies no papo. Poderiam até mesmo ter ganho o Prêmio Nobel, não fosse a quantidade de drogas que tomavam. Drogas e aquele tal Malcon McLaren…

Alison – Não foi esse tipo que fez o Sex Pistols…

Dona Goreti – É aí que está, garotos. Se não fosse os New York Dolls, não teria existido o Sex Pistols. E, provavelmente, não teria existido o punk. Naturalmente, se não tivesse existido o punk, não existiria o pós-punk. Nem a new wave, nem os new romantics, nem as guitar bands. Nem porra nenhuma! Imagina: não teria existido nada, absolutamente nada, se os New York Dolls não tivessem aparecido!

Dimas  – Tá, mas e Malcon McLaren?

Dona Goreti  – McLaren era uma espécie de Meridiano de Greenwich entre as duas bandas. Antes dele inventar os Sex Pistols, ele era empresário dos New York Dolls. Lá por 75, ele vestiu toda banda com couro vermelho, e deu a eles um discurso comunista.

Alison –  Vai me dizer que eles começaram a pregar o apocalipse do capitalismo?

Dona Goreti – Não nada disso. Era apenas uma coisa visual. Era só uma grande piada com tudo aquilo. Imaginem comunistas viciados em drogas pesadas, vestidos de mulher e em plena guerra fria!

Dimas – E porque não deu certo? Dona Goreti  – Por que Johnny Thunders, o guitarrista, e Jerry Nolan, o batéra, eram tão, mas tão viciados, que no meio duma turnê na Flórida resolveram voltar pra Nova York. E, lá na Flórida eles não encontravam heroína.

Cena 8 – Interior, Garagem Hermética Os caras da banda Savannah estão perto do palco do Garagem, com várias garotas ao redor, lhes paparicando. Dimas está passando por ali e para pra cumprimentar os caras da banda pelo grande show: Dimas – Grande show, véio. Vocês realmente pareciam um bando de poodles no palco.

Spades – (cool) É! O que a gente quer mesmo é fazer os caras do Poison parecerem machões, tá sabendo? Surgem  uns grunges. Spades comenta com o Dimas:

Spades – A melhor coisa dos anos 90 foi a morte do Kurt Cobain. Odeio Grunges!

Dimas ri e sai de perto, outro dos caras da banda, Freb, aparece, explicando pruma mina:

Freb – Então entende de uma vez por todas! O F significa que a nota é FÁ. E o F, com o joguinho da velha do lado, é FÁ Sustenido. Sustenido – não é bemo! Pelamordedeus!

Cena 9 – interior, Garagem Hermética Alison tá na pista, em frente ao vidro que dá na mesa de som, pedindo ao DJ: “Toca um boogie woogie. Toca um Boogie Woogie!”. De dentro da salinha, pelo ponto de vista do DJ, não se ouve nada do que o cara tá gritando. Mas o DJ pega um CD do T-Rex e põe no som. Tudo isto sendo acompanhado pelo olhar desesperado do Alisson, que vibra com a música que o cara põe (“20th Century Boy”) e ensaia com uns amigos uma coreografia patética. Enquanto está dançando, vê um sujeito vestido de gaudério, com um machado ensanguentado na mão. Ele comenta com um dos amigos, mas ao olharem novamente, o tal gaudério desapareceu.

Cena 10 – Interior, Garagem Hermética. No banheiro do garagem, surge na história uma garota, Mesopotâmia, que está mijando. Ela é uma garota de seus 24 anos, que está descontente com a vida que leva, com o tipo de caras que conhece, com seu novo corte de cabelo… Ela e umas amigas estão falando sobre estas “efemérides femininas”. Comentam que os caras que elas conhecem não sabem se vestir bem, usam calças horríveis e meias que não combinam com os sapatos:

Mesopotâmia – (divagando) É que eu acho que chegou uma determinada fase da minha vida que…. sabe, eu tenho que mudar… Cansei de conhecer caras que se parecem os mesmos com os quem sempre andei. Estes caras entram na minha vida, eu cômo eles, mas depois  não consigo diferenciá-los do meu irmão…

Valkíria (passando batom na frente do espelho) – E eu saí um dia desses com uma colega minha da faculdade, que é mais velha e se encarna um monte no lance de pedagogia. Só que, putz!, quando vi o jeito que a guria táva saindo de casa, não deu pra crer. Ela táva com um daqueles blusões vermelhos de lã, cheio daquelas bolinhas, e uma daquelas calças fusô de lã, tipo de camelô, preta, e com um cabelo desgrenhado – uÓ. E o pior é que eu acho que ela táva afim de curtir, sabe? Mas, báh!.., me deu pena, sabe?

Mesopotâmia – (insistindo no figurino dos caras) E esses caras com suas várias formas de se vestir… Estilinhos mil… Tô querendo fugir disso. Tô atrás de pessoas com maneiras simples de pensar, quero ser pragmática pra amar. Quero um lance tipo Meg Ryan/ Tom Hanks. Quero o American way of love!

Valkíria (se virando pra Mesopotâmia, enquanto esta puxa as calças/ saias) – Sério mesmo: adorei teu cabelo, guria.

Mesopotâmia - É? Báh, eu tava cagada de medo de cortar assim, mas … ah, eu também curti. Fora do banheiro está um Grunge que comenta que odeia clubbers, enquanto um “modernóide”  está passando.

Cena 11- interior, Garagem Hermética. Cena do encontro de Mesopotâmia e Dimas. Começa uma música e seus olhares se encontram. Ele vai dançando até ela e fazendo pose, com uma ceva na mão, e chega na garota.

Dimas – Aceita uma ceva? Mesopotâmia – Tudo bem (e estica o copo vazio)

Dimas – Me chamo Dimas.

Mesopotâmia – Preza!!! ( Ela tá sendo irônica, essa puta!)

Dimas – Vem de Jimi Hendrix, saca? Meus pais eram hippies (Eles riem do som do nome, da fonética soletrada ). E o teu, qualé?

Mesopotâmia – Mesopotâmia.

Dimas – EEEmmme!( Ele se faz de surpreso)

Mesopotâmia – O que foi, tá tirando onda do meu nome, é?

Dimas – Preste atenção: A letra “M” rege tua vida. Pense bem: tudo na tua vida começa com a letra M. Isso, entre outras coisas, deve tornar você mais, digamos…., MULHER, isso ai! – mulher!. Mas sem machismo da minha parte. Eu, por me chamar Dimas, não passo  de um débil mental. Ela ri, e se mostra  bastante interessada no papo de Dimas.

Mesopotâmia – Me fala mais sobre isso. È que eu estudo psicologia, sabe? Achei legal!

Dimas – Ah, tu é psicóloga, é?

Mesopotâmia – Tô estudando pra isso. E tu, o que faz?

Dimas – Eu? Sou roqueiro. Isso aí: roqueiro. É só.

Mesopotâmia – Como assim? Tu tem uma banda de rock, é isso?

Dimas – Não! (Ele ri) Eu sou roqueiro; fico em casa ouvindo rock, lendo revista, vendo vídeos. Roqueiro, apenas. Ela meio que se desilude, mas larga de mão e resolve ceder. Mesopotâmia – Me fale mais sobre a letra “M” então.

Dimas – É uma letra complicada, sabe?! ( Eles se olham e ela não entende) Ela não fica atrás de outras consoantes – só de “P” ou de “B”…

Mesopotâmia – Mas e o D?   Dimas – Pois é… ah, mas a gente dá um jeito.   Mesopotâmia – Tu acha que o D pode ficar atrás do M?   Dimas – Claro! E o que tu acha da palavra “admirar, admirável”?   Mesopotâmia – Adoro!

Cena 12 – Interior, Garagem Hermética. Alisson encontra-se “viajando” pelo Garagem Hermética. Dá de cara novamente com Telecaster, que lhe diz:

Telecaster – Se ele tentar falar com você, não dê ouvidos. Eu sei que você também o viu por aí. Mas ele tem aquela voz aguuuuda, cara! Muito aguda…   Alisson – Me explique que diabos de droga foi essa que você nos deu. O meu copo de céva tá se mexendo, meus neurônios tão todos ricocheteando, sinto como se meus órgãos estivessem todos soltos dentro de mim. Eu tô exalando felicidade pelos póros, cara! Essa é a droga da felicidade absoluta!!!

Telecaster – Hormônios, terráqueo. Dopamina versus endorfina. Você não vai acreditar, mas eu vi o Burt Reynolds virar uma mulherzinha na minha frente quando tomou Spaceball  Ricochet. Isso tem poderes. Posso me transformar na Cláudia Cardinale, com peitões e tudo, se eu quiser. Quer ver? Alisson – Não, valeu.   Depois de se separarem, Alisson vê de longe o Dimas, conversando com uma pessoa fantasiada de algo absurdo. E sai gritando pelo bar.   Alisson – Eu quero uma lésbica hoje à noite. Meus peitinhos estão eriçados! (E depois cai no chão, bêbado.)

Cena 13 – Exterior/interior, frente da casa de Mesopotâmia, dentro.   Dimas e Mesopotâmia saem do Garagem se agarrando e entram na casa dela – se agarrando. Quando ele vai tirar as calças, elas se rasgam. Ele então perde o entusiasmo e fica sentado ouvindo ela dizer: isto acontece, meu bem. E ele  responde: comigo não, baby.

Cena 14 – exterior, Bric Musical – dia O dono do Bric Musical caminha pelo corredor do local e encontra um cliente, munido de sua guitarra e um mini amplificador de cintura, que o espera: Gladimir (dono do bric) – É, os pedais Cry Baby estão em falta…

Sá (cliente) – Puta-que-o-pariu! (e abaixa a cabeça, decepcionado)

Gladimir – Mas o Wah-Wah que eu tenho tá em perfeitas condições! É usado, mas tá novo.

(triste, decepcionado) – Não, cara. Eu quero Cry Baby. E vou achar!

O Sá vai embora e, na saída, encontra os dois protagonistas, em frente à loja: Dimas e Alisson  (com as mesmas roupas que vestiam nas cenas da costureira. Alisson, literalmente, está um zumbi, sequelado de Spaceball. Dimas está também “meio” liquidado).

Dimas – E aí, Sá? Achei que ia te encontrar no show da Savannah, no Garagem.

Sá – Não, meu. Tô numa jornada moderna de engajamento elétrico. Busco a verdade das guitarras amplificadas. E, porra!,  não consigo achar um pedal Cry Baby em lugar nenhum dessa cidade.

Alisson – Mas do que tu tá falando?

Sá – Pentatônicas, meu: escalas criadas a partir de um tom, tipo o Lá, e seguida por  outras notas que combinam entre si. (ele pára de falar e demonstra a pentatônica na guitarra, seguido pelo olhar abobalhado dos protagonistas) Essa escala serve pra enfeitar o rock da mesma forma que um sofá tem a capacidade de embelezar a sua sala com praticidade e comodidade insuperável. (ele pára pra ver se os dois entenderam, mas eles estão observando uma garota que está passando na rua).  Mas como estava o show ontem? Mulherada?

Eles começam a falar junto, confusos, mentindo e se vangloriando:  

Dimas – Comi uma mina que é filha do prefeito de Coronel Bicaco e mora sozinha num apê na Bela Vista, com vista pro Guaíba e tudo. Muito Afudê, meu. Tu tinha que tá lá, velho.   Alisson – Tomamos um lance do espaço, que o Telecaster nos deu. Aquele cara que tava desaparecido desde 94, depois que o Senna morreu – lembra? Fiquei muito louco. No fim da noite, comecei a viajar que táva flutuando, mas daí apareceu uma fada, Rubenstein, se bem me lembro, era o nome dela. Nunca vou esquecer. Ela me disse: “garoto, você é aquele que vai livrar o seu povo e o guiar pelo deserto!” . Depois, fizemos amor loucamente.   Seguem caminhando, os três, até que os protagonistas entram em um edifício.

Cena 16 – interior, edifício da costureira, dia.

No elevador, Dimas e Alisson questionam a qualidade da costureira que vão conhecer e que vai arrumar a calça rasgada do Dimas:  

Dimas – Como é o nome desta costureira?

Alison – Sei lá. Costureiras têm nomes comuns, tipo: Dona Goreti…   Dimas – Será que ela vai sacar que quero as minhas calças muito justas?

Alisson – Me disseram que ela dáva uma mão pros caras do Repli. Dimas – Ah, cara… Mas os Replicantes eram punks. E você nunca sabe como um punk deve se vestir.

Alison – É aí é que tá cara. Uma costureira é essencial no plano de amizades de um homem! Comentam que costureiras têm nomes comuns, tipo Dona Goreti. Ao abrir a porta para eles, ela lhes examina da cabeça aos pés e diz: “Então vocês são roqueiros, hein? Mas no que exatamente eu posso ajudá-los”?

Dimas – Esse papo é totalmente Funhouse. Se bem que os Stooges eram todos uns  perdedores. Sabe que uma época Ron Ashenton pegou gonorréia uma dúzia de vezes? Não dá pra imaginar essa coisa de fazer rock e não comer mulher. Só esse bando de frescos de hoje, esses ( e cospe, como se estivesse enojado e com raiva) alternativos é que conseguem. Esses carinhas aí, que ficam cantando coisas como…. ah, sei lá…

*Roteiro inacabado escrito por mim e pelo Carlinhos Carneiro (achado em um e-mail perdido – que, claro, nunca foi realizado), ainda na faculdade de jornalismo, em 1999.

Comente

eNTREVISTA: eDY STAR

kaver

Edy Star (ou “Edy Bofélia”, como Raul Seixas lhe chamava), 71 anos, começou sua carreira artística em Salvador, no início da década de 1960. Foi um dos elementos que atuou no extraordinário álbum-levante Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 (CBS Discos/1971), juntamente com Raul Seixas, Sérgio Sampaio e Miriam Batucada – o quarteto da foto (Edy à esquerda).

Star ganhou notoriedade, ao ser descoberto pela “contracultura”, que notou suas performances em boates do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em 1975, estrelou a primeira montagem brasileira do musical Rocky Horror Show, produzida por Guilherme Araújo.

No ano seguinte, gravou o LP Sweet Edy (Som Livre/1974), com músicas compostas – especialmente para ele – por compositores do calibre de Roberto & Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Jorge Mautner. Além de Raulzito.

Edy Star considera-se “o primeiro artista glitter (ou glam) do Brasil”. Segundo ele, no meio artístico, também foi o primeiro a assumir sua homossexualidade em público. E, para quem não sabe, Edy é artista plástico de renome, com mais de 30 exposições no curriculum.

Durante 15 anos, Edy viveu na Espanha. Foimestre de cerimônias de um cabaré no centro de Madrid, onde – usando de suas próprias palavras – dirigia ”35 mulheres internacionais”.

Com Gilberto Gil, divide parceria na música “Procissão”.

Como “artista plástico”, é verbete na Enciclopédia de Artes Plásticas Brasileiras, de Roberto Pontual. Como “cantor de rock glam”, consta na Enciclopédia do Rock Brasileiro – A à Z, de Marcelo Dolabela.

Como é a sua vida em Madri?

Edy - Eu adoro Madrid, como todas as pessoas que vêm a conhecê-la. Gosto de andar pelas ruas antigas e velhos bairros. Visitar o Museu do Prado e os pueblos vizinhos. Amo o flamenco e as Tardes de Toro que, no Brasil, são chamadas de touradas.

Em 1975, você estrelou a primeira montagem brasileira da peça Rocky Horror Show. Dá para rememorar esses tempos?

Edy – Em 1974, fui chamado por Guilherme Araújo, para protagonizar o projeto. Inicialmente, seria com Wanderléa, Jorge Mautner, Jerry Adriani e outros. Mas, abandonei as reuniões do grupo porque não concordava com a direção. Daí o projeto michou. Tempos depois, estreou com elenco completamente diferente.

O Eduardo Conde fazia o personagem Vampirão. Porém, com 20 dias de estreia, Conde contraiu hepatite; Guilherme foi me buscar em Salvador, para substituí-lo. Consegui introduzir algumas coisas no espetáculo. Fiquei até o final da temporada no Teatro da Praia, no Rio de Janeiro.

Sua apresentação no Palco Toca Raul! foi considerada a melhor da Virada Cultural de São Paulo. Rolou a “presença” de seu velho e conterrâneo Raul Seixas?

Edy – Me dediquei a fazer um show diferente, divertido e muito dentro do espírito do disco Sessão das Dez. Só sei dizer que o público raulseixista entregou-se em todas as músicas. A força e o espírito e a força de Raul dominou todas as 24 horas de apresentações. Foi lindo e emocionante!

O que você estava ouvindo nos tempos do álbum Sweet Edy?

Edy – Eu atuava na Boite Number One, em Ipanema, levado por Maria Alcina para substituí-la. Ouvia o de sempre: muita música velha brasileira. Mas tinha sintonia com alguns “novos”, como Zé Rodrix, Gonzaguinha, Caetano, Novos Baianos e o velho e bom rock’n'roll. Adorava Humble Pie.

Porque você saiu do Brasil?

Edy – Eu estava praticamente sem mercado de trabalho. As boites não tinham conjuntos musicais. Eu trabalhava em cinco boites ao mesmo tempo – de Mauá à Copacabana. Durante oito anos, recebi o troféu Melhor Atração da Noite, todavia, o mercado estava cada vez pior.

Antes que começasse a passar fome, resolvi conhecer o país que eu mais queria, a Espanha. Mas, logo fui contratado; fui ficando. Voltei ao Brasil em 1999, atuei em várias peças de teatro e retornei às boites, só que era tudo muito difícil. Chamaram-me para voltar à Espanha e, assim, voltei à Madrid.

É verdade que você sobreviveu no Rio graças à uma maracutaia de Raul, que lhe arrumava grana mensal como prestador de serviços para a CBS?

Edy – Sim. Graças a Raul e a “seu” Evandro Ribeiro, que era o diretor da CBS. Desde que Raul me apresentou a ele, ficamos muito amigos. Era um gentlemen, muito culto e de bom papo. Ele tinha certeza que, um dia, eu iria estourar. Ele chegou planejar para que eu cantasse salsa.

Evandro me trazia discos dos states. Como eu não tinha emprego, e o compacto gravado sob a direção de Raul não me rendia nada, inventaram-me uma série de direitos conexos. Eu recebia meu tutu e a vida seguia correndo.

Quando Raul o chamou para gravar Sweet Edy, você disse que se surpreendeu muito: “Eu fui o único dos seus amigos da Bahia convidado para trabalhar com ele”. Raul estava em início de carreira. Percebia nele o potencial artístico que viria a desenvolver futuramente?

Edy – O Sweet Edy não! Para esse LP, o convite veio de João Araújo (pai do Cazuza e diretor da Som Livre), ao me ver atuando no Number One, em 1973. Quando Raul me contratou para gravar na CBS, cheguei a pensar que seria uma brincadeira, justamente por isso.

Havia gente mais importante e mais amiga, como o Thildo Gama e o Waldir Serrão. Eu nunca fui um bom cantor. Sou um cara que canta razoavelmente. Sentia o potencial do Raul vendo compor e produzir seus pupilos. Frequentei sua casa e sabia que ele tinha outras músicas que jamais poderia gravar na CBS.

Principalmente, como cantor. Para explodir, tinha de sair de lá. Foi o que ele fez.

“Edy Star” é verbete no Dicionário de Artes Plásticas do Brasil, de Roberto Pontual. Fale sobre essa sua vertente artística.

Edy – Eu desenhava desde pequeno e sempre tive bom traço. Depois, enveredei pela pintura, mas sempre como auto-didata. Fiz minha primeira exposição em 1961. Tempos depois, entrei para a equipe da Galeria Bazarte.

Tenho 32 exposições; 16 delas foram individuais. Estive presente em três bienais. Parei de pintar por falta de tempo e espaço. Mas estou voltando aos pincéis.

É verdade que Raul enciumou-se com a sua histriônica versão de “La Bamba”, na Rádio Sociedade da Bahia, nos anos 60?

EdySim, fui cantor dos programas de auditórios nas rádios de Salvador. Porém, conhecia Raul desde o Elvis Rock Club, ao qual tambem pertenci. Na Rádio Cultura, Raul e os Panteras encerravam o programa.

Não creio que fosse ciúmes: ele estava era puto da vida por ter que acompanhar uma bicha louca, como eu, enlouquecendo o auditório. Depois, fomos nos aproximando por meio dos papos de ensaios. Ficamos grandes amigos. Fizemos, inclusive, alguns shows juntos.

Qual era a melhor qualidade do Raul?

Edy – O bom-humor e o profissionalismo.

Como era a relação artística de vocês?

Edy – A melhor possível. Às vezes, discordávamos do valor de uma música ou outra. Mas isso nunca nos afetou, aliás, muito pelo contrário. Raul sempre me pedia para cantar o bolero mexicano “Suicídio”.

Ano passado, lendo o livro Baú do Raul Revirado, li que esse bolero era a segunda canção preferida de Raul.

40 anos depois, como definiria o álbum Sessão das 10?

Edy – É um disco atualíssimo. Muito inventivo e divertido. Não fica a dever nada ao de outros movimentos. Dos álbuns de Raul, para mim, os dois mais importantes são: Sessão das 10 – é nele que Raulzito dá a virada em sua carreira e, também, porque assina, pela primeira vez, Raul Seixas; depois, Krig-Há- Bandolo!, pois é o primeiro no qual assume seu lado cantor e assina todas as composições.

Como era integrar o quarteto kavernista?

Edy – Nunca nos consideramos fantásticos ou grandes artistas. Éramos só um pessoal na batalha para estourar um disco diferente. O único elemento que destoava era a Miriam, que vinha de São Paulo. Tinha outra cultura e outra procura pelo sucesso.

Eu, Sérgio e Raul éramos, praticamente, nordestinos unidos nos deboches, nas piadas, nas críticas e no humor. Curtíamos um bom baseado para abrir a cuca, podes crer!

Há planos de voltar ao Brasil e gravar um álbum?

Edy – Não tenho gravadora e nem estou na mídia!

Como seria se gravasse um disco novo?

Edy – Cheguei a fazer um projeto celebrando Raul Seixas. Contudo – de repente – tinha muita gente fazendo o mesmo. Também pensei num novo Sweet Edy, mas com o nome de O Último Kavernista. Ou, então, um disco com músicas do folclore nordestino.

Ou, quem sabe, faço um álbum independente de salsa e merengue: junto-me à uma banda decente com duas piranhudas indecentes mostrando a bunda. Pode não primar pela moral e pelos bons costumes, mas é o que o povão brasileiro gosta no momento. É a nossa cultura, né?

Comente

bLOWS yOUR mIND*

*The Electric Banana (The Pretty Things)- Blows Your Mind -(67/69)

Comente

pLATO dIVORAK: “nUNCA eSTOU dORMINDO”*

2007_12_15_0023

Com dois discos para serem lançados e um tributo em sua homenagem em produção, Plato Divorak reforça seu status de herói cult da psicodelia brasileira

1966. O ANO DO “AMANHECER PSICODÉLICO” – que, em 1967, culminou no verão do amor – alvejou o rock-and-roll, até então uma musicalidade “p&b”, com sonoridades multicoloridas.
Revolucionários álbuns lançados neste ano alteraram o curso histórico do rock:

Revolver (Beatles), Pet Sounds (Beach Boys), Fifth Dimension (Byrds), Face to Face (Kinks), Freak Out! (Mothers Of Invention), The Psychedelic Sounds of The 13th Floor Elevators (13th Floor Elevators).

Há 44 anos, o ventre do Planeta Terra também paria o ser (humano?) batizado Paulo Alexandre Paixão de Oliveira – o qual atende, porém, pela artística alcunha de “Plato Divorak”.

Muito melhor do que apresentá-lo é deixar tais honrarias para a epígrafe que o compositor de mão cheia, que Plato é, registrou na canção “Eu sou um ídolo pop”, que abre o seu disco com sua atual banda, Os Exciters:

“Hoje eu crio o ambiente das festas de minha juventude. Amanhã estarei de olhos vendados para a sua maldade. Que nasçam os frutos da bonança. Eu não vou compor a minha Yesterday, porque eu sou o Paul McCartney. Só que ele não sabe que ele sou eu… Na escuridão, eu atiro na tarântula. Não gosto de mulheres afetadas. E então, é nessa hora cósmica que proclamo: eu sou um ídolo pop!”

Deixe que ele fale por si mesmo na entrevista:

Quais as grandes bandas do rock pra você?

Plato - The Deviants, Love, Byrds, Velvet Underground, Can, King Crimson, MC5, Frank Zappa & The Mothers of Invention, Led Zeppelin, Television, Sonic Youth, The Who, Stranglers, Pink Floyd e Them.

Porque têm sonoridade única, transparecendo raça e talento – tão em falta hoje.

Vai fazer rock até morrer?

Plato - Queria que as pessoas soubessem que nunca estou dormindo. Enquanto a maioria dos mortais prepara a “caminha”, eu estou com três tipos de canetas (fina, média e grossa) preparadas para um ataque letrístico.

Psicodelia dá manga pro pano nos anos 2000?

Plato - Se está dando pros Mutantes, por que não vai dar pra mim?! Existem tentáculos que direcionam o artista pros mais livres métodos de criação, portanto, a psicodelia também está incluída.

Senão, não estaria tocando, conhecendo pessoas legais, trocando informações com outros músicos, making love, taking acid, smoking pot e touching chicken girls.

É só vir um grupo lá da Europa cantando temas franceses à la Vive La Fête, e todos já ficam ouriçados, loucos pra invadirem as boates. Que culpa tenho eu? É bem culpa do psychedelic world, coberto de invejas e intriguinhas. Eu, fora!

O selo Krakatoa Records ainda rola?

Plato - Existe, sim senhor! Comecei em 1991 com fitas k7, que estava muito na moda naquela época. Do ano 2000 pra cá, só lanço Cd’s.

Estou preparando um disco com dois shows acústicos: vai se chamar The Good Memories Bootleg, as minhas apresentações-solo.

As apresentações foram gravados em 1997. Outro lançamento na cartola é a coletânea Translucid Trippers, no qual a Krakatoa une os discos Guru Psychosis, de 2001 , e Saifaiscaflex, de 2004 – e mais 12 inéditas.

O rock psicodélico, o proto-punk, o lounge, o bizarrodelic dão as caras na coletânea. A qualidade da gravação é muito boa. Entrem em contato e terão o seu.

Qual foi o personagem mais subestimado do psicodelismo?

Plato - Alexander Skipe Spence, do Moby Grape, que lançou o disco solo OAR, em 1969. Ele chafurdou nas drogas sem saber aonde elas o levariam. Estou lendo sobre Spence no livro The Acid Archives, sobre artistas psicodélicos – de 1964 a 1982.

É fascinante. A história mais under do underground.

O imaginário em torno de Plato Divorak é verdade – ou mentira deslavada?

Plato - Muitas são as fofocas que me atingem de forma delicada, mas me fazem viver de forma mais arriscada, como o Roberto Carlos dentro de um helicóptero, não é mesmo?

Mas este imaginário, pra mim, são os degraus da sabedoria que eu mesmo galguei até chegar aqui.

Qual o filme mais louco que seus olhos já viram?

Plato - Um que vi nos anos 80: era tão ácido que aparecia uma igreja pegando fogo – um barbudo/cabeludo na cruz, e a gurizada de San Francisco fugindo pelas ruas. Safadeza…

O nome era Busca Alucinada! Fora esse, Easy Rider, Venus In Furs, The Trip, Riot on Sunset Strip, o grande Zabriskie Point.

Diga qual é “o disco” do psicodelismo brasileiro?

 Plato - Por Favor, Sucesso, do Liverpool. Foi lançado pela Tapecar, um raro selo gaúcho, em 1969. Me desculpem, mas não existem outros. Os Mutantes eu não cito porque eles faziam música lounge.

E a banda mais bizarra?

Plato - Talvez o Hapshash & The Coloured Coat. Esses caras faziam cartazes em 67, o visual dos caras era meio experience e o disco se chamava Western Flyer, de 68. Se você quiser escutá-lo como uma coisa audível, também pode.

Dê um panorama de sua carreira.

 Plato - Em 88, com os Jaquetas, toquei com Big Mac, o incendiário dos teclados. Depois toquei com Edu K no power trio O.F.F.

A Pére Lachaise surgiu ainda em 88, com os guitarristas Irapa e Eduardo Diaz. Flávio Passos, no baixo, e Sérgio Rodrigues, na bateria. Em 91, entraram o Alemão, na bateria, e o Frank Jorge, na guitarra, pois a Graforréia estava falida na época.

Circulavam pelo grupo “os guitarmen” Vasco Piva e Eduardo Christ. A Lovecraft começou em 94, com Betão na guitarra, Regis Sam no baixo e Gésner Mess, na bateria.

O grupo era muito paparicado por trazer de volta o som dos anos 60. Frank & Plato é de 93, e existe até hoje com o título de Frank Jorge & Plato Divorak e Empresa Pimenta.

Plato Divorak & Os Sha-Zams foi meu primeiro combo solo em 1996. Com o Momento 68, gravei o disco Onde Estão Suas Canções?, em 1999, São Paulo, com Sandrinho Garcia. Depois Plato & Os Analógicos veio em 2004.

De 1996 a 2004, me dediquei quase que integralmente as gravações-solo – uma espécie de “Jovem Guarda de Expansão”: muita lisergia, ritmos brasileiros e rock.

E o maior dos clichês psicodélicos, hein?!

Plato - Um deles te digo sem pestanejar: é aquela puxadinha de fumo – tipo assim, aquele magrão com a maconha na boca, olhando pra garota: “vamos?!” A outra são os cabelos, de todos os tipos, que todo mundo quer ter igual.

*Foto: Fernanda Chemale
Comente

oS nÃO-lEITORES dE jACK lONDON

jl

É DURO SER CATEGÓRICO COMO UM GOL DE PLACA e admitir que o hábito da leitura está perdendo grandes extensões territoriais para outras distrações mais “fáceis” no turbilhão agitado da vida das crianças, dos adolescentes e dos adultos modernos.

De fato, entre o povo brasileiro, a literatura nunca carregou porta-estandarte da mesma estatura que o futebol, cuja predileção sempre será soberana.

O Brasil não é a França, onde os índices de leitura chegam a sete livros por habitante/ano. Nossa média é de 1,8 livro. Não é por essa razão, certamente, que nos orgulhamos do Brasil e o amamos: nação banguela e cariada que, contudo, não deixa de sorrir à boca larga.

Em terras brasileiras, a bandeira da literatura é semelhante a do ensino público. Esfarrapada, em 500 anos, nunca foi prioridade nacional hasteá-la com louvor. No entanto, que se proclame a verdade. A “literatura”, consegue, sim, aproximar-se das multidões, todas às noites, quando vai ao ar mais um eletrizante capítulo da interminável saga maniqueísta travada pelos seres humanos nos folhetins eletrônicos – scriptum post scriptum, ano após ano.

Consegue lembrar quando foi a última vez que você parou pra conversar com um adolescente pra falar sobre um livro?

Eu não. Grande parte dos adolescentes, se não está se bolinando em frente ao playstation, prefere fazer isso no banheiro, e não há nada de errado nisso. Os mais avançadinhos investem ações no rentável mercado da “pegação”. Não há leitura nesse mundo que desbanque o binômio diversão virtual/fricção carnal.

Fiquei meio chocado – mas nem tanto -, quando um amigo, homem crescido, jornalista, confessou-me que naquele ano não havia sequer folheado um livro. Não fazia questão de esconder, o tremendo safado, uma ponta de orgulho em sua revelação. Estava provando a si mesmo que não precisava de leituras e, aparentemente, parecia que estava ganhando a aposta. Curtia mesmo eram umas cervas. Grande parceria, mas duvido muito que tivesse pego em armas, quero dizer, copos, digo, livros, há anos.

Diversões infernais - O mundo de hoje é um parque de diversões satânicas difícil de escapar. Um livro, perto desse inferno lúdico, é a expressão do monótono – a significação perfeita para a maioria das pessoas que não tem saco para ler ou acham isso pura perda de tempo.

Se um jovem ficar sábado à noite em casa lendo Dom Casmurro, ao invés de “cair na balada”, provavelmente seus amigos vão dizer que ele é depressivo. Ou freak, e logo uma terrível fama se espalhará. Ele pode até virar um assassino em série, se viver nos Estados Unidos. No Brasil, corre o risco de ser chamado de mulherzinha, se o pegarem lendo O Reverso da Medalha, de Sidney Sheldon.

Podem te chamar do que bem entenderem, mesmo que leia Sidney Sheldon – o que eles nunca vão entender é que dedicação à leitura se paga com uma moeda às vezes cara, a solidão. O aspirante a grandes leituras, com preço muito maior: a misantropia. Ler é um destino ainda pior para as famílias que não têm dinheiro para as coisas mais básicas da vida, quanto mais para comprar – por tudo o que é mais sagrado – um livro. De estômago vazio não se passa da orelha do livro.

A reportagem “Um país de não-leitores”, publicada pela revista The Economist, em março de 2006, estapeava a cara de todos: “Leitura no Brasil é a vergonha nacional”. Segundo a matéria, que apresentou dados de 2000, muitos brasileiros não sabem ler. Até aqui, sem novidades.

Agora, o que mais impressiona: “Dos que sabem ler, muitos simplesmente não querem ler: apenas um adulto alfabetizado em cada três lê livros. O brasileiro médio lê 1,8 livro não-acadêmico por ano – menos da metade do que se lê nos EUA ou na Europa”, escancarava a reportagem.

A The Economist também citou pesquisa recente sobre hábitos de leitura, na qual os brasileiros ficaram em 27º em um ranking de 30 países. De acordo com as pesquisas, no geral, gastamos 5,2 horas por semana com um livro, basicamente. Os argentinos, vizinhos, ficaram em 18º lugar na lista.

A revista ainda lembrou, alfinetando o monopólio dos meios de comunicação no país, que a Rede Globo, maior emissora de TV, também edita livros, jornais e revistas. Como se não bastasse…

A explicação para o descaso com a leitura, afirma a matéria da The Economist - fazendo a apuração jornalística que deixamos passar batido -, é que séculos de escravidão levaram os líderes da nação a negligenciar a educação.

No Brasil, a escola primária só se tornou universal na década de 90: “O rádio era presença constante já nos anos 30; as bibliotecas e as livrarias ainda não conseguiram emplacar. A experiência eletrônica chegou antes da experiência escrita”, explicou à The Economist o representante da Câmara Brasileira do Livro, Marino Lobello.

Se examinada com lente de aumento (e nem precisa colocar muito perto), a tal “experiência eletrônica” mencionada por Lobello delata, nas entrelinhas, muito sobre a precocidade que acomete atitudes dos jovens contemporâneos em várias áreas do comportamento.

De todo bom livro, mesmo o relato sobre a mais sórdida violência, exige-se um prefácio. A experiência eletrônica, contudo, não exige prefácio qualquer – “passa-se logo ao prepúcio”, parafraseando a zombaria de um amigo, literato, óbvio. A malandragem de hoje é puramente prepucial.

Desprefaciados - A mesma malandragem desprefaciada que não necessariamente ouve funk ou rock, mas engole mais drogas do que Hunter Thompson e os caras do Grateful Dead juntos, tudo numa noite só, como se tomar drogas fosse algum torneio disputado nas raves.

Perto das letras machistas do funk que estão na boca das multidões, o sexismo estereotipado da linguagem rock-and-roll, hoje mais do que nunca iletrado, ficou até meio démodé – embora o rock sempre retorne para cobrar seu dízimo de chauvinismo.

Mas todos os fenômenos produzidos em nossa sociedade, é preciso admitir, são culturalmente importantes – da escalada da violência ao blá-blá-blá antropológico do Big Brother, do BOP ao conteúdo das letras do funk.

O problema é quando, na grande cabeça ventricular da sociedade, esses fenômenos passam a ser códigos quase imperativos a serem compartilhados por todos. Indício claro de que alguma coisa vai muito errada. Não há dúvida de que alguma coisa vai muito errada.

Faz tempo!

Na obra A Importância do Ato de Ler, o educador Paulo Freire, ao seu estilo dialogante, narra os diferentes momentos em que a leitura aconteceu em sua vida. Ele diz que a leitura do “seu mundo” foi sempre fundamental, e não fez dele um menino antecipado em homem, “um racionalista de calças curtas”.

Freire conta que foi alfabetizado no chão do quintal de casa, à sombra das mangueiras, com palavras de “seu mundo” e não do mundo maior dos seus pais. O chão foi o seu quadro-negro; gravetos, o seu giz:

“A curiosidade do menino não iria distorcer-se pelo simples fato de ser exercida, no que fui mais ajudado do que desajudado por meus pais. E foi com eles, precisamente, em certo momento dessa rica experiência de compreensão do meu mundo imediato, que eu comecei a ser introduzido na leitura da palavra”.

Aos leitores cabe a experiência na “leitura da palavra”. O importante é começar de algum ponto. Comigo, um desses momentos mais importantes aconteceu com a leitura do clássico de aventura Caninos Brancos (White Fang), do escritor norte-americano Jack London (1876-1916).

Livro que li pela primeira vez numa velha edição da Editora Globo, traduzida pelo introdutor de London no Brasil, Monteiro Lobato – arrematada por cinco reais em um sebo de Porto Alegre.

No post seguinte, não mais falo sobre essa relíquia (avariada pelas traças e caninos afiados do meu cão salsicha, o Guri), mas sobre o maravilhoso volume lançado pela Companhia Melhoramentos. Preparada originalmente pelas Éditions Gallimard, traz ilustrações de Phillippe Munch e comentários do professor de antropologia da Universidade Louis Lumière, de Lyon, e especialista em América do Norte, Philippe Jacquin.

Caninos Brancos é a história de um lobo mestiço de cão que abandona a solidão gelada do extremo norte-canadense, o temível Wild, para ganhar a civilização.

Não tire o olho.

A aventura está apenas começando.

Comente

cANINOS bRANCOS

l-pm-pocket---caninos-brancos---jack-london_4175265_173758

CANINOS BRANCOS TEM UM DOS INÍCIOS mais tensos já escritos em uma história de aventura. Sua primeira parte inteira, que engloba os capítulos No Rastro da Caça, A Loba e O Uivo da Fome, transcende o sentido literário.

A narrativa construída por Jack London é verdadeira obra-prima que prenuncia a ação de cinema. O que prova que o escritor faria promissora carreira em Hollywoood, se para lá aportasse. História perfeita para a Disney filmar (e filmou).

São capítulos com tanto movimento que, no início do século, para o público leitor, devem ter valido pela emoção provocada pelas cenas de perseguição de automóveis de Steve McQueen em Bullitt, décadas avante. Ou as lutas do valentão John Wayne para dizimar os povos indígenas ameríndios.

Mas a realidade do livro é bem outra. Alasca. Final do século 19. Corrida do ouro. Gelo. Escassez de caça. A fome ronda as florestas. Dois homens, que transportam um esquife funerário, e os seis cães, que puxam o trenó, são acossados por uma matilha de lobos famintos liderada por Kitch, astuciosa loba. London, com sua experiência de garimpeiro no Klondike, não apenas conta a história – faz com que a gente não queira estar na pele desses homens.

O talento de Jack London para contar histórias é inimitável: mantém o suspense do leitor cerzindo as informações como um novelo de lã que se transforma em pulôver. Sempre que apropriado, fornece o seu famoso ponto de vista social, sem ser chato. Suas narrativas, além de aventurescas e libertárias, têm sempre o caráter jornalístico.

O espírito aventureiro de London tocou diretamente outro Jack, o Kerouac; a investigação jornalística posta em prática pelo escritor em livros como O Povo do Abismo, no qual denuncia a situação dos moradores de rua de Londres, inspirou, mais tarde, o chamado “jornalismo participativo”.

Na edição da Melhoramentos, os predicados jornalísticos originais do livro ganham força redobrada e as páginas, em papel couchê, beleza singular. Por ter ilustrado O Chamado Selvagem, outro livro de London que integra a série de obras universais da editora, Phillippe Munch foi chamado para criar o deleite visual de Caninos.

Munch optou por desenhos grandes e cheios de detalhes. Da orelha à contracapa, pinta impressionantes cenários que transportam o leitor para a atmosfera gelada do extremo norte e o faz participar da vida dos índios e dos garimpeiros. Philippe Jacquin, especialista em América do Norte, descreveu e comentou, em cada página e com bastante propriedade, documentos e objetos da época da corrida do ouro.

Caninos Brancos não é apenas a história de um cão-lobo que vê o mundo sob a ótica sórdida do Deus-Homem. No epílogo, há redenção. Em poucos parágrafos, Jack London descreve a regeneração moral do personagem Jim Hall, que pode ser facilmente interpretada, na verdade, como um apelo à regeneração social de todos os marginais humanos.

London acreditava na regeneração do homem, mas não pôde salvar a si próprio. Alcoólatra debilitado, morreu aos 40 anos, possivelmente por excesso de automedicação de morfina, não se sabe se intencional ou não. Deixou um legado único, como observa o escritor E. L. Doctorow:

“Nunca foi um pensador original, mas um grande devorador do mundo, física e intelectualmente. Era o tipo de escritor que, em qualquer lugar que estivesse, jogava os próprios sonhos na situação do momento. Era um esforçado gênio literário que sabia, por instinto, que a literatura era uma anfitriã generosa, que sempre tinha lugar para mais um à sua mesa”.

A obra de London permanece viva em dezenas de livros. Seu lema: “Mil palavras por dia”.

No próxima parada, no post abaixo, aprecie o trecho inicial do primeiro capítulo de Caninos Brancos.

Depois, prossiga na aventura conhecendo algumas das principais obras de Jack London.

A imagem que ilustra o post seguinte foi feita por Phillipe Munch para a soberba edição da Gallimard de Caninos Brancos.

Comente

nO rASTRO dA cAÇA

livros_a

Uma densa floresta de abetos margeava sombria o rio congelado. Há pouco, um vento despira as árvores de seu manto alvo e nevoso; pareciam curvar-se, hostis e agourentas, uma diante da outra à luz que definhava. Um silêncio profundo reiriava sobre a terra. Desolação, estupor, estagnação, extrema solidão e frieza era a terra que nem mesmo a tristeza era maior no seu espírito.

Havia nele uma insinuação de riso, mas de um mais terrível do que qualquer tristeza – um riso tão melancólico quanto o da esfinge, um riso tão cortante quanto a geada que comungava com o lúgubre da infalibilidade. Era a sabedoria despótica e inefável da eternidade escarnecendo da futilidade da vida e de seus esforços.

Era o Wild, o selvagem, o Norte de coração gélido. Mas havia, sim, vida por toda a parte, desafiadora. Uma fileira de cães-lobos descia lentamente o rio petrificado. Tinham os pêlos eriçados cobertos de neve. 0 hálito que subia de suas bocas congelava-se no ar, fundia-se em jorros de vapor que iam depositar-se sobre a pelagem de seus corpos transmutados em cristais de gelo. Os cães tinham coalheiras de couro, e de couro também eram os tirantes que os prendiam ao trenó que arrastavam atrás de si.

Era um trenó sem patins, com sarrafos de casca de vidoeira maciça cuja superfície repousava na neve. A proa dobrava-se como um pergaminho, permitindo-lhe pressionar e transpor por debaixo a massa de neve que se insurgia como ondas à sua frente. Dentro do trenó, firmemente amarrada, havia uma caixa comprida, estreita e oblonga.

Havia outras coisas no trenó: cobertores, um machado, um bule de café e uma frigideira; todavia, o que mais chamava a atenção, ocupando quase todo o trenó, era a caixa comprida, estreita e oblonga.

À frente dos cães, um homem com largas raquetes nos pés caminhava penosamente. Atrás do trenó seguia também com esforço segundo homem. No trenó, dentro da caixa, jazia um terceiro homem cuja lida havia se se encerrado – um homem a que o Wild subjugara e abatera de tal maneira que jamais se levantaria e nem lutaria outra vez. Não é próprio do Wild a afeição pelo movimento. A vida constitui-lhe um insulto, pois que se move; e o Wild tem como meta a destruição.

Ele congela a água pra que não corra para o mar; suga a seiva das árvores até emperdernir-lhes o coração com sua frialidade. Nada, no entanto, é mais feroz e terrível do que o modo esmagador com que sujeita o homem – o homem, a mais desassossegada das formas de vida, sempre em revolta com a máxima de que todo movimento, por fim, cessará.

Comente

7 oBRAS dE jACK lONDON

A Peste Escarlate

O Tacão de Ferro (Boitempo)

Romance visionário de Jack London escrito em 1907. Admirado por nomes como Anatole France e Leon Trotski, O Tacão de Ferro descreve uma insurreição a qual teria ocorrido entre 1914 e 1918, nos Estados Unidos, e que previa um confronto colossal entre capitalistas e a classe trabalhadora.

Nas edições lançadas anteriormente em português, o prólogo era normalmente omitido, o que tornava incompreensível a profusão de notas. Ciente da lacuna, a editora Boitempo não apenas recuperou o formato original como acrescentou um prefácio de Anatole France, escrito em 1923, e um posfácio assinado por Leon Trotski, em 1937.

O livro ganhou importância com o tempo, quando nomes consagrados reconheceram seu valor. O autor de 1984, George Orwell, contava que a leitura, nos anos 1940, de O Tacão de Ferro deixou-o profundamente impressionado.

O Povo do Abismo: Fome e Miséria no Coração do Império Britânico (Perseu Abramo)

Jack London também foi jornalista e destacado militante socialista nos Estados Unidos no começo do século 20, além de defensor ardoroso de mudanças na sociedade. Em 1902 foi à Londres, então principal metrópole do capitalismo mundial, para ver como viviam as pessoas degredadas pela máquina industrial do Império Britânico. Desempregados, doentes, idosos e pobres em geral. Foi viver entre eles no East End londrino, região da cidade onde a pobreza se concentrava. É esse relato sincero, contundente e revelador que deu origem a O Povo do Abismo, retrato sem retoques da injustiça social e da miséria no centro do império mais poderoso da época.

Lobo do Mar (Martin Claret)

Em 1904, quando lançou O Lobo do Mar, um de seus maiores sucessos, London consagrou um estilo em que explorava sua desolada infância e adolescência e as experiências que viveu tanto no mar como em terra firme. Em 1894, jurou encontrar meios para sair da pobreza, da servidão do trabalho braçal e da degradação social.

A Praga Escarlate (Conrad)

A Praga Escarlate foi escrito no conturbado período da vida de London que precedeu seu suicídio, cometido em 1916. Demonstra toda a aflição do escritor diante do destino da humanidade mergulhada na Primeira Guerra Mundial. London aprofunda uma tendência primitivista em sua literatura e cria um espetacular romance sobre o fim dos tempos: a história de uma praga súbita que dizima os seres humanos em minutos faz do auge da civilização industrial o terreno para um princípio de devastação. Partindo de uma reflexão sobre as condições de vida na sociedade moderna, passando pela crítica sobre a cidade urbana, o livro é contado segundo a vivência de um sobrevivente da praga escarlate. Até o Brasil está na história.

Antes de Adão (Lp&M)

Neste impressionante ensaio, Antes de Adão, o escritor fala do que chama de “personalidade dissociada”: o “Dentuço”, ser pré-histórico pertencente ao povo das cavernas, que teria vivido há milhões de anos e transmitido intactas suas impressões e vivências ao cérebro de Jack. A descrição exata e a emoção permanente fazem deste livro um fantástico relato de aventuras.

Memórias Alcoólicas de Jon Barleycorn (Paulicéia)

Jack London foi uma personalidade fantástica — corporificou a aventura, o destemor, a obstinação, a resistência física, o orgulho & inteligência. Mas Memórias Alcoólicas (não originalmente publicado como um apanhado de memórias e, sim, no formato de periódico, em fascículos) é o relato de todas as etapas que conduziram um ser não-alcoólico, London, a submeter-se a John Barleycorn, a personificação etílica de seu alcoolismo. A obra narra suas experiências com o álcool desde criança.

É seu livro mais triste, por causa da tremenda honestidade com a qual foi escrito, sem, no entanto, trazer um pingo sequer de autocomiseração. Durante muito tempo, London confessa: “Beber não foi um ato voluntário, mas imposição, prova de masculinidade e único ponto de encontro de solidariedade humana”. E mais:

“Todos bebem; bebe-se por tudo; as lembranças das grandes bebedeiras dão mais prazer que as de todos os demais feitos, verdadeiramente heroicos. John Barleycorn está em todo o lado e obriga os homens mais valorosos (porque os medíocres ele não ataca) a fazerem cenas ridículas, selváticas, assassinas, suicidárias. Entretanto, os sentimentos gloriosos, o brilhantismo das ideias, os poderes ilimitados — tudo isso John Barleycorn vai dando e é por aí que ele é mais condenável”.

Curiosamente, até muito tarde na vida, quando London não precisava beber, não bebia. Até o dia em que, revela o o escritor revela, teve o apelo cerebral para embebedar-se — e foi aí que deixou de recear John Barleycorn. Seu trajeto final estava traçado: beber sozinho, todos os dias, cada vez mais e por razão nenhuma, simplesmente pela longa convivência com o álcool:

“Eu estava carregando um belo fogo alcoólico comigo. A coisa era alimentada por seu próprio calor e queimou ‘the fiercer’. Não houve nenhum momento, enquanto estive acordado, que eu não quisesse uma bebida. Comecei a antecipar o término de minhas mil palavras diárias bebendo um drink quando apenas quinhentas haviam sido escritas. Isso não durou muito. Chegou o momento em que eu prefaciava as mil palavras com uma bebida”.

De Vagões e Vagabundos (LP&M)

“Deixando de lado os possíveis imprevistos, um bom vagabundo, jovem e ágil, pode resistir até o fim num trem, apesar de todos os esforços da tripulação para ‘despejá-lo’ – dado, é claro, a noite como condição essencial. Quando tal vagabundo, sob tais circunstâncias, decide firmemente que irá resistir até o fim, não há modo legal pelo qual os tripulantes do trem possam desalojá-lo. A menos que apelem para o assassinato. Por isso, muitas vezes, os restos mortais de vagabundos são recolhidos à beira das linhas férreas e uma nota nos jornais menciona que um desconhecido – vagabundo, sem dúvida; embriagado, com certeza – provavelmente adormeceu nos trilhos.”

Trecho foi extraído do livro Vagões e Vagabundos, que traz o emocionante ensaio O que a vida significa para mim e o relato Como me tornei um socialista.

Comente

nASCIDO pARA pERDER

74456_148333228667027_570837465_n

A VIDA NOS DESFALCA SEM AVISAR, excluindo as melhores pessoas de nossa convivência. Uma delas foi embora esses dias. A notícia de sua morte chegou aos amigos por terceiros. Jairo William era o seu nome. Caveman, seu auto-apelido.

Morreu por causa de complicações da Aids, aos 30 anos.

É uma obrigação minha falar dele, afinal, o conheci e apresentei aos amigos meus que se tornaram os amigos dele em Porto Alegre: Carlinhos Carneiro, Marcelo Benvenutti, entre muitos outros. Jairo e eu nos conhecemos por causa do rock, essa é a verdade.

Por volta de 1992, auge do grunge, bairro Itú-Sabará, Porto Alegre, berço da banda Liverpool nos anos 60. Caveman morava com a família na parte superior do sobrado onde meu irmão, Marcelo, e eu trabalhávamos para o meu pai em sua empresa de artigos de pesca (!) – Fish-Ton.

Éramos adolescentes. Nosso trabalho era embalar anzóis, boias, chumbadas e outros artefatos para pesca que meu pai revendia nos supermercados de todo o Rio Grande do Sul. Tínhamos um gato vira-latas muito meigo, o Maragato, que nos acompanhava durante a lida diária.

Na pestana pós-almoço, Maragato curtia aninhar-se em cima de mim pra tirar seu cochilo felino. Fora encontrado em um bueiro defendendo a irmã gata do ataque das ratazanas. Um gato valente, o Maragato. Até hoje lhe sou saudoso e, por muitos motivos, ao rememorá-lo a melancolia invade meus sentimentos.

Pior agora: ao pensar em Maragato Jairo Caveman vem-me por tabela.

Nosso encontro foi motivado por The Kinks. Em 1992, arrumar uma fitinha cassete da banda inglesa era como, guardado os devidos parâmetros, ter acesso a uma cópia do álbum Paêbirú. Marcelo e eu trabalhávamos o dia inteiro ouvindo a Rádio Ipanema FM em um rádio Telefunken circa 1973. “Sintonia modular”.

Depois acoplamos um cassete-player e, quando a programação ficava chata, a gente apelava para as coisas que ambos ouviam na época: Velvet Underground, David Bowie, T-Rex. Um dia meu irmão arrumou vinil do álbum Tanx, do T-Rex, que trocou por uma bolacha qualquer. Ouvir o disco foi das experiências mais mágicas que tive com arte durante um tempo bem expressivo -até que descolasse um The Slider e um Eletric Warrior.

Na rádio tocava Kinks, “You Really Got Me”. Os dois ficavam naquelas, sempre que ouviam: “Que fissura pra ter um disco desses caras”. Nosso trabalho era às portas abertas e, num desses dias de Kinks on the radio, Jairo, recém mudado para o andar de cima, chegou-se até a entrada, ficou sacando o som um pouquinho e, arregalando seus olhos azuis-orbitais, soltou:

- Cês tão ouvindo Kinks?! Não acredito! Que massa!

A empatia foi no ato. Daí Jairo fez a grande revelação: – Eu tenho uma cassete dos Kinks.

Apavorado com a emoção da notícia, quase me deixei fisgar pelo anzol que embalava na hora. Subi até sua casa, conheci sua vó, com a qual morava e ele trouxe o The Best of The Kinks. Estava tudo lá: “All Day All Night”, “Lola”, “Set me Free”, “Tired of Waiting” – enfim, parte das canções mais lindas e pungentes um dia feitas no rock.

Quase chorei.

O tempo se foi, o grunge virou old fashioned e Jairo Willian Caveman mudou-se para outro bairro. Perdemos o contato. Fomos nos reencontrar em 1998, às cercanias do extinto Bar João, reduto dos street punks em Porto Alegre, hoje demolido. Reduto de punks que bebem cachaça, fazem artesanato e vestem camiseta da Janis Joplin, e outros tipos da fauna rock.

Jairo foi o cara mais punk que conheci em toda minha vida – no que há de mais verdadeiro nessa etimologia. Eu estava no meio da faculdade de jornalismo, precocemente era redator da Rádio Atântida de Porto Alegre e editava junto com colegas de faculdade a célebre Revista ZE. Jairo assumia-se como vagabundo. A vida inteira negou-se a trabalhar; sua grande preocupação era arrumar trocados pra comprar sua cachacinha de butiá no João e arrumar um baseado pra “fritar um bacon” -expressão de sua lavra.

Tinha motivos pessoais pra assumir a misantropia. Nunca o condenei pelas escolhas que fez. Jairo carregava um sentimento muito ruim, que pesava sobre sua cabeça: ter sido negado pelo próprio pai, homem bem-sucedido que o rejeitou desde criança deixando a sua família na pior. Crescera sob o signo do abandono, já que sua mãe, apesar de esforçada, ter se destacado pela falta de comunicação com o filho.

Jairo foi encontrar alento e algumas respostas (?) no punk. Quando voltei a encontrá-lo, também descobria no punk como encarar certas aflições. De Kinks, sem nunca abandoná-los, passamos à Buzzcocks, Sham 69, MC5, Stooges, Black Flag, Heartbreakers, New York Dolls, Pistols, The Boys (uma grande banda punk-mod que primeiramente ouvi com ele). Depois montamos uma “banda”: eu (guitarra), Francis (baixo), Alisson e Caveira (hoje na Bidê ou Balde), na bateria.

O Jairo era o crooner (mistura bem realística de Lux Interior com Robyn Tinner). Naquele tempo, Caveman desfilava frondoso corte de cabelo estilo White Panther. Os Dedicados Seguidores da Moda era o nome da banda. Barulho não faltava. O som, sim, é que era de menos. Eu atacava com um pedal Supper Fuzz Big Muff fabricado na União Soviética. Tinha cor de tanque de guerra, verde-exército, tamanho e peso de tijolo. A distorção era excruciantemente maravilhosa: soava como 1000 colmeias em dia de festa. Éramos muito ruins e, no repertório, apenas Buzzcocks, Kinks e Mudhoney.

Jairo, com o passar do tempo, ficava cada vez mais ensimesmado. Agora percebo que a coisa só degringolou de vez quando, sem dinheiro pra bancar suas diversões entorpecentes, começou a fazer michê na rua José Bonifácio, em Porto Alegre. Jairo era assim: quando soube que Dee Dee Ramone pagava seus vícios prestando serviços sexuais, sentiu-se legitimado pelo ídolo. Numa dessas vacilou sem camisinha.

Boatos a seu respeito corriam nas rodas dos “amigos”. Diziam, os maledicentes, que havia transado com fulano e sicrano. Faziam isso só pelo prazer mórbido de especular doentiamente. Uma maledicência pior que a da revista Veja. Jamais confessava sua doença aos outros. Comigo, sentia-se à vontade pra falar sobre tudo, de modo que, certa vez, me deu a entender sobre sua condição de saúde. Me chamava de Tom Verlaine…Jamais comentei com ninguém a sua confissão. Viveu até seus últimos dias confeccionando seus fanzines xerocados no melhor estilo Sniffin Glue. Seus textos eram mirabolantes e fantásticos, sempre com muito rock-and-roll e situações para as quais, agora, qualquer definição seria mero exercício minimalista.

Muitas vezes, tentei ajudá-lo pra ver se conseguia uma grana regular. Um desses fanzines era o Testemunhas de John Lennon. Ficava super feliz quando lhe dava umas revistas pra fazer suas colagens dadaísticas.

Inspirado em Jairo William Caveman, há quase uma década, escrevi o conto que – com todas suas imperfeições ortográficas e gramaticais originais -, um dia reproduzirei neste blog, sem me dar ao trabalho de corrigir: Flyng V: Innerspace, a história de um jovem suburbano abduzido por um casal de alienígenas swinggers.

Sua morte ocorreu há cerca de um mês. Tomamos conhecimento por um mero: “Tu sabia que o Jairo…” Uma amiga o tinha visto dias antes. Dissera estar “virado num palito”. Pegou uma gripe e terminou seu breve show de três acordes. Não sei o dia em que nasceu, tampouco, o que morreu. Mas nada disso tem importância. Na realidade, para Jairo, nada disso importaria mesmo.

Flyng V é uma fantasia baseada na sua vida naquele momento, em algum lugar no final dos anos 90: o cara que certa vez me confessou ter se masturbado “olhando uma estela no céu”. Essa história foi escrita após ter escutado tal relato. Ou melhor, escrevi pensando que a possibilidade imaginada seria uma forma plausível pra que superasse seus problemas terrenos.

Prefiro pensar na possibilidade onírica de sua morte à, simplesmente, imaginar que tenha ido ao céu ou ao inferno ou ao limbo. Não havia lugar pra Jairo Willian Caveman nesse mundo maniqueísta. Não sei se há em outros mundos.

Talvez no espaço.

 

Comente

rOCK pRETO

fcazumbi_afcb34685f7478073048cd33

TINHA OUVIDO FALAR EM GARAGE rock africano safra 60′s? Nem eu. Não dá nada: a compilação Cazumbi – African Sixtie Garage trata de (re)alinhar o velho continente no “mapa global” do rock.

Cazumbi, que significa “Zumbi”,  reúne obscuridades – sem trocadilhos – do quilate de Gino Garrido & Os Psicodélicos, Os Rebeldes, Os Gambuzinos, Kriptons, Os Rocks.

Entre outros. As bandas “apartheide” ficaram de fora.

Há 40 anos, arrastada pelo Fab4, a invasão britânica varria a Terra como um  Tsunami.  E insuflava, em inusitados pontos, uma miríade de conjuntos beat: do Leste Europeu à  Ásia, cruzando as américas do Latina & do Sul, e chegando ao Brasil.

E, finalmente, África. Cazumbi, afinal, é prova irrefutável da supremacia beatle nos quatro pontos cardeais do planeta.

O legal dessa “expedição musical” – organizada em dois volumes – é que ela não se detém apenas no Sul do continente, onde o caucasianismo vincou marcas profundas: a coletânea (espécie de Peebles/Nuggets) resgatou, por exemplo, raros compactos de grupos do Moçambique, Congo e Angola.

O african rock é cantado tanto em português e inglês como no africanês, o dialeto derivado  do holandês. Como no Brasil daquela época, imperam versões para hits internacionais:  Eletric Prunes, Shocking Blue, The Animals e Screamin’ Jay Hawkins ganharam releituras bem particulares.

As modinhas branquelas receberam de lambuja um “espírito das savanas”. Roubo e eterno retorno…Milhares de milhas marítimas não impediram que os “negões” perdessem o pendor.

A matriz do rock é negra. A do homem que, ao certo, não se sabe.

Comente
Página 1 de 19123456789...Última »