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gUITARRAS (e bAIXOS) eM pEDAÇOS

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É INCERTA A ORIGEM DA MAIL ARTE (Arte Postal), mas a peça do dadaísta Marcel Duchamp, “Pode Bal Duchamp” [um telegrama postado em primeiro de junho de 1921, de Nova York para Paris], consagra o dadaísta como desbravador na apropriação do sistema de correios para a difusão artística.

Intraduzível, o texto do telegrama traz a mensagem “Peau de balle et balai de crini”, um comunicado a Tristan Tzara no Salão Dadá, que se realizava na galeria parisiense Montaigne.

A complexa rede de Arte Postal, que se formou ao redor do mundo, despontou somente na década de 1960. A maioria dos participantes eram egressos do grupo novaiorquino Fluxus, do qual fizeram parte nomes como George Maciunas, Yoko Ono e o músico experimentalista John Cage.

Liderados pelo lituano Maciunas, o fluxistas defendiam o fim da cultura comercial e conservadora e da arte dos museus. Se a proposta do Fluxus era a insurgência contra o stablishment artístico, o fluxista Geoffrey Hendricks, porém, acredita que, com sua chegada, a arte não foi afetada, tampouco mudou.

A arte, nas suas palavras, estará eternamente subordinada a uma “maquiavélica” força: Great Art Structure – a Grande Estrutura da Arte:

“Essa estrutura tem o poder de cooptar idéias, de acomodá-las, obscurecê-las, negá-las e destruí-las. Não só o Fluxus, mas muitas das grandes forças artísticas radicais do século 20 foram mortas por essa entidade”.

As conclusões do norte-americano são respaldadas pela crítica de arte francesa Muriel Caron. Conforme Muriel, vanguardas como Dadá e Futurismo, que acreditavam poder revolucionar a arte, assim como as neovanguardas dos anos 60 – a exemplo do próprio Fluxus e da arte conceitual -, ainda tentaram escapar ao estigma de simples produtos culturais.

Todas, entretanto, foram reabsorvidos pelos museus e pelo mercado das artes: “Cedo ou tarde, essas rupturas foram reintegradas à história oficial da arte e às instituições culturais”, ela situa.

O dilema da obra de arte, hoje em dia, entende Muriel, é claramente colocado. Tendo se perdido ou se afastado de sua aura original, ela tornou-se item dentre tantos do “entertainment”:

“A única margem de subversão que as obras possume, atualmente, é a possibilidade de se posicionarem de forma diferente, principalmente lá onde não se espera: no imprevisível”.

ARTE POSTAL - No Brasil, o artista multimídia pernambucano Paulo Bruscky foi reconhecido “trabalhador” na filamentada teia de Arte Postal, com ramificações pelo mundo todo. Bruscky guarda o maior acervo Fluxus do país, com mais de 150 obras.

Ligado às ações vanguardistas e ao experimentalismo desde os anos 70, o artista manteve correspondência regular – ainda que patrulhado pela ditadura – com os excêntricos ativistas da Correspondence School. Dentre eles, Ana Banana, Genesis P. Orridge (um dos inventores da acid house) e Pauline Smith – essa perseguida por liderar na rede um fã-clube de Adolf Hitler.

O que melhor identifica a Arte Postal, explica Brusky, é seu caráter não tradicional: um processo evolutivo decorrente da veloz mutação dos meios de comunicação. No princípio, com os correios (telex, telegramas, cartas, postais, selos e assemblagens); em seguida também nos formatos de Arte Telefônica, Fax Arte, Arte Computadorizada e outras “ultrapassadas” mídias.

Para o pernambucano, a Arte Postal conseguiu romper mundialmente todas as barreiras institucionais da arte e da cultura e levou à tona o subterrâneo:

“A Arte Postal é anti-sistema, anti-comercial e anti-burguesa. Tanto que quase toda ‘crítica de arte’ passou às brancas nuvens, ignorando sua existência por muito tempo. Agora corre em busca do tempo perdido”, provoca.

Substituiu, também, os museus e as galerias, espaços de exposição, na opinião de Bruscky, caducos: “A Arte Postal surgiu num momento em que a arte oficial estava cada vez mais comprometida com a especulação do mercado capitalista e com a exploração do artista. Uma realidade que beneficiava uns poucos: marchands, críticos e galerias”.

NERVO ÓPTICO - Em Porto Alegre, a conjuntura retratada por Paulo Bruscky (da busca de linguagens e de novos locais para exibição de arte contemporânea) foi contestada por um grupo formado por jovens artistas: o Nervo Óptico.

Na década de 1970, o Nervo Óptico chegou a utilizar expedientes da Arte Postal como alternativa de veiculação artística. Surgido em 1976, em encontros realizados no Museu de Artes do Rio Grande do Sul (Margs), o Nervo Óptico, esclarece o fotógrafo e artista plástico Clovis Dariano, “confluia pessoas em comum, que tentavam fazer algo para romper o vicioso círculo de amostragem da época”.

Dertre os quais, Carlos Asp, Mara Alvares, Telmo Lanes, Carlos Pasquetti e Vera Chaves Barcellos. Na capital gaúcha, recorda Dariano, o acesso à galerias era privilégio exclusivo de obras que tivessem “alguma possibilidade de venda”.

Situação paradoxal, na opinião do fotógrafo, se levado em conta que toda a tendência do período seguia uma linha não comercial: “O Nervo Óptico protestou contra a lógica da arte de mercado, o sistema de artes dirigido e o circuito de galerias, onde quaisquer manifestações modernas eram excluídas”, conta Dariano.

O manifesto Nervo Óptico, de dezembro de 1976, fala pelo grupo: “Não somos contra a venda da obra de arte. Não aceitamos, isto sim, que o mercado dirija o movimento artístico. A venda não é medida de qualidade da obra de arte, como prova a história”.

Artisticamente, a ação do Nervo Óptico era centrada na publicação de cartazetes homônimos, mensais e colecionáveis – “abertos a divulgação de novas poéticas visuais” – enviados por um mailling à instituições de ensino e para artistas do Brasil e de outros países.

Algumas edições, que tinham a fotografia como linguagem principal, chegaram a ser encartados na revista dadaísta sueca Ephemera, com marcante atuação no circuito internacional de Arte Postal.

NO FLUXO DO FIM (DOS BEATLES) - Quando John Lennon conheceu Yoko Ono, em 1966, ela já era conceituada artista Fluxus, o grupo vanguardista criado, em Nova York, por Geoge Maciunas a partir de idéias do compositor John Cage.

O beatle foi ver a exposição de Yoko, “Ceiling Painting” (instalação em que uma escada conduzia o observador até um vidro no teto. No alto, uma lupa ampliava a pequena inscrição: “Yes!”), e ficou encantado com a obra da futura esposa.

A rigor, o começo do fim dos Beatles foi tudo culpa do Fluxus…

Se o Fluxus fez o favor de enterrar os Beatles (pois era hora de alguém pará-los mesmo), ao menos a natureza bizarra e destrutiva de certas atuações, como as chamadas Música de Ação, deixaram “lições simbólicas” para o rock.

A performance “Peça de Guitarra”, do fluxista Robin Page, apresentada durante o Festival de Desajustes, foi uma das mais impactantes, como descreve Victor Musgrave no livro The Unknown Art Movement.

A ação lembra a cena do filme Blow-Up, de Michelangelo Antonioni, na qual Jeff Beck arrebenta guitarra&amplificador numa espelunca da swinging london tocando “Stroll On” (assista no post abaixo) – cena que, originalmente, fora concebida para o The Who interpretar:

“Vestido em um reluzente capacete prateado e segurando sua guitarra pronta para tocar, Robin esperou alguns minutos antes de jogá-la no palco violentamente e chutá-la na direção do público, pelo corredor e escada abaixo, até sair na rua Dover. O efeito foi dramático, os espectadores levantaram-se e correram atrás dele enquanto ele dava voltas no quarteirão chutando o que ainda sobrava da guitarra”.

O guitarrista do The Who, Pete Towshend, transformou a destruição da guitarra numa poderosa alegoria para a juventude hippie, em Woodstock e, em igual medida, num emblema ainda mais legítimo para os punks dez anos depois.

O instantâneo perfeito, no entanto, é a imagem congelada do baixista Paul Simonon, do The Clash, na cultuada capa do álbum-testamento London Calling (foto do post). A fotógrafa Pennie Smith – numa sublime hora de felicidade fotográfica – capturou o exato momento em que Simonon, irritado com a péssima do equipamento, imola seu baixo num show nos Estados Unidos.

Os fluxistas foram longe demais e perderam-se na loucura das extravagâncias performáticas. O cúmulo foi a “Missa-Fluxus”, uma divertida deturpação até mesmo para os pioneiros do Fluxus. Insanidades ainda maiores, como os Esportes-Fluxus, o Casamento-Fluxus, o Divórcio-Fluxus e até o Funeral-Fluxus decretaram a morte do grupo.

O inglês Stewart Home, autor do revelador Assalto à Cultura – Utopia, Subversão e Guerrilha na Antiarte do Século 20 (Conrad Livros), traz um divertido relato sobre a bizarra “Missa Fluxus”:

“Na cerimônia, de liturgia semelhante à católica, os coroinhas trajavam fantasias de gorila, o vinho sacramental era mantido num tanque e derramado por uma mangueira, as hóstias eram biscoitos azuis recheados de laxante e o pão era consagrado por uma pomba mecânica que cagava sobre ele.

O ritual tinha prosseguimento com o sacrifício de um Super-Homem inflável abarrotado de vinho; tudo acompanhado intermitentemente pela sucessão de uma sonoplastia previamente gravada com sons desconexos como o latir de cães raivosos, assobios de locomotivas, o piar de passarinhos e o estopim de tiros”.

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aLGO mAIS sOBRE oS sTONES*

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[Capa polêmica do disco Sticky Fingers, criação de Andy Warhol, junto com o fotógrafo Billy Name e o designer John Pasche. Além da imagem provocadora, álbum trazia um zíper na área central, algo impensável para a indústria fonográfica de hoje]

POR ANTÔNIO DO AMARAL ROCHA, jornalista, colaborador da Rolling Stone Brasil

Vistos como a versão “bad” dos Beatles, os Rolling Stones trilharam por caminhos desafiantes até conseguirem se firmar no cenário do show business. O álbum Sticky Fingers foi um marco dentre as ações ousadas da banda

“EM LONDRES, NUM DIA ÚMIDO de julho de 1953, o país celebrava a coroação de sua jovem rainha. No coro de garotos que cantava na Abadia de Westminster estava um menino magro, de 9 anos de idade, com orelhas abano e uma bela voz aguda. Seu nome era Keith Richards e, com 10 milhões de espectadores na Grã Bretanha e outros milhões através do mundo todo, esse foi o maior show de sua vida”.

Esta história incrível aqui transcrita literalmente está contada no início do DVD The Rolling Stones – Truth and Lies (Rock Files). Ainda neste DVD ficamos sabendo que a Grã Bretanha do pós-guerra era um país austero e conservador e tudo o que se pode imaginar da sua paisagem nessa época só pode ser em preto e branco.

“Todo o glamour, especialmente na área do entretenimento parecia vir de fora. A versão inglesa do entretenimento sempre pareceu ser um produto desconfortável, enquanto que a América era colorida, as pessoas pareciam bem alimentadas, bebiam bebidas interessantes, falavam de um jeito interessante”, define o jornalista David Hepworth, editor do Word Magazine e diversas outras revistas britânicas.

Foi num ambiente com essa descrição que surgiu a versão bad dos Beatles. Essa história começou em 1960, por obra de dois amigos de infância e de colégio, Mick Jagger e Keith Richards, ambos com adoração extremada pelo blues e pelo rock-and-roll.

Mas precisou aparecer mais um fanático como eles, o guitarrista Brian Jones, para, dali a dois anos (1962), criarem a banda Rolling Stones, nome inspirado no título de uma música de Muddy Waters, o pai do Chicago Blues. Ao longo do tempo tiveram diversas formações.

Mick e Keith permanecem desde 1962 até este momento, Charles Watts, o baterista entrou em 1963 e também continua. Brian Jones ficou até 1969 e morreu afogado na piscina de sua mansão. Ron Wood entrou em 1974 com a saída de Mike Taylor (1969 a 1974) e permanece ainda hoje.

Com a saída do baixista Bill Wyman (1962-1993) a banda decidiu que não teria mais um baixista fixo e, desde essa época, o baixo que acompanha a banda não é mais um “stone”, é simplesmente um músico contratado que faz parte da banda de apoio. Esse papel vem sendo desempenhado pelo baixista norte-americano Darryl Jones.

Inicialmente, a banda tentou ganhar a vida fazendo covers em shows e em discos. Gravaram nos primeiros singles, música de Chuck Berry e Muddy Waters e até “Wanna Be Your Man” de John Lennon e Paul McCartney. Mas ser uma banda de covers não dava futuro para quem tinha a pretensão de disputar um lugar no nascente mercado inglês de rock. E tinha os Beatles, que nestas alturas já causavam estrepolias nesse mercado.

Por isso, um astuto empresário inventou aquilo que seria o contraponto entre os Beatles e a banda que ainda engatinhava. Beatles = rapazes certinhos, de família; Rolling Stones = debochados e depravados. Mas sabemos que as coisas não foram bem assim. Tanto os Beatles quanto os Rolling Stones são frutos de uma mesma época e refletiam as aspirações da mesma juventude e do mesmo público. E, além do mais, isso já é mais do que uma história contada e reprisada.

No caso dos Stones, se nos ativermos aos chamados escândalos que os elementos da banda estiveram envolvidos, quase todas por posse e consumo de maconha, heroína e bebidas, veremos que a sociedade inglesa das décadas de sessenta a noventa, apesar de toda “revolução de costumes” continuava, em grande parte dela, extremamente conservadora e, quase sempre esses processos eram tratados como algo sensacionalista pelos tabloides e pelo noticiário em geral.

Equivale a dizer: de um lado o sistema com suas regras fazendo de tudo para não permitir alteração no status quo, com o apoio das famílias burguesas e da imprensa conservadora e de outro lado, os artistas “libertários”, o show business com todo a sua liberalidade tentando abrir caminhos. Mas não custa lembrar sempre: ninguém é inocente nessa história; interessa muito ao mercado do entretenimento que seus artistas sejam polêmicos e falastrões. Isso repercute no número de cópias que um disco poderá vender e até na fixação de cachês milionários.

Se como uma banda de covers não era possível ir adiante, então os Stones começam a se reinventar e lançaram, sempre com estrondoso sucesso de vendas, começando com The Rolling Stones (1964) e somando vinte e nove álbuns até o momento, além de álbuns ao vivo, compilações, EPs , singles, vídeos musicais e filmes.

Mas dentre todos os álbuns, tem um que especialmente merece mais atenção que os demais, e talvez nem seja pelo que nele está gravado (nesse caso Exile on Main St. é o mais icônico).Trata-se de Sticky Fingers, de 1971, um álbum que revolucionou a forma de embalar discos. É uma pequena obra de arte comercial, fruto do talento do artista pop norte-americano, Andy Warhol, junto com o fotógrafo Billy Name e o designer John Pasche. A ousadia foi trazer um zíper na área central, dando terceira dimensão à fotografia de um corpo vestido com jeans apertado.

A ousada foto, que sugeria um pênis ereto foi alvo de polêmicas, mas jamais foi revelado o nome do modelo que posou para a criação, além de também ter sido motivo de reclamações dos lojistas, pois tal zíper danificava as capas dos outros discos que ficassem encostados na capa de Sticky Fingers.

Resumo da ópera-rock: se nos costumes, no comportamento, nos palcos e no conteúdo dos discos, os Stones sempre inovaram, também nas capas dos vinis essa “revolução” aconteceu com a embalagem de Sticky Fingers, um feito que jamais será repetido nas “pobres” capas dos CDs atuais.

*Texto originalmente publicado no Jornal O Povo de Fortaleza, em 8 de julho de 2012

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a bANDA mÁGICA dE cAPTAIN bEEFHEART

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DEIXE DE LADO POR UNS TEMPOS OS  ”discos mais importantes da história do rock”. Sgt. Peppers, Pet Sounds, Forever Changes, Os Mutantes, Are You Experienced – essas maravilhas canônicas. Largue de mão por uns dias daqueles álbuns que passaram para redescobertos: London Calling, do The Clash, por exemplo. Ou os eternamente cultuados: White Light/ White Heat, The Slider, All the Young Dudes, Unknown Pleasures.

Os títulos empilham-se infinitamente nos toca-discos ao redor do mundo.

Mas relaxe. As obras-primas viverão para sempre. Obras-primas sempre viverão para sempre.

Novas levas de discos extraordinários, esquecidos, de autores fantasmagóricos – sim, mortos! –, do umbral clamam para novamente retumbarem ao máximo volume nos tímpanos de esquecidos roqueiros que: ou andam muito indulgentes com o glorioso passado do rock ou, provavelmente, mal-informados. Ainda que com tantas facilidades, atualmente, oferecidas para ouvir-se qualquer coisa registrada no Planeta Terra em qualquer tempo.

Tudo questão de apenas um ligeiro download.

É possível que se façam de surdos, mas não de loucos [ou será o contrário?] ao apelo renovador dos grandes álbuns um dia gravados. Em troca de resgate, oferecem alento ao excesso de repetição mimética desses inomináveis dias cuja musicalidade tão difícil é de se definir.

Entes vivos-mortos, certos álbuns são missionários de antigas boas-novas, muitas delas ainda valendo, e esteticamente não superadas até hoje. Prefere-se, parece, o hype ao eterno.

São obras com fôlego para superar muita pasmaceira travestida de novidade, com exceções aqui e ali, que anda rolando por aí. Que tomou conta do “rock contemporâneo”. Como as pedras, o rock ainda rola nos shows, nos discos, nas plataformas de sempre. E nas pistas de dança, principalmente.

Discos que se perderam nos cafundós do passado converteram-se agora em fontes de sonoridades futuristas. Permaneceram décadas olvidados, sobreviveram à fugazes modas – ao serem desprezados – e mofaram empilhados nos nos compartimentos empoeirados das discotecas.

O tempo é sábio, realmente: implacável com o bom, sem perdoar o ruim.

Em centenas de “pedras-discográficas-filosofais”, a alquimia foi realizada: converteram-se em elixires sonoros. Saboreá-los anacronicamente é uma aventura e, sobretudo, um deleite.

Safe As Milk (1967, RCA), estreia da banda norte-americana Captain Beefheart and his Magic Band, é daquelas experiências psicodélicas por excelência. É o disco mais acessível do louco, músico e pintor Don Van Vliet (1941-2010), o Captain Beefheart. O sujeito era comparsa de infância de Frank Zappa, do qual virou depois seu parceiro musical. E daí já viu…

Conforme o arqueologista do rock Bento Araújo, editor da revista Poeira Zine, a ideia original de Beefheart [como se fosse possível prever o que se passava na cabeça daquele admirável maníaco] era parafusar blues do Delta do Mississipi com free jazz e peças concretistas de Stockhausen & John Cage:

“Beefheart queria soar como se Howlin’ Wolf tivesse tomado ácido e passasse a recitar peças de poesia surrealista, nunca mais tendo uma chance de recuperar sua sanidade novamente”, diz.

Para ter-se ideia, desde os quatro anos de idade, quando sua família foi morar no deserto de Mojave, Beefheart fazia esculturas e pinturas. Na solidão do deserto, desenvolveu sua musicalidade aprendendo, sozinho, a tocar sax e gaita. As habilidades deram-lhe amizades na escola da região. Uma delas foi com outro inovador músico: Frank Zappa. Não demorou muito e Van Vliet estava tocando com as bandas locais The Omens e The Blackouts.

Bento lembra que a peculiar voz de quatro oitavas de Beefheart era quase impossível de ser gravada. Não à toa que, durante as sessões de Safe As Milk, vários microfones foram avariados, dada a violência vocal, assim que abria sua  boca para cantar:

“Busco o som de uma serra-elétrica cortando uma chapa de metal”, declarou Beefheart.

Em 1969, saiu o duplo Trout Mask Replica, produzido por Zappa, que traz nada menos do que 28 atentados sonoro-dadaísticos nada digeríveis [nem após inúmeras audições]. Gerou mais influência do que $. Do progressivo ao proto-punk em colisão a um protótipo new wave, nenhum gênero saiu ileso sob o tirano jugo da dupla  Zappa/Beefheart .

Captain Beefheart tinha acompanhamento de um grupo rotativo de músicos denominados “Magic Band”, os quais estiveram ativos ao lado de Van Vliet de meados dos anos 60 ao começos dos 80. Célebre pela fama de ditador com os instrumentistas que lhe acompanhavam, Vliet também tocava. Seu instrumento, além da gaita, era o saxofone, que manejava barulhentamente desconsiderando e transgredindo qualquer didática a respeito do instrumento.

Musical e poeticamente falando, possível fosse resumir, poder-se-ia dizer que as composições de Vliet são uma estranha junção de marcações de tempo enviesados recobertas de letras surrealistas.

Safe As Milk, digo mais, do fim ao início é todo sulcado de gratificadoras, belas e entortantes surpresas.

Abre com um típico e inofensivo blues: “Sure ’nuff ‘n yes i do”. E, a seguir, saltita para o embalo garagentíssimo de “Zig zag wanderer”. Legítima beleza da natureza elétrica.

Mas o disco não é tão somente insanidade e periculosidade. Também passeia de mãos-dadas por baladinhas cremosas e mui delicadas: “Call on me” e “I’m so glad”, por exemplo, são perfeitas se roubar beijos apaixonados da boca da mulher amada.

A voz de Don Van Vliet é troço a parte. Poderosa “engrenagem vocálica”, que ele brame  estrepitosamente, abusa e lambuza-se. Caso do sinuoso canto em alta-voltagem da eletrocutante “Electricity” – música guarnecida por zombeteiras guitarras: imagine uns dez vespeiros nervosos em dia de baile. Atemorizante!

A tensão fuzz da guitarra tirada [ou colacada] em “Dropout boogie”, a qual dialoga com a vocalização serra-elétrica de Vliet, esclarece, de certa forma, porque Mark Arm, guitarrista e vocalista do Mudhoney, certa vez ter me dito que Safe as Milk é um de seus venenos prediletos do rock.

LP, confessa Arm, que vai-e-vem constantemente está a girar em sua vitrola.

Dele quais saber:

- Qual é o álbum da primeira fase psicodélica do rock não sai de seu player?

Mark Arm – Escuto um monte de coisas diferentes e, uma hora ou outra, todas acabam deixando o meu toca-discos. Mas, Safe As Milk, do Captain Beefheart and his Magic Band é um grande álbum da primeira fase do psicodelismo. Assim como The Psychedelic Sounds, primeiro do 13thFloor Elevators.

Rock country embebido em LSD, “Yellow Brick Road” é introduzida por um monótono ruído, seguido de uma locução que alude à “estrada de tijolos amarelos” descrita na novela O Mágico de Oz:

“The following tone is a reference tone recorded at our operating level”.

Tal estrada, em O Mágico de Oz, é o caminho indicado à personagem Dorothy para que ela chegue à “Cidade Esmeralda”.

“Abba Zaba” é Ry Cooder esgrimando hipnótico contrabaixo sobreposto à uma percussão selvática. O resultado é uma bricolagem pop-cacofônica. E letra de intrigante mistério:

“Song before song before song blues / Babbette Baboon [Ba bitta ba boon], Babbette Baboon / Abba zaba zoom, to shatter the noon / Abba zaba zoom, Babbette Baboon / Abba zaba zoom, Babbette Baboon /Comin’ over pretty soon, Babbette Baboon”

Blues com gaita áspera soprada por Vliet, sua voz de bandido fugido de uma prisão de segurança máxima, e uma cadenciada base de guitarra “lutando boxe” com os demais instrumentos: mais ou menos é isso é “Plastic Factory”. Som que remete aos seus menestréis do blues, do naipe do godfather Muddy Waters ao do malicioso “lobo uivante” Howlin’ Wolf

“Grown so ugly”: trata-se de outro adulterado blues tradicional. Música que Captain Beefeheart tem poder e manha de fundir num blues-rock cuja letra versa, veja só, sobre a sua feiura, a qual, ao mirar-se no espelho, torna-se irreconhecível até para si mesmo. Mas não deixe de notar: musicalmente,  a cada verso trinado por Vliet, a Magic Band responde  nocauteando riffs de guitarra, baixo e bateria. Ninguém, aliás, tão bem adulterou o blues – vertendo-o para  o rock-and-roll – com a expertise psicopática de Beefheart.

E eis o grande final de Safe As Milk: ”Autumn’s Child”. Soul épico, torto e descontínuo. É a “quarta-feira de cinzas” do carnaval dos vespeiros. Canção que traz versos belos românticos e, ao mesmo tempo, de uma poética que se vale de versejações loucos como estas daqui:

“Huh, ela me pegou com sua beleza rápida / Com os olhos verde-jade (…) / Os pés de poeira debaixo de árvores de ferrugem (…) / Ela vai ser minha esposa, vai apimentar a minha vida (…) / O olhar de seu gato encontra o meu ousar”.

O relançamento de Safe As Milk, feito em 1999, vem com sete faixas-bônus.

São elas: “Safe As Milk (Take 5)”, “On Tomorrow”, “Big Black Baby Shoes”, “Flower Pot”, “Dirty Blue Gene”, “Trust Us (Take 9)” e “Korn Ring Finger”.

Todas sobremesas deliciosas pós-refeição principal.

A formação que originalmente atuou no disco é matadora.

Don Van Vliet: vocais
Ry Cooder: guitarra, baixo (“Abba Zaba” solo)
Doug Moon: guitarra
Alex Snouffer & St. Clair: guitarra
Jerry Handley: baixo
John French: bateria
Milt Holland: percussão, marimbas
Sam Hoffman: teremim
Taj Mahal: percussão

Também pudera, com esse time!

Agora tudo melhor se explica.

A história deveria ser reescrita – ou ao menos parafraseada [em relação à máxima dita sobre o Velvet Underground ["Das cento e poucas pessoas que compraram o primeiro disco do Velvet, todas montaram uma banda] – para:

“Dos seres humanos que ouviram [foram muitos?]  Safe As Milk, os que passaram pela experiência não saíram ilesos”.

Que queira o diabo, o pai do rock, que as bandas perscrutem, no oásis de criatividade, insensatez e abençoado desvario de tipos fora-de-série que nem Captain Beefheart onde [e como !] nascem as grandiosas ideias – e, sobretudo todas os viventes seres que se movimentam ou rastejam sobre ou debaixo do Planeta Terra -, e as belezas feitas para durar eternamente.

Tarde nunca é para relembrar o para sempre.

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a pROIBIDA vIDA & oBRA dE jOHNNY mC-cARTNEY

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Importante álbum do rock brasileiro, Vida & Obra de Johnny McCartney, de Leno, venceu o  veto da ditadura

POR CRISTIANO BASTOS

ENQUANTO DUROU, O REGIME MILITAR (1964-1985) FEZ O QUE PÔDE – e o que não pôde – para obscurecer ao máximo a multicolorida cultura brasileira. A ditadura despachou para o exílio artistas do porte de Gilberto Gil e Caetano Veloso, políticos da estatura de Leonel Brizola, e prestigiados intelectuais como o ex-presidente FHC. Censurou músicas, proibiu filmes e sumiu com gente cujo paradeiro jaz sem resposta.

Sumiço que, em 1970, também perdeu uma gema do rock verde-amarelo: o álbum Vida & Obra de Johnny Mc-Cartney, do potiguar Gileno Azevedo  – melhor reconhecido como Leno, ídolo da Jovem Guarda que formava, com Silvia Knapp, a dupla Leno & Lilian (“Pobre Menina”, “Devolva-me”).

Em 2009, o vetado disco – co-produzido por um novato Raul Seixas – ganhou reedição caprichada, porém limitada, pelo selo norte-americano Lion Music. No Brasil, a distribuição é feita pelo selo Record Collector. A remasterização de Johnny McCartney, primeiro disco gravado em oito canais em toda a América Latina, foi feita a partir da master tape original.

Um livreto de 24 páginas, recheado com fotos inéditas de Leno e Raul, que acompanha o relançamento, vai fazer a cabeça dos fãs. O brado contestador, que se manifestava em letras como “Sentado no Arco-íris” (um rock pesado embebido em guitarras fuzz ao estilo do Cream), desagradou os censores. Os versos falam em reforma agrária e pregam “subversão”:

“Tambores gritam guerra em código e fumaça /E os olhos da cidade vigiam cada esquina”.

Censura, tortura, drogas e repressão são temas que surgem ao longo da obra.

A condenação, para Johnny Mc-Cartney, imposta pela ditadura, foi mofar durante 25 anos trancafiado nos porões da gravadora CBS, hoje Sony& BMG. “Sentado no Arco-íris” é assinada pelo jovem Raulzito. Trata-se, na realidade, da primeira peça politizada do futuro ícone Raul Seixas: “Lembro dele me dizendo o quanto orgulhava-se de tê-la escrito”, recorda Leno, que prossegue gravando e fazendo shows Brasil adentro: “Poucos sabem, mas Johnny foi crucial na carreira do Raulzito”, situa.

Leno, é verdade, foi quem encorajou Raul, à época produtor na linha de montagem da CBS (onde produziu mais de 80 canções jovenguardianas, para artistas do naipe de Márcio Greyck, Jerry Adriani e Trio Ternura), a gravar sua própria “obra maldita”. O resultado foi o álbum Sociedade da Grã-Ordem Kavernista – Apresenta Sessão das 10, que saiu em 1971.

FIM DE FESTA

Ao encerrar a dupla com Lilian, em 1968, Leno lançou-se como artista solo e emplacou sucessos: “Pobreza”, “A Festa de Seus 15 Anos”, “Sha-la-la” – essa última, uma popsong escrita sob medida pelo amigo Raul: “Eu vinha de uma sequência de hits. Encontrava-me no auge, e daí veio a censura: cortou o meu barato”, lamenta Leno.

Aos 21 anos, em 1970, Leno amargava o estigma do cantor romântico: “Eu curtia o romantismo, mas, queria muito assimilar meu lado roqueiro”. Para tocar no disco, convidou músicos de rock que nunca tinham gravado antes, como os integrantes do grupo A Bôlha. Também desfilam pelo álbum, os irmãos Renato e Paulo Cezar Barros (dos Blue Caps), Arnaldo Brandão (ex-A  BÔlha), o grupo vocal Golden Boys e os beat uruguaios Los Shakers.

Para o presidente do Raul Rock Clube, Sylvio Passos, Johnny Mc-Cartney é um disco fundamental para o rock brasileiro surgido no Brasil pós-jovem guarda. A trajetória de Vida & Obra de Johnny McCartney, no entanto, é misteriosa . Ao deixar a gravadora CBS, Leno recebeu a notícia de que as fitas originais do LP haviam sido apagadas. O álbum, então, foi dado como perdido. Contudo, em 1994 o jornalista e pesquisador musical, Marcelo Fróes, do selo Discobertas, esbarrou numa verdade distinta. Deparou-se, ao revirar os arquivos da extinta gravadora, com duas fitas de rolo, nas quais identificou o nome de Leno e os títulos das músicas. Ele próprio jamais ouvira falar nas gravações. Fróes avisou Leno e as fitas foram remixadas digitalmente. O “lançamento oficial” portanto, deu-se somente há 17 anos – pelo selo de Leno, o Natal Records.

Das 13 faixas que compõem a obra, só quatro foram editadas num compacto duplo da CBS: “Johnny Mc-Cartney”, “Peguei uma Apollo”, “Lady Baby” e “Convite para Ângela”. A gravadora julgou as demais “inviáveis para o mercado”. Após a proibição de Johnny McCartney, Leno rompeu contrato com a CBS: “Mudei de gravadora; o disco, porém, mudou a minha carreira”.

FAIXA-A-FAIXA

Johnny McCartney – O disco abre com o tema-título, um rockão encharcado numa guitarra fuzz de Leno

Porque Não? – Hard rock baseado em “All Right Now”, do Free. É o grupo carioca A Bôlha que dá o peso

Lady Baby– Raul ajuda na letra. Backing vocal do Trio Ternura

Sentado no Arco-Íris – Música que leva assinatura de Leno e Raulzito. O número mais heavy do disco

Pobre do Rei – Música dos irmãos Paulo Sérgio e Marcos Valle. A letra foi proibida pela ditadura

Sr. Imposto de Renda – Típica vinheta que Raul Seixas usaria em seus discos

Peguei uma Apollo – Composição de Arnaldo Brandão. Era para ser chamada de “Subentendido”

Não há Lei em Grilo City – A letra é profética ao falar da violência no Rio de Janeiro

Convite para Ângela – Com Renato, dos Blue Caps, na guitarra. Em 1977, Raul verteu a música para “Sapato 36″

Deixo o Tempo Me Levar – Balada com backing vocals dos Golden Boys

Contatos Urbanos – Composição do maestro húngaro Ian Guest

Bis – É a faixa que fecha o aspecto conceitual do álbum

CURIOSIDADES

Raul produtor: “Muita coisa que o Raul aprendeu em estúdio foi  nesse disco: como se gravava com mais peso, bateria. Raul era muito intuitivo, gostava de criar”

Los Shakers: “Os Shakers tinham se separado. Até hoje sou fã. Para mim, a melhor banda de rock latino de todos os tempos”

Estrada: “Em 1970, eu já tinha tarimba de estúdio. Fui criado em estúdo, desde os 16 anos. Tinha cinco de estrada”

Johnny McCartney: “O título do disco é uma alusão clara aos Beatles, que haviam se divorciado oficialmente, em abril de 1970. Na época do disco, fui conhecer os estúdios da CBS. Fomos eu e a banda Renato & Seus Blue Caps. Tinha um cara lá fazendo um teste, ficou horas tocando uma música. No final, ele veio falar com a gente: era o James Taylor, antes de estourar”

Raul cantor: “O Raulzito era um amigo íntimo meu, mas o “Raul Seixas”, para mim, na verdade, era um personagem. O Raul era um cara fantástico. Ríamos muito com as brincadeiras dele. Ele era muito musical. E, como eu, adorava rock-and-roll primitivo: Little Richard, Elvis, Carl Perkins. Gostávamos muito de filosofia. Nosso gosto literário era muito parecido. Depois ele entrou de cabeça no esoterismo. Culpa do Paulo Coelho. Não tive nada a ver com isso”

Oito canais: “Johnny McCartney foi o álbum que inaugurou o novo estúdio da CBS. Era o primeiro em oito canais gravado na América Latina. Era o máximo! No período, gravava-se apenas em dois canais no Brasil. A gravadora pediu-me para inaugurar o estúdio porque sabia que eu gostava de testar som”

LENO & LILIAN

A história de reconhecimento de Leno começou antes de Johnny Mc-Cartney, nos tempos da Jovem Guarda. O duo Leno & Lilian foi uma espécie de “Sandy & Júnior” dos anos 1960. A dupla conheceu-se ainda na pré-adolescência, no Rio de Janeiro, quando se tornaram vizinhos em Copacabana. No começo, faziam ocasionais aparições em programas da TV Rio, apresentando mímicas de sucessos do rock. Em 1965, foram aos programas de TV Os Brotos Comandam, de Carlos Imperial, e Hoje é Dia de Rock –, sempre acompanhados pelo requisitado Renato & Seus Blue Caps.

Foi Renato Barros, aliás, que levou os adolescentes para fazer um teste. Contratados pela CBS, no ano seguinte, lançaram um compacto com os eternos hits Devolva-me e Pobre Menina. No mesmo ano, com enorme sucesso, saiu o primogênito LP: Leno e Lilian. Desfizeram-se em 1968, e saiu cada um em carreira solo. Entre 1972 e 1975, voltaram a se reunir – interstício no qual Leno registrou o ousado Johnny McCartney.

Nos anos 80, Lilian emplacou um sucesso retumbante: “Sou Rebelde”. Nessa época, na tentativa de manter-se em evidência, a “brotinho” posou nua na revista Homem. A dupla Leno & Lilian notabilizou-se, também, pelas homéricas brigas nos bastidores. Só voltaram a se apresentar na década de 1990, quando se juntaram para shows e  gravações comemorativos dos 30 anos da Jovem Guarda.

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sLADE iN fLAME

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Slade in Flame
1974
Estrelando: Slade, Alan Lake, Tom Conti, Johnny Shannon
Direção: Richard Loncraine

Argumento: O lado tenebroso e vulnerável do conto de fadas sobre o rock ’n’ roll tradicional para ricos e pobres. Frase Antológica: “Você gravou poucos discos — tudo bem. O resto não passa de malditos gângsteres de smoking”

Fui assistir a este filme na semana em que estreou. Eu tinha 11 anos, e o Slade era o meu grupo favorito. Na verdade, foi o primeiro grupo que vi ao vivo, no teatro Rainbow, no Finsbury Park, em Londres, em 1972 (com o vocal de Thin Lizzy e Suzi Quatro, dá para acreditar? Deus abençoe você, mamãe!). Mas não fui só eu — o Slade vivia um momento improvável, entre 1971 e 1974, em que era maior do que os Beatles, pelo menos na Grã-Bretanha. Hoje em dia, quase todos os primeiros da lista do Reino Unido vão direto para o topo e despencam rapidamente.

No início dos anos setenta, quando o mercado de discos era enorme e as músicas não eram tocadas no rádio meses antes de serem lançadas, até mesmo os maiores grupos tinham de se contentar em entrar por baixo e esperar subir. O Slade, porém, teve três discos em seguida que foram direto para o primeiro lugar, um feito que ninguém chegou perto de imitar até que The Jam, The Police e Duran Duran conseguiram algumas vezes, alternadamente, na década de 1980.

Portanto… tenho lembranças vagas e distantes de ter ido assistir a Slade in Flame com a minha mãe. Mas não é da empolgação ou da expectativa de ver a minha banda favorita na tela de que me lembro. A única coisa de que me
lembro é de estar sentado, de olhos arregalados e com a boca aberta, no final abrupto e deprimente do filme. Só me lembro de me sentir… chateado. Novamente, desconfio de que não fui só eu. Os fãs do Slade eram principalmente garotos da minha idade. E as posições nas paradas de sucesso não mentem. O Slade nunca mais chegou perto de ser o primeiro da lista com discos ou álbuns depois do lançamento deste filme. Em março de 1977, o grupo lançou um álbum intitulado Whatever Happened to Slade? Também foi mal. Slade in Flame matou a carreira do Slade.

No making-of esclarecedor que acompanha o DVD, Noddy Holder, o cantor de careca reluzente e voz estridente do Slade, comenta que Flame “matou o mito… da banda alegre, muito alegre”, como era considerado o Slade. Mas a história contada
pelo filme, deliberadamente crua e desonesta, sobre a ascensão para a fama até o mergulho melancólico na desilusão de uma banda de rock de 1967 da região central da Inglaterra, fez mais do que isso. Para um jovem fã do pop que assistiu
ao filme, ele matou o mito do estrelato do rock. Ele afirmava que os poderosos da indústria da música eram ou bandidos ou engomadinhos trapaceiros; que a fama era ilusória e o estilo de vida do rock ’n’ roll era tedioso; que os integrantes das
bandas se detestavam; que eram tão estúpidos e inocentes que não tinham controle sobre a própria vida; que tudo o que era importante sobre o rock ’n’ roll — carros, garotas, até mesmo tocar as suas músicas para os fãs extasiados — não tinha
sentido. Além disso, o filme não sugeria o que mais um pobre garoto poderia fazer para obter mais sentido na vida. Há um humor grosseiro e simplório em Slade in Flame, mas o sorrisinho de escárnio, mesmo assim, não lança nenhuma luz sobre
o mundo que ele apresenta. Esse mundo do rock é duvidoso, severo, impassível…um beco sem saída. O guitarrista Dave Hill, falando no complemento do DVD, acredita que eles deveriam ter feito um filme bobo, uma gozação visual musicada
ao estilo de Os Reis do Iê Iê Iê. Do ponto de vista de uma sensível mudança de carreira, os fatos falam por si. Mas a partir da perspectiva da arte pela arte, fico feliz por não aprovarem a sua sugestão. Porque Slade in Flame é um importante candidato ao Melhor Filme de Rock de Todos os Tempos, além de ser um excelente exemplo do cinéma vérité britânico, situado em algum ponto entre melodramas dos “Jovens Irados” como This Sporting Life e Saturday Night, Sunday Morning e o docudrama modernista de Alan Clarke, Mike Leigh e Ken Loach.

A exemplo de todos os grandes filmes realistas britânicos, Slade in Flame é principalmente sobre a guerra de classes. Depois de formar o Flame a partir das cinzas de duas bandas de boate risivelmente ruins, Stoker (Holder), Paul (Jim Lea), Barry (Hill) e Charlie (Don Powell) são descobertos por uma agência de publicidade dirigida pelo mercenário elitista Seymour (Tom Conti, apenas no seu segundo filme). Eles levam o Flame para a fama vendendo-o como um produto de supermercado. Mas cada golpe de publicidade e jogada de marketing suga um pouco mais da alma dos quatro rapazes já cínicos. Enquanto isso, seu primeiro agente, um gângster chamado Harding (Johnny Shannon) e o cantor de boteco Jack Daniels (o magnífico Alan Lago), saem do buraco do passado do Flame, querendo mais do que os seus 10%. Segue-se uma balbúrdia e a carreira do Flame caminha para um anticlímax final inevitável.

O enredo foi criado a partir de histórias do rock da vida real contadas ao diretor Loncraine e ao roteirista Andrew Birkin pelo Slade e seu empresário Chas Chandler quando a dupla acompanhou a banda por algumas semanas em uma turnê americana. Algumas dessas histórias eram sobre o Slade e outras não. A gente suspeita que o agente musical gângster Harding tem alguma vaga inspiração nos famigerados empresários/exploradores Peter Grant (Led Zeppelin) e Don Arden (pai de Sharon Osbourne), cujos maiores sucessos vieram de bandas da região central da Inglaterra. Mas esses caras ganharam muito dinheiro e reputação com as principais bandas. Já Harding parece ter vencido a guerra pelo dinheiro da classe alta ao pisotear cruelmente e aterrorizar os familiares de Seymour. Mas aquele tipo de cara não bate nos ricaços em filmes como este, não importa quanto sejam duros. No momento em que Harding obtém o controle, a empresa de Seymour sugou o Flame até esgotar a banda. Seu triunfo dura cerca de dez segundos de tempo na tela, antes de ele ser exibido com um olhar amedrontado, enfrentando uma vida entre máquinas de apostas e exploração do bingo local. A sua expressão atordoada nitidamente reflete a do espectador, na medida em que o filme se desvia do esperado final bizarro e pavoroso de overdose de drogas, violência espetacular ou, no mínimo, uma grande e antiga briga de socos sobre o fato de que Stoker tenha roubado a garota de Barry (que apenas dá de ombros, com um sorriso amargo e caminha para “O Vazio”).

Loncraine, que viria a fazer The Missionary, a série Brimstone and Treacle e Wimbledon, admite que realmente não sabia o que estava fazendo naquele que foi seu primeiro longa. Mas os seus erros acabam fazendo um favor a Flame. Sabemos que o filme foi gravado inicialmente em 1967 porque “New York Mining Disaster 1941” dos Bee Gees toca em um rádio portátil. Mas, além disso, os acontecimentos retratados poderiam ter lugar ao longo de cinco semanas ou cinco anos… não há pistas sobre o tempo e o lugar. Presumimos também o Flame é de  Wolverhampton pela simples razão de que o próprio Slade é de Wolverhampton.

Mas isso não explica por que o homem da agência publicitária terrivelmente londrina de Seymour acha-se assistindo o Slade tocar na boate masculina dos trabalhadores locais, ou porque o agente musical local é uma cópia da cidade de Reggie Kray com os capangas londrinos necessários, ou porque toda a gente parece sair diretamente da favela úmida da região central da Inglaterra para o brilhante West End londrino endinheirado. Esse bizarro deslocamento de tempo e lugar enfraquece em parte o ultrarrealismo de Flame e dá-lhe a impressão de um sonho ruim de alguém. É esse tom surreal que assombra e acrescenta estranheza à realização soberba de Loncraine, recriando a cinzenta década de 1960 britânica.

Neste filme, a Londres culturalmente efervescente da década de 1960, o distrito de Haight-Ashbury e a animação da contracultura jovem são inexistentes — o que não eram na década de 1960 em que me criei. É por isso que o rock se tornou tão importante, tão adorado, tão necessário. Foi o único toque de cor, sexo, rebelião e exotismo em uma terra de chaminés fumegantes e cabelos empastados de brilhantina, celas policiais e dedos quebrados, fundições satânicas e sombrias e salões de dança decadentes, todos representados perfeitamente aqui enquanto Loncraine registra uma Inglaterra que nos lembra que as coisas realmente não foram melhores nos bons e velhos tempos.

As realidades do elenco também tornam o filme sombrio. O lance mais inteligente de Loncraine foi fazer todos os atores subestimarem cada cena, de modo que o Slade não ficasse implacavelmente envergonhado por sua falta de experiência em atuar. Para essa finalidade, contratou um elenco que só teve de interpretar a si mesmo. Conti é fino e distante, doentio na sua impenetrabilidade juvenil e no seu caminho ascendente para as indicações ao Oscar e para o estrelato. Johnny Shannon é um cara estranho, tipicamente londrino, que se viu atuando como ator depois de Performance (veja a p. 119) e conseguiu convencer a maioria do elenco do Slade de que realmente tinha sido um gângster do East End londrino. O extraordinário Lake — cuja história de vida daria um filme muito bom — era um presidiário bêbado e um cantor fracassado que arrebatou o desastre das garras da vitória ao se casar com o maior símbolo sexual britânico, Diana Dors, ficando pendurado na prisão depois de uma briga de bar e, finalmente, cometendo suicídio em 1984. É o Daniels interpretado por Lake que tem os pés quebrados por vândalos do Flame, permitindo a Loncraine abster-se de mostrar o golpe real com uma representação absolutamente realista (literalmente) do medo nu e da agonia que ainda fazem os meus pés saltarem involuntariamente, mesmo após 35 anos de absorção de imagens de sangramentos hemorrágicos espetaculares nas telas de cinema.

Ao forçar seus atores experientes a ser simplesmente eles mesmos, Loncraine permite ao Slade fazer o mesmo e assegura que os seus desempenhos sejam bons. Powell — que só acabava de se recuperar de um acidente de carro que afetara a sua memória de curto prazo, praticamente impossibilitando a memorização das falas — é engraçado e cativante; Lea e Holder interpretam em dupla, em um elevador e em um pombal, com uma eficiência modesta; e Hill… bem, não lhe deram muito o que fazer de qualquer maneira.

Eu realmente poderia continuar interminavelmente comentando sobre Slade in Flame, mas vou terminar contradizendo-me um pouco. Usei a palavra “deprimente” acima e essa não é nunca uma boa maneira de pedir às pessoas para se interessar por alguma coisa que você adora. Slade in Flame não é deprimente porque é emocionante ver alguém apresentar a verdade sobre o negócio da música na tela e esperar que o espectador tenha capacidade de compreendê-la corretamente. Como cantor e crítico musical, posso sinceramente dizer que até então nunca tinha sido vítima de nenhum tipo de violência de gângster. Mas estive em bandas que só contratavam o baterista porque ele tinha o seu próprioinstrumento, só deixavam alguém ser o empresário porque tinha uma van e que se separavam porque éramos todos machistas demais para falar sobre os nossos sentimentos e só ficávamos entediados com a mundanidade de tudo aquilo. E estive em muitas festas do meio empresarial da música, em que todos ali estão em busca de um futuro sucesso ou são funcionários interesseiros de uma empresa que mal se dá ao trabalho de mascarar o ódio pela sua nova da banda de sucesso, porque eles estão a tal ponto no controle daquelas marionetes desesperadas que não precisam sequer fingir entusiasmo. Slade in Flame é engraçado porque é verdadeiro, e um grande filme porque a história poderia ser sobre qualquer grupo de sujeitos da classe operária em qualquer profissão de enriquecimento rápido, e é de uma época muito anterior àquela em que os cineastas britânicos se deixaram iludir pela mentira da “sociedade sem classes” e baniram a classe trabalhadora do escrutínio público, para que não nos levantássemos em nossas jaquetas com capuz com a nossa moda da linguagem truncada e o bafo de comida barata, insistindo que ainda existimos, e derrubar o maldito tom banal do que atualmente passa pela indústria cinematográfica britânica.

E já que estou na onda de me contradizer, não tenho certeza se Slade in Flame matou mesmo a carreira do Slade. Na verdade, o que poderia ter sido o Slade. Porque as suas músicas de 1974 parecem boas enquanto se está assistindo ao filme, mas são muito ruins quando só se ouve o CD. Adorei “Cum on Feel the Noize” e “Merry Xmas Everybody”, mas ainda acho que Slade in Flame é o melhor filme deles. Hill pode não ter sacado essa, mas Holder e Lea, que há muito tempo seguiram em frente depois do Slade, entendem que deixaram algo desafiador e corajoso, e realmente muito maravilhoso, para a posteridade. Nada mal para eles, no dizer do baterista Powell referindo-se ao Slade no complemento do DVD, os  “quatro canalhas de Wolverhampton”.

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bORN tO bOOGIE (aPPlE fILMES,1972)

Elton+John+c31

EM POPCORN  - O ALMANAQUE DOS FILMES DE OURO (Editora Madras), o jornalista Garry Mulholland acopla eu trabalho de crítico musical com uma  de suas paixões para produzir a primeira análise de que se tem notícia sobre o estranho, e muitas vezes desconcertante, mundo dos filmões concerto de rock-and-roll desde o começo do século.

Muito mais que isso, esta obra é, ao mesmo tempo, uma análise crítica séria e também uma homenagem aos filmes clássicos, aos filmes B e ao cinema trash sobre rock.

E, igualmente mais à vontade, ao longo do livro o autor sente-se igualmente à vontade para homenagear, desconstruir – ou destruir, dependendo do caso – produções como Performance, Gimme Shelter, Grease (Nos Tempos da Brilhantina) Footloose (Ritmo Louco).

São revisitados, também, ao longo do livro, são revisitados clássicos dos mais diversos gênero envolvendo a música, a exemplo de Woodstock, The Rocky Horror Picture Show, Quadrophenia, Easy Rider (Sem Destino), Saturday Night Fever (Os Embalos de Sábado à Noite),entras pérolas revistas.

Slade in Flame, longa-metragem sobre os demolidores Slade. Também são desenterrados Purple Rain, estrelando Prince.

Re produzo aqui, no entanto, excerto completo sobre concerto-show Bolan, o cinematográfico “Born to Boogie”, nome do recém-parido boogie woog do  T-Rex. ranossaurus Rex.

Do início do filme, com o logotipo da Apple descascando-se ao som de uma trilha excitante criada pelo T.Rex, até o seu termino, Born to Boogie  é carregado de emoção, histeria e exacerbação e, evidentemente, rock. Na seqüência inicial, a uma antiga foto do ídolo rockabilly Eddie Cochran é sobreposta a uma imagem de Bolan [na época ocupando o pedestal de Rei do Rock na Inglaterra], na mesma posição.

Serviu de modelo direto ao punk, a exemplo da influência que exerceu sobre bandas  a exemplo do Damned, Ramones, The Smiths, Sioux and the Banshees, Damned, e tantos outras. E também sobre os estilos derivados do punk, como a new wave, no caso do Blondie, e sobre bandas góticas, de onde o Bauhaus assumiu particularidades visuais e sonoras. Todos regravaram músicas do T-Rex.

Morrissey, dos The Smiths, disse que o primeiro show que viu na vida foi aquela mesmo que foi captado e lançado em Born To Boogie, o que lhe fez optar por uma carreira no rock.

Mas chega de papo. Leiamos a análise de Gary Mulloand, que – bem fez ,- não poupa elogios e. tampouco, certas  defenestrações a muitos de seus ídolos.

***

Estrelando: Marc Bolan, Ringo Starr, Mickey Finn, Geoffrey Bayldon, Elton John

Direção: Ring  Starr.

Argumento: Astro pop faz apresentações e desperdiça tempo em tolices com um Beatle.

Frase Antológica: “Não, ele não era rico. Ele tinha um monte de dinheiro, sabe? Às vezes usava o sol como pandeiro.”

Editora: Seoman

POR GARY MULLOLAND

A BANDA T-REX ERA O MÁXIMO EM 1971. De modo que vendia milhões, incomodava as publicações sensacionalistas, e era tão famosa quanto os Beatles. E isso, em si, continua sendo estranho, porque Marc Bolan estava muito mais para filmes de arte do que demonstrativos de lucros. Tendo fundado o Tyrannosaurus Rex como um festival cult gratuito no final dos anos sessenta, cantando sobre magos, elfos e garotas chamadas Deborah, que eram exatamente uma zebra, acompanhado de  violão e bongô, a sua mudança repentina para guerreiro elétrico e ídolo cantor foi semelhante a Devandra Banhart de repente trocar os pelos faciais excessivos.

E os  folclorismos ao redor da fogueira por um corpo sarado e correntes de ouro, fazendo uma fortuna com o R&B ao estilo Usher. Bolan realmente conseguiu um coro de garotas num art-rock minimalista, pós-moderno, pré-Ramones, enquanto machões fanáticos por futebol fingiam trejeitos afrescalhados para imitá-lo.

O  rock anos cinquenta de Bolan, atrevido, retrabalhado, com seus duendes sexies  amuados, arrumadinhos e deliciosamente sem sentido eram exatamente o que a Grã-Bretanha precisava depois da separação dos Beatles e de inundação de cantores-compositores de rock falsamente rústicos, profundamente preocupados e monstruosamente maçantes.

Seu sucesso foi tão vertiginoso que os Beatles, que financiaram este projeto de vaidade cinematográfica. Tal projeto de vaidade consiste em destaques escolhidos entre dois concertos soberbamente filmados no Empire Pool, em Wembley (atualmente Wembley Arena), intercalados de uma sessão em estúdio na qual a banda T.Rex é acompanhada pelo diretor Ringo Starr e Elton John, e cenas surrea e extravagantes inspiradas, como é informado no documentário ‘Making Of’ do DVD, em Fellini.

Basta dizer que, como acontece com os diretores de filmes de arte, Ringo acaba por se revelar um baterista realmente bom. Mas isso é parte do que torna Born to Boogie um ótimo filme de se ver; é um exercício de arrogância e preguiça mascarando a espontaneidade criadora que lhe diz tudo o que você precisa saber sobre  a autoestima e a inutilidade inocente do rock após elevados picos intelectuais da era de ouro de 1960. Além disso, os fãs são tão bonitos e me deixam tão nostálgico da década de 1970… blusas e suéteres demasiado apertados, maquiagem toda errada e um alegre desprendimento completamente não agressivo. Os shows são como uma convenção de geeks e nerds, e você imagina com carinho que todos eles se tornaram artistas e escritores e punks precursores e sexualmente ambíguos. Mas provavelmente tornaram-se corretores imobiliários e vendedores de loja, assim como o resto de nós.

Born to Boogie parece um filme de concertos normal até o fim de “Baby Strange”, e de repente estamos no final do que parece ser uma pista de aeroporto vendo um carro vermelho aproximar-se na nossa direção. Mesmo quando ainda está a alguma distância, você sabe que a figura de pé no pequeno carro esporte é Marc — um homem tão especial, Ringo parece estar nos dizendo, que você pode identificar que é ele a 100 metros de distância. Ele está usando um gorro marrom de mago e bate no motorista com um mata-moscas. O motorista é um homem fantasiado de camundongo. Um telefone toca e Bolan atende enquanto o seu amigo peludo se junta a ele no banco de trás. Ele tem uma conversa idiota sobre um homem em Nova York. Bolan, em seguida, acena para alguém não mostrado pela câmera e, de repente, aparece um personagem — puf! Magia! — do nada.

É um anão em uma fantasia de super-herói. Marc lhe bate. O Supernanico come o espelho retrovisor de Marc. Outra mudança repentina e estamos assistindo a Bolan, Ringo e Elton John tocando uma horrível versão de rock de barzinho de “Tutti Frutti”. Em seguida, Elton acompanha Marc em uma versão de “Children of the Revolution”, que ele canta como uma cabeça sem corpo dentro do piano de Elton. E eu acho que você  deve estar captando a ideia a essa altura. Mas é algo extraordinário ver Elton e um Beatle sendo acompanhantes de Marc Bolan. Isso dá uma ideia de como Marc  importante e bacana em 1971.

A parte em que Bolan e Starr ficam sem ação enquanto tentam fazer algum tipo de encenação para a câmera com base na letra de “Party”, de Elvis Presley, é uma visão incômoda, porque Bolan está obviamente forçando o riso e Ringo está tentando e não conseguindo esconder a sua impaciência com o seu astro tolo, folgado. Essa parece ser a questão principal do filme; a personalidade ardilosa de Bolan, tão agradável logo que ele começa a tocar a sua guitarra e a cantar, é um recipiente vazio quando a música para, e ficamos com a incapacidade do pobre Ringo de encontrar alguma substância nela. Bolan ainda pode parecer magro e bonito, e achar-se no auge da popularidade a essa altura. Mas pode-se ver o seu declínio futuro a cada quadro. Ele usou toda a sua inteligência criativa na invenção do glam rock, e é fascinante assistir a um filme em que se pode ver que o fracasso do astro é inevitável, ao passo que o próprio astro acredita que todas as suas ideias e a sua expressão são de ouro maciço e de fácil interpretação. Na verdade, mais assustador do que fascinante. Se a sua morte, em 1977, tivesse sido por suicídio, overdose de drogas ou assassinato, o filme seria impregnado de presságio, mas um  acidente de carro enquanto ele estava se tornando a fada-madrinha do punk enfraquece completamente o ângulo da morte.

Após o esforço em busca do sentido revolucionário do rock do final da década de 1960, a reação negativa de 1970 foi o rock ’n’ roll como um fim em si mesmo. “Cosmic Dancer”, interpretada maravilhosamente aqui, contém o cerne do cerne:

“Eu dancei ao sair do útero/É estranho dançar tão cedo?”.

A resposta seria não, naturalmente, porque na estética do rock que Bolan inventou, isso é tudo o que existe. As crianças (de todas as idades) dançando o rock ’n’ roll, sempre sonhando, sempre inocentes. Uma mágica terra das fadas de prazer sem sentido. Parece muito bom para mim. Mas a década de 1970 foi um período muito cínico para sustentar isso por muito tempo.

No original: “I danced myself right out the womb/Is it strange to dance so soon?” (N.T.)

O DVD inclui um documentário “Making Of”” dirigido pelo filho de Marc, Rolan. É uma hagiografia, é claro, mas tem muitas informações úteis e algumas imagens em preto e branco encantadoras de Bolan jovem na época hippie e de parceiro de John Peel. O que não menciona é que Bolan chutou brutalmente Peel para a sarjeta assim que ele ficou grande o bastante para sair com ex-Beatles, nem que Peel passou a ser uma lenda universalmente admirada, o que Bolan não foi.

Portanto, fãs de verdade: os ingressos para os shows no Empire Pool eram de 75 pênies. Os jardins em que é filmado o lanche da tarde ao estilo Lewis Carroll eram da casa de John Lennon, e os hambúrgueres consumidos eram da Fortnum & Mason. O garçom do lanche da tarde é interpretado por Geoffrey Bayldon, que começou no ramo dos espetáculos interpretando o papel-título em um programa infantil da TV realmente muito brilhante da década de 1970 intitulado Catweazle, sobre um bruxo medieval que se vê transportado no tempo para os anos setenta e se vê às voltas com a magia dos “truques elétricos” e do “osso que  fala”. Um fã cabeludo da banda T.Rex insiste que ele quer chantagear o governo britânico. Bolan uma vez chutou Tony Visconti no saco. E, claro, Marc teve uma premonição de que morreria em um acidente de carro.

Visconti, que produziu os dois maiores discos de Bolan e David Bowie, comenta com Rolan:

“Seu pai era arrogante o suficiente para acreditar que podia entrar no palco sem adereços”. Ele tinha o direito de ser arrogante. Em Born to Boogie, vê-se que a banda T.Rex trabalha em um palco pequeno, sem frescuras, sem show de luzes, sem nada da pompa teatral de Bowie. Mas ele ainda é melhor ao vivo do que Bowie, e isso explica por que Bolan foi tão adorado pelos punks,

Com sua estética despojada. Os punks não eram modestos. Eles tinham certeza de que o carisma dos seus astros e a intensidade da música eram a parte mais importante do espetáculo do que porcos voadores e lasers. Nesse sentido, Bolan foi uma das maiores inspirações do punk.

Born to Boogie é um filme de rock fundamental, porque é um perfeito exemplo do fracasso constante do rock de dar vida à sua campanha revolucionária e da inevitável loucura de um homem adulto fingindo que é melhor do que nós porque toca uma guitarra. Mas também porque é um dos poucos filmes deste livro em que as apresentações ao vivo deixam você de cabelo em pé, gingando os quadris e mordendo os lábios em uma homenagem verdadeira ao gênio que foi Marc Bolan.

Se ela for, às vezes, embaraçosamente ruim, então só serve para lembrar que o rock and-roll era melhor quando revelava as suas mentiras e fraquezas, encolhia os ombros e sorria, e balançava, de qualquer forma, os quadris na sua cara.

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lIÇÃO dE cASA pARA o fUTURO

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Pela terceira vez, o Brasil lança um plano para exterminar o analfabetismo. As dificuldades, porém, vão muito além das salas de aula

POR CRISTIANO BASTOS – ROLLING STONE

ILUSTRAÇÃO: LÉZIO JÚNIOR

EM 1962, ANO EM QUE O BRASIL CONQUISTAVA O BICAMPEONATO mundial de futebol no Chile e os compositores Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes eternizavam “Garota de Ipanema”, o panorama educacional brasileiro, no cenário pintado pelo antropólogo Darcy Ribeiro, era “calamitoso”.

Então ministro do presidente João Goulart, Ribeiro traçava o Primeiro Plano Nacional de Educação, o qual listava uma série de medidas emergenciais para salvar a educação no país. Entre outras ambições, ele desejava alfabetizar, até 1970, todas as crianças e adolescentes entre 7 e 14 anos. Na época, o Brasil amargava o pior índice de iletrados de toda a América Latina: um exército de 5,8 milhões de analfabetos – o que representava 39% de toda a população nacional. Mas um golpe de Estado, cujo comando militar tramava obscuros “planos”, enterrou definitivamente o projeto dois anos depois.

hoje, o Brasil é um dos motores econômicos do mundo, passou a ser a sexta economia global e, antes de 2015, deverá ultrapassar a França e garantir o quinto lugar (conforme as projeções do Fundo Monetário Internacional). Com tanta pujança, é gritante, entretanto, a defasagem do sistema educacional, se comparado ao momento econômico vivido pelo país. De fato, ainda é impossível comparar a educação no Brasil com os níveis de formação profissional das nações mais desenvolvidas. O setor já vingou inúmeras melhoras, mas os números continuam falando por si próprios. É o que mostra a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2009, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), segundo a qual 3,7 milhões de crianças e jovens (de 4 a 17 anos) estão fora da escola. As estatísticas não são muito alentadoras. Por exemplo, caiu em apenas 0,3 ponto percentual a taxa de analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais. Em 2008, o índice foi de 10% e, em 2009, de 9,7% – no total, ainda há 14,1 milhões de brasileiros que não sabem ler nem escrever.

Para a superação dessas deficiências históricas, uma das propostas que poderá soprar ares renovados a esse panorama é o novo Plano Nacional de Educação (PN E), feito para vigorar no decênio 2011/2020. Encaminhado pelo governo à Câmara dos Deputados por meio do projeto de lei 8035/2010, o projeto foi entregue, em Dezembro de 2010, ao então presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo ex-ministro da Educação, Fernando Haddad. A comissão especial que analisa o PNE em plenário marcou para este Fevereiro a apresentação do texto final, que deverá ser votado em março. Após a aprovação, segue para o Senado e, caso avance, vai para a sanção presidencial.

“Fizemos um projeto”, explica Haddad, “com metas para serem aplicadas e honrarem a sociedade. Mas, se chegarmos a 2020 com metade delas não cumpridas, ele [o PNE] perderá credibilidade. Queremos aprovar um plano amadurecido e factível e exigimos um esforço adicional”, conclama o ex-ministro, agora candidato à prefeitura de São Paulo, que recém-entregou o cargo ao titular da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante.

O “PNE de Haddad”, que, em seis anos frente ao MEC sempre defendeu a tese de que “educação não é gasto social, é investimento”, define dez diretrizes objetivas e 20 metas, acompanhadas de estratégias específicas de concretização: aumento de vagas em creches, ampliação de escolas em tempo integral e expansão das matrículas em cursos técnicos estão entre elas. O plano é considerado sucinto em relação ao anterior, concebido durante o governo Fernando Henrique Cardoso, que vigorou de 2001 a 2010 e enumerava 295 metas. Na avaliação de especialistas, porém, o problema daquele PNE havia sido justamente o excesso de objetivos e a falta de foco.

“Não vingou”, decreta Idevaldo Bodião, colaborador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que afirma que há atualmente uma força-tarefa governamental empenhada em aprovar um plano “nos limites estritos do que pensa o Executivo”. Para ele, o cenário é mais ou menos o mesmo de dez anos atrás: “Um plano generoso em metas e estratégias, como a ampliação da escolarização da educação infantil à pós-graduação, mas que deverá ser estrangulado no mais essencial – o financiamento”.

Mais contidas, as metas do novo Plano Nacional de Educação seguem o modelo de “visão sistêmica da educação”, estabelecido em 2007 com o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), uma das criações de Fernando Haddad. O PNE, no entanto, aterrissou no Parlamento frustrando expectativas de boa parte da comunidade educacional. A principal razão da indignação é o percentual do Produto Interno Bruto (PIB) que se pretende destinar ao projeto. O texto original enviado pelo governo prevê, até 2020, a meta de aplicar 7% do PIB em investimentos públicos em educação – hoje, o país investe cerca de 5%.

Muitas das emendas ao projeto (a maioria das três mil apresentadas), porém, pedem 10% do PIB – esta seria a bandeira de entidades como a União Nacional dos Estudantes (UNE), a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e a Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Estima-se que o valor que necessitaria ser adicionado ao orçamento para se atingir o patamar de 7% seja de R$ 84 bilhões. Em sua totalidade, os atuais 5% somam R$ 200 bilhões em investimentos da União, Estados, municípios e Distrito Federal. A decisão pelos 10% elevaria os recursos, portanto, para o dobro: R$ 400 bilhões.

Após negociação com o governo, em dezembro, o deputado Angelo Vanhoni (PT-PR), relator do PNE na Câmara, definiu em 8% a meta de investimento público na área. Apesar de elevar o índice, Vanhoni fez uma mudança no texto que foi criticada por alguns parlamentares: o relatório apresentado pelo deputado determinava o percentual como “investimento público total em educação” – a palavra “total”, porém, não existia nos textos anteriores. Dessa forma, por exemplo, estariam incluídas na categoria “investimento” as bolsas de estudo e as contribuições sociais de aposentadoria a trabalhadores da área. O relator foi acusado por alguns parlamentares de “maquiar” os números. Vanhoni alega que vai modificar a meta, e que o índice de 8% do total corresponde, na prática, a 7,5% de investimentos diretos: “Vou mudar [a meta do percentual] para deixar mais claro, mas estou convencido de que 7,5% são suficientes para atender a todos os objetivos que estão no meu relatório”, explica.

Para Luiz Araújo, mestre em políticas públicas em educação pela Universidade de Brasília (UnB) e militante da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, houve duas surpresas ingratas no relatório de Angelo Vanhoni. A primeira é não ter acatado os 10% deliberados na última Conferência Nacional de Educação, realizada em 2010 (os 8% teriam sido um “meio-termo”). O segundo problema foi o fato de o deputado ter alterado o indicador que mede o cálculo. “Foi o que mais escandalizou todo mundo”, diz Araújo, alegando que todo debate sobre educação é feito em cima do investimento público direto, ou seja, o gasto que o setor público faz no setor público.”Mantendo os valores que o governo está propondo não serão cumpridas as metas, porque o dinheiro não é suficiente.”

Em defesa do PNE, o senador Humberto Costa (PT-PE) diz que há várias outras áreas que igualmente possuem carência de recursos. “A proposta original dos 7%, apesar de não ser o que gostaríamos que fosse, permite, no entanto, um equilíbrio no orçamento que dará para garantir importantes recursos nas áreas da saúde, assistência social e infraestrutura”, argumenta. Já a deputada Fátima Bezerra (PT/RN) considera o percentual de 7% insuficiente para enfrentar os desafios da educação no Brasil, ainda que o salto dos atuais 5% tenha sido relevante. “Como o governo tem acenado que é difícil chegar aos 10%, temos insistido para atingirmos os 8%. Não desistimos, no entanto, da luta pelos 10%”, diz. Titular da Comissão de Educação e Cultura da Câmara, a deputada enumera os dados que comprovam o balanço negativo do PNE passado: “O acesso à creche: éramos para ter chegado a 50% de nossas crianças com esse direito garantido, mas ficou apenas em 20%. Também éramos para ter entrado 2012 com 30% de nossos jovens de 19 a 24 anos tendo acesso ao ensino superior. Só 14% deles, porém, ingressaram na universidade”. A falta de sintonia no debate nacional com os estados e municípios também teria contribuído para que as metas não fossem cumpridas. “Faltou coordenação por parte do MEC”, Fátima critica.

O professor Mozart Neves Ramos, conselheiro da ONG Todos pela Educação, traz a questão do tempo ao debate. Para ele, o PNE deveria ter metas anuais ou bianuais, e não para uma década inteira. “Uma das grandes chagas do Plano Nacional de Educação da última década foi exatamente não ter feito um avaliação regular de metas”, ele diz. “Quando se faz uma projeção, é preciso avaliar se a política adotada está surtindo os resultados esperados na velocidade desejada. Para que não chegue ao final e conclua-se que a meta não foi alcançada.” É fundamental também, no entendimento de Ramos, a realização de um monitoramento anual, visando compreender quais estados e municípios estão atingindo seus objetivos – de acesso, aprendizagem, alfabetização e investimento. “Só assim, afinal, a sociedade poderá cobrar”, conclui.

De abril a julho, uma caravana da União Nacional dos Estudantes percorrerá 100 cidades brasileiras para discutir o tema: “Qual educação o Brasil terá daqui a dez anos?” O carro-chefe do debate será justamente o Plano Nacional de Educação. Junto com entidades como a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), a UNE apresentou 602 emendas ao texto original do PNE. São modificações fundadas em três eixos essenciais, conforme pontua Daniel Iliescu, o presidente da entidade: qualidade da educação, democratização do acesso e da permanência e financiamento público. “Financiamento, inclusive, é o eixo condicionante para todos os demais. É a ‘pedra de toque’ da educação”, define. Além de defender os 10% do PIB, Iliescu propõe uma “estratégia financeira” alternativa: a destinação de, no mínimo, 50% do Fundo Social do Pré-Sal para a educação. “Raramente, na história do Brasil, recursos oriundos dos avanços econômicos foram revertidos para as áreas sociais”, diz. “É a oportunidade única, nos próximos 20 anos, quando o PIB multiplicará algumas vezes por causa do Pré-Sal, de concentrar tamanhos proventos em um segmento estratégico como a educação.”

Na visão de Paolo Fantini, coordenador de Educação da Unesco, o Brasil teve melhoras relevantes nas últimas décadas, principalmente devido à democratização da educação no país. Repetência e abandono escolar, contudo, ainda são sérios problemas. De acordo com a Unesco, o Brasil avançou no ensino fundamental, o qual está quase universalizado, mas ainda enfrenta o desafio de garantir educação básica de qualidade para todos. “O importante não foi tanto se o [programa] Brasil Alfabetizado é sucesso ou não”, diz Fantini, “e, sim, testemunhar uma vontade política de pôr a alfabetização de jovens e adultos como prioridade de governo”.

A mais recente avaliação do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), que avalia estudantes de 15 anos completos nos países membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), além de convidados, como Brasil e Argentina, trouxe uma boa notícia: a média do Brasil subiu 33 pontos entre 2000 e 2009. Os números, todavia, devem ser festejados com moderação. Ainda figuramos nos últimos lugares da avaliação – 54º de 65 países. Entre outras carências, o Pisa mostrou que a matemática ainda é o ponto mais fraco dos brasileiros. Em leitura, quase metade dos avaliados alcança apenas o nível 1, ou seja, o grau mínimo de habilidade de leitura. Tal informação não é de se admirar, levando em conta que quatro em cada dez estudantes brasileiros têm de zero a dez livros em casa. Em Xangai, província chinesa com o melhor rendimento nas provas, 36,8% dos alunos têm de 25 a 100 livros.

A professora Amanda Gurgel conhece essa realidade de perto. Ela ganhou notoriedade instantânea após a veiculação de um vídeo, filmado durante uma audiência pública, em que punha a boca no trombone sobre as condições caóticas da educação no Rio Grande do Norte. Professora de português, Amanda se tornou uma espécie de heroína da classe (tanto que é pré-candidata a vereadora pelo PSTU nas próximas eleições) ao escancarar seu contracheque de R$ 930 na cara dos constrangidos deputados presentes. As dificuldades, ela alega, são inúmeras e complexas e estão relacionadas à realidade social. “Percebemos os reflexos diretamente em nosso trabalho”, ela opina. “Violência, dependência química, desemprego e desigualdade são fatores determinantes para um fenômeno que lidamos diariamente nas escolas: o analfabetismo funcional.”

No parecer da professora, o contexto do Rio Grande do Norte reflete as condições do sistema educacional brasileiro como um todo. Após o desabafo em vídeo, Amanda teve a oportunidade de percorrer o país, conversando com outros educadores, e presenciou que “estamos todos no mesmo barco”. Não há um estado sequer, segundo ela, em que a educação pública funcione dignamente. “Os governos não investem o suficiente para o funcionamento das escolas. E, regra geral, ainda tentam punir e responsabilizar os trabalhadores que são, na verdade, tão vítimas quanto os alunos deste caos que aumenta a cada ano, empurrando os índices educacionais para baixo, ainda que a economia esteja em alta”, discursa.

Amanda, que também levanta a bandeira dos 10% do PIB, acredita que o Plano Nacional da Educação poderia significar não a solução absoluta, mas um primeiro passo para a superação do abismo educacional. Mas é essencial, propõe, que esse investimento seja realizado imediatamente, e não ao longo de dez anos. “Para os milhões de crianças e jovens nas salas de aula”, ela diz, “significa o futuro.”

Rolling Stone – Edição 65 – Fevereiro de 2012

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Disputas judiciais entre familiares de Raul Seixas barram novos lançamentos do músico baiano

POR CRISTIANO BASTOS

NOS ANOS 60, O “VIDENTE” DA COMUNICAÇÃO Marshall McLuhan profetizou: “O meio é a mensagem”. E a mensagem é, justamente, a herança mais valiosa transmitida pelo missivista do rock brasileiro – Raul Seixas (1945-1989).

A música foi o “meio” escolhido, veículo através do qual, por toda a vida e obra, insultou o “monstro sist”. Hoje, contudo, refém de várias contendas judiciais pelo imaterial espólio, tem seu libelo asfixiado pelo mais complexo e surpreendente dos sistemas: a família.

Dos milhares de fãs de Raulzito, morto aos 44 anos, poucos sabem que ele deixou três herdeiras: as filhas Simone Vannoy (38) e Scarlet Vaquer (33), que vivem nos Estados Unidos desde crianças, e Vivian Seixas (27), no Brasil.

As duas primeiras, frutos da união conjugal de Raul com as norte-americanas Edith Wisner e Gloria Vaquer Seixas (hoje Sky Keys), respectivamente; a terceira, fruto do relacionamento amoroso com Angela Affonso Costa, autointitulada Kika Seixas.

Além da abastada fortuna musical, Raul Seixas não deixou patrimônio significativo, sequer existe espólio aberto. Nesses 20 anos, tudo o que suas filhas herdaram consiste em direitos autorais – de execução e imagem – pagos ao longo dos anos.

O astro baiano é o que se pode chamar de “long-seller”: verdadeiro fenômeno, absolutamente espontâneo. Antiga, a briga (que nada tem a ver com música) desenrola-se em um cenário “internacional”.

Nos Estados Unidos, as sucessoras de Raulzito defendem o lançamento de vários projetos envolvendo a obra do pai – muitos dos quais vetados na Justiça por Kika Seixas, que hoje atua como procuradora legal da filha, Vivian Seixas.

A procuradora de Simone Vannoy, a advogada Flávia Vasconcelos, ressalta que as três herdeiras detêm todos os direitos de autor e conexos relativos à obra de Raul Seixas, assim como os direitos de uso de sua imagem e nome.

Na prática, pontua, significa que somente elas podem autorizar ou desautorizar qualquer projeto:

“O equívoco ocorre porque muitos consideram Kika como ‘viúva de Raul Seixas’ e, em consequência, detentora de tais direitos. No entanto, como não se casaram oficialmente, ela não é viúva dele”. Apenas Simone, Scarlet e Vivian são as legítimas herdeiras.

Primogênita de Raul, Simone conta que, na medida do possível, procura não envolver-se nesses conflitos judiciais, mas, regularmente, diz cultivar a memória do pai.

“Tenho todas as músicas dele em meu iPod e as escuto com frequência. Escutar sua música, assistir seus vídeos, ouvir suas entrevistas e ler artigos sobre ele me ajudam a entender o homem e pai que não cheguei a conhecer”.

A polêmica inflamou de vez quando Kika, em agosto, vetou a biografia que o jornalista Edmundo Leite escreve há cinco anos sobre Raul. Embora lhe tenha concedido duas entrevistas, Kika voltou atrás radicalmente.

Agora não quer mais saber do livro. Edmundo foi advertido por telegrama: “Caso o senhor insista na realização irregular de tal biografia, serão tomadas medidas judiciais cabíveis”.

Em outra declaração, escudada por Vivian, Kika justificou sua decisão baseando-se pelo “teor do livro”. Segundo disse a caçula de Raulzito à reportagem da Rolling Stone, o jornalista insistiu em bater na tecla da relação do cantor com as drogas.

O biógrafo se defende dizendo que não abordou apenas este temário. Segundo ele, esse capítulo foi explorado, sim, em momentos da entrevista. Todavia, sem a insistência e obsessão alegadas pela ex-fonte:

“Drogas e álcool fizeram parte da vida de Raul, como várias vezes a própria Kika relatou em entrevistas e livros por ela editados”.

No juízo de Sky Keys – para a qual os “dias de controle ilegal” de Kika aproximam-se do fim –, o fato de Raul ter consumido álcool e drogas nunca foi segredo. “E daí?”, interroga:

“Vincent van Gogh estava totalmente bêbado de absinto quando cortou sua orelha e Sigmund Freud cheirava cocaína. Scarlet e eu faremos tudo o que pudermos para revelar a verdadeira história de Raul, que pertence ao Brasil”.

A terceira companheira de Raul Seixas, Tânia Menna Barreto, também alinha-se a favor de Edmundo Leite. Ela revela que ao retornar dos Estados Unidos foi entrevistada pelo jornalista num fim de semana em Paquetá, Rio de Janeiro.

Sequer, garante Tânia, o biógrafo focou a seara das drogas: “Foi abrangente em suas perguntas e soube conduzir a entrevista de forma leve e profissional”.

“Existe uma seita secreta querendo destruir o legado de Raul Seixas”. Após acusar Edmundo de valer-se, na biografia, de abordagem tendenciosa, Kika Seixas, novamente, apareceu na imprensa.

Dessa vez, apelando para justificativas “além-túmulo” para impedir a edição do livro. Segundo ela, seu “guia espiritual” lhe teria dito que o momento “não era oportuno para lançamento de livros a respeito de Raul Seixas”.

Ao ser procurada, Vivian endossou as declarações maternas:

“Tenho certeza de que as famílias de Elis Regina, Renato Russo ou Cazuza teriam a mesma cautela. Além do mais, meu guia espiritual me avisou que o momento astral não é propício para o lançamento de mais uma biografia”.

Para Vivian, no entanto, a temporada é propícia. Ela, que é DJ, recém lançou o álbum de remixes Geração da Luz, no qual manufaturou clássicos paternos como “Metamorfose Ambulante”, “Como Vovó Já Dizia” e “Rock das Aranhas” nos domínios da eletrônica.

Na Bienal do Livro do Rio, o escritor Ruy Castro disse que no Brasil “o biografado ideal tem que ser órfão, solteirão, filho único, estéril e brocha”. O escritor penou para ver publicado o livro Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha, sobre o lendário jogador das pernas tortas.

Proibido pelas filhas de Garrincha, que diziam defender a “integridade moral” do pai, o livro, posteriormente, foi liberado. Castro é curto e grosso: “Biografia autorizada não é biografia; é press-release”.

Os vivos, completa Ruy, não são confiáveis: “Mentem muito e obrigam os amigos a mentir sobre eles”.

A solução para tanta censura pode estar no Projeto de Lei 3378/08, do deputado federal Antonio Palocci (PT-SP). Postula o projeto, com parágrafo único:

“É livre a divulgação da imagem e de informações biográficas sobre pessoas de notoriedade pública ou cuja trajetória pessoal ou profissional tenha dimensão pública”.

“É um direito da sociedade ter acesso às informações que dizem respeito às figuras públicas”, afirma Pallocci. Personalidades públicas, observa, normalmente, interferem na história politica, economica ou cultural de uma sociedade:

“Não se pode tirar o direito da sociedade de conhecer esses processos”.

Anos após enfrentar a proibição de Deixa Eu Cantar (trilogia de álbuns com produções de Raul na gravadora CBS, no período de 1970 a 1972, embargado na justiça), o pesquisador Marcelo Froes encontrou novo tape de Raul Seixas, onde cantava, além de músicas dos Beatles, inéditas canções.

Froes confessa que, apesar de traumatizado, resolveu arriscar uma edição. Desistiu, contudo, quando teve como resposta sonoro questionamento: “Onde está a fita?!” Marcelo prefere não falar sobre seu novo achado – “Para os espertalhões não irem atrás”.

Mas adianta: há uma maravilhosa jam session onde Raul e banda tocam por quase dez minutos enquanto Paulo Coelho disserta sobre “o exercício de entrar num caixão e fechar a tampa”.

AS PROIBIÇÕES

Em cinco anos de apuração para escrever a biografia sobre Raul Seixas, Edmundo caçou todos os rastros que se deparou pelo caminho.

O jornalista conta que trabalhou com inúmeros acervos e arquivos, o que resultou, de acordo com ele, em vastíssimo material – praticamente inédito – sobre Raulzito.

Leite, inclusive, encontrou pessoas nunca antes ouvidas. A grande surpresa foi a participação da primeira esposa de Raul, Edith Wisner, a qual Edmundo entrevistou nos EUA:

“Não foram poucos os que, além de abrirem seus arquivos, dividiram comigo grandes histórias”, avalia o jornalista.

Entre 1971 e 1972, Raul Seixas registrou no estúdio montado no apartamento do guitarrista norte-americano (e ex-cunhado) Jay Varquer, no Rio de Janeiro, várias músicas que seguem inéditas até hoje – muitas das quais foram editadas em seu primeiro LP Krig-há, bandolo!.

Há alguns anos, o produtor Rick Bonadio, sabendo da existência dessas gravações propôs ao guitarrista que fizessem um álbum. Nos Estados Unidos, Jay gravaria as bases e depois as enviaria a Bonadio, em São Paulo, para que inserisse a voz de Raul nas novas bases.

No início da mixagem da voz de Raulzito, Kika Seixas ficou sabendo do projeto e, a fim de barrá-lo, ameaçou Rick com processo judicial.

“Ele não teve escolha ao na ser largar o projeto”, afirma o guitarrista. Jay ainda tentou as aproveitar as novas bases feitas no tributo Relembrando Raulzito, porém, Kika vetou o lançamento do disco no Brasil.

ROLLING STONE - NOVEMBRO DE 2009

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POR PAULO CÉSAR TEIXEIRA

FOTO: ROBERTO SILVA

HOUVE UMA ÉPOCA EM QUE SE ACREDITAVA QUE OS ÍDOLOS da canção popular não deveriam envelhecer. Bastaria beber uma porção mágica que lhes concedesse juventude eterna. Caso não fosse isso factível, melhor que subissem ao alto de uma montanha para esconder as marcas do tempo na pele, até que a súbita descoberta de um elixir da longevidade os arrastasse de volta ao convívio das gentes. Essa mentalidade ingênua que vigorou no mundo pop das décadas de 70 e 80 está cada vez mais fora de moda. Os ícones da rebeldia não só resistem ao tempo, como não abandonam o palco e afinam suas antenas para captar e expressar o que sentem e vêem. É o caso do cantor e compositor Nei Lisboa, que acabou de completar meio século de vida (em 18 de janeiro). Em maio, vai comemorar três décadas de carreira profissional.

Porta-voz de uma geração espremida entre o regime autoritário instaurado em 1964 e a redemocratização do país, formalizada só em 1989, poucos artistas produziram uma obra tão abrangente e de tanta qualidade na música popular do Rio Mampituba para baixo. “Desde cedo, tinha a idéia de que a canção é, antes de tudo, veículo para transmitir um discurso político”, diz. Não é, contudo, uma obra panfletária recheada de palavras de ordem. Nela, a poesia visceral, escrita em tom direto, com ímpeto juvenil, se contrapõe à ironia e ao sarcasmo. A palavra de Nei Lisboa é a de um cronista clarividente, de espírito astuto, capaz de perceber rapidamente as coisas mais sutis, com inteligência e bom humor.

O artista produziu nove discos de carreira (veja quadro à pg XX) e escreveu dois livros – o romance Um morto pula a janela (Artes & Ofícios, 1991), com a versão em francês Un cadavre saute par la fenêtre (L’Harmattan, 2001), e a coletânea de crônicas É Foch! (L&PM, 2007). Sua presença na cena cultural nos últimos 30 anos será comemorada, no segundo semestre de 2009, com o lançamento de um documentário produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre e uma caixa com CD e DVD gravados ao vivo. “O Nei tem talento para tocar, cantar, compor e escrever e ainda sobra talento para ser gente. Coisa rara”, afirma o escritor Luis Fernando Veríssimo.

“É o protagonista número um da geração de músicos gaúchos que se completa com Nelson Coelho de Castro, Bebeto Alves e Gelson Oliveira. Entre eles, é o mais singularmente urbano e também o mais identificado com Porto Alegre”, salienta Luís Augusto Fischer, escritor, professor e crítico literário. “Quando ouvíamos Pra viajar no cosmos não precisa gasolina, parecia que estávamos comendo um bauru no Trianon ou bebendo cerveja em um bar do Bom Fim. Ele sintonizou ondas que estavam vibrando no ar e ninguém sabia. Como dizia Ezra Pound, o artista é a antena da raça”, destaca Fischer.

Rebelde ao extremo, não por acaso, a obra e a imagem pública de Nei ficaram para sempre misturadas à boemia do bairro porto-alegrense do Bom Fim, cenário da adolescência e da juventude de sua geração. Pelo menos metade das canções do disco de estréia, Pra viajar no cosmos não precisa gasolina – produção independente de 1983, viabilizada através da venda de bônus entre amigos – faz referência ao uso de drogas. A fotografia da capa foi clicada em frente ao bar João e a da contracapa, dentro do boteco. “É, sim, o retrato de uma geração que resistiu à caretice e ao autoritarismo. O que me incomoda é a degradação non sense que depois se instalou ali e que não honra o que havia de melhor no Bom Fim: a busca de liberdade”, diz Nei.

Eu tô na madrugada Tô na chuva pelo calor Eu tô na luta armada Disfarçado de cantor (Cena beatnik, 2001)

Apolo e Dionísio

Natural de Caxias do Sul, Nei é o caçula de uma família de sete irmãos, que se mudou para Porto Alegre em 1965. Quando o pai saiu de casa, o garoto recém havia completado oito anos de idade. A partir daí, os filhos mais velhos de dona Clélia, Luiz Eurico e Rui, assumiram uma postura paternal com ele. A questão é que tinham visões de mundo opostas como as de Apolo e Dionísio, e ambas impregnaram sua infância. Rui havia feito CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva) e participava do coral Viva Gente, que rodava o país com mensagens de otimismo e fé. “Havia algo da TFP (Tradição, Família e Propriedade) naquilo”, cutuca Nei. Já os ídolos de Luiz Eurico eram revolucionários como Che Guevara e Martin Luther King.

Depois de alfabetizá-lo, Luiz Eurico presenteou o caçula com o livro História da riqueza do homem, de Leo Huberman, obra que apresenta uma visão crítica sobre a acumulação de capital. “Mesmo não podendo classificar o livro como um compêndio marxista, era representativo da doutrinação a que o Ico carinhosamente me submetia”, relata Nei. O irmão tinha o hábito de ler em voz alta cartas e poemas que escrevia (parte deste acervo foi publicada em Condições ideais para o amor, Editora Tchê, 1994). No imaginário da criança, a voz de Luiz Eurico ecoava pela casa como uma necessidade urgente de expressar um ideal de vida. “Construí uma relação muito forte não só com ele, mas principalmente com a palavra dele. Ico apontava o certo e o errado, claro, de acordo com a ótica da esquerda sessentista, mas sempre com alegria poética”.

Apesar da fascinação por Luiz Eurico, Nei passava mais tempo com Rui, até porque, envolvido com a luta armada contra o regime militar, o irmão mais velho volta e meia sumia de casa. “Rui me ensinava eletrônica e construíamos aparelhos de rádio em casa”. A influência de Rui (hoje analista da IBM) inspirou o lado B do cantor, que atualmente reparte sua vida entre a música e o computador. Embora se sentisse atraído por ambos, as idéias e o temperamento de Luiz Eurico foram mais decisivos para sua formação. “Neste caso, existe uma sedução que não tem como igualar: ele morreu. E quando a pessoa morre, fica eterna. A situação de estar incluído em uma lista de desaparecidos durante sete anos crava ainda mais a figura.” Preso em circunstâncias até hoje obscuras em São Paulo, em 1972, tudo leva a crer que Luiz Eurico tenha sido assassinado pelas forças de segurança do regime militar aos 24 anos de idade. Em 1979, o corpo foi localizado com nome falso no Cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, na capital paulista. Hoje, o irmão de Nei é nome de rua em Porto Alegre, Caxias do Sul e Criciúma.

Foi um rebuliço lá em casa Manifestos, passeatas Festivais de minissaias Meu irmão limpando a arma Meu irmão, E a revolução? (E a revolução, 2001)

Rebuliço lá em casa

As recordações do irmão revolucionário ficaram intactas. Ainda criança, Nei pegou um bonde para visitar Luiz Eurico, que vivia em um apartamento clandestino com a mulher, Suzana Lisboa. Bateu à porta e deparou com o rosto apavorado da cunhada, que segurava nas mãos uma bala de revólver chamuscada com reboco de parede. Momentos antes, ao limpar a arma, Luiz Eurico havia sem querer disparado o projétil, por pouco não atingindo a companheira – o episódio ocorrido em 1969 foi registrado na canção E a revolução, no disco Cena beatnik, de 2001. “Minha casa era um rebuliço desde 1967 com reuniões em que também participavam minha irmã Eliane e dois primos. Naquela época, uma casa sem pai era quase um aparelho político”.

Aos 16 anos, Nei arrumou as malas e partiu para Barstow, no sul da Califórnia, graças a um programa de intercâmbio estudantil da AFS (American Field Service). A cidade norte-americana fica no meio do deserto, no caminho para Las Vegas, emoldurada por uma paisagem que lembra à do filme Bagdá Café, do cineasta alemão Percy Adlon. Como a maior parte das famílias do interior dos Estados Unidos, a que o acolheu era extremamente religiosa. Havia que rezar antes de cada refeição. As opções de lazer se resumiam aos encontros de jovens na igreja. Exilado por conta própria, restava a solidão e, como estratégia de espantá-la, o violão, instrumento com o qual se familiarizara ainda na infância graças às aulas no Liceu Musical Palestrina. Trancado no quarto, Nei deixava o tempo passar tocando sucessos da música pop – o disco Hi-Fi, de 1998, com músicas dos Beatles, Rolling Stones, Elton John, Paul Simon e Ry Cooder, entre outros, é uma releitura muito particular deste repertório. Quando passou a “juntar dois acordezinhos”, saiu a primeira composição em “inglês macarrônico”. A letra anunciava a tomada do poder pela classe proletária, que surgia por detrás das montanhas e avançava pelo deserto até sitiar a cidade. Apresentada em um festival da igreja batista, ficou em oitavo lugar entre oito concorrentes. “Ninguém entendeu, mas ganhei uma loção pós-barba como prêmio de consolação”.

O período solitário nos Estados Unidos antecedeu a um momento de ruptura de comportamento. Ainda em Porto Alegre, quando solicitou o intercâmbio estudantil, escreveu na ficha de inscrição que pretendia seguir a carreira de economista. “Usava óculos grandes e quadrados, com aparência de nerd”, diz o jornalista Pedro Haase, um dos selecionadores voluntários da AFS naquele tempo. “O que mais impressionou o nosso pessoal é que, ao retornar para o Brasil, falava um inglês quase perfeito”, acrescenta Haase, atual coordenador da RBS Publicações. De volta à capital gaúcha, em 1976, o adolescente com feição de nerd estava com os dias contados. “Até aquele ponto, tinha sido bem comportado. Nada de sexo, drogas e rock and roll. Voltei dos Estados Unidos virgem em todos os sentidos. Então, resolvi cair na gandaia”. As rodas de som em diretórios acadêmicos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no centro de Porto Alegre, embalaram as primeiras apresentações públicas de Nei, que chegou a cursar dois anos da Faculdade de Composição e Regência. “Não queria estudar, e sim ter uma dúzia de namoradas por ano, ou tanto quanto possível”, hoje ele confessa.

Meu caso é uma simples Questão de capricho Sábado sim, sábado não Viro bicho (Capricho, 1984)

Boemia intelectualizada

Algumas coincidências geográficas contribuíam para aproximá-lo de seus objetivos. A maior parte dos cursos da UFRGS ainda não havia se transferido para a zona leste da cidade. Fora isso, o campus estava a alguns passos da “Esquina Maldita”, como era conhecida a esquina da Avenida Osvaldo Aranha com Rua Sarmento Leite, junto ao Túnel da Conceição, que aglomerava bares como Alaska, Estudantil e Mariu’s. “A cena musical estava conectada com a boemia intelectualizada que freqüentava o Bom Fim. Os ares universitários davam credibilidade e álibi para quem estava na noite, se é que as conversas eram assim tão interessantes”.

Quando estreou no palco, em maio de 1979, no Clube de Cultura, com o espetáculo Lado a Lado, com Augustinho Licks e Gelson Oliveira, o público era formado quase que exclusivamente por quem já o conhecia do circuito universitário. Para se ter idéia das dificuldades de produção, a iluminação de Samuel Bets foi montada com latas de leite em pó Ninho. “Ele arrancou o fundo e colou papel colorido e translúcido. Spot, nem pensar”, diz Nei. Aliás, o método de produção artesanal foi a marca das primeiras apresentações do cantor. Menos mal que a precariedade material podia ser compensada pela criatividade da turma. No teatro da Reitoria da UFRGS, por exemplo, o cenógrafo Nelson Magalhães inventou uma parede inusitada no fundo do palco: “Fiz com tiras de papel higiênico, bem esticadas, uma ao lado do outra. De longe, ninguém percebia. Sugeri que ele se atirasse sobre ela no final do espetáculo”, conta Nelsinho, que hoje se dedica à produção de móbiles (recentemente exibida no programa Móbiles, na Tv Cultura, de São Paulo).

Sem dúvida, o espetáculo de maior repercussão desta época é Deu pra ti, anos 70, de dezembro de 1979, cujo bilhete de ingresso era um Colomy (papel de enrolar cigarro, também usado para fumar maconha). Pouca gente se dá conta de que a expressão deu pra ti, popularizada na canção de Kleiton e Kledir, um ano depois, apareceu primeiro neste show de Nei, que ficou em cartaz apenas um fim de semana, no Teatro Renascença. Ela sintetiza o clima da época e já estava na boca dos freqüentadores do Bom Fim quando foi sugerida por Gelson Oliveira. “Ele falava muito isso, principalmente durante os ensaios, quando alguém estava muito chapado e não parava de solar a guitarra. Aí Gelson se impacientava: ah, deu pra ti, cara”, lembra Nei. A expressão caiu como luva para o mote do espetáculo, que se propunha a realizar um panorama da década que estava por terminar. Obviamente, o balanço não era positivo. “Era como se a gente dissesse: graças a Deus, acabou!”.

Teia de amigos

Apesar das boas intenções, com a perspectiva de três décadas de distância, saltam aos olhos os equívocos que Nei atribui à imaturidade da carreira incipiente. “Lá pelas tantas, entrava uma gravação em áudio debochando da figura do magrinho dos anos 70. O planejado é que durasse quatro minutos. Mas, por problema técnico, esticou para 12. Tinha gente na platéia quase praticando arakiri”. De fato, alguns espectadores se aborreceram. Não arredaram pé os amigos, entre eles, os cineastas Nelson Nadotti e Giba Assis Brasil. Para eles, o nome do espetáculo já anunciado em pichações havia três meses nos muros da cidade sugeria um roteiro que contasse a história da década de 70 a partir das experiências adolescentes daquela geração.

Em 1980, a dupla de cineastas lançou o longa metragem rodado em super 8 Deu pra ti, anos 70. Nei aparece cantando ao redor de uma fogueira entre jovens acampados em Santa Catarina. “Talvez seja um fato único na história do cinema mundial. Um filme em super 8 – bitola mais comum em casamentos e batizados do que em grandes obras cinematográficas – representou, para toda uma geração de cineastas gaúchos surgida nos anos 80, o que Roma, cidade aberta foi para os neo-realistas italianos”, escreveu o crítico Hugo Sukman, de O Globo. Luís Augusto Fischer destaca que Deu pra ti, anos 70 teve o mérito de transpor a paisagem de Porto Alegre para a tela do cinema, algo praticamente inédito na época. “Ao sair da sessão, a gente tinha a sensação de entrar no cenário do filme”. Essa familiaridade entre ficção e realidade se acentuava com a lista de atores e figurantes. Era uma teia de amigos. Do elenco, faziam parte os músicos Júlio Reny e Wander Wildner, além do cineasta Carlos Gerbase (hoje sócio de Giba Assis Brasil e Jorge Furtado na Casa de Cinema de Porto Alegre) e o ator Pedro Santos, do grupo teatral Vende-se Sonhos. Em 1984, Gerbase e Giba lançaram o longa-metragem em 35 mm Verdes anos, cuja canção de abertura foi composta e interpretada por Nei.

Foi no meio do salão Foi lá por 72 (…) Decerto foi por lá Que imaginei o agora Do jeito que se viu Discreto charme, aurora juvenil (Verdes anos, 1984)

A rigor, o público de Nei começou a ultrapassar o círculo restrito de universitários quando as canções passaram a tocar na rádio Bandeirantes FM, que logo a seguir viraria Ipanema FM. A primeira versão de Pra viajar no cosmos… (segundo lugar no festival Musipuc, da PUCRS, em 1980) foi gravada no estúdio da gravadora ISAEC, em Porto Alegre. “Em três horas, estava pronta. Pena que a matriz da fita se perdeu”, relata o compositor. Outra que tocava na emissora era Verão em Calcutá em gravação caseira com voz e violão. Em termos profissionais, um divisor de águas (literalmente) foi sua apresentação no Cio da Terra, miniWoodstock que reuniu 20 mil jovens em Caxias do Sul, em 1982. Em função da participação de artistas nacionais, como o cearense Ednardo, o nível de exigência da produção era maior. Só faltou combinar com São Pedro: “Na hora do show, caiu um aguaceiro e a lona do palco despencou sobre a minha cabeça”.

Pacote de Bonzo

O cantor já havia gravado o segundo disco, Noves fora, pela ACIT (gravadora caxiense que, em 1992, reeditou em CD os dois primeiros LPs na compilação Eu visito estrelas), quando assinou contrato com a EMI-Odeon, em 1986, na tentativa de ganhar visibilidade nacional. “Nesse período, minha cabeça estava voltada para o desejo de conquistar públicos fora do Rio Grande do Sul”. O sucesso do álbum Carecas da Jamaica (1986), ganhador do Prêmio Sharp de artista revelação, indicava que o caminho estava aberto para suas pretensões. Nei atribui, em parte, a desistência da carreira nacional ao desastre automobilístico em que ele se salvou, mas que resultou na morte da namorada Leila Espellet. Ela assinava a direção de arte da capa do disco Hein?!, que estava prestes a ser finalizado.

Mais que o trauma do acidente, a turbulência das relações com os executivos da EMI o desanimaram. “Meu cacife com eles estava desgastado. Logo depois da morte da Leila, eu secava tudo que era frigobar de hotel”. O impasse chegou a um limite quando o cantor se recusou a gravar Hey, Jude, dos Beatles, sob encomenda para a trilha sonora da novela Top Model, da Rede Globo. A princípio, ofereceram uma versão de Ronaldo Bastos (parceiro de Milton Nascimento). “Quando cheguei lá, mostraram uma letra de Rossini Pinto (compositor romântico da Jovem Guarda). Foi a gota d’água”. Com a desistência de Nei, a versão fez sucesso na voz de Kiko Zambianchi. As desavenças com o showbusiness se estendem à crítica especializada. Certa vez, o cantor enviou à redação do jornal Folha de S. Paulo um pacote de Bonzo (comida para cães) para ser entregue ao jornalista André Forastieri. “O cara publicou uma crítica mal intencionada que, a pretexto de elogiar bandas de rock pseudo-moderninhas, debochava do meu trabalho e de artistas como Elis Regina e Belchior”.

Cara limpa

Para Paulinho Supekovia, guitarrista que o acompanha há 20 anos, o amigo fez opção por qualidade de vida e liberdade artística ao ficar em Porto Alegre. “No centro do país, teria que negociar, ceder, e não seria feliz”. Contudo, embora afirme não ter perfil para ser ídolo de massa, Nei aposta que sua música urbana com sotaque universal pode ser compreendida em qualquer grotão do país. “Muito me agradaria estar tocando em um circuito imenso pelo Brasil. Infelizmente, o caminho se fechou geograficamente. E se é para pensar em desbravar novos mercados, me mandem logo para Nova York”, brinca. Mesmo porque, com o avanço das novas tecnologias, ninguém mais sabe com certeza qual é o caminho das pedras para divulgar a música popular. Com a internet, surgem novos meios de distribuição, sem restrições de latitude ou longitude. O site oficial do cantor (www.neilisboa.com.br) é acessado por fãs da Inglaterra, Portugal e França, entre outros países. Há uma comunidade com 5.152 membros no Orkut com link para a compilação de toda a sua obra em mp3. É verdade que, também no Orkut, existe uma comunidade denominada O Nei Lisboa me constrange. Menos mal que tem apenas 12 participantes. Para contrabalançar, outra chamada I love Nei Lisboa arrebanha 14 membros no Canadá. A facilidade de trabalhar com ferramentas digitais é um ponto a favor. Fascinado por tudo que é software, Nei mergulhou na área gráfica da computação na década de 90. Recentemente, passou a utilizar programas de música como ferramenta auxiliar para compor. As canções de Translucidação, CD independente que lançou em 2006, foram elaboradas em frente ao computador. Ele também se diverte ao atualizar pessoalmente o site no qual o usuário tem acesso ao WebVitrolaMix, programa de 2 megabytes (menos extenso do que o arquivo de uma única música em mp-3, faz questão de ressaltar) que permite a audição de sua obra completa com direito a bônus de versões demo e ao vivo. Há também um fórum em que o cantor dialoga com os fãs. “Música e computador: por aí as coisas estão indo. Ainda vou brincar muito com isso na próxima década”, antevê.

Lembra do quanto amanhecemos Com a luz acesa nos papos mais estranhos Sonhando de verdade Salvar a humanidade (…) Sábias teses, ilusões sem fim Ying, Jung, I Ching e outras cabalas Procurando deus entre as folhagens do jardim (Por aí, 2001)

Após 14 anos de psicanálise, muita coisa mudou na vida do cinquentão Nei Lisboa. Já se vai o tempo em que virava a madrugada jogando o I Ching (livro de adivinhações dos antigos oráculos chineses). “Agora, acredito nisso tanto quanto em meteorologia”, desfaz. Quando a boemia do Bom Fim refluiu, em meados dos anos 90, fincou âncoras na Cidade Baixa. Na virada do século, podia ser visto quase sempre sozinho em bares como o 174 e o Ritrovo. Apesar de mostrar-se educado, era visível o constrangimento com a fama que havia angariado na aldeia. “Sentava-se em uma mesa de canto para fugir do assédio”, conta Nico Esteves, ex-proprietário do Ritrovo, atualmente dono do Bar Funilaria. Na fila do banheiro, era comum alguém aproximar-se para pedir autógrafo. Nei curvava-se com as mãos entre as pernas e solicitava: “Pode ser depois do xixi?” Certa noite, aproximou-se do balcão e perguntou: “Nico, tu, que já tens três filhos, podes-me dizer como é ser pai?”.

Casado com a bibliotecária Rosane dos Santos, Nei parou com as bebidas alcoólicas há cinco anos, quando nasceu a filha Maria Clara. Voraz bebedor de uísque por três décadas, entendeu que estava diante de uma encruzilhada: dez anos mais naquele pique, ficaria inviável ser um pai altivo e participante como gostaria. Logo depois, largou o cigarro, após 28 anos fumando duas carteiras por dia. “É o desejo de ver-se bem nos olhos de quem a gente gosta. O corpo também lá pelas tantas manda avisos. E, dos prazeres do corpo, posso dizer que aproveitei bem minha cota de forma antecipada.”

Discografia

Pra viajar no cosmos não precisa gasolina (1983) Noves fora (1984) Carecas da Jamaica (1987) Hein?! (1988) Amém (1993) Hi-Fi (1998) Cena beatnik (2001) Relógios de sol (2003) Translucidação (2006)

neilisboa.com.br

www.neilisboa.com.br

*Revista Aplauso, janeiro de 2009.
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pEIXE vIVO

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POR CRISTIANO BASTOS – ROLLING STONE [maio de 2012]

FOTOS: MURILLO MEIRELES

Romário já foi o melhor jogador de futebol do mundo. Hoje, fora do habitat, é um dos deputados federais de maior destaque em Brasília. Quantos gols mais ele ainda pretende marcar na vida?

FAVELA DO JACAREZINHO, ZONA NORTE DO RIO DE JANEIRO, meados dos anos 50. O rádio, aparelho sagrado nos lares brasileiros, está sintonizado no prefixo PRE-8, no programa César de Alencar, o mais ouvido do Brasil. No horário das 15h, a grande atração era intelectual: o fenômeno “Romário, o Homem Dicionário”, célebre pelo vasto vocabulário, que para amplificar o mistério em torno de si ornava a cabeça com turbantes indianos e se fantasiava com vestes exóticas. A semana inteira, os ouvintes estudavam palavras difíceis para desafiá-lo.

Qualquer um do auditório podia perguntar: “Seu Romário, o que significa ‘zíngaro’?”

Ele concentrava-se por instantes e respondia:

“Cigano, ou boêmio”.

“Uma salva de palmas!”, comandava Alencar. A claque delirava.

Outro desafiante tirava um papelzinho do bolso e investia:

“Me diga o que quer dizer ‘helíaco’”.

Em tom professoral, Romário respondia: “Diz-se do nascimento ou ocaso de um astro”.

Ninguém jamais embolsou o polpudo prêmio que seria pago a quem apresentasse um vocábulo desconhecido para o craque das letras. Reza a história de que não houve sequer uma vez em que ele tenha errado. Romário era imbatível com as palavras.

Dono de espirituosas tiradas, o jovem Edevair de Souza Faria era tão fiel ao programa radiofônico quanto ao América Futebol Clube, seu time do coração. Recém-casado com Manuela Ladislau Faria, a dona Lita, ele buscava um nome importante para batizar o filho que se encaminhava. E não pensou duas vezes em batizar o rebento com o nome do ídolo do rádio. Romário de Souza Faria foi escalado por “Papai do Céu” (como ele gosta de dizer) para entrar em campo no dia 29 de janeiro de 1966. E, tal qual seu homônimo, predestinava-se a acertar incontáveis vezes ao longo da vida. Mas, ao contrário do imbatível Homem Dicionário, a errar outras tantas também.

“Sou bem diferente do Homem Dicionário. Porque de vez em quando eu erro, né?”, assume o baixinho, do alto de seu 1,69 m. Porém, não é preciso dizer que a fama do proverbial “peixe” foi bem mais longe. Da Holanda ao longínquo Qatar, nos Emirados Árabes, o nome de Romário – e suas façanhas – correram o mundo. Apelidos não faltaram: “Gênio da Grande Área”, “Reimário”, “Romágico”. Em 2001, sua marrentice foi satirizada na Escolinha do Professor Raimundo de Chico Anysio, com a paródia “Ramório”. Os fãs, para recordar os feitos heroicos nos 11 clubes para os quais o jogador emprestou sua arte (cronologicamente: Estrelinha, Vasco da Gama, PSV Eindhoven, Barcelona, Flamengo, Valencia, Fluminense, Al-Sadd, Miami, Adelaide United e, realizando o sonho do falecido pai, o adorado América, pelo qual disputou uma única partida), instituíram, em 11 de novembro de 2011, o “Romarian Day”.

Atualmente fora dos gramados, palco habitado profissionalmente por mais de 20 anos, é no minado campo da política nacional que, até 2015, o deputado federal Romário disputará suas partidas. Em uma chuvosa tarde de terça-feira de março, ele está sentado relaxadamente em seu escritório abafado de 40 metros quadrados, no anexo da Câmara dos Deputados. O número do gabinete (411) alude ao cabalístico 11 da camisa com que inúmeras vezes se sagrou campeão. Vestindo o amarelo da seleção, o centroavante – escudado pelo parceiro Bebeto – foi o expoente decisivo da conquista do tetra na Copa dos Estados Unidos, em 1994. Na estante no canto, descansa uma réplica da Taça Fifa que ele levantou em 17 de julho daquele ano.

Amaury Jr., veterano colunista televisivo, também está na sala, e quer saber de Romário se ele frequenta as baladas de Brasília. “Já tive bastantes fraquezas”, ele confidencia. Durante o expediente, de terça a quinta-feira e sem hora para terminar, o gabinete é assolado constantemente por políticos, representantes de entidades e toda sorte de pessoas em busca de algum tipo de apoio. Pedem desde autógrafos, cessão de imagem, passagens e, se for possível, até dinheiro vivo. Em cima da mesa, uma pilha de objetos (livros, fotografias, fardamentos oficiais) o aguarda para que neles Romário eternize o autógrafo. A maior parte do material é relacionado ao Vasco, flâmula com a qual os torcedores mais o identificam. O telefone toca intermitentemente. Uma das ligações, revela a secretária, é de Andrew Parsons, presidente do Comitê Paraolímpico Brasileiro. “Precisa urgentemente falar com o deputado”, ela explica.
Coberta por fios prateados, a cabeça de Romário não esconde a calvície. Em 2007, quando atuava pelo Vasco, a queda de cabelo chegou a levá-lo à suspensão de 120 dias nos jogos do Campeonato Brasileiro. Tudo por causa da loção Propécia (para o combate da queda de cabelo), que contém a substância finasterida, proibida pelo Controle de Dopagem da CBF. “Se [o remédio] fazia algum efeito era ao contrário, pois eu corria cada vez menos e fazia menos gols. Até brinquei, na época, que era o ‘doping do Paraguai’”, diz, acariciando a cabeça e esboçando um raro sorriso (na verdade, ele é “tímido”, garante a assessora).

Na ocasião, Romário está trajando um bem cortado terno Armani azul-petróleo riscado com listras brancas. Embora tenha cursado dois períodos de educação física na Universidade Castelo Branco (RJ), poucos sabem que ele também estudou Design de Moda na faculdade Estácio de Sá, visando ser “estilista de moda masculina e feminina”. É elegante e vaidoso, mas não se considera metrossexual. E, ainda que carregue marca de furo na orelha, ao menos na vida pública dispensou o clássico brinquinho. Ligeiramente caídos e avermelhados, os olhos estão sempre atentos, como se vigilantes, e a língua, levemente presa, permanece afiada. Romário atende o celular, fala rapidamente e, após desligar, volta-se em minha direção. “O cara ligou pra avisar que hoje vai ter uma reunião pra decidir se vai ter uma reunião amanhã. Foda, né?”

Em encontros profissionais, entretanto, Romário mantém a seriedade constante e jamais fala palavrões. Apesar de me deixar à vontade para chamá-lo tanto pelo nome de batismo como pelo protocolar “deputado”, os assessores o tratam somente pela deferência “senhor”, como se ignorassem que, dentro das quatro linhas, aquele é o homem que fez mais de mil gols e realizou outras mil façanhas (melhor do Brasil, melhor da América, melhor do mundo). “Se for pôr na balança, no futebol tive muito mais coisas positivas do que negativas. Umas 80% positivas e 20% negativas”, ele mensura, professando a “filosofia romariana” de que ninguém vive apenas de coisas boas. Com o pai, seu Edevair – que montou um time de futebol, o Estrelinha, especialmente para Romário e o irmão Ronaldo –, ele afirma ter aprendido que tudo o que é muito bom sempre tem algo de ruim, e vice-versa. “Foram ensinamentos valiosos”, prega.

Bem ao estilo Pelé (o “poeta de boca fechada” que Romário, contudo, considera o “Atleta do Século”), o deputado fala na terceira pessoa sobre como finalmente amadureceu. As pessoas, diz ele, têm reconhecido que o Romário de hoje, aos 46 anos, é bastante diferente daquele fanfarrão e bad boy de 20 anos atrás, que só queria curtir a vida. “Mas eu sempre falei o que quis”, afirma. A diferença crucial é que agora goza de imunidade parlamentar, que, teoricamente, permite-lhe falar ainda mais. De qualquer forma, mesmo quando não a possuía, sempre falou o que bem entendeu. “Eu ainda digo o que quero e continuarei falando sempre”, repete. Romário crê que as quase 150 mil pessoas que votaram nele em 2010 esperam atitudes semelhantes às que tinha quando era jogador. ““Muitos colegas desta Casa talvez não gostem de ouvir o que eu digo, mas são pessoas que não têm seriedade. Aqui tem muito mau caráter. Gente que, definitivamente, não é do bem”.

O Romário político, que diz não ter amigos no futebol, move-se sobre os gramados da Câmara com uma desenvoltura que jamais sonhou ter, destoando de outros parlamentares egressos do meio esportivo cujo pecado mais grave é a falta de conteúdo político. Jogo de cintura, predicado essencial para as disputas travadas em Brasília, todavia, não é seu forte maior. Ainda mais para quem nunca teve papas na língua. Em seu primeiro ano de mandato, já se pode dizer que Romário não é um estranho nesse ninho de velhas raposas, caciques e cobras da política nacional.

O espinhoso tema Copa do Mundo 2014 parece ser o favorito de Romário. De cara, ele observa que não há sequer um ex-jogador ocupando cargos diretivos da Confederação Brasileira de Futebol. “Tem gente ali que nunca jogou uma partida de futebol na vida”, detona. Sobra até para Ronaldo “Fenômeno”. “Ele diz que quer ser presidente da CBF, mas só depois que passar a confusão da Copa. Assim é fácil”.

Romário também lamenta o fato de que apenas 20% do público dos estádios será formado por brasileiros. O restante, alega, serão torcedores de outros países “acostumados a beber”, e por isso prevê problemas caso a cerveja não seja liberada durante os jogos. “É só a Fifa pôr maior números de seguranças”, opina. O debate em torno da liberação da venda de bebidas alcoólicas é apenas a ponta do iceberg no mar de críticas que Romário faz sobre a realização do evento no país.

“Não foi a Fifa que pediu que a Copa fosse aqui”, ele recomeça. “Todas as exigências que foram feitas no protocolo de intenções assinado em 2008, como a questão da mobilidade urbana, o Brasil já sabia de antemão. Agora, já não dá mais tempo!” Ele também crê que muitas das solicitações impostas pela federação estão acima da soberania nacional. “A Fifa é uma empresa e, sendo uma empresa, não pode ‘apitar’ no nosso poder Judiciário. Quem são eles para ter esse poder?”, reclama. “Não podemos permitir que, durante seis meses, a Fifa monte um Estado dentro de nosso Estado”.

Há quatro anos, ele continua, a Copa foi orçada em R$ 52 bilhões, valor anunciado por Dilma Rousseff, então ministra-chefe da Casa Civil. A cifra, porém, já está na casa dos R$ 80 bilhões. “E você pode escrever, o valor vai bater os R$ 200 bilhões”, diz, citando o dia em que Joseph Blatter, presidente da Fifa, quis saber de Romário se o Brasil teria condições de fazer a maior Copa de todos os tempos. Ele, que naquele tempo ainda não atuava na política, respondeu: “Não só tem condições como fará a maior Copa da história”. Hoje, diz se arrepender das palavras. “Retiro o que eu afirmei na época: o Brasil não vai fazer a maior Copa de todos os tempos. E não adianta ficar pirando! Vamos passar vergonha”. A “maior Copa de todos os tempos”, para o eterno camisa 11, será exclusiva das classes A e B, que circularão em jatinhos particulares, ficarão em hotéis cinco estrelas e assistirão aos jogos de camarote.

“Será a Copa da mentira, onde tudo será maquiado”, sentencia. “No Brasil, infelizmente é assim”. Não raro, os correligionários de Romário o advertem quanto à língua ferina: “Cuidado, você está falando muito”. Ele se defende. “Não estou chamando ninguém de ladrão, só estou dizendo que vão roubar. Isso é claro e já estou prevendo”. Muito dinheiro investido na Copa, na concepção do deputado, é gasto à toa. Apenas no Maracanã – cujas obras chama de “imbecilidade” – mais de R$ 1 bilhão será investido. Sobre Ricardo Teixeira, desmente que tenha sido amigo do homem que comandou o futebol brasileiro por 23 anos, mas confirma que, quando vestiu a camisa da seleção, tiveram boa convivência. A relação começou a ruir em 2002, pouco antes da conquista do pentacampeonato mundial. “Um dia, ele apertou minha mão e, olhando nos meus olhos, prometeu que eu iria para a Copa. Disse: ‘O Felipão [Scolari] é o treinador, mas quem manda de verdade sou eu’”. No dia da convocação, Romário descobriu que seu nome não estava entre os escolhidos. Hoje, o deputado mantém, inclusive, a polêmica frase “extirpamos um câncer”, dita quando Teixeira renunciou ao cargo, na CBF, em 12 de março. “Estava mais do que na hora de ele pedir pra sair. Saiu da CBF, do COL [Comitê Organizador Local] e agora da Fifa. Fez certo. É muito melhor sair do que ser expulso”.

“Muito ruim” é a opinião de Romário sobre o atual desempenho da seleção brasileira, mas afirma que o fraco futebol apresentado pelo time não é motivo para mudar de treinador (“só quando a coisa ficar feia”). Questionado sobre Neymar – para quem Romário pretende “dar uns conselhos sobre pensão alimentícia” –, diz que apesar de já ser uma realidade do futebol, é um profissional que está começando, que não teve a oportunidade de mostrar na seleção tudo que sabe. “Isso acontece com o tempo. Eu acredito que Neymar será uma de nossas grandes esperanças para conseguirmos o hexa”. Já com o argentino Messi, Romário não é condescendente, apesar de considerá-lo o melhor do mundo na atualidade. “É um atleta diferenciado, que evolui a cada ano. Mas, para estar entre os cinco maiores do mundo, ainda necessita ganhar um mundial. Precisa de uma Copa no currículo dele”, alfineta.

Mas nem só de glórias é feita a vida de um Romário. Fama e dinheiro em demasia também atraem confusões e problemas. A maior delas, certamente, aconteceu às vésperas da Copa de 1994, quando Edevair Faria foi sequestrado no Rio de Janeiro. Os criminosos, que terminaram presos, exigiram US$ 7 milhões para libertar o pai de Romário, solto do cativeiro sete dias depois. Em 2003, agrediu um torcedor do Fluminense que arremessou galinhas vivas no campo de treinamento, em protesto pela péssima campanha do time. Acabou processado. E em 2009 foi parar na delegacia, acusado pela ex-mulher, a modelo Mônica Santoro, de não pagar a pensão alimentícia dos filhos Romarinho, 18, também jogador de futebol, e Moniquinha. O juiz que ordenou a prisão entendeu que o ex-jogador do Vasco devia à esposa dois meses de pensão, soma que totalizava R$ 50 mil. “Na verdade, já tive a oportunidade de dormir numa delegacia duas vezes”, lembra Romário sobre a “fase negativa do caralho, em que nada dava certo”. Mas ele mesmo admite que, na relação de marido e mulher, é “meio difícil de conviver”. ”Eu era muito difícil de conviver”, ele corrige. “Tenho melhorado muito. O tempo vai passando e a gente vai melhorando”.

A entrevista precisa ser interrompida para que Romário vá a uma reunião externa. Embarcamos no automóvel oficial, de chapa branca, estacionado na vaga 411 da garagem da Câmara. O destino é o Setor de Autarquias, conjunto arquitetônico onde enfileiram-se edifícios de órgãos do Governo Federal. É hora do rush na chuvosa e engarrafada capital federal, cidade pela qual Romário se diz apaixonado e onde às vezes sai a esmo em busca de lugares para “dançar funk e hip-hop com os amigos”. Em terra firme, andar pelas entrequadras de Brasília ao lado de um astro do futebol como Romário é presenciar o tamanho de sua popularidade. Ele tenta ser discreto, mas passar incólume é impossível. Em uma reunião a portas fechadas no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o deputado conversa com o presidente da instituição, Mauro Hauschild. O tema é o Benefício de Prestação Continuada (BPC), para o qual o parlamentar apresentou duas emendas que beneficiarão pessoas com deficiência. Uma delas garante que o deficiente, contratado como aprendiz, acumule salário por até dois anos. No encontro, Romário revela-se expert em diversas doenças, citando, com admirável facilidade, nomes de enfermidades como autismo, hanseníase e esclerose lateral amiotrófica. Na verdade, ele quer saber quanto custaria aos cofres públicos elevar o BPC, hoje correspondente a um quarto de salário mínimo, para um salário integral. “Em torno de R$ 50 bilhões anuais”, responde Hauschild. Romário chuta de bico: “Se gastam R$ 1 bilhão em um estádio de futebol, não é tão caro assim”.

De volta à Câmara, mais compromissos esperam o parlamentar, entre eles uma votação nominal sobre a aguardada Lei Geral da Copa. No caminho, Romário encontra a deputada Luiza Erundina, companheira de PSB, com quem mantém uma relação quase maternal. Romário é fã de Erundina, e ela dá conselhos políticos a ele. Na mão inversa, é provável que ela seja uma das únicas pessoas do universo político para quem o ex-atleta oferece qualquer abertura. De volta ao gabinete, ele aproveita para checar as redes sociais pelo celular, em que ele próprio (na maioria das vezes) escreve e posta os textos, cuidadoso para preservar as peculiaridades de sua linguagem.

“Quando entrei na política, tinha cerca de 200 mil seguidores [no Twitter]. Hoje estou com mais de 430 mil e, com certeza, muitos desses novos pertencem à classe ‘top’ do Brasil”, Romário comemora. “Nas ruas, vejo que 80% dos que votaram em mim são da classe C, D e E. Atualmente, muitas pessoas da classe A cumprimentam-me e dizem que me darão voto nas próximas eleições. Ganhei credibilidade de quem achou que eu seria mais um bobalhão que entrou na política para defender causas perdidas ou roubar. Pô, tem deputado que tem 16 anos de Câmara e nunca fez porra nenhuma! Eu boto a minha cabecinha no travesseiro e durmo”.

O dia seguinte é especial para Romário. Na solenidade do Dia Internacional da Síndrome de Down, o deputado está abancado ao lado do presidente do Senado, José Sarney, e da senadora Marta Suplicy, em cerimônia acompanhada pelo ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Sarney cochicha ao pé do ouvido de Romário, que sorri. Mostrando intimidade, o senador e ex-cara pintada Lindbergh Faria faz um cafuné na cabeça do ex-craque. Estão todos harmoniosamente comungados, em uma cena até estranha de ser presenciada. Em reconhecimento à dedicação à causa dos deficientes, Romário é presenteado com um singelo quadro cuja pintura não poderia deixar de ser outra: um peixe. Assim como o Homem Dicionário, Romário demonstra uma intimidade nata com as palavras. Despreza por completo o discurso que, na noite anterior, havia escrito de próprio punho conforme manda o idioma “romariano”. As frases saem certeiras como um de seus 1.003 gols: “Papai do Céu pôs um anjo no meu colo”, repete o bordão tantas vezes dito. Ele se refere à Ivy, 7 anos, a filha portadora de síndrome de Down que tem com Isabelle Bittencourt, a atual esposa. Romário é aplaudido.

Das suas “bandeiras brancas”, o combate ao crack é uma das que hasteia com mais insistência. O esporte – não apenas o futebol – é, para ele, a melhor arma contra as drogas e o caminho ideal para a juventude, principalmente no momento em que o Brasil está prestes a receber a Copa do Mundo, os Jogos Olímpicos e as Paraolimpíadas. Romário se declara favorável à internação compulsória de dependentes (“O governo tem que pegar essas pessoas e tratar, independentemente de elas quererem ou não. É uma forma de mostrar à sociedade que está fazendo algo”) e compara o atual apelo do crack ao do futebol (“Ainda é o esporte que se joga em qualquer lugar, mas infelizmente eu tenho que te afirmar: o crack pegou de tal forma que até mesmo o futebol está perdendo pra ele”).

Mas nem só de causas óbvias vive Romário. Ele também é radicalmente contra um projeto em tramitação no Senado que, caso seja aprovado, redistribuirá os lucros de extração de petróleo com outros estados e subtrairá, até 2020, cerca de R$ 9 bilhões dos cofres do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Foi, também, contrário à já aprovada “PEC da Música”, votando “em favor da Amazônia”. “Tiramos da Amazônia [com a PEC] cerca de 80 mil empregos que eram das pessoas que trabalhavam na Zona Franca de Manaus. E o que essas pessoas vão fazer daqui pra frente? Vão desmatar a Amazônia”. Ele não se furta de falar nem mesmo sobre casamento homossexual. “Eu sou a favor de que as pessoas sejam felizes. Se um homem encontrar em outro homem a felicidade, que sejam felizes para sempre. Eu não quero isso pra mim e, sinceramente, não gostaria pro meu filho. Em outras palavras: cada um dá o que é seu. Vou eu me meter no que é dos outros?” Ambivalente, diz entender e respeitar 100% a posição do polêmico deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), radicalmente contra a união gay: “Eu não sou igual a ele, mas se ele está onde está, é porque existem pessoas que votam nele. Não vou dizer que sou contra o Bolsonaro. Eu respeito ele pra caralho”.

Quando menciono as estripulias dos tempos de jogador, como as célebres fugas de concentrações, Romário quer saber: “Qual delas? Já fugi várias vezes de concentração. Sempre disseram que eu fugia das concentrações. Mas, na realidade, sempre saí pela porta da frente”. Os responsáveis, afirma, faziam vista grossa ou fingiam não ver. E aproveita para desmentir os recentes comentários de Ronaldo sobre a famosa escapada que deram em 1997, durante a Copa América disputada na Bolívia: o Fenômeno disse que, na ocasião, fugiu a convite de Romário.

“Ele saiu porque quis, não foi culpa minha”, Romário entrega. “Fomos a uma festa que estava rolando na casa de um pessoal de faculdade. Ficamos mais ou menos três ou quatro horas trocando ideia e ouvindo música. Eu nunca fui de beber e Ronaldo, ao menos naquela época, não bebia. Tinha umas mulheres bonitas lá e, infelizmente, não aconteceu nada de mais. E não foi por falta de querer. Eu até queria, mas elas que não quiseram.” E confessa, exibindo a marra de costume: “Sempre que eu transava antes do jogo, me sentia mais leve”.

No livro Futebol ao sol e à sombra, o escritor uruguaio Eduardo Galeano cantou em prosa e verso as façanhas de Romário e de outras lendas do futebol. “Um jogador”, escreveu, “que nasceu na miséria, mas desde menino ensaiava a assinatura para os muitos autógrafos que iria assinar na vida. Um apreciador da noite, farrista, que sempre disse o que pensava sem pensar no que dizia. Vindo sabe-se de que região do ar, o tigre aparece, dá o seu bote e se esfuma. O goleiro, preso na sua jaula, não tem tempo nem de piscar. Num lampejo, Romário mete seus gols de meia volta, de bicicleta, de voleio, de trivela, de calcanhar, de ponta ou de perfil”.

São palavras de indiscutível beleza. Mas ninguém melhor do que o próprio Romário para capturar a si mesmo com a precisão com a qual assinalou seus gols.

“Uma pessoa do bem, antes de mais nada”, ele se define. “Amigo dos amigos e que continua gostando das mesmas coisas de quando tinha 20 anos. Um cara com defeitos e virtudes, que vê a vida diferente de alguns anos atrás e que não cometeria hoje alguns erros do passado. Discreto e sempre na dele, que ama seus filhos. Sobretudo, que está amarradão com a política. Consciente de que a cada dia pode fazer mais e mais”.

O peixe, que ao longo de sua vida fez dos gramados do mundo a sua água, já sabe nadar com destreza no aquário de tubarões que é Brasília.

Leia também no portfólio do jornalista.

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