18 de abril de 2012 às 1h50
Como eu atravesso a rua (ou: como fazer um carro parar na faixa pra você)
Eu atravesso a rua levando em conta toda a recente campanha de conscientização que a prefeitura de SP tem feito pra que as pessoas respeitem os pedestres na faixa.
Então eu olho o carro que vem vindo, avalio se ele está a uma distância segura e em uma velocidade possível de ser reduzida a tempo de não me atingir, coloco o pé na faixa e olho no olho do motorista. Eu olho pra ele assim, de maneira incisiva.
Se ele não está olhando pra mim, o recurso seguinte consiste em esticar a mão (tipo a coreografia de Mr. Postman, mesmo) em direção ao motorista, pra que ele possa notar que tem alguém passando ali – alguém que vai atravessar a rua numa passada de ritmo constante, sem correr mas tampouco se arrastar pelas listras brancas pintadas na rua, alguém que está vendo ele e alguém que ele está vendo.
Se mesmo assim o senhor motorista em questão não esboçar reação nenhuma ou continuar acelerando o veículo, eu uso as mãos ou o que tiver nelas (mais comumente um livro ou um guarda chuva desses grandes) pra acenar APONTANDO pro motorista. Esse é o último recurso existente; de acordo com as minhas observações, 100% dos motoristas que não tinham desacelerado até esse ponto acabam desacelerando. O efeito colateral são os xingamentos e as olhadas feias, que acontecem – pasme! – em apenas 12% dos casos.
Em todos os casos, eu agradeço com um joinha e permaneço fazendo contato visual sempre que julgo necessário.
Expliquei tudo isso pra dizer que, desde que passei a empregar essa técnica, apenas 43% dos carros não param quando eu desejo atravessar a rua. Claro que é impossível aplicar o passo-a-passo nos veículos que já estão em uma velocidade razoável quando chegam na faixa. Não vou me jogar na frente de um carro rápido, esticar a mão e esperar que ele pare. Mas de resto tá dando tudo bem certo. Quem anda comigo até se surpreende (porque os carros realmente param e todo mundo fica meio boquiaberto).
A verdade é que você precisa lembrar as pessoas de que você não vai correr e de que elas precisam parar. Já aconteceu de eu esticar o braço pra atravessar em uma faixa dupla (eu estava já na metade da travessia) e o bonito dentro do carro achou que eu tava dando sinal pra falar com ele. Parou, perguntou o que eu queria mas não deu passagem. Mas na maioria das vezes elas ignoram o pedestre ali do lado, esperando pra passar, e você precisa lembrá-las. É por isso que esticar a mão é eficaz.
Claro que o bom-senso é fundamental. Não quero me responsabilizar por ninguém que venha a se jogar na frente do carro, por favor, e também vale a pena conferir se o carro de trás vai ter área de escape o suficiente pra frear quando o motorista vindo na direção da faixa reduzir a velocidade. Espalhe o amor, não o ódio.
Porquê enquanto a gente mantiver em mente que a rua é um campo de batalha e que cada grupo é uma facção, – carros, pedestres, ciclistas, motociclistas – cada um brigando pro seu lado ganhar, vai ser difícil perceber que essa é uma guerra sem vencedores. :/










23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 

