30 de abril de 2013 às 11h23
Porque é melhor que, às vezes, você não tenha coragem de fazer o que secretamente deseja fazer
Quando você odeia uma situação na vida em que é meio que obrigado a estar (bem, você sempre é obrigado até que perceba que não é), seja um casamento horrível, a escola porque você sofre bullying ou emprego que você odeia, é dificílimo levantar da cama todos os dias e também é dificílimo viver sem o que eu chamo de “fugas temporárias”.
Essas fugas acontecem quando você “apaga” por alguns segundos ou minutos e sua cabeça vai longe, imaginando cenas perfeitamente roteirizadas, com diálogos detalhados linha por linha, objetos na cena, texturas, cores, sons, tudo simulando sua saída triunfal daquela situação desesperadora, mas também fazendo qualquer coisa que geraria choque ou surpresa. Geralmente envolve você mandando todo mundo tomar no cu. E a nossa capacidade de imaginar essas cenas é fundamental porque é importante que exista, ao menos em uma realidade paralela, uma possibilidade tão próxima de virar o jogo e retomar o controle. Te treina pro dia em que você criar coragem pra fazer o que tem que fazer e também ajuda a continuar sem pirar. Alguns argumentariam que isso já é pirar, mas não vamos por esse caminho.
Uma vez eu tive um emprego que eu odiava – era um escritório extremamente rigído onde rir, conversar e até sair da sala pra atender o celular era proibido – e eu sempre me imaginava fazendo algo extremamente transgressor, meio cena de filme, mesmo. Tudo que passava pela minha cabeça era fazer qualquer coisa muito louca que deixasse aquelas pessoas certinhas completamente sem reação. Tipo sair do banheiro sem subir as calças, parar na porta por um segundo breve, e ir caminhando lentamente até a minha mesa, sem subir as calças em nenhum momento. Ou então ir até a cozinha, encher um copo de água, virá-lo na cabeça da chefe que sentava ao meu lado e depois retornar calmamente ao meu assento. Ou então jogar uma porção de salsichas cruas na cara de um dos meus colegas idiotas de trabalho. Também pensava em socar a cara da minha chefe, mas isso entra em uma outra categoria de imaginação fértil, uma que pode me causar problemas judiciais.
A verdade é que tudo era tão proibido que eu tinha fantasias sobre fazer exatamente o que eu não podia fazer. Porque quando te proibem muito veementemente de falar/pensar em algo, e você sabe que isso é muito errado, essa coisa é provavelmente a única em que você consegue pensar.
Todas essas coisas absurdas ocupavam minha cabeça quando eu precisava “sair” um pouco dali pra não perdê-la (a cabeça). E eu acho que isso acontece em várias situações em que a gente fica nervoso, né. Tipo, pensar ‘e se eu cuspisse no chão AGORA?’ durante uma entrevista de emprego. Ou pensar a mesma coisa durante um encontro, dentro de um restaurante. Sei lá, acho que CUSPIR NO CHÃO basicamente transgride qualquer código social, então é uma boa coisa pra se pensar em qualquer momento de nervoso em qualquer situação possível. Mas enfim, essa história aqui me fez pensar:
Resumo: o menino tem Tourette, daí ele ficou o tempo todo pensando exatamente naquilo que ele não deveria estar pensando naquele momento, que é o que cada um de nós mais pensa quando está passando pela constrangedora situação no raio-x do aeroporto – coisas como ‘E se eu gritasse BOMBA?’. Só que ele tem Tourette, o que levou-o a DE FATO falar BOMBA, repetidas vezes. Daí tiraram ele do voo e foi isso.
Um parênteses para uma ideia de pegadinha tipo Jackass porém com um final triste, ou de esquete de humor de constrangimento, ou de piada muito ruim do Zorra Total: um cara chega na fila do raio-x no aeroporto e ao passar pelo detector de metais, ele grita “BOMBA!”, ao mesmo tempo em que faz com o braço direito um movimento sensual como se estivesse socando o chão. Daí ele espera uma quantidade de tempo variável entre nenhum e um segundo, apenas o suficiente para que as pessoas se alarmem e percebam que algo estranho está acontecendo, mas não o suficiente para que algum segurança avance em direção a ele. Daí ele emenda, em seguida, “PARA DANÇAR ISSO AQUI É BOMBA, PARA MEXER ISSO AQUI É BOMBA”, que é o refrão do clássico BOMBA, dos Bragaboys. É importante, a essa altura, continuar a coreografia. Outra possibilidade seria que nesse momento as outras pessoas ao redor também começassem a fazer a coreografia, todas sincronizadas, e aí todos percebessem que é um flashmob. Bom, se você não lembra da música, refresque sua memória:
E eu acho que a moral da história é que… não tem moral. Só achei engraçado e um pouco triste que esse cara seja igualzinho a todos nós, que em situações de nervoso, pensamos em todas as coisas que arruinariam completamente a porra toda, mas no caso dele ele não pode se controlar e fala essas coisas em alto e bom som. Acho que todos nós podemos concordar sobre a importância desse filtro que o cara não tem, mesmo quando a gente gostaria de fazer todas essas coisas e não tem coragem.
A propósito: o título só vale pra coisas que possam te causar problemas COM OS TIRAS. Ou coisas eticamente reprováveis. Para todo o resto de coisas que você secretamente deseja, meu conselho é: vai lá e faça. Hoje.

















23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 





