OEsquema

Porque é melhor que, às vezes, você não tenha coragem de fazer o que secretamente deseja fazer

Quando você odeia uma situação na vida em que é meio que obrigado a estar (bem, você sempre é obrigado até que perceba que não é), seja um casamento horrível, a escola porque você sofre bullying ou emprego que você odeia, é dificílimo levantar da cama todos os dias e também é dificílimo viver sem o que eu chamo de “fugas temporárias”.

Essas fugas acontecem quando você “apaga” por alguns segundos ou minutos e sua cabeça vai longe, imaginando cenas perfeitamente roteirizadas, com diálogos detalhados linha por linha, objetos na cena, texturas, cores, sons, tudo simulando sua saída triunfal daquela situação desesperadora, mas também fazendo qualquer coisa que geraria choque ou surpresa. Geralmente envolve você mandando todo mundo tomar no cu. E a nossa capacidade de imaginar essas cenas é fundamental porque é importante que exista, ao menos em uma realidade paralela, uma possibilidade tão próxima de virar o jogo e retomar o controle. Te treina pro dia em que você criar coragem pra fazer o que tem que fazer e também ajuda a continuar sem pirar. Alguns argumentariam que isso já é pirar, mas não vamos por esse caminho.

Uma vez eu tive um emprego que eu odiava – era um escritório extremamente rigído onde rir, conversar e até sair da sala pra atender o celular era proibido – e eu sempre me imaginava fazendo algo extremamente transgressor, meio cena de filme, mesmo. Tudo que passava pela minha cabeça era fazer qualquer coisa muito louca que deixasse aquelas pessoas certinhas completamente sem reação. Tipo sair do banheiro sem subir as calças, parar na porta por um segundo breve, e ir caminhando lentamente até a minha mesa, sem subir as calças em nenhum momento. Ou então ir até a cozinha, encher um copo de água, virá-lo na cabeça da chefe que sentava ao meu lado e depois retornar calmamente ao meu assento. Ou então jogar uma porção de salsichas cruas na cara de um dos meus colegas idiotas de trabalho. Também pensava em socar a cara da minha chefe, mas isso entra em uma outra categoria de imaginação fértil, uma que pode me causar problemas judiciais.

A verdade é que tudo era tão proibido que eu tinha fantasias sobre fazer exatamente o que eu não podia fazer. Porque quando te proibem muito veementemente de falar/pensar em algo, e você sabe que isso é muito errado, essa coisa é provavelmente a única em que você consegue pensar.

Todas essas coisas absurdas ocupavam minha cabeça quando eu precisava “sair” um pouco dali pra não perdê-la (a cabeça). E eu acho que isso acontece em várias situações em que a gente fica nervoso, né. Tipo, pensar ‘e se eu cuspisse no chão AGORA?’ durante uma entrevista de emprego. Ou pensar a mesma coisa durante um encontro, dentro de um restaurante. Sei lá, acho que CUSPIR NO CHÃO basicamente transgride qualquer código social, então é uma boa coisa pra se pensar em qualquer momento de nervoso em qualquer situação possível. Mas enfim, essa história aqui me fez pensar:

Resumo: o menino tem Tourette, daí ele ficou o tempo todo pensando exatamente naquilo que ele não deveria estar pensando naquele momento, que é o que cada um de nós mais pensa quando está passando pela constrangedora situação no raio-x do aeroporto – coisas como ‘E se eu gritasse BOMBA?’. Só que ele tem Tourette, o que levou-o a DE FATO falar BOMBA, repetidas vezes. Daí tiraram ele do voo e foi isso.

Um parênteses para uma ideia de pegadinha tipo Jackass porém com um final triste, ou de esquete de humor de constrangimento, ou de piada muito ruim do Zorra Total: um cara chega na fila do raio-x no aeroporto e ao passar pelo detector de metais, ele grita “BOMBA!”, ao mesmo tempo em que faz com o braço direito um movimento sensual como se estivesse socando o chão. Daí ele espera uma quantidade de tempo variável entre nenhum e um segundo, apenas o suficiente para que as pessoas se alarmem e percebam que algo estranho está acontecendo, mas não o suficiente para que algum segurança avance em direção a ele. Daí ele emenda, em seguida, “PARA DANÇAR ISSO AQUI É BOMBA, PARA MEXER ISSO AQUI É BOMBA”, que é o refrão do clássico BOMBA, dos Bragaboys. É importante, a essa altura, continuar a coreografia. Outra possibilidade seria que nesse momento as outras pessoas ao redor também começassem a fazer a coreografia, todas sincronizadas, e aí todos percebessem que é um flashmob. Bom, se você não lembra da música, refresque sua memória:

E eu acho que a moral da história é que… não tem moral. Só achei engraçado e um pouco triste que esse cara seja igualzinho a todos nós, que em situações de nervoso, pensamos em todas as coisas que arruinariam completamente a porra toda, mas no caso dele ele não pode se controlar e fala essas coisas em alto e bom som. Acho que todos nós podemos concordar sobre a importância desse filtro que o cara não tem, mesmo quando a gente gostaria de fazer todas essas coisas e não tem coragem.

A propósito: o título só vale pra coisas que possam te causar problemas COM OS TIRAS. Ou coisas eticamente reprováveis. Para todo o resto de coisas que você secretamente deseja, meu conselho é: vai lá e faça. Hoje.

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Cinco coisas que acontecem quando eu sou apresentada a alguém

Mudar de país mudou o processo social simples pelo qual eu costumava passar quando conhecia alguém. Antes, quando me apresentavam a uma pessoa nova, no Brasil, eu cumprimentava a pessoa com um beijo no rosto (ou dois, ou mais), o que significa que não é preciso fazer contato visual, não é preciso confrontar a fisionomia dela e absorver aqueles traços novos e estranhos, não é preciso se preocupar com a intensidade do aperto da sua mão e tudo mais. Agora, forçada a cumprimentar todo mundo de primeira sempre com um aperto de mão, eu sou obrigada a lidar com uma série de conflitos que perturbam o comportamento social saudável, a saber:

1. Existe um momento muito breve, um microssegundo alocado ali no momento em que alguém te apresenta pra outro alguém, em que se você é como eu, você está preocupado demais olhando pro rosto da pessoa e absorvendo todas as coisas que a fisionomia dela te diz pra se lembrar do nome dela. Uma vez eu escutei até uma piada que dizia que, nesse microssegundo, você pode dizer qualquer coisa pro indivíduo que está fazendo o reconhecimento de um novo rosto, porque ele não vai escutar.

A piada, óbvio, sugeria xingar a pessoa. Isso provavelmente é verdade e eu não saberia dizer se já fizeram algo assim comigo, porque eu sempre me perco nesse microssegundo analisando a fisionomia do fulano e nunca me lembro do nome dele depois, a não ser que ele tenha chamado minha atenção de alguma forma ou o nome seja esquisito e incomum.

2. Nunca saber como me portar propriamente DURANTE um aperto de mão, porque eu quase nunca tive que dar tantos apertos de mão até agora. Minha mão sua acima da média, então eu sempre preciso me preocupar em limpá-la na roupa antes, o que é um sinal claro pra outra pessoa de que eu estaria nervosa. Eu não estou, é só um problema fisiológico, mas só ter que fazer isso já me deixa um pouco nervosa, na verdade.

Em seguida, devo engatar em um aperto firme pra mostrar que sou séria e digna de confiança enquanto sorrio olhando nos olhos da pessoa? Será que isso não intimida alguns tipos de gente, ou pior, passa pra alguns a impressão de que eu sou uma mulher dura e pouco feminina? Por outro lado, não é frustrante quando alguém te dá um aperto de mão e ele é molenga? Eu não sei dizer exatamente porque, mas se alguém me cumprimenta com a mão mole, a impressão imediata que eu tenho é que a pessoa é 1. chata 2. não está muito feliz de me conhecer.

3. Tanto faz a língua, é sempre estranho chegar e dizer seu nome, assim, avulso (e esse é o padrão, né?). Eu sempre me sinto muito esquisita quando eu conheço alguém e só digo “Ana”, especialmente porque geralmente as duas pessoas dizem seus nomes ao mesmo tempo e depois as duas pedem pra que a outra pessoa repita, também ao mesmo tempo. Dizer só “Ana”, sem um sujeito e um predicado para apoiar, é ruim porque na verdade parece que eu estou chamando alguém que se chama “Ana” e estaria na mesma sala.

Daí eu desenvolvi um método que gera ainda mais constrangimento, porque é uma frase que ninguém diz quando está conhecendo alguém: “Eu sou fulano” (no meu caso, Ana). É uma frase difícil porque eu nunca sei se coloco o artigo ou não. É uma escolha gramatical que diz muito sobre como eu me vejo, sabe: eu sou “A” Ana ou eu sou só “Ana”? “Eu me chamo Ana” também é esquisito, porque ninguém fala isso. Eu devia mudar pra “Meu nome é Ana”, mas também não estou convencida de que soa melhor. O resultado desse pequeno momento de fobia social é que eu estou tão preocupada com o que exatamente eu vou falar que, novamente, não lembro o nome da pessoa a quem estou sendo apresentada e não consigo sorrir genuinamente e nem olhar nos olhos, um pouco pelo nervoso e um pouco porque minha mente está preocupada com todo o resto.

4. Aquele momento que todos nós conhecemos bem, em que você parte para o abraço, a outra pessoa estende a mão, e aí você estende a mão mas a pessoa muda pro abraço e, naquele momento, tudo que você consegue pensar é que sua vida social inteira está (provavelmente) completamente arruinada. Uma variação desse momento conflituoso acontece quando, na despedida tradicional (ao menos no sudeste do Brasil), em que a regra é um ou mais beijos no rosto – mais pra encostadas de bochecha com um barulho -, a pessoa resolve te dar um abraço durante o beijo e você já estava saindo de perto dela. Esse segundo sutil é constrangedor porque grita algo como UM DE NÓS DOIS SE SENTE MUITO MAIS PRÓXIMO DO OUTRO NESSE MOMENTO, MAS NÃO É UM SENTIMENTO MÚTUO, E AGORA NÓS DOIS SABEMOS DISSO.

5. Falando em encostar as bochechas, não é muito esquisito quando alguém resolve se rebelar a contra a ditadura dos falsos beijos e te dá um beijo DE VERDADE na bochecha quando você acabou de conhecer a pessoa, como cumprimento mesmo? É um pouco creepy, assim. Eu sei que a pessoa só está fazendo as coisas como elas deveriam realmente ser, mas me desculpe, hábitos sociais são coisas muito sutis, como eu provei nos quatro itens anteriores, pra você resolver quebrar paradigmas desse jeito. Eu sei que encostar bochechas e fazer um barulho é esquisito quando você para pra pensar, mas mais esquisito é quando você NÃO faz isso, porquê exatamente O QUÊ você prova se quebra esse tipo de regra social? Estou curiosa. Importante frisar que beijos de verdade na bochecha podem ser completamente normais em outras situações. Só é esquisito quando não se trata de alguém próximo.

Tem um bônus (ver GIF acima), que é quando você levanta a mão pra um high-five, e ainda que sua mão esteja ali, aberta, caracterizando CLARAMENTE um convite para o tradicional “toca aqui”, a pessoa fecha o punho em busca de um fist-bump. Tem uma variação que é quando você abre a mão pra um high-five e o fulano dá um tapa na sua mão meio de lado, assim, o que não vale como high-five, como todos nós sabemos. Mas não inclui esse momento na lista porque essas coisas não acontecem exatamente quando você é apresentado pra alguém. Geralmente rola com algum amigo que já é próximo o suficiente pra que seja possível rir sobre a situação em seguida.

Ah: A propósito, a regra aqui em Berlim é que se você já conhece o fulano, pode cumprimentá-lo com dois beijos no rosto, um de cada lado – como os cariocas. O padrão é começar pelo lado esquerdo, eu acho: eu sempre comecei pelo lado esquerdo e nunca rolou de beijar alguém na boca sem querer, então meu palpite deve ser bom.

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O jornalismo está morto, vida longa ao jornalismo

Eu me formei em jornalismo em 2009, trinta anos atrás. É que esses três anos e meio, na escala de tempo que corre como oficial nesses tempos loucos, meio que significam uns trinta, talvez. Ainda quando eu me formei, quando a comunicação e o jornalismo em si ainda eram tão diferentes e ainda não tinham se integrado completamente com a cobertura colaborativa via redes sociais, o papo de que o jornalismo estava morrendo já era um dos tópicos preferidos pelos professores pra discutir com a gente.

No futuro, historiados considerarão essa notícia do Ego o marco para o fim do jornalismo como conhecemos

A diferença é que eles achavam que o jornalismo ia morrer por causa da internet, do celular, do tablet e, em menor escala, por causa do Ego. Todo mundo estava pensando em hardware, em forma. A gente não discutia a morte do jornalismo em conteúdo, porque nem se cogitava isso. Não havíamos ainda presenciado como a primavera árabe usaria o Twitter e o YouTube, nem Julian Assange e os Anonymous, nem a cobertura real de qualquer tragédia grande via redes sociais. Além disso, na época, smartphones não eram tão populares quanto hoje.

Eu não sei se tem algum estudante de jornalismo aí, mas vocês já estão falando da morte do jornalismo per se? Ok, “na minha época” já se falava, ainda que timidamente e de maneira um pouco ingênua, até, em descentralização da comunicação, fim do gatekeeper e tudo mais. Mas algum professor em alguma faculdade por aí já decretou que todo o formato tradicional de jornalismo que a gente conhece é insustentável por causa das novas dinâmicas de fluxo de informação?

Não vá embora; esse texto é sobre você

Eu sei que provavelmente todo mundo que tinha que abandonar esse texto já o fez, porque estamos no quarto parágrafo, mas vou lembrar aqueles que ainda continuam comigo que esse não é um post cabeçudo destinado somente às únicas pessoas no mundo que se interessam por discutir o conceito de jornalismo: jornalistas. É um post sobre você mesmo, pessoa casualmente normal, que agora é envolvida no estranho fenômeno que te faz se apressar pra publicar uma notícia no seu Twitter ou no seu perfil no Facebook. Se você lê em inglês, muitas vezes acaba furando (dando a notícia antes, no jargão) grandes veículos. Você, que fica comentando resultado de futebol no seu Facebook ou você que quis publicar antes de todo mundo na sua timeline que o novo Papa se chamava Chico.

Essa semana, nos EUA, os princípios básicos do jornalismo desmoronaram todos de vez. A única diferença que existia entre mim, supostamente melhor qualificada que você para dar notícias, e você, que tem acesso a fontes primárias de informação na mesma velocidade que eu ou mais rapidamente, é que eu supostamente sei que preciso checar tudo antes e falar tudo que não tenho certeza com a maior cautela do mundo. É pela falta dessa “técnica”, um sexto sentido de eterna dúvida e curiosidade, que todas as coisas bizarras acabam espalhadas pelo Facebook, de “compartilhe para doar 50 centavos para essa ovelha albina” a “veja esse lindo texto da Clarice Lispector sobre o Large Hadron Collider que com certeza é real, apesar de Clarice estar morta há 36 anos e o LHC ter sido ativado em 2008″. Essa semana, grandes jornais americanos estamparam suas capas com fotos de suspeitos do atentado na maratona de Boston – suspeitos apontados pelo 4chan e pelo Reddit, depois de uma minuciosa e super confiável análise das fotos.

Não precisa nem ter feito um período de ética pra saber que você não publica fotos de gente que um bando de anônimos em um fórum apontou como suspeitos – baseados em fotos em baixa resolução – na capa de um jornal, sob o risco de tornar a vida desses “suspeitos” um inferno, o que realmente aconteceu.

“Eu não tenho ideia do que estou fazendo”

Eu não culpo os jornalistas nas redações, porque ninguém sabe exatamente o que fazer quando toda a internet tem uma informação que você supostamente não tem. E o pior, você não tem nada mais confiável pra dar. O jornal, infelizmente, não pode sair em branco com uma manchete escrita “BREAKING NEWS: não há nada de novo neste caso e estamos esperando informações oficiais do FBI porque a gente não confia no 4chan e no Reddit por motivos óbvios, e não vamos arruinar a vida de inocentes na ânsia de não ficar pra trás”.

O lance é que ninguém sabe exatamente o que fazer porque não há o que fazer – nesse formato novo de como a informação flui, não há espaço para jornais de papel com hard news (hard news é o “últimas notícias”). E quase todos os jornais de papel são baseados em hard news.

Só que está todo mundo no meio disso e é difícil dar um passo pra trás pra analisar o que fazer porque o que fazer seria:
1. uma disruptura total do que é tradicionalmente feito em todas as instâncias, de forma a conteúdo e publico alvo, o que é financeiramente bem arriscado, eu reconheço;
2. reconhecer a derrota e acabar com formato “coisa impressa de papel que dá notícias sobre coisas que supostamente acabaram de acontecer mas que todo mundo já viu na internet ontem”, o que também é improvável porque é tipo o equivalente a isso;
3. se tornar o Buzzfeed, que basicamente seguiu o passo 1 e 2 e faz um grande exemplo de algo que eu vou chamar aqui de pós-jornalismo, pra parecer que eu sei tão bem do que eu to falando que eu até ouso batizar isso com um nome legal.

Se esse jornal de papel mantivesse o papel (risos) de filtrar com precisão o que é real ou não entre aquela tralha de coisas que eu leio no Facebook ou no Twitter, ele talvez até faça algum sentido. Mas agora que ele só reproduz o que todo mundo já está dizendo nesses outros lugares…

E agora, Bial?

Trate de começar a desconfiar das coisas que lê por aí, sempre. O Mashable publicou um texto muito bom com um guia passo-a-passo sobre como questionar o que você lê nas redes sociais. Aliás, deviam começar a ensinar isso pra crianças na escola. Quer dizer, desde sempre deveriam ter ensinado isso na escola, mas em todo caso agora é ainda mais importante, sob o risco de todo mundo ficar seriamente desinformado. Use o Google para aquilo que ele faz de melhor, pornografia que é comparar dezenas de fontes de diferentes da mesma notícia e tentar chegar na fonte original (via Google Translate, se for o caso) antes de passar algo pra frente. Você se espantaria se eu dissesse que uma boa parte dos jornalistas de veículos online não faz isso e usa notícias de outros veículos, que já foram escritas baseadas em outras fontes secundárias, pra escrever suas notas. Não é culpa deles; eles estão sendo pressionados de maneira insalubre pra publicar mais rápido, e se antes a concorrência era só com outros sites, agora ela é com todo mundo que tem uma conta no Twitter.

Sim, trata-se de um imenso telefone sem fio, mas dá pra contornar, e eu não posso enfatizar isso mais ainda: duvide. Não transmita informação que não pareça certa. E se mesmo assim você quiser transmitir, não esqueça de dizer que você não sabe se aquilo é verdade. Esse super conselho inovador é provavelmente uma das coisas mais ingênuas que eu propaguei nesse blog desde 2009, e das mais óbvias também. Por outro lado, se fossem tão óbvias, Arnaldo Jabor não seria o autor mais prolífico da história desde os monges copistas, com uma média de 12 novos textos atribuídos a ele por minuto, de acordo com as minhas observações, então resolvi escrever esse parágrafo mesmo assim.

Finalmente, com cada um de nós se tornando uma fonte secundária de informação, a única coisa que resta ao jornalista se ele quiser fazer algo que fuja dessa lógica (além de mudar de profissão, claro) é ser ele mesmo a mais confiável fonte secundária de informação. Ele precisa ser uma pessoa cujas opiniões as outras pessoas queiram ouvir, acima de tudo. É preciso criar uma persona online, por mais esquisito e meio showbiz que isso soe. É um caminho – dá mais trabalho pra ganhar dinheiro, mas é um caminho.

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Um guia para se tornar a pessoa que você quer ser

Eu sei, é um vídeo longo. Você está no trabalho, está no caminho pro trabalho, está no celular deitado no sofá da sala com a TV ligada. Não vai dar play em um vídeo desse.

Como eu sou muito gente fina, vou te explicar por que você precisa assistir esse vídeo: é que ele tem uma das dicas mais incríveis de life-hacking que você vai encontrar. Trata-se de uma cientista social explicando como funciona a química que diz ao seu cérebro se você tem personalidade dominante ou submissa, confiante ou insegura. E aparentemente, se você fingir ser dominante e confiante, seu cérebro libera toxinas que fazem com que você se torne essa pessoa.

Não dá nem pra dizer que é placebo porque funciona mesmo que você souber do truque. Mas você precisa assistir ao vídeo pra entender, porque ele é bonito – eu derramei uma lágrima singela no final, mas acho que posso culpar parcialmente a TPM – e fala sobre uma coisa que se aplica a qualquer área da vida: o ‘pretend until you become’.

‘Pretend until you become’ é mais ou menos o preceito de O Segredo. É também a base pra uma porção de religiões no mundo inteiro. Aquele papo de ‘seja a mudança que você quer no mundo’ tem a ver com isso, mas funciona pra gente também: para se tornar a pessoa que você quer ser, basta fingir que você a é por tempo suficiente para que você mesmo acredite nisso.

Eu tô vivendo isso desde janeiro de um jeito esquisito. Minha relação com atividades físicas era turbulenta. Eu sempre odiei fazer exercício (exceto na piscina. E andar de skate. E jogar pingue-pongue, que se você não sabe, é bem agitado quando você joga com alguém que jogue bem), sempre era a última a ser ‘escolhida’ nos times da escola – ‘escolhida’ é gentileza, eu sobrava mesmo e acabava no gol ou algo assim.

Só que eu tive uma epifania nesse Natal, desencadeada por um monte de coisas. Eu decidi que ia me tornar dessas pessoas que correm por prazer. Que saem de casa pra se exercitar porque gostam disso. Eu sempre achei que essas pessoas não existissem e que elas eram todas pagas pela Nike e pela Reebok pra dizer essas coisas por aí. Aliás, eu achava que era o tipo de coisa com a qual você ou nasce ou não nasce. Na minha cabeça, eu jamais acharia divertido sair de casa pra ‘dar uma corridinha’ simplesmente porque eu não era essa pessoa. Determinista assim, mesmo.

Eu fiz uma matrícula na academia no caminho entre minha casa e o trabalho. A academia fica dentro de um shopping em cima da estação do metrô. Eu poderia ter pagado mais barato pela inscrição em outra academia, mas a localização dessa não tão providencial. Então eu decidi gastar mais com uma academia que me ajudasse a fingir que eu não queria faltar nunca, já que ela está NA MINHA CARA.

Na mesma época, eu decidi me tornar também alguém que come melhor. Manja esse papinho hippie de se preocupar com a origem da comida, os ingredientes dela etc? Tipo isso. Passei a cozinhar mais. O telefone do Lieferando (tipo um HelloFood, só que daqui) agora só sai da gaveta se for pra pedir em restaurante de comida saudável. Os hamburgueres que eu resenhei aqui eu nunca mais sequer vi. Comida de microondas não entra mais em casa.

Daí eu sigo fingindo. No começo, eu tinha que fingir sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia. Hoje, eu só preciso fingir em uns 50% do tempo. Nos outros 50%, eu já sou mais ou menos essa pessoa que estou fingindo na outra parte da minha vida. Em alguns momentos, eu fico ansiosa por um dia de sol pra sair pedalando, tenho crises de mau-humor se não vou à academia e acho uma salada simples a refeição mais gostosa do mundo.  Em outros, eu preciso fingir que estou com vontade de cozinhar e comer essa nem tão saborosa receita de abobrinha recheada com Quinoa, que eu estou empolgadíssimas pra pegar neve e um frio de -8 graus pra ir pra academia e que eu não quero comer esse chocolate.

Eu não acreditaria se eu me contasse tudo isso três meses atrás, mas parece que está funcionando: eu estou ‘fingindo’ tanto ser a pessoa que eu quero ser que eu estou, aos poucos, me tornando ela. E se você puder, também, se tornar uma versão melhor de você, dá pra começar fazendo uma posição engraçada por 2 minutos dentro do banheiro antes de uma entrevista de emprego. Não entendeu? Eu falei que você precisava ver o vídeo.

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A crônica de Varsóvia

A paisagem de Varsóvia

Eu tenho uma teoria que diz que qualquer coisa acompanhada do termo ‘de Varsóvia’ daria um bom nome de livro, de quadro ou de filme. Pode ser ‘o carteiro’, ‘o barbeiro’, ‘o equilibrista’, ‘o leiteiro’, ‘a prostituta’, ‘a lembrança’, ‘a bicicleta’, ‘o enigma’. Qualquer coisa mesmo parece uma grande obra da literatura moderna, uma pintura de vanguarda, um filme digno de Oscar.

Sério, pode fazer o teste. Até algo inusitado, tipo ‘a calculadora de Varsóvia’, funciona bem.

Daí eu acabo de ler na Wikipedia:

“Varsóvia é a fonte para nomes como Confederação de Varsóvia, Pacto de Varsóvia, Ducado de Varsóvia, Convenção de Varsóvia, Revolta de Varsóvia, Gueto de Varsóvia e [nota da editora, eu: A CEREJA DO BOLO VEM AÍ] A Revolta do Gueto de Varsóvia.”

Se você puxasse pela mente, só se lembraria do Gueto ou talvez do Pacto – eu mesma, no máximo, me lembraria desses e da Universidade. Mas existe, aparentemente, um catálogo inteiro de coisas ‘de Varsóvia’. De todos os tipos.

Ou seja, os europeus fazem todas as coisas em Varsóvia só pra ter nomes de tratados, congressos e batalhas que soem super bem e rendam adaptações artísticas incríveis. Minha teoria aparentemente é notória entre o povo do velho continente desde os tempos de Napoleão.

A propósito, vou passar a Páscoa em Varsóvia. Aí ó, ‘A turista de Varsóvia’, pronto.

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Por que o cisne atravessou a rua?

Hoje da manhã aconteceu um negócio engraçado.

Flashback de ontem à noite. Eu, sentada na cama, ~navegando os mares turbulentos da rede mundial de computadores~. A Amanda (minha flatmate) grita da cozinha:

- Você já baixou o Vine?

- Não, ainda não.

- Não tem pra Android. O Twitter nunca lança as coisas pro Android ao mesmo tempo. Só depois.

O Vine é um aplicativo do Twitter que tem ares de Instagram para vídeos. Você baixa e vê um feed de pequenos vídeos, de 6 segundos, uma espécie de gif animado. Eu tava mesmo na cama sem fazer nada e pensei ‘Taí, vou baixar o Vine’.

Corta pra manhã seguinte. Saio da cama as 7h. Troco de roupa. Vou ao banheiro, escovo os dentes, lavo o rosto. Pego meu café da manhã e parto. São 7h29 e eu estou na esquina de casa, esperando o farol abrir pra atravessar a rua.

Esse farol demora. Eu tiro o celular do bolso, abro o Vine e começo a fazer um vídeo. Penso ‘que estreia horrível. Não tem nada acontecendo, o que eu vou filmar?’, mas continuo. Filmo minha rua. Filmo o cruzamento.

Volto a câmera pra filmar o cruzamento de outro ângulo e aí está ele, perfeito, enquadradinho no vídeo. Eu não sei de onde ele veio. Era um cisne, atravessando a rua.

Devagarinho. Sem alarde, mas bem confiante – tipo haters gonna hate, assim. Se eu tivesse pedido um sinal pros céus, algo tipo ‘OH MEU DEUS, ME DÊ UM SINAL, EU DEVO REALMENTE SAIR DE CASA HOJE?’, não esperaria nada diferente daquilo. Da mesma maneira que ele veio, se foi: atravessou decidido, ganhou umas buzinadas de uns ônibus e uns carros, entrou na minha rua e sumiu de vista. Nunca pela calçada, já adianto – sempre no meio do asfalto.

Eu estou certa de que esse cisne foi uma versão adaptada da piada da galinha (essa do título) que a vida resolveu me contar hoje de manhã. Não deixe de notar, ao fim do GIF, a senhora no ponto de ônibus completamente inabalada pelo fato de que havia um cisne atravessando a rua.

E foi assim que eu, pela primeira vez na vida, chorei de rir só meia hora depois de acordar.

 

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Sobre pessoas peladas

Um supermercado aqui na Alemanha deu 250 euros de desconto pras primeiras 100 pessoas que chegassem pra fazer compras peladas

Eu não precisei de muito tempo aqui pra ver gente pelada.

Na realidade, eu nem morava na Alemanha quando eu vi gente pelada na Alemanha pela primeira vez. Em 2011, em um festival de música no interior do país, onde eu acampei por três dias, tive a infelicidade de presenciar não um, não dois, mas três coitados que, muito bêbados e debaixo de um frio de 11 graus, abaixaram as calças na frente de todo mundo e fizeram xixi.

No meio do acampamento. Não era nem entre as barracas ou em uma árvore: nego tirou a calça no meio do acampamento, em plena vista, e se aliviou ali mesmo.

Claro que, na ocasião, não associei isso com um comportamento cultural (mesmo tendo visto três caras fazendo isso em só dois dias). Na minha cabeça, foi mais uma coisa de ‘nossa, eles estão tão bêbados que fizeram xixi na frente de todo mundo’. Eu devia ter me ligado, já que o banheiro também era ‘esquisito’: os chuveiros não tinham divisórias. Todas as mulheres ficavam ali tomando banho, uma ao lado das outras.

Mas foi só morando aqui que eu entendi como os alemães têm uma relação completamente diferente com o corpo nu do que a que nós, brasileiros, temos. Um corpo nu, pra eles, é só um corpo nu, dissociado de qualquer conotação sensual ou sexual – e esse corpo só ganha essa conotação em um contexto apropriado. Fora de contexto, não significa nada. Ninguém olha, ninguém repara, ninguém se importa nem com ficar pelado, nem em estar rodeado de gente pelada.

Tem a ver com a quase absoluta igualdade de gêneros aqui. Eu ainda estou tentando entender como a etnia alemã perpetuou-se ao longo da história, porque aqui a mulher é tão respeitada como igual ao homem que não há faísca nenhuma entre os gêneros. Como eles flertam, namoram, se reproduzem? Uma conhecida, alemã e psicóloga, me disse que ela mesmo não compreende e acha que seu povo está fadado à extinção. Claro que essa falta de machismo tem muitas vantagens: já vi moças andando de bicicleta de minissaia, com partes importantes à mostra, e nenhum homem se atrevou a lançar um olhar de rabo de olho que fosse. Não importa como você esteja vestida, se é que estiver: se for fora de contexto, eles não vão olhar. Nem elas, aliás. E isso é ótimo.

Tio pelado no metrô em Berlim

Mas a coisa pode chegar a níveis prejudiciais: no metrô, não é costume oferecer lugar pras mulheres grávidas. Dificilmente alguém vai te oferecer ajuda se você for mulher e estiver na rua carregando algo pesado. Não há ‘cavalheirismo’, e por mais que isso seja um produto da diferença de gêneros, há mulheres que sentem falta. E não há troca de olhares, de toques, nem em ambientes apropriados pra isso, como um nightclub. É tudo muito plano.

É por isso que aqui, no verão, quando eles vão pros lagos próximos a Berlim andar de barco e tomar sol, todo mundo fica pelado. Homens e mulheres não se preocupam com bíquini, maiô, sunga. Nas saunas, é tudo sem roupa – e em alguns casos, são mistas. E eu já vi fotos de gente pelada no metrô, sem contar o cheiro de xixi que você sente às vezes dentro de um vagão. Não sei se torço pra que seja um cachorro com o dono mal-educado.

Como eles não veem a nudez de maneira sexual, a pressão social pelo ‘corpo perfeito’ é menor. E dá pra entender, já que por aqui, você passa a maior parte do ano com o corpo bem coberto. Dá uma olhada nesse relato no Yahoo! Respostas pra ter uma ideia – tem até escolas secundárias com vestiários mistos, por exemplo.

O nudismo sempre foi algo muito mais tolerado pelos alemães culturalmente, e há registros de grupos sociais defendendo o hábito (ou a falta dele, se a pessoa for uma feira ou um padre) desde o fim do século 19. Existe até um orgão (risos) responsável por promover o nudismo no país, a German Association of Free Body Culture, e os naturistas por aqui tem até força política (sério!). Durante o nazismo, Hitler passou uma lei pra tentar proibir essa amoralidade inaceitável. Daí, ficar pelado acabou se tornando uma forma de protesto: com tantos banimentos, essa era a maneira dos alemães de mostrarem um controle, ainda que mínimo, pela última coisa que lhes restava controlar: o próprio corpo. A proibição durou um mês.

Daí que há pouco mais de duas semanas eu comecei a frequentar uma academia aqui em Berlim. E apesar de os vestiários não serem mistos (acho que eu não saberia lidar com isso), o vestiário feminino é uma grande profusão de corpos de mulheres nus.

Veja bem – qualquer corpo nu chama a atenção pra quem não está acostumado. Elas não se preocupam em usar toalha pra ir do chuveiro até o armário. Na sauna, permanecem sem roupa. E o vestiário tem uma centena de espelhos posicionados estrategicamente de maneira que, não importa onde você se esconda, alguém do outro lado do recinto vai estar vendo você pelada.

Nos chuveiros, tem uma antesala em que você pendura sua toalha e só.

No primeiro dia, eu preferi não tomar banho na academia. Mas o treino foi se intensificando e, no segundo dia, sair suada não era uma opção, não com -8 graus lá fora. E aí eu precisava entender qual era a etiqueta da nudez ali. Sabe, tipo aquelas regras que dizem que homem tem dentro do banheiro masculino?

Quer dizer, se eu ia tomar banho com todo mundo e caminhar pelada pelo vestiário, eu precisava entender o que estava dentro da normalidade pra eles. Entenda que a partir do momento em que a normalidade é todo mundo estar pelado, fica difícil estabelecer novos parâmetros. Mas eu precisava descobrir ser era aceitável me secar no vestiário ou se eu tinha que me secar na antesala dos chuveiros; se eu precisava levar calcinha e sutiã pro chuveiro ou se podia colocar tudo na frente do meu armário, mesmo.

Alguns dias de observação depois e eu entendi como funcionava. No chuveiro, as regras parecem sensatas – cruzar olhar com alguém pareceu não aconselhável. Conversar também não é uma prática comum enquanto as pessoas estão ali, nuas (ao menos na academia). Todo mundo toma banho muito rápido, só o essencial.

E todas as mulheres tomam banho viradas pra parede. Não é como se você não fosse de fato ver tudo de qualquer jeito, mas ficar olhando pra bunda das outras pessoas é desnecessário. Então todo mundo toma banho virada pra parede e tá tudo certo.

Menos essa mulher esquisita. Eu tava lá tomando meu banho e tinha uma moça imediatamente na minha frente, na linha oposta de duchas. E ela estava virada pra mim. Completamente. E ela não estava, digamos, tomando banho. Ela estava com um olhar morto apenas deixando a água cair nas costas. Imóvel.

Ainda estou tentando entender se o que ela fez é socialmente aceitável em um ambiente pelado. Mas acho que não seria normal nem se todo mundo estivesse de roupa.

 

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Coisas que eu não aguento mais

  • Gente que não sorri nunca.

  • Gente falando que nós somos a geração que não curte o ar livre, não vê flores, árvores e a natureza, que ninguém mais sabe o que é relacionamento verdadeiro, que tudo é virtual, online, transitório, efêmero, que todo mundo vê o mundo pela tela do computador e tudo isso é irreal e menos válido do que a maneira ‘tradicional’ de se relacionar. Falem por você, senhores narradores de vídeos que querem ser impactantes e life-changing; a minha vida social nem sequer EXISTIRIA se eu não tivesse encontrado, na adolescência turbulenta, gente como eu na internet. Eu, felizmente, tenho muitas amizades que foram iniciadas fora da internet e cuja manutenção eu faço online, e outras que começaram no Facebook e que foram levadas pro mundo, hum, “real”. E quer saber? Nenhuma é menos “de verdade” por um motivo ou por outro. Se VOCÊ, senhor narrador, não vive sua vida de verdade por que fica no celular, ou no laptop, ou trancado em um estúdio narrando vídeos pro You Tube, problema seu.
  • A neve quando ela está derretendo, em algo entre -1 e 1 graus. Abaixo de -2 eu não me importo, porque tá tudo congelado bem direitinho mesmo, mas quando a coisa tá virando uma raspadinha, e se mistura com a poeira e vira um barrão, e você quase escorrega a cada 8 passos, em média – essa é minha média, e é uma questão de probabilidade até que eu caia – é um saco.
  • A Cacau Show, enganando todo mundo com aquela identidade visual apresentável e embalagens que fazem você pensar que está comprando um chocolate expecional.

  • Israel bombardeando Gaza. Até sonhei com o Domo de Ferro outro dia, que é o fantástico sistema de escudo invisível do espaço aéreo de Israel, que bota os mísseis (supostamente) do Hamas em chamas assim que eles atingem a tal redoma invisível, o que lembra bem vivamente a cena do escudo em Hogwarts no último Harry Potter (isso é algo de que eu particularmente não estou cansada) – bom, sonhei com isso, de tanto que eu não aguento mais Israel bombardeando Gaza.
  • Trollfaces.
  • Aquele adesivo atrás dos carros que tem a família toda dando as mãos em versão palito, incluindo as vezes o bebê, o cachorro e até a avó, em alguns casos, entre outras coisas. Versões engraçadinhas com, sei lá, famílias de clássicos pop tipo Star Wars ou Família Dinossauro ainda estão sendo aturadas, mas não por muito tempo.
  • Comentaristas de sites de notícias e do YouTube.
  • Fones de ouvido do Dr. Dre (obrigada por me lembrar, Gawker), que são caros e não são assim muito bons – quer dizer, tem fones melhores por um terço do preço. Se você vai pagar 300 fucking dólares em um fone de ouvido, ele não pode ser SÓ bonito, né.
  • Gente falando de Facebol no Futebook… NÃO, PÉRA. A verdade é que eu não reclamo disso no Facebook porque daí seria eu mais uma chata a engrossar o caldo de gente enchendo o saco sobre futebol no Facebook. A merda é que não dá pra bloquear, sabe? Porque tá cheio de gente que na maior parte do tempo posta coisas legais, mas aí nessas épocas de jogo é tomada por, sei lá, um espírito insuportável. E aí o Facebook não mais que de repente vira o Twitter, com 35 pessoas falando CHUUUUUUPAAAAA. Sabe o que eu queria mesmo? Eu queria mesmo um aplicativo que bloqueasse as palavras Corinthians, Timão, Palmeiras, Palestra, São Paulo, bambi, e variações de CHUPA que possuam entre UM U e TREZE Us.
  • Ofertas de sushi e de salão de beleza no Groupon, Clickon e Peixe Urbano. Eu ainda aguento ofertas de viagem em sites semelhantes, no entanto.
  • Gente que, nem por amor à própria vida ou à vida daqueles que lhes são caros, é capaz de compreender a grandeza e a diversidade disso que a gente chama de mundo, de modo que acaba julgando como inferiores pessoas diferentes delas em vários aspectos, de orientação sexual a gostos pessoais. Especialmente gente que se engaja em violência física pra fazer prevalecer a opinião de que essas pessoas diferentes não merecem dividir o mesmo PLANETA que elas.
  • Workshops de gente descolada em Berlim discutindo a falta de privacidade no Facebook (oi, você não é obrigado a estar no Facebook; oi, estamos em 2012).
  • Gente que não gargalha nunca.
  • Gente que, depois de pisar no seu pé no transporte público de maneira dolorida, troca olhares com você e mesmo assim se recusa a pedir desculpas, mesmo que fosse só com a mão ou só com a expressão corporal – vocês sabem, quando a gente encolhe o corpo. Aquilo que fazemos quando nos envergonhamos ou queremos nos mostrar à disposição, que é basicamente o que a gente faz quando se desculpa sinceramente. Especialmente quando isso acontece pela manhã, porque faz o dia mais difícil, torna o mundo um lugar mais inóspito pra se viver e contribui para a perda de pontos do time HUMANIDADE na competição universal pelas coisas fundamentais da vida.
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Flutuando no espaço

Essas frases do Amyr Klink, do Marco Polo e de Santo Agustinho que todo mundo cola no perfil eventualmente, quando está viajando ou vai viajar, são uma tentativa válida de descrever aquele entusiasmo de ver o mundo com olhos de criança de novo.

Essa é uma empolgação que, se você não tem mais 4 ou 5 anos, só sair do seu ‘ninho’ vai proporcionar. E eu acho que sei disso há um tempão, mesmo; talvez desde pequena.

O livro que mais me marcou na vida foi um dos primeiros (de verdade, de gente grande) que eu li. Chama O Mundo de Sofia e eu não sei qual é a reputação dele do ponto de vista literário, assim, e nem quero saber. O que importa é que aos 10 anos, aquele papo de que eu precisava continuar escalando de volta até a ponta dos pêlos do coelho fez todo o sentido. Péra, eu explico:

Vamos resumir: um coelho branco é tirado de dentro de uma cartola. E porque se trata de um coelho muito grande, este  truque leva bilhões de anos para acontecer. Todas as crianças nascem bem na ponta dos finos pêlos do coelho. Por isso elas conseguem se encantar com a impossibilidade do número de mágica a que assistem. Mas conforme vão
envelhecendo, elas vão se arrastando cada vez mais para o interior da pelagem do coelho. E ficam por lá. Lá embaixo é tão confortável que elas não ousam mais subir até a ponta dos finos pêlos, lá em cima. Só os filósofos têm ousadia para se lançar nesta jornada rumo aos limites da linguagem e da existência. Alguns deles não chegam a concluí-la, mas outros se agarram com força aos pêlos do coelho e berram para as pessoas que estão lá embaixo, no conforto da pelagem, enchendo a barriga de comida e bebida:
— Senhoras e senhores — gritam eles —, estamos flutuando no espaço!
Mas nenhuma das pessoas lá de baixo se interessa pela gritaria dos filósofos.
— Deus do céu! Que caras mais barulhentos! — elas dizem.
E continuam a conversar: será que você poderia me passar a manteiga? Qual a cotação das ações hoje? Qual o preço do tomate? Você ouviu dizer que a Lady Di está grávida de novo?

Ser filósofa passou pela minha cabeça naquela época. Mas mais adiante no livro, as passagens que descreviam lagos escandinavos, Fjordes e aquela língua estranha com å e ø provavelmente me encantaram mais que a ideia de ser filósofa e eu decidi que queria ser viajante.

Infelizmente pra mim e pra todos vocês, não existe tal profissão. Costumava existir, e esses parecem ter sido tempos interessantes, muito embora a profissão em si não fosse ‘viajante’, mas talvez ‘capitão de embarcação’, ‘bandeirante’ ou ‘explorador’. Nenhuma dessas, no entanto, costuma ser uma opção prática ou viável pra ser considerada uma cidadã economicamente ativa.

Mas eu dei um jeito. No fim das contas, ser viajante – como ser filósofo, aparentemente – é a maneira mais eficaz de se manter na ponta do pêlo do coelho, às vezes mesmo contra nossa vontade. Não existe técnica melhor pra cultivar a capacidade de se encantar com as coisas triviais e, ao mesmo tempo, não se assustar tanto com o diferente e ser mais tolerante.

Porque o mundo, afortunadamente, é muito grande e diferente. Não é incrível que uma distância de poucos quilômetros seja decisiva pra ditar a língua que as pessoas falam, o que elas comem, como elas tratam os outros, como elas organizam os ladrilhos na calçada? Isso é fascinante e é fundamental pra relativizar questões territoriais, de pátria, de nação e, numa brisa maior ainda mas não menos importante, da nossa existência.

Mas mais do que isso, viajar é tão fundamental pra mim porque me mostra um negócio que deveria ser óbvio, mas não é – e não é pra maioria das pessoas, por diversos motivos. A verdade é que não importa por onde passei e as coisas diferentes que vi, eu sempre fui capaz de ver padrões que me eram familiares, se eu olhasse além da superfície. No mundo inteiro, faça neve ou 40 graus, tenha você nascido no meio da guerra ou no meio de uma ilha deserta, você vai encontrar cidades cheias de lixo e cidades limpas, gente amável e gente antipática, amigos inseguros e amigos confiantes, departamentos públicos burocráticos e departamentos públicos cheios de <3, pessoas dispostas a te abraçar e pessoas dispostas a te dar uma rasteira.

Eu viajei pra ver as coisas diferentes do mundo, e viajar me mostrou que o mundo é mais igual do que eu jamais imaginaria.

Ah: Eu achei esse texto subjetivo demais pra ir pro Drum Bun, mas passa lá se o seu negócio for viajar e não só ficar viajando sobre viajar.

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Todo mundo virou analista político – e isso é ótimo

Eu comecei a assistir Downton Abbey esse fim de semana, uma série inglesa que retrata as tramas de poder da aristocracia britânica do início do séc. 20. O recorte é a família e os criados de um nobre – acho que dá pra chamá-lo de nobre – de uma cidadezinha no interior da Inglaterra.

Com a maratona de 7 ou 8 episódios que vi, fui tomada pelo espírito inglês extremamente polido. Eles são super educados – até a maneira como tratam os empregados, e isso há mais de 100 anos, ainda é superior ao jeito que muita gente por aí fala com a diarista. Uma frase me marcou: a matriarca da família, interpretada pela Maggie Smith – que pra mim vai ser sempre a McGonagall – que tem aquele humor inglês de um sarcasmo quase cortante, encontrou a maneira mais elegante do mundo de dizer pra alguém: “você nunca está satisfeito com nada”.

Prefiro ela como McGonagall

Prefiro ela como McGonagall

Ela diz: “Me encanta a maneira como você sempre é capaz de enxergar algo que possa melhorar em todas as coisas.”

Então, pra não ser mal-educada, é isso que eu vou dizer pra alguns. Me encanta a maneira como vocês sempre são capazes de encontrar algo a ser melhorar em qualquer coisa. E eu estou falando de um aspecto muito específico das eleições no Brasil, que é algumas reclamações recorrentes de que “agora, todo mundo tem uma opinião pra dar sobre política”, ou “agora, todo mundo é analista político”.

Pois adivinha – todo mundo tem direito a ter uma opinião sobre política e a enunciá-la, felizmente. Além do mais, não é disso que a gente tem reclamado a vida inteira? De que o “povo brasileiro” é alienado, não é politizado, não se interessa por política, vota e não se lembra em quem votou, que só tem opinião sobre futebol… Eu credito isso às redes sociais, mas a gente – o brasileiro – está num momento de crescente politização. Acho até que a condenação dos mensaleiros pode ter restaurado nossa esperança com a política, de leve. Até quem não entende nada e repete opinião dos outros está se sentindo na obrigação e no direito de opinar. E acompanhada disso, vem a vontade de se informar, de ler opiniões que podem ser contrárias – e, quem sabe um dia, considerar a possibilidade de se questionar. Vale lembrar: duvide sempre.

Não tô falando daquelas opiniões escrotas e vazias, daquele povo que fica ofendendo quem votou na oposição ou de quem fica torcendo pra que os pŕoximos anos da cidade sejam horríveis só pra poder estar certo (aliás, que coisa horrível de se fazer). Me refiro a crescente tendência das pessoas em opinar sobre política, e não é só na internet, porque pessoalmente os papos envolvendo os candidatos também estão mais frequentes.

Mesmo com tanta abstinência nas eleições (em SP e em Santo André, pelo menos, girou nos 30%), o que é a maior prova que muita gente ainda prefere ficar longe da política, eu fico feliz que tenha tanta gente virando ‘analista político’. Na maioria dos casos, é melhor ter alguma opinião do que não ter nenhuma.

Mais uma coisa (editado): não estou falando de ativismo de sofá, tipo colocar o sobrenome “Guarani-Caiowá” no Facebook. Estou falando de sentir mais seguro, mais confortável e mais apto a discutir política em qualquer plataforma online e offline, e de fazer isso com mais frequência. Isso é importante e deveríamos estar comemorando o fato de que há tem mais gente fazendo isso.

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