OEsquema

Sobre como a natureza humana pouco muda em 500 anos

A letra dessa chacona foi escrita em algum momento no século 16 ou 17. Ela fala de uma festa de casamento muito louca, de quem foi pra casa com quem, quem arrumou briga, quem bebeu demais, da hora em que chegaram mais de 40 prostituas de Barcelona…

#partiu festeeeeeeeeeeeenha?

#partiu festeeeeeeeeeeeenha?

Porque é escrita em espanhol arcaico, tem trechos impossíveis de entender, mas vou colar até pra vocês me ajudarem a desvendar:

Un sarao de la chacona
se hizo el mes de las rosas,
hubo millares de cosas
y la fama lo pregona:
A la vida, vidita bona,
vida, vámonos a chacona.

Porque se casó Almadán,
se hizo un bravo sarao,
dançaron hijas de Anao
con los nietos de Milán.
Un suegro de Don Beltrán
y una cuñada de Orfeo,
començaron un guineo
y acabólo una macona.
Y la fama lo pregona:
A la vida, vidita bona,
vida, vámonos a chacona.

Salió la cabalagarda
con la mujer del encenque,
y de Çamora el palenque
con la pastora Lisarda.
La mezquina donna Albarda,
trepó con pasta [a] Gonzalo,
y un ciego dió con un palo,
tras de la braga lindona.
Y la fama lo pregona:
A la vida, vidita bona,
vida, vámonos a chacona.

Salió el médico Galeno
con chapines y corales,
y cargado de atabales,
el manso Diego Moreno.
El engañador Vireno
salió tras la traga malla,
y l’amante de Cazalla
con una moça de Arjona.
Y la fama lo pregona:
A la vida, vidita bona,
vida, vámonos a chacona.

Salió Ganasca y Cisneros,
con sus barbas chamuscadas,
y dándose bofetadas
Anajarte y Oliberos.
Con un satal de torteros,
salió Esculapio el doctor
y la madre del amor,
puesta la ley de Bayona.
Y la fama lo pregona:
A la vida, vidita bona,
vida, vámonos a chacona.

Salió la Raza y la traza
todas tomadas de orín,
y danzando un matachín
el Oñate y la Viaraza.
Entre la Raza y la traza
se levantó tan gran lid,
que fue menester que el Zid,
que bailase una chacona.
Y la fama lo pregona:
A la vida, vidita bona,
vida, vámonos a chacona.

Salió una carga de Aloe
con todas sus sabandijas,
luego, bendiendo alelixas,
salió la grulla en un pie.
Un africano sin fe,
un negro y una gitana,
cantando la dina dana
y el negro la dina dona.
Y la fama lo pregona:
A la vida, vidita bona,
vida, vámonos a chacona.

Entraron treinta Domingos
con veinte lunes a cuestas,
y cargó con es[as] zestas,
un asno dando respingos.
Juana con tingo lo[s] mingos,
salió las bragas enjutas,
y más de quarenta putas
huiendo de Barcelona.
Y la fama lo pregona:
A la vida, vidita bona,
vida, vámonos a chacona.

  • “Vámonos a chacona” é a versão arcaica do “vamos pro rolê” ou “bora se acabar na pista”;
  • Festa boa é aquela sobre a qual se continua cantando mesmo depois de 500 anos, essa é a verdade;
  • O conceito de festa boa, que no caso dessa letra se traduz em gente bêbada, dançando muito, brigando e chamuscando a barba, se pegando, um cego que deu uma paulada no que eu não entendi se é uma moça bonita ou se é uma calcinha bonita, não mudou em 500 anos e continua sendo exatamente o mesmo, porque se você for em uma festa assim em 2014 aposto que vai achar incrível;
  • Outra coisa que não mudou é que a gente continua achando legal cantar sobre festas muito loucas. Ou seja, de funk ostentação a sertanejo universitário, passando por ‘churrasco, um bom chimarrão, fandango, carro e mulher’ e ‘The club can’t even handle me right now’, nós cantamos sobre boas festas desde que sabemos fazer música.
  • Gosto que a gente use a palavra ‘sarau’ até hoje. :)

A gente acha que muito mudou nesse tempo todo, mas nossa herança cultural nos mostra que foi é muito pouco. Vou deixar pra outro post, mais triste, a  reflexão que aproxima outros de nossos hábitos em sociedade, mais bárbaros, da Idade Média. Vamos ficar só com a música e a parte feliz.

 

Alguém percebeu algo mais que seja digno de nota na canção sobre o que deve ter sido a mais ÉPICA (HEH) festa de todos os tempos?

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Her, sobre o amor

 

Her é uma história de amor entre um sistema operacional e um cara. O cara, interpretado pelo Joaquim Phoenix, é um desses moços meio sensíveis, meio hipsters, daqueles que escrevem poesia e não mostram pra ninguém e ouvem Bon Iver. A moça, interpretada pela voz da  Scarlett Johanssonn, é um sistema operacional super inteligente, acionado por comandos vocais, capaz de aumentar seu poder de processamento e aprender de maneira assustadoramente rápida com o comportamento do usuário, assim como nós somos.

O mais legal sobre Her é que, à primeira vista, ele parece um filme sobre o mais não-convencional dos amores. Quando ele termina, a sensação é que ele é sobre o amor na mais convencional das formas. É difícil não se identificar, não se conectar, não se sentir tocado pelo romance que Theodore, o personagem de Phoenix, tem com um software. E eu falei desse jeito justamente pra parecer muito mais tolo do que realmente é, porque o mérito do filme, entre outras coisas, é dar um tapa na nossa cara enquanto a gente se vê torcendo por um amor entre um robô sem corpo, em uma história que é tecnologicamente verossímil, inclusive. Ajuda, claro, o fato de a voz de Samantha ser familiar pra quem já tenha visto algo com a Scarlett Johansson, mas é um tratado bonito sobre como o amor e eventualmente o desejo sexual independem de um corpo físico presente.

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E apesar desse pôster me lembrar que a fotografia, apesar de ótima, consiste mesmo uns 40% em close-ups do rosto do Joaquin Phoenix, ela não deixa de ser um bocado sensível e inspiradora. E tem a trilha sonora, também, que não à toa foi indicada ao Oscar. É do Arcade Fire. Por exemplo, ouve isso e tente não derreter:

Fazia tempo que um filme não me deixava, assim, meio paralisada e inspirada depois de terminar. Fiquei um tempo na madrugada pensando em Her e me peguei questionando um monte de coisa sobre o futuro e a tecnologia e o amor. Se hoje, histórias sobre famílias que não aceitam romances gays ou entre indivíduos de cores de pele diferentes são uma narrativa frequente no cotidiano, é muita piração imaginar que no futuro, a nossa geração vai ser intolerante quanto a relacionamentos entre humanos e máquinas?

Eu sei que parece muito distante, mas ó, não é mesmo. A singularidade não está longe assim – ainda não dá pra se apaixonar pelo Cleverbot, ok, mas é fácil de esquecer que não tem ninguém de verdade em um teclado em algum lugar quando a gente conversa com ele.

Acho que o que falta pra psicólogos e terapeutas pararem de dizem que relacionamentos virtuais (por enquanto, aqueles com humanos, mas que se dão por máquinas digitais) têm vínculos mais fracos é um estudo que registre a atividade cerebral e hormonal de pessoas  que fazem amigos de quem se sentem próximos ou mesmo se apaixonam pela internet (eu procurei, mas não achei nenhum). Eu acho que esse tipo de afirmação vem com a nossa  ainda não familiaridade com a tecnologia e com uma necessidade intrínseca de separar as coisas entre real e virtual. Mas o cérebro não vê o mundo assim, separado, não; tem até aquele papo de que quando você faz algo no sonho, a atividade cerebral daquela ação é bem parecia com a atividade cerebral que rola quando você faz a mesma coisa de verdade.

Como eu e o Alex concluímos na mesma madrugada enquanto conversávamos sobre o filme (ele também tinha acabado de ver, coincidentemente), informações transmitidas digitalmente não podem ser distintas de informações criadas digitalmente por uma inteligência artificial em forma e, muito em breve, em conteúdo. E elas influenciam decisões no mundo não-virtual, criam e destroem sentimentos que afetam o nosso corpo físico. Não dá pra ser mais real que isso, porque a maneira como a gente percebe essas coisas é real e ponto. A história e os sentimentos frequentemente são os mesmos: a única diferença é a percepção da sociedade do que é normal e aceitável ou não, e talvez aí entrem as travas que, de acordo com os tais especialistas, “enfraquecem” laços estabelecidos virtualmente.

Ou vai dizer que uma mensagem no Whatsapp e um sorriso, quando vêm da pessoa certa, não causam o mesmo frio na barriga?

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6 coisas pra fazer em 2014

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Há quase um ano, eu decidi – como a gente sempre decide quando o ano vira – que ia fazer algumas coisas diferentes. A principal delas foi uma das mais populares resoluções de ano novo, algo na linha do FICAR SAUDÁVEL / EMAGRECER / IR PRA ACADEMIA.

Pra minha surpresa, no entanto, um ano passou e a resolução pegou. Foram-se 10 quilos, a preguiça, a falta de fôlego e o sedentarismo. Veio alguém que não aguenta passar um dia sem se mexer e que considera “ir correr no parque” uma atividade de lazer. A Liv falou em um post dela sobre começar a correr que a gente tende a se apegar aos nossos defeitos como se eles fossem partes bonitinhas e engraçadinhas da gente que nos fizessem ser quem nós somos. Mas isso é bullshit. Mudar não é fácil, porque todo dia você precisa calar a boca daquela partezinha dentro de você que não acredita que você possa ser diferente. Mas essa partezinha, que costuma ser bem maior no começo de qualquer jornada rumo à mudança, também diminui com o tempo. Você vai até esquecer e ficar desconfortável com “o velho você”.

Depois dessa bem sucedida resolução de ano novo, resolvi traçar umas outras. Eu sei, WHO CARES, mas aí, só publicar esse post já mata duas resoluções de uma vez (pelo menos a 1 e a  3), então AGUENTA.

Conceito Shoshanna de auto estima (ou “Vou me importar menos”)

A Juliana Cunha falou disso nesse post e eu lembrei da importância de adotar pra todos os campos da vida o “só vou gostar de quem gosta de mim”, que basicamente também é resumido nesse maravilhoso post chamado The Complete Guide to Not Giving a Fuck. Eu me importo demais com o que as pessoas pensam e frequentemente isso me impede de fazer uma porção de coisas que tenho vontade. Me importar com o que as pessoas pensam é um dos motivos, inclusive, pelo qual eu passei a escrever aqui tão pouco – entre outras coisas (tipo preguiça, HEH).

Isso acabou. 2014 é um ano de se importar menos, começando pelo conceito Shoshanna de auto estima e terminando nesse guia, que começa com FAÇA COISAS QUE VOCÊ CONSIDERA VERGONHAS, e que foi exatamente o que eu fiz quando criei aquele Instagram de vídeos de mim falando nonsense, o Até15Segundos.

Eu vou desenhar mais

Eu desenhava.

Durante um bom tempo na minha infância e adolescência, flertei com esse louco mundo das ~artes. No começo, eu só desenhava. Depois, fazia os layouts pros meus blogs, sites e essas coisas. Não era tão ruim assim pra uma menina de 14 anos, e eu cogitei durante um bom tempo seguir carreira nessa área. Paralelamente, eu sempre escrevi bastante, também; o texto acabou ganhando a batalha do meu coração, especialmente porque o colégio que eu estudava meio que desencoraja o pensamento não-prático / não voltado pra uma carreira na escolha de uma faculdade. Acabei no jornalismo, e sou feliz, mas gosto de desenhar e quero voltar a desenhar. Esse é o único desenho ao qual eu me dediquei por mais de 30 minutos em 2013 (os outros foram todos rascunhos e rabiscos que, ainda que tenham virados coisas interessantes agora que eu os estou folheando, não contam, porque tiveram menos de 5 minutos de dedicação cada):

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Nada mal, vai. No fim eu acabei fazendo uma tatuagem com um motivo parecido e nem me toquei. Acho que tem algo aí pro meu psicanalista explorar.

Enfim, quero desenhar por 1h por semana. Factível.

Vou escrever mais

Começando por esse post! A ideia é escrever um por semana. Se isso rolar, já vai ser uma vitória (eu devo ter atualizado o blog umas 5 vezes em 2013?)

Vou ler mais

Eu li um bocado em 2013! Muitos livros ruins, verdade, mas li livros, o que é uma vitória considerando que eu sou incapaz de, sei lá, amarrar o sapato sem checar o Facebook antes, ultimamente. Em 2014, quero ler mais ainda. Não tracei uma meta, ou seja, sem meta a resolução tem tudo pra dar errado, mas pôxa: em 2013 também ficou sem meta e deu certo. Então vou ser generosa comigo.

Menos distração, mais foco

Tá fácil atingir essa, na real: eu estou evitando usar o Facebook no browser a não ser que eu esteja USANDO O FACEBOOK como minha principal atividade. Enquanto estou no computador, trabalhando, escrevendo, ouvindo música ou lendo, a ideia é manter o Facebook bloqueado (pra isso, eu uso uma extensão chamada StayFocused). Tá rolando bem tem umas semanas. Eu não sou uma maníaca da produtividade, mas eu preciso me organizar agora com a vida de freela, senão eu simplesmente não consigo entregar as coisas no prazo. A consequência é que migrei de volta pro Twitter, mas o Twitter é bem menos sugador de vida do que o Facebook, aparentemente.

Correr 10km

Minhas marcas de corrida ainda são fracas. Apesar de a minha resistência e fôlego terem aumentado absurdamente, hoje eu sou incapaz de correr mais do que, digamos, 4km em mais ou menos 35 minutos, com uma pausa pra retomar o fôlego aí no meio. Mas estou perto dos 5km, e até o fim do ano, quero chegar aos 10km ininterruptos. Acho até uma meta bem conservadora, pra ser honesta, mas é o que eu disse: eu gosto de ir devagar. Frequentemente isso é até uma estratégia pra eu atingir metas melhores que o programado e então me sentir bem melhor comigo mesma, mas e daí? Se funciona, então beleza.

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As 15 melhores coisas de 2013, por Ana Freitas

Daí o mundo não acabou no reveillon do ano passado.

Eu sempre achei que o reveillon, o momento da virada, seria um bom momento de dar fim à raça humana como a conhecemos. Tipo, não estou sugerindo genocídio em massa. Tô dizendo que, se eu fosse – digamos – general de uma horda hostil alienígena e tivesse que escolher um momento pra atacar o planeta, ou uma cientista louca prestes a liberar uma bactéria letal que zumbificasse geral, eu provavelmente faria isso no “zero” da contagem, só pela ironia e simbolismo da coisa. Ninguém saberia, só eu, mas eu gosto bastante desses momentos que meio que dão uma poesia pra vida, que quase transformam a narrativa caótica do cotidiano em um momento que poderia ter saído da ficção, ainda que só eu mesma esteja lá pra contar a história.

Eu fiquei feliz que o mundo não terminou. Não ativamente feliz, tipo, saltitando, mas é que fazendo um balanço final de 2013, minha impressão é que ele foi importante de ser vivido e teria feito falta caso não tivesse existido por algum motivo.

Na minha vida, muita coisa mudou. Em 2013, eu vivi em dois países diferentes, com culturas diametralmente opostas. Na verdade, eu gosto de dizer inclusive que eu vivi em 2013, e isso foi la em Berlim, mas que aqui no Panamá ainda é 1970. Em algumas situações, ainda é 1720. Eu ainda não sei o que quero da minha vida nem o que estou fazendo dela, o que é uma coisa importante de se reconhecer, mas também aprendi que não tem problema nisso e que a maioria de nós realmente não faz ideia do que está fazendo, passa a vida inteira fingindo enquanto todo o resto das pessoas finge que acredita – e essa deveria ser a definição no dicionário de AMADURECIMENTO.

Dito isso, segue a minha seleção de 15 melhores coisas de 2013 (pra mim). A ideia era fazer uma lista de 13 coisas, mas eu encontrei 15 e minha natureza subversiva me disse que era melhor eu manter assim mesmo.

André Marques fez o Mocotó

Por que? Apenas SIM. 2013 nos presenteou com uma das melhores coisas da internet que já apareceram nos últimos, sei lá, anos mesmo.

Depois de um tempinho obcecada por essa música, eu me dei conta que se eu fosse o André Marques eu ficaria muito triste se visse algo assim sobre mim. E eu acho mesmo que, a essa altura do campeonato, essa parada chegou até ele, então é possível que uma celebridade tenha sido magoado no processo.

O GIGANTE (junho, o povo na rua, como quiser chamar)

Ele acordou, parece. Dizem que voltou a dormir, mas eu discordo com ênfase. Algumas coisas mudaram sim, e elas são minúsculas perto do que realmente pode e deve acontecer, mas é preciso começar por algum lugar, né? E teve o meu texto, o dos 20 centavos, que – talvez seja pretensioso assumir isso, mas acho que é verdade – parece ter inflamado milhares de pessoas a pensarem diferente sobre o que tava acontecendo e até mesmo a saírem de casa. Foi legal estar no meio disso mesmo sem estar no meio disso (eu estava na Alemanha), e participar de alguma forma, mesmo sem participar.

Pra voltar a inflamar o espírito revolucionário, recomendo isso aqui. Veja com fones de ouvido:

Berlim

Eu me sinto privilegiada de ter vivido em Berlim durante parte desse ano e do ano passado porque eu tenho certeza que a cidade está entre as melhores 5 do mundo pra se viver. O o momento que eu vivi lá foi muito singular, porque foi exatamente antes de outras pessoas descobriram que a cidade é incrível e baratíssima e, portanto, os preços começarem a subir por lá. Em Berlim, eu aprendi que existe um modelo funcional de aglomeração urbana, que outro estilo de vida – mais simples, mais frugal, mais feliz – é possível, fiquei mais tolerante, mais civilizada, mais humana. Berlim me mostrou como boa parte da vida deveria ser no mundo ideal , e eu sinto falta de lá todos os dias. Eu escrevi aqui, um pouco, sobre porque Berlim é tão incrível, embora só dê pra entender mesmo visitando a cidade.

As pessoas estão ocupando o espaço urbano

Você talvez não tenha percebido isso de perto. De longe, pra mim, está muito claro como a falta de opções de lazer em SP está influenciando um movimento de retorno ao contato com a cidade. Quando eu comecei a andar de skate, em 2010, eu tive pela primeira vez esse tipo de relação mais direta com o espaço urbano. Essa relação se acentuou depois que eu morei na Holanda, em seguida da Alemanha, e usei a bicicleta como uma extensão do meu corpo, e os parques como meu quintal. E os paulistanos estão tentando retomar o espaço urbano – que durante anos, foi entregue aos carros e ao concreto – para si, para as pessoas. Parece tímido, mas é um zeitgeist e está acontecendo em todos os lugares. Em Santo André, no meu bairro, uma pracinha que foi reformada é o novo ~~~point de todo mundo no fim de semana, jovens, idosos, famílias com crianças. É um miniparque no centro da cidade, que não foi feito exatamente praquilo mas está sendo usado como convém, porque é um espaço verde, um oásis no meio do cinza. É por aí.

Breaking Bad

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A melhor de todas. Nem toda unanimidade é burra – Breaking Bad é um sucesso de público e de crítica, acessível a todo tipo de público, uma obra prima do entretenimento pra TV. Se você não viu, sempre há tempo e vale à pena. Muito.

O Facebook

O QUÊ? Eu sei. Mas é que, pra mim, pelo menos, foi o Facebook a ferramenta responsável por me manter em contato com o Brasil – e com o que as pessoas no meu país pensam, ainda que de maneira não completamente real. Sem contar que esse ano eu produzi muito conteúdo lá: textos, fotos, vídeos (o Até15Segundos, meu projeto de vídeos no Instagram, foi curto e brilhante como um meteoro – risos – mas deve voltar assim que eu retomar a coragem de falar sozinha pra uma câmera, e surgiu esse ano) curadoria, foi tudo pro Facebook. A rede social meio cafona e cheia de problemas do Mark foi a minha mesa de bar em português de 2013.

AM, do Arctic Monkeys, e Lonerism, do Tame Impala

(que é de 2012, mas eu ouvi muito em 2013 então encaixa na MINHA LISTA de melhores coisas de 2013, don’t kill my vibe)

Esses discos não são para os de corações jovens. Você precisa ter uma alma meio velha pra apreciá-los – o primeiro, porque é um disco sobre um pé na bunda fenomenal, do começo ao fim. O segundo é uma viagem pelas coisas que realmente importam no mundo, meio que uma dose de Daime mais branda e puramente musical. Eles embalaram meu ano.

Esse programa bizarro do João Kleber

É triste, mas é provavelmente a grande coisa do humor in-voluntário (assim mesmo, com hífen) da TV esse ano:

O Uruguai

A coisa parece tão incrível que eu sempre fico com o pé atrás pensando que é uma pegadinha. Um paisinho colado no nosso, culturalmente tão próximo do que o Rio Grande do Sul é, que está a anos-luz do Brasil em tanta coisa. Um presidente velhinho gênio que é realmente um dos chefes de estados mais legais que o mundo já viu, leis progressistas e protetoras das liberdades individuais, qualidade de vida etc etc. Vou pra Montevidéu em março. E você? Assistir esse discurso do Mujica pode te empolgar (ou leia aqui a íntegra traduzida):

O feminismo (de verdade)

Na verdade, antes desse ano, eu achava que feminismo era uma coisa horrível, de gente sem ter o que fazer que quer ter mais direito que os outros. Eu já odiava piadas sobre mulheres não saberem dirigir, já era contra a cagação de regra do mundo sobre o que é ser uma mulher e já me indignava com slut-shaming: eu obviamente sempre fui a favor de que mulheres tivessem os mesmos direitos e oportunidades que homens, mas eu não sabia que isso era ser feminista (aliás, a notícia é que, se você também é a favor disso, você também é feminista). E dá até um pouco de medo de falar, porque a palavra ainda é carregada de muito preconceito, mas é simples assim: se você acredita que mulheres devem ter os mesmos direitos e oportunidades que homens, igualzinho, então você é feminista. E se dizer feminista em um contexto em que as pessoas têm vergonha de dizer que são porque a palavra é carregada de preconceitos e, por si só, um ato contestador (por exemplo: quando eu me digo ‘feminista’ em contextos sociais, as pessoas dão risadinhas nervosas).

O feminismo, desse jeito assim, me deixou bem mais forte e confiante pra uma série de coisas, inclusive pra ser eu mesma sem medo de que isso me fizesse menos mulher. Muito dessa percepção e dessa construção veio por causa do Think Olga, um dos grandes sites de 2013. Eu inclusive publiquei uns textos por lá (uma honra!): um sobre mulheres que assistem pornô e outro sobre o Lulu.

EU EM UMA LISTA DE PESSOAS FODAS!

Esse ano, eu entrei em uma lista de pessoas importantes! Eu nunca tinha entrado em uma lista. O mais legal é que tem gente muito talentosa e genial na mesma lista, o que me fez sentir muito especial. Eu aparentemente sou uma das 25 pessoas mais influentes da cultura de internet no Brasil. Minha família até me levou pra jantar fora no dia em que essa lista foi divulgada. Comemos temakis.

As pessoas estão seguindo o coração

É bem isso mesmo: outro zeitgeist que eu percebi esse ano é a enorme quantidade de pessoas que está deixando os empregos tradicionais pra fazer o que gostam, como querem. A tendência de muitos é virar-se pra trabalhos mais manuais, o que confirma uma espécie de instinto humano de sentir mais satisfação e prazer do trabalho feito com as mãos – esse texto do NYTimes fala bem sobre isso – mas serve pra gente que só mudou de área, ou voltou a estudar perto dos 30 etc. Não se trata da geração Y, mas de gente de todas as idades. É mais uma tendência de uma época. E isso é ótimo. Tudo que torna as pessoas mais felizes é ótimo. E se a gente segue nossa verdadeira vontade, a vocação, não tem como dar errado. Nesse post aqui tem um apanhado de feelings de gente que também sente que isso é algo que está acontecendo.

Essa reflexão

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Cabras que gritam que nem gente

Apenas:

Agora eu sou freela

Eu ganho menos. Não tenho 13º, nem férias, nem FGTS ou aposentadoria – essas coisas, se eu quiser, precisam ser controladas por mim, por fora (coisa que eu, meio irresponsavelmente mas também por falta de experiência, só vou começar a fazer em 2014). Mas eu acordo às 9h, ando de longboard três vezes por semana na beira do mar, corro todos os dias, trabalho de onde eu quero e a hora que eu quero. Tem várias coisas que eu ainda preciso aprender, como a dizer não quando todos os trabalhos aparecem de uma vez e a ser mais disciplinada na distribuição do fluxo de trabalho pelos meus horários, mas de maneira geral, eu adoro minha nova vida e acho que não quero voltar a trabalhar em uma agência ou redação tão cedo.

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Couchsurfing e todas as dúvidas que você tinha

Couchsurfing

Nós e o Tanguy, nosso anfitrião belga que falava português

A parte sobre as viagens que eu faço que realmente choca as pessoas e desperta uma curiosidade mórbida é a que envolve o Couchsurfing. Quando eu comento que me hospedo gratuitamente na casa de gente que eu não conheço, eu posso ver nos olhos delas tudo que lhes passa pela cabeça naquele momento. É um misto de admiração pela coragem, somado a um pesar distante que envolve um ‘coitada, vai acabar se dando mal’ não pronunciado, e dependendo da pessoa, envolve também um brilho de curiosidade genuína, do tipo ‘isso parece legal’.

Eu e umas amigas na casa do Tanguy, em Bruxelas – ele foi meu primeiro Couchsurfer e falava português super bem
Uma tia minha, que eu não tinha visto depois que voltei da Holanda e que encontrei em uma festa de família recentemente, comentou que ficava com o coração na mão cada vez que lia meus posts. E eu não consegui atinar o motivo, até que ela explicou: “você ficava na casa dessas pessoas, não sabia o que ia acontecer…”. E eu expliquei que nunca me aconteceu nada, longe disso, e que todas as experiências com Couchsurfing foram incríveis. “Por sorte!”, completou ela.

O conceito do Couchsurfing é difícil mesmo de ser assimilado pelas gerações mais antigas. Imagina só, abrir sua casa de graça pra alguém que você não conhece. Por que alguém faria algo tão legal se não fosse ganhar nada com isso? O que eu ganho ao colocar alguém dentro da minha casa? Por que eu deveria confiar em alguém que eu mal conheço?

Mas daí eu já acho que, se você não sabe a resposta pra essas perguntas, Couchsurfing (e o mundo, na verdade) não são pra você.

Como funciona esse negócio, afinal?
Acho difícil, mas caso você nunca tenha ouvido falar disso, explico. O Couchsurfing é uma rede social populada por:

  • gente que quer hospedar gratuitamente visitantes de outros países em troca de ter a oportunidade de conviver com culturas diferentes e praticar o idioma;
  • gente que quer se hospedar gratuitamente na casa de outras pessoas ao redor do mundo;
  • expatriados.

Comumente, os perfis se sobrepõem – boa parte das pessoas faz parte dos três grupos. Não é necessário abrir sua casa para hospedagem se você quiser participar da rede, tampouco se hospedar na casa dos outros. Você pode estar ali só pelos eventos semanais que rolam nas grandes capitais do mundo todo e reúnem 100, 200 pessoas de todos os lugares pra tomar cerveja e falar de qualquer coisa, em qualquer língua. Ou porque quer praticar algum idioma e está disposto a mostrar sua cidade pra um visitante incauto de outro país. Ou porque gosta de conhecer gente.

A verdade é que tanto faz e ninguém vai te cobrar nada. Você cria seu perfil, coloca fotos, preenche tudo direitinho e vai perceber o quão difícil e trabalhoso é fraudar qualquer coisa ali e fingir ser quem você não é. E é isso que garante o alto nível de satisfação e de segurança que o Couchsurfing proporciona.

Por exemplo: pra adicionar alguém como amigo, é preciso preencher uma ficha gigante, informando como você o conheceu, há quanto tempo, se foi pela internet ou pessoalmente, além de deixar uma referência sobre a pessoa. É um saco, na verdade, mas é importante.

Isso certamente não impede completamente alguém de fingir ser alguém que não é, mas dá uma bela canseira no sujeito mal-intencionado, uma que vai fazê-lo cogitar ir a outra rede social mais fácil de fraudar (cof-Facebook-cof) se quiser enganar as pessoas.

Por onde começar

Comece criando um perfil, né. E faça a coisa toda muito bem feita, nada de preguiça. Criar um perfil no Couchsurfing dá tanto trabalho justamente pra criar mais mecanismos de segurança pros membros da comunidade. Então se realmente você quiser participar da parada, deixe de enrolação e preencha tudo muito direitinho. Não economize nas palavras – perfis longos são bem vistos, ao contrário do que poderia acontecer em outras redes sociais.

Coloque suas fotos sendo incrível, várias delas, e pronto – você tem um perfil no Couchsurfing. Se você se conectar com o Facebook vai poder, também, adicionar amigos que muito possivelmente já conhece pessoalmente e que também estão por lá, e esses caras podem te dar referências positivas, importantíssimas pra provar pros seus possíveis hosts que você é você mesmo e que é alguém mais ou menos normal.

Falando em referências…

Essa é uma parte importante. Elas são tipo os testimonials do Orkut, sabe? Você precisa falar ali se a pessoa é legal e explicar o porque. E referências são fundamentais pra conseguir hospedagem – dificilmente um host vai aceitar seu pedido se você não tiver nenhuma.

Ao contrário do que se pensa, hospedar outros fellow Couchsurfers não é a única maneira de conseguir referências.
Você pode:

  • Ver se alguém que já é seu amigo está por lá e pedir uma referência;
  • Se você mora em uma grande cidade, pode frequentar os eventos semanais de Couchsurfing que rolam nas grandes capitais. É só entrar no grupo da cidade e ficar esperto. Todo mundo da rede é bem vindo nesses encontros, que rolam em bares centrais, com cerveja barata e bastante espaço. Em SP, o CS Meeting rola toda terça-feira no Açaí Beach Bar, na Augusta (em frente ao Correio que tem um pouco antes do Ibotirama). Se inscreva no Grupo de SP pra receber as notificações dos eventos.
  • Frequentar qualquer outro evento organizado por Couchsurfers pra conhecer gente que participa da rede;
  • Se oferecer como guia pros viajantes na sua cidade, e ficar disponível para mostrar-lhes os pontos turísticos, tomar um café ou uma cerveja etc.

Como escolher um bom host e mandar um request perfeito?

Na real, eu acho que essa resposta é bem óbvia, mas não parece – me perguntam isso direto. Então vamos deixar as coisas bem claras. O principal atrativo do Couchsurfing não é se hospedar de graça, até porque a gratuidade traz com ela uma série de outras desvantagens: se submeter às regras pessoais do dono da casa, alguma falta de privacidade e de liberdade de viagem dependendo do tipo de couch e de host etc.

O principal atrativo do Couchsurfing é ter um morador local te mostrando o que você deve ver e visitar, onde comer, o que falar, onder ir. Pode ser até que o que te atraia a princípio seja a hospedagem gratuita, mas garanto, se hospedar via CS demanda uma energia que, se você não está disposto a empregar, vai preferir pagar hotel.

Precisa estar disposto a trocar experiências com o seu host, deixar sua marca ali e fazer ele sentir que valeu a pena te hospedar. E é por isso que a ideia é que você só mande requests pra pessoas que considerar realmente interessantes, pessoas com quem você acha que poderia se dar bem: em resumo, gente da qual você gostaria de ser amigo.

Feito isso, escreva a essa pessoa uma mensagem dizendo exatamente isso e o porque. Faça isso com duas semanas de antecedência, – é o ideal – não muito antes, nem muito depois. E aguarde.

Funciona?

Bom, eu já me hospedei via Couchsurfing em Paris, Londres, Bruxelas, Amsterdam e Bucareste. Além disso, conheci outros Couchsurfers em Cusco, na Cidade do Panamá e em São Paulo. Fiz amigos em todos esses lugares, sem contar as pessoas de outros lugares que conheci nos eventos. Pratiquei idioma, saí pra NAITE, tomei cerveja, fiz turismo… sem nenhuma exceção, todas as experiências foram incríveis.

“Se dá pra se hospedar de graça e é tão legal, porque eu vou pagar pra ficar em algum lugar?”

É que, como eu disse, Couchsurfing demanda energia. Compromete boa parte da sua privacidade e, em alguns casos, do seu conforto e da sua liberdade. É por isso que eu recomendo combinar hospedagens diversas – hostel, hotel e CS – pra aproveitar as vantagens de cada uma delas.

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MACHU PICCHU! E outras coisas sobre o Peru

“Señorita, señorita!” é a frase que eu mais escutei em quatro dias no Peru. Ela saiu da boca de criancinhas e de velhos, do camareiro do hotel e do guia da viagem, do balconista do supermercado e da garçonete do pub. A segunda foi “no, gracias”, que saía da minha boca mesmo, negando quase tudo que me ofereciam pra comprar por lá.

Vale Sagrado

Menininho vestido a caráter pra ganhar gorjeta com as fotos no caminho pro Vale Sagrado

Caminhar pelas ruas de Cusco é ao mesmo tempo fantástico e melancólico por uma série de motivos.

É fantástico porque é uma cidadezinha linda, minúscula, encrustada no meio de montanhas bonitas. A arquitetura colonial, o friozinho e a diversidade de nacionalidades que caminham pelas ruas são encantadores. Encantadora, também, é a maneira como aquelas ruas, prédios e placas contam uma história incrível, de um povo que ocupou aquele lugar há muito, muito tempo, e que deixou um legado cultural enorme, que vai de artesanato, moda, gastronomia e música até religião, língua e atividade econômica.

Cusco

Igreja em Cusco, repleta de pedintes idosos e miseráveis ao redor

E é melancólico porque a cada dois passos que você dá você é cercado por figuras miseráveis, crianças, adultos e velhinhos. Com feridas no rosto por causa do excesso de sol, rugas precoces, dentes pretos de cáries e de mascar folha de coca, eles te abordam e querem dinheiro, querem vender algo, querem saber de onde você é pra pedir uma moeda “de lá”. Mesmo as criancinhas, todas fofas, já sabem que devem ser simpáticas e educadas pra que você as premie com umas moedinhas.

Melancólico porque, fora do centro histórico, as “casas” são feitas de tijolos de barro vermelho, construídas precariamente nas encostas dos morros, de um jeito que você tem certeza que elas vão derreter ao menor sinal de chuva forte – por sorte, parece que lá só cai uma garoa fininha. E aí você se dá conta do que eles eram – Cusco significa ‘o umbigo do mundo’, afinal – e do que eles são hoje.

Bate uma pontinha de raiva dos espanhóis, mas a real é que eles só fizeram as mesmas barbaridades que todos os colonizadores fizeram ao longo da história – não que isso diminua a culpa deles, mas veja, eles não foram os primeiros e nem serão os últimos a dizimar civilizações incríveis.

A magia em Cusco, contudo, está na maneira como o povo Inca manteve de alguma forma tantos costumes originais – e na preservação, intacta, de uma série de coisas – entre elas, uma cidade inteirinha a uma curta distância dali.

Cusco

O centro de Cusco à noite

A montanha

Machu Picchu tem dois ‘cês’ no ‘Picchu’ porque se pronuncia Machu Pikchu. E pronunciar ‘Machu Pichu’, sem o som do cê marcado, significa que você estará dizendo ‘velho pinto’, em Quechua, e não velha montanha – o que eu tenho quase certeza que não é seu objetivo. E é, mesmo, uma cidade inteirinha, impressionante , intacta, enorme e imponente. Ela te ajuda a lembrar da magnitude que o império Inca teve um dia e desperta uma falsa nostalgia, de algo que você sabe que infelizmente precisou ser abandonado às pressas e guarda um monte de segredos que nem foram desvendados sobre um povo que, de alguma forma, em uma época remota, sabia muito sobre o céu, sobre as coisas da natureza e tudo mais.

Machu Picchu

A foto clássica, tão clássica que sempre que eu vejo uma foto de Macchu Pichu eu desconfio, por segundos, que fui eu quem a tirei

Tem isso sobre Machu Picchu, né – claramente os espanhóis nunca chegaram ali. Se tivessem chegado, a cidade, que abrigava coisa de 2000 habitantes, não estaria num estado tão bom de conservação quando foi descoberta, no início do século XX. A parte curiosa sobre Machu Picchu é que tudo que seu guia te diz sobre ela é suposição – e como existem várias correntes científicas que explicam a cidade, se você der uma escutadinha no discurso do guia do grupo ao lado, pode ouvir uma versão completamente diferente. E uma delas, pra alegria de gente como eu, envolve aliens (mas essa é não oficial e eu não confiaria muito no guia que te apresentasse essa versão).

Peru Rail

O trem pra Machu Picchu valeria a pena por si só, mesmo se o destino não fosse um dos maiores e mais conservados sítios arqueológicos do planeta. São quilômetros de montanhas incríveis, de relva verdíssima e picos de neve branquinha, cortadas na base pelo rio Urubamba, que corre com uma força inacreditável – parte porque desce de pontos muito altos, outra parte porque parte dele é neve derretida que vem lá de cima.

O trem é uma das várias coisas que surpreende sobre a impecável estrutura de turismo do Peru. A versão turística tem tetos de vidro, que é pra todo mundo poder viajar observando a paisagem maravilhosa, lanchinho incluso no ticket e serviço de bordo quase igual ao dos aviões, com o adendo de que na volta as mesmas pessoas que te servem comida e água se vestem de monstro inca e fazem uma dança doida, e depois encarnam os modelos com desfile de roupas e tudo, só pra tentar vender produtos de lã de alpaca e vicunha caríssimos.

Na realidade, em todos os lugares os serviços são quase irrepreenssíveis, da disponibilidade de informações ao treinamento dos funcionários. Todo mundo vive em função do turismo; as pessoas saem de casa vestindo roupas incas tradicionais, super coloridas, que eu tenho certeza que eles não usam no dia-a-dia, mas que são fundamentais pra virar objeto de foto pros visitantes e, por consequência, gerar gorjeta.

Eu dei a eles uma nota de 10 soles (o equivalente a 8 reais!) por essa foto. Eu não tinha trocado e eles inventaram uma história de que cobram 2 soles por foto (a Alpaca sai de graça)

Eu dei a eles uma nota de 10 soles (o equivalente a 8 reais!) por essa foto. Eu não tinha trocado e eles inventaram uma história de que cobram 2 soles por foto (a Alpaca sai de graça)

A vida no interior

O alto potencial turístico reflete na economia da região – dos 20 mil habitantes de Cusco, 80% tem no turismo sua fonte principal de renda. E é por isso que Cusco é caríssima, mais cara que Lima. Almoçar em um restaurante no centro não sai por menos que 25 reais, mas opções menos centrais (e menos visadas pelo orgão de vigilância sanitária, também) oferecem menis completos a 12, 15 reais.

As senhoras que trabalham nas tecelagens pobrezinhas na vila de Chinchero, por exemplo, falam quechua entre si, mas têm a sensibilidade de explicar como funciona o projeto de tosagem e tintura da lã de alpaca em um espanhol muito claro, alto e pronunciado super devagar, que é pros turistas brasileiros poderem entender do que se trata tudo. Elas, mesmo vivendo uma cultura muito tradicional, adaptam a vida e os costumes à possibilidade de ganhar dinheiro com turistas.

A desigualdade social no Peru fica muito clara quando você visita a capital e o interior. Lima guarda um monte de semelhanças com São Paulo. É moderna, metropolitana, gigantesca – 10 milhões de habitantes! -, o trânsito deixa a desejar, os shoppings enchem no domingo. Ao mesmo tempo, a duas horas dali, você tem gente vivendo sem saneamento básico.. A única coisa que o interior e a capital têm em comum são as antenas Claro nos telhados das casas, que ao lado das igrejas, dos puteiros e dos botecos, são as únicas coisas que podem ser encontradas em qualquer lugar por ali, por mais remoto que ele seja.

Miraflores, em Lima

No distrito de Miraflores, em Lima, um shopping a céu aberto

Aliás, os telhados no interior são a representação perfeita da desigualdade no Peru: ao lado das onipresentes antenas Claro, tem sempre uma estátua de um boizinho, uma cruz ou um pote de barro, uma tradição que serve para atrair prosperidade, sorte e fé. Ficou bem claro que eles precisam bastante dos três.

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Quando os bons se calam, os maus triunfam

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Foto: AP

Tenho um bom amigo de anos que se chama Thiago Frias. Um cara genial, talentosíssimo, um grande artista e escritor, também. Desvie o olhar pras laterais do blog pra se deparar com um trabalho do Thiago: a arte no papel de fundo do Olhômetro é dele.

O Thiago foi preso em flagrante na manifestação ontem. Injustamente, claro. Está detido ainda sob as acusações de formação de quadrilha, depredação ao patrimônio público, resistência a prisão e dano qualificado, de acordo com informações de amigos.

O Thiago não fez nada disso, claro. A “quadrilha” dele são outras pessoas que ele nunca viu antes. Ele ficou atordoado com uma bomba lançada na direção dele, caiu no chão e aí os PMs vieram pra cima: pegaram-no pelo colarinho, jogaram-no dentro da viatura. O Thiago pode ter que enfrentar um processo de anos. Como o Thiago, outras 4 pessoas dentre as 19 que foram detidas ontem ainda estão presas, a maioria provavelmente inocente a julgar pelo histórico, e estão sendo usadas como bode expiatório para dar exemplo a quem se atreva a ir pra rua gritar contra o status quo.

Editado: nesse vídeo, a partir do minuto 1, dá pra ver o Thiago passando mal no chão e sendo ajudado por outras pessoas. Daí, chega a PM e o leva preso:

Aliás, é nisso que o Thiago acreditava quando continuou indo pra rua, ao contrário de todo mundo que desistiu no meio: ele acreditava no poder da voz dele pra impedir que coisas como essas continuassem acontecendo com as pessoas. Na periferia, um pobre preto é preso ou morto todo dia, né? Só é bom lembrar.

O Thiago é um preso político, só mais uma vítima injustificada dos interesses do capital e do poder. A prisão do Thiago prova que a qualquer momento eu, você, o Amarildo, podemos ser presos com uma tonelada de acusações, podemos apanhar, ser mortos, tudo em nome de uma guerra que é travada nas ruas entre nós e a PM, em nome da tonelada de dinheiro que um monte de gente sentada atrás de grandes mesas de mogno ganha. E eu vejo gente em comentários nos sites de notícias dizendo que as pessoas que sofrem abusos da PM mereciam: o mecanismo de manutenção do status quo é tão eficiente que ele explora e ainda garante que os próprios explorados o defendam.

Se você ainda não entende como a vida do Amarildo, do Thiago, do Piero Locatelli, da Giuliana Vallone, do Felipe Peçanha, do Nicolas Gomes, dos meninos mortos na Rocinha, são problemas nossos, eu te ajudo a lembrar daquela citação do Dante Aligheri que, digo mais uma vez, nunca foi tão atual:

“As regiões mais sombrias do inferno estão reservadas para aqueles que permanecem neutros em tempos de crise moral.”

Porque se manter neutro, em um momento desse, é ser co-responsável por todas essas coisas: a não-desmilitarização da PM, a não investigação rigorosa e a punição dos envolvidos no propinoduto tucano, a falta de qualidade absurda da educação e do atendimento médico, a prisões e mortes injustas que acontecem todos os dias, o tempo todo, no país inteiro.

Atualizado em 6 de agosto: pessoal, o Thiago foi solto na última sexta-feira. Obrigada a todo mundo que leu o texto e compartilhou. Ele ainda está sofrendo uma grande injustiça, porque está respondendo ao processo em liberdade e não foi inocentado das acusações falsas.

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Já valeu a pena.

Protesto - Movimento Passe Livre 07.06.2013 - -6

A maior preocupação de muita gente agora parece ser definir exatamente pelo que tá todo mundo lutando. Quer dizer, já ficou claro que não é só por 20 centavos. Mas então, é pelo que? É tanta coisa errada, tanto problema estrutural, e na verdade esse argumento é um daqueles que a gente usou por tantos anos pra não fazer nada sobre os problemas. Quem nunca deu a si mesmo ou escutou dos outros aquela desculpa que vai mais ou menos na linha do “tem tanta coisa errada que eu não sei por onde começar”?

Também não dá pro negócio virar um CANSEI, porque NÉ.

Não cabe a mim definir as causas dos outros; eu sei bem das minhas. A essa altura, em que os atos são apoiados por todo tipo de gente, gente legal e gente idiota, as causas são as mais diversas possíveis. E em algum momento, talvez, será preciso organizar uma pauta, dividi-la com o grupo e vê-lo se dividindo por discordâncias internas – uma parte vai achar que brigar pelo fim do Bolsa Família é mais importante do que lutar pela construção de ciclovias.

E isso não é um problema – pelo contrário! Isso cria a consciência de que todos os grupos, de todos os interesses, podem e devem se organizar via redes sociais e sair na rua reivindicando que seus políticos os representem.

No entanto, enquanto isso não acontece, somos um grupo de pessoas unidas por dois objetivos principais, um enunciado e outro não enunciado:

  • O direito de fazer uma manifestação pacífica sem ser violentamente reprimido pela polícia.
  • A possibilidade de retomar o poder que é do povo e ver um objetivo atingido caso as pessoas se unam indo pra rua protestar – no caso, a redução na tarifa de ônibus.

E quer saber? Se essas coisas bastam pra nos tirar do sofá, é isso que vale. Porque é importante ir pra rua fazer política e saber que você pode e deve ir pra rua fazer política. É importante caminhar lado a lado de outros brasileiros porque isso retoma a sensação de poder sobre as ruas, o senso de cidadania e coletividade, a solidariedade e principalmente, nos faz refletir sobre os bens coletivos.

Nossa noção de bens coletivos no Brasil é quase inexistente. Muitos de nós somos sempre os primeiros a falar “isso não é problema meu”, e deixamos a cidade nos engolir, porque trabalhar é mais importante do que qualquer coisa. E quando a gente se dá o direito de faltar na aula ou no trabalho pra ir pra manifestação ao lado de um monte de gente desconhecida, que pode até pensar diferente, mas está junto unida por uma coisa só – com uma indignação fomentada por uma série de coisas diferentes, verdade, mas unida ali por um propósito final único naquele momento – acho que pode lembrar a gente do que importa.

Os protestos estão fomentando a discussão política, coisa tão rara pra gente – agora, todo mundo tem uma opinião, baseada em uma tonelada de informação descentralizada que recebe das redes sociais. Estão tornando as pessoas mais solidárias, já que elas estão lutando pelos direitos dos outros, também. Gente solidária, que se dá conta que não está sozinha no mundo, pode se questionar da próxima vez que for jogar um papel no chão, subornar um policial ou assistir calado a uma injustiça. Isso tudo está nos ensinando como somos capazes, sim, de se mobilizar via rede social pra coisas maiores, e principalmente, está ensinando às pessoas que são essas coisas que movem o mundo. A gente tinha esquecido que política é feita na rua, não nos corredores dos prédios públicos, e agora estamos lembrando como é que se faz.

Pode duvidar de quem diz que nada vai mudar, porque acredite, depois desses últimos dias, nenhum de nós é mais o mesmo. Agora, a gente lembrou que voto não é uma carta branca pra eles fazerem o que quiserem, é um voto de confiança, que pode ser retirado caso essa confiança seja traída.

Finalmente, tudo o que está rolando está nos ensinando que somos todos parte de uma coisa só, de um povo que que tomar de volta, pra si, o poder que tem sob seus governantes, e que por causa da rede, tem a capacidade de parar a cidade se quiser – porque a cidade somos nós. O que vamos fazer com isso em seguida é algo pra decidir depois. O importante, agora, é retomar esse poder e garantir que todos o tenham, não importa a causa que defendam.

Independente do que aconteça, já valeu a pena.

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Não é (só) sobre 20 centavos, estúpido

Ontem eu acordei e, como faço todos os dias quando começo a trabalhar, abri os principais sites de notícias. A manchete do G1 era Fiança para presos em ato contra tarifa será de R$ 20 mil, diz secretaria, e aí eu entendi: as manifestações estavam incomodando. Muito. A fiança só está cara assim porque o comando da PM (no caso, o governador) e a prefeitura possivelmente se deram conta de que:

1. a manifestação é só a gota d’água pra uma onda de insatisfação generalizada dos paulistanos, não só com o preço e a ineficiência do transporte público, mas com a luta diária que é morar em SP: preços altíssimos, violência, lazer restrito a quem tem dinheiro, trânsito infernal, transporte público precário.

2. a manifestação cresceu em número porque ali não há só estudantes: há todo tipo de pessoa comum que, como a maioria dos paulistanos, está cansado de não ser representado adequadamente pelos seus governantes.

3. se a fiança é de R$20 mil e eles estão tentando gerar o pânico, usando técnicas de regimes ditatoriais (inflitrando agentes disfarçados no movimento e informando as pessoas sobre isso, pra gerar um clima de desconfiança generalizada), eles estão assustados. E se eles estão assustados, significa que estamos fazendo a coisa certa.

Isso é meio óbvio, né? Tem algumas outras obviedades: que a polícia é truculenta e tem interesse em incitar violência e quebra-quebra pra que os jornais falem sobre o vandalismo dos manifestantes; que alguns manifestantes, uma parcela mínima, passa do limite e causa violência, mas que isso é natural em uma multidão de 10 mil pessoas; que o trânsito já é uma merda todo dia e que se mais um dia ele vai ficar uma merda, seria legal que você tolerasse isso, porque tem gente tentando mudar o país; e finalmente, que não se trata mais de reclamar de um aumento por causa de 20 centavos.

Isso é tão óbvio pra mim daqui de fora e eu até acho estranho que não seja pra algumas pessoas aí no meio do bolo. Nenhum argumento (“eles quebraram tudo então perderam a razão”, “polícia tem mesmo que proteger patrimônio público”, “vagabundo não tem direito de parar o trânsito”, “20 centavos é um aumento justo em três anos”, “esses filhinhos de papai têm dinheiro pra pagar a mais na passagem, do que estão reclamando?”) invalida uma luta por um país mais decente. Não se trata de 20 centavos.

A verdade é que qualquer pessoa que não concorde, qualquer uma, JAMAIS teve que pegar um trem lotado por anos seguidos às 18h. Eu coloco minha mão no fogo. Se teve, tem a memória muito curta. Ninguém está defendendo a violência de alguns manifestantes, também: defendemos a legitimação da manifestação mesmo com alguns membros desnecessariamente violentos, porque acreditamos que essa seja a minoria. E a verdade é que não se trata mais de 20 centavos. O aumento podia ser de 5 centavos. De 2, que seja. Não se trata disso, não é por isso que as pessoas estão na rua, e se você não percebe, te falta sensibilidade, falta civilidade, e falta viver em SP de verdade – sair do seu carro e do metrozinho que você pega na linha verde e ir morar no subúrbio. Ir viver em outra cidade pra que isso tê dê perspectiva. Ou então falta assistir o vídeo do Caetano lá em cima.

Tomar as ruas de SP em protesto, nesse momento, se trata de gente que não aguenta mais ter que lutar pra sobreviver todo dia em uma cidade que cada vez impõe mais obstáculos pra isso.

Aí eu publiquei esse texto no Facebook. Antes de clicar no ‘enviar’, eu quase não cliquei e postei aqui. Mas desisti quando me dei conta que no mural do Facebook ele alcançaria muito mais gente:

Eu fico meio assim de falar estando longe, porque é fácil falar estando longe. Mas estar longe também dá uma perspectiva boa, mais ampla, então eu vou falar.

A fiança para os detidos na manifestação é de R$20 mil reais. Tem gente que atropela e mata, paga 5 a 10 mil reais e sai andando da delegacia.

Eles estão se assustando. E sabe por que? Porque todo mundo sabe que quem foi pra Paulista ontem não está lá por causa da passagem de ônibus – como os manifestantes na Turquia não estão lá por causa da construção de um parque. Foi só a gota d’água.

O lance é que ninguém aguenta mais. Ninguém aguenta mais ler que a desigualdade social diminuiu e o Brasil vai ser a maior economia do mundo em 20 anos, e não conseguir sair de casa por medo de tomar um tiro na cabeça sem motivo. SP, especificamente, está sufocando todo mundo. É uma cidade violenta em todos os aspectos – não tô falando só de gente que te assalta e te sequestra, mas da violência que é esse transporte público absurdo, da violência que são esses preços absurdos, da violência que é a ausência de opções de lazer baratas ou gratuitas pra todas as classes, da violência que é ter que atravessar a cidade pra trabalhar, da violência que é o trânsito, todos os dias.

Viver em SP é uma batalha diária, mesmo. Só percebe quem vive uma outra vida. A gente fica tão imerso em todos os esforços que tem que fazer, diariamente, pra checar vivo e íntegro em casa no fim do dia, que não percebe o quão extenuante isso é. O quanto isso acaba com a nossa saúde mental, com a nossa dignidade, com os nossos valores do que é realmente importante na vida. Eu só percebi quando saí daí e vi que outra vida era possível mesmo em uma cidade grande.

Aliás, era isso que eu queria dizer: outra vida é possível. E se 5% das 10 mil pessoas que estiveram na rua ontem são vândalos, bom, eu acho que é preço pequeno a se pagar perto do resto, bem intencionado, que só não aguenta mais ser massacrado todos os dias e viu o aumento da passagem de ônibus como a gota d’água.

O que eles querem é que você pense que quem está na rua é meia-dúzia de vândalos vagabundos. Molecada que não tem o que fazer, gente perigosa que precisa pagar VINTE MIL REAIS de fiança pra sair cadeia. Eles querem muito que você acredite nisso. Você sabe que não: que tinha todo tipo de gente lá. Você sabe que tá todo mundo tão puto quanto você tá. Que, como você, ninguém aguenta mais nem um segundo de conversa fiada dos nossos governantes, e que estamos tão no limite que nós, o povo apático, estamos indo pra rua (eu não estou, mas enfim) de tão putos.

Uma vez só, tenha em mente que, se tem alguém na TV tentando te convencer de algo, você deveria acreditar justamente no contrário.

E daí foi um show de compartilhamentos, o post virou um espaço equivalente a campo de comentários em sites de notícias e alguém até postou meu comentário em um post do Papo de Homem – com meus créditos, como se fosse eu, o que achei sensacional. Vi até meu texto sendo creditado a outras pessoas pelo Facebook (Alô Clarice Lispector, estou chegando lá).

Bom, ontem eu li muito sobre tudo o que aconteceu. Pra quem, ingenuamente, ainda está em dúvida sobre que lado tomar, eu sugiro algumas leituras:

Contra o aumento das tarifas de ônibus: o protesto que eu não vi pela TV, um relato sobre alguém que estava no protesto e viu os dois lados da manifestação: o da polícia truculenta e da polícia gentil, e o dos manifestantes violentos e o dos felizes;

Vandalismo por direito, sobre como a defesa da “não-violência” interessa ao poder;

Jovens vão às ruas e nos mostram que desaprendemos a sonhar, sobre porque tantas pessoas se incomodam com movimentos como esse;

Não é porque não saiu na TV que não aconteceu, um tumblr com depoimentos de gente que estava na passeata;

A gota que faltava, do Alexandre Versignassi, sobre como a inflação desencadeou os protestos;

No YouTube, um vídeo com uma matéria jornalística que fez uma cobertura que eu considerei a mais imparcial possível, tentando reportar o que viu pelo caminho de maneira direta;

Também no YouTube, um vídeo dos stormtroopers policiais espancando um jornalista, o Pedro Ribeiro Nogueira, de maneira covarde e sem motivo aparente;

E se nada disso te ajudar a mostrar a verdade pra algumas pessoas, mande o vídeo definitivo de Caetano Veloso sobre a burrice, aquele lá de cima. Caetano aprovaria.

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Porque é melhor que, às vezes, você não tenha coragem de fazer o que secretamente deseja fazer

Quando você odeia uma situação na vida em que é meio que obrigado a estar (bem, você sempre é obrigado até que perceba que não é), seja um casamento horrível, a escola porque você sofre bullying ou emprego que você odeia, é dificílimo levantar da cama todos os dias e também é dificílimo viver sem o que eu chamo de “fugas temporárias”.

Essas fugas acontecem quando você “apaga” por alguns segundos ou minutos e sua cabeça vai longe, imaginando cenas perfeitamente roteirizadas, com diálogos detalhados linha por linha, objetos na cena, texturas, cores, sons, tudo simulando sua saída triunfal daquela situação desesperadora, mas também fazendo qualquer coisa que geraria choque ou surpresa. Geralmente envolve você mandando todo mundo tomar no cu. E a nossa capacidade de imaginar essas cenas é fundamental porque é importante que exista, ao menos em uma realidade paralela, uma possibilidade tão próxima de virar o jogo e retomar o controle. Te treina pro dia em que você criar coragem pra fazer o que tem que fazer e também ajuda a continuar sem pirar. Alguns argumentariam que isso já é pirar, mas não vamos por esse caminho.

Uma vez eu tive um emprego que eu odiava – era um escritório extremamente rigído onde rir, conversar e até sair da sala pra atender o celular era proibido – e eu sempre me imaginava fazendo algo extremamente transgressor, meio cena de filme, mesmo. Tudo que passava pela minha cabeça era fazer qualquer coisa muito louca que deixasse aquelas pessoas certinhas completamente sem reação. Tipo sair do banheiro sem subir as calças, parar na porta por um segundo breve, e ir caminhando lentamente até a minha mesa, sem subir as calças em nenhum momento. Ou então ir até a cozinha, encher um copo de água, virá-lo na cabeça da chefe que sentava ao meu lado e depois retornar calmamente ao meu assento. Ou então jogar uma porção de salsichas cruas na cara de um dos meus colegas idiotas de trabalho. Também pensava em socar a cara da minha chefe, mas isso entra em uma outra categoria de imaginação fértil, uma que pode me causar problemas judiciais.

A verdade é que tudo era tão proibido que eu tinha fantasias sobre fazer exatamente o que eu não podia fazer. Porque quando te proibem muito veementemente de falar/pensar em algo, e você sabe que isso é muito errado, essa coisa é provavelmente a única em que você consegue pensar.

Todas essas coisas absurdas ocupavam minha cabeça quando eu precisava “sair” um pouco dali pra não perdê-la (a cabeça). E eu acho que isso acontece em várias situações em que a gente fica nervoso, né. Tipo, pensar ‘e se eu cuspisse no chão AGORA?’ durante uma entrevista de emprego. Ou pensar a mesma coisa durante um encontro, dentro de um restaurante. Sei lá, acho que CUSPIR NO CHÃO basicamente transgride qualquer código social, então é uma boa coisa pra se pensar em qualquer momento de nervoso em qualquer situação possível. Mas enfim, essa história aqui me fez pensar:

Resumo: o menino tem Tourette, daí ele ficou o tempo todo pensando exatamente naquilo que ele não deveria estar pensando naquele momento, que é o que cada um de nós mais pensa quando está passando pela constrangedora situação no raio-x do aeroporto – coisas como ‘E se eu gritasse BOMBA?’. Só que ele tem Tourette, o que levou-o a DE FATO falar BOMBA, repetidas vezes. Daí tiraram ele do voo e foi isso.

Um parênteses para uma ideia de pegadinha tipo Jackass porém com um final triste, ou de esquete de humor de constrangimento, ou de piada muito ruim do Zorra Total: um cara chega na fila do raio-x no aeroporto e ao passar pelo detector de metais, ele grita “BOMBA!”, ao mesmo tempo em que faz com o braço direito um movimento sensual como se estivesse socando o chão. Daí ele espera uma quantidade de tempo variável entre nenhum e um segundo, apenas o suficiente para que as pessoas se alarmem e percebam que algo estranho está acontecendo, mas não o suficiente para que algum segurança avance em direção a ele. Daí ele emenda, em seguida, “PARA DANÇAR ISSO AQUI É BOMBA, PARA MEXER ISSO AQUI É BOMBA”, que é o refrão do clássico BOMBA, dos Bragaboys. É importante, a essa altura, continuar a coreografia. Outra possibilidade seria que nesse momento as outras pessoas ao redor também começassem a fazer a coreografia, todas sincronizadas, e aí todos percebessem que é um flashmob. Bom, se você não lembra da música, refresque sua memória:

E eu acho que a moral da história é que… não tem moral. Só achei engraçado e um pouco triste que esse cara seja igualzinho a todos nós, que em situações de nervoso, pensamos em todas as coisas que arruinariam completamente a porra toda, mas no caso dele ele não pode se controlar e fala essas coisas em alto e bom som. Acho que todos nós podemos concordar sobre a importância desse filtro que o cara não tem, mesmo quando a gente gostaria de fazer todas essas coisas e não tem coragem.

A propósito: o título só vale pra coisas que possam te causar problemas COM OS TIRAS. Ou coisas eticamente reprováveis. Para todo o resto de coisas que você secretamente deseja, meu conselho é: vai lá e faça. Hoje.

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