OEsquema

O que a princesa do Japão tem a dizer sobre os segredos desconhecidos do mundo

 

Ela realmente é princesa do Japão, filha do imperador (eu chequei porque, né, vai saber). É jornalista e especialista em relações internacionais; é frequentemente fonte pra jornalistas pra comentar política internacional, ações humanitárias e essas coisas. Apesar de que achar que ela até fala umas coisas que fazem sentido, eu me recuso a acreditar (assim, muito) que no dia 22 de dezembro o mundo vai mesmo acabar, que as pessoas más vão reencarnar em outro planeta etc etc.

Assim, é que se o mundo tivesse dando uma guinada pra uma era super espiritual, cheia de coisas inexplicáveis, eu esperaria que a grande inteligencia do universo fizesse isso aos poucos, e não em uma guinada, sabe? A gente vive em uma era extremamente materialista, e que cada vez mais considera esses materialismo uma verdade absoluta, sem questionamento. Então se as coisas vão de repente parar de fazer sentido, tudo que eu acharia justo é que isso acontecesse aos poucos. Não sei – de repente uma aparição de UFO em frente a uma câmera oficial de alguma emissora de TV filmando ao vivo, pela primeira vez, ou então um fantasma que desse as caras na mesma linha.

Se o mundo de repente ficar completamente místico de uma hora pra outra, assim, vai ser meio difícil de lidar.

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Um relacionamento de várias pessoas

Conheci um cara que era adepto da ‘prática’. Ele já tinha estado em um relacionamento de 5 pessoas, daí foi contando o desenrolar – saia um, entrava outro, ai entrava mais outra, saia uma…

Eu conheço muita gente da minha faixa etária e especialmente das gerações posteriores que engata namoro atrás de namoro. É um de 3 meses, outro de 5, outro de duas semanas, sem pausa entre eles. Não é pegação, é uma parada de gostar fácil das pessoas, mesmo. É engraçado como eu consigo ver que isso, em vez de ser um facilitador pro Poliamor, é um impedimento. Acho que se você gosta muito de todo mundo, muito fácil, você não gosta é de ninguém. E aí como poderia diferenciar as pessoas pelas quais realmente se apaixona? (é algo fundamental, parece, nesse negócio aí, saber identificar de quem você realmente gosta).

Todo mundo com quem eu comentei sobre meu amigo Poliamor, na época em que eu o conheci, achava esse arranjo um absurdo. As caras de WTF se comparavam às reações que as pessoas têm aos grandes tabus, tipo incesto. Importante lembrar que monogamia, o ‘os dois viveram felizes para sempre’, é parâmetro inteiramente cultural. Não tem nada de instintivo, não é uma organização social natural.

Mas quer saber? Engraçada uma sociedade que aceita traição como algo que ‘acontece’ – e é verdade, acontece – e não aceita a possibilidade de um relacionamento múltiplo.

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Cowbird, uma plataforma pra contar histórias

Você lembra daquele projeto chamado We Feel Fine?

Eu escrevi uma matéria sobre ele no Link em abril de 2010. O We Feel Fine, em poucas palavras, é uma interface gráfica para o sentimento do mundo. Ele agrega palavras chaves em gráficos que dão uma ideia de como o mundo está se sentindo em determinado momento. O resultado é fantástico, graficamente e conceitualmente. Você pode filtrar por gênero, nacionalidade, idade, datas – e pode saber, por exemplo, como os EUA se sentiu no dia 2 de maio de 2011, no dia segunte ao anúncio da morte de Bin Laden: nessa data, as pessoas os EUA se sentiram 6 vezes mais sortudas do que o normal.

Um dos criadores do We Feel Fine, Jonathan Harris, aparentemente guardou meu e-mail e me incluiu hoje nos destinatários pros quais ele enviou o endereço do seu novo projeto, o Cowbird.

O Cowbird é um contador de histórias coletivo, que a plataforma chama de sagas. É pra organizar histórias e fazer jornalismo com crowdsourcing parecer lindo, bem editado. Dá pra incluir personagens, áudio, fotos, diálogos. Você cria uma saga e observa ela se desenvolver, à medida em que as pessoas acrescentam suas impressões, seus diálogos, as fotos que tiraram. Eu sei: “e no que isso se difere de um blog?”

Olha, de cara, em algumas coisas. Mas eu acho de verdade que é preciso entender uma coisa sobre a internet – talvez você não tenha percebido ainda, mas as ideias inovadoras da última década são consideradas grandes porque mudam a maneira como a informação é organizada pra gente e como a gente mostra essa informação pros outros. O que as pessoas compartilham não é o que importa – o que importa é como. Em que dispositivos, com que roupagem, com qual interface. É esse tipo de coisa que muda paradigmas.

Imagina usar o Cowbird pra uma cobertura coletiva nas revoluções no oriente médio? Durante uma tragédia natural? Durante uma eleição?

No Cowbird, você pode olhar a história do ponto de vista dos personagens que ela tem, dos lugares em que ela aconteceu ou das histórias que ela gerou, entre outras muitas coisas muito legais. Serve até pra fazer um diário muito foda da história da sua (da minha, da nossa) vida. No site, uma das descrições diz que o projeto é a primeira biblioteca pública sobre experiências humanas.

O Cowbird por enquanto está em beta e só funciona com convite. Eu já pedi o meu, já que adoro contar umas histórias e tal. A saga-teste que está sendo contada no Cowbird se chama Occupy e é sobre, obviamente, o movimento Occupy nos EUA.

É tipo o próximo passo pro que fez o The Guardian recentemente. O jornal anunciou que ia ‘abrir’ sua reunião de pauta pros leitores, isso é, publicar no início do dia as sugestões de pauta e esperar que o parecer do público agregasse informações relevantes pro encaminhamento dos temas. O que o Cowbird faz é justamente trazer uma edição profissional, visualmente interessante e enriquecedora, pro que já vem acontecendo no mundo há um tempo: as coberturas espontâneas, descentralizadas, ricas, feitas por gente normal, do que acontece no mundo. Como deveria ser, é uma maneira de mostrar cada vez mais lados de uma história em um lugar só.

Enquanto isso, em uma vibe que vem direto dos anos 1900, tem gente que acha a discussão sobre a obrigatoriedade do diploma super relevante. Tsc.

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O que você faria com 2,5 milhões de reais?

O empresário Mauro Mendes, que foi candidato ao governo do Mato Grosso pelo PSB, fez o seguinte:

2,5 milhões de reais em uma festa de 15 anos pra filha. Não nego o direito da menina de ter uma festa inesquecível, blá blá blá (e a parte engraçada é que mesmo se eu negasse, e daí, né), mas são dois. milhões. e meio. de. reais. Não há nada que justifique gastar isso em uma festa de 15 anos. Porque chegou num nível ridículo – uma coisa é pagar um ator da Globo pra ir dançar com você, outra coisa é escalar um representante pra cada fase de Malhação desde 98 pra desfilar com uma camisa com suas iniciais e a idade que você está fazendo em números romanos.

O engraçado é que eu sou muito a favor de cada um fazer o que lhe der na telha desde que não atrapalhe a vida de ninguém, e mesmo uma festa de 15 anos milionária parece ser o caso, mas eu ainda acho que uma pessoa deveria ter vergonha de gastar tanto dinheiro com algo assim. Dá pra igualar os pais dessa garota aos babacas que rasgaram as notas de cinquenta reais no programa da MTV.

Eu percebi que esse trecho soa como a pessoa mais rabugenta do mundo reclamando… eu reclamo bastante e tal, mas gostaria de dizer que o motivo primordial pelo qual esse vídeo me chamou a atenção é que, de tão trash, ele é bem engraçado. De tão triste, ele é engraçado.

Desde antes dos 15 anos eu nunca entendi a lógica de contratar um bonitão da Globo pra dançar contigo na sua festa, porque é notório o hábito de pagar esses caras pra ir dançar com moças em festas de 15 anos. Não é como se suas amigas e amigos fossem olhar pro cara e pensar MEU, NÃO ACREDITO, O KAIKY BRITTO É TÃO AMIGO DELA QUE VEIO NA FESTA! MUITO TOP, MEU. Eu diria também ser um pouco remota a possibilidade de o convidado reconhecer, naquela bela e virgem debutante, o amor da sua vida, assim que seus olhares se cruzarem.

Portanto, sempre acreditei que festas de 15 anos eram uma maneira complicada de dizer OLHA, GENTE, EU TENHO MUITO DINHEIRO. O lance é que quanto dinheiro alguém tinha ficava bem claro no dia-a-dia na escola, então não que fosse necessário.

O problema é que, depois dessa aí, é impossível vencer.

A propósito: lembro você que pai da menina é do PSB, que como você bem sabe, é o Partido Socialista Brasileiro.

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Pelo direito de dirigir embriagado

Primeiro, assiste o vídeo:

Ok, o cara é um babaca. Mas ele não tá dizendo mentira nenhuma. Parece que repetir esse discurso com certo orgulho é uma maneira que ele encontrou de ridicularizar a falta de rigor da legislação pra acidentes de trânsito. Claro que assumir isso é confiar no melhor cenário, mas acho que eu sou otimista.

E aí eu achei esse manifesto pelo direito de dirigir embriagado, que prega o fim da proibição de beber e dirigir, alegando que o crime que deve ser punido não é o de ter no sangue uma substância, mas sim o crime EM SI, no caso de a pessoa com a substância no sangue acabar fazendo alguma merda grande.

Eu não sei sobre isso. Se você raciocionar, existe realmente um aspecto Minority Report nas leis que proibem álcool e volante. Pos outro lado, punir só os motoristas embriagados que efetivamente cometerem algum crime parece impraticável num mundo com tanta gente (veja, talvez funcionasse em outros tempos: populações menores, maior senso de proximidade e cidadania etc).

E aí? Opiniões?

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Um cara ocupado

Como não dá pra prever de jeito nenhum os caminhos pelos quais a vida nos leva, eu tenho feito muitas coisas sobre as quais eu, em outros tempos, faria piada. Uma delas é um curso de Cabala. Outra é que eu ando ATACANDO DE DJ. Muita coisa mudou na minha vida ultimamente – uma que não mudou foi a minha capacidade de fazer piada de uma pessoa que faz curso de Cabala, é jornalista e ataca de DJ.

Jornalista + DJ + Cabala = Madonna + Jesus Luz


O lance é que meu ATACAR DE DJ é bem amador. Eu não sei direito mexer no CDJ, que é aquele aparelho em que você coloca os dois CDs e vai alternando o que quer tocar. Você precisa fazer algo que pode ser fácil pro Jesus Luz, mas pra mim exige mais processamento do que meu chip permite, que é basicamente igualar as batidas por minuto das músicas pra fazer a transição de uma faixa pra outra de maneira não traumática pras pessoas que naquele momento se ocupam com mexer o corpo no ritmo do que você toca.
Como se não bastasse eu não ser capaz de fazer isso, no último sábado, em que eu toquei em Santo André, eu usei um programa no notebook que simula o CDJ, a porra do programa travou e a música parou, entrou uma do iTunes em cima, ai parou de novo, aí voltou a tocar uma que já tinha tocado. Depois desse caos eu toquei HEAVEN KNOWS IM MISERABLE NOW, que é chata pra cacete, mas eu achei que era apropriada.
A banda da noite era o Cícero – que não é uma banda, cara, é um cara chamado Cícero. Eu sei que isso é o óbvio, mas eu quando vi o cover so Strokes dos caras, eu pensei “PUXA, se fosse mesmo um cara chamado CÍCERO com uma banda de apoio, seria SEI LÁ, CÍCERO & banda, ou então algo como CÍCERO MARTINS, sei lá. DEVE SER UM BOM NOME DE BANDA”. Em todo caso, cagou tudo o set e eu fiquei com vergonha dos caras da banda porque o show deles foi tão bom que a primeira música até me deixou meio emocionada (sério, meio sem ar). Eu tinha ouvido só aquele cover dos Strokes, e pra ser sincera, o Cícero e a banda dele de Cíceros tem muito, muito mais a mostrar ao vivo.


Essa é boa, mas ao vivo é muito melhor

O lance é que quando vc é DJ as pessoas pedem música, o que eu acho extremamente deselegante. No sábado, o garçon veio me falar que ‘o pessoal tá pedindo uma MPB ali (!), você tem alguma coisa?’, e puxa, o que é MPB em 2011? É Jorge Vercilo? É Ivete? É os dois ou nada disso? Mas o grande lance é que ser DJ atrai gente doida e tal. Segue o diálogo mais surreal que minha nova ocupação nas horas de lazer me proporcionou. Pra efeitos ilustrativos, vamos chamar o protagonista dessa cena de CARA OCUPADO:
cara ocupado: MEU! Que demais essa música, meu, que som irado, curti muito esse som!
eu: pôxa, obrigada! :)
cara ocupado: não, mas eu curti MUITO MESMO esse som. Queria ouvir ele assim no meu carro, sabe, num momento de lazer… sabe?
eu: sei… é, bora ouvir né! rs (rs é o que melhor descreve a maneira como eu sorri pra ele naquela hora)
cara ocupado: você não tem mais desse som aí?
eu: tenho, claro… vou tocar mais umas coisas assim.
cara ocupado: não, é que eu queria um CD!
eu, preocupada: mas… mas… eu não tenho um CD, amigo.
cara ocupado: mas eu queria que você gravasse um pra mim.
eu: …
cara ocupado: tem como gravar um cd desse pra mim, a gente vê um esquema de eu te encontrar pra pegar esse CD…
(nesse momento eu pensei que ele pudesse estar dando em cima de mim, mas VEJA, ele estava com a garota dele. Então não fazia sentido)
eu, mais preocupada: nossa, cara, mas isso vai dar um trabalhão… você não acha mais fácil eu te passar o nome da música, daí você baixa?
cara ocupado: não, meu! isso não funciona pra mim, não tenho tempo de ficar procurando, baixar. Eu sou um cara ocupado, trabalho demais. Eu faço adesivação de móveis, sabe?
eu: CLARO, FRITAS ACOMPANHAM?
Importante dizer que ele se manteve com um sorriso eufórico e maníaco durante toda conversa. E enquanto os fiéis do Edir Macedo passam anos doando os tubos pra comprar vaga no céu, eu garanti a minha sábado PASSANDO MEU E-MAIL PRA ESSE MANO. Eu continuo sem acreditar, mas acho que ele era meio doido. Aguardemos os próximos capítulos.
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O lado escuro de Amsterdam (ou quase isso)

A aura de misticismo em torno de Amsterdam tem mesmo razão de ser, mas eu acho que não dá pra sentir isso se você visita a cidade por três ou quatro dias. Ir pra Amsterdam de onde eu moro, como eu já contei no post sobre o Queen’s Day, leva mais ou menos uma hora, entre ônibus e trem – o que é quase o mesmo esforço que eu tinha quando saia de Santo André pra SP, mas menor, porque pegar ônibus e trem aqui é quase prazeroso. Nos últimos dois meses, fui pra Amsterdam quase todos os finais de semana. E pra mim Amsterdam virou um daqueles lugares que, quanto mais você visita, mais você gosta.

Amsterdam é um lugar diferente. Pelas ruas, você quase não escuta holandês. Nesse fim de semana, inclusive, parece que a cidade foi invadida por brasileiros (deve ter sido o feriado) e eu e a Marcela escutamos português o tempo todo. Mas também muito italiano, e espanhol, e inglês. O lance é que Amsterdam tem esse equilíbrio bizarro entre uma cidade funcional, cheia de habitantes locais, e uma população flutuante imensa, todos os dias da semana.

Show no canal

OLHA A POPULAÇÃO FLUTUANTE IMENSA brinks. Isso é o que rola quando tem show nos canais.

E tem uma combinação de elementos completamente opostos, mas que por algum motivo, funciona. A Holanda é um país velho, e aqui as pessoas envelhecem com dignidade. Sério: saudáveis, com vida social, bem humoradas e educadas. Então não é anormal quando uma velhinha de andador cruza o Red Light District cumprimentando as FUNCIONÁRIAS, porque ela mora ali e conhece todo mundo, nem quando um senhor recusa o assento no tram porque prefere ficar de pé “com sua garota” – foi o que ele me disse.

A velhinha do Red Light District

Ela deu boa tarde a todas as moças da vitrine. Eu e a Ângela vimos

E aí a cada esquina tem uma loja que vende drogas. Não são só os coffee shops, que vendem maconha e haxixe, mas as smart shops, onde você pode comprar ervas alucinógenas de toda sorte, cogumelos, drogas sintetizadas legais, sementes. Sem contar os caras que te oferecem drogas ilegais na rua.

Por causa disso, se você observar as pessoas em Amsterdam, vai ver muita gente com o olho caído e vermelho pelas ruas, ou pessoas mais assustadoras, andando rápido e olhando pra trás, pálidas, suando muito, pupilas dilatadas. Tudo isso é comum por lá.

Amsterdam tem todo tipo de artista de rua, daquelas estátuas vivas até quem se veste de bichinho – tipo, sério, uma fantasia de coelhinho, de cachorrinho – ou com máscara do pânico, sei lá, e cobra pra tirar foto. Tem o cara que toca violino de maneira sublime e um tio sujo com chapéu pedindo moedas enquanto bate as mãos na corda do violão sem fazer acorde nenhum, que nem quando o seu sobrinho de três anos toca. E tem moedas no chapéu dele.

O mano do violino

Esse moço tocava violino bem, e o chapéu dele tava vazio :(

Mas também comum é o trânsito complicado. Gente, nada vai te assustar no quesito “trânsito de Amsterdam” se você vive em qualquer capital do Brasil, mas é que a cidade aqui tem outros PLAYERS. Os trams, cuja tradução mais próxima do português seria o “bondinho”, mas que se parecem mais com metrôs de superfície, correm por trilhos que muitas vezes cortam calçadões turísticos. Têm as bicicletas, que podem vir de vários lados, e os carros – especialmente os táxis, que guiam como malucos pra cima do turistas. Ah, e os canais, que muitas vezes não contam com barreiras na calçada.

O saldo é uma cidade cheia de gente com a percepção alterada, tentando atravessar a rua tendo que olhar pra cinco lados, sem esquecer que também não pode correr e cair na água, ou se distrair com a estátua viva, ou com uma mulher que de tão magra parecia uma caveira (ela certamente era doente), que tinha a coxa mais próxima de um fêmur que eu já vi em uma pessoa que anda e pra completar o cenário carregava um fuzil de plástico em tamanho real junto com a bolsa.

E o que você mais vai ver em Amsterdam é gente sendo salva de ser atropelada por um tram ou uma bike no último segundo segundo. Adrenalina e tal, turismo de aventura.

A host da Marcela é cirurgiã, e nos descortinou o lado negro dessa combinação. O trabalho dela é consertar gente que acaba vítima dos encantos de Amsterdam de algum jeito, desde os que engolem cápsula de cocaína pra traficar droga pra fora do país, até os que se jogam da sacada, bem loucos de de cogumelo, ou quem quebra a perna porque caiu no canal chapado. Na madrugada desse sábado, ela trabalhou a noite inteira.

Com tudo isso, Amsterdam ainda é uma cidade que não te dá, de jeito nenhum, uma sensação de insegurança. Toda a região central, bem pequena pros padrões paulistanos, é bem segura pra qualquer um, acompanhado ou não, caminhar a noite. Não significa que você não vai ver nóias, mas por algum motivo os nóias não incomodam.

Vondelpark

Vondelpark, que é lindo e seguro, mas onde não é bom de andar a noite, dizem - mano, óbvio, é um parque. Mata densa e tal.

E ainda que você vire a esquina e veja uma porção de homens afoitos em corredores do Red Light tão estreitos que fariam aquelas da favela parecerem bem confortáveis, você vira na próxima esquina e tem um maestro em cima de um ponto de ônibus regendo um coral de velhinhos na sacada de um teatro.

Em frente à Dam

Ele parou a rua - e alguns turistas ficavam maravilhados e começavam a tirar fotos e se esqueciam do tram, bem atrás do ponto. Eu salvei uma fotógrafa, juro

É essa dicotomia que dá a Amsterdam essa aura mágica – não é per se o fato de ter um casal de 65 anos fumando maconha no ponto de ônibus ou de você poder olhar prostitutas com lingerie que brilham na luz negra em uma vitrine. É justamente que haja todo o resto: as orquestras nos canais e os corais da terceira idade, as galerias de arte, as pessoas que vivem e trabalham ali, e que tudo conviva em relativa harmonia.

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Ah, Budapeste

Quem leu o livro do Chico Buarque já sabe, mas Budapeste tem esse nome porque é formada por duas cidades: Buda, do lado esquerdo do Danúbio (que os húngaros chamam de Duna) e Peste, do lado direito. Na verdade, há um terceiro distrito, Obuda, a parte velha de Buda, que se une aos outros dois pra formar o que é a moderna Budapeste.

Os húngaros, coitados, sofrem de crise de identidade. A primeira coisa que deveria chamar sua atenção quando você pisa na Hungria é que o nome do país, aquele pelo qual os húngaros mesmo o chamam, não é Hungria. É Magyarország. Por razões óbvias, vamos ficar com Hungria mesmo – a verdade é que os Magyar (a tribo que deu origem ao povo húngaro) foi confundida com os Hunos (do Átila), e aí fora do país deram o nome de Hungria. E assim ficou.

Ruas e prédios

Também foi de Chico Buarque a frase ‘O húngaro é a única língua que o diabo respeita’. E dá pra entender, também quando você pisa no país. Foi a única vez em todas as minhas viagens em que não era possível entender nada, nem inferir, por associação, nenhuma palavra que eu lia nas placas, nos banners em lojas, nas bancas de jornal. Mesmo na Grécia e em Praga deu pra se virar com leitura de placas; na primeira, porque se você se esforça pra aprender aquele alfabeto, não é tão difícil, e uma vez que consegue ler o que tá escrito algumas palavras são identificáveis. E a segunda porque o Tcheco, por algum motivo, tem algumas palavras com a mesma origem do inglês ou do latim, e muita coisa nos bares e nas ruas é escrito em inglês.

Estação de trem

Não em Budapeste.

A língua é uma barreira porque é impossível pronunciar o nome dos lugares onde você quer ir, por exemplo. E na capital a maioria dos húngaros não parece falar inglês. Só que eles não fazem disso um problema ou uma desculpa pra maltratar turista. Todos os húngaros pra quem eu pedi informação, falantes de inglês ou não, se desdobraram pra me ajudar – desenharam mapa, apontaram, o diabo a quatro.

Budapeste, como também disse o Chico, é amarela. O Danúbio, que de cara inspira bem mais respeito do que o Sena ou o Tâmisa, é amarelinho. É ele quem separa a cidade medieval, com suas ruelas emaranhadas de paralelepípedos, ladeiras, árvores e castelos, da cidade moderna, com avenidas paralelas, prédios de arquitetura neoclássica e comunista, transporte público bom e barato, o segundo metrô mais antigo do mundo, McDonalds e Burger King.

Vista de Budapeste

Centro

Budapest, pelos húngaros, é pronunciada assim com o “s” chiado, igual ao de um carioca, e o “t” mudo. E eles fazem questão de ressaltar essa pronúncia, mesmo se estiverem conversando em inglês com você, o que é raro. Quer dizer, quando você fala pra um gringo “I’m from Brazil”, você pronuncia “Brazil” do jeito deles, não do seu.

Os húngaros foram oprimidos pelos turcos, pelos otomanos (minha tribo primitiva preferida. Certamente era um monte de maluco da periferia e tal), pelos alemães, pelos russos. Eles perderam praticamente todas as guerras em que estiveram envolvidos. Hoje, são a parte pobre da cisão do que era o império Austro-Húngaro. A desigualdade social, especialmente fora da capital, é grande. E não deve ser legal passar por isso especialmente se a gente considerar a situação da Áustria, que tá numa boa com seus bons drink.

Mas nem tudo podia ser ruim pra eles, sabe. A cidade não foi só abençoada com o Danúbio, as colinas hipnotizantes, o castelo, a arquitetura incrível ou o povo gentil. TEM MAIS: Budapeste fica sobre uma das maiores fontes termais da Europa. E quando os Turcos chegaram lá, há mais de 500 anos, eles acharam que fazia sentido instalar em um lugar desses suas famosas cadas de banho. Hoje, os banhos são parte da cultura de Budapeste, e sinceramente, é o tipo de coisa que você precisa fazer se for pra lá. Eu NUNCA ACHEI que podia ficar seis horas dentro de uma piscina quente com cheiro de enxofre e ainda me sentir muito, muito bem depois disso. Sem contar a arquitetura do lugar, fantástica – as piscinas e o prédio foram construídos por turcos em 1500 e qualquer coisa.

Rudas Bath, o banho termal que eu visitei

E Budapeste, ao contrário de muitas capitais europeias, não dorme. A qualquer dia da semana, a qualquer hora do dia e da noite, dá pra encontrar gente na rua, um mercadinho aberto, um bar tocando música. E acho que isso conclui, junto com a cerveja de um euro e o vinho de 80 centavos, os motivos pelos quais Budapeste foi minha cidade preferida. Entre todas.

Ficou com vontade de ir?

Eu apoio. E ainda dou umas dicas…

Budapest card
Um cartão que dá direito a transporte público de graça, descontos em atrações turísticas e restaurantes, em museus e nos banhos termais. Tem versões pra um, dois e três dias e realmente vale a pena se você for ficar lá pouco tempo e quiser fazer bastante coisa. Você pode comprar direto no site.

Hostel Casa de La Musica
Casa de la música

Foi aí que eu fiquei a maioria dos dias e foi o melhor custo-benefício da minha viagem. É uma escola de música, centro cultural e tem um bar e um bar-restaurante. É barato – algumas noites saíram por 6 euros! -, bonito e muito limpo, fica no centro, de fácil acesso ao metrô. Tem café da manhã quente e frio, por 4 e 3 euros, respectivamente, cozinha, chá e café a vontade e Wi-Fi na sala comum. E uma piscina inflável, que eu suponho, só deve ficar lá no verão.

Maria Hostel
Caído, sujo e aparentemente serve como residência estudantil, além de hostel. Parece bastante uma escola. Mas tem quartos exclusivos, single, por 17 euros.

Metrô
É o segundo mais antigo do mundo (só perde pro de Londres), e funciona bem, apesar dos trens antigos. O bilhete custa 1 euro. Os metrôs não tem catracas, mas o que eu mais vi foi fiscal multando turista, inclusive aqueles desavisados, que tinham bilhete mas não os validaram na máquina antes da escada rolante. Sério, acho que rola uma indústria da multa de pobres turistas que não podem ler húngaro, porque se a pessoa tem o bilhete e é turista, compreende-se se ela não soube validar, até porque não tem aviso nenhum em inglês.

Táxi
Baratos – uma corrida do centro de Peste a Buda não passou de 1200 forints – mas pelo que eu entendi, vão te sacanear. Se possível, peça direto do hotel/hostel, ou ligue para uma companhia. A maioria dos taxistas não fala nada de inglês.

Free tour
Como toda cidade europeia, Budapeste tem um free tour, isso é, um tour guiado que não funciona com valor fixo, só com gorjetas no final. Achei o de Budapeste historicamente meio raso, mas é ótimo pra quem quer ir mais fundo na cidade – as guias são húngaras e, se você perguntar pra elas no final, consegue dicas excelentes de lugares pra sair e pra comer. Pra saber os horários e de onde os tours saem, visite o site oficial. A mesma companhia também faz um tours (esse pago) do castelo, mas eu não fiz, então não saberia dizer se é bom ou ruim.

Banhos termais
A maioria dos banhos termais turísticos está ao longo do Danúbio, do lado de Buda. Eles custam, em média, 3 mil forints (ou uns 12 euros), mas saem mais barato com o Budapest Card. Uma coisa importante é checar a modalidade de banho que vai rolar no dia em que você pretende ir, pras coisas não ficarem esquisitas. Tem dia de banho misto, dia de banho só de homem ou só de mulher, dia de banho com ou sem roupa. Ah, leve uma toalha.

Outras coisas que você deve saber

  • Utca., que você vai ver bastante, é ‘rua’. E se pronuncia ‘útça’.
  • Um monte de húngaros se chama Gábor ou Lazlo, e na Hungria, meu nome seria Freitas Ana Paula – eles escrevem o sobrenome primeiro.
  • Palinka é a bebida oficial húngara. É feita de ameixas, principalmente, mas eu tomei uma de maçã. Possui modestos 40% a 70% de álcool na composição, por isso É BOM FICAR LIGADINHO nas consequências do consumo excessivo.
  • Os húngaros comem bastante sopa, batata e schnitzel, tipo um filé de carne de porco empanado.
  • Eles tem um calendário – não me pergunte como ele funciona – que diz que cada nome, dependendo da letra com a qual começa, tem uma semana de aniversário.
  • Cortar o cabelo é barato (pros padrões europeus) e tem um salão a cada esquina no centro.
  • O Mercado Municipal, apesar de ser listado como uma das atrações a se conferir, não é nada além de um… mercado municipal. O prédio é bonito, mas se você já viu o mercadão de SP, nada ali vai te surpreender. Vale se você quiser comprar linguiça tradicional húngara, ou mostarda, que são boas e baratas. Ah, também vende Foie Gras a preços atraentes.
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O novo do Emicida

No fim de 2009, eu entrevistei o Emicida pro Link (não consegui encontrar a entrevista :/). A essa altura, você já deve ter ouvido falar dele – e se não ouviu, corre pra ouvir qualquer coisa.

Aliás, se quiser qualquer dia dessas ter aquelas sessões de YouTube que começam inocentes, as 23h, e que te fazem ir dormir só quatro horas e trinta vídeos depois, comece buscando gravações de batalhas de rimas do Emicida.

Enfim. Eu comecei a ouvir bastante rap de uns dois anos pra cá, mas tenho que dizer que minha trilha sonora aqui na Holanda foi por 50% do tempo a penúltima mixtape dele, Emícidio, do ano passado. Fazia um tempão que música não me fazia refletir, rir e chorar. Mal a pieguice, mas sério, rolou uma identificação – quer dizer, não sou acusada de ser vendida, não sei o que é sair do underground pro mainstream e ser a queridinha da mídia, nem faço ideia do que é ver vidro subir e alguém correr quando me avista. Mas as letras dele conversam comigo de um jeito que eu curto.


‘Então Toma’ tem um pianinho bem legal no sample

Quando conversei com o Leandro, acho que foi uma das minhas primeiras entrevistas de verdade. Explico: na correria do fechamento, a gente escolhe a fonte, pesquisa, elabora uma dúzia de perguntas e acaba focando nelas. É raro quando a fonte e o repórter têm, de fato, tempo pra conversar sem se prender ao roteiro. Naquele dia, eu tinha, porque era o Emicida, poxa. E ele, o Leandro, também tinha, porque não tava o mundo inteiro em cima dele.

Quando ele veio subindo a escada rolante do metrô, tava fuçando no celular. Ele explicou que seu outro aparelho tava quebrado e agora ele usava esse, que era aqueles telefones de 30 contos, pra checar os tweets via SMS. E que tava viciado nessa parada de Twitter.

Embora o áudio tenha se perdido, eu lembro até que bem das duas ou três horas trocando ideia, começando com as perguntas que ele respondia em toda entrevista: vendeu 10 mil cópias do disquinho que fez em casa, a razão de chamar Emicida e as coisas de sempre. Daí falamos sobre a cena do rap, da dona Jacira, da cobertura jornalística da periferia e das expressões culturais da periferia, sobre ele quase ter se tornado cartunista – porque o Leandro também desenha, e é dele a capa da primeira mixtape, a tal que vendeu 10 mil cópias – e sobre as batalhas da Santa Cruz, sobre ele ser um nerd colecionador de quadrinhos e muito mais que eu não me lembro.

(Acho que vou começar a transcrever minhas entrevistas na íntegra, em vez de decupar só o material que vou usar na ocasião)

Lembro que em dado momento eu perguntei com o que ele trabalhava hoje em dia. Quer dizer, eu já sabia que a mixtape tava indo relativamente bem, e que ele tinha shows aqui e acolá, mas achei que de repente ele ainda levasse dois trampos ao mesmo tempo. Ele riu, meio CE TÁ ZOANDO, assim, mas respondeu, ainda gentil: “Só com a música, mesmo.”

Ele é quase tudo o que deixa transparecer nas letras: pensa rápido, tem sempre uma referência de cultura pop na ponta da língua (“Chimbinha e Joelma é o mais próximos que temos de Jay-Z e Beyónce, pra mim”, ele me disse). É um moleque engraçado, simpático. A diferença é que ele não se vangloria tanto quanto faz nas letras dos raps, que herdam o estilo das batalhas de improviso, em que os dois MCs precisam cantar o quanto são fodas e o quanto o adversário é um lixo. Tipo, ele é mais modesto.

E eu me diverti naquelas quase três horas, porque embora poucos de nós admitam, a gente vira jornalista pra poder trocar ideia com quem a gente admira (não só pra isso, mas sim, tem muito disso). E quando isso acontece, puxa, é dessas vezes que a gente lembra porque passou anos (ou ainda passa) fazendo notinha sobre celebridade ou dando tapa em texto de agência de notícia.

Vim falar disso porque o Emicida lançou um EP novo, Doozicabraba e a revolução silenciosa, com as mesmas letras espertas, menos samples e mais instrumentos ao vivo e uma produção bem amarradinha. Fiquei sabendo hoje, baixei e gostei muito. E o mais legal: baixar o disco não é de graça.

E porque isso seria legal? Porque você paga com uma moeda que tá SUPER USANDO – você paga com um twitt. O link pro download tá aqui.

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Viajando de graça (e comendo comida do lixo)

Nesse tempo na Europa, percebi que dá pra viajar baratinho por aqui – e em qualquer lugar – se planejando com alguma antecedência e sendo uma pessoa, hum, simples. Com as companhias aéreas low cost e as passagens de ônibus, dá pra cruzar distâncias longas com 30, 50 euros. As passagens noturnas de trem te economizam na hospedagem. Tem os hostels, que no leste oferecem uma cama honesta e, às vezes, café da manhã tipo hotel, por uns 15 euros. E se você não for comer naqueles lugares que são claramente pra turistas e procurar os restaurantes e cantinas em que os locais fazem as refeições, bom, dá pra passar o dia com 25, 20 euros numa boa em alguns países.

Claro que você vai passar por coisas tipo ninguém falar inglês no restaurante e não ter um menu em inglês, ou você chegar de noite e ter alguém na sua cama no dormitório, ou dormir em um cubículo chacoalhante de 6 metros quadrados num trem de 15 horas onde se acomodam 6 pessoas em bancos que viram leitos. Mas foi por isso que eu mencionei o termo ‘pessoa simples’ lá em cima: é que precisa estar disposto a algum nível de aventura. Quem não tá, e pode pagar a mais pelo conforto, contrata uma agência de viagem. Mas também viaja sem surpresa.

Esse só tem três leitos, mas coloque mais três do lado direito pra ter uma ideia

E bem, é duplamente divertido viajar sozinha e em baixo custo. As coisas são bem mais espontâneas, apesar de um planejamento inicial ser necessário pra manter o budget baixo. Você conhece bem mais gente sozinho, e não precisa entrar em uma discussão só porque metade do grupo quer ir ver o museu e a outra metade quer ir ver a estátua. Não corre o risco de brigar com seu melhor amigo, o que é frequente, já que os melhores amigos na terra natal podem se tornar as piores companhias do mundo pra viajar se os dois não estiverem no mesmo ritmo. E com menos bagagem e menos roupa, você viaja mais confortável, carregando menos peso e fica mais livre. Principalmente, se questiona sobre o que é realmente essencial pra viver bem.

Mas esses clichês existencialistas não são a questão aqui. A questão é que eu fiquei sabendo, durante meu último mochilão, que tem gente que viaja o mundo de graça. Eu passei pela Grécia, pela Romênia, pela Hungria e terminei na República Tcheca. Também a propósito, Budapeste foi minha preferida, de longe, mas isso fica em outro post.

Não se trata daquela história BE A TRAVEL WRITER AND TRAVEL THE WORLD FOR FREE, que né, isso aí não funciona exatamente assim. As técnicas pra quem viaja de graça não são nada sofisticadas, e embora não sejam o créu, exigem disposição e habilidade.

Desculpe. Meu humor piorou muito aqui na Holanda.

De todo modo, na Romênia surfamos no mesmo couch eu e um espanhol chamado Guillermo, um professor de matemática barbudo e de cabelo comprido, com uns dentinhos bem brancos, que não devia ter 30 anos. No fim, passamos só uma noite no mesmo apartamento: cheguei e ele se foi na manhã seguinte. Mas conversamos bastante. Os papos de couchsurfers são sempre os mesmos, na verdade – idiomas, costumes, comida, viagens. Geralmente é isso, ao menos no começo. E eu não tô reclamando.

Daí que os hosts tão querendo fazer uma viagem de volta ao mundo daqui um ano ou dois, e perguntaram ao Guillermo, que já tá na estrada há um tempo, quanto ele gasta por mês viajando. Guillermo disse que geralmente gasta de 150 a 200 euros por mês, o que já é bem pouco. Mas que poderia chegar a 50 euros. E que conhece gente que viaja a zero.

Não duvidei, porque ele não é o tipo de pessoa de quem a gente duvida. Mas perguntei como, claro, porque qualquer um perguntaria.

Ele explicou.

“Eu acampo, faço couchsurfing, pego carona. Se vejo uma árvore cheia de frutas, encho os bolsos e a mochila. Acabo gastando só com comida, e no supermercado.”

É, mais isso não explica quem viaja de graça. Ele terminou. “E quem chega a zero, faz tudo isso, e também procura o que comer no lixo.”

"Você se surpreenderia com o que encontraria no lixo"

Ele explicou que fez isso uma vez e que a gente se surpreenderia se visse o que as pessoas jogam fora. E que os melhores lixos são os de supermercado, porque eles dispensam embalagens fechadas que passaram da validade recentemente, mas que segundo o bom senso, ainda podem ser consumidas.

Ah, além disso, quem opta por esse ESTILO DE VIDA também fica rondando turistas marotos em restaurantes e se apossa dos restos que nego deixa no prato. Justo.

Procurar coisa no lixo tem um nome em inglês, e chama Dumpster Diving, ou Skipping, na Inglaterra. O NYT tem uma matéria legal sobre o assunto. Eu tenho muitos amigos que moraram nos EUA, na Inglaterra e na Austrália, e lembro que todos eles vasculhavam o lixo em busca de eletrônicos e móveis: encontravam de bicicleta a sofá e iMac funcionando. Tinha gente que mobiliava a casa nessa onda aí.

Mas nunca tinha ouvido falar de quem faz isso pra procurar comida, quer dizer, por opção. Porque Dumpster Diving pra viajantes é uma opção, afinal, você sempre pode pegar uma carona de volta pra casa se não tiver mais dinheiro pra comprar comida. O mais perto que eu cheguei disso foi aos 13 anos, quando alguém no prédio jogou fora uma raquete de tênis bem pesada, e quando eu fui lá jogar o lixo vi a raquete. E peguei pra mim, só porque achei legal. Nunca joguei tênis.

Sei de gente (muita, muita) que passa a vida inteira reclamando que não tem dinheiro pra viajar e tal, mas depois dessa temporada eu descobri que dá pra fazer muita coisa com pouco dinheiro. Não necessariamente precisa ir pra longe de casa, né, que o Brasil tá cheio de coisa pra ver. Eu mesma nunca fui pra Paranapiacaba, por exemplo, que fica perto de casa. Esse post da Helô é um exemplo legal de que dá pra sair por aí sem gastar muito, e veja você, ela nem pegou comida no lixo.

Sim, essa refeição é composta apenas de itens que foram encontrados exatamente como você está pensando que foram

Percebi que Dumpster Diving é mesmo um estilo de vida porque tem todo um conceito acoplado. Primeiro o nome chique – magina que aqueles mendigos que pegam coisa do lixo aí no Brasil sabem que tem um nome tão legal pro que eles provavelmente consideram bem ruim de fazer? Depois, tem um conceito de sustentabilidade, reaproveitar e tal. A gente sabe que normalmente se desperdiça muito, e essas pessoas estão só se aproveitando disso. Todos os outros pilares da ideia de viajar de graça se baseiam em conceitos que envolvem reciclar, dividir, reaproveitar – Couchsurfing, caronas, acampar. No fim, você vai precisar de uma mochila com umas trocas de roupas e uma toalha leve, um computador, uma barraca e só pra sair no mundo.

A pessoa que eu sou hoje não comeria comida do lixo por opção. Mas não tenho nada contra, até porque sou contra pouca coisa nessa vida. A pergunta que eu te faço, caro leitor leite com pêra, é: você faria? E antes de responder, analise o blog desses caras e as fotos das refeições que eles fizeram durante uma viagem em que só comeram coisas que acharam do lixo. A foto aqui em cima é de um dos banquetes deles.

E se você curtir a ideia, o WikiHOW tem até um guia pra você são sair catando coisa errada nos lixos por aí. Vai lá

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