OEsquema

Goodbye, so long

Nos últimos seis meses passei 240 horas dentro de trens. São dez dias apertada dentro daquela lata com pessoas de todo tipo: as normaizinhas e as que não cheiram bem, as que falam alto, as que têm algum tipo de desvio de comportamento e as que são inclassificáveis.

Eu acumulei muitas histórias para contar dos meus dias de passageira do sistema de trens paulista. O trem é um ecossistema bizarro, particular – quase uma metáfora da sociedade, um paraíso para cronistas como Nelsom Rodrigues. É bem diferente do metrô. No metrô as coisas são mais efêmeras, impessoais. Os passageiros passam muito mais tempo juntos, porque as viagens demoram mais. Além disso, como os intervalos são maiores, a maioria das pessoas pega o trem no mesmo horário, de maneira que todo dia é um dejà-vù e a gente começa a fazer amigos. Ou inimigos.

No trem, o negócio é mais caipira. Tem gente que senta no chão e ocupa espaço de três pessoas. Os vendedores de coisas fantásticas acham conveniente passear pelos corredores dos vagões e não se importam se a lotação impedir a passagem. Lugar reservado para idosos e deficientes? Piada. Com freqüência, alguém precisa lembrar o carinha sentado de que tem uma grávida em pé. Na frente dele.

A batalha por um assento, no trem, é muito mais brutal. Alguns bancos, no caso da linha D, são dispostos de uma maneira que deixam na dúvida qual das duas pessoas em pé seria o dono do direito de fazer a viagem sentadinho. Os critérios variam – na maioria das vezes não há nenhum, e senta quem for mais esperto.

Eu mesma tenho uma inimiga. Não a conheço. Não sei o nome dela. Mas jamais esquecerei aquele olhar vazio e a expressão falsamente distante que ela põe no rosto quando se senta no lugar que poderia perfeitamente ser meu (pela disposição dos assentos, poderia!). Ela faz isso sempre que pode. Eu a chamo de Heloísa Helena. Ela se parece muito com a ex-senadora. Pela roupa, deve ser enfermeira também, a infeliz. Ela sabe que eu a odeio. Eu sei que ela também não gosta de mim. Nunca nos falamos.

Hoje, mais uma vez, pude observar um fenômeno cada vez mais freqüente nos trens. Eu o chamo de Síndrome de DJ.

Nestes tempos de popularização de gadgets eletrônicos, todo mundo tem um celular multimídia e um mp3 player. Dentro desses meios de transporte um pouco mais ‘provincianos’, os freqüentadores têm alguns hábitos já abandonados na cidade grande. Um dele, bastante comum, é o ato de ouvir música no alto falante do aparelho de MP3. Sem fones. Com o aparelho geralmente pendurado no pescoço, o passageiro em questão escolhe a música que mais lhe agrada e aciona sua playlist logo de manhã, numa tentativa de alegrar o ambiente e unir todos sob a vibe de uma mesma canção.

Acho que vocês imaginam o que rolam nesses setlists.

Hoje pela manhã, enquanto um cidadão despreocupado, alegre e brasileiro ouvia sua seleção dos top 10 da Nativa FM, um outro rapaz, que aparentemente tentava se concentrar nas manchetes esportivas do Lance! se irritou.

A cena foi curiosa. O fã de futebol começou a fechar e morder os punhos, visivelmente tentando controlar os ímpetos de ir socar o filho da puta. O moço irritado chegou, inclusive, a dar soquinhos-descarregadores-de-raiva na mandíbula e no queixo, com uma cara sangüinária. Essas pessoas reconhecem rápido seus semelhantes. Eventualmente, ele notou que eu também não estava satisfeita com a situação e me olhou, desesperado. Tentei retribuir com um olhar solidário, e ele aquietou um pouco.

Pra ser sincera, a música em si não estava me incomodando tanto, porque uso fones de ouvido in-ear, daqueles que bloqueiam quase completamente ruídos externos. Me irritava a falta de noção, e mais ainda, me entretinha a situação toda.

Antes de o pagodeiro levantar pra ir embora, a moça na frente dele – vejam só, que coincidência fantástica! – chamou atenção para o fato de ter um celular igual. Ela pediu pra que ele lhe ensinasse alguma coisa, no que ele prestativamente correspondeu. Quando o moço se levantou para ir embora e eu e o leitor de jornal soltamos um suspiro aliviado, a moça sorriu, faceira, e apertou o play no celular dela. Iniciou-se aí uma belíssima seleção dos clássicos das pegadinhas-trotes telefônicos da era da internet: vidente soraya, criança engasgada, trote da telerj. Só a moça ria. E a tia do lado dela.


Eu poderia encontrar uma história curiosa por dia para contar por muito tempo. Mas esse foi um post de despedida. Na segunda-feira, começo no novo emprego. Para ir até lá, só andarei de ônibus (por 10 minutos) e depois farei uma longa viagem de metrô na linha verde.

Trem, nunca mais – é o que eu sempre quis. Mas agora, pensando bem, vou sentir falta dessas histórias.

*Tirei fotos dos envolvidos na ‘confusão’ de hoje. A moça faceira, o rapaz nervoso e o pagodeiro folgado. Ah, do moço sentado no chão do trem também. Mas meu celular não correspondeu às expectativas e salvou tudo em formatos bizarros e inesperados. Caso eu consiga arrumar a confusão, edito o post com as ilustrações. Tenho até uns vídeos!

**Pronto!

8 Comentários
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8 Comentários

Comentário por victor hugo
10 de dezembro de 2007 às 20h42

putz…parece q alem de escrever no msm blog ana…compartilhamos o mesmo sofrimento em estados diferentes…acontece isso comigo todo dia no trem…além do calor desgracento…sempre tem uma boa alma…que quer compartilhar seu bom gosto no trem..(sic)

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Comentário por Leonardo Ruch
20 de dezembro de 2007 às 15h46

HAHHAHAHAHAHAHHAHAHAHA

Aqui no Rio, isso nao acontece só no trem nao, no metrô tb. :(

Não sei o que da na cabeça de uma pessoa escutar musicas ridiculas no fone aberto do celular!

ainda bem que os in ear tb me salva todos os dias.

blog, muito bonito. ( a là xuxa )

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Pingback por ConsTREMgimento «
17 de janeiro de 2008 às 21h47

[...] 2008 por anabsf Mais um dia pra falar de trem. Hoje, na vinda pro trabalho, além dos habituais DJs por um dia (que, durante uma conversa com o Flávio, amigo que encontrei no trem, me dei conta serem uma [...]

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28 de janeiro de 2008 às 8h04

[...] Desgastado com isso, decidi que hoje não queria andar de escada rolante e não fui de metrô (motivo muito plausível, e sim foi esse mesmo). No terceiro ônibus, eis que surge uma mina, de calça leg, cabelinho chapado e chapéu (modinha infernal). Mas ela se achava muito foda com seu MP4 com som estéreo, que dispensa fones! E fez todo mundo ouvir o que ela queria: até eu descer do ônibus, foram três músicas: Knockin on heavens doors, do Guns n’ Roses, um reggae qualquer e o funk “tá de calça nois abaixa, tá de saia nois levanta”(criancinhas pegam ônibus com suas mães, mas e daí?). Com o meu MP3 ainda no ouvido dava pra escutar o som dela! E ela encarava todos balançando a cabeça ao som da música de forma “qual é problema?”. Minha colega de sala Ana Paula usou um termo legal uma vez em seu blog para definir o problema dessas pessoas: Síndrome de DJ. [...]

Pingback por Agora todo mundo é DJ « Olhômetro
28 de janeiro de 2008 às 11h08

[...] não se trata do lance de ser DJ no trem ou na rua, tipo colocar música super alto pros outros ouvirem. É ser DJ de verdade, mexer nas [...]

Comentário por Rubia Karol
30 de outubro de 2008 às 13h47

Acho que isso não é síndrome de DJ é síndrome da mais pura falta de educação, aqui em curitiba onde moro, tem umas coisinhas ainda mais bizarras, todo sábado à noite quando volto da igreja, tem um gurpinho de mocinhas(já não tão mocinhas assim) que escutam músicas sertanejas, tipo dessas duplas que estão nas paradas agora e ainda ficam cantando as músicas bem alto pro ônibus inteiro ouvir…

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Comentário por Dan[SM]
11 de dezembro de 2008 às 1h00

Passei por uma situação dessa esses dias, um sujeito começou a escutar musica Gospel(não tenho nada contra Gospel)pelo auto-falante de seu MP5″ malditos fones estavam no pescoço do desgraçado!!
O trem é uma território sem lei, onde só mais rápidos levam vantagens.

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Comentário por Cauê Madeira
3 de dezembro de 2009 às 17h25

Uma vez eu pedi pro cara baixar som. Pedi, juro.
Eu não sou um cara agressivo nem grosso.
Eu pedi, no metrô: “amigo, por favor, você poderia abaixar o som ou colocar um fone? Está incomodando.”

Ele mandou, em alto e bom som um “foda-se”.

Pois é. Ele poderia dizer “Putz, nem rola, prefiro ouvir meu som assim” e ainda estar fora dos limites do convívio comum, mas ele conseguiu romper ainda mais essa barreira ao me ofender.

Eu, por outro lado, sou chato. Posso não ser grosso, mas sou chato. E insisti no papo. Resolvi argumentar. Discutimos e o rapaz ficou nervoso. Nervoso ao ponto de se levantar para brigar. Sim, sair na porrada.

Claro, as pessoas em volta desviavam o olhar.
Eu me sentei humildemente, disse que não queria brigar. Ele se sentou com cara de triunfante. Assim que chegou a próxima estação, desci e chamei o segurança.

Aí ele foi obrigado a baixar o som e ainda foi retirado do trem por me ameaçar.

Eu também não sou afeito a intervenções brutas. O cara acabou sendo tirado à força.

Custava ter a porra de um fone na mala?

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