OEsquema

Quais são os limites do humor?

Eu sempre fui a favor da piada acima de tudo. Defensora do humor incondicional, sempre achei que a piada nunca poderia ser perdida em momento algum, e que a diversão (e os risos e a alegria) provocada por ela sempre justificaria um possível ‘mau-gosto’.

Para algumas pessoas, é claro, falta humor. A elas parece, por exemplo, um pouco rude rir do vídeo da menina pastora. É, afinal, uma manifestação religiosa que deve ser respeitada.

Mas não sei quem foi que inventou que achar engraçada uma situação que apresenta uma comicidade, embora tenha sentido profundo para outras pessoas, é desrespeito.

Nesses casos, de coisas claramente muito engraçadas, acho inadequado esperar que as pessoas se contenham e não ‘façam piada’ a respeito do comportamento da menina. Parece cruel, e eu já ouvi que meu humor é cruel de muita gente, mas basta me conhecer um pouco para saber que não há, absolutamente, crueldade – há apenas uma capacidade de ver as coisas de um ângulo um pouco menos sério. Nesse caso, essa sensibilidade nem é necessária, já que a graça é bem explícita.

Recentemente, um blog brasileiro de origem árabe publicou algumas charges que faziam piadas desnecessárias com os atletas participantes das paraolímpiadas, e foi duramente criticado por um monte de gente.

Eu fiz coro à crítica, porque achei que as referências foram pesadas e forçadas, e as piadas, sem graça. Acho que em casos de humor politicamente muito incorreto, só vale quando a piada já vem pronta. Por exemplo: um nadador paraolímpico, que não tem dois braços e uma das pernas, se chama Christopher Tronco.

Veja bem – aí não há crueldade. A fina ironia da vida acaba tornando essa casualidade algo digno de nota. E se ele for um cara sossegado, provavelmente até reconhece que tem algo muito engraçado no fato de… bem, você entendeu.

Um exemplo recente é o vídeo aqui em cima. Eu não achei graça, mas posso reconhecer que ele possui elementos cômicos. O problema é que essa dificuldade de fala pode muito bem ter sido causada por um derrame, até onde eu sei – já que mudo é mudo, e não fica resmungando assim – e se esse for o caso, apesar de os elementos cômicos ainda serem proeminentes, a risada traz um pouco mais de culpa.

Outro que promete se tornar hit é esse. Vale rir de uma criança batendo na outra? E se fosse um adulto batendo numa criança, como nesse vídeo aqui?

Sou defensora do bom-humor acima de tudo porque acho fundamental a capacidade de não se levar a sério. Eu consigo apontar de longe as pessoas que se levam muito a sério e quase sempre elas são bem chatas.

Mas é realmente complicado ficar aquém do limite das piadas que podem causar constrangimento ou ofender, até porquê as pessoas são muito diferentes – algo que não ofende a mim pode ofender a você – e a maioria delas tem um senso de humor péssimo.

A própria sociedade desconhece esse limite, aliás. É permitido fazer piada do episódio Padre Baloeiro, que apesar da situação inusitada, teve uma morte supostamente sofrida e aflitiva, já que ou morreu afogado no mar ou congelado nas alturas, desesperado por não saber mexer num GPS.

E claro que não é algo passível de medidas, mas considero a morte do Padre dos Balões tão aflitiva ou mais até do que a fatalidade ocorrida com a menina Isabella, episódio esse que não admite nem a piada ‘o que entra pela porta e sai pela janela?’, sob o risco de olhares tortos dos presentes.

De qualquer maneira, ainda acho que o bom humor é o escudo mais eficaz contra a loucura nos dias de hoje. É fundamental que façamos piada até daquilo que não se faz, das tragédias e das tristezas. É a maneira mais rápida de se desprender disso e continuar vivendo. Não chega a ser bonito, nem louvável, encontrar meia dúzia de jovens esclarecidos fazendo piada com o caso Eloá num boteco na sexta à noite. Mas depois de um tempo eu percebi que mais do que alienação ou falta de sensibilidade, se trata apenas de um mecanismo de defesa. Porque nesses dias doidos, se eu me entristecesse e deprimisse com todos os episódios chocantes que acontecessem, e não conseguisse por um minuto que fosse transformar a tragédia em comédia, eu já teria pirado.

11 Comentários
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11 Comentários

Comentário por Paulo Figueiredo
20 de outubro de 2008 às 8h23

Nisso os ingleses são imbatíveis.

Me lembro dos atentados terroristas por lá.
Ai um colega meu que mora na Inglaterra me contando que os próprios ingleses diziam : “meio exagerado desses franceses explodir tudo porque perderam de sediar as olimpiadas”

Esses dias atrás, eu fui visitar a minha tia que havia ganhado neném.
Ai papo vai, papo vem, ela falou que a Patricia Pillar estava com câncer de novo e não saberia se iria continuar na novela e num sei oq.
Ai eu, com meu humor afro-descendente, mandei essa:
- Ah, a personagem dela poderia ficar com cancer tbm, seria uma interpretação perfeita.

Foi algo +- assim.. (na hora foi engraçado XD)

Minha irmã e meu primo caíram na risada, mas o resto do pessoal ficou me olhando com uma cara!

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Comentário por Carlos Marin
20 de outubro de 2008 às 10h32

Bom, sou leitor assíduo de C&H, PBF comics e similares (leio as tirinhas do explosm.net assim que são publicadas, por volta das 5h!). É fato que na vida real jamais tiraria sarro desse tipo de situação, embora às vezes pense “seria cômico, se não fosse trágico”.

Também lembrei desse vídeo:

Inicialmente não achei muita graça do cara rindo da “desgraça alheia”, mas confesso que é difícil segurar o riso, talvez influenciado pela risada do apresentador (e do Saulo), o que me fez lembrar de umas “estatísticas” publicadas na revista MAD, sendo uma delas mais ou menos a seguinte: “Meia verdade: Pesquisadores mostram que pessoas riem mais quando estão em grupo. Verdade absoluta: Assistir Zorra Total em praça pública não provoca nem um sorriso.” O que também me faz lembrar (leia-se: acompanhe a minha linha de raciocínio) que esses programas de TV são realmente muito sem graça. Vira e mexe aparece um quadro que é engraçado, mas a mesmice faz com que a graça seja saturada. A estrutura da esquete é sempre a mesma, finais previsíveis e você fica vendo e pensando “agora ele vai fazer isso/agora ele vai dizer o bordão (característica desses programas)” Talvez seja por isso que Monty Python seja tão bom, tirando o fato do humor em si ser genial (inclusive estou pegando os episódios do Monty Python’s Flying Circus =D). Embora tenham algumas personagens recorrentes, são apresentadas em situações diferentes e inéditas. Há muita coisa no humor britânico que não vejo a menor graça, tipo (muitas) tirinhas, mas deve ser porque eles são um povo que acha coisas bobas engraçadas (não lembro onde vi isso e se era uma fonte confiável =P). Acho que humor bom na televisão brasileira é Hermes & Renato (mesmo argumento do Monty Python). Segue um vídeo de uma paródia do “A Praça é Nossa”:

P.S.: sem comentários quanto à Maísa…

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Comentário por Dedé
20 de outubro de 2008 às 12h17

Também acho que se levássemos tudo ao pé da letra a vida seria muito chata (sem contar os episódios de depressão e tristeza, que você apropriadamente citou).
Sou adepta incondicional da leveza e do humor, fã de pessoas que conseguem ver o lado bom da vida e ter esperança. Diferente dos chatos e inconvenientes, que fazem piada acerca de tudo, o tempo todo, sem medida. Difícil ficar por perto. No outro extremo, estão os eternamente infelizes, que reclamam de tudo e carregam o mundo nas costas. Se posso escolher, fico no bloco dos que não abrem mão de ser felizes e leves. Mesmo que para isso seja necessário matar um leão todos os dias!!!

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Comentário por Fã nº 1
20 de outubro de 2008 às 12h20

Você é notável.

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Comentário por Edu Shalshisha
21 de outubro de 2008 às 0h29

Não tenho medo do políticamente correto, tanto que ouvi várias piadas sobre o caso Isabela e, uma das minhas piadas favoritas, é, ao saber que alguém morreu, dizer: “Morreu? Antes ele do que eu.”

Essa última, aliás, eu aprendi com meu vô. Pena que ele não pode falar isso quando chegou a hora dele. =P

Do mesmo jeito que eu não falarei na minha. Mas eu espero que, na minha vez, todos digam isso.

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Comentário por Lannes
21 de outubro de 2008 às 14h38

assino embaixo. PS: Americanos nao tem senso de humor. Isso eh beeem chato. Rio sozinha aki. haahaha

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Comentário por João Segundo
21 de outubro de 2008 às 16h46

A imaginação pode tudo, isto é, internamente podemos nos divertir com tudo e todos. Não há limites porque não é possível estabelecer limites: somos do jeito que somos.
Socialmente, é outra coisa.

Tenho como parâmetro expressar o respeito pelo sentimento dos outros, demonstro divertir-me somente com aquilo com que me divertiria se estivesse na presença das pessoas envolvidas na piada ou anedota.

Socialmente somos “formados” para não expressar tudo o que sentimos em várias atividades. Por ex., em relação ao erotismo, quase nunca falamos e expressamos o publicamente o tesão que sentimos. Nosso senso crítico também: “não se fala tudo que sente” diante das circunstânscias hierárquicas de trabalho. Muitos são os exemplos.

O humor não poderia ser diferente e seu filtro, a meu ver, deve ser o respeito e a civilidade. Mas jamais o medo de parecer politicamente incorreto.

É interessante que tenha trazido esse assunto a todos que lêem sua coluna!

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Comentário por Brontops
21 de outubro de 2008 às 18h31

Humor surge do inesperado.
Hoje em dia com as pessoas cada vez mais espertinhas (Maldita inclusão digital e educacional!), fica mais e mais complicado fazer uma piada realmente surpreendente.

Daí um pouco da força do humor negro que costuma ser bastante chocante. Existe um limite?

Vou contar uma cena de um dos primeiros filmes do Tom Hanks, do final dos anos 70. Tom Hanks era um talentoso humorista e Sally Fields era um dona de casa que queria seguir a carreira do stand-up comedy. Tom Hanks resolve ajudá-la:
-Pra fazer humor, é preciso ter identificação com o público. Por isto, é legal extrair histórias da nossa própria vida. Por exemplo, o que vc faz no final de semana?
-Ah, eu saio com meu marido… Meus filhos ficam com um baby-sitter chamado Charles Manson.
-Hahahaha. Muito boa esta.
-É?
-É, conte mais.
-Então, outro dia deixei meu filho com outro chamado Sam Berkowitz.
-Não. Esta não tem graça.

Na época que vi na Sessão da Tarde esta cena não entendi nada: Charles Manson é engraçado e Berkowitz não é? Como assim?

Muitos e muitos anos fui entender: Charles Manson era o psicopata dos final dos anos 60 que trucidou a Sharon Tate, esposa grávida do diretor Roman Polansky. Sam Berkowitz foi um outro psicopata, mas de um tempo mais recente, final dos anos 70 e sua “sombra” ainda pairava impiedosa na memória das pessoas.

Piada é “timing”. É preciso saber o tempo certo para soltar a piada. Às vezes, não existe tempo certo para a piada: só um cabeção pra fazer piada de algumas coisas.

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Comentário por Brontops
21 de outubro de 2008 às 18h39

Sobre o Monty Pithon:

Certa vez vi uma entrevista com um deles. O ator (esqueci qual era) comentou de uma cena na qual eles colocavam a “mãe” dentro de um forno pra assar.
Ao final da cena, um outro ator desmaiou (acho que foi John Cleese). Depois desta, decidiram impor certas regras. O ator se recusou a dizer quais eram, mas existiam (Um deles certamente incluía CANIBALISMO NÃO!)

Sei que muita gente curte Pica Pau, talvez curta mais que o Pernalonga. Eu prefiro o Pernalonga. Mas quem assistiu aos primeiros desenhos do coelho achará uma semelhança perturbadora das atitudes do Pernalonga com os do Pica-Pau. Não lembro onde vi, mas alguém decidiu que o Pernalonga NUNCA mais provocaria alguém. Ele só reagiria a provocação de outro (Observe que é sempre assim que começam suas histórias).

Acho que é bom senso que se mantenham algumas regras. Fica até melhor pra quebrá-las depois.

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Comentário por Zeugmar Zeugma
22 de outubro de 2008 às 12h10

Um outro lado do humor é quando ele serve como motivo de zombaria, de ridicularização. Eu quero chamar atenção àquele negócio do bullying, que apesar de, às vezes, ter um caráter de zoeira, outras tem um aspecto de humilhação mesmo.

Uma vez achei no Orkut, um perfil de um sujeito que foi acusado de ter matado uma garota num acidente de carro. Não sei o que aconteceu: pode ser que ele realmente tivesse culpa. Mas ao ver a longa seqüência de scraps maldizendo o cara, xingando, linchando, eu tive medo, muito medo. Eu tenho muito medo destes movimentos de “galera”, de “turma”, de “gang” (Os gringos chamam de “angry mob”: “Turba raivosa”) que pode começar justamente num humor doentio.

Por um lado acho bom: ensina a gente a ignorar a opinião dos outros. Nem Jesus conseguiu agradar todo mundo. Por outro, tem gente que passa a vida buscando esta aceitação e vive infeliz consigo mesma.

O politicamente correto é chato mesmo e eu acho um extremo. Mas eu acho que são precisos limites.

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Comentário por zeugmar
28 de abril de 2009 às 20h21

o seu nome é zeugmar!?
Faça contato.
Eu também me chamo ZEUGMAR.

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