OEsquema

Arquivo: março de 2009

A Hora do Planeta e a esmola energética

Esse é um exercício conduzido de auto-crítica. Se você não gosta da idéia de achar coisas ruins em você mesmo, feche o navegador.

Ok, comecemos.

Você dá esmola? Por que? Você se sente bem dando esmola?

E eu tô pedindo pra você analisar isso lá no fundo do sentimento que te acomete quando você, tomado pela generosidade e magnanimidade, enfia a mão no bolso, tira 50 centavos e entrega praquele moleque malabarista no farol.

Ou mesmo quando você, que não dá esmola nem ferrando, se dispõe muito prontamente a pagar um lanche pro menino que te pediu dinheiro pra comer na rua. O quão satisfeito você se sente consigo mesmo por tão nobre ato?

Se você analisar, verá que sente um prazer. Um leve prazer. Há uma satisfação consigo mesmo. Um orgulho de ser tão bom, tão generoso. Esse orgulho, no caso de algumas pessoas, as isenta de algumas outras responsabilidades para com o mundo. Explico: quando vem um menino pedir dinheir no vidro e você diz “Ah, já dei dinheiro hoje” – sério, tem gente que usa esse argumento – o que você quer dizer com isso? Porque não faz nenhum sentido. Você deu dinheiro, mas não praquele menino. Aquele menino vai continuar sem dinheiro, não importa o quanto você já tenha dado em moedas no mesmo dia. Logo, você doa pra se sentir bem, pra satisfazer sua necessidade básica diária de filantropia e se sentir um cidadão bom, homem de bem, e depois ainda falar pros amigos nas rodas, todo feliz: “eu não dôo dinheiro, de jeito nenhum. Se me pedir um lanche, pago com maior prazer. Outro dia, um menino me pediu um lanche, daí eu fui lá…”

Eu dou esmola, e sempre me sinto ligeiramente angustiada com isso, e analiso que é por uma série de motivos. O primeiro é que não vou resolver o problema do pedinte em questão e nem o problema em si; o segundo é que normalmente eu dou moedas, sendo que sei que é bem pouco, mas não tenho coragem de dar mais, porque sou mesquinha; o terceiro é que me sinto mal por ser mesquinha, mesmo tendo tão mais que aquele cara e gastando tanto com coisas supérfluas; o quarto é que junto com tudo isso já percebo minha satisfação comigo mesma por ter dado esmola vindo à tona, daí sinto raiva de mim mesma por ser tão escrota. Ok.

Eu falei tudo isso pra dizer como é que vou me sentir se resolver apagar as luzes por uma hora no próximo sábado, das 20h30 às 21h30. Organizado pela WWF, o ato sugere que todas as pessoas apaguem as luzes de suas salas por uma hora.

Naturalmente, com a repercussão que o movimento está ganhando, a WWF depois demonstrará que na Hora do Planeta a energia economizada daria pra abastecer sei lá quantas Nova Yorks, e espera que isso conscientize as pessoas sobre o quanto pequenos gestos podem fazer a diferença. É louvável, teoricamente.

Pena que na prática é mais ou menos uma esmola energética. Não vai resolver o problema, não comove as pessoas porque elas já são bombardeadas minuto-a-minuto com informações sobre o quanto o planeta está fudido e continuam não ligando pra isso, é muito pouco diante do que a gente realmente precisa contribuir e todo mundo tem condições de contribuir muito mais, e no fundo, todo mundo vai se sentir muuuuuuuito bem de ter ajudado a salvar o planeta, ganhando uma dose extra de antídoto contra culpa, que dá a ela mais auto-créditos pra jogar lixo no chão pelo resto da semana e deixando TV ligada e luz acesa à toa.

É, eu sei que nesse momento eu deveria sugerir a outra opção. Mas eu não sei o que sugerir. Sei que do ponto de vista de conceito, a WWF teve uma idéia formidável. Mas as pessoas são mesquinhas, e mesmo que muita gente entre na onda da Hora do Planeta, a maioria esmagadora dela vai fazer isso pra aplacar um pouco da culpa por nunca ter feito nada e depois vai voltar pra vida normal.

É por isso que eu peço a todo mundo que está considerando seriamente aderir à “causa”: se odeie se, quando você apagar a luz, começar a se sentir bem. Quando a descarga de serotonina começar a invadir seu cérebro e a satisfação tomar conta, lute contra ela. Você não está fazendo nada, NADA, diante do que realmente poderia fazer, pra impedir que o planeta cuspa nossa espécie daqui. Sinta isso no fundo do seu coração, e veja como você é mesquinho, hipócrita e egoísta, e como faz as coisas só para se sentir bem, porque essa frieza deve te ajudar a entender. Feliz ou infelizmente, a Hora do Planeta só será eficaz se as pessoas perceberem que ela é um ato insignificante diante do que a gente pode e realmente precisa fazer.

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DesencalhaWanderson.com.br: um exemplo de atitude

Me falta um desprendimento em relação à sociedade. A gente tá sempre na expectativa do que as pessoas vão achar de tudo que a gente faz. Há, é claro, uma reputação a zelar. E isso fica ainda pior quando você tem uma identidade na rede, por exemplo.

Eu explico. Já fiz coisas na internet, no passado, das quais me envergonho. Já participei de fóruns e grupos de discussão sobre Harry Potter. Já fiz cursos on-line de Quenya, a língua oficial dos elfos da Terra-Média, de Tolkien. Já escrevi aventuras de RPG, pro mundo de Tormenta. Já fiz protesto em frente a prefeitura de SP para não cancelarem um show do Pearl Jam. Acho que já é o suficiente pra você me achar uma perdedora, né?

O interessante é que eu fiz tudo isso em fases muito distintas da minha ‘vida na rede’ (já são quase 14 anos de internet), sempre com nicknames diferentes, de maneira que dificilmente um conteúdo se relaciona a outro – quer dizer, você ainda vai encontrar muita coisa de Harry Potter relacionada a mim, e eu me envergonho disso, mas o que posso fazer? Meu passado é o que me trouxe aqui hoje, preciso ser justa. Eu sempre fui nerd, não dá pra fugir disso.

Dessa maneira, quando alguém digita meu nome do Google, além dos trilhares de homônimos, não vai encontrar as aventuras que escrevi aos 11 anos pro mundo de Tormenta, ou minhas elucubrações sobre a pronúncia do Y na língua dos elfos, simplesmente porque eu me identificava com outros nicks, totalmente diferentes do meu nome (normalmente relacionados ao assunto em questão) e igualmente passíveis de vergonha.

Algo que nunca fiz, contudo, foi participar de sites que prometem encontrar a alma gêmea. Provavelmente, trata-se do velho preconceito de “quem procura a alma gêmea na internet deve ser muito fudido”, ou porque de fato eu nunca parei pra pensar a respeito. Mas é provavelmente um dos poucos tipos de serviços difundidos na rede que nunca utilizei, e de certa forma, é bom dizer isso, porque dá certa vergonha admitir que você usou esse tipo de site. No geral, as pessoas te vêem como um desesperado.

Não deixa de ser verdade, mas na etiqueta social da conquista ser visto como um desesperado diminui consideravelmente suas chances de encontrar sua alma gêmea.

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O Wanderson aqui não se preocupou em parecer desesperado. Nem em ter seu nome associado a um dos maiores motivadores de vergonha alheia na rede nos últimos tempos. O domínio de seu site já deixa bem clara a situação: http://www.desencalhawanderson.com.br/

Desencalhar não seria difícil. Wanderson é um rapaz bem apessoado. Se veste bem, tem bom gosto para fotografia, um sorriso enigmático meio Monalisesco. A questão é que Wanderson quer muito mais do que uma mulher. Atente para as exigências (clique na imagem para ampliar):

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O site traz também uma pequena descrição de Wanderson, que sabiamente informa que o nome dele é pronunciado ‘Uanderson’, e não ‘Vanderson’, como a princípio pode-se pensar, e evita que as pretendentes se enganem logo de cara, já com o nome. Além disso, o texto também mostra características pessoais, religiosas e profissionais do rapaz.

Interessadas (só mulheres, desculpem rapazes. Ele deixa bem claro no texto) podem encaminhar CV entrar em contato través de link de e-mail no site em questão. E apesar da comicidade da situação, devo exaltar sobretudo a bravura de Wanderson ao se expôr assim na web sem temer julgamentos dos outros. Wanderson não tem nem aí pro que vão pensar da iniciativa, e isso é bem claro – até por isso faço questão de divulgar o apelo dele. Um dia, quem sabe, eu terei a coragem de reunir todo meu passado negro envolvendo textos sobre Harry Potter e RPG num site de fundo preto com letras amarelas, colocar na rede e ver se alguém me quer. Só pelo desprendimento demonstrado, já terei me livrado de karma suficiente para atrair um bom-partido tipo o Wanderson.

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Você gosta mais de assistir show de rock ou de batata*?

Por quê você vai a um show de rock?

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Pra ver o Seu Sílvio

A resposta a uma pergunta dessa deveria ser óbvia. Mas não é mais. Não sei exatamente quando deixou de ser. Eu notei da primeira vez num show do The Rakes, em São Paulo; antes disso, era ingênua (ou burra) demais pra perceber que as pessoas vão a esses lugares para se exibir e falar sobre sua temporada em Londres (e a vida imita a arte que imita a vida). Depois, no Tim Festival (o de 2007) percebi uma movimentação semelhante – até comentei aqui.

Mas eu notei de novo, no show do Radiohead nesse domingo. Só que dessa vez – não sei se feliz ou infelizmente – não se trata (só) da galera cool fashionista de São Paulo batendo cartão num show só pra dizer que esteve lá e bater papo com gente influente. No Just a Fest, o que caracterizou mais a dissolução do conceito ‘vim assistir a um show de uma banda de rock’, infeliz e paradoxalmente, foi a popularização da tecnologia.

Nunca vi tanta gente preocupada em contar pros outros o que estava vendo. O legal agora não é ver o show, é mostrar pra todo mundo que você viu o show e que estava lá. Não tem muita coisa errada com isso, se não fosse o fato de que as pessoas ficam tão preocupadas em registrar o show pros outros que não assistem o show em si.

Dessa vez, não foram só aqueles babacas que ficam 2 horas e 20 minutos com a câmera cybershot levantada, mesmo estando a 70 metros de distância do palco, mesmo filmando um imagem ultra-tremida e som muito estourado, e sem assistir nada do show em si, só preocupado em gravar um vídeo que vai ficar MUITO RUIM; houve também uma invasão de twitteiros e enviadores de SMS.

Observei dezenas de pessoas com seus blackberries, N95 e iPhones interrompendo a experiência para escrever – uma, duas, três, quatro vezes – pros outros o quão fantástico aquilo era, o quão legal era estar lá, o quão idiotas eram os que preferiram ficar em casa.

E eu de repente olhava pra elas, preocupadas em tirar boas fotos pro Orkut (que invariavelmente vão sair ruins, muuuito distantes ou tremidas, mas não importa porque aí você já prova que tava lá), filmar trechos legais pro YouTube e em contar pra todos os 500 seguidores do Twitter o setlist num teclado que não é QWERTY e me lembrava de quando eu fazia isso – isso de me preocupar mais em registrar a coisa do que em vivê-la. Eu fiz isso, veja bem, UMA VEZ. Porque naquele dia, quando fui assistir aos vídeos, percebi que não me lembrava de quase nenhum trecho que havia filmado. De tão preocupada em filmar, eu não fiz o principal – assistir ao show. Me dei conta da idiotice e câmera em show nunca mais (a não ser quanto estive ‘trabalhando’, né).

Estamos falando do Radiohead, um espetáculo de estímulos audiovisuais que necessita muito de imersão e concentração, porque lida com quase todos os sentidos de uma vez. Porque você quer filmar? Seu vídeo vai ficar melhor do que a gravação do Multishow? Você vai poder mostrar pros amigos? Isso te dá status?

É muito legal que as pessoas estejam tão interessadas em compartilhar cada mínimo momento da vida delas com tanta gente. É esquisito, e subverte um pouco o egoísmo característico da nossa espécie, mas no mínimo é legal poder dizer que estou no meio disso. Mas você não vai a um show pra depois poder dizer que foi.  Você vai a um show para estar nele naquela hora e viver aquilo, e isso não inclui se preocupar em segurar uma câmera em cima da sua cabeça.

Olha, não sei se você já vivenciou uma experiência real de show de rock. De comunhão entre banda e público. Uma coisa dessa depende de dezenas de fatores, do estado emocional pessoal de cada um que assiste ao show, da presença de palco e do humor da banda no dia, do tipo de lugar, do tipo da banda, do tipo de fã. Mas quando a sintonia acontece, e é perfeita, é algo religioso. A energia se torna palpável, a banda ganha controle sobre 50 mil pessoas, a comunhão é absoluta, não há nada além da banda e do público – não tem gente empurrando, não tem sede, não tem fome nem dor na perna que te tire do foco.

E ninguém vai, verdadeiramente, entrar em “transe musical” (por assim dizer) se estiver preocupado em contar pros outros o quão privilegiado é por estar ali naquele transe musical. É por isso que eu espero que essa ânsia por compartilhamento de informação, algo que de certo ponto é tão legal (e assustador, ok, mas legal) não tire das pessoas, aos poucos, a verdadeira experiência que é viver um show de rock – e a experiência de viver a vida, sem ficar tão preocupado em contar sobre ela a ponto de não vivê-la.

*O título é uma homenagem ao grande guerreiro Charlinho, numa paródia da frase célebre do repórter – “você gosta mais de estudar ou de batata?” Na nossa versão, o mais próximo seria “você gosta mais de assistir o show ou de ficar contando isso pra todo mundo?”

Observação: Esse post, como a maioria aqui, é também uma autocrítica. Estou em ano de TCC, exausta por causa do trabalho e por causa de investimentos na vida pessoal. Portanto, esperem menos atualizações – idéias de posts não faltam, me falta é saúde pra ficar tão compenetrada assim em algo que eu amo fazer, mas que não posso deixar que me impeça de viver a vida em si. Ou seja – em vez de 5 posts por semana, acho que vai cair pra 3, o que eu ainda considero uma média excelente. Mas só um aviso prévio, caso eu suma por uns dias: é só recarga de bateria. Meu hobby é meu blog. Não daria pra lagar.

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Doritos, a homofobia e a armadilha do preconceito

Assiste o vídeo. Te dou os 30 segundos.

Beleza. O que você achou? Pensa um pouco. Te dou mais 30.

A resposta mais preconceituosa que alguém pode dar para a pergunta “Você é homofóbico?” é “Claro que não, até tenho muitos amigos gays.” Porque caracteriza que a orientação sexual de alguém é uma informação importante para sua escolha de amigos e não-amigos. Denota que você acha que o homossexualismo a homossexualidade poderia de alguma forma influenciar a personalidade dele a ponto de vocês não poderem ser amigos só porque ele é gay – mas não, você é bom e misericordioso e não tem preconceito. Logo, “até tem alguns amigos gays”.

Por outro lado, a resposta a essa pergunta que denota menos preconceito poderia ser algo do tipo “claro que não. O cara mais burro e desagradável que eu conheço é gay”.

Todo mundo te olharia com uma cara esquisita, achando que você não entendeu a pergunta, daí você confirmaria e eles te achariam muito homofóbico. Você poderia continuar: o “segundo mais burro e desagradável, por sua vez, é heterossexual. Curiosamente, desconheço a orientação sexual da terceira pessoa mais burra e desagradável que conheço.” Daí alguns deles sairiam andando, outros te julgariam com olhares horríveis e você sairia caminhando com a consciência de que não tem, absolutamente, nenhum tipo de preconceito contra homossexuais.

Eu acredito no seguinte: essa propaganda tem sim um quê homofóbico. E reconhecer isso é caracterizar-se, infeliz e involuntariamente, como alguém ligeiramente preconceituoso (no mínimo). Não preconceituoso daquele jeito pejorativo e horrível – não significa que você deixa de se aproximar de gays por eles serem gays (ou então se aproxima de gays por eles serem gays, o que também denota alguma espécie de preconceito, a não ser que você também seja gay, porque aí é interesse mesmo).

Se preconceito é pré-conceito, é rotular e conceituar indivíduos que são únicos por definição a partir de uma característica qualquer que não diz 1/100 do que a pessoa é na verdade, então considerar essa propaganda homofóbica denota pelo menos dois pré-conceitos:

1. Você acha que todo gay gosta de YMCA.

2. Você acha que dançar YMCA é coisa de gay.

Eu por exemplo, acho que YMCA antes de tudo é uma música brega. Daí, logo de cara, poderia achar que ele está sendo zuado pelos amigos por dançar uma música brega. Plenamente plausível, embora dê margem pra discussão da Doritos criticando que o “ser diferente”, ou “gostar de brega”, é ruim, mas não entremos nessa hoje.

Vou dar um outro exemplo, que me foi sugerido pelo Gustavo Miranda.

Você é casado? Tem filhos?

Fui preconceituosa ao perguntar isso pra você? Claro que não, não é?

Então porque a Marta foi quando perguntou isso para o Kassab?

A questão aqui é que numa sociedade em que o preconceito é velado cria-se uma redoma em volta das minorias. As pessoas têm medo que manifestações contra essas minorias, manifestações que nem têm relação com a orientação ou a cor de pele, possam ser confundidas com preconceito só por estarem sendo direcionadas para um membro da minoria.

Amigo, aqui você é vítima da sua própria vontade de tratar todo mundo igual: se você se controla pra não dizer coisas pras pessoas por medo de ser considerado preconceituoso, então você está automaticamente tratando essas pessoas de maneira diferente só por causa da cor da pele delas, do quanto elas pesam ou do parceiro sexual delas.

Qualquer tipo de estereótipo pré-formado a respeito de qualquer pessoa é preconceito. Infelizmente. Ou seja, somos preconceituosos o tempo todo. Essa matéria, por exemplo:

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FOTO: Jairo treina de vestido rosa como castigo adotado por Roberto Fernandes

Você acha que existe preconceito na atitude do técnico? Porque ele considera que vestir um jogador com uma camisola feminina é algo que pode ser considerado vergonhoso? Porque caracterizá-lo assim é um “mico”?

Não tô dizendo nada, até porque são perguntas pras quais não sei a resposta. A própria ingenuidade do técnico em fazer algo assim sem esperar retaliações já pode denotar total ausência de preconceito – lembre-se, quem não deve, não teme. Mas viver num país em que assumir intolerância é intolerável, mas em cujo a discriminação se faz presente em vários níveis da sociedade, demanda que você dê toda atenção pra questões delicadas assim e realmente analise as reações que tem diante desse tipo de coisa. O preconceito é uma armadilha na qual é muito fácil de cair, especialmente porque alguns indivíduos de determinadas minorias, acostumados a sofrer preconceito, se aproveitam disso para criar situações que eu chamo de “só porque eu sou _________” (insira aqui qualquer classe que sofra preconceito, tipo “negro”, “gay”, “mulher”, “deficiente físico” etc).

Assim: existe preconceito na sociedade, fato. Quem sofre preconceito frequentemente encontra mais dificuldades e menos oportunidades, fato. Mas sempre tem o cara que culpa todas as desgraças da vida dele no preconceito que têm contra ele. Atribui tudo ao fato dele pertencer a determinado grupo que é excluído. Se você não gosta dele, é porque você é homofóbico. Se ele não conseguiu emprego, é porque a empresa não contrata negros. Se ele não tem namorada, é porque as mulheres só gostam de caras magros.

Esses indivíduos existem e só servem para fomentar a existência da tal redoma de imunidade das minorias. Se há uma  pessoa acha que tudo o que acontece com ela tem raiz no preconceito, então é melhor você fingir que gosta dela, mesmo que não goste e que isso não tenha nada a ver com a cor dela. Vai que ela o acusa de preconceito?

É um assunto delicado e muito específico – cada situação envolve milhares de variáveis. Mas o que quero concluir aqui é que na maioria dos casos a nossa cabeça é que está cheia de estereótipos e por isso enxerga o politicamente incorreto em tudo. Os preconceitos que a gente enxerga em um monte de relações são um espelho dos nossos próprios preconceitos. O medo de ser preconceituoso é tanto – por causa do tabu – que as pessoas acabam agindo diferente com as minorias mesmo sem perceber. E esse talvez seja o tipo de discriminação mais perigosa que existe – aquela que é tratada justamente como a ausência de discriminação.

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O tormento da tormenta (ou como fazer do limão uma caipirinha)

Deve acontecer com todo mundo. Há um momento, uma situação específica, em que você se vê acuado. Sem ter o que fazer, sem opção (clique para ampliar):

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Eu sou um pouco sádica. Tenho algo de tragicômico que é inerente à minha personalidade. Quando li essa nota, gargalhei e mandei para todos os meus amigos do ABC que ainda estavam em SP, para que eles gargalhassem junto comigo da situação bizarra em que nos encontrávamos. Nós não podíamos voltar para casa. NÓS NÃO PODÍAMOS VOLTAR PARA CASA, nenhum de nós.

Do ponto de vista de cidadania e de instituições sociais, é claro que uma coisa dessa só mostra o quão ridiculamente frágeis nós somos diante das ‘foooorrrrrrrrças da natureza’ – e nesse caso, nem foi um furacão ou um ciclone, só uma chuva de verão.

Do ponto de vista, digamos, da dignidade à qual todos nós teríamos direito – nós que (não) pegamos trens, nós que subimos no teto do carro, nós que nos agarramos em postes para não sermos levados pela correnteza – o episódio todo é só mais uma indicação de que a coisa está falida e que as opções são 1. fazer algo para reverter a situação 2. se mudar para o campo.

Mas essa discussão já foi feita à exaustão aqui, em outros posts. Vamos ao conto aquático de terça.

A certa altura, consegui falar com dois dos meus também quase afogados amigos – um ilhado na região da paulista, outra das 17h30 às 21h30 no Brás esperando os trens voltarem a circular – e tive uma fantástica idéia.

Fudido por fudido, com o perdão do termo, nos fuderíamos juntos e numa festa open bar.

No Astronete nesta terça, 17, dia de St. Patrick, a boo-box (empresa que disponibiliza o código pra eu colocar uns anúncios laranjinhas aqui embaixo) resolveu dar uma festa pra lançar algum produto (que ninguém soube qual é, perguntei pra todo mundo).

Levei meus amigos ilhados para a festa comigo, e concordamos que a melhor alternativa era ficar lá até as 4h pra esperar o trem abrir de novo – a outra seria ir para a estação de trem da Luz e conseguir pegá-lo, muito cheio, calculo que entrei meia-noite e uma da manhã. Na Luz não tinha open bar de Guiness e nem música, então concordamos que a primeira opção era mais conveniente naquele momento.

Lá, influenciada bem levemente pelo alto teor alcoólico da cerveja Guiness, que era gratuita, subi ao palco para participar de uma fabulosa batalha de iPods (que perdi, mas sem papo de perdedor, fiquei muito feliz só de poder tocar pras pessoas), dancei músicas que desconhecia, conversei com amigos de longa data (mas com os quais nunca tinha tido oportunidade de conversar por muito tempo), perdi meu único elástico de cabelo e me diverti como jamais seria possível numa terça-feira à noite de caos aquático em São Paulo.

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Nós três (eu atrás da câmera) pegando o primeiro trem na Luz, às 3h59

No fim, nossa decisão foi acertada. Cheguei em casa às 5h, morta mas muito feliz. Podia ter chegado às 2h, morta e muito, muito puta da vida com o sistema e com a humanidade, sentimento que sempre me acomete depois de episódios absurdos como o de ontem.

Troquei o ativismo mental pela ignorância que sublima. Deixei de lado mais uma oportunidade de praguejar contra a fraqueza das nossas estruturas sociais e, pela primeira vez em muito tempo, optei por fingir que nada daquilo existia por algumas horas. Por algumas horas, esqueci que a cidade não funcionava lá fora, que o mundo era uma merda e que as pessoas eram ruins.

Ainda bem que, quando abri meu e-mail às 10h da manhã desta quarta, um cidadão me fez o favor de reavivar todos esses conceitos supostamente tão exagerados e pessimistas (clique para ampliar):

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Só ajudando você a lembrar que existe gente escrota no mundo. Mas não precisa se abster das festas open bar. E eu sei que ressaca moral é besteira, mas aos amigos velhos e novos – se ontem disse algo um pouco extravagante, relevem. Foi sincero, mas relevem a extravagância.

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Pesquisa: o que você prefere no novo layout do blog?

Peço que votem nessa enquete pra que eu defina uma dentre as várias coisas importantes a serem (ou não) implantadas no novo layout do blog. Mesmo se você for leitor do feed e a enquete não te afete diretamente, responda se não estiver fazendo nada – é rapidão (desculpe, mas você vai ter que clicar no post, a enquete é em Ajax e não carrega no feed):

[poll id="4"]

Se você lê o Olhômetro pelo seu agregador de feeds, não se preocupe: Lá, os posts vão ser sempre completos. Exceto pelos vídeos, que por causa do plugin que eu uso, se tornam figurinhas clicáveis no feed. Mas vou ver se resolvo isso também.

Se você tiver qualquer outra sugestão que se refira a qualquer aspecto do design do blog (e do conteúdo, também), te digo que esse é o momento de me dizer. Use e abuse dos comentários, campeão.

Valeu aos amigos que já opinaram no Twitter e obrigada a todos pela colaboração. =)

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Chris Cornell foi contagiado pela Síndrome Paulo Ricardo

Um dia, existiu um deus do rock que era conhecido pelo nome de Chris Cornell.

Chris Cornell

Quase um messias (esteticamente, inclusive), Chris Cornell arrasava corações de moças indefesas e inspirava bravos rapazes alcançando notas inalcançáveis em seus trabalhos com aquela banda que todo mundo descolado adora dizer que conhece, o Temple of the Dog, e posteriormente no seu trabalho mais conhecido e incrível, o Soundgarden. Se você não ouve Soundgarden há um tempão, como eu, relembre comigo:

É importante que você assista para que a diferença, no próximo vídeo, fique bem proeminente.

O homem fez, ao lado dos companheiros do Soundgarden, cinco álbuns de estúdios – alguns épicos, outros bons, mas todos irrepreensíveis. Sozinho, fez um belo disco solo, chamado Euphoria Morning (de 1999), um dos meus TOP5 CDs of all times. Depois, juntou com outros caras mais respeitados ainda e formou uma banda chamada Audioslave, que embora tivesse um claro apelo comercial, também era bem boa.

Chris Cornell tinha tudo – fama, respeito, mulher, uma filhinha bonitinha, tinha dignidade, tudo isso devido à fidelidade, à dedicação e ao talento no rock’n'roll. E por algum motivo, Chris Cornell jogou tudo pelo ralo assim:


Essa é uma das músicas do novo álbum de Chris, Scream, o disco novo produzido por Timbaland que causou uma perda de respeito generalizada por parte dos fãs. A música em si não é ruim – mas isso sendo feito por ele é chocante demais. Seria como ver, sei lá, o Mick Jagger partindo pra carreira solo e lançando um álbum com participação do Julio Iglesias. Não dá, tem coisa que você não pode fazer, porque mesmo que fique ‘bom’ não vai ficar. Tem aquela discussão do ‘ah, mas o cara tem mesmo que se renovar’ – OK, SE RENOVE, MAS VAMOS TENTAR NÃO CHUTAR O PAU DA BARRACA OK? Tava renovado já, todo mundo achou legal o que foi feito no Audioslave. Porque a gente não se contenta com o que tem e termina por foder as coisas?

Lembrando que não estamos falando só do ritmo aqui, cara. A composição dele adaptou-se ao ‘novo estilo’, com direito a ‘pequena garota, adoro o jeito como você fala comigo’ ou ‘não, aquela vadia não faz parte de mim’, gostosas sendo encochadas em bares e homens de regate com óleo pelo corpo dançando de maneira provocativa. Porra, JOHNNY CASH JÁ FEZ UM COVER DESTE HOMEM! E ele resolveu falar na música que gosta do jeito que a menina rebola e achou que todo mundo ia achar normal? Alguém tem uma explicação pra isso?

É uma postura incompreensível. Analizemos: o cara precisa de mais grana? Não, não precisa. Precisa de mais prestígio, precisa provar que ele tem talento? Não, não precisa. Ele já era grande. Ele era do tipo do cara que daqui uns 10 anos ia entrar pro Hall of Fame do Rock, fácil, se tivesse já se aposentado. Agora, se cruzar com Dado Dolabella na rua, até apanha por traição de movimento.

A única possibilidade que resta é ele de fato ter feito isso porque gosta – digo, gosta desse tipo de música a ponto de querer fazê-la. Ficou velho e quis gostar de eletropop e ser amigo do Justin. Acontece. Mas tem um problema – você não pode ser uma referência do que há de melhor no rock’n'roll por 20 anos e de repente achar que vai poder tocar na Mix sem que isso te traga graves consequências.

No fim, eu cheguei à conclusão que o roqueiro consagrado e bonitão que chega à crise de meia-idade tem uma propensão maior a gravar músicas que vão desagradar absolutamente todo o público que ele conquistou nos 20 anos anteriores, normalmente de uma maneira que boa parte desse público considere muito indigna e classificável como brega (claro que existem sempre os fãs malucos que vão amar qualquer merda, mas estamos falando das coisas sensatas).

É um grave distúrbio psiquiátrico, mais forte que eles. É patológico, e a primeira pessoa a diagnosticar esse distúrbio fui eu mesma. Ele pode ser verificado em outros artistas, como Robert Plant (quando gravou música country-romântica). No Brasil, o maior expoente dessa patologia grave é o cantor Paulo Ricardo, que teve uma época aí resolveu gravar música ruim e acabou tendo a honra de ter seu hit na abertura da saudosa A Usurpadora.

É complicado, mas em algum ponto de sua carreira Chris Cornell foi severamente afetado pela Síndrome Paulo Ricardo. O único antídoto, pelo que pude observar, é conseguir emplacar uma dessas músicas ruins como jingle de abertura de um programa muito famoso. Daí, aparentemente o cara se contenta em ganhar tanto dinheiro de royalties (ou se constrange de ligar a TV todo dia às 22h e ter de ouvir aquilo e lembrar da merda que fez só por dinheiro) e para de querer inventar coisa.

Ou qualquer coisa assim. No caso do Cornell, acho que o destino dele é algo como jurado de American Idol – triste, mas talvez a única coisa que o impeça de continuar nos deixando com tanta vergonha alheia – vergonha essa que até outros artistas expressaram publicamente.

Pelo menos o nome do CD – ‘Scream’, suponho que no imperativo – é bem apropriado. Mas não precisa nem pedir, Chris.

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Uma ótima idéia de TCC (se você não tiver um olho)

Vamos supôr que você não tenha um olho.

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Esse camarada claramente tem um, embora não esteja exatamente no lugar tradicional

Provavelmente é uma situação difícil, no começo. Mas devem ser daquele tipo de coisas às quais você logo se acostuma. Olhos de vidro e próteses são bem parecidas com os de verdade, quase não dá pra notar a diferença. E também existem alternativas: usar um tapa-olho e parecer o cara mais legal da sua escola (ou bairro, ou trabalho, ou hospício) e pedir dinheiro no trem sem o olho. Uma mulher pede, e o efeito que a falta do olho causa nas pessoas aparentemente é bem eficiente para que elas lhe dêem dinheiro (e ela suma logo da frente delas, porque é uma visão esteticamente desagradável).

Mas sempre dá para fazer limonada se te dão limões, não é? Foi isso que fez o canadense Rob Spence, o camarada da foto ali em cima, que perdeu um dos olhos há 3 anos (perdeu tipo, porque tinha um problema desde um acidente na infância e o olho precisou ser retirado. Ele não deixou cair ou esqueceu no bolso da jaqueta). Rob teve uma dessas idéias animais, dessas que gente que não tem um olho pula da cadeira e diz ‘como não tinha pensado nisso antes?’

Ele buscou patrocínio de centros acadêmicos de pesquisa em tecnologia e de empresas que desenvolvem equipamentos microscópicos e conseguiu que desenvolvessem para ele um olho prostético com uma câmera dentro. A idéia é que a câmera enxergue exatamente o que Rob enxergaria e transmita os dados através de um dispositivo wi-fi acoplado.

Ele até se auto-apelidou de Eyeborg, e em seu site oficial um vídeo (em inglês, sem legendas) conta toda a história de Rob – que veja você, teve a fantástica idéia do tapa-olho de pirata antes do olho ferido ter de ser retirado! Imagina o quão LEGAL é ser amigo de um cara que usa um tapa-olho.


EYEBORG– The Two Week Trial from eyeborg on Vimeo

A questão é que Rob vai filmar um documentário usando a câmera acoplada à sua prótese ocular. O tema: a ‘orwellização’ da sociedade, ou seja, para os que ouvem Lil’ Wayne, a massificação da instalação de câmeras de vigilância em todas as instâncias dos espaços sociais públicos e privados. Ele vai entrevistar as pessoas sobre o que elas acham de estarem sendo espionadas o tempo todo, muitas vezes sem saberem – e elas estarão sendo espionadas durante esse processo!

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Se os tradutores forem espertos, chamarão a versão brasileira do documentário de ‘Olhômetro’ (e se eu for esperta, os processarei)

Naturalmente, Rob pretende avisar depois da entrevista que filmou tudo usando seu olho (claro que isso vai parecer perfeitamente natural para o entrevistado) e pedir autorização para a veiculação da entrevista no documentário. Ele quer discutir essas questões de privacidade e tudo mais. 

Tem toda uma questão muito doida aí, que envolve Big Brother, Google Maps e no que essa sociedade está se tornando – ao mesmo tempo que as pessoas cada vez mais se fecham dentro de condomínios fechados, com cercas elétricas e carros blindados, nunca a vida das pessoas esteve tão exposta, e tudo isso por causa da internet.

Mas isso não é importante. Importante é você voltar na primeira foto, ampliar e olhar muito, muito bem para a cara desse camarada. Assista ao vídeo, ouça a história dele e grave a fisionomia. Se um dia ele vier falar com você, corra para as montanhas.

E não confie em gente com próteses nos olhos. Se todo celular tem câmera, daqui a uns 10 anos todo olho protético vai ter. Mesmo que seja uma VGA, não confie mais em pessoas com olhos de vidro. É mais seguro, embora assustador, encarar a tiazinha que deixa a órbita à mostra. E caras com tapa-olho serão, além de muito legais, ultra-confiáveis.

É um futuro esquisito. Acho que por essa nem Orwell esperava.

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Resultado da Promoção cujos prêmios não fazem sentido!

Promoção Olhômetro

Fantástico o poder das palavras! Bastou que eu fizesse uma promoção que supostamente não faz sentido pra que, de fato, ela não fizesse.

Pra começar, esse método de avaliação que eu adotei é MUITO subjetivo. Eu pedi pra que as pessoas escolhessem seus piores e melhores posts e justificassem, e eu escolheria as 3 melhores respostas… é a mesma coisa quando, na escola, teu professor coloca na prova aquelas perguntas que dizem ‘justifique sua opinião’ e você justifica e ele coloca ‘errado’.

Logo, tive dificuldade na hora de escolher as melhores, porque não existiam de fato melhores. Gostei mais de umas 10, mas todas são igualmente valiosas pro que eu queria fazer, que era ter certeza que todo mundo que lê meu blog sabe ver quando eu escrevo uma merda e possa ter toda liberdade de me dizer isso. Esse era o objetivo da coisa, exercitar o ‘duvide sempre‘. Lembra dele?

Além disso, todas também são igualmente úteis pra entender os leitores, porque dá pra fazer um gráfico do que as pessoas gostam mais e menos. Ou igualmente inúteis, já que alguns posts foram campeões de indicações tanto na categoria ‘amo’ quanto na ‘odeio’.

No fim, me decidi por 3 respostas (dentre as incríveis 41) que achei mais legais por um motivo ou por outro – por uma justificativa curiosa ou emocionante, porque o cara criticou um post do qual todo mundo falou bem – e com embasamento – e coisas assim, ou não. Critérios pessoais, óbvio.

Outra coisa que não fez sentido foi que um cara lá na comunidade resolveu me cobrar todo dia o resultado da promoção (por scrapbook), e eu achei isso ok, até o momento em que ele começou a ficar mal-educado. Daí, o moderador da comunidade (que é um amigo meu) aparentemente deletou um post dele (sei lá eu porque, essa parte não entendi ainda, mas sou contra seja lá o que tivesse escrito), e ele (o menino maluco) me acusou de desonestidade, porque segundo ele era ÓBVIO que eu escolheria o dono da comunidade pra ganhar o prêmio – tipo, ele previu a minha desonestidade futura, e disse que essa desonestidade futura seria um desrespeito com meus leitores.

E no fim, o cara que estava cobrando os resultados não era participante da promoção, ou seja: nada fez sentido na história toda!

Ou seja, a promoção foi um sucesso, do ponto de vista conceitual. Vamos aos vencedores:

3º lugar

Prêmio: vale-compras Submarino de R$50 + camiseta Mädels
Bruno Rodrigues
Porque ele falou que foi a primeira vez que ele “realmente riu lendo um texto“, e isso me deixou feliz – acho que tenho vocação pra ser palhaça. E porque, apesar de ainda elogiar o blog no final, criticou o post sobre mimimis blogosféricos – que são um saco mesmo.

2º lugar

Prêmio: Vale-compras Submarino de R$50 + camiseta Mädels + alguma outra coisinha dependendo de onde você morar.
Marco Antonio
Porque ele ficou surpreso quando respondi o comentário dele (como se eu fosse alguma dessas pessoas horríveis, tipo… sei lá, futuramente desonesta) e porque ele não gostou – como muita gente, ok – de uns posts mais sinceros que já escrevi. Por causa da sinceridade, provavelmente acabou cuspido no papel e deve ter ficado contraditório, mas isso explicita uma característica minha que um leitor outro dia me falou por email – ‘eu não vejo contradição nenhuma em ser contraditória’. E embora isso seja um problema, de certa forma eu sou um pouco assim.

1º lugar

Prêmio: Vale-compras Submarino de R$100 + camiseta Mädels + Livro Antologia Casseta Popular
Rafael Angeloni
Não pelo post que ele mais gostou, mas pelo que ele menos gostou: ele disse que até acha legal assistir Zorra Total! E mencionou inclusive a sogra ao lado, os dois em gargalhadas. Disse que é porque no dia seguinte não tem que ouvir o despertador cedo. Até faz sentido, Rafael. MAS E SE VOCÊ TIVER?
Ou pior: e se você estiver assistindo Zorra Total, sábado à noite, NO TRABALHO?
E FICA PIOR: E se você estiver assistindo Zorra Total sábado à noite no trabalho e tiver que ouvir o despertador cedinho no outro dia?

Pois é, meu caro. Isso acontece com algumas pessoas por aí. Pobre delas.

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Valeu, esse é o fim. Entro em contato com os ganhadores, pelo Orkut, até o fim dessa semana. Mas se eu não entrar… bem, recomendo que perguntem hoje mesmo ao rapaz injuriado da comunidade do Orkut se eu vou entrar em contato mesmo ou não até o fim da semana, ele certamente terá previsto mais essa injustiça também.

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O que é realmente necessário para representar o povo?

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Conhecimentos gerais. É isso que o CQC está checando no mais recente quadro deles, protagonizado pelo conterrâneo Danilo Gentili, que nesta segunda perguntou a parlamentares coisas que são exigidas em provas simples de admissão de estagiário de jornalismo nos lugares mais fuleiros, como ‘o que é a Jihad’, ‘o que é a Convenção de Genebra’ e ‘onde fica Guantánamo’. E alguns parlamentares não faziam idéia das respostas.

O Gravataí argumentou comigo que ele não considera esse tipo de conhecimento superficial necessário para ocupar esse tipo de cargo público. E eu até concordo com ele, mas veja bem – se você não sabe o que é Jihad, isso não significa apenas que você não sabe o que quer dizer uma palavra. Significa que existe todo um conhecimento geral, mesmo que não-aprofundado, sobre geopolítica, incluindo por exemplo acontecimentos recentes, como o ataque das torres gêmeas, que você não sabe dizer porque aconteceram. Porque se você tivesse lido um pouquinho sobre isso certamente teria se deparado aqui e ali com a palavra e saberia.

Ou seja, o que estou questionando é no que implica você não saber o que é a Jihad, onde fica Guantánamo ou o que é a Convenção de Genebra. Implica, por exemplo, em você ter lido muito pouco ou quase nada sobre conflitos armados recentes, porque os três termos curiosamente se relacionam a guerras. E isso, na minha opinião, te faz inapto a me representar em Brasília. Porque exigem de mim conhecimentos muito mais avançados para ocupar cargos de responsabilidade, salário e regalias muito, muito menores. E porque o mínimo que eu quero é que meus representantes saibam o que está acontecendo no mundo e porquê, mesmo que não for de forma aprofundada.

Eu sei que é uma posição polêmica, mas não acho que pra governar seja mandatório que o cara seja um acadêmico das mais altas qualificações. Acho que sim, ajuda muito se ele for, mas no quesito ‘conteúdo’ considero importante mesmo uma vasta cultura geral, que possibilite ao cara falar sobre tudo e ter uma visão ampla das coisas, bastante leitura, essas coisas. Mas não sou partidária dos literatos ocupando as cadeiras do poder.

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Tem aquele adorável discurso reacionário da classe média (ilustrado acima), que a gente costuma escutar da molecada mais não politizada que repete o que dizem os pais. Ele diz mais ou menos o seguinte: “como meu filho vai se sentir estimulado a estudar se o presidente só tem até o Ensino Médio?”

A resposta correta a essa pergunta provavelmente inclui algo como “basta não ter um pai como você”, mas isso é extremamente ofensivo. Então a gente só dá uma risadinha, ou finge que tá tudo ok. Mas o pai que aceitar do filho o argumento de que ele ‘não vai estudar’ porque ‘o presidente não estudou’ deve ser mais burro que o presidente.

O presidente não estudou mesmo, até onde sabemos. O Gravataí (de novo) me informou, inclusive, que ele já chegou a dizer que só leu um livro na vida (“A semente da vitória”, de Nuno Cobra), mas não achei fonte no Google pra essa info, tirando que o Lula cita muito o cara nos discursos. Eu não acho, contudo, que isso o torna menos capaz de exercer o cargo que ele exerce. Acho fundamental, contudo, que o presidente tenha conhecimentos gerais básicos – história, geografia, economia, ciências. O suficiente pra ler o jornal do dia e entender o que está acontecendo ali, o que está por trás daquilo. E eu, sinceramente, acho difícil ele ter chegado ali sem saber isso. É um voto meu, e posso estar enganada; mas acho realmente difícil.

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Habilidades musicais do presidente

De qualquer forma, o quadro me desanimou horrores. Me desanimou de ser cidadã, de ser jornalista, de ser estudante, de votar na próxima eleição. Sério – até desliguei a TV depois do quadro. O Arlindo Chinaglia ficou durante 20 segundos enrolando porque não sabia definir Jihad. Ele nem precisava explicar, sabe? Se ele dissesse ‘é a guerra santa islâmica’, tinha matado. Outro cara, do PMDB (não me pergunte nomes), versou durante um minuto sobre Genebra “e sua ‘sede’, a Suíça (sic)”, dizendo que a Convenção era um tratado muito importante assinado por todos os países que definia assuntos muito importantes a respeito do mundo. Assim que rolar um vídeo, eu coloco aqui e você sofre comigo.

Mas a verdade é que os nossos políticos não passam de um reflexo de nós mesmos. E se algumas dessas pessoas chegaram onde chegaram sem conhecimentos que eu considero tão básicos, a culpa é nossa.

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Inteligência corporal? É com Luiz Inácio!

Não tô pedindo muito. Queria só o básico, sério. O básico. Quem lê o jornal pro Lula não é ele, é o Franklin Martins e outros assessores, segundo entrevista que ele deu pra piauí nos últimos meses. Mas o que eu espero do presidente (e de quem me representa além dele nas instituições do país) é que ele saiba contextualizar o que o Franklin diz sem precisar perguntar “Mas ô companhêro, quem é esse Kremlin? É daquele filme da sessão da tarde?”


*Esse texto foi ilustrado com imagens do genial LulaLOL, que… que você só vai entender depois que entrar. A essa altura todo mundo já conhece, mas reza a lenda que eu tenho um público muito particular que não é antenado nessas coisas de internet então me sinto responsável por informá-los das boas coisas da rede.

*Resultado da promoção na terça à noite, sem falta – dando uma de Lúcio Ribeiro.

* Lúcio Ribeiro ainda existe?
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