14 de abril de 2009 às 2h09
Inquisição virtual: quando vão começar a mandar os piratas pra fogueira?
Ok, teve o julgamento contra o Pirate Bay. Mas no geral, na gringa, parece que o pessoal tá desistindo:
Gravadoras americanas jogam a toalha contra pirataria
Parlamento francês rejeita lei para bloquear internet por download ilegal
Mas como é de praxe, as coisas por aqui sempre chegam com um pouco do atraso natural que é característico do 3º mundo. Se blog e Twitter são agora a sensação tupiniquim, então dá pra estranhar que o governo comece a fechar o cerco para os usuários de internet em tentativas esdrúxulas de conter o incontrolável – com ações-formiguinha como prender moleques que baixam música, ameaçar comunidades que compartilham links de downloads e tirar sites de legendas do ar, que têm o claro objetivo de intimidar grupos de pessoas que em grande parte só compartilham conteúdo sem fins lucrativos.
Quanto mais leio sobre iniciativas de grandes corporações para inibir o acesso do grande público à democracia e liberdade cultural que a pirataria proporciona, mais eu penso que não pode ser verdade que alguém que conheça a dinâmica da internet acredite que ainda é possível reeducar toda uma geração no sentido de ensinar que baixar música é errado.
Em vez de concentrar os esforços em alternativas economicamente viáveis e interessantes pro consumidor e pro artista, os babacas continuam perdendo tempo, prendendo meninos com HD cheio de CDs e usando-os como bode-expiatório de uma situação que é claramente incontrolável.
O projeto de lei francês mencionado no topo foi o que mais me chocou nos últimos tempos. Ele prevê punição os piratas com o banimento do uso da internet por uma quantidade determinada de tempo (dias a meses). E por um breve momento eu tive medo de que a inquisição virtual começasse, de que houvesse de fato o início de uma ditadura maluca na internet – que deveria ser a coisa mais livre do mundo.
Felizmente, foi rejeitado, ao menos em primeira instância, pelo que entendi. Mas aqui no Brasil o projeto do Azeredo continua a pleno vapor.
E eu desconfio que o bicho vai começar a pegar. Sabe por que? Porque as grandes corporações estão começando a perder muito, muito dinheiro por causa da internet no Brasil. Não que já não perdessem, mas a coisa está se espalhando por outros segmentos, coisa que não rolava aqui antes. Olha:
Internet faz receita com ligações internacionais despencarem, diz IBGE
A inclusão digital, a popularização da internet por banda larga, o computador do Milhão e as lan-houses até no inferno conectaram nosso país e estão gerando um fenômeno massivo de gente conectada, coisa que a gente não conhecia antes. O Brasil usa a internet, hoje. Não é mais só a classe média.
Só que o jovem vem pra rede com a mentalidade do nativo digital. E o nativo digital não pensa como o dono da corporações, e nunca vai pensar. Nesse post, Felipe Tofani menciona algumas das características desse grupo. Mas a mais marcante, e que mais contrasta com a vida real – sim, porque a vida na internet é só um reflexo da vida real – é essa aqui:
O poder vem através do compartilhamento de informação, não da mentalidade de escassez. Para ganhar influência e status online, você precisará doar seu conteúdo e conhecimento.
No mundo real, o de carne-e-osso, a mentalidade é a da escassez, a da usura, porque é com a usura que a sociedade capitalista lucra, e time is money – você não perde seu tempo ensinando ou doando nada pra ninguém. Os não-nativos não entendem o poder do compartilhamento, nem compreendem a vontade de compartilhar por compartilhar. No mundo de verdade, há pouco ou nenhum status em compartilhar. Na internet, por um motivo divino e bonito, vale o contrário. Vale a generosidade.
Enquanto os profanos virtuais, os não-nativos, não puderem compreender essa dinâmica, cada dia será um a menos na contagem até a inquisição virtual, em que laranjas serão punidos para ‘dar o exemplo’ à grande comunidade que comete ‘crimes horrendos’, com downloads de música tendo punições comparáveis a homicídio em alguns casos.
Seria fácil se eles aprendessem com os erros dos gringos e observassem que se lá não deu pra proibir, aqui não vai dar. Mas esses caras parecem ser daqueles tipos teimosos, que não aceitam perder milhões. Nós já vimos esse filme. Mas dono de gravadora não pode pedir ajuda pro governo quando perde grana. Sacanagem.
Some isso ao lobby que as grandes e velhas corporações farão contra a cultura do conteúdo livre na web e voilà – no Brasil, nós – usuários de internet – ainda teremos um longo caminho antes que os engravatados percebam que não podem lutar contra o inevitável.



23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 


14 de abril de 2009 às 2h31
“eu penso que não pode ser verdade que alguém que conheça a dinâmica da internet acredite que ainda é possível reeducar toda uma geração no sentido de ensinar que baixar música é errado”
Isso é absolutamente verdade: eu sou contra pirataria, não sei por quê! Tem algum bloqueio em mim que não me deixa comprar CDs ou DVDs piratas, por mais que tenham pouquíssimos argumentos para não comprar e um ótimo argumento para comprar (dinheiro), eu não compro coisas piratas.
Porém, quando se trata de baixar música na internet. Bem, eu também não baixo, mas é porque eu tenho preguiça, não porque eu acho errado! Eu já gravei CDs, e eu não acho errado (eu acharia errado se eu baixasse todas as músicas de um mesmo CD e o fizesse igual, só que gravado, só que não acharia errado se eu baixasse todas as músicas de um CD, e colocasse cada uma num CD gravado diferente. Eu sei! Não faz sentido nenhum!)
Então eu concordo plenamente com você! Acho que não dá pra reeducar toda essa geração de jovens (no caso, 16 anos) para pensar que “baixar músicas é errado”!
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14 de abril de 2009 às 4h45
Você falou tudo o que eu penso. Ao que me parece, hoje, informação (de qualquer gênero: notícia, música, filme…) já não vale mais nada sob o aspecto da exclusividade.
Quer dizer, a facilidade de se replicar qualquer coisa que possa ser tranformada em dados tirou a ideia do privilégio, o aspecto subjetivo e pessoal que move o capitalismo.
Talvez, resgatar essa ideia seja o ponto de partida para um novo momento.
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14 de abril de 2009 às 11h49
Ontem (13/04) a entrevista no Roda Viva (TV Cultura) foi justamente sobre isso. Para quem se interessar:
http://www2.tvcultura.com.br/rodaviva/resultado.asp?programa=1166
(
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14 de abril de 2009 às 13h26
Não acho que é errado alguém baixar uma música ou outra só pra ouvir.
O erro é o cara tirar proveito disso, vendendo algo que ele não teve nenhum trabalho pra criar.
E ainda tem gente que compra e sai arrotando ‘esperteza’, trouxa é quem compra original se pirata é mais barato.
Se quizerem mesmo vencer a pirataria, a industria do entretenimento em geral, tem que se reiventar e mostrar algo novo. Algo que mostre as pessoas que vale a pena gastar.
Caso contrário…
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14 de abril de 2009 às 14h32
Eu baixo conteúdo sim, e vou continuar baixando. Se eu não baixasse música, não teria ido a 90% dos shows que já fui na minha vida pois nenhuma MTV ou rádio jabazenta me levaria aos artistas que eu gosto. Também baixo animes, já que quando eles vêm para o Brasil, geralmente são porcamente dublados e censurados. A era do livre acesso ao conteúdo já é um fato consolidado e irreversível. Ninguém mais vai conseguir convencer pessoas a largarem seus iPods de 60 GB e começarem a comprar bolachas enormes e caríssimas que só comportam 80 minutos de música no lugar. A revolução já aconteceu. Sobreviverá quem conseguir criar meios inteligentes de lucrar na era de conteúdo livre. Todos os demais cairão. Podem até tentar retardar o processo, porque têm poderes e influências políticas para tentar alguma coisa. Mas o darwinismo também vale aqui.
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Trackback por Bruno Caminada
14 de abril de 2009 às 16h43
Ótimo texto da @ana_freitas sobre pirataria: http://tinyurl.com/c7noh2 (sou fã dessa garota)
14 de abril de 2009 às 16h47
Essa tentativa de repressão à conteúdos colaborativos fica bem claro na imposição da cultura capitalista no sentido de “o único software que presta é o software pago, nem que você tenha que pirateá-lo para usar”. O que diminui a iniciativa de software livre, como o Linux.
@brunocaminada
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14 de abril de 2009 às 17h24
eu escreveria EXATAMENTE a mesma coisa que o mauro… o primeiro comentário.
eu não compro coisas pirata… mas só não baixo música por preguiça… eu tinha um computador PÉSSIMO, e não baixava por que não tinha condições. mas agora, mesmo com um computador bom, continuo não baixando. percebi que é pura preguiça.
eu continuo comprando álbuns originais… não muitos, devido ao preço absurdo, mas das minhas bandas favoritas.
para mim, por mais que você baixe as músicas, imprima encarte, cole adesivo no cd…
sei lá… existe todo um “ritual” de ir, comprar o álbum, não conhecer as músicas, ouví-las pela primeira vez, se concentrando SÓ NAQUILO. nada de ouvir a música pela primeira vez enquanto você fuça no orkut ou fala no msn. além disso, compro álbuns pela banda, e não pela música em si.
algo “semi-mágico” que apenas obsessivos que fazem isso desde os 12 anos de idade entenderiam. HUSAHSUAHSUASAU.
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14 de abril de 2009 às 18h00
Cara Ana,
Lindo esse trecho: “antes que os engravatados percebam que não podem lutar contra o inevitável”. Menina, você é jovem, muito jovem e seu texto reflete isso. Mas eu, como um velho que sou , não consigo esquecer que os engravatados de hoje também já foram jovens – e aprenderam a ganhar dinheiro e diminuir a liberdade alheia do mesmo jeito que alguém tinha feito nas gerações antes deles. No fundo, no fundo, acho que o nativo digital e o dono da corporação são o mesmo tipo de pessoa: só que um virou dono por querer e saber como se aproveitar dos outros.
Um abraço!
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14 de abril de 2009 às 18h24
O grande problema, em minha opinião, nem é o lobby das velhas e novas corporações. O problema maior é a vontade da canalhada de ter em mãos todos os dados dos que usam a internet para denunciar as mamatas e falcatruas; assim, poderão agir mais rapidamente e tentar silenciar o pessoal com mais facilidade.
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14 de abril de 2009 às 23h47
Delícia de blog!
Linkei você em um post meu.
E repito aqui o que disse lá: este é um dos blogs que eu queria ter escrito.
Abraços!
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15 de abril de 2009 às 0h28
Ju!
Seu blog é super legal, também! Sério!
Obrigada =)
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16 de abril de 2009 às 17h55
bom… eu acho que para que possam exigir para que paremos de baixar conteudo ilegal, tem que ter uma boa fonte de materiais, por exemplo, musicas eu posso comprar cds, mas e videos? e series? nao temos ainda uma itunes store no Brasil, mas quando tivermos com certeza será mais facil controlar o compartilhamente ilegal de musicas. E pra quem acha que é mais pratico baixar musicas, eu nao concordo, acho muito mais facil comprar um cd, passar para o pc e passa-lo para o ipod numa boa! isso nao serve de desculpa ;*
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6 de agosto de 2010 às 15h33
Eu amo essa democracia da Internet, embora eu não costume baixar músicas na Internet ou coisa que o valha. Não é por não querer. No meu caso, é uma absoluta falta de interesse mesmo, aliada a um computador que nunca me ajudou em muita coisa a não ser pesquisar no Google, acompanhar alguns blogs e ler meus e-mails.
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