OEsquema

Arquivo: dezembro de 2010

Eu em Aparecida

Eu, que fui criada para respeitar os mais velhos sempre e sem questionar, devo dizer que nunca foi um problema ceder assento ou o meu lugar nas filas para idosos (ainda que eu seja contra a meritocracia baseada no tempo em que se viveu, porque aquele velho/a pode ser muito bem um escroto, e nesses casos ele deveria ser punido por viver tanto sendo um escroto ficando de pé nos lugares). Mas basicamente, eu respeito as leis em relação a velhinhos sem maiores problemas. Simples assim.

É importante notar, contudo, que se você for à cidade de Aparecida e resolver ceder seu lugar na fila para todo indivíduo com mais de 60 anos que estiver atrás de você, é muito possível que você fique eternamente sendo recolocado no fim da fila, em looping, sempre sem chances reais de se aproximar do caixa.


Vamo dá preferença pros idosos, gente

O lance é: se você é velho ou velha e você está em Aparecida, por favor, abra mão do seu direito de preferencial porque a coisa fica ridícula a partir do momento que o sr./sra. está em maioria no local, competindo para ver quem nasceu em 1935 e quem nasceu em 1936 e, portanto, pode se aproximar primeiro do caixa 7.

Eu fui a Aparecida duas semanas atrás pagar uma promessa da minha vó. É, eu sei, ela faz a promessa e eu pago, é estranho. Acontece que foi uma promessa feita enquanto eu me encontrava na UTI, minha vó é demais, e vai demorar até que eu seja mesquinha o suficiente pra negar algo tão simples assim pra minha vó. Além do mais, eu imaginei que seria uma experiência interessante ir conhecer a cidade.

E realmente foi (sem brinks). Foi curioso, por exemplo, observar que toda a grana que a cidade arrecada com turismo não é revertida nem em infra-estrutura para os moradores (sério, a cidade tem várias partes bem miseráveis) nem em infra-estrutura para os turistas. As salas do santuário enorme são todas ventiladas com a maravilhosa tecnologia do VENTILADOR que, todos sabemos, num calor de 40º vira um circulador de ar quente. Pensa em dezenas de velhinhas com os cabelinhos ralos empapados de suor, grudados na testa. :/

Aparecida vive – abusa, até – do consumo bizarro que tem como álibi a fé. É todo tipo de lembrança e souvenir bizarro, coisas que devem fazer com que Nossa Senhora Aparecida queira desaparecer de vergonha (GENTE, OLHA O TROCADILHO MARAVILHOSO). Dentre as bizarrices, elegi como vencedores as velas em formato de partes do corpo, de pés e mãos e braços a BAÇOS, pâncreas, rins e pulmões, e a VELA ELETRÔNICA ECOLOGICAMENTE CORRETA, que é nada mais nada menos que um brinquedo de plástico, a pilha, com um LED vermelho em cima. O produto é vendido sob o mote de que é econômico e consome menos matéria prima do que as tradicionais e ultrapassadas velas de cera. Quando eu questionei a validade da vela perante Deus (tipo, ‘senhor, vou ligar minha vela para pedir proteção’ é patético), uma senhora que estava na frente da minha vó argumentou, convicta e sorridente, que ‘Deus acompanha essas modernidades’. Ainda assim, ela optou pelo o modelo tradicional e conservador, aquele que demanda fósforo pra acender.


Tô perdida. Deus podia ter acrescentado um mandamento esclarecendo se essas velas valem ou não

Chegando na sala das promessas, O HORROR. Manja aqueles filmes de terror na cena em que encontram o covil (vazio) do assassino e ele está cheio de recortes de jornal, fotos de vítimas e PRINCIPALMENTE souvenirs bizarros? Isso é a sala das promessas. A começar pela encenação de belíssimo bom gosto (bonecos horríveis de argila em tamanho real dentro de barcos feitos de papel laminado, algo entre o trabalho de artes da quarta série e uma escultura disforme de argila que você faz e pinta com guache quanto tem cinco anos), as coisas ficam piores quando chegamos na parte em que as pessoas contam suas histórias – as de promessas que deram certo.


Edward Mãos de Tesoura pediu uma noiva – e conseguiu (não tô zuando, isso ESTAVA LÁ E É ASSUSTADOR, EU SEI)

É meio escrota a lógica da promessa. Entendo mais que se trata da fé e da confiança que a pessoa adquire quando a faz, a mas a ideia de que um Deus onipresente e todo misericordioso está disposto a trocar favores esdrúxulos com seres que ele tanto ama é negar a própria natureza que é atribuida a esse Deus. Mano, que tipo de pessoa diz “Ok, eu salvo sua filha do câncer, mas você precisa acender uma vela da altura dela e subir uma escadaria de joelhos”? É ser muito sacana. Fora que é possível presumir que, para esse Deus, quem não acende uma vela em uma cidade quente no interior de SP merece menos do que quem faz isso, o que também é bem escroto. Na boa, quem inventou essa lógica da promessa provavelmente trabalhava com testes laboratoriais envolvendo ratos.


Vencendo Nsa. Sra. Aparecida pelo cansaço

Mas aí grande vencedora, no fim, foi um manequim todo vestido de motoqueiro, do qual eu me aproximei crente de que se trataria de uma linda história de superação envolvendo Os Abutres, muito álcool e algum acidente de moto. Quando li o sulfite anexado ao manequim bizarro, a promessa alardeada se tratava do seguinte: o MOTOCLUBE DE VARGINHA não conseguia fazer um encontro de seus membros há dois anos, gente. DOIS ANOS. SEM. ENCONTRO. DE MOTOQUEIROS. DE VARGINHA. Daí eles disseram pra Nossa Senhora Aparecida que se ela conseguisse fazer com que a parada acontecesse, eles iriam até Aparecida (de moto, ou seja, viajariam de moto, o que é tecnicamente o que eles mais gostam de fazer, pois fazem parte de um motoclube. E eu aqui achando que promessa tinha que envolver um sacrifício) e vestiriam um manequim de motoqueiro.

Deu certo.

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O mundo, os hackers e o viquiliques


“Cuméquichama… viquiliques lácumé”

Todo mundo mantém em segredo alguma parcela da opinião que tem sobre os outros. Às vezes, porque os defeitos não importam muito quando a gente gosta do outro. Às vezes, porque sinceridade demais é indelicado e, às vezes, porque sua opinião simplesmente não foi requisitada.

Imagina só se, de repente, todas as nossas opiniões desimportantes e um pouco críticas sobre os outros, aquelas que a gente diplomaticamente mantém em segredo pra garantir bom convívio social e sobrevivência, de alguma maneira viessem a tona? Consegue imaginar o casos? Provavelmente não sobraria ninguém gostando de ninguém. Seria um mundo repleto de rancor, fofocas, despeito e vingança.

O mundo diplomático está passando por uma crise parecida com essa aí por causa de um maluco chamado Julian Assange, um cara que criou um site – o Wikileaks, para quem ainda não fez a ligação, o Viquiliques, para o presidente – para onde qualquer um pode mandar documentos confidenciais, aqueles segredos de estado top secret. Pela primeira vez na história, as pessoas que definem como são as relações entre os países, e portanto, definem se estaremos vivos ou se seremos atingidos por um míssil nuclear na semana que vem, precisam tomar cuidado com o que dizem.

Elas não estão acostumadas a isso, e eu não as culpo; ninguém está. No lugar delas, eu também gostaria de ver o responsável por isso morto. No meu lugar, eu acho tudo muito engraçado e revolucionário (desde que não chegue na parte que envolve os mísseis nucleares).

A parte ruim é que estão querendo encurralar o pobre do Julian Assange (é o cara que criou o site, gente).

Jornalista só se fode

Acusaram-no de estupro lá na Suécia. Acabou que o crime foi não usar camisinha com duas mulheres com quem ele se relacionou em uma semana (a maior prova que ter um site famoso faz você comer mais gente), e isso pode ser considerado uma espécie de assédio sexual de menor intensidade lá na Suécia. Pra começar, se vira moda isso ser crime, eu não quero nem pensar no que aconteceria. Em segundo, a moça que o acusou tem ligações com a CIA e não é a primeira vez que trabalha para a organização nessa história de incriminar alguém sexualmente. Em terceiro, colocar a INTERPOL atrás de um cara porque ele transou sem camisinha, novamente, abre uma jurisprudência perigosa.

Julian não cometeu crime nenhum. Ele divulga documentos liberados por informantes – não é que ele invade os escritórios e rouba papéis das pastas -, trabalha em conjunto com grandes jornais como o El País e o The New York Times, que o ajudam a checar a veracidade das informações que recebe e divulgou, na metade do ano, crimes de guerra importantes cometidos pelos EUA no Iraque.

E a cruzada contra ele é GERAL. Da Amazon à Visa, todos estão tentando impedir que o cara continue fazendo o que faz, e ele já se entregou pelos crimes dos quais é acusado na Suécia (RISOS, CRIME, RISOS). E como mencionou o copanhêro lá em cima, são todas formas de mascarar violações severas da liberdade de expressão.

Ainda bem que podemos contar com o submundo da internet para garantir que nossos direitos não sejam cerceados. Há uma CYBERGUERRA em andamento, agora: um grupo organizado de ativistas hackers está focando as organizações que boicotaram deliberadamente o Wikileaks e provocando ataques organizados contra os sites dessas empresas. Mastercard e Visa já caíram; Paypal é o próximo alvo.

Julian Assange não é ingênuo – provavelmente, em algum momento nas últimas semanas depois do cablegate, ele soube que DEU MERDA. Por isso, se eu (que sou menos inteligente) estivesse no lugar dele, a essa hora já teria criado centenas de mirrors (cópias online) do Wikileaks, (QUER DIZER, http://213.251.145.96/mirrors.html, obrigada @felds) além de orientar algumas outras pessoas para que elas continuassem recebendo os documentos enviados pelos informantes. Se eu estiver certa, a treta felizmente está longe de acabar.

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O vento e os patos

O que fazer quando uma tempestade tropical – sim, porque proporcionalmente, é isso que atingiu essa família – pega você e sua vasta cria de patos de surpresa, deixa todo mundo catando cavaco no meio da poeira, desnorteado?

Você, mãe de família, pula de supetão, bota todo mundo de pé e continua caminhando. Porque assim é a vida, ela continua, ninguém morreu e tá tudo certo. Observe que eles sequer param para comentar o acontecido entre si. Ninguém lança um MAAAANO QUE VENTO FOI ESSE, CÊ VIU? ROLEI MUITO ACHEI QUE FOSSE MORRER PUTA MERDA! O negócio é bola pra frente, mesmo.

Esse vídeo serve como metáfora pra vida, sabe. Porque agir assim pode ser muito bom, às vezes, e às vezes pode ser muito ruim. Explico.

Se você estiver andando na rua com seus doze patinhos e bater um vento que faça vocês todos saírem rolando, se recompôr rapidamente é uma demonstração de que você é forte. É recomeçar ali mesmo, sem se lamentar pela tragédia. Chega a ser bonito.

Por outro lado, agir como se essa situação fosse completamente normal e não demonstrar sequer surpresa por ter sido arremessada (como pata) uns cinco metros pela ventania também demonstra frieza e falta de capacidade de se impressionar, além de provavelmente significar que você é uma pata muito sofrida e calejada. Se isso não te assusta, pelo que você já passou?

E a moral que fica é: na vida, temos que escolher qual pata queremos ser – a que se recompõe rapidamente mas não se surpreende nem reflete diante das adversidade ou a que, mesmo voltando à vida imediatamente como se nada tivesse acontecido, é corajosa, brava e guerreira.

Reflita.

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Os homens, as máquinas e os óculos de sol

Chilli Beans lança máquina de venda semelhante às de refrigerante

Essas medidas que apontam para uma gradativa substituição do homem pelas máquinas são sempre preocupantes, mas no caso da Chiili Beans pode causar um problema social grande nos círculos descolados. A Chilli Beans tem uma função social importante, que é a de empregar todas as pessoas cheias de tatuagens, piercings e alargadores, que não conseguiriam emprego em quase nenhum outro lugar além de a Chilli Beans e um estúdio de tatuagens, piercings e alargadores.

Além disso, ela também preenche a função de ser a empresa que emprega estudantes de moda que ainda não conseguiram um emprego na área (mas que, trabalhando na Chilli Beans, podem dizer que trabalham “na área”) e de empresas que empregam gente que fala usando as mesmas gírias e cadência do Paulo Vilhena e de artistas da Malhação.

As consequências econômicas da implantação em larga escala dessas máquinas de óculos serão desastrosas. Os festivais descolados vão perder público, bem como as marcas hypados. É possível que a blogosfera e o Twitter cresçam, contudo, meio a essa desocupação generalizada de gente descolada. Mas a crise econômica que essa medida irresponsável pode gerar na região do baixo-Augusta é sem precedentes; só um Bolsa Descolados poderia resolver.

Pelo menos, ao comprar óculos nessas máquinas, você não vai ser abordado de maneira invasiva por um vendedor jovem e cheio de disposição que parece que está sob efeito de ecstasy de tão animado de trabalhar na Chilli Beans, que quer muito saber se o “óculos é pra você mesmo, brother?” E a máquina, se você resolver comprar um óculos pra sua namorada, certamente não vai mandar um “Pô, mas que tipo de lupa sua mina curte, você acha que é algo mais moderno? Chegou uma coleção nova aqui irada, viu!”, ou então te oferecer dezenas de cases coloridos para óculos, pintados como uma banana ou como uma melancia, além de relógios, bonés, mochilas, sprays de limpar lentes e essa coisa toda.


Isso tudo considerando que o software que opera as máquinas da Chilli Beans não tenha sido inspirado no animado computador de bordo da nave Coração de Ouro, cujo entusiasmo irritante fica claro no fim do vídeo acima.

A máquina de óculos provavelmente não vai fazer todas essas coisas que eu falei. Mas a Funhouse vai precisar abaixar o preço da entrada.

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