22 de dezembro de 2010 às 3h22
Eu em Aparecida
Eu, que fui criada para respeitar os mais velhos sempre e sem questionar, devo dizer que nunca foi um problema ceder assento ou o meu lugar nas filas para idosos (ainda que eu seja contra a meritocracia baseada no tempo em que se viveu, porque aquele velho/a pode ser muito bem um escroto, e nesses casos ele deveria ser punido por viver tanto sendo um escroto ficando de pé nos lugares). Mas basicamente, eu respeito as leis em relação a velhinhos sem maiores problemas. Simples assim.
É importante notar, contudo, que se você for à cidade de Aparecida e resolver ceder seu lugar na fila para todo indivíduo com mais de 60 anos que estiver atrás de você, é muito possível que você fique eternamente sendo recolocado no fim da fila, em looping, sempre sem chances reais de se aproximar do caixa.

Vamo dá preferença pros idosos, gente
O lance é: se você é velho ou velha e você está em Aparecida, por favor, abra mão do seu direito de preferencial porque a coisa fica ridícula a partir do momento que o sr./sra. está em maioria no local, competindo para ver quem nasceu em 1935 e quem nasceu em 1936 e, portanto, pode se aproximar primeiro do caixa 7.
Eu fui a Aparecida duas semanas atrás pagar uma promessa da minha vó. É, eu sei, ela faz a promessa e eu pago, é estranho. Acontece que foi uma promessa feita enquanto eu me encontrava na UTI, minha vó é demais, e vai demorar até que eu seja mesquinha o suficiente pra negar algo tão simples assim pra minha vó. Além do mais, eu imaginei que seria uma experiência interessante ir conhecer a cidade.
E realmente foi (sem brinks). Foi curioso, por exemplo, observar que toda a grana que a cidade arrecada com turismo não é revertida nem em infra-estrutura para os moradores (sério, a cidade tem várias partes bem miseráveis) nem em infra-estrutura para os turistas. As salas do santuário enorme são todas ventiladas com a maravilhosa tecnologia do VENTILADOR que, todos sabemos, num calor de 40º vira um circulador de ar quente. Pensa em dezenas de velhinhas com os cabelinhos ralos empapados de suor, grudados na testa. :/
Aparecida vive – abusa, até – do consumo bizarro que tem como álibi a fé. É todo tipo de lembrança e souvenir bizarro, coisas que devem fazer com que Nossa Senhora Aparecida queira desaparecer de vergonha (GENTE, OLHA O TROCADILHO MARAVILHOSO). Dentre as bizarrices, elegi como vencedores as velas em formato de partes do corpo, de pés e mãos e braços a BAÇOS, pâncreas, rins e pulmões, e a VELA ELETRÔNICA ECOLOGICAMENTE CORRETA, que é nada mais nada menos que um brinquedo de plástico, a pilha, com um LED vermelho em cima. O produto é vendido sob o mote de que é econômico e consome menos matéria prima do que as tradicionais e ultrapassadas velas de cera. Quando eu questionei a validade da vela perante Deus (tipo, ‘senhor, vou ligar minha vela para pedir proteção’ é patético), uma senhora que estava na frente da minha vó argumentou, convicta e sorridente, que ‘Deus acompanha essas modernidades’. Ainda assim, ela optou pelo o modelo tradicional e conservador, aquele que demanda fósforo pra acender.

Tô perdida. Deus podia ter acrescentado um mandamento esclarecendo se essas velas valem ou não
Chegando na sala das promessas, O HORROR. Manja aqueles filmes de terror na cena em que encontram o covil (vazio) do assassino e ele está cheio de recortes de jornal, fotos de vítimas e PRINCIPALMENTE souvenirs bizarros? Isso é a sala das promessas. A começar pela encenação de belíssimo bom gosto (bonecos horríveis de argila em tamanho real dentro de barcos feitos de papel laminado, algo entre o trabalho de artes da quarta série e uma escultura disforme de argila que você faz e pinta com guache quanto tem cinco anos), as coisas ficam piores quando chegamos na parte em que as pessoas contam suas histórias – as de promessas que deram certo.

Edward Mãos de Tesoura pediu uma noiva – e conseguiu (não tô zuando, isso ESTAVA LÁ E É ASSUSTADOR, EU SEI)
É meio escrota a lógica da promessa. Entendo mais que se trata da fé e da confiança que a pessoa adquire quando a faz, a mas a ideia de que um Deus onipresente e todo misericordioso está disposto a trocar favores esdrúxulos com seres que ele tanto ama é negar a própria natureza que é atribuida a esse Deus. Mano, que tipo de pessoa diz “Ok, eu salvo sua filha do câncer, mas você precisa acender uma vela da altura dela e subir uma escadaria de joelhos”? É ser muito sacana. Fora que é possível presumir que, para esse Deus, quem não acende uma vela em uma cidade quente no interior de SP merece menos do que quem faz isso, o que também é bem escroto. Na boa, quem inventou essa lógica da promessa provavelmente trabalhava com testes laboratoriais envolvendo ratos.

Vencendo Nsa. Sra. Aparecida pelo cansaço
Mas aí grande vencedora, no fim, foi um manequim todo vestido de motoqueiro, do qual eu me aproximei crente de que se trataria de uma linda história de superação envolvendo Os Abutres, muito álcool e algum acidente de moto. Quando li o sulfite anexado ao manequim bizarro, a promessa alardeada se tratava do seguinte: o MOTOCLUBE DE VARGINHA não conseguia fazer um encontro de seus membros há dois anos, gente. DOIS ANOS. SEM. ENCONTRO. DE MOTOQUEIROS. DE VARGINHA. Daí eles disseram pra Nossa Senhora Aparecida que se ela conseguisse fazer com que a parada acontecesse, eles iriam até Aparecida (de moto, ou seja, viajariam de moto, o que é tecnicamente o que eles mais gostam de fazer, pois fazem parte de um motoclube. E eu aqui achando que promessa tinha que envolver um sacrifício) e vestiriam um manequim de motoqueiro.
Deu certo.
Gosta de ler sobre viagens? Visite o http://www.drumbun.com.br - lá eu escrevo só sobre os lugares que visito.



23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 


Trackback por Ana Freitas
22 de dezembro de 2010 às 3h26
No EYEMETER: Eu em Aparecida. Imperdível, amgs http://oesquema.com.br/olhometro/2010/12/22/eu-em-aparecida/
Trackback por Carolita
22 de dezembro de 2010 às 3h30
RT @ana_freitas: No EYEMETER: Eu em Aparecida. Imperdível, amgs http://oesquema.com.br/olhometro/2010/12/22/eu-em-aparecida/
22 de dezembro de 2010 às 3h38
Que lixo de post, sua avó nem precisava ter perdido tempo rezando por você.
Responder
27 de dezembro de 2010 às 1h20
credo…
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Trackback por RAFAONCOFFEE
22 de dezembro de 2010 às 3h46
RT @ana_freitas: No EYEMETER: Eu em Aparecida. Imperdível, amgs http://oesquema.com.br/olhometro/2010/12/22/eu-em-aparecida/
22 de dezembro de 2010 às 3h47
você devia fazer um vídeo contando essa história, é genial porque é real.
Responder
Trackback por Clara Cortêz
22 de dezembro de 2010 às 4h37
me divirto com esse povo promesseiro – sente só a experiência antropológica da @ana_freitas em Aparecida: http://bit.ly/fId21B
22 de dezembro de 2010 às 9h59
Muito bom esse texto, mas cuidado, escrevendo essas coisas você pode virar alvo fácil de alguma velhinha atiradora de elite trabalhando para o Vaticano…
Responder
22 de dezembro de 2010 às 11h01
Sou um leitor assíduo do seu blog (assíduo não porque ATUALIZAÇÕES não são bem o seu forte, rçrçr) e fiquei surpreso ao ver que o meu ambiente de trabalho foi o motivo deste post. Eu sou um daqueles uniformizados de camisa branca e calça preta, que quando estão fora do administrativo servem basicamente pra indicar onde ficam os sanitários.
Uma pena, pois se eu soubesse que você viria eu poderia, sei lá, ter te oferecido um tour (?) exclusivo (??) pelos melhores pontos para se visitar aqui, o que basicamente inclui a única lanchonete decente da cidade (isso é bem valioso, na verdade), alguns pontos da igreja que são muito bonitos (viu a capela da ressurreição? além de ser bonita, parece cenário de filme do dan brown) e, sei lá, o único bobs numa cidade com menos de 40 mil habitantes. E a cidade vizinha (guaratinguetá, onde eu moro) tem umas coisas bacanas, mas todas elas são na área rural a muitos kilômetros de estrada de terra. Além do que eu poderia ter te levado no mirante DE GRÁTIS, ein. Oportunidade imperdível. Eu trabalho na torre onde ele fica, aquela mais alta.
No mais, falando sério, tu até que foi legal em alguns pontos que dava pra meter mais pau. Acredite se quiser, não só as velhinhas que sofrem com o calor, nós trabalhamos sem o valioso auxílio de ar condicionado também, até porque condições dignas de trabalho não constam na bíblia.
E se você ficou surpresa com a vela de LED, é porque não viu nenhuma propaganda da VELA VIRTUAL que você pode acender via SMS. Tem no site também.
Sobre a sala das promessas, you’ll shit bricks se ouvir as histórias dos funcionários sobre aquele lugar. É tudo mais assustador do que sonha a sua vã filosofia.
Enfim, isso aqui é um império do caralho, não dá nem pra você ter noção. Mas depois que ler esse comentário apaga ae pros bróders porque esse lance de falar mal da própria empresa é ANTIÉTICO e dá justa causa. Mas eu ligo pouco pra isso, de qualquer forma.
Responder
22 de dezembro de 2010 às 15h32
Esse é o melhor comentário desse post! Tenho mesmo que apagar?
Responder
22 de dezembro de 2010 às 17h17
Apaga não, please! Aproveita e dá uma olhada nesse vídeo:
Será que é do pessoal de Varginha q vc mencionou? =P
Responder
22 de dezembro de 2010 às 17h53
Você pode até não apagar, mas fica aqui um contrato: ao não apagar, você está automaticamente concordando com um contrato em que, em caso de eu ser demitido, você me assegura um novo emprego com uma remuneração igual ou maior.
Tá tirano, brow, aqui tem até ANALISTA DE REDES SOCIAIS, tá fácio pra ninguém não.
Responder
22 de dezembro de 2010 às 20h52
Tá difício memo…
22 de dezembro de 2010 às 13h21
Meio tenso esse lance do policial ser sempre reprovado no psicológico.
Responder
22 de dezembro de 2010 às 15h31
Que bom q Deus quis dar uma arma pro cara q tinha sido reprovado várias vezes no teste psicológico.
Responder
22 de dezembro de 2010 às 22h42
E hoje, na maravilhosa série “Ana K. não consegue focar no tópico do assunto”: Pq vc estava na UTI?
Responder
23 de dezembro de 2010 às 13h17
Eu tive pneumonia e quase morri (mesmo).
Responder
22 de dezembro de 2010 às 22h51
Ana,
Concordo com alguns pontos que vc colocou no post, mas discordo da tua explicação sobre a lógica das promessas.
Sempre encarei uma promessa como uma forma de mostrar a Deus que se é capaz de fazer concessões, sacríficios e esforços, mostrando a Ele que ver uma pessoa querida livre de uma doença pesa mais do que “acender uma vela da altura dela e subir uma escadaria de joelhos”, por exemplo. Não consigo enxergar uma promessa como uma espécie de show de calouros maluco – Valendo uma cura: quem consegue subir a escada de joelhos?! – ou algo do gênero.
Tenho certeza que essa minha visão é ajudada pelo fato de ter sido criado em um lar católico. Também tenho certeza de que, se eu fosse à Meca, muita coisa me causaria estranheza já que não tenho a mesma fé que aqueles que a construíram. Talvez a diferença (ou ausência) de fé explique o motivo pelo qual você achou tão estranha a sala de promessas.
Em tempo: se esse post foi criado para causar polêmica e atrair pageviews, sugiro criar outros do estilo “Eu em/na/no “, substituindo por IURD, mesquita, Auschwitz, e Meca – que, aliás, também não deve ter ar-condicionado.
Responder
23 de dezembro de 2010 às 13h17
Não foi não, Porcho. Concordo contigo que a motivação original da promessa é bem interessante, e acredito, como você, que tem a ver com mostrar que você é capaz de pequenas concessões. Minha crítica fica no âmbito de como isso foi subvertido, ao ponto de chegarmos ao ‘acenda vela via SMS’, como comentou o amigo por aqui.
Responder
Trackback por Daniel Rebin
23 de dezembro de 2010 às 0h03
RT @ana_freitas: Eu em Aparecida http://bit.ly/epQs7l
Trackback por Natalia Tinoco
23 de dezembro de 2010 às 1h47
RT @ana_freitas: No EYEMETER: Eu em Aparecida. Imperdível, amgs http://oesquema.com.br/olhometro/2010/12/22/eu-em-aparecida/
23 de dezembro de 2010 às 19h30
Notàvel. Eu tambèm jà fui là para pagar uma promessa da minha mae, para mim.
Responder
23 de dezembro de 2010 às 20h13
Eu estive em Roma no ano passado, e por lá todas as igrejas usam velas eletrônicas. O motivo é simples: igrejas costumam ter obras de arte valiosas, e a fumaça da vela tradicional, com o tempo, forma uma camada que danifica a pintura. O teto da Capela Sistina passou por restauração recente para tirar a sujeira, e isso não precisaria ser feito se as velas fossem com LED. Imagine se aqui no Brasil perdessemos os tetos super bem trabalhados das igrejas de Ouro Preto, por exemplo?
Responder
24 de dezembro de 2010 às 22h50
Só uma observação: não se cede lugar ao idoso por meritocracia, é que né, quando você tem 73, ficar em pé por muito tempo pode tipo, doer.
Responder
25 de dezembro de 2010 às 14h51
Nos sabemos, S. Era brinks
Responder
30 de dezembro de 2010 às 4h56
Caralho! nem assustei quando li varginha, somos um povo sem nocao (?) não é atoa que me chamam de esquisita na universidade.
Responder
Trackback por Sarah Alves Toledo
30 de dezembro de 2010 às 4h57
destaque para os motoqueiros de varginha, nem um pouco excentricos! RT @ana_freitas: Eu em Aparecida http://bit.ly/epQs7l
5 de janeiro de 2011 às 18h08
Agora espero o post que você vai esculachar um templo budista, uma mesquita, um templo judeu. Evangélico não vale, já é zuado o bastante, ok?
Responder
12 de janeiro de 2011 às 23h35
Não foi não, Porcho. Concordo contigo que a motivação original da promessa é bem interessante, e acredito, como você, que tem a ver com mostrar que você é capaz de pequenas concessões. Minha crítica fica no âmbito de como isso foi subvertido, ao ponto de chegarmos ao ‘acenda vela via SMS’, como comentou o amigo por aqui.
Responder
19 de janeiro de 2011 às 11h34
Acender vela por sms é brincadeira, né? Fala sério! A que ponto nós chegamos.
Quanto a sala das promessas, puts! vc escreveu tudo o que eu pensei quando eu estive lá, aquele lugar é bizarro. Não sei se ainda tem um caminhão no meio da sala com umas pessoas dentro (leia-se bonecos) dentro, tinha boneco vestido de Mariachi.. Haha Ainda tem isso? E quanto ouro não?? Impressionante!
Responder
17 de fevereiro de 2011 às 15h36
MUITO curiosa pra saber as histórias da sala dos milagres..
Conta uma ai?!?!?
=D
Responder