OEsquema

Arquivo: abril de 2011

Garota de Berlim por dois dias

Em dois dias em Berlim, eu vi mais de quatro pessoas com o nariz sangrando. Some isso à fama de belicosos dos alemães e você pensará que lá todo mundo se soca frequentemente. Mas não se tratava de porrada comendo solta, é claro, dado que os Berlinenses são muito tolerantes e civilizados: era só o sol forte no cucuruto (ou cocoruto? ou cucoruto?) mal acostumado às altas temperaturas o provável causador da hemorragia coletiva.

(Pronto, esqueceu o título infame, né? Vim aqui te lembrar)

Oi

Classificam Amsterdam como a capital do ‘aqui pode tudo’, mas Berlim sim devia ficar em primeiro no quesito tolerância. Porque lá, apesar de tudo, os imigrantes parecem bem mais misturados aos nativos do que seriam aqui ou na Bélgica, por exemplo. E as pessoas são diferentes como querem. Há uma desorganização natural de cidade muito grande em Berlim, que chega até a lembrar São Paulo, e que permita que todos os tipos de habitantes de centros urbanos saiam das tocas como queiram e a hora que queiram. Dez da noite, óculos escuro, cachecol e bermuda em um frio de 8 graus? Ok. O sol torrando às 14h e chega um grupo de sobretudo, cabelo roxo e mais piercings do que eu fui capaz de contar? Ok, também. Esses tipos são mais difíceis de encontrar em Amsterdam, que é mais uma praça da Sé da Europa. Berlim é como a Augusta daqui.

Em Berlim, souvenir é ushanka (o chapeuzinho russo), máscara de gás e bandeira com a foice e o martelo

Dizem que os alemães são travados, frios. Mas em poucos lugares do mundo um grupo de quase duas mil pessoas sóbrias, dentro de um parque em um domingo de sol, se disporia a participar de um karaoke a céu aberto. Na maioria dos lugares que eu conheço, o MC responsável pela ideia teria dificuldade em encontrar gente sóbria com coragem de se apresentar informalmente em frente a um bando de gente desconhecida. No Mauerpark, em Berlim, as mais de cinco horas que o dono do karaoke dedica à atividade são poucas diante da quantidade de gente que escolhe uma canção pra interpretar. Tem de tudo, de gente tímida à performances dignas de um Berliner Idol.

E isso é só metade (o que coube na foto) da galera que foi ver o karaoke no Mauerpark

E se, dizem, Milão é espelho das passarelas, Berlim é o que dita o que estará nas passarelas ou não. O engraçado é que lá todo mundo se veste bem, homens e mulheres, dos 12 aos 72. E quando você olha pra todos eles fica muito claro que eles não fizeram esforço nenhum pra se vestir tão bem, e a maioria nem sequer gastou muita grana. Eles simplesmente sabem.

Berlim tem museus estonteantes. Digo, isso é o que tava escrito no folhetinho e o que dava pra dizer só de olhar os prédios de fora. Eu só fui mesmo em um deles, que aliás, deveria ser o único museu a visitar em Berlim se você for escolher só um museu para ir em Berlim.

Chama Pergammon e tem milhares de obras de arte e artefatos super ultra muito antigos. Tipo, o Pergammon levou o conceito de MUSEU realmente a sério aqui, porque as peças mais novas têm algo como uns 2200 anos. Tem um templo grego quase inteiro montado dentro do museu. Tapeçarias árabes de 3000 anos atrás, jóias, vasos, estátuas com textos em Aramaico ao longo do corpo são comuns nos corredores. É impressionante. E também faz você se sentir insignificante, mas acho que essa deve ser a definição de um bom museu: ele te faz sentir insignificante.

 

Isso é um templo grego quase inteiro (chamado Pergammon, heh) dentro de um museu

Contrariando meu post anterior, eu resolvi pagar um tour guiado por Berlim. Em espanhol, mesmo sabendo que teria problema em acompanhar o espanhol ibérico, já que – apesar de mais fácil, na minha opinião – ele é bem diferente do sotaque colombiano/panamenho ao qual me acostumei. E de repente, o cara abriu a boca e eu compreendia tudo. Me achei um prodígio dos idiomas, fiquei radiante.

Mas aí alguém mencionou e eu percebi: ele era gago. Isso explicava muito coisa.

O guia-gago espanhol, que aliás falava galego então entendia meu português, nos levou aos principais pontos históricos de Berlim, que são mais de uma dúzia só no centro da cidade e juntos contam basicamente a história do mundo moderno. Quer dizer, também contam um pouco de história mais antiga, até. Seis horas em Berlim substituem uns dois anos de aulas ruins de história no ensino fundamental. De prédios de 400 ou 500 anos que nunca precisaram ser restaurados, a prédios de 50 anos cheios de marcas de balas que precisaram ser restaurados tipo doze vezes, a cidade é um paraíso pra quem gosta de história.

Napoleão passou por aí, gostou, levou pra França. Os alemães foram lá, ganharam a guerra, pegaram de volta. Heh

Depois do tour, de ouvir mais e mais sobre a história daquele maluco de bigodinho, me dei conta. Hitler tinha tudo, tudo pra ter sido um desses malucos que moram no ponto de ônibus e começam a berrar incisivamente (ele sabia fazer isso, falar cuspindo) sobre alguma teoria maluca que não faz nenhum sentido. Dessas que você escuta atentamente justamente porque são muito mirabolantes. Entre uma observação e outra sobre como ele seria escolhido para liderar a raça ariana até a hegemonia étnica, e como transformaria Berlim na Germania, que seria a capital do mundo puro, ele daria um gole em uma garrafa de gin barato. Daí seu ônibus chegaria e você nem ia lembrar do cara – talvez comentasse do louco engraçado pra um ou dois amigos.

A Alemanha é um lugar tão peculiar que lá esse cara louco virou chefe de Estado. E quase botou sua fantasia nonsense em prática. Claro que existe um contexto: o orgulho nacional enfraquecido pós I guerra, a falta de emprego generalizada (e o fato de Hitler ter criado emprego)… AINDA ASSIM, ELE PODIA TER SIDO UM INDIGENTE.

Fala aí, se não tinha potencial pra mendigão/pregador? E BREAKING NEWS, a Wikipedia me conta que ele realmente JÁ FOI UM MENDIGO! E que os outros mendigos chamavam ele de Ohm Kruger (tio Kruger). Mais info na mãe dos burros.

Na Alemanha, senti falta de conhecer alemães. Eu até ensaiei dizer que eles não são amigáveis com turistas, mas não é exatamente isso. É que, além de não falarem inglês tanto e tão bem quando os holandeses, os alemães aplicam o ‘não tô nem aí pros outros’ que vivem no dia-a-dia também com os turistas. O motivo pelo qual nós brasileiros recebemos turistas com tanta atenção é porque eles são novidade. Aqui na Europa tem tanto estrangeiro que ninguém se preocuparia em tratá-los bem.

Hauptbanhof, a estação de trem que só não é um shopping porque shopping não tem trilho de trem dentro, cheia de alemães que não sabem falar inglês

Se eu falasse alemão, ainda, talvez tivesse mais chances. Mas fiquei encabulada de sair falando inglês assumindo que eles entederiam. Me parece um pouco insensível fazer isso com um bando de gente que durante trinta anos ficou refém de um jogo de estratégia onde eles, sua língua e sua cultura eram tratados como desimportantes frente ao russo, ao francês e, especialmente, ao inglês.

Um dos lugares mais famosos da cidade, o checkpoint Charlie, onde costumava ficar um dos acessos no muro. A placa dá uma ideia da importância que a língua alemã (e portanto, os alemães) não tinha durante a guerra fria, HEH

Senti falta, também, de mais referências à história de Hitler e dos soldados alemães. Há monumentos e museus e homenagens a todos os grupos envolvidos na 2ª GM: aos judeus, aos gays, aos testemunhas de jeová, aos soldados russos, americanos, franceses… todos eles têm memoriais em sua homenagem. Como se fosse possível esquecer o que Adolf (tô íntima) fez, eles querem fingir que nada aconteceu e assim acabam apagando a história do cara (Mein Kampf não pode ser editado na Alemanha, por exemplo) e daqueles que lutaram ao lado dele. Óbvio que eles não merecem homenagens ou memoriais, mas essa vibe tipo ‘gente, vamo falar de coisa boa, TEKPIX! Esquece isso de Holocausto’ eu acho que não cola. A história das pessoas responsáveis pelas coisas horríveis não está em lugar nenhum em Berlim. :/

Foto 'TÔ CURTINO BERLIN MUITAUM11!!11' no monumento em homenagem aos judeus mortos no holocausto, cuja disposição das pedras, aliás, lembra lápides e é meio opressora: você está fazendo isso errado


13 Comentários

Meu jeito de viajar

Quando eu viajo, eu costumo ser uma companhia frustrante pra maioria das pessoas que viajam comigo. É que eu não sinto vontade, exatamente, de visitar os pontos turísticos “imperdíveis”. Na verdade, eu acho a maioria deles bem perdíveis.

Só que isso geralmente provoca indignação nas pessoas que me perguntam o que eu fiz e onde fui. Na verdade, elas parecem achar meus programas bem entediantes. E acaba que eu fico meio sem graça de contar o que eu fiz, porque pra algumas pessoas, se eu não fui no museu, no bairro dos turistas ou nos monumentos históricos, eu não fiz nada que valesse a viagem.

Você achava que entendia de Matrioshkas? Essas estão à venda no Waterlooplein Market, em Amsterdam

Acontece que, quando eu viajo, meu barato é ler um pouco sobre a cidade, aprender duas dúzias de expressões, mais meia dúzia de pratos típicos, pegar o mapa e sair andando. Se possível, de bicicleta ou de skate. E aí eu vou vendo as pessoas e os lugares, aprendendo a me locomover, olhando os nomes das ruas, vez ou outra parando em um ou outro ponto turístico que cruzar meu caminho. Gosto de comprar umas tranqueiras, de parar pra comer algo e pedir alguma coisa que eu nunca provei antes na vida.

Esses são os famosos campos de tulipas. Esse fica em Den Haag

Em dois meses aqui, eu já fui a Amsterdam umas três ou quatro vezes, pra passar o dia, quase sempre. Eu moro mais ou menos a uma hora e pouco de lá, o que dá um ônibus e um trem e demanda certo planejamento, mas nada que alguém que seja de Santo André não esteja acostumada. Daí eu volto pra casa, e ouço: “E aí, o que você fez em Amsterdam?”

Sucateada mesmo essa profissão, gente. OAB duvido que eles tenham

Eu tenho vontade de responder que fiquei horas só olhando os canais, olhando pra dentro daqueles barcos-casas, observando os moradores na varanda enquanto eles, bem europeus, leem um livro e tomam chá. Que depois, eu fiquei mais meia hora brincando de tentar adivinhar de que país as pessoas são só de olhar pra elas. E que aí eu fui no Vondelpark e fiquei sentada na grama só vendo como os holandeses transformam qualquer dia de sol em um grande festival ao ar livre improvisado de última hora. Ou que depois, eu fiquei meia hora sentada no meio da Dam Square, assistindo uma dupla tocar algo que lembrava Dire Straits, e em seguida fui à Spui pra garimpar livros baratos em uma daquelas livrarias geniais. Que eu passei horas só tirando fotos, e outra hora conversando em uma mistura de italiano e espanhol com o tiozinho da barraquinha de hot dog americano. Que eu preferi passar uma estação de trem e depois voltar só pra poder assistir um pouco mais da paisagem, que eu peguei a bicicleta e sai pedalando entre uma cidade e outra só pra saber onde ia dar.

6 graus na Dam, e a galera fazendo fogueira "em homenagem à vítimas do Tsunami no Japão". Sei

Mas quando eu tento dizer essas coisas, parece tudo um pouco chato. Até pra mim não soa como algo grande e empolgante pra se fazer em Amsterdam, sabe? Porque eu não vi o museu do Van Gogh, nem a casa da Ana Frank, nem o museu de cera, muito menos o museu da Heineken. Não tirei foto em I Amsterdam. Na Argentina, eu não fui ao Caminito. Em Barcelona, eu não vi a Sagrada Família. No Rio, Cristo Redentor e Pão de Açúcar, só em cartão postal.

SCIENTOLOGY CHURCH! ESTOU SALVA!

E não é que eu me programei pra não fazer o roteiro turístico, porque isso também seria de uma estupidez absurda. É simplesmente que eu prefiro que meu primeiro contato com a cidade, nossa primeira troca de olhares e tal, seja a mais pessoal possível. Gosto de andar nela, fazer parte dela, entendê-la de verdade. Museu e ponto turístico eu deixo pra quando o nosso relacionamento já estiver bem maduro.

A VILA, num bosque entre Leiden e Den Haag

Então eu acabo dizendo que eu comi alguma coisa, tomei um café, encontrei um amigo, essas coisas mais aceitas socialmente. Eles perguntam dos museus, insistem, e eu fico meio sem graça, tipo.. “aaahhn, não fui em nenhum museu”. E eu obviamente tenho nada contra museus (a propósito, existe alguém contra ou a favor de museus? Tipo, da existência deles? “Museus” não costuma ser um tópico polêmico). Mas sempre deixo eles (os museus) pro final. E se tenho poucas horas ou dias na cidade, bem, museus definitivamente não são prioridade.

A melhor casa de todas, com a bike mais legal de todas. Na água

 

E as pessoas que escutam parecem sempre me achar meio estúpida por ir a Amsterdam só pra comer e tomar um café, afinal, não é como se Wassenaar não tivesse restaurantes e cafeterias. Por isso inclusive que eu incluo o “encontrar um amigo” no roteiro, porque aí se torna mais compreensível. Dizer que eu fui tomar um café e passei a tarde inteira observando as pessoas sozinha é algo teoricamente inaceitável.

É assustador, eu sei. Em Leiden

As fotos desse post são de coisas que eu achei só porque saí sozinha por aí nos lugares mais improváveis. Não tenho fotos óbvias, mas tenho essas. Elas provam que meu jeito estranho de viajar às vezes me rende achados curiosos, sim. E vou ter tempo suficiente pra tirar as fotos óbvias, também. :) Porque é meio como a Helô me disse no GTalk:

quando vc quiser ver obra de arte do século 16, é só ir ao museu e ver
é claro que se der vontade de ir ao museu, vá
porque museu é legal
(…)
mas importante mesmo é entender a cidade
ver como as pessoas vivem
zanzar
comer na barraquinha
aprender a gíria
andar de metro
essas coisas
igreja e museu vc pode ver quando tiver 40 anos, casada, com filhos

O pôr-do-sol que eu teria perdido, pra sempre, se tivesse escolhido ir de ônibus e não de bike até Den Haag um dia desses

30 Comentários

Um roteiro da cobertura jornalística na tragédia do Rio

A cobertura da chacina na escola no Realengo, no RJ, tá seguindo um roteiro bizarro, quase sempre igual, nos grandes portais de notícia. Segundo minha observação minuciosa, os elementos principais da cobertura geral do caso consistem, já nas manchetes, em vídeos e fotos muito, muito gráficos – geralmente envolvendo sangue – do louco (Wellington era o nome dele) morto ou das crianças correndo por suas vidas.

Carta do Assassino do Rio de Janeiro

A essa altura, você já sabe que essa é a carta bizarra que ele deixou. Não vou por a foto do cara morto aqui porque seria um pouco contraditório e a foto é realmente forte - e não que eu me importe muito com a contradição, é mais por causa do teor da imagem mesmo. De todo modo, ela está disponível no Flickr do Jornal da Tarde.

Daí, segue um vídeo ou entrevista em texto com um pesquisador em educação ou violência e um jornalista procurando um padrão em um caso que é, claramente, uma exceção bizarra. É fora da curva, gente. Não adianta tentar analisar a situação como um fenômeno social, não é. O assassino era doente mental, fez uma barbaridade, mas felizmente é uma exceção. Certamente, não é com esse tipo de violência em escolas que devemos nos preocupar – a violência que acontece em colégios como padrão é outra, uma que de tanto a gente ler por aí nem é mais notícia.

Aí tem sempre alguém culpando o fato de o Wellington ter conseguido entrar na escola sem ser funcionário ou professor, e esquecendo que a escola é um espaço público, comunitário, e que o ponto não é ele ter entrado ou não na escola – afinal, ele é ex-aluno, provavelmente conseguiria entrar de um modo ou de outro. No entanto, ninguém questiona o fato de que o problema é ele entrar na escola ARMADO COM TRÊS PISTOLAS E MUNIÇÃO PRA MATAR TRÊS CRIANÇAS.

Ontem, tínhamos elementos até humorísticos na cobertura. Na Record, parece, rolou um GC (gerador de caracteres, aquela faixa que vai embaixo da tela explicando o que tá acontecendo) escrito URGENTE: DILMA CHORA.

Dilma chora durante discurso em reunião do Diretório Nacional do PT

Gente, não é assim tão novidade. Ela chorou na posse, lembram? Acho que já não há mais dúvida que a presidenta é capaz, SIM, de chorar!

Em seguida, vem uma matéria endeusando o policial que pegou o assassino. Não desmerecendo o PM, mas devemos reconhecer que ele estava (felizmente) no lugar certo e na hora certa fazendo a obrigação dele. Aliás, obrigação dele era ter impedido, mas enfim, ele era PM Rodoviário, então esse caso é provavelmente a coisa mais emocionante que aconteceu na vida dele (ei vô, to brincando. Eu respeito muito Policiais Rodoviários, sei que o senhor teve muitas histórias emocionantes).

Mas tratar o cara como herói? Ele nem sequer matou o assassino (VEJA, não estou dizendo que isso é ruim. Pelo contrário, achei muito responsável atirar só na perna, só quero saber se foi proposital ou se ele errou o tiro mesmo, dado que Wellington corria no momento em que foi antigido).

Nos comentários, tem sempre alguém dizendo-se infeliz pelo rapaz ter se matado, porque acha que ele sofreu pouco, e gostaria de poder vê-lo ser torturado na cadeia ou morrer, sei lá, de repente de maneira mais cruel, né? Ou então, gente dizendo que ele é a prova de que todos os fanáticos religiosos deveriam morrer, sem notar que pregar isso também é uma maneira de fanatismo tão escrota quanto.

Não se trata de fanatismo religioso, de padrão social. Wellington era desequilibrado, ponto. O que deveria ser questionado, o que a cobertura do caso deveria realmente trazer à tona, não é a falta de segurança nas escolas estaduais. É o acesso fácil que uma pessoa desequilibrada como ele, que além de louco era pobre – ganhava 400 reais por mês num emprego que tinha largado há seis meses – tem a muito armamento e munição.

Relatos dão conta que ele não tinha amigos, era introspectivo e vivia na internet. Eu não me espantaria se começassem a culpar a falta de vida social e o excesso internet pelo crime, ou então A PRÓPRIA INTERNET, quando vasculharem os históricos de acesso dele e descobrirem o tipo de material que ele lia. Mas questionar a questão do armamento, em um país cuja população há poucos anos votou contra o desarmamento, isso não rola. Ontem vi uma materiazinha em algum portal dando conta que entre cada 10 armas ilegais apreendidas pela polícia, 8 são de fabricação nacional. Quédizê

E a cereja do bolo na cobertura são os relatos da menina Jade. Menina Jade, como Menina Isabela e Menina Eloá, vai virar uma entidade assim, com esse recém chegado status de ‘Menina’. E não é pra muitas: ela e a Menina Maísa são as duas únicas figuras nesse panteão de Meninas que continuam vivas – as outras duas ganharam o status de Menina, coitadas, justamente por terem sido mortas.

A foto é do Tasso Marcelo, lá da Agência Estado (gente, que saudade de fazer uma legenda de foto com /AE)

Eloquente e incisiva, a Menina Jade descreve com desenvoltura detalhe por detalhe do que passou dentro da escola. Sua falta de emoção e racionalidade, provocados suponho pelo choque pelo qual ela passou – não me surpreenderia se ele desenvolvesse algum trauma ou, sei lá, chorasse sem parar pelos próximos 20 dias seguidos – chega a assustar. Ela repete as frases do assassino, a das crianças. Descreve o que viu, sangue e gritos inclusos. A parte preferida dos jornalistas é aquela em que Jade diz que, para se acalmar, desenhou na própria mão (não os culpo, colegas; a imagem é forte mesmo, também seria minha preferida. Instintivamente). Aí os caras de bloquinho na mão piram. Os que seguram câmeras pediram até pra ela mostrar (Consigo ouvir um “Jade, você pode mostrar pra gente como foi que desenhou na sua mão?”, um pedido que soa estúpido porque né, eu e você e todos sabemos com o que se parece alguém desenhando na própria mão. Mas a foto valia o pedido estúpido).

A única coisa que ninguém fez ainda foi prender a mãe dessa menina PELO CORTE DE CABELO QUE ELA COMETEU NESSA CRIANÇA. Gente, o que está acontecendo ali?

22 Comentários