8 de abril de 2011 às 8h42
Um roteiro da cobertura jornalística na tragédia do Rio
A cobertura da chacina na escola no Realengo, no RJ, tá seguindo um roteiro bizarro, quase sempre igual, nos grandes portais de notícia. Segundo minha observação minuciosa, os elementos principais da cobertura geral do caso consistem, já nas manchetes, em vídeos e fotos muito, muito gráficos – geralmente envolvendo sangue – do louco (Wellington era o nome dele) morto ou das crianças correndo por suas vidas.

A essa altura, você já sabe que essa é a carta bizarra que ele deixou. Não vou por a foto do cara morto aqui porque seria um pouco contraditório e a foto é realmente forte - e não que eu me importe muito com a contradição, é mais por causa do teor da imagem mesmo. De todo modo, ela está disponível no Flickr do Jornal da Tarde.
Daí, segue um vídeo ou entrevista em texto com um pesquisador em educação ou violência e um jornalista procurando um padrão em um caso que é, claramente, uma exceção bizarra. É fora da curva, gente. Não adianta tentar analisar a situação como um fenômeno social, não é. O assassino era doente mental, fez uma barbaridade, mas felizmente é uma exceção. Certamente, não é com esse tipo de violência em escolas que devemos nos preocupar – a violência que acontece em colégios como padrão é outra, uma que de tanto a gente ler por aí nem é mais notícia.
Aí tem sempre alguém culpando o fato de o Wellington ter conseguido entrar na escola sem ser funcionário ou professor, e esquecendo que a escola é um espaço público, comunitário, e que o ponto não é ele ter entrado ou não na escola – afinal, ele é ex-aluno, provavelmente conseguiria entrar de um modo ou de outro. No entanto, ninguém questiona o fato de que o problema é ele entrar na escola ARMADO COM TRÊS PISTOLAS E MUNIÇÃO PRA MATAR TRÊS CRIANÇAS.
Ontem, tínhamos elementos até humorísticos na cobertura. Na Record, parece, rolou um GC (gerador de caracteres, aquela faixa que vai embaixo da tela explicando o que tá acontecendo) escrito URGENTE: DILMA CHORA.

Gente, não é assim tão novidade. Ela chorou na posse, lembram? Acho que já não há mais dúvida que a presidenta é capaz, SIM, de chorar!
Em seguida, vem uma matéria endeusando o policial que pegou o assassino. Não desmerecendo o PM, mas devemos reconhecer que ele estava (felizmente) no lugar certo e na hora certa fazendo a obrigação dele. Aliás, obrigação dele era ter impedido, mas enfim, ele era PM Rodoviário, então esse caso é provavelmente a coisa mais emocionante que aconteceu na vida dele (ei vô, to brincando. Eu respeito muito Policiais Rodoviários, sei que o senhor teve muitas histórias emocionantes).
Mas tratar o cara como herói? Ele nem sequer matou o assassino (VEJA, não estou dizendo que isso é ruim. Pelo contrário, achei muito responsável atirar só na perna, só quero saber se foi proposital ou se ele errou o tiro mesmo, dado que Wellington corria no momento em que foi antigido).
Nos comentários, tem sempre alguém dizendo-se infeliz pelo rapaz ter se matado, porque acha que ele sofreu pouco, e gostaria de poder vê-lo ser torturado na cadeia ou morrer, sei lá, de repente de maneira mais cruel, né? Ou então, gente dizendo que ele é a prova de que todos os fanáticos religiosos deveriam morrer, sem notar que pregar isso também é uma maneira de fanatismo tão escrota quanto.
Não se trata de fanatismo religioso, de padrão social. Wellington era desequilibrado, ponto. O que deveria ser questionado, o que a cobertura do caso deveria realmente trazer à tona, não é a falta de segurança nas escolas estaduais. É o acesso fácil que uma pessoa desequilibrada como ele, que além de louco era pobre – ganhava 400 reais por mês num emprego que tinha largado há seis meses – tem a muito armamento e munição.
Relatos dão conta que ele não tinha amigos, era introspectivo e vivia na internet. Eu não me espantaria se começassem a culpar a falta de vida social e o excesso internet pelo crime, ou então A PRÓPRIA INTERNET, quando vasculharem os históricos de acesso dele e descobrirem o tipo de material que ele lia. Mas questionar a questão do armamento, em um país cuja população há poucos anos votou contra o desarmamento, isso não rola. Ontem vi uma materiazinha em algum portal dando conta que entre cada 10 armas ilegais apreendidas pela polícia, 8 são de fabricação nacional. Quédizê
E a cereja do bolo na cobertura são os relatos da menina Jade. Menina Jade, como Menina Isabela e Menina Eloá, vai virar uma entidade assim, com esse recém chegado status de ‘Menina’. E não é pra muitas: ela e a Menina Maísa são as duas únicas figuras nesse panteão de Meninas que continuam vivas – as outras duas ganharam o status de Menina, coitadas, justamente por terem sido mortas.

A foto é do Tasso Marcelo, lá da Agência Estado (gente, que saudade de fazer uma legenda de foto com /AE)
Eloquente e incisiva, a Menina Jade descreve com desenvoltura detalhe por detalhe do que passou dentro da escola. Sua falta de emoção e racionalidade, provocados suponho pelo choque pelo qual ela passou – não me surpreenderia se ele desenvolvesse algum trauma ou, sei lá, chorasse sem parar pelos próximos 20 dias seguidos – chega a assustar. Ela repete as frases do assassino, a das crianças. Descreve o que viu, sangue e gritos inclusos. A parte preferida dos jornalistas é aquela em que Jade diz que, para se acalmar, desenhou na própria mão (não os culpo, colegas; a imagem é forte mesmo, também seria minha preferida. Instintivamente). Aí os caras de bloquinho na mão piram. Os que seguram câmeras pediram até pra ela mostrar (Consigo ouvir um “Jade, você pode mostrar pra gente como foi que desenhou na sua mão?”, um pedido que soa estúpido porque né, eu e você e todos sabemos com o que se parece alguém desenhando na própria mão. Mas a foto valia o pedido estúpido).
A única coisa que ninguém fez ainda foi prender a mãe dessa menina PELO CORTE DE CABELO QUE ELA COMETEU NESSA CRIANÇA. Gente, o que está acontecendo ali?



23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 


Trackback por Ana Freitas
8 de abril de 2011 às 13h34
Como fazer a cobertura jornalística de uma chacina em uma escola do Rio, hj no Olhômetro http://migre.me/4cPkz
Trackback por Denise
8 de abril de 2011 às 13h35
RT @ana_freitas: Como fazer a cobertura jornalística de uma chacina em uma escola do Rio, hj no Olhômetro http://migre.me/4cPkz
Trackback por Fernanda Pineda
8 de abril de 2011 às 13h45
RT @ana_freitas: Como fazer a cobertura jornalística de uma chacina em uma escola do Rio, hj no Olhômetro http://t.co/08BLPWn”
Trackback por Achilles de Leo
8 de abril de 2011 às 13h50
Leiam >>> RT @ana_freitas Como fazer a cobertura jornalística de uma chacina em uma escola do Rio | http://migre.me/4cPkz
Trackback por lili_morales
8 de abril de 2011 às 13h52
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Trackback por nana tucci
8 de abril de 2011 às 14h00
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Trackback por Ana Paula Viana
8 de abril de 2011 às 14h01
Um roteiro da cobertura jornalística na tragédia do Rio http://me.lt/097TB Texto da @ana_freitas
8 de abril de 2011 às 14h02
Reflexão bacana, Ana! Beijoca, Nana
Responder
8 de abril de 2011 às 15h22
Ana, como você falou rapidamente sobre o referendo do desarmamento não deu pra entender se é contra ou a favor… Só queria esclarecer uma coisa. A campanha do desarmamento não valeu de nada, na verdade só valeu pra piorar a situação; Porque hoje, o sujeito de boa-fé que quer comprar uma arma, seja qual for o motivo (mora isolado na roça, quer praticar tiro esportivo), encontra muita, mas muita dificuldade mesmo. No entanto, vagabundos e malucos (como o do caso do Rio) continuam tendo o mesmo acesso de sempre………… o desarmamento do cidadão de bem só vai funcionar depois que os marginais não tiverem mais acesso…. porque, hoje, desarmar o cidadão de bem é sacanagem, porque o Estado, claramente, não tem condição de nos oferecer segurança!!!
Valeu!
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Trackback por Evelyn K. M. Almeida
8 de abril de 2011 às 17h26
http://oesquema.com.br/olhometro/2011/04/08/um-roteiro-de-cobertura-jornalistica-na-tragedia-do-rio/
8 de abril de 2011 às 19h31
adorei o text ana, (tbm n entendi o corte de cabelo a lá EVRBODY HATES CHRIS) NEAM HAHA
saudade de vc aqui ó <3
Responder
Trackback por Carol
8 de abril de 2011 às 21h01
RT @ana_freitas: Um roteiro da cobertura jornalística na tragédia do Rio http://bit.ly/eiSOX4
9 de abril de 2011 às 1h39
fantástico
Responder
Pingback por 12 crianças mortas com tiros na cabeça - Trabalho Sujo - OESQUEMA
9 de abril de 2011 às 15h22
[...] distância (ela tá na Holanda), Ana consegue observar alguns detalhes de como a tragédia que aconteceu no Rio de Janeiro está send…. O slideshow acima eu tirei do blog Coluna Extra. « Apaga la tele | » Por [...]
Trackback por Rafael de Paula
9 de abril de 2011 às 15h48
RT @ana_freitas: Um roteiro da cobertura jornalística na tragédia do Rio http://bit.ly/eiSOX4
9 de abril de 2011 às 18h03
O que essa galera que cobre essas atrocidades nunca vai se ligar é no fato que de quanto mais falam e sensacionalizam a história, mais vai aparecer maluco pra buscar num crime grande um motivo p/ se matar fazendo algo “memorável”. Enquanto os apresentadores gastam saliva adjetivando o fato e os repórteres criam perguntas criativas como “e aí mãe da vítima, como vc se sente?”, a gente também vai sendo metralhado por uma falta de respeito nojenta dessa galera que só quer aparecer na tragédia. Por isso que eu nunca vou trabalhar com isso.
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9 de abril de 2011 às 16h04
Xi, alguem chegou à desilusao com o jornalismo… Acontece com todos nos. Alguns se recuperam, outros nao…
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Trackback por brunociro
9 de abril de 2011 às 20h36
RT @ana_freitas: Como fazer a cobertura jornalística de uma chacina em uma escola do Rio, hj no Olhômetro http://migre.me/4cPkz
Trackback por Ariel Cardeal
9 de abril de 2011 às 21h35
A cobertura do espetáculo em torno 'massacre do Realengo' http://ow.ly/4wPaL vale a pena ler.
10 de abril de 2011 às 18h03
Ontem ouvi no rádio que os policiais chegaram na casa do garoto e o computador estava queimado. Pronto, a culpada foi a FALTA da internet!!
Mto legal o texto Ana, espero q esteja curtindo aí!
Bjão!
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11 de abril de 2011 às 11h42
Ignoro completamente este assunto e me afasto de qualquer discussão porque eu realmente não tenho nada a dizer para contribuir com nada.
Além de ser um assunto pesado que não deixa ninguém com um humor melhor.
Não tenho argumento nenhum para tal, mas a unica impressão que eu tenho é que essas tragédias servem para que a sociedade, de tempos em tempos, tenha um alvo para apontar o dedo. Pra botar um culpado por coisas que estão podre de forma coletiva.
E, porra, cada vez que eu leio o termo “cidadão de bem” eu faço um roll eyes TÃO GRANDE que consigo enxergar minha medula.
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12 de abril de 2011 às 0h21
Um dos poucos textos lúcidos que eu já li sobre o massacre do Realengo. Vc tocou em todos os pontos que eu tinha pensado antes: “especialistas” tentando achar um padrão para um caso excepcionalíssimo, destaque para a Dilma chorando, e o corte de cabelo horrendo da “menina” Jade.
Só ñ sei se vc reparou tb: o policial que atirou no homem era a cara da Dilma Rousseff, não?
Responder