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Meu jeito de viajar

Quando eu viajo, eu costumo ser uma companhia frustrante pra maioria das pessoas que viajam comigo. É que eu não sinto vontade, exatamente, de visitar os pontos turísticos “imperdíveis”. Na verdade, eu acho a maioria deles bem perdíveis.

Só que isso geralmente provoca indignação nas pessoas que me perguntam o que eu fiz e onde fui. Na verdade, elas parecem achar meus programas bem entediantes. E acaba que eu fico meio sem graça de contar o que eu fiz, porque pra algumas pessoas, se eu não fui no museu, no bairro dos turistas ou nos monumentos históricos, eu não fiz nada que valesse a viagem.

Você achava que entendia de Matrioshkas? Essas estão à venda no Waterlooplein Market, em Amsterdam

Acontece que, quando eu viajo, meu barato é ler um pouco sobre a cidade, aprender duas dúzias de expressões, mais meia dúzia de pratos típicos, pegar o mapa e sair andando. Se possível, de bicicleta ou de skate. E aí eu vou vendo as pessoas e os lugares, aprendendo a me locomover, olhando os nomes das ruas, vez ou outra parando em um ou outro ponto turístico que cruzar meu caminho. Gosto de comprar umas tranqueiras, de parar pra comer algo e pedir alguma coisa que eu nunca provei antes na vida.

Esses são os famosos campos de tulipas. Esse fica em Den Haag

Em dois meses aqui, eu já fui a Amsterdam umas três ou quatro vezes, pra passar o dia, quase sempre. Eu moro mais ou menos a uma hora e pouco de lá, o que dá um ônibus e um trem e demanda certo planejamento, mas nada que alguém que seja de Santo André não esteja acostumada. Daí eu volto pra casa, e ouço: “E aí, o que você fez em Amsterdam?”

Sucateada mesmo essa profissão, gente. OAB duvido que eles tenham

Eu tenho vontade de responder que fiquei horas só olhando os canais, olhando pra dentro daqueles barcos-casas, observando os moradores na varanda enquanto eles, bem europeus, leem um livro e tomam chá. Que depois, eu fiquei mais meia hora brincando de tentar adivinhar de que país as pessoas são só de olhar pra elas. E que aí eu fui no Vondelpark e fiquei sentada na grama só vendo como os holandeses transformam qualquer dia de sol em um grande festival ao ar livre improvisado de última hora. Ou que depois, eu fiquei meia hora sentada no meio da Dam Square, assistindo uma dupla tocar algo que lembrava Dire Straits, e em seguida fui à Spui pra garimpar livros baratos em uma daquelas livrarias geniais. Que eu passei horas só tirando fotos, e outra hora conversando em uma mistura de italiano e espanhol com o tiozinho da barraquinha de hot dog americano. Que eu preferi passar uma estação de trem e depois voltar só pra poder assistir um pouco mais da paisagem, que eu peguei a bicicleta e sai pedalando entre uma cidade e outra só pra saber onde ia dar.

6 graus na Dam, e a galera fazendo fogueira "em homenagem à vítimas do Tsunami no Japão". Sei

Mas quando eu tento dizer essas coisas, parece tudo um pouco chato. Até pra mim não soa como algo grande e empolgante pra se fazer em Amsterdam, sabe? Porque eu não vi o museu do Van Gogh, nem a casa da Ana Frank, nem o museu de cera, muito menos o museu da Heineken. Não tirei foto em I Amsterdam. Na Argentina, eu não fui ao Caminito. Em Barcelona, eu não vi a Sagrada Família. No Rio, Cristo Redentor e Pão de Açúcar, só em cartão postal.

SCIENTOLOGY CHURCH! ESTOU SALVA!

E não é que eu me programei pra não fazer o roteiro turístico, porque isso também seria de uma estupidez absurda. É simplesmente que eu prefiro que meu primeiro contato com a cidade, nossa primeira troca de olhares e tal, seja a mais pessoal possível. Gosto de andar nela, fazer parte dela, entendê-la de verdade. Museu e ponto turístico eu deixo pra quando o nosso relacionamento já estiver bem maduro.

A VILA, num bosque entre Leiden e Den Haag

Então eu acabo dizendo que eu comi alguma coisa, tomei um café, encontrei um amigo, essas coisas mais aceitas socialmente. Eles perguntam dos museus, insistem, e eu fico meio sem graça, tipo.. “aaahhn, não fui em nenhum museu”. E eu obviamente tenho nada contra museus (a propósito, existe alguém contra ou a favor de museus? Tipo, da existência deles? “Museus” não costuma ser um tópico polêmico). Mas sempre deixo eles (os museus) pro final. E se tenho poucas horas ou dias na cidade, bem, museus definitivamente não são prioridade.

A melhor casa de todas, com a bike mais legal de todas. Na água

 

E as pessoas que escutam parecem sempre me achar meio estúpida por ir a Amsterdam só pra comer e tomar um café, afinal, não é como se Wassenaar não tivesse restaurantes e cafeterias. Por isso inclusive que eu incluo o “encontrar um amigo” no roteiro, porque aí se torna mais compreensível. Dizer que eu fui tomar um café e passei a tarde inteira observando as pessoas sozinha é algo teoricamente inaceitável.

É assustador, eu sei. Em Leiden

As fotos desse post são de coisas que eu achei só porque saí sozinha por aí nos lugares mais improváveis. Não tenho fotos óbvias, mas tenho essas. Elas provam que meu jeito estranho de viajar às vezes me rende achados curiosos, sim. E vou ter tempo suficiente pra tirar as fotos óbvias, também. :) Porque é meio como a Helô me disse no GTalk:

quando vc quiser ver obra de arte do século 16, é só ir ao museu e ver
é claro que se der vontade de ir ao museu, vá
porque museu é legal
(…)
mas importante mesmo é entender a cidade
ver como as pessoas vivem
zanzar
comer na barraquinha
aprender a gíria
andar de metro
essas coisas
igreja e museu vc pode ver quando tiver 40 anos, casada, com filhos

O pôr-do-sol que eu teria perdido, pra sempre, se tivesse escolhido ir de ônibus e não de bike até Den Haag um dia desses

Gosta de ler sobre viagens? Visite o http://www.drumbun.com.br - lá eu escrevo só sobre os lugares que visito. :)

30 Comentários
por: olhometro postado em: Crônicas, Holanda, Viagens tags: , ,

30 Comentários

Trackback por Ana Freitas
12 de abril de 2011 às 18h54

Um tratado sobre o que fazer em viagens http://oesquema.com.br/olhometro/2011/04/12/meu-jeito-de-viajar/

Trackback por Natane
12 de abril de 2011 às 19h02

coisalinda, viu? RT @ana_freitas: Um tratado sobre o que fazer em viagens http://bit.ly/gi77Ik

Comentário por @Jackmout
12 de abril de 2011 às 19h05

Que maneiro, essas paisagens bucólicas me dão uma vontade de largar esse livro de Direito Civil que tá aqui do lado…

Comentário conspiratório: acho que na última foto, a do por-do-sol, existem chemical trails no céu! Eu, hein!

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Comentário por Ana Freitas
12 de abril de 2011 às 19h11

Cara, NA VERDADE.. tem algo a mais sobre a Holanda. Aqui, os aviões deixam esses traços no céu.

Responder

Comentário por @maira_ak
12 de abril de 2011 às 19h06

Lindas fotos, ótimo texto.
Também estou tentando fazer um roteiro menos óbvio para minha primeira viagem internacional em junho: Paris. :)

Responder

Comentário por Ana Freitas
12 de abril de 2011 às 19h12

Oba, compartilha ai! Eu vou pra Paris no começo do mês que vem :)

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Comentário por thiago
12 de abril de 2011 às 19h08

Sua linda. Post lindo de alguem que entende a diferença entre viajante e passageiro. O viajante vivencia a cidade, sente os cheiros e o modo de viver que só existe onde ele está. Vai na farmácia, no mercado só pra ver rótulos diferentes. Anda em bairros desconhecidos, se mete em mercados municipais, lojinhas que ninguem conhece.

Isso aí, Ana. Vai viver a Europa por que, de passagem já bastam os medíocres. Graças a Deus.
:D

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Comentário por Leo Azevedo
12 de abril de 2011 às 19h23

Existem dois tipos de pessoas: o turista e o peregrino. Você é peregrina: sente a vida, observa, pensa sobre… Parabéns, adorei seu post e me identifiquei muito com ele – apesar de adorar ir aos museus! rs

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Comentário por caiovedder
12 de abril de 2011 às 19h27

Sensacional Ana.
Viajar assim eh bem melhor do que conhecer somente os lugares “Imperdíveis”, lotados e cheios de turista.
O bom mesmo é conhecer a vida de verdade do local em que você foi viajar. Faço as mesmas escolhas que você quando viajo.

PS: Suas fotos ficaram sensacionais.
Parabéns e bom proveito!

Bjs!
Caio!

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Trackback por Caio di Pacce
12 de abril de 2011 às 19h27

RT @ana_freitas: Meu jeito de viajar http://bit.ly/f4VBDB

Comentário por Rachel de Lima Freitas
12 de abril de 2011 às 21h52

minha querida neta, parabéns pelo post, muito lindo.

bjs vó

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Comentário por Gabriel Meissner
12 de abril de 2011 às 22h27

O seu jeito de viajar é bem mais interessante do que o das outras pessoas! :-)

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Trackback por Leandro M. R. Silva
13 de abril de 2011 às 23h05

Texto massa, pode confiar. RT @ana_freitas: Meu jeito de viajar http://bit.ly/f4VBDB

Comentário por livio
18 de abril de 2011 às 12h11

tem uma animação, coisa de pai com filho pequeno, que retrata muito bem este tipo de experiência, no Discovery Kids, chamada Toot e Puddle, onde um porquinho viaja bem desse jeito por diversos cantos do mundo.

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Comentário por méuri
20 de abril de 2011 às 17h55

Quanto aos museus, aqui no laboratório onde eu trabalho a gente as vezes discute sobre essa coisa dos museus, de ter vários tempos, épocas, em um mesmo espaço, numa profusão de contextos diferentes num mesmo lugar, o museu. Uma pesquisadora daqui defende a idéia que ela chama de museu-tempo, que seria algo como espaços diferentes em um mesmo tempo, o de agora. Então seria algo como o museu do hoje, sobre coisas legais que estão acontecendo fora das suas vistas no tempo, e não mais no espaço.

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Comentário por Hugo
9 de maio de 2011 às 7h10

Cara…são quase 4:30 da manhã, amanhã certamente vão comer meu pâncreas no pré vestibular, mas o Blog é curiosa e intrigantemente interessante…
Tô a algumas horas lendo e relendo alguns posts dele, e fazia tempo que eu nao me divertia tanto…=D
(e aprendia tbm, né?*)
Agradeço por fazer parte dessa noite pra mim, foi realmente excelente
^^
(ps: sou do estado do RJ, e o lugar mais longe que eu já fui, foi no espírito santo…nao costumo viajar, e confesso ter até inveja {mas uma inveja saudável} de quem viaja assim…Parabens mesmo…curti…)

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Pingback por Viajando com Ana Freitas - Trabalho Sujo - OESQUEMA
26 de maio de 2011 às 14h25

[...] sobrancelhas como estivesse entretendo um bebê. E agora, na Europa, ela não para de viajar – e eu curto o jeito que ela viaja: Quando eu viajo, eu costumo ser uma companhia frustrante pra maioria das pessoas que viajam [...]

Comentário por Marcelo Adelar Andreguetti
26 de maio de 2011 às 14h48

curti muito, eu tenho exatamente essa vibe chinelagem quando viajo. andar de lá pra cá, conhecer as pessoas, conhecer a cidade na “essência” é a melhor coisa.

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Trackback por STB Brasil
23 de junho de 2011 às 12h40

Um belo artigo sobre viajar espontaneamente, vivendo a realidade do destino e passando longe de ‘cartões postais’: http://migre.me/54goY

Trackback por Aline Silva Azevedo
23 de junho de 2011 às 12h46

Sensacional!!! Mandou bem, @anafreitas! RT @ana_freitas: Meu jeito de viajar http://t.co/TN6sz9z

Trackback por Andreza Seixas
23 de junho de 2011 às 12h52

Esse é meu conceito de viajar de VERDADE: http://t.co/RnfNz15

Comentário por Teresa Furtado
23 de junho de 2011 às 13h04

Superconcordo Ana, também não costumo apreciar pontos turísticos tradicionais, normalmente são chatos e entediantes.

@teresafur

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Trackback por Dondeando por aí...
23 de junho de 2011 às 13h36

Um belo artigo sobre viajar espontaneamente, vivendo a realidade do destino e passando longe de ‘cartões postais’: http://migre.me/54goY

Comentário por Lucas
23 de junho de 2011 às 15h10

casa comigo?

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Comentário por Pobre
28 de junho de 2011 às 18h14

É riquinha, queria ter esse luxo e se tive-se COM CERTEZA essa seria minha forma de viajar. .-.

Responder

Comentário por Indhiara
17 de julho de 2011 às 0h41

Oi Ana! O seu jeito de viajar, para mim, é a maneira mais legal de apreender os lugares e não apenas sair visitando como se o mundo fosse acabar amanhã. Uma pena nem todas as viagens durarem o suficiente para que a gente conheça as peculiaridades de cada lugar…Lembro que antes de ir a Buenos Aires li seu post sobre a cidade e já fui apaixonada pelo lugar!! Chegando lá só confirmei o que você disse sobre os argentinos educados e bonitos, a cidade agradável…Queria ter ficado horas na praça comendo media luna (rs) e bebendo um café, e não louca atrás dos outlets com medo de perder a pechincha do século (que nem valeu tanto a pena assim)…Quero voltar lá com calma, pra passear, comer, apreciar. Gosto demais do Olhômetro e me vejo nos lugares que você coloca aqui. Quero um dia conhecer todos eles! Boa sorte e boas viagens para você.

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Comentário por Ana Freitas
21 de julho de 2011 às 9h34

Indhiara, brigada. Acho que… cada um viaja como quer, né? Mas eu gosto do meu jeito. Gosto mesmo. :)

Responder

Comentário por Fábio Otero
31 de julho de 2011 às 17h18

Finalmente alguém de bom senso, passando dicas e impressões de bom senso. Eu viajo pelo Mundo todo (profissionalmente, na Aviação) há 31 anos e tenho as mesmíssimas percepções, principalmente quando estou por minha conta, passeando. A “boiada” vai para um lado, eu vou para o outro. Também já fui ao Panamá e o que vc passou aqui é simplesmente impecável. Parabéns pelo Blog!!!

Responder

Comentário por Indara
25 de agosto de 2011 às 5h20

Ana mto legal seu jeito de viajar!
Espero um dia poder ter um diário de viagem assim =)
Bjs

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Comentário por yasmin
24 de novembro de 2011 às 10h51

kskskskksksksksks muito legal mesmo sou um pouco popular sa meninas ja querem me bater

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