OEsquema

Arquivo: maio de 2011

Nós somos o povo

Essa noite, eu tive um sonho meio descritivo do que tá acontecendo com a liberdade de expressão em SP. Eu tinha viajado com amigos pra uma cidade do interior. Veio a polícia e me multou por SER EXPANSIVA, de acordo com ela: falar alto e mexendo as mãos e os braços e tal (qualquer influência desse post do Matias na minha percepção de mim mesma é mera coinciência).

E ai a Marcha da Liberdade foi proibida. O juiz entendeu que a marcha é a mesma de antes, só que com outro nome, o que provavelmente implica que ele nem entrou no site da marcha pra ler o número de entidades não relacionadas com luta pela descriminalização de drogas que aderiram.

Imagina só se todo tipo de manifestação pudesse ser reprimida cada vez que um juiz entedesse que ela não é exatamente para o que é, considerando que o argumento do juiz é baseado (DESCULPE POR USAR ESSA PALAVRA POR FAVOR NÃO PROIBAM MEU TEXTO POR APOLOGIA), hum, no que ele acha.

Não vou nem citar aquele trecho da constituição que diz que todo mundo tem direito de manifestar o que quiser sem autorização de nenhuma instituição porque, né, todo mundo já cansou de ler aquilo e diante da situação atual todo mundo também já sabe que constituição não serve pra nada a não ser pegar trechos pra colocar em posts ilustrando indignação. Manifestação nenhuma, nem a Marcha da Maconha, nem nenhuma marcha, pode ser proibida por motivo que seja. Não vejo ninguém reclamando de como a Marcha pra Jesus também obstrui o trânsito e cerceia o direito de ir e vir, aliás.

Mas isso não é importante agora, porque como já ficou claro, não se trata mais de marcha pela legalização de droga nenhuma. Trata-se de uma marcha pelo direito de marchar, o que faz caber todo mundo. Quão fantástico é isso? Não importa se você é contra ou a favor o direito do aborto, ou contra ou a favor do vegetarianismo, da alta do preço da gasolina ou do valor exorbitante das passagens de ônibus. Contra ou a favor de qualquer coisa: tenho certeza que você quer defender o seu direito de ser contra ou a favor do que quiser, porque se há algo que nos resta, é isso.

Plaza Zocodover

Dá pra compôr um reggaeton, tipo TOMA TOMA TOMA LA CALLE/TOMA TOMA TOMA LA CALLE

Porque no Brasil a gente não tem nada pelo que paga ao Estado – nada, nada. Nem escola, nem hospital, nem teatro, nem cinema, nem bem-estar, nem transporte, nem segurança. E a gente não tá acostumado a reclamar, né? Mas se tem algo que de mim eles não vão tirar, é meu direito de falar.

Ontem o bicho pegou em Barcelona. Eu estava em Madrid no dia das eleições, na Puerta del Sol, e vi aquela molecada meio hippie, meio punk, meio politizada – vi gente de todo tipo, na verdade, e de todas as idade – e vi que eles estavam organizados, tranquilos, pacíficos. Que não havia motivo para bater neles. Consigo imaginar que em Barcelona seja igualzinho. E ainda assim, olha o que aconteceu:

 

Existe muito em comum entre os cenários na Espanha e os cenários no Brasil, embora os manifestos em si tenham sido fomentados por situações completamente diferentes. É que, na essência, tá todo mundo cansado do status quo, e encontrou nas redes sociais uma maneira de se organizar pra poder ter direito de brigar pelo que quer na vida real.

Não sei o de vocês, mas dada a minha condição de pessoa muito falante desde sempre na vida, não teria como abrir mão disso. Eu não estou ai pra ir ao vão do MASP nesse sábado, o que é uma pena, porque eu consigo prever que com a proibição e a repressão as consequências vão ser memoráveis de um jeito ruim. Mas memoráveis. Sei que parece injusto, já que eu mesma não vou por impossibilidades técnicas, mas rogo as meus amigos que leem essa budega que nunca fala sério que dispensem uma tarde de seu sábado para tentar tirar São Paulo de 1964, porque parece que a cidade nunca saiu de lá.

Se você não mora em SP, e de alguma maneira isso incomoda, com certeza tem algo que você pode fazer. A minha revolução é com a bunda no sofá e tal, muito embora eu tenha protestado em Madrid (pausa para foto reveladora):

Puerta del Sol

Foi a única placa que a gente achou no chão

Enfim, a minha é de sofá porque o preço da passagem de avião me impossibilita de pensar GENTE ESSE FDS VOU PRA SP Q TAL???. Se a mesma coisa acontece com você e o que te resta é a revolução com a bunda no sofá que, aparentemente, é melhor que nenhuma (preciso remendar minha opinião nesse texto aqui), faz alguma coisa. Nem que seja postar no FEICE uma mensagem indignada clamando por justiça. Sair de casa e organizar uma Marcha da Liberdade na sua cidade também não é ruim, não.

Não que você precise me escutar porque não tem coisa mais babaca do que alguém dizendo VAI LÁ, PROTESTA. Né.

Puerta del Sol

Em Madrid eles são sérios. No Brasil, eu sou a favor de comprar uns engradados e levar pra manifestação e tal

Pra aquecer: o MANIFESTO DA ESQUERDA FESTIVA, na Carta Capital, um texto com o espírito que a coisa toda tem e deve ter. E não esquece do título desse post. Gás lacrimogêneo arde o olho, mas ó, tem coisa pior. Bala de borracha eu nunca tomei, mas se alguma te acertar, tem um consolo… essa geração estúpida, tacanha, de juízes que proibem manifestações populares legítimas de qualquer tipo, e de policiais herdeiros da ditadura que batem em estudantes desarmados e pacíficos, logo logo estará na cova devido ao inevitável: bom, eles estão velhos. Não vão durar muito mais.

Gosta de ler sobre viagens? Visite o http://www.drumbun.com.br - lá eu escrevo só sobre os lugares que visito. :)

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O dia em que a Holanda pira

Eu sei que estou em falta com este ESPAÇO VIRTUAL. Mas você deve imaginar que três crianças, um curso de holandês e um freela fixo tomam bastante do tempo de uma pessoa. O que interessa é que finalmente descolei um tempinho (5h40 da manhã no aeroporto de Madrid, esperando um voo de volta pra Holanda) pra contar aqui minha última grande aventura na Holanda, quase um mês depois dela acontecer, é verdade: o Queensday.

Tipo que uma vez por ano os holandeses piram. Eles comemoram, no dia 30 de abril, a festa da rainha. É um feriado itinerante, porque o Queensday é teoricamente comemorado no dia do aniversário da rainha, e bem, eventualmente o país troca de rainha, então eles teriam que trocar de data da festa a cada, sei lá, muitos anos – porque, geralmente, a probabilidade que duas rainhas façam aniversário em dias diferentes é alta.

Só que a atual rainha não trocou a data do feriado quando ganhou a coroa. Sua mãe, a dona do aniversário do dia 30 de abril, faz anos numa época de temperatura muito mais agradável do que ela, que comemora no inverno, e como ninguém quer ter que comprar casaco de frio, gorro, luva e cachecol laranja, manteve-se o dia 30.

E bem, como você já notou pelas fotos, parece a Metodista no JUCA. Eles usam laranja, a cor oficial da família real holandesa. A festa dá pra resumir assim: imagina que as empresas que recolhem lixo em SP resolveram fazer uma festa de fim de ano pros funcionários e todos eles vão direto do expediente sem ter tempo de se trocar. Vai ter show do Zezé di Camargo e Luciano, do Exaltasamba e do Restart.

Queensday 2011

Não enche, eu tenho direito à babaquice, sou estrangeira!

Pegue a ideia geral e transporte pra Holanda, adaptando as bandas e o que elas representam em cada cultura: Queensday é um monte de gente bêbada que nem gambá, vestida de laranja, nas ruas, ouvindo música alta ruim, apertadas em um espaço pequeno demais pra elas.

Amsterdam fica uma loucura um inferno, com os canais virando o Anhembi e os barcos sendo os trios elétricos deles.

Queensday 2011

Congestionamento no canal

Tem algo de FESTA DE RODEIO ou de BAILE FUNK, porque muita gente produz fantasias personalizadas pro grupo, com camisetas escrito coisas tipo BONDE DOS VAN DER MEER ou COMISSÃO AQUI PODE TUDO, SOMOS HOLANDESES.

 

Dãr. Mentira que essas coisas tavam escritas, né, mas eles fazem sim umas camisetas personalizadas laranjas pra identificar um grupo de amigos e tal.

Ah, esqueci de dizer que, da micareta e da festa de rodeio, pra equação ficar certinha você precisa subtrair o clima de paquera. Você até vê uns babacas loiros de olhos azuis puxando o cabelo das meninas e tal, eventualmente, mas elas nem dão bola e eles não passam disso.

Queensday 2011

Vuvuz... O QUÊ? NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOO

O lance com o Queensday é que ele é simbólico pros holandeses justamente porque é um dia em que tudo pode entre outros 364 em que você precisa estar atento pra tudo o que faz porque pode levar uma multa. Tem lixo no chão (em camadas, coisa nojenta), maconha na rua, bebida barata, mercados de rua liberados (é, no Queensday qualquer um pode montar uma barraquinha e colocar coisas à venda e tal), azaração (até onde isso é possível para holandeses)… É uma redenção. Imagino que se não existisse o Queensday a taxa de loucos homicidas na Holanda subiria, dada a quantidade de regras e o metodismo que você é obrigado a se submeter nesse país no resto do ano.

Se você ficou curioso e resolveu ajeitar sua viagem pra passar na Holanda no dia 30 de abril de 2012, puxa, que ideia infeliz. Tipo, imagino que você já não fique confortável em micaretas e aglomerações urbanas no teu país, ai você vai pegar um AVIÃO pra passar por isso? Não faça isso, amigo. Mesmo. Quer micareta de laranja, descola um convite pra festa de fim de ano da Conlurb que o Rio de Janeiro é muito mais lindo – e a gente, sim, sabe fazer festa.

Queensday 2011

Algumas fotos não precisam de legenda.

 

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