OEsquema

Nós somos o povo

Essa noite, eu tive um sonho meio descritivo do que tá acontecendo com a liberdade de expressão em SP. Eu tinha viajado com amigos pra uma cidade do interior. Veio a polícia e me multou por SER EXPANSIVA, de acordo com ela: falar alto e mexendo as mãos e os braços e tal (qualquer influência desse post do Matias na minha percepção de mim mesma é mera coinciência).

E ai a Marcha da Liberdade foi proibida. O juiz entendeu que a marcha é a mesma de antes, só que com outro nome, o que provavelmente implica que ele nem entrou no site da marcha pra ler o número de entidades não relacionadas com luta pela descriminalização de drogas que aderiram.

Imagina só se todo tipo de manifestação pudesse ser reprimida cada vez que um juiz entedesse que ela não é exatamente para o que é, considerando que o argumento do juiz é baseado (DESCULPE POR USAR ESSA PALAVRA POR FAVOR NÃO PROIBAM MEU TEXTO POR APOLOGIA), hum, no que ele acha.

Não vou nem citar aquele trecho da constituição que diz que todo mundo tem direito de manifestar o que quiser sem autorização de nenhuma instituição porque, né, todo mundo já cansou de ler aquilo e diante da situação atual todo mundo também já sabe que constituição não serve pra nada a não ser pegar trechos pra colocar em posts ilustrando indignação. Manifestação nenhuma, nem a Marcha da Maconha, nem nenhuma marcha, pode ser proibida por motivo que seja. Não vejo ninguém reclamando de como a Marcha pra Jesus também obstrui o trânsito e cerceia o direito de ir e vir, aliás.

Mas isso não é importante agora, porque como já ficou claro, não se trata mais de marcha pela legalização de droga nenhuma. Trata-se de uma marcha pelo direito de marchar, o que faz caber todo mundo. Quão fantástico é isso? Não importa se você é contra ou a favor o direito do aborto, ou contra ou a favor do vegetarianismo, da alta do preço da gasolina ou do valor exorbitante das passagens de ônibus. Contra ou a favor de qualquer coisa: tenho certeza que você quer defender o seu direito de ser contra ou a favor do que quiser, porque se há algo que nos resta, é isso.

Plaza Zocodover

Dá pra compôr um reggaeton, tipo TOMA TOMA TOMA LA CALLE/TOMA TOMA TOMA LA CALLE

Porque no Brasil a gente não tem nada pelo que paga ao Estado – nada, nada. Nem escola, nem hospital, nem teatro, nem cinema, nem bem-estar, nem transporte, nem segurança. E a gente não tá acostumado a reclamar, né? Mas se tem algo que de mim eles não vão tirar, é meu direito de falar.

Ontem o bicho pegou em Barcelona. Eu estava em Madrid no dia das eleições, na Puerta del Sol, e vi aquela molecada meio hippie, meio punk, meio politizada – vi gente de todo tipo, na verdade, e de todas as idade – e vi que eles estavam organizados, tranquilos, pacíficos. Que não havia motivo para bater neles. Consigo imaginar que em Barcelona seja igualzinho. E ainda assim, olha o que aconteceu:

 

Existe muito em comum entre os cenários na Espanha e os cenários no Brasil, embora os manifestos em si tenham sido fomentados por situações completamente diferentes. É que, na essência, tá todo mundo cansado do status quo, e encontrou nas redes sociais uma maneira de se organizar pra poder ter direito de brigar pelo que quer na vida real.

Não sei o de vocês, mas dada a minha condição de pessoa muito falante desde sempre na vida, não teria como abrir mão disso. Eu não estou ai pra ir ao vão do MASP nesse sábado, o que é uma pena, porque eu consigo prever que com a proibição e a repressão as consequências vão ser memoráveis de um jeito ruim. Mas memoráveis. Sei que parece injusto, já que eu mesma não vou por impossibilidades técnicas, mas rogo as meus amigos que leem essa budega que nunca fala sério que dispensem uma tarde de seu sábado para tentar tirar São Paulo de 1964, porque parece que a cidade nunca saiu de lá.

Se você não mora em SP, e de alguma maneira isso incomoda, com certeza tem algo que você pode fazer. A minha revolução é com a bunda no sofá e tal, muito embora eu tenha protestado em Madrid (pausa para foto reveladora):

Puerta del Sol

Foi a única placa que a gente achou no chão

Enfim, a minha é de sofá porque o preço da passagem de avião me impossibilita de pensar GENTE ESSE FDS VOU PRA SP Q TAL???. Se a mesma coisa acontece com você e o que te resta é a revolução com a bunda no sofá que, aparentemente, é melhor que nenhuma (preciso remendar minha opinião nesse texto aqui), faz alguma coisa. Nem que seja postar no FEICE uma mensagem indignada clamando por justiça. Sair de casa e organizar uma Marcha da Liberdade na sua cidade também não é ruim, não.

Não que você precise me escutar porque não tem coisa mais babaca do que alguém dizendo VAI LÁ, PROTESTA. Né.

Puerta del Sol

Em Madrid eles são sérios. No Brasil, eu sou a favor de comprar uns engradados e levar pra manifestação e tal

Pra aquecer: o MANIFESTO DA ESQUERDA FESTIVA, na Carta Capital, um texto com o espírito que a coisa toda tem e deve ter. E não esquece do título desse post. Gás lacrimogêneo arde o olho, mas ó, tem coisa pior. Bala de borracha eu nunca tomei, mas se alguma te acertar, tem um consolo… essa geração estúpida, tacanha, de juízes que proibem manifestações populares legítimas de qualquer tipo, e de policiais herdeiros da ditadura que batem em estudantes desarmados e pacíficos, logo logo estará na cova devido ao inevitável: bom, eles estão velhos. Não vão durar muito mais.

Gosta de ler sobre viagens? Visite o http://www.drumbun.com.br - lá eu escrevo só sobre os lugares que visito. :)

14 Comentários
por: Ana Freitas postado em: Brasil, Internet, jornalismo, Política, Viagens tags: , , , ,

14 Comentários

Comentário por Josimar Lopes
28 de maio de 2011 às 13h49

Sinceramente? O Brasil não vale o sacrificio. O Brasil não vale mais a pena. Os poderes Executivo (todos), são incompetentes ou burros. As casas Legislativas (todas), são corruptas. Para ajudar, temos um judiciário que anda a passo de cágado e coloca culpa nas leis. Isso, claro, sem contar com a ajuda de um povo semianalfabeto que se orgulha de seu semianalfabetismo. E viva o campeonato brasileiro!

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Comentário por mann
31 de maio de 2011 às 19h27

Eu tb desisti, Josimar!

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Comentário por Cimatti
28 de maio de 2011 às 14h34

Isso aí, Ana!
Pior que a tendência tem sido essa mesmo… intensificar a repressão contra os movimentos que lutam por algum tipo de liberdade (seja ela do que for).

Vejo isso sempre: na faculdade, no centro de SP.. e o que me fode é que vejo muito gente que teria que tá lá apoiando, fica do outro lado falando merda dos que tão fazendo algo pra lutar pelo que, por direito ou não, deveria ser nosso/liberado/comum.

Ex: Teve manifestação contra o aumento da passagem de ônibus em SP há uns 2 meses, lá na frente do teatro municipal… passei por lá e vi mta gente se dedicando à causa, mas tbm muita gente falando “bando de vagabundos.. vai trabalhar.. bla bla bla”.

Ex2: Na PUC sempre tem manifestação contra a mercantilização do curso e uma outra porra de coisa (la educacion no es un negocio) que devia ser interesse dos próprios alunos e sempre tem MUITO aluno, não sei e não entendo porque, falando “af esses caras não param.. sempre a mesma coisa esses maconheiro.”

Não sei se nossa cultura, se a mídia ou o que mas alguma coisa fez com que grande parte das pessoas sempre vissem (?) algum tipo de manifestação como sinônimo de baderna e de coisa de vagabundo..

meu comentário virou quase um post anexo, mas ainda tem um negócio importante:

Há duas semanas o STF julgou aquele negócio da união homoafetiva, ok.
No sábado seguinte à decisão eu acordei cedão, liguei a tv e não tava passando porra nenhuma.. fiquei rodando os canais até que caiu na redeTV um pastor falando umas besteiras engraçadas, que eu sempre fico vendo pra dar risada… mas dessa vez eu fiquei puto. o cara tava convocando a população evangélica e “desfiando os gays” (nas palavras dele) a aparecerem em N lugares por todo Brasil, numa manifestação contra a decisão do STF.. e nisso ele ficou lendo um monte de coisa preconceituosa (incluindo a bíblia..) enfim, pergunta se alguém falou algo pra ele ou se cancelaram alguma passeata (!!) (??)
[acabei de acordar, escrevi td mto errado e acho que não consegui me expressar, mas é nóis. saudade. beijo)

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Comentário por Rafa Cab
28 de maio de 2011 às 16h12

Como eu queria que você tivesse aqui com a gente.

Estamos indo pra lá.
beijos
+)

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Trackback por Ana Freitas
28 de maio de 2011 às 16h19

NÓS SOMOS O POVO http://oesquema.com.br/olhometro/2011/05/28/nos-somos-o-povo/

Trackback por Achilles de Leo
28 de maio de 2011 às 16h33

"Esta é uma marcha pelo direito de marchar". Mais um brilhante e correto post da @ana_freitas: http://bit.ly/kThMJ5

Trackback por Ricardo
28 de maio de 2011 às 17h21

Nós somos o povo –> http://bit.ly/llgmze #marcha da #liberdade

Trackback por Daniel Wood
28 de maio de 2011 às 17h33

http://bit.ly/jLBSqm 'nós somos o povo'. ótimo post da jornalista/amiga @ana_freitas. pra complementar: http://bit.ly/lp4D5C @cartacapital.

Trackback por Leonardo Freitas
28 de maio de 2011 às 19h11

Ana Freitas incitando revoluçoes no novo post do olhometro http://oesquema.com.br/olhometro/2011/05/28/nos-somos-o-povo/

Trackback por Marcelo
29 de maio de 2011 às 15h09

Nós somos o povo http://twixar.com/5IL1h4Hecq

Comentário por mann
31 de maio de 2011 às 19h42

Pelo que li, eles não são tão politizados assim. Agora que a situação está insustentável que eles estão na rua protestando. E aposto que nem sabem direito o motivo da crise deles, nem como sair dela! Estão reclamando porque estão desempregados.

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Comentário por Eduardo Fachetti
1 de junho de 2011 às 13h21

Excelente Ana!!!
No Brasil ainda rola a censura também, o que é ridículo… e muito parecido com o caso da marcha… se o que for veículado ofender alguém, quem veiculou que arque com as consequências, se a marcha é apologia ao crime, que tomem as providências e prendam todo mundo… agora, proibir algo antes mesmo que aconteça, isso é o fim da liberdade de expressão!!
Oh paisinho fudido que habitamos…………………

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Comentário por mann
1 de junho de 2011 às 19h34

Eu sou totalmente a favor de movimentos assim, mas eles são parte do “status quo” como os governantes. Pelo que li por aí, eles não são tão politizados assim. Agora que a situação está insustentável que eles estão na rua protestando. Aposto que nem sabem direito o motivo da crise deles, nem como sair dela! Estão reclamando porque estão desempregados. Como disse, ainda assim, mesmo discordando das causas, apoio as manifestações.

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Comentário por research paper
17 de julho de 2011 às 9h06

Sim do sonho de curso interessante!

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