24 de agosto de 2011 às 21h01
Ah, Budapeste
Quem leu o livro do Chico Buarque já sabe, mas Budapeste tem esse nome porque é formada por duas cidades: Buda, do lado esquerdo do Danúbio (que os húngaros chamam de Duna) e Peste, do lado direito. Na verdade, há um terceiro distrito, Obuda, a parte velha de Buda, que se une aos outros dois pra formar o que é a moderna Budapeste.
Os húngaros, coitados, sofrem de crise de identidade. A primeira coisa que deveria chamar sua atenção quando você pisa na Hungria é que o nome do país, aquele pelo qual os húngaros mesmo o chamam, não é Hungria. É Magyarország. Por razões óbvias, vamos ficar com Hungria mesmo – a verdade é que os Magyar (a tribo que deu origem ao povo húngaro) foi confundida com os Hunos (do Átila), e aí fora do país deram o nome de Hungria. E assim ficou.
Também foi de Chico Buarque a frase ‘O húngaro é a única língua que o diabo respeita’. E dá pra entender, também quando você pisa no país. Foi a única vez em todas as minhas viagens em que não era possível entender nada, nem inferir, por associação, nenhuma palavra que eu lia nas placas, nos banners em lojas, nas bancas de jornal. Mesmo na Grécia e em Praga deu pra se virar com leitura de placas; na primeira, porque se você se esforça pra aprender aquele alfabeto, não é tão difícil, e uma vez que consegue ler o que tá escrito algumas palavras são identificáveis. E a segunda porque o Tcheco, por algum motivo, tem algumas palavras com a mesma origem do inglês ou do latim, e muita coisa nos bares e nas ruas é escrito em inglês.
Não em Budapeste.
A língua é uma barreira porque é impossível pronunciar o nome dos lugares onde você quer ir, por exemplo. E na capital a maioria dos húngaros não parece falar inglês. Só que eles não fazem disso um problema ou uma desculpa pra maltratar turista. Todos os húngaros pra quem eu pedi informação, falantes de inglês ou não, se desdobraram pra me ajudar – desenharam mapa, apontaram, o diabo a quatro.
Budapeste, como também disse o Chico, é amarela. O Danúbio, que de cara inspira bem mais respeito do que o Sena ou o Tâmisa, é amarelinho. É ele quem separa a cidade medieval, com suas ruelas emaranhadas de paralelepípedos, ladeiras, árvores e castelos, da cidade moderna, com avenidas paralelas, prédios de arquitetura neoclássica e comunista, transporte público bom e barato, o segundo metrô mais antigo do mundo, McDonalds e Burger King.
Budapest, pelos húngaros, é pronunciada assim com o “s” chiado, igual ao de um carioca, e o “t” mudo. E eles fazem questão de ressaltar essa pronúncia, mesmo se estiverem conversando em inglês com você, o que é raro. Quer dizer, quando você fala pra um gringo “I’m from Brazil”, você pronuncia “Brazil” do jeito deles, não do seu.
Os húngaros foram oprimidos pelos turcos, pelos otomanos (minha tribo primitiva preferida. Certamente era um monte de maluco da periferia e tal), pelos alemães, pelos russos. Eles perderam praticamente todas as guerras em que estiveram envolvidos. Hoje, são a parte pobre da cisão do que era o império Austro-Húngaro. A desigualdade social, especialmente fora da capital, é grande. E não deve ser legal passar por isso especialmente se a gente considerar a situação da Áustria, que tá numa boa com seus bons drink.
Mas nem tudo podia ser ruim pra eles, sabe. A cidade não foi só abençoada com o Danúbio, as colinas hipnotizantes, o castelo, a arquitetura incrível ou o povo gentil. TEM MAIS: Budapeste fica sobre uma das maiores fontes termais da Europa. E quando os Turcos chegaram lá, há mais de 500 anos, eles acharam que fazia sentido instalar em um lugar desses suas famosas cadas de banho. Hoje, os banhos são parte da cultura de Budapeste, e sinceramente, é o tipo de coisa que você precisa fazer se for pra lá. Eu NUNCA ACHEI que podia ficar seis horas dentro de uma piscina quente com cheiro de enxofre e ainda me sentir muito, muito bem depois disso. Sem contar a arquitetura do lugar, fantástica – as piscinas e o prédio foram construídos por turcos em 1500 e qualquer coisa.
E Budapeste, ao contrário de muitas capitais europeias, não dorme. A qualquer dia da semana, a qualquer hora do dia e da noite, dá pra encontrar gente na rua, um mercadinho aberto, um bar tocando música. E acho que isso conclui, junto com a cerveja de um euro e o vinho de 80 centavos, os motivos pelos quais Budapeste foi minha cidade preferida. Entre todas.
Ficou com vontade de ir?
Eu apoio. E ainda dou umas dicas…
Budapest card
Um cartão que dá direito a transporte público de graça, descontos em atrações turísticas e restaurantes, em museus e nos banhos termais. Tem versões pra um, dois e três dias e realmente vale a pena se você for ficar lá pouco tempo e quiser fazer bastante coisa. Você pode comprar direto no site.
Foi aí que eu fiquei a maioria dos dias e foi o melhor custo-benefício da minha viagem. É uma escola de música, centro cultural e tem um bar e um bar-restaurante. É barato – algumas noites saíram por 6 euros! -, bonito e muito limpo, fica no centro, de fácil acesso ao metrô. Tem café da manhã quente e frio, por 4 e 3 euros, respectivamente, cozinha, chá e café a vontade e Wi-Fi na sala comum. E uma piscina inflável, que eu suponho, só deve ficar lá no verão.
Maria Hostel
Caído, sujo e aparentemente serve como residência estudantil, além de hostel. Parece bastante uma escola. Mas tem quartos exclusivos, single, por 17 euros.
Metrô
É o segundo mais antigo do mundo (só perde pro de Londres), e funciona bem, apesar dos trens antigos. O bilhete custa 1 euro. Os metrôs não tem catracas, mas o que eu mais vi foi fiscal multando turista, inclusive aqueles desavisados, que tinham bilhete mas não os validaram na máquina antes da escada rolante. Sério, acho que rola uma indústria da multa de pobres turistas que não podem ler húngaro, porque se a pessoa tem o bilhete e é turista, compreende-se se ela não soube validar, até porque não tem aviso nenhum em inglês.
Táxi
Baratos – uma corrida do centro de Peste a Buda não passou de 1200 forints – mas pelo que eu entendi, vão te sacanear. Se possível, peça direto do hotel/hostel, ou ligue para uma companhia. A maioria dos taxistas não fala nada de inglês.
Free tour
Como toda cidade europeia, Budapeste tem um free tour, isso é, um tour guiado que não funciona com valor fixo, só com gorjetas no final. Achei o de Budapeste historicamente meio raso, mas é ótimo pra quem quer ir mais fundo na cidade – as guias são húngaras e, se você perguntar pra elas no final, consegue dicas excelentes de lugares pra sair e pra comer. Pra saber os horários e de onde os tours saem, visite o site oficial. A mesma companhia também faz um tours (esse pago) do castelo, mas eu não fiz, então não saberia dizer se é bom ou ruim.
Banhos termais
A maioria dos banhos termais turísticos está ao longo do Danúbio, do lado de Buda. Eles custam, em média, 3 mil forints (ou uns 12 euros), mas saem mais barato com o Budapest Card. Uma coisa importante é checar a modalidade de banho que vai rolar no dia em que você pretende ir, pras coisas não ficarem esquisitas. Tem dia de banho misto, dia de banho só de homem ou só de mulher, dia de banho com ou sem roupa. Ah, leve uma toalha.
Outras coisas que você deve saber
- Utca., que você vai ver bastante, é ‘rua’. E se pronuncia ‘útça’.
- Um monte de húngaros se chama Gábor ou Lazlo, e na Hungria, meu nome seria Freitas Ana Paula – eles escrevem o sobrenome primeiro.
- Palinka é a bebida oficial húngara. É feita de ameixas, principalmente, mas eu tomei uma de maçã. Possui modestos 40% a 70% de álcool na composição, por isso É BOM FICAR LIGADINHO nas consequências do consumo excessivo.
- Os húngaros comem bastante sopa, batata e schnitzel, tipo um filé de carne de porco empanado.
- Eles tem um calendário – não me pergunte como ele funciona – que diz que cada nome, dependendo da letra com a qual começa, tem uma semana de aniversário.
- Cortar o cabelo é barato (pros padrões europeus) e tem um salão a cada esquina no centro.
- O Mercado Municipal, apesar de ser listado como uma das atrações a se conferir, não é nada além de um… mercado municipal. O prédio é bonito, mas se você já viu o mercadão de SP, nada ali vai te surpreender. Vale se você quiser comprar linguiça tradicional húngara, ou mostarda, que são boas e baratas. Ah, também vende Foie Gras a preços atraentes.
Gosta de ler sobre viagens? Visite o http://www.drumbun.com.br - lá eu escrevo só sobre os lugares que visito.












23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 





