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O mendigo trollador

A velha técnica do mendigo honesto é o mais eficaz dos métodos de mendicância. De acordo com PESQUISAS, 70% dos mendigos que pedem dinheiro em regiões como a rua Augusta, a República e o Arouche ganham mais moedas se informam o interlocutor que pretendem comprar pedra, pinga, cigarro ou maconha com a esmola.

Acontece que eu já caí nessa fabulosa estratégia quando eu ainda frequentava a Augusta semanalmente, coisa de quatro anos atrás, e essa comigo não cola mais. Mas eu calculo que se o tio morador de rua usa, na mesma rua, a mesma desculpa pra pedir dinheiro quatro anos depois, é porque ela deve continuar funcionando.

Ele parecia esse cara da RURGS

Veja, talvez eu esteja olhando isso da lógica errada. Contanto que ele esteja falando a verdade, é perfeitamente compreensível que o mendigo queira mais dinheiro pra comprar mais pinga/cigarro/pedra/maconha. Mas eu não tinha mesmo grana aquele dia – lembra, eu sou meio que a favor da esmola, no geral - então quando o tio chegou pra dizer que queria grana pra comprar pinga, depois de uns dois minutos de apresentação que envolviam palavras incompreensíveis e o nome dele (“O Roberto Carlos é um cantor muito bom, igual eu, mas eu sou Carlos só, José Carlos”), eu disse que não tinha. E eu fui simpática, como sempre, né.

Tem essa coisa com mendigos quando eles chegam pra pedir esmola num grupo de pessoas. No geral, se você anda com gente normal, rola um constrangimento. As pessoas se olham sem saber exatamente o que fazer. O constrangimento, calculo, é uma mistura de “que saco esse cara incomodando” e “me sinto mal por ter dinheiro e ele não”. A procentagem distribuída entre um sentimento e outro varia, claro, de acordo com o tipo de pessoa que você é.

Em todo caso, nenhum dos dois sentimentos é muito eficaz contra a presença daquele mendigo ali. Comigo, além dessas duas coisas que me consomem, vem uma terceira – eu não consigo não fazer contato visual com o cara. Balançar a cabeça e sorrir, inclusive. Com muita gente é o contrário, e a maneira que eles encontram de fazer aquilo tudo passar mais rápido e olhando pro outro lado – o que eu não critico, invejo, porque eu nunca consigo fazer e então você sabe o que acontece: naturalmente, em todas as situações envolvendo mendigos nóias pedindo dinheiro, sou eu que eles pegam pra cristo, porque sou eu que faço contato visual.

O mendigo em questão não se contentou com o “não tenho dinheiro”. Como ele, eu fui honesta, mas como os mendigos, a maioria das pessoas que recebe pedidos de esmola não é sempre honesta sobre isso, então ele não acreditou em mim. Muito embora eu não entendesse nada do que ele falasse, e eu inclusive tenha deixado isso claro numa hora lá (“não entendi nada do que o senhor falou”), ele insistiu. O argumento era mais ou menos assim:

Tem gente por aí que vai na igreja e não adianta nada. Briga com pai, com a mãe, com o irmão. Eu sou morador de rua, não me envergonho de falar, mas na igreja lá tem gente que vai e briga com as irmãs tudo. E lá na igreja eles sempre dizem, como é que você vai saber se o morador de rua que tá te pedindo dinheiro não é Deus?

Opa. Aí a coisa muda de figura. “O senhor tá me dizendo que o senhor é Deus?”, perguntei. Ele: “Nããão, eu não sou Deus, mas tô dizendo que poderia ser, né?”

Ele persistiu, eu insisti que não tinha dinheiro. Daí o cara agradeceu, nós também, eu desejei boa sorte. Ele disse: “Peraí, que vou tirar uma foto de vocês. Faz uma pose”. Eu e o Alex paramos e sorrimos, carão de foto, né. O mendigo apontou o celular pra gente. Ficou lá, com o celular apontado, uns quatro segundos. Daí virou, meio rindo, com aquela voz de mendigão: “Mentira, gente! Esse celular não tá funcionando, não. Tchau pra vocês!”

Trollados pelo mendigo.

 

3 Comentários
por: Ana Freitas postado em: Brasil, Crônicas tags: ,

3 Comentários

Comentário por Simone
13 de fevereiro de 2012 às 13h51

AHAHHAHAHAHAH to me mijando de rir! Um futuro substituto to Away. Eu tenho uma foto com um mendigo na Augusta, ele na verdade entrou no meio da foto que tiravamos com um amigo gringo que passeava no Brasil.

beijos

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Comentário por Fausto
18 de fevereiro de 2012 às 1h37

Ah vá, que mendigo mais safado! Rs… gostei dele. Que pena ele não ter realmente tirado a foto de vcs; poderia depois passar por bluetooth ou postar no twitter ツ

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Comentário por Clarah
24 de fevereiro de 2012 às 16h19

Eu consigo desviar o olhar e negar dinheiro, não sei se gostaria de fazer parte das pessoas que tem dó, mas não consigo dar esmola, simplesmente!
Passei um tempo em San Francisco e lá tem MUITO mendigo na rua e como andava sorrindo e saltitante pelas ruas, eles sempre me abordavam, até que um amigo me disse, anda sem sorrir e quando te pedirem esmola, só diz “não” bem séria e não para pra conversar. E realmente foi a solução. Ainda assim um dia apareceu um loucão que fez a piadinha do ‘olha o dinheiro no chão, sumiu!’ hahahhah

Beijo

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