OEsquema

Arquivo: Brasil

O que você faria com 2,5 milhões de reais?

O empresário Mauro Mendes, que foi candidato ao governo do Mato Grosso pelo PSB, fez o seguinte:

2,5 milhões de reais em uma festa de 15 anos pra filha. Não nego o direito da menina de ter uma festa inesquecível, blá blá blá (e a parte engraçada é que mesmo se eu negasse, e daí, né), mas são dois. milhões. e meio. de. reais. Não há nada que justifique gastar isso em uma festa de 15 anos. Porque chegou num nível ridículo – uma coisa é pagar um ator da Globo pra ir dançar com você, outra coisa é escalar um representante pra cada fase de Malhação desde 98 pra desfilar com uma camisa com suas iniciais e a idade que você está fazendo em números romanos.

O engraçado é que eu sou muito a favor de cada um fazer o que lhe der na telha desde que não atrapalhe a vida de ninguém, e mesmo uma festa de 15 anos milionária parece ser o caso, mas eu ainda acho que uma pessoa deveria ter vergonha de gastar tanto dinheiro com algo assim. Dá pra igualar os pais dessa garota aos babacas que rasgaram as notas de cinquenta reais no programa da MTV.

Eu percebi que esse trecho soa como a pessoa mais rabugenta do mundo reclamando… eu reclamo bastante e tal, mas gostaria de dizer que o motivo primordial pelo qual esse vídeo me chamou a atenção é que, de tão trash, ele é bem engraçado. De tão triste, ele é engraçado.

Desde antes dos 15 anos eu nunca entendi a lógica de contratar um bonitão da Globo pra dançar contigo na sua festa, porque é notório o hábito de pagar esses caras pra ir dançar com moças em festas de 15 anos. Não é como se suas amigas e amigos fossem olhar pro cara e pensar MEU, NÃO ACREDITO, O KAIKY BRITTO É TÃO AMIGO DELA QUE VEIO NA FESTA! MUITO TOP, MEU. Eu diria também ser um pouco remota a possibilidade de o convidado reconhecer, naquela bela e virgem debutante, o amor da sua vida, assim que seus olhares se cruzarem.

Portanto, sempre acreditei que festas de 15 anos eram uma maneira complicada de dizer OLHA, GENTE, EU TENHO MUITO DINHEIRO. O lance é que quanto dinheiro alguém tinha ficava bem claro no dia-a-dia na escola, então não que fosse necessário.

O problema é que, depois dessa aí, é impossível vencer.

A propósito: lembro você que pai da menina é do PSB, que como você bem sabe, é o Partido Socialista Brasileiro.


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O novo do Emicida

No fim de 2009, eu entrevistei o Emicida pro Link (não consegui encontrar a entrevista :/). A essa altura, você já deve ter ouvido falar dele – e se não ouviu, corre pra ouvir qualquer coisa.

Aliás, se quiser qualquer dia dessas ter aquelas sessões de YouTube que começam inocentes, as 23h, e que te fazem ir dormir só quatro horas e trinta vídeos depois, comece buscando gravações de batalhas de rimas do Emicida.

Enfim. Eu comecei a ouvir bastante rap de uns dois anos pra cá, mas tenho que dizer que minha trilha sonora aqui na Holanda foi por 50% do tempo a penúltima mixtape dele, Emícidio, do ano passado. Fazia um tempão que música não me fazia refletir, rir e chorar. Mal a pieguice, mas sério, rolou uma identificação – quer dizer, não sou acusada de ser vendida, não sei o que é sair do underground pro mainstream e ser a queridinha da mídia, nem faço ideia do que é ver vidro subir e alguém correr quando me avista. Mas as letras dele conversam comigo de um jeito que eu curto.


‘Então Toma’ tem um pianinho bem legal no sample

Quando conversei com o Leandro, acho que foi uma das minhas primeiras entrevistas de verdade. Explico: na correria do fechamento, a gente escolhe a fonte, pesquisa, elabora uma dúzia de perguntas e acaba focando nelas. É raro quando a fonte e o repórter têm, de fato, tempo pra conversar sem se prender ao roteiro. Naquele dia, eu tinha, porque era o Emicida, poxa. E ele, o Leandro, também tinha, porque não tava o mundo inteiro em cima dele.

Quando ele veio subindo a escada rolante do metrô, tava fuçando no celular. Ele explicou que seu outro aparelho tava quebrado e agora ele usava esse, que era aqueles telefones de 30 contos, pra checar os tweets via SMS. E que tava viciado nessa parada de Twitter.

Embora o áudio tenha se perdido, eu lembro até que bem das duas ou três horas trocando ideia, começando com as perguntas que ele respondia em toda entrevista: vendeu 10 mil cópias do disquinho que fez em casa, a razão de chamar Emicida e as coisas de sempre. Daí falamos sobre a cena do rap, da dona Jacira, da cobertura jornalística da periferia e das expressões culturais da periferia, sobre ele quase ter se tornado cartunista – porque o Leandro também desenha, e é dele a capa da primeira mixtape, a tal que vendeu 10 mil cópias – e sobre as batalhas da Santa Cruz, sobre ele ser um nerd colecionador de quadrinhos e muito mais que eu não me lembro.

(Acho que vou começar a transcrever minhas entrevistas na íntegra, em vez de decupar só o material que vou usar na ocasião)

Lembro que em dado momento eu perguntei com o que ele trabalhava hoje em dia. Quer dizer, eu já sabia que a mixtape tava indo relativamente bem, e que ele tinha shows aqui e acolá, mas achei que de repente ele ainda levasse dois trampos ao mesmo tempo. Ele riu, meio CE TÁ ZOANDO, assim, mas respondeu, ainda gentil: “Só com a música, mesmo.”

Ele é quase tudo o que deixa transparecer nas letras: pensa rápido, tem sempre uma referência de cultura pop na ponta da língua (“Chimbinha e Joelma é o mais próximos que temos de Jay-Z e Beyónce, pra mim”, ele me disse). É um moleque engraçado, simpático. A diferença é que ele não se vangloria tanto quanto faz nas letras dos raps, que herdam o estilo das batalhas de improviso, em que os dois MCs precisam cantar o quanto são fodas e o quanto o adversário é um lixo. Tipo, ele é mais modesto.

E eu me diverti naquelas quase três horas, porque embora poucos de nós admitam, a gente vira jornalista pra poder trocar ideia com quem a gente admira (não só pra isso, mas sim, tem muito disso). E quando isso acontece, puxa, é dessas vezes que a gente lembra porque passou anos (ou ainda passa) fazendo notinha sobre celebridade ou dando tapa em texto de agência de notícia.

Vim falar disso porque o Emicida lançou um EP novo, Doozicabraba e a revolução silenciosa, com as mesmas letras espertas, menos samples e mais instrumentos ao vivo e uma produção bem amarradinha. Fiquei sabendo hoje, baixei e gostei muito. E o mais legal: baixar o disco não é de graça.

E porque isso seria legal? Porque você paga com uma moeda que tá SUPER USANDO – você paga com um twitt. O link pro download tá aqui.

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Nós somos o povo

Essa noite, eu tive um sonho meio descritivo do que tá acontecendo com a liberdade de expressão em SP. Eu tinha viajado com amigos pra uma cidade do interior. Veio a polícia e me multou por SER EXPANSIVA, de acordo com ela: falar alto e mexendo as mãos e os braços e tal (qualquer influência desse post do Matias na minha percepção de mim mesma é mera coinciência).

E ai a Marcha da Liberdade foi proibida. O juiz entendeu que a marcha é a mesma de antes, só que com outro nome, o que provavelmente implica que ele nem entrou no site da marcha pra ler o número de entidades não relacionadas com luta pela descriminalização de drogas que aderiram.

Imagina só se todo tipo de manifestação pudesse ser reprimida cada vez que um juiz entedesse que ela não é exatamente para o que é, considerando que o argumento do juiz é baseado (DESCULPE POR USAR ESSA PALAVRA POR FAVOR NÃO PROIBAM MEU TEXTO POR APOLOGIA), hum, no que ele acha.

Não vou nem citar aquele trecho da constituição que diz que todo mundo tem direito de manifestar o que quiser sem autorização de nenhuma instituição porque, né, todo mundo já cansou de ler aquilo e diante da situação atual todo mundo também já sabe que constituição não serve pra nada a não ser pegar trechos pra colocar em posts ilustrando indignação. Manifestação nenhuma, nem a Marcha da Maconha, nem nenhuma marcha, pode ser proibida por motivo que seja. Não vejo ninguém reclamando de como a Marcha pra Jesus também obstrui o trânsito e cerceia o direito de ir e vir, aliás.

Mas isso não é importante agora, porque como já ficou claro, não se trata mais de marcha pela legalização de droga nenhuma. Trata-se de uma marcha pelo direito de marchar, o que faz caber todo mundo. Quão fantástico é isso? Não importa se você é contra ou a favor o direito do aborto, ou contra ou a favor do vegetarianismo, da alta do preço da gasolina ou do valor exorbitante das passagens de ônibus. Contra ou a favor de qualquer coisa: tenho certeza que você quer defender o seu direito de ser contra ou a favor do que quiser, porque se há algo que nos resta, é isso.

Plaza Zocodover

Dá pra compôr um reggaeton, tipo TOMA TOMA TOMA LA CALLE/TOMA TOMA TOMA LA CALLE

Porque no Brasil a gente não tem nada pelo que paga ao Estado – nada, nada. Nem escola, nem hospital, nem teatro, nem cinema, nem bem-estar, nem transporte, nem segurança. E a gente não tá acostumado a reclamar, né? Mas se tem algo que de mim eles não vão tirar, é meu direito de falar.

Ontem o bicho pegou em Barcelona. Eu estava em Madrid no dia das eleições, na Puerta del Sol, e vi aquela molecada meio hippie, meio punk, meio politizada – vi gente de todo tipo, na verdade, e de todas as idade – e vi que eles estavam organizados, tranquilos, pacíficos. Que não havia motivo para bater neles. Consigo imaginar que em Barcelona seja igualzinho. E ainda assim, olha o que aconteceu:

 

Existe muito em comum entre os cenários na Espanha e os cenários no Brasil, embora os manifestos em si tenham sido fomentados por situações completamente diferentes. É que, na essência, tá todo mundo cansado do status quo, e encontrou nas redes sociais uma maneira de se organizar pra poder ter direito de brigar pelo que quer na vida real.

Não sei o de vocês, mas dada a minha condição de pessoa muito falante desde sempre na vida, não teria como abrir mão disso. Eu não estou ai pra ir ao vão do MASP nesse sábado, o que é uma pena, porque eu consigo prever que com a proibição e a repressão as consequências vão ser memoráveis de um jeito ruim. Mas memoráveis. Sei que parece injusto, já que eu mesma não vou por impossibilidades técnicas, mas rogo as meus amigos que leem essa budega que nunca fala sério que dispensem uma tarde de seu sábado para tentar tirar São Paulo de 1964, porque parece que a cidade nunca saiu de lá.

Se você não mora em SP, e de alguma maneira isso incomoda, com certeza tem algo que você pode fazer. A minha revolução é com a bunda no sofá e tal, muito embora eu tenha protestado em Madrid (pausa para foto reveladora):

Puerta del Sol

Foi a única placa que a gente achou no chão

Enfim, a minha é de sofá porque o preço da passagem de avião me impossibilita de pensar GENTE ESSE FDS VOU PRA SP Q TAL???. Se a mesma coisa acontece com você e o que te resta é a revolução com a bunda no sofá que, aparentemente, é melhor que nenhuma (preciso remendar minha opinião nesse texto aqui), faz alguma coisa. Nem que seja postar no FEICE uma mensagem indignada clamando por justiça. Sair de casa e organizar uma Marcha da Liberdade na sua cidade também não é ruim, não.

Não que você precise me escutar porque não tem coisa mais babaca do que alguém dizendo VAI LÁ, PROTESTA. Né.

Puerta del Sol

Em Madrid eles são sérios. No Brasil, eu sou a favor de comprar uns engradados e levar pra manifestação e tal

Pra aquecer: o MANIFESTO DA ESQUERDA FESTIVA, na Carta Capital, um texto com o espírito que a coisa toda tem e deve ter. E não esquece do título desse post. Gás lacrimogêneo arde o olho, mas ó, tem coisa pior. Bala de borracha eu nunca tomei, mas se alguma te acertar, tem um consolo… essa geração estúpida, tacanha, de juízes que proibem manifestações populares legítimas de qualquer tipo, e de policiais herdeiros da ditadura que batem em estudantes desarmados e pacíficos, logo logo estará na cova devido ao inevitável: bom, eles estão velhos. Não vão durar muito mais.

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Um roteiro da cobertura jornalística na tragédia do Rio

A cobertura da chacina na escola no Realengo, no RJ, tá seguindo um roteiro bizarro, quase sempre igual, nos grandes portais de notícia. Segundo minha observação minuciosa, os elementos principais da cobertura geral do caso consistem, já nas manchetes, em vídeos e fotos muito, muito gráficos – geralmente envolvendo sangue – do louco (Wellington era o nome dele) morto ou das crianças correndo por suas vidas.

Carta do Assassino do Rio de Janeiro

A essa altura, você já sabe que essa é a carta bizarra que ele deixou. Não vou por a foto do cara morto aqui porque seria um pouco contraditório e a foto é realmente forte - e não que eu me importe muito com a contradição, é mais por causa do teor da imagem mesmo. De todo modo, ela está disponível no Flickr do Jornal da Tarde.

Daí, segue um vídeo ou entrevista em texto com um pesquisador em educação ou violência e um jornalista procurando um padrão em um caso que é, claramente, uma exceção bizarra. É fora da curva, gente. Não adianta tentar analisar a situação como um fenômeno social, não é. O assassino era doente mental, fez uma barbaridade, mas felizmente é uma exceção. Certamente, não é com esse tipo de violência em escolas que devemos nos preocupar – a violência que acontece em colégios como padrão é outra, uma que de tanto a gente ler por aí nem é mais notícia.

Aí tem sempre alguém culpando o fato de o Wellington ter conseguido entrar na escola sem ser funcionário ou professor, e esquecendo que a escola é um espaço público, comunitário, e que o ponto não é ele ter entrado ou não na escola – afinal, ele é ex-aluno, provavelmente conseguiria entrar de um modo ou de outro. No entanto, ninguém questiona o fato de que o problema é ele entrar na escola ARMADO COM TRÊS PISTOLAS E MUNIÇÃO PRA MATAR TRÊS CRIANÇAS.

Ontem, tínhamos elementos até humorísticos na cobertura. Na Record, parece, rolou um GC (gerador de caracteres, aquela faixa que vai embaixo da tela explicando o que tá acontecendo) escrito URGENTE: DILMA CHORA.

Dilma chora durante discurso em reunião do Diretório Nacional do PT

Gente, não é assim tão novidade. Ela chorou na posse, lembram? Acho que já não há mais dúvida que a presidenta é capaz, SIM, de chorar!

Em seguida, vem uma matéria endeusando o policial que pegou o assassino. Não desmerecendo o PM, mas devemos reconhecer que ele estava (felizmente) no lugar certo e na hora certa fazendo a obrigação dele. Aliás, obrigação dele era ter impedido, mas enfim, ele era PM Rodoviário, então esse caso é provavelmente a coisa mais emocionante que aconteceu na vida dele (ei vô, to brincando. Eu respeito muito Policiais Rodoviários, sei que o senhor teve muitas histórias emocionantes).

Mas tratar o cara como herói? Ele nem sequer matou o assassino (VEJA, não estou dizendo que isso é ruim. Pelo contrário, achei muito responsável atirar só na perna, só quero saber se foi proposital ou se ele errou o tiro mesmo, dado que Wellington corria no momento em que foi antigido).

Nos comentários, tem sempre alguém dizendo-se infeliz pelo rapaz ter se matado, porque acha que ele sofreu pouco, e gostaria de poder vê-lo ser torturado na cadeia ou morrer, sei lá, de repente de maneira mais cruel, né? Ou então, gente dizendo que ele é a prova de que todos os fanáticos religiosos deveriam morrer, sem notar que pregar isso também é uma maneira de fanatismo tão escrota quanto.

Não se trata de fanatismo religioso, de padrão social. Wellington era desequilibrado, ponto. O que deveria ser questionado, o que a cobertura do caso deveria realmente trazer à tona, não é a falta de segurança nas escolas estaduais. É o acesso fácil que uma pessoa desequilibrada como ele, que além de louco era pobre – ganhava 400 reais por mês num emprego que tinha largado há seis meses – tem a muito armamento e munição.

Relatos dão conta que ele não tinha amigos, era introspectivo e vivia na internet. Eu não me espantaria se começassem a culpar a falta de vida social e o excesso internet pelo crime, ou então A PRÓPRIA INTERNET, quando vasculharem os históricos de acesso dele e descobrirem o tipo de material que ele lia. Mas questionar a questão do armamento, em um país cuja população há poucos anos votou contra o desarmamento, isso não rola. Ontem vi uma materiazinha em algum portal dando conta que entre cada 10 armas ilegais apreendidas pela polícia, 8 são de fabricação nacional. Quédizê

E a cereja do bolo na cobertura são os relatos da menina Jade. Menina Jade, como Menina Isabela e Menina Eloá, vai virar uma entidade assim, com esse recém chegado status de ‘Menina’. E não é pra muitas: ela e a Menina Maísa são as duas únicas figuras nesse panteão de Meninas que continuam vivas – as outras duas ganharam o status de Menina, coitadas, justamente por terem sido mortas.

A foto é do Tasso Marcelo, lá da Agência Estado (gente, que saudade de fazer uma legenda de foto com /AE)

Eloquente e incisiva, a Menina Jade descreve com desenvoltura detalhe por detalhe do que passou dentro da escola. Sua falta de emoção e racionalidade, provocados suponho pelo choque pelo qual ela passou – não me surpreenderia se ele desenvolvesse algum trauma ou, sei lá, chorasse sem parar pelos próximos 20 dias seguidos – chega a assustar. Ela repete as frases do assassino, a das crianças. Descreve o que viu, sangue e gritos inclusos. A parte preferida dos jornalistas é aquela em que Jade diz que, para se acalmar, desenhou na própria mão (não os culpo, colegas; a imagem é forte mesmo, também seria minha preferida. Instintivamente). Aí os caras de bloquinho na mão piram. Os que seguram câmeras pediram até pra ela mostrar (Consigo ouvir um “Jade, você pode mostrar pra gente como foi que desenhou na sua mão?”, um pedido que soa estúpido porque né, eu e você e todos sabemos com o que se parece alguém desenhando na própria mão. Mas a foto valia o pedido estúpido).

A única coisa que ninguém fez ainda foi prender a mãe dessa menina PELO CORTE DE CABELO QUE ELA COMETEU NESSA CRIANÇA. Gente, o que está acontecendo ali?

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Sequestro em Ribeirão Preto


Tem várias possibilidades. A primeira é o ladrão ter tomado um ácido ou comido uns cogumelos – isso explicaria a necessidade dele de resgatar o gnomo e seus companheiros de jardim, que há anos estão oprimidos pela grade (do jardim). A segunda é alguém ter assistido Amelie Poulain demais, e ai já viu, tem esse negócio de viajar com o gnomo de jardim, tirar foto com o gnomo de jardim…

Pode rolar do cara ser um louco que está lutando pela libertação de todos os gnomos de jardim. Nesse caso, nos resta aguardar e observar o noticiário ribeiro-pretano, em busca das próximas estátuas de cerâmica sortudas a ganharem o mundo. A propósito, eu mesma sou totalmente a favor da libertação dos gnomos de jardim, bem como dos cones de estacionamento. Acho inclusive absurdo chamar o responsável de ‘ladrão’; ele é um revolucionário, um libertário. Mas isso não vem ao caso.

Outra possibilidade é o cara querer sacanear alguém que claramente se importa muito com seus enfeites de jardim, porque só isso explica alguém ir até a delegacia para dar queixa de uma centopéia, um sapo e um gnomo de cerâmica. Não sou insensível, só realista.

Qualquer que sejam as motivações, fica claro que ele não é tão experiente quanto um profissional, e provavelmente não faz parte da Frente de Libertação dos Gnomos de Jardim, entidade francesa responsável pela libertação de muitos gnomos encarcerados. Nem tampouco é um justiceiro independente, como esse, que conseguiu dar liberdade a 170 gnomos na França.

Eu ia dizer que também é possível que os bonecos tenham criado vida e fugido por conta própria, mas isso claramente não aconteceu, e a própria polícia, pra não dar margem pra essa interpretação, deixa claro à reportagem que há marcas de pés sujos nas paredes. Agora, faro mesmo tem essa repórter aí, a Luiza Pellicani. Ter a presença de espírito de sacar que uma matéria de três parágrafos sobre um roubo de gnomos de jardim em Ribeirão Preto poderia ser comprada pela Folha de São Paulo (eu sei que ela foi comprada porque não é matéria da sucursal, é colaboração) exige muita perspicácia (e eu não tô zuando). Fosse eu a Luiza, no máximo riria da história e publicaria ela aqui. Por isso que eu tô pobre :/

VAZEI

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Eu em Aparecida

Eu, que fui criada para respeitar os mais velhos sempre e sem questionar, devo dizer que nunca foi um problema ceder assento ou o meu lugar nas filas para idosos (ainda que eu seja contra a meritocracia baseada no tempo em que se viveu, porque aquele velho/a pode ser muito bem um escroto, e nesses casos ele deveria ser punido por viver tanto sendo um escroto ficando de pé nos lugares). Mas basicamente, eu respeito as leis em relação a velhinhos sem maiores problemas. Simples assim.

É importante notar, contudo, que se você for à cidade de Aparecida e resolver ceder seu lugar na fila para todo indivíduo com mais de 60 anos que estiver atrás de você, é muito possível que você fique eternamente sendo recolocado no fim da fila, em looping, sempre sem chances reais de se aproximar do caixa.


Vamo dá preferença pros idosos, gente

O lance é: se você é velho ou velha e você está em Aparecida, por favor, abra mão do seu direito de preferencial porque a coisa fica ridícula a partir do momento que o sr./sra. está em maioria no local, competindo para ver quem nasceu em 1935 e quem nasceu em 1936 e, portanto, pode se aproximar primeiro do caixa 7.

Eu fui a Aparecida duas semanas atrás pagar uma promessa da minha vó. É, eu sei, ela faz a promessa e eu pago, é estranho. Acontece que foi uma promessa feita enquanto eu me encontrava na UTI, minha vó é demais, e vai demorar até que eu seja mesquinha o suficiente pra negar algo tão simples assim pra minha vó. Além do mais, eu imaginei que seria uma experiência interessante ir conhecer a cidade.

E realmente foi (sem brinks). Foi curioso, por exemplo, observar que toda a grana que a cidade arrecada com turismo não é revertida nem em infra-estrutura para os moradores (sério, a cidade tem várias partes bem miseráveis) nem em infra-estrutura para os turistas. As salas do santuário enorme são todas ventiladas com a maravilhosa tecnologia do VENTILADOR que, todos sabemos, num calor de 40º vira um circulador de ar quente. Pensa em dezenas de velhinhas com os cabelinhos ralos empapados de suor, grudados na testa. :/

Aparecida vive – abusa, até – do consumo bizarro que tem como álibi a fé. É todo tipo de lembrança e souvenir bizarro, coisas que devem fazer com que Nossa Senhora Aparecida queira desaparecer de vergonha (GENTE, OLHA O TROCADILHO MARAVILHOSO). Dentre as bizarrices, elegi como vencedores as velas em formato de partes do corpo, de pés e mãos e braços a BAÇOS, pâncreas, rins e pulmões, e a VELA ELETRÔNICA ECOLOGICAMENTE CORRETA, que é nada mais nada menos que um brinquedo de plástico, a pilha, com um LED vermelho em cima. O produto é vendido sob o mote de que é econômico e consome menos matéria prima do que as tradicionais e ultrapassadas velas de cera. Quando eu questionei a validade da vela perante Deus (tipo, ‘senhor, vou ligar minha vela para pedir proteção’ é patético), uma senhora que estava na frente da minha vó argumentou, convicta e sorridente, que ‘Deus acompanha essas modernidades’. Ainda assim, ela optou pelo o modelo tradicional e conservador, aquele que demanda fósforo pra acender.


Tô perdida. Deus podia ter acrescentado um mandamento esclarecendo se essas velas valem ou não

Chegando na sala das promessas, O HORROR. Manja aqueles filmes de terror na cena em que encontram o covil (vazio) do assassino e ele está cheio de recortes de jornal, fotos de vítimas e PRINCIPALMENTE souvenirs bizarros? Isso é a sala das promessas. A começar pela encenação de belíssimo bom gosto (bonecos horríveis de argila em tamanho real dentro de barcos feitos de papel laminado, algo entre o trabalho de artes da quarta série e uma escultura disforme de argila que você faz e pinta com guache quanto tem cinco anos), as coisas ficam piores quando chegamos na parte em que as pessoas contam suas histórias – as de promessas que deram certo.


Edward Mãos de Tesoura pediu uma noiva – e conseguiu (não tô zuando, isso ESTAVA LÁ E É ASSUSTADOR, EU SEI)

É meio escrota a lógica da promessa. Entendo mais que se trata da fé e da confiança que a pessoa adquire quando a faz, a mas a ideia de que um Deus onipresente e todo misericordioso está disposto a trocar favores esdrúxulos com seres que ele tanto ama é negar a própria natureza que é atribuida a esse Deus. Mano, que tipo de pessoa diz “Ok, eu salvo sua filha do câncer, mas você precisa acender uma vela da altura dela e subir uma escadaria de joelhos”? É ser muito sacana. Fora que é possível presumir que, para esse Deus, quem não acende uma vela em uma cidade quente no interior de SP merece menos do que quem faz isso, o que também é bem escroto. Na boa, quem inventou essa lógica da promessa provavelmente trabalhava com testes laboratoriais envolvendo ratos.


Vencendo Nsa. Sra. Aparecida pelo cansaço

Mas aí grande vencedora, no fim, foi um manequim todo vestido de motoqueiro, do qual eu me aproximei crente de que se trataria de uma linda história de superação envolvendo Os Abutres, muito álcool e algum acidente de moto. Quando li o sulfite anexado ao manequim bizarro, a promessa alardeada se tratava do seguinte: o MOTOCLUBE DE VARGINHA não conseguia fazer um encontro de seus membros há dois anos, gente. DOIS ANOS. SEM. ENCONTRO. DE MOTOQUEIROS. DE VARGINHA. Daí eles disseram pra Nossa Senhora Aparecida que se ela conseguisse fazer com que a parada acontecesse, eles iriam até Aparecida (de moto, ou seja, viajariam de moto, o que é tecnicamente o que eles mais gostam de fazer, pois fazem parte de um motoclube. E eu aqui achando que promessa tinha que envolver um sacrifício) e vestiriam um manequim de motoqueiro.

Deu certo.

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Os homens, as máquinas e os óculos de sol

Chilli Beans lança máquina de venda semelhante às de refrigerante

Essas medidas que apontam para uma gradativa substituição do homem pelas máquinas são sempre preocupantes, mas no caso da Chiili Beans pode causar um problema social grande nos círculos descolados. A Chilli Beans tem uma função social importante, que é a de empregar todas as pessoas cheias de tatuagens, piercings e alargadores, que não conseguiriam emprego em quase nenhum outro lugar além de a Chilli Beans e um estúdio de tatuagens, piercings e alargadores.

Além disso, ela também preenche a função de ser a empresa que emprega estudantes de moda que ainda não conseguiram um emprego na área (mas que, trabalhando na Chilli Beans, podem dizer que trabalham “na área”) e de empresas que empregam gente que fala usando as mesmas gírias e cadência do Paulo Vilhena e de artistas da Malhação.

As consequências econômicas da implantação em larga escala dessas máquinas de óculos serão desastrosas. Os festivais descolados vão perder público, bem como as marcas hypados. É possível que a blogosfera e o Twitter cresçam, contudo, meio a essa desocupação generalizada de gente descolada. Mas a crise econômica que essa medida irresponsável pode gerar na região do baixo-Augusta é sem precedentes; só um Bolsa Descolados poderia resolver.

Pelo menos, ao comprar óculos nessas máquinas, você não vai ser abordado de maneira invasiva por um vendedor jovem e cheio de disposição que parece que está sob efeito de ecstasy de tão animado de trabalhar na Chilli Beans, que quer muito saber se o “óculos é pra você mesmo, brother?” E a máquina, se você resolver comprar um óculos pra sua namorada, certamente não vai mandar um “Pô, mas que tipo de lupa sua mina curte, você acha que é algo mais moderno? Chegou uma coleção nova aqui irada, viu!”, ou então te oferecer dezenas de cases coloridos para óculos, pintados como uma banana ou como uma melancia, além de relógios, bonés, mochilas, sprays de limpar lentes e essa coisa toda.


Isso tudo considerando que o software que opera as máquinas da Chilli Beans não tenha sido inspirado no animado computador de bordo da nave Coração de Ouro, cujo entusiasmo irritante fica claro no fim do vídeo acima.

A máquina de óculos provavelmente não vai fazer todas essas coisas que eu falei. Mas a Funhouse vai precisar abaixar o preço da entrada.

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As maçãs podres

Mais uma sobre a ação no Rio: enquanto tá todo mundo aí com esses espírito muito assustador de ‘vencemos’ (semelhanças com o orgulho americano das tropas na invasão do Iraque são mera coincidência), todo mundo que vê isso como um grande Tropa de Elite 3 esquece que, se isso é o Tropa de Elite 3, alguns policiais ainda representam o capitão Fábio Rosa – é, aquele cara que é um sacana corrupto.

O duro é ver a população honesta do morro – certamente uns 99% dela, aliás -, mesmo diante de toda a humilhação e preconceito, apoiando a ação. Em vez de comemorar nossa vitória, a gente devia cobrar das autoridades que esses bandidos de farda, que mancham toda a corporação e destroem o sentido de ações consideradas vitoriosas, como essa, sejam afastados imediatamente. Eu tenho certeza que esses tipos são minoria, bem como são minoria os criminosos dentro de favelas. Mas enquanto eles existirem, eu não vou apoiar 100% ações como no Alemão.

Basta inverter a situação: e se um grupo de policiais simplesmente invadisse sua casa e revirasse tudo? Não estou falando nem de sumir com bens de valor ou plantar drogas, como é o caso deste rapaz do vídeo. Estou falando só de invasão de domícilio, já que esses policiais não tem mandado e o estado de sítio não foi declarado no Rio (ao menos oficialmente). Nesse caso, qualquer morador do Alemão teria direito de negar a revista da polícia. E aí você acha que o policial ia dar meia volta e ir atrás de um mandado? Não, daí a gente teria provavelmente um caso de violência policial e de abuso de poder, calcada numa tão justificada legitimidade que se assume num momento ‘de vitória tão importante como essa’.

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Consequências irreparáveis da situação no Rio

Tenho que dizer que o país vai lembrar pra sempre desse momento como um momento extremamente doloroso. Imagine as vítimas desse cancelamento de show, passando pela humilhação de ter que devolver o ingresso que compraram e retirar outro, para uma outra data – se é que as autoridades responsáveis se preocuparão em fornecer outra data a elas. Logo a internet será tomada por protestos e frases de revolta, mas será tudo em vão. Ainda que o show não seja cancelado, só a notícia já instaura uma sensação de terror iminente entre a população. Triste.

Enquanto isso, meia dúzia de policiais e traficantes se degladiam em uma favela próxima, como se isso fosse realmente importante perto do real cenário. Eu, no lugar desses agentes do BOPE ou desses criminosos, me envergonharia por tamanha inversão de prioridades.

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O que está acontecendo no Rio for dummies


O Meia Hora com serviço de interesse público pra trafica

Tem algo muito interessante acontecendo no RJ nesse momento, às 22h desse sábado, 27 de novembro de 2010. É uma situação única, que provavelmente será lembrada por anos e que está redefinindo alguns paradigmas que acabaram estabelecendo-se sobre a cidade do Rio de Janeiro nos últimos anos.

Eu vou fazer um briefing pra quem não faz ideia do cenário: no Rio, não existe crime organizado, como é o PCC em São Paulo. As facções e as milícias dominam os complexos de uma maneira ligeiramente diferente do que acontece aqui, onde as coisas são menos ostensivas. Lá, os grupos criminosos se beneficiam muito do controle territorial dos morros. Eles podem, com isso, estabelecer as próprias regras, vender gás, GatoNET, fazer os moradores reféns de uma situação que provavelmente não lhes agrada e impedir que aquele território tenha qualquer presença do estado, de escolas a hospitais, além de garantir que nenhuma outra facção tome aquele morro. Eles brigam entre si, e sempre brigaram, o que torna mais fácil para que o estado os combata. E não têm ideologia política que os una, o que dificulta as tentativas de se organizar e formar um grupo só.

Beleza, aí chegaram as UPPs. Basicamente, a polícia AVISA que vai tomar uma favela (isso é para evitar o conflito e facilitar a entrada, e tem funcionado, segundo a secretaria de segurança pública do RJ), o BOPE entra, instala um contâiner e começa a ocupação do território. Os policiais que comandam UPPs são todos recém-contratados e, portanto, supostamente sem os vícios e os traumas que ser PM no Rio pode causar. E aí a vida na favela começa, pela primeira vez, a se aproximar da vida urbana e cidadã: o estado pode fornecer (se faz isso, é outro papo) água, luz, telefone, coleta de lixo, escolas, hospitais. Muitos lugares têm instalações já, mas a prefeitura não conseguia contratar profissionais pra trabalhar nesses lugares por conta do risco.


E você pagando pau pro BOPE. Mano, olha esse babaca

Com a retomada do território pelo estado, a secretária de segurança (segundo eles) cobra as outras secretarias para implantação de políticas sociais e de lazer, para realocar a força de trabalho que perdeu o emprego quando a presença de tráfico ostensivo termina. Porque a UPP não tem o objetivo de acabar com o tráfico – ela quer, sim, acabar com o domínio territorial das facções sobre a comunidade.

Mas há alguns líderes que, é claro, não veem vantagem em permanecer no morro e deixar o crime, seja porque ganham mais no tráfico ou por curtirem essa vida mesmo (nada contra). Estes fogem para outras comunidades ou complexos dominados pela mesma facção. Uma hora, essa panela de pressão explodiria – essa hora chegou.

Acontece que essa panela de pressão é formada, em maioria, por garotos entre 16 e 20 e poucos anos, muito bem armados mas pouco treinados e sem ideologia. Gostam de ostentar o armamento e o ‘luxo’, representado por correntes de ouro e tênis importados. Estão assustados com a perda daquilo que era a fonte de grana deles: fazer os moradores reféns. Esse susto, a princípio, parece tê-los unido – mais um ‘já que estamos na merda, estamos na merda juntos’, mas ainda assim, sem um objetivo comum específico além do ‘vamo pegar nas armas e revidar’.

E nesse momento específico existem interesses muito maiores do que eles por trás. Interesses de bandidos mais perigosos que Elias Maluco e Marcinho VP, gente de gravata, que precisa garantir que o Rio seja (ou pareça) seguro porque Copa e Olimpíadas vêm aí. Não vai sobrar pedra sobre pedra desses garotos que estão impedindo isso – eles vão todos pra vala. Quando a gente vir as imagens, vão parecer todos iguais. Pretos, pobres, armados. E todo mundo vai dizer – ‘bem feito, é bandido’. Só as mães deles vão saber diferenciar um dos outros, no fim disso.


Observe este policial excêntrico. Judeu ortodoxo? Discípulo de Raul? Gaúcho garimpeiro loco? Talvez nunca saibamos

O lance é que, apesar de ser contra a morte (é isso aí: por mim, ninguém mais morria. No mundo. Isso tudo faz parte da minha nova fase zen, e ainda resolveria a falta de cemitérios, por exemplo – daqui um tempo, não teremos espaço pra enterrar tanta gente) eu me vejo bastante escrota quando penso que, a partir do momento que você é um criminoso no Rio de Janeiro e está em combate aberto com uma polícia notoriamente melhor armada, melhor treinada e mais numerosa do que seu grupo, em que lhe foi dada a chance de se render (isso está rolando – muitos já se entregaram) e em que a sociedade inteira parece aprovar sua execução sumária, se você CONTINUA trocando tiros com a polícia, eu penso que você está assumindo um risco bem claro. E que se algo te acontecer, bem, você sabia que isso poderia acontecer.


Esse é um dos que já se entregaram – chama Mister M, é braço direito do chefe do tráfico no Morro do Alemão segundo a polícia, segurava uma bandeira com a palavra PAZ quando foi preso e, como você pode ver, parece muito mais simpático do que muito vizinho meu

A polícia vai invadir o Alemão a qualquer momento. Além do sangue dos criminosos, pode ter certeza que muita gente inocente já morreu e vai morrer no confronto. E eu peço que você pense nisso quando se sinta inclinado a pensar, assim como eu, que a polícia deve mesmo invadir a parada e atirar, porque é o que resta fazer, porque é o preço a se pagar.

É um sacrifício que a gente, a classe média, aceita, porque não envolve matar com bala perdida ou executar sumariamente ninguém que a gente conhece. Um confronto direto desse poderia ter sido evitado com trabalho de inteligência da polícia durante a implantação das UPPs e a evasão dos criminosos pra outros complexos, e o nosso papel seria cobrar isso, e não apoiar que o BOPE saia distribuindo bala. Por mais emocionante que isso pareça para algumas pessoas, gostaria de lembrá-las que quando você liga a TV lá na Globo News, aquilo – apesar de parecer – não é Tropa de Elite: é gente de verdade morrendo.


Trem bala? O RIO JÁ TÁ CHEIO DELES RISOS

Esses enfrentamentos VÃO ACONTECER DE NOVO E DE NOVO, já que o estado vai continuar pacificando as favelas com as UPPs (e olha, eu não sou nada contra as UPPs, pelo contrário). Imagina quanta gente inocente vai morrer com tiro até lá? Quanta gente vai sofrer a humilhação de ter que esvaziar a bolsa pra ir pra casa, gente que vai ter que abaixar quando ouvir barulho de tiro?

Eu penso que, no fim disso – lá na frente, com esses meninos todos no caixão, as comunidades pacificadas, as guerras travadas e ‘vencidas’ pelo estado, o crime no Rio vai se tornar muito, muito parecido com o crime em São Paulo: controlado por uma única e grande facção criminosa que acaba se tornando uma grande empresa do crime, que age por debaixo dos panos mas que é praticamente onipresente. Me diga você: isso é bom?

No meio do caos, umas coisas legais de se ver: o @CasodePolicia, do jornal Extra, do RJ, tem feito um trabalho legal esclarecendo o que é boato e o que é verdade sobre arrastões e incêndios e realiza twittcams periódicas com informações de repórteres direto DO FRONT. Há também garotos que moram no Complexo do Alemão usando o Twitter pra informar a galera em tempo real do que está realmente acontecendo lá dentro. Tem o @igorcomunidade e o @Rene_Silva_RJ, que desde os 11 anos publica um jornal lá, o chamado www.vozdacomunidade.com.br, @vozdacomunidade. Eles ajudam a dissipar boatos e manter moradores e gente de fora atualizados. E tem gente que diz que precisa de diploma pra fazer jornalismo…


Já pedindo perdão pelo clichê, espero que ele continue lindo <3

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