OEsquema

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Um relacionamento de várias pessoas

Conheci um cara que era adepto da ‘prática’. Ele já tinha estado em um relacionamento de 5 pessoas, daí foi contando o desenrolar – saia um, entrava outro, ai entrava mais outra, saia uma…

Eu conheço muita gente da minha faixa etária e especialmente das gerações posteriores que engata namoro atrás de namoro. É um de 3 meses, outro de 5, outro de duas semanas, sem pausa entre eles. Não é pegação, é uma parada de gostar fácil das pessoas, mesmo. É engraçado como eu consigo ver que isso, em vez de ser um facilitador pro Poliamor, é um impedimento. Acho que se você gosta muito de todo mundo, muito fácil, você não gosta é de ninguém. E aí como poderia diferenciar as pessoas pelas quais realmente se apaixona? (é algo fundamental, parece, nesse negócio aí, saber identificar de quem você realmente gosta).

Todo mundo com quem eu comentei sobre meu amigo Poliamor, na época em que eu o conheci, achava esse arranjo um absurdo. As caras de WTF se comparavam às reações que as pessoas têm aos grandes tabus, tipo incesto. Importante lembrar que monogamia, o ‘os dois viveram felizes para sempre’, é parâmetro inteiramente cultural. Não tem nada de instintivo, não é uma organização social natural.

Mas quer saber? Engraçada uma sociedade que aceita traição como algo que ‘acontece’ – e é verdade, acontece – e não aceita a possibilidade de um relacionamento múltiplo.

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Um cara ocupado

Como não dá pra prever de jeito nenhum os caminhos pelos quais a vida nos leva, eu tenho feito muitas coisas sobre as quais eu, em outros tempos, faria piada. Uma delas é um curso de Cabala. Outra é que eu ando ATACANDO DE DJ. Muita coisa mudou na minha vida ultimamente – uma que não mudou foi a minha capacidade de fazer piada de uma pessoa que faz curso de Cabala, é jornalista e ataca de DJ.

Jornalista + DJ + Cabala = Madonna + Jesus Luz


O lance é que meu ATACAR DE DJ é bem amador. Eu não sei direito mexer no CDJ, que é aquele aparelho em que você coloca os dois CDs e vai alternando o que quer tocar. Você precisa fazer algo que pode ser fácil pro Jesus Luz, mas pra mim exige mais processamento do que meu chip permite, que é basicamente igualar as batidas por minuto das músicas pra fazer a transição de uma faixa pra outra de maneira não traumática pras pessoas que naquele momento se ocupam com mexer o corpo no ritmo do que você toca.
Como se não bastasse eu não ser capaz de fazer isso, no último sábado, em que eu toquei em Santo André, eu usei um programa no notebook que simula o CDJ, a porra do programa travou e a música parou, entrou uma do iTunes em cima, ai parou de novo, aí voltou a tocar uma que já tinha tocado. Depois desse caos eu toquei HEAVEN KNOWS IM MISERABLE NOW, que é chata pra cacete, mas eu achei que era apropriada.
A banda da noite era o Cícero – que não é uma banda, cara, é um cara chamado Cícero. Eu sei que isso é o óbvio, mas eu quando vi o cover so Strokes dos caras, eu pensei “PUXA, se fosse mesmo um cara chamado CÍCERO com uma banda de apoio, seria SEI LÁ, CÍCERO & banda, ou então algo como CÍCERO MARTINS, sei lá. DEVE SER UM BOM NOME DE BANDA”. Em todo caso, cagou tudo o set e eu fiquei com vergonha dos caras da banda porque o show deles foi tão bom que a primeira música até me deixou meio emocionada (sério, meio sem ar). Eu tinha ouvido só aquele cover dos Strokes, e pra ser sincera, o Cícero e a banda dele de Cíceros tem muito, muito mais a mostrar ao vivo.


Essa é boa, mas ao vivo é muito melhor

O lance é que quando vc é DJ as pessoas pedem música, o que eu acho extremamente deselegante. No sábado, o garçon veio me falar que ‘o pessoal tá pedindo uma MPB ali (!), você tem alguma coisa?’, e puxa, o que é MPB em 2011? É Jorge Vercilo? É Ivete? É os dois ou nada disso? Mas o grande lance é que ser DJ atrai gente doida e tal. Segue o diálogo mais surreal que minha nova ocupação nas horas de lazer me proporcionou. Pra efeitos ilustrativos, vamos chamar o protagonista dessa cena de CARA OCUPADO:
cara ocupado: MEU! Que demais essa música, meu, que som irado, curti muito esse som!
eu: pôxa, obrigada! :)
cara ocupado: não, mas eu curti MUITO MESMO esse som. Queria ouvir ele assim no meu carro, sabe, num momento de lazer… sabe?
eu: sei… é, bora ouvir né! rs (rs é o que melhor descreve a maneira como eu sorri pra ele naquela hora)
cara ocupado: você não tem mais desse som aí?
eu: tenho, claro… vou tocar mais umas coisas assim.
cara ocupado: não, é que eu queria um CD!
eu, preocupada: mas… mas… eu não tenho um CD, amigo.
cara ocupado: mas eu queria que você gravasse um pra mim.
eu: …
cara ocupado: tem como gravar um cd desse pra mim, a gente vê um esquema de eu te encontrar pra pegar esse CD…
(nesse momento eu pensei que ele pudesse estar dando em cima de mim, mas VEJA, ele estava com a garota dele. Então não fazia sentido)
eu, mais preocupada: nossa, cara, mas isso vai dar um trabalhão… você não acha mais fácil eu te passar o nome da música, daí você baixa?
cara ocupado: não, meu! isso não funciona pra mim, não tenho tempo de ficar procurando, baixar. Eu sou um cara ocupado, trabalho demais. Eu faço adesivação de móveis, sabe?
eu: CLARO, FRITAS ACOMPANHAM?
Importante dizer que ele se manteve com um sorriso eufórico e maníaco durante toda conversa. E enquanto os fiéis do Edir Macedo passam anos doando os tubos pra comprar vaga no céu, eu garanti a minha sábado PASSANDO MEU E-MAIL PRA ESSE MANO. Eu continuo sem acreditar, mas acho que ele era meio doido. Aguardemos os próximos capítulos.
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O dia em que a Holanda pira

Eu sei que estou em falta com este ESPAÇO VIRTUAL. Mas você deve imaginar que três crianças, um curso de holandês e um freela fixo tomam bastante do tempo de uma pessoa. O que interessa é que finalmente descolei um tempinho (5h40 da manhã no aeroporto de Madrid, esperando um voo de volta pra Holanda) pra contar aqui minha última grande aventura na Holanda, quase um mês depois dela acontecer, é verdade: o Queensday.

Tipo que uma vez por ano os holandeses piram. Eles comemoram, no dia 30 de abril, a festa da rainha. É um feriado itinerante, porque o Queensday é teoricamente comemorado no dia do aniversário da rainha, e bem, eventualmente o país troca de rainha, então eles teriam que trocar de data da festa a cada, sei lá, muitos anos – porque, geralmente, a probabilidade que duas rainhas façam aniversário em dias diferentes é alta.

Só que a atual rainha não trocou a data do feriado quando ganhou a coroa. Sua mãe, a dona do aniversário do dia 30 de abril, faz anos numa época de temperatura muito mais agradável do que ela, que comemora no inverno, e como ninguém quer ter que comprar casaco de frio, gorro, luva e cachecol laranja, manteve-se o dia 30.

E bem, como você já notou pelas fotos, parece a Metodista no JUCA. Eles usam laranja, a cor oficial da família real holandesa. A festa dá pra resumir assim: imagina que as empresas que recolhem lixo em SP resolveram fazer uma festa de fim de ano pros funcionários e todos eles vão direto do expediente sem ter tempo de se trocar. Vai ter show do Zezé di Camargo e Luciano, do Exaltasamba e do Restart.

Queensday 2011

Não enche, eu tenho direito à babaquice, sou estrangeira!

Pegue a ideia geral e transporte pra Holanda, adaptando as bandas e o que elas representam em cada cultura: Queensday é um monte de gente bêbada que nem gambá, vestida de laranja, nas ruas, ouvindo música alta ruim, apertadas em um espaço pequeno demais pra elas.

Amsterdam fica uma loucura um inferno, com os canais virando o Anhembi e os barcos sendo os trios elétricos deles.

Queensday 2011

Congestionamento no canal

Tem algo de FESTA DE RODEIO ou de BAILE FUNK, porque muita gente produz fantasias personalizadas pro grupo, com camisetas escrito coisas tipo BONDE DOS VAN DER MEER ou COMISSÃO AQUI PODE TUDO, SOMOS HOLANDESES.

 

Dãr. Mentira que essas coisas tavam escritas, né, mas eles fazem sim umas camisetas personalizadas laranjas pra identificar um grupo de amigos e tal.

Ah, esqueci de dizer que, da micareta e da festa de rodeio, pra equação ficar certinha você precisa subtrair o clima de paquera. Você até vê uns babacas loiros de olhos azuis puxando o cabelo das meninas e tal, eventualmente, mas elas nem dão bola e eles não passam disso.

Queensday 2011

Vuvuz... O QUÊ? NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOO

O lance com o Queensday é que ele é simbólico pros holandeses justamente porque é um dia em que tudo pode entre outros 364 em que você precisa estar atento pra tudo o que faz porque pode levar uma multa. Tem lixo no chão (em camadas, coisa nojenta), maconha na rua, bebida barata, mercados de rua liberados (é, no Queensday qualquer um pode montar uma barraquinha e colocar coisas à venda e tal), azaração (até onde isso é possível para holandeses)… É uma redenção. Imagino que se não existisse o Queensday a taxa de loucos homicidas na Holanda subiria, dada a quantidade de regras e o metodismo que você é obrigado a se submeter nesse país no resto do ano.

Se você ficou curioso e resolveu ajeitar sua viagem pra passar na Holanda no dia 30 de abril de 2012, puxa, que ideia infeliz. Tipo, imagino que você já não fique confortável em micaretas e aglomerações urbanas no teu país, ai você vai pegar um AVIÃO pra passar por isso? Não faça isso, amigo. Mesmo. Quer micareta de laranja, descola um convite pra festa de fim de ano da Conlurb que o Rio de Janeiro é muito mais lindo – e a gente, sim, sabe fazer festa.

Queensday 2011

Algumas fotos não precisam de legenda.


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Meu jeito de viajar

Quando eu viajo, eu costumo ser uma companhia frustrante pra maioria das pessoas que viajam comigo. É que eu não sinto vontade, exatamente, de visitar os pontos turísticos “imperdíveis”. Na verdade, eu acho a maioria deles bem perdíveis.

Só que isso geralmente provoca indignação nas pessoas que me perguntam o que eu fiz e onde fui. Na verdade, elas parecem achar meus programas bem entediantes. E acaba que eu fico meio sem graça de contar o que eu fiz, porque pra algumas pessoas, se eu não fui no museu, no bairro dos turistas ou nos monumentos históricos, eu não fiz nada que valesse a viagem.

Você achava que entendia de Matrioshkas? Essas estão à venda no Waterlooplein Market, em Amsterdam

Acontece que, quando eu viajo, meu barato é ler um pouco sobre a cidade, aprender duas dúzias de expressões, mais meia dúzia de pratos típicos, pegar o mapa e sair andando. Se possível, de bicicleta ou de skate. E aí eu vou vendo as pessoas e os lugares, aprendendo a me locomover, olhando os nomes das ruas, vez ou outra parando em um ou outro ponto turístico que cruzar meu caminho. Gosto de comprar umas tranqueiras, de parar pra comer algo e pedir alguma coisa que eu nunca provei antes na vida.

Esses são os famosos campos de tulipas. Esse fica em Den Haag

Em dois meses aqui, eu já fui a Amsterdam umas três ou quatro vezes, pra passar o dia, quase sempre. Eu moro mais ou menos a uma hora e pouco de lá, o que dá um ônibus e um trem e demanda certo planejamento, mas nada que alguém que seja de Santo André não esteja acostumada. Daí eu volto pra casa, e ouço: “E aí, o que você fez em Amsterdam?”

Sucateada mesmo essa profissão, gente. OAB duvido que eles tenham

Eu tenho vontade de responder que fiquei horas só olhando os canais, olhando pra dentro daqueles barcos-casas, observando os moradores na varanda enquanto eles, bem europeus, leem um livro e tomam chá. Que depois, eu fiquei mais meia hora brincando de tentar adivinhar de que país as pessoas são só de olhar pra elas. E que aí eu fui no Vondelpark e fiquei sentada na grama só vendo como os holandeses transformam qualquer dia de sol em um grande festival ao ar livre improvisado de última hora. Ou que depois, eu fiquei meia hora sentada no meio da Dam Square, assistindo uma dupla tocar algo que lembrava Dire Straits, e em seguida fui à Spui pra garimpar livros baratos em uma daquelas livrarias geniais. Que eu passei horas só tirando fotos, e outra hora conversando em uma mistura de italiano e espanhol com o tiozinho da barraquinha de hot dog americano. Que eu preferi passar uma estação de trem e depois voltar só pra poder assistir um pouco mais da paisagem, que eu peguei a bicicleta e sai pedalando entre uma cidade e outra só pra saber onde ia dar.

6 graus na Dam, e a galera fazendo fogueira "em homenagem à vítimas do Tsunami no Japão". Sei

Mas quando eu tento dizer essas coisas, parece tudo um pouco chato. Até pra mim não soa como algo grande e empolgante pra se fazer em Amsterdam, sabe? Porque eu não vi o museu do Van Gogh, nem a casa da Ana Frank, nem o museu de cera, muito menos o museu da Heineken. Não tirei foto em I Amsterdam. Na Argentina, eu não fui ao Caminito. Em Barcelona, eu não vi a Sagrada Família. No Rio, Cristo Redentor e Pão de Açúcar, só em cartão postal.

SCIENTOLOGY CHURCH! ESTOU SALVA!

E não é que eu me programei pra não fazer o roteiro turístico, porque isso também seria de uma estupidez absurda. É simplesmente que eu prefiro que meu primeiro contato com a cidade, nossa primeira troca de olhares e tal, seja a mais pessoal possível. Gosto de andar nela, fazer parte dela, entendê-la de verdade. Museu e ponto turístico eu deixo pra quando o nosso relacionamento já estiver bem maduro.

A VILA, num bosque entre Leiden e Den Haag

Então eu acabo dizendo que eu comi alguma coisa, tomei um café, encontrei um amigo, essas coisas mais aceitas socialmente. Eles perguntam dos museus, insistem, e eu fico meio sem graça, tipo.. “aaahhn, não fui em nenhum museu”. E eu obviamente tenho nada contra museus (a propósito, existe alguém contra ou a favor de museus? Tipo, da existência deles? “Museus” não costuma ser um tópico polêmico). Mas sempre deixo eles (os museus) pro final. E se tenho poucas horas ou dias na cidade, bem, museus definitivamente não são prioridade.

A melhor casa de todas, com a bike mais legal de todas. Na água

 

E as pessoas que escutam parecem sempre me achar meio estúpida por ir a Amsterdam só pra comer e tomar um café, afinal, não é como se Wassenaar não tivesse restaurantes e cafeterias. Por isso inclusive que eu incluo o “encontrar um amigo” no roteiro, porque aí se torna mais compreensível. Dizer que eu fui tomar um café e passei a tarde inteira observando as pessoas sozinha é algo teoricamente inaceitável.

É assustador, eu sei. Em Leiden

As fotos desse post são de coisas que eu achei só porque saí sozinha por aí nos lugares mais improváveis. Não tenho fotos óbvias, mas tenho essas. Elas provam que meu jeito estranho de viajar às vezes me rende achados curiosos, sim. E vou ter tempo suficiente pra tirar as fotos óbvias, também. :) Porque é meio como a Helô me disse no GTalk:

quando vc quiser ver obra de arte do século 16, é só ir ao museu e ver
é claro que se der vontade de ir ao museu, vá
porque museu é legal
(…)
mas importante mesmo é entender a cidade
ver como as pessoas vivem
zanzar
comer na barraquinha
aprender a gíria
andar de metro
essas coisas
igreja e museu vc pode ver quando tiver 40 anos, casada, com filhos

O pôr-do-sol que eu teria perdido, pra sempre, se tivesse escolhido ir de ônibus e não de bike até Den Haag um dia desses

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Sequestro em Ribeirão Preto


Tem várias possibilidades. A primeira é o ladrão ter tomado um ácido ou comido uns cogumelos – isso explicaria a necessidade dele de resgatar o gnomo e seus companheiros de jardim, que há anos estão oprimidos pela grade (do jardim). A segunda é alguém ter assistido Amelie Poulain demais, e ai já viu, tem esse negócio de viajar com o gnomo de jardim, tirar foto com o gnomo de jardim…

Pode rolar do cara ser um louco que está lutando pela libertação de todos os gnomos de jardim. Nesse caso, nos resta aguardar e observar o noticiário ribeiro-pretano, em busca das próximas estátuas de cerâmica sortudas a ganharem o mundo. A propósito, eu mesma sou totalmente a favor da libertação dos gnomos de jardim, bem como dos cones de estacionamento. Acho inclusive absurdo chamar o responsável de ‘ladrão’; ele é um revolucionário, um libertário. Mas isso não vem ao caso.

Outra possibilidade é o cara querer sacanear alguém que claramente se importa muito com seus enfeites de jardim, porque só isso explica alguém ir até a delegacia para dar queixa de uma centopéia, um sapo e um gnomo de cerâmica. Não sou insensível, só realista.

Qualquer que sejam as motivações, fica claro que ele não é tão experiente quanto um profissional, e provavelmente não faz parte da Frente de Libertação dos Gnomos de Jardim, entidade francesa responsável pela libertação de muitos gnomos encarcerados. Nem tampouco é um justiceiro independente, como esse, que conseguiu dar liberdade a 170 gnomos na França.

Eu ia dizer que também é possível que os bonecos tenham criado vida e fugido por conta própria, mas isso claramente não aconteceu, e a própria polícia, pra não dar margem pra essa interpretação, deixa claro à reportagem que há marcas de pés sujos nas paredes. Agora, faro mesmo tem essa repórter aí, a Luiza Pellicani. Ter a presença de espírito de sacar que uma matéria de três parágrafos sobre um roubo de gnomos de jardim em Ribeirão Preto poderia ser comprada pela Folha de São Paulo (eu sei que ela foi comprada porque não é matéria da sucursal, é colaboração) exige muita perspicácia (e eu não tô zuando). Fosse eu a Luiza, no máximo riria da história e publicaria ela aqui. Por isso que eu tô pobre :/

VAZEI

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Eu estive no paraíso e voltei para contar

Eu nunca achei que fosse conhecer uma ilha paradisíaca. Também não era nada que tivesse no meu checklist de objetivos de vida – o que é uma pena, e um erro grave. E digo mais: se no seu checklist de objetivos de vida você não tiver ‘conhecer uma praia paradisíaca’, talvez seja legal acrescentar. E eu acho que vou te convencer depois dessas fotos.

Isla Mamey

É tudo de verdade

Isla Mamey

Sério.

Ontem eu fui a uma ilhota no Caribe chamada Ilha de Caras Isla Mamey, na costa de Portobelo, uma cidade na província de Colón, a cerca de uma hora de Cidade do Panamá. Era o principal porto pelo qual a Espanha tirava as riquezas daqui na era colonial, e o lugarzinho é considerado patrimônio mundial pela Unesco. Da estrada, dá pra ver o forte de uns 400 anos de idade, cheio de canhões enferrujados, e a aduana que controlava a saída de ouro e matéria prima que era enviada da colônia até a Espanha. O forte não foi forte o suficiente (HEH) para impedir que o pirata safado Henry Morgan, o mesmo que arruinou toda a Cidade do Panamá no séc. XXI, botasse fogo, saqueasse e matasse todo mundo também em Portobelo, em 1668. Daí depois os ingleses tomaram a região, os espanhóis pegaram de volta e essas coisas que acontecem na história. Era um lugar agitado; quem vê hoje, não diz.

O forte

O forte de Portobelo

O lance é que eu sempre achei que ilhas paradisíacas só fossem acessíveis pra gente rica ou pra quem tivesse acesso a grandes estúdios de cinema, com complexos de cenários artificiais. Mas chegar a Portobelo da Cidade do Panamá só leva uma hora e meia de carro. Dá pra pegar um ônibus de viagem por menos de 50 dólares, ou acertar com um taxista por uns 80 dólares. Chegando na cidade, além das casinhas expurgadas de pobres, que lembram a periferia de GTA: Vice City (Panamá é um pouco o GTA Vice City no geral, mas essa é uma teoria pra um outro dia), dá pra ver placas oferecendo barcos pras principais ilhas da região.

A mais famosa chama Isla Grande, e era onde a gente ia a princípio, mas ouvimos falar que a tal Isla Mamey, uma ilhota particular, de um espanhol que tem mais três ilhas na região (NA HUMILDADE) era mais limpa e mais vazia. Além de muito rico, ele é generoso, porque apesar de ser dono da ilha, permite que a galera chegue lá pra usar a praia numa boa. A ilha é tão pequenininha, tão cheia dos estereótipos de ilhas paradisíacas como aquelas de filmes, que a todo momento eu ficava pensando em coisas que poderiam ter sido filmadas ali, como um reality show louco, A ILHA, A LAGOA AZUL, A PRAIA, O NÁUFRAGO e, é claro…

WE HAVE TO GO BACK

Chegamos no estacionamento do portinho e já avistamos uns três moleques, entre 10 e 13 anos, discutindo com um cara mais velho que parecia o Seu Boneco da Jamaica, um negão com uma toca feita de meia-calça. Aparentemente, eles estavam disputando o direito de olhar nosso carro. Não acompanhei a discussão até o fim, mas acho que eles acabaram dividindo entre si os carros a responsabilidade dos quatro veículos – cujo estacionamento, aliás, nos custou 3 dólares por carro.

Panamá e seu ecleticismo musical

Essa era a van dos flanelinhas, exibindo todo um ecleticismo característico da Am. Central

O próximo passo era acertar com um barqueiro o transporte até a Isla Mamey. Por 5 dólares por cabeça, um mulato gente fina chamado Manuel topou fazer a ida e a volta. Além de operar o motor da parada, ele garantiu que todos nós estivéssemos vestindo os lindíssimos coletes salva-vidas e fez as vezes de guia turístico, explicando o nome e um pouquinho de cada ilha pela qual passávamos. Ofereceu inclusive a versão COM EMOÇÃO do rolê, um caminho que passa por dentro de um túnel feito com vegetação de um mangue (El Tunel Del Amor, e eu juro que esse é o nome), um lugar lindo, que me lembrou a Amazônia se eu já tivesse ido a Amazônia, e que na saída pega uma correnteza e ondas dos diabos, o que quase upgradeou nosso passeio de traslado até a ilha para rafting em alto mar pelo mesmo valor. VALEU A PENA!

Doca em Portobelo

Docas em que pegamos o barquinho pras ilhas

A caminho da ilha

Manuel, barqueiro brother

A caminho da ilha

EL TÚNEL DEL AMOR (não fui eu que dei o nome. E sim, eu sei que isso parece nome de outra coisa)

Pro Manuel, adiantamos 20 dólares da gasolina e combinamos de pagar o resto quando ele voltasse. E quando eu cheguei, demorou um tempão pra que eu acreditasse que um lugar tão foda fosse tão simples e barato de chegar. E vazio. E desconhecido. Como a Isla Mamey não está nos guias de viagem? Porque os panamenhos não alardeiam esse tipo de turismo pra todo mundo?

Isla Mamey

CHEGAMOS PASSA A FAROFA

Isla Mamey

TÔ NA LOCAÇÃO DE LAGOA AZUL

Ok que o esquema da Isla Mamey é BEM roots. A parte utilizável da ilha e da praia é minúscula, o resto é mato – lindo e bem aparado, até, mas mato. Não tem resort, barraca, o banheiro é improvisado dentro de uma construção do lado direito do terreno. Mesmo assim, dá pra acampar numa boa, levando comida pra assar e água engarrafada. Mas o lugar é lindo e limpo, e o dono espanhol generoso até mandou construir umas tendas pras pessoas poderem passar o dia, ou a noite, e uns plateaus de cimento ocasionais, pra montar barracas e tal. Ou seja: não explica porque ali só tinha, em maioria, turistas europeus. No dia inteiro que passamos, convivemos com uns 8 ou 9 grupos, entre casais e famílias cheias de crianças, em maioria – pelo que escutei – da Espanha, da Itália, da Grécia e de algum lugar do Leste Europeu. Onde estavam os panamenhos? Por que eles não vão a essas praias?

Saiu panorâmica

No fim da tarde, com a maré baixa

Colón e Portobelo são regiões extremamente pobres. Lembram, aliás, cidades rurais de baixa renda do interior de São Paulo – Itapecerica da Serra seria um bom exemplo pra comparar, só que com menos ou zero encostas. Acontece que, pros panamenhos, parece que esses lugares lindos não são frequentáveis porque, para ir até eles, é necessário passar por regiões mais feias. E aí, o Guarujá deles não fica na lagoa azul, fica nas praias do pacífico, na costa oposta. Não há nada de errado com isso, é claro, exceto que eles estão desperdiçando uma das coisas mais fantásticas que o país tem e inclusive esquecendo de contar pro mundo que essas coisas estão ali.

Portobelo

As casinhas pobrinhas em Colón

Mas tudo bem, PORQUE EU ESTOU AQUI PRA ISSO! Alô MINISTÉRIO DO TURISMO DO PANAMÁ, ME CONTRATE.

Daí a ilha tinha um ZELADOR. Ainda acho que o cara era só um aproveitador, alguém que vai pra lá de manhã e inventa um papo pra cobrar dos turistas desavisados. De todo modo, ele veio com uma história de uns 20 minutos sobre como ele entendia que ninguém tinha avisado mas que se cobrava sim e que o dono espanhol pedia pra ele cuidar e que não era de graça não blá blá blá… resultado: 3 dólares por cabeça. A gente achando que o cara fosse falar COBRO 20 POR PESSOA, LIBERA A GRANA OU VAZA NADANDO, ele pediu 3 dólares por pessoa, só. Achamos justo: ele ainda cedeu o banheirinho – ok, não era grande coisa, mas… – e descolou umas porções de frango frito. Além disso, aparentemente ele também organizava as latas de lixo e no fim do dia recolhia tudo.

Isla Mamey

Tendas de sapé na ilha

Nota: importante avisar aqui que ele ‘descolou’ porque a parada funciona de um jeito um pouco heterodoxo. Você chega pro tio e pede uma porção de frango frito e ele cobra, sei lá, cinco dólares. Aí ele pega o CELULAR – o celular funciona! – e dali a uns 20 minutos CHEGA UM BARCO COM UMA PORÇÃO DE FRANGO FRITO. O tio não fica fazendo nada o dia inteiro na parada; tá ele, a mulher e umas três crianças lá, na ilha, o dia inteiro coçando, e nem pra temperar e fritar um frango, ELE MANDA TRAZER.

Isla Mamey

O BARCO DO FRANGO CHEGOOOU (baseado no clássico O CARRO DA MELANCIA CHEGOOOU)

Nadei bastante na água cristalina e até fiz mergulho – com snorkel, gente, que sou simples – mas tinha peixe pra cacete, de todos os tamanhos e cores, além dos sirizinhos e dos caramujos. E eles são meio ousados, meio que vão indo pra cima. Não são tipo pombas do mar, sabe, que se assustam com presenças estranhas. Você chega e ele começa a nadar perto de você, parece que vai tentar ver se sua pele tem comidinhas.

Isla Mamey

<3

De verdade, em alguns momentos não acreditei que estava em um lugar com paisagens tão incríveis, dessas que servem de catálogo em agência de turismo e se publicam em guias de viagem, e por tão pouco. A câmera trabalhou pra caramba, tirei umas 500 fotos, todas já no Flickr. Até entrei com a câmera dentro da água pra poder tirar foto das pessoas lá – quer dizer, eu entrei na água com a câmera em mãos, não coloquei a câmera na água porque isso seria estúpido.

Dá pra ver meu pé

Dá pra ver meu pé na água do mar

Depois de um dia de sol ardido, muito estímulo visual e um cansaço mortal, no fim da tarde, pouco antes do horário combinado com o Manuel, estendi na grama um saco de dormir e tirei um cochilo embaixo do coqueiro. Uma meia hora depois, arrumando as coisas pra ir embora, vejo os filhos do ZELADOR DA ILHA atrás da nossa tenda pegando uns cocos e aí, de repente, eles começam a arremessar umas pedras no tronco do coqueiro. O motivo:

Uma intrusa

SAAAAAAAAAAAAAAAAAI MANO

Meu pai, membro do PETApreocupado com a sustentabilidade do ecossistema da ilha, pediu e eles acabaram deixando o bicho vivo.

Na volta, paramos em um restaurante em Portobelo chamado Los Cañones e comemos comida típica da região, que é claro são aranhas caranguejeiras fritas frutos do mar com várias outras coisas, tipo arroz com coco, que eu comi e é bom pra cacete, além do melhor ceviche de polvo da minha vida. E como se não bastassem as paisagens lá da ilha e todos esses lugares maravilhosos – sério, se vocês vissem as fotos que eu apaguei hoje, me achariam louca, mas é que eu tirei tantas e todas são tão lindas que algumas ficaram até ruins, o que seria impossível – o meu dia de Lost terminou com outra vista fantástica, da varanda do restaurante:


É MUITA LINDEZA

Ah, não esquece de entrar no Facebook e curtir a página do Olhômetro – dá pra ser avisado das atualizações e ler direto lá. E eu também quero saber o que você, leitor amigo, está achando desses últimos posts na vibe LONELY PLANET. Tá legal? Tá uma merda? Conversa comigo, pelos comentários ou pelo Facebook do blog. <3

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Cidade do Panamá for dummies

Como vocês notaram, o design mudou, mas por enquanto só funciona no Chrome. Peço paciência: meu programador prometeu que arruma até hoje (sexta, 28) e eu tô confiante.

O Panamá é um lugar legal e quente pra caramba, quente demais. É tipo uma sauna a céu aberto: todo lugar tem um ar condicionado muito, muito frio, e quando você sai parece que entrou em um carro que ficou 8 horas no sol, sabe? Aí, você tem choque térmico e fica doente. Eu fiquei quando cheguei, mas agora já tô boa. Parei de suar, também. Você chega e fica suando que nem um porco, o tempo todo. Depois de uns 3 dias passa, acho que o corpo se acostuma ao calor. O lado bom: tô bebendo litros de água todo dia.

Tô aqui na casa do meu pai, um apartamento de três quartos no 18º andar de um bairro que é tipo uma Vila Mariana, por assim dizer. Se chama El Cangrejo. É um bairro bom, e dá pra fazer bastante coisa a pé, que é o que eu tenho feito.

A vista da sacada do apartamento

Aqui na Cidade do Panamá nao tem misééééria, assim. Não tem gente que mora na rua. Rolam alguns poucos pedintes, que geralmente se focam nos turistas, e tem uns cortiços. Mas também não tem classe média: é tipo classe AAA, classe A e classe C, uma classe C que aliás tem acesso a bens de consumo porque aqui tudo é muito barato – roupas, comida, eletrônicos. Então não tem mendigos maltrapilhos, porque uma calça jeans em um oulet custa entre 5 e 10 dolares, e uma camiseta, 1,50 dolar. Ah, sim: a moeda oficial se chama Balboa, mas eu só vi Balboas de um centavo. A moeda que circula é o dólar. Mas digresso: dá pra comprar camisa da Lacoste com pequenos defeitos – sabe, uma costura rasgada, uma manchinha – por 8, 6 dolares. Entao fica todo mundo NA ESTICA. Não tem gente passando fome, não tem analfabetismo, a educação é barata e todo mundo que quiser fazer faculdade de graça faz, porque tem vaga pra todo mundo.

TODO A DOLLAR

O TODO A DOLLAR é uma loja que vende tudo por um dólar. E quando eu digo tudo, realmente quero dizer tudo

Geralmente, nos dias de semana, eu saio pra dar rolê em algum dos lugares interessantes na cidade – um parque, um ponto turístico, uma avenida com lojas baratas – ou vou ao shopping garimpar roupas em promoção. Já fiz compras suficientes pro meu dinheiro acabar, o que provavelmente significa que não vou conhecer as ilhas paradisíacas na costa do Panamá, mas isso não me incomoda muito a essa altura. Há muito para se ver na Cidade do Panamá e nos arredores, e por pouco dinheiro.

Ruínas

Uma parte das ruínas de Panamá La Vieja, vista de cima de uma catedral que tem uns 500 anos

Já fui a Panamá La Vieja, que é o local onde a primeira cidade do Panamá foi construída – quer dizer, uma vila medieval, em 1530, e a região ainda tem um monte de ruínas. E só são ruínas porque um pirata-bucaneiro sacana chamado Henry Morgan (que não é pouca merda, tem até verbete na Wikipedia) passou aqui em 1650 e qualquer coisa e botou fogo na porra toda. Só sobraram umas pedras, mas são pedras bonitas, de todo modo. Também fui a um lugar chamado Causeway, uma via tipo avenida-da-praia, mas com mar dos dois lados. Liga a costa a uma ilha próxima e foi construída com areia que tiraram do Canal. É um lugar lindo, com ciclovia e coqueiros margeando o espaço todo, um porto com barcos, lojas e coisas pra turista ver na ilha e uma paisagem estonteante.

Causeway

A Causeway

Conheci poucos panamenhos – só o sócio do meu pai, o Ernesto, um baixinho atarracado gente fina, a faxineira aqui de casa e umas amigas da mulher do meu pai. Da minha idade, ninguém. Para os padrões de beleza brasileiros, o panamenho ou panamenha média podem ser considerados feios, o que nos torna – a mim e ao meu irmão – muito lindos ou muito exóticos. E eu presumo isso porque todo mundo fica olhando pra gente quando passamos em um lugar muito panamenho.

Barcos

E aí, tamo gato?

Aqui tem uma cultura à estética forte, maior do que no Brasil. Tem um salão de beleza a cada esquina, e as mulheres agendam horários pela manhã pra fazer escova todo dia antes de ir pro trabalho. Na rua, os homens mexem com qualquer ser do sexo feminino que esteja de shorts, de taxistas a funcionários da prefeitura em carros oficiais. A altura média de um homem panamenho é a minha, meio que 1,65, o que tira um pouco do impacto das cantadas.

Na média, nos estabelecimentos comerciais, os panamenhos atendem mal, porque ganham mal e porque não têm simplesmente uma cultura de ‘gentileza’ com o próximo. Mas há exceções, especialmente nas regiões com muitos estrangeiros. E muita gente é bem simpática, atenciosa e receptiva com turistas. Reparam que você precisa de informação e se oferecem pra ajudar, dão toques sobre onde e como ir e onde e como não ir, perguntam de onde você é e se está sendo bem tratados e até arranham umas palavras em português. São um povo muito HOSPITALAR, como diria o Zanata.

Aqui come-se muito, muito bem e por muito pouco. Os fast foods, que têm de monte, e os supermercados têm todos padrão americano, das porções exageradas às marcas. Mas há restaurantes de todos os tipos a preços ridículos – o próprio preço do McDonalds, que vende um número de Big Tasty, que aliás é maior do que no Brasil, com batata grande e refrigerante grande pro 4 dólares, já é um bom termômetro. E todo lugar tem brownies – alguns melhores, outros piores, mas eles estão por todo lugar.

O trânsito daqui é maluco, só tem SUVs, aqueles carros americanos grandes, tipo TUCSON, porque eles são ultra baratos: custam tipo 7 ou 8 mil dólares. E todo mundo dirige que nem retardado, como naqueles vídeos de trânsito na Índia, onde não há regras. Nego fecha cruzamento, buzina pra tudo, costura no trânsito, passa a 15 centímetros de você quando você atravessa a rua e tudo isso é muito comum. Atravessar a rua aqui exige, inclusive, uma inteligência que não é nata pra nós, acostumados a outro tipo de lógica de trânsito. É kamikase: bote o pé na rua, mesmo que o carro esteja vindo, calcule se será possível correr e corra. Ele não vai diminuir a velocidade e é possível que acelere. Mas se você for esperar ‘dar tempo’, vai ficar 10 minutos parado na calçada. E é permitido passar no farol vermelho se, por exemplo, você estiver na pista da direita e for entrar a direita em uma via cujo fluxo corre nessa direção.

Trânsito panamenho

Desse ângulo dá pra ter noção que não é possível aceitar a maneira como os carros estão dispostos na via

Ah. Tem uma avenida chamada VIA PORRAS, e uma cidade próxima chamada BOQUETE.

Não tem poluição, nem violência, e a cidade é pequena – o país inteiro tem 3 milhões de habitantes, e a Cidade do Panamá tem 1,5 milhão. Vive-se com muito, muito mais qualidade de vida do que em SP. O pôr do sol é lindo, todos os dias. E apesar de ser uma grande metrópole e ter muitos prédios, não é o suficiente para impedir uma vista foda do pôr-do-sol todos os dias.

Pôr do sol

Pôr-do-sol em um dia mais feio, assim

Os panamenhos são como portugueses perdidos na América Latina – digamos que eles entendem as coisas um pouco ao pé da letra demais. Tem um bandejão servindo frango com batatas, e você quer só batatas: não pode, leve o frango junto e joga fora se quiser. No meu primeiro dia, eu precisava de um benjamim (gente, que nome estranho que isso tem em português. É um nome próprio. É tipo chegar na Rússia e descobrir que CABO USB chama, sei lá, Roberto. E aí?), e fui arranhar meu portuñol numa loja cheia de trecos elétricos.

- Yo queria algo así como un… adaptador. Si, un adaptador – diante da cara de confuso do tio, eu completei – para plugs…?
- Hum… no, no tenemos. Lo que tenemos és solo esto – disse o tiozinho de óculos, me mostrando um benjamim.
- Por supuesto, era isto que yo buscava. Todavía, como se llama esto?
- Adaptador.

TRUE STORY.

Eu batizei de Panamense o espanhol falado no Panamá, que é um pouco fanho, suprime consoantes e principalmente os S das palavras, além de misturar inglês com sotaque latino no meio: bonito é PRITI, com aquele T da Moóca, se o mar tá sem onda ele tá FLÁT, um gato feliz é um RÁPICAT. E eu sofro pra entender a YAMI (pronuncia-se JAMIL, mais ou menos), a diarista aqui de casa. Outro dia ela chegou e começou:

- Ana DIATUPAPA QUESEABOELSUAITEL – é, foi assim mesmo.
- AHN – essa fui eu, chocada. Ela repetiu, ficou igual. Pedi – Habla mas de espacio, por favor. No te entiendo.
- DIRRATU PAPA QUE SE AGABO EL SUABITEL.
- Humm… que és SUAVITEL?, perguntei. Pelo menos tinha entendido a lógica da frase.
- NOSABE QUE ÉS SUAITEL?, continuou YAMI, um pouco esnobe.
- No.
- EPA ENAUÁLAROPA.

Outro desafio. Respirei fundo.

- QUÊ? (por incrível que pareça, eles entendem um ‘QUÊ?’)
- ENAUÁ.
- AHHHNNN???
- E-NA-UÁ!

E num golpe de sagacidade extrema, consegui deduzir que ela estava dizendo ENJUAGAR, panamense para o nosso bom e velho ENXAGUAR. Ah, Suavitel é amaciante.

ENAUÁÁÁÁ

Esse texto, ou quase ele, é o que escrevi aos meus amigos mais próximos ontem a noite sobre o lugar onde estarei pelo próximo mês e onde passei as últimas duas semanas. Todo mundo gostou tanto que resolvi editar e publicar aqui – e pensando bem, é um bom guia da Cidade do Panamá pra quem não faz ideia de como é esse lugar, ou seja, todo mundo que não mora na Colômbia ou na Costa Rica ou no máximo no Peru.

Volto ao Brasil no dia 28 de fevereiro e no dia 15 de março embarco para a Holanda, onde fico por um ano, e onde terei (suponho) outras impressões como essas pra dividir. Não que eu não vá publicar mais nada sobre o Panamá, já tenho mais posts no gatilho. Um deles é sobre compras: aqui é tão legal pra fazer compras que eu comprei até uma lâmpada do gênio.

A lâmpada do gênio

Eu sei que é inútil DEPOIS DO ÚLTIMO DESEJO, mas foi só 7 dólares

Ah, se você gostou da amostra grátis no post, dá pra ver todas as fotos que eu tirei no meu Flickr.

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De El Cangrejo a Punta Pacífica

Esse texto foi postado originalmente no 3meia5.

Fim de tarde em El Cangrejo

A minha sina é esse negócio de viver em lugares que as pessoas consideram de menor importância. Como Santo André, ninguém sabe nada sobre o Panamá – bem como Santo André, onde eu morava antes de vir pra cá, as pessoas têm ideias completamente equivocadas do que esse lugar pode ser.

Palavras-chave sobre o Panama na cabeça do brasileiro de classe média minimamente bem informado:

  • Canal do Panamá
  • ET do Panamá
  • América Central

A maioria nem sequer tem certeza de que a língua falada aqui é o Espanhol, não faz ideia que a moeda corrente é o dólar norte-americano e que aqui se vive de maneira muito parecida com o Brasil, com diferenças peculiares, algumas que nem sequer caberão aqui. De todo modo, nos isenta de reclamar que os americanos não saibam que falamos português, ou que nossa capital é Brasília, quando nada sabemos sobre um país tão próximo da gente, geograficamente e em outros aspectos.

O meu dia no Panamá começou como todos os dias no Panamá começam: quente e com barulho de construção civil. Aqui em El Cangrejo, o bairro em que eu moro, a especulação imobiliária está a toda. Tem um prédio residencial grande sendo construído a uns 50 metros do meu, os operários botam a mão na massa a partir das 6h30 da manhã e, com eles e com o sol quente, eu pulo da cama. Acontece que o Panamá não foi tão legal comigo desde que cheguei e eu venho me sentindo meio doente. Tive que tomar a chata e dispendiosa decisão de ir, pela segunda vez, a um hospital panamenho.

O Punta Pacífica Hospital cobra até pela medição de sinais vitais que, eu juro, foi feita por uma máquina e, também juro, estavam bem evidentes, já que eu cheguei lá andando e falando. Cobram as seringas, o oxigênio usado nas três inalações, as agulhas, o lençol que eu usei pra me cobrir naquele ar condicionado de 14 graus… tudo. Na verdade, essa observação é isenta de julgamento, porque dá pra entender que se cobre por tudo, mesmo – o hospital é realmente excelente, de atendimento excepcional. E afinal, três inalações depois, o médico hispanofalante de dicção exemplar para um panamenho (sei lá se ele era panamenho – nesse lugar, tem gente do mundo inteiro) explicou que segundo o exame de sangue e a chapa eu não tinha infecção nenhuma, e as profundas dores para respirar, que cessaram depois das EBULICIONES (inalações, em espanhol), eram provenientes de broncoespasmos resultantes de processos alérgicos.

Ah, o Panamá e os processos alérgicos decorrentes dele. Imagine andar pela rua com um sol de 40 graus na cabeça e o quanto você vai transpirar com isso. Agora, imagine você, com as roupas úmidas de suor e da umidade da Cidade do Panamá, entrando em QUALQUER LUGAR e sendo atingido por uma temperatura repentinamente 20 graus mais baixa, proveniente de um aparelho de ar condicionado. Nem a vovó aconselharia, nem a resistência do corpo do brasileiro aprecia Essa semana eu conheci outro brasileiro na mesma situação, com febre alta e dor de garganta, além da tosse – como eu, durante a semana – , e do meu lado no atendimento do hospital Punta Pacífica havia também um grupo de brasileiros de Salvador acompanhando uma moça com, adivinhe, problemas respiratórios. O lance aqui é que, ao contrário de nós, eles não sacaram que havia brasileiros ao lado, e ficaram falando várias coisas engraçadas, tipo que sei lá quem tinha diarreia, e que não sei quem apanhava do marido (isso não é realmente engraçado, mas na hora foi inusitado).

Ok, processos médicos resolvidos e muito mais calma (não sou hipondríaca, só prevenida – quase morri de pneumonia há um ano), saí do Punta Pacífica com o xale nas costas pra evitar o choque térmico da sauna que estava lá fora e fui, com meu pai e irmão, comer umas empanadas argentinas no Caminito (é o nome do restaurante). No caminho, entre amostras do trânsito panamenho, que é como o paulista, mas com carros com o dobro do tamanho – os SUVs – e uma inteligência de tráfego portuguesa, conhecemos o flanelinha que salvou o dia.

Como aqueles que nós paulistanos conhecemos bem, chegou quase jogando a garrafa de detergente e água – ou seja lá o que realmente haja naquela mistura – no vidro, sem nem perguntar, rodinho na outra mão. Logo ouviu um ‘NÃO’ sonoro do meu pai, em português mesmo. Insistiu no gesto mas se deteve na lavagem: mesmo sob os NÃOs, o que ele fez foi desenhar um coração no vidro com o rodinho. Tipo ‘VIM EM MISSÃO DE PAZ’. Amolecido, meu pai ouviu o que ele tinha a dizer – “DÁ-ME UNA OPORTUNIDAD” -, disse a ele ‘és muy bueno’, deu-lhe uns dois dólares (amigo, aqui com dois dólares você compra umas três latas de coca-cola) e saímos, revigorados pelo amor gratuito e pela criatividade do tiozinho flanelinha panamenho.

Mais uma horinha de trânsito LOCO e, em casa, resolvi registrar o momento aqui no El Cangrejo, um bairro parecidinho com a Vila Mariana, mas cheio de estrangeiros. Sabe, porque eu sabia que teria que escrever o post e precisaria ilustrar, e sem a câmera durante o dia, precisava de uma boa imagem panamenha. Esse por do sol eu vejo todos os dias. Aquele era como eu acharia que ele seria no fim do dia, quando acordei puta da vida por estar mais um dia doente, sem aproveitar a viagem. E esse aqui embaixo é como ele terminou de fato.

Fim de tarde em El Cangrejo

(Sei que a primeira, lá em cima, não é feia, nem triste. Mas é melancólica, como eu estava quando acordei. A segunda expressa um pouco mais de esperança, e é por isso que ela está no fim do texto. Foram tiradas, as duas, umas 18h30 da tarde, da sacada do 18D, com uma Lumix FZ35, e não viram sinal de Photoshop).

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Os taxistas do Panamá

Amarelinhos, como os do Rio (com a diferença que são meio velhos, as vezes batidos, sem placa etc)

Não é fácil ser taxista no Panamá. É que, pra começar, aqui não existe taxímetro. Eles usam uma tabela de preço (cuja lógica eu não entendo e, como turista, somente acato) que determina o valor de acordo com a região em que você está e a região aonde você vai. Até aí, ok, só que o que eu ainda não mencionei e estarei mencionando no próximo período é que esse valor raramente passa dos 2,50 dólares.

É isso: a corrida mais cara que um taxista padrão no Panamá faz custa 3 dólares, e só. Se você for sair de destinos turísticos, como o Canal ou o aeroporto, o valor pode aumentar muito, mas no dia-a-dia você pode usar só táxi. Mas não vai dando sinal pro táxi e entrando assim, na moral, pra depois dizer pra onde você vai – precisa dizer o destino antes de entrar, porque pode ser que o taxista não esteja indo pra lá, sabe como é (é sério, e fica pior).

O lance é que, de taxi, além de gastar pouco pra se locomover bastante (se ficar esperto, porque a Lei de Gerson é bem pior aqui do que no Brasil), você pode fazer amigos. E não é pela simpatia dos taxistas – até porque, ainda que simpáticos, esse espanhol panamenho é bem difícil de pegar. É porque, no meio do caminho, o taxista pode parar pra pegar outros passageiros. Quantos ele quiser.

Tá vendo essas pessoas dentro do taxi? PODE TER CERTEZA QUE ELAS NÃO SE CONHECEM

E assim, a regra diz que o primeiro passageiro deve ser deixado primeiro, e que a rota do segundo ou do terceiro ou do quarto passageiro deve fazer sentido dentro da rota do primeiro… mas na prática, se você estiver dentro de um taxi e alguém der sinal, o taxi vai parar ONDE ESTIVER (MARGINAL TIETÊ? Esquece, ele para. Nem liga o pisca alerta), e se a outra corrida for mais vantajosa e a sua corrida for atrapalhar a rota da nova corrida, bom, ele vai pedir pra você descer.

Normal, a vida é feita de desencontros E de rejeições, e no Panamá você pode sim tomar um fora de um taxista. Por que eles podem ganhar pouquinho, mas têm direito de escolher COMO e SE vão fazer a corrida. Em tempo: eles também vão parar pra abastecer, vão te dar troco errado de propósito, vão parar no McDonalds pra tentar trocar a nota de 20 do camarada que está sentado no banco da frente porque estão sem troco, e também pode acontecer de você entrar num carro MUITO VELHO, com o vidro da frente quebrado, sem cinto de segurança, que faz uns barulhos estranhos. E aí você vai pensar ‘cara, só faltava essa taxi quebrar’, e obviamente o taxi vai quebrar no meio de uma via expressa, o motorista vai falar várias coisas que você não compreende enquanto empurra o carro, e você vai dar um dólar pra ele, desejar SUERTE e dar sinal pro próximo táxi, que não demora nem 30 segundos, porque a cidade é apinhada deles. TRUE STORY

Meu brother de corrida, todo pimpão depois de conseguir trocar a grana no Mc pra pagar a corrida



Pra não dizer que eu tava mentindo, tá aí o valor da corrida: 1,50 dolar

Uma das coisas que não dá pra entender é porque esses caras cobram tão barato (ok, depois dessa incrível história dá, mas siga meu raciocínio). Quer dizer, isso foi um recurso retórico: primeiro que o custo de vida aqui é baixo porque os salários são baixos, segundo que essa maneira de cobrar é determinação do governo. Mas quero dizer que eles poderiam tranquilamente cobrar mais porque não dá pra considerar pegar ônibus aqui. Nem sequer cogitar.

Os ônibus aqui, pasme, são de condutores privados. Isso acarreta coisas curiosas:

  • Os motoristas donos dos ônibus pintam eles de maneiras teoricamente atrativas, pra que você possa então optar pelo ônibus dele;

"MEU ÔNIBUS É UMA LINDA OBRA DE ARTE E VAI COM CERTEZA ATRAIR MAIS PASSAGEIROS"


Olha a variedade de cores e decorações e - REPAROU NA QUANTIDADE DE TAXIS?

  • Ele enfia quantas pessoas ele quiser dentro do ônibus dele;
  • Se em SP, onde o transporte é público, os motoristas de ônibus são conhecidos pelas várias atrocidades que cometem, imagina se o ônibus for SEU e você não dever NADA PRA NINGUÉM? Negócio é o seguinte, nego dirigindo que nem um maluco, gente expurgando pelas janelas, quatro pessoas sentadas em um banco pra duas em um calor de 30 graus com sensação térmica de 40 por causa da umidade. AGRADÁVEL.

Esse post faz parte de uma série que vai rolar no blog a partir de agora. Cheguei no Panamá há dois dias, e fico aqui até o fim de fevereiro, reportando as bizarrices de um país minúsculo esquecido logo na entrada da América Central. O Panamá, como você vai ver, não é o Paraná, nem, o Amapá, como algumas pessoas já insistiram para mim, e tem pouco de Brasil e muito de EUA, de México, de América Latina, somado a um calor bizarro, gente com cara índio, trânsito terrível e uma população multicultural.

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O vento e os patos

O que fazer quando uma tempestade tropical – sim, porque proporcionalmente, é isso que atingiu essa família – pega você e sua vasta cria de patos de surpresa, deixa todo mundo catando cavaco no meio da poeira, desnorteado?

Você, mãe de família, pula de supetão, bota todo mundo de pé e continua caminhando. Porque assim é a vida, ela continua, ninguém morreu e tá tudo certo. Observe que eles sequer param para comentar o acontecido entre si. Ninguém lança um MAAAANO QUE VENTO FOI ESSE, CÊ VIU? ROLEI MUITO ACHEI QUE FOSSE MORRER PUTA MERDA! O negócio é bola pra frente, mesmo.

Esse vídeo serve como metáfora pra vida, sabe. Porque agir assim pode ser muito bom, às vezes, e às vezes pode ser muito ruim. Explico.

Se você estiver andando na rua com seus doze patinhos e bater um vento que faça vocês todos saírem rolando, se recompôr rapidamente é uma demonstração de que você é forte. É recomeçar ali mesmo, sem se lamentar pela tragédia. Chega a ser bonito.

Por outro lado, agir como se essa situação fosse completamente normal e não demonstrar sequer surpresa por ter sido arremessada (como pata) uns cinco metros pela ventania também demonstra frieza e falta de capacidade de se impressionar, além de provavelmente significar que você é uma pata muito sofrida e calejada. Se isso não te assusta, pelo que você já passou?

E a moral que fica é: na vida, temos que escolher qual pata queremos ser – a que se recompõe rapidamente mas não se surpreende nem reflete diante das adversidade ou a que, mesmo voltando à vida imediatamente como se nada tivesse acontecido, é corajosa, brava e guerreira.

Reflita.

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