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Arquivo: Há mais entre o céu…

As pessoas estão aspirando vodca pelo nariz por aí

Algumas coisas não precisam ser provadas cientificamente pra serem verdade. Eu, como jornalista, e os amigos acadêmicos que acá frequentam, sei que estamos acostumados e buscar as fontes e a credibilidades delas todas as vezes que lemos uma generalização ou algo assim.

Mas tem uma verdade inegável sobre o ser humano, essa incapaz de ser comprovada assim, ipsis literis, por qualquer pesquisa científica – a gente é estúpido pra caramba.

Não que eu esteja reclamando. Se você reparar, boa parte dos textos desse blog só existe por causa dessas pessoas estúpidas. Mas poucas delas chegaram a esse nível de babaquice, ao nível de tomar vodca pelo nariz.

Vodca pelo nariz: mania nas baladas européias chega ao Brasil

Eu não gosto de beber por dois motivos – não aprecio o gosto da bebida e meu estômago embrulha muito rápido quando em contato com o álcool. Mas gosto de ficar bêbada eventualmente. Logo, a solução é apelar para drinks fortes, cujo efeito é sentido em poucas doses. Assim, eu me torturo menos. Tequila é a opção que eu mais aprecio.

Mas CHEIRAR VODCA? É o cúmulo da malandragem hipster descolada unida a sei lá o quê. Não sei o que é, é muita decadência. Eu entendo perfeitamente porque essas bandas tipo o Jonas Brothers, que pregam os valores da família, fazem sucesso. É que a nossa geração virou escrava da própria liberdade. De tanto poder fazer tudo, a gente chegou num ponto em que nada mais surpreende, nada mais é tabu, mais nenhuma sensação é suficiente, o vazio tá sempre lá. E como a geração seguinte vem pra quebrar o que a anterior fez, algum marketeiro percebeu isso e lançou três meninos que, indo contra a corrente, defendem a virgindade até o casamento. Esperto.

Já vi nego fumando fósforo, orégano, casca de banana só pra ver se dava barato (é sério). Devia ter suspeitado que iam chegar a cheirar vodca. Eu sou a favor da alegria baiana de viver, sabe? Quer fumar, fuma. Quer beber, bebe. Quer cheirar, cheira. Mas veja bem, até o ditado separa as coisas direitinho – “quer beber, bebe”, e não “quer beber, cheira”.

Cheirar vodca deve ser horrível. Imagino que é algo como se afogar em álcool. Se você, quanto arrota Coca-Cola, já fica com o nariz ardendo, imagina sentir VODCA passando pelas vias respiratórias e descendo pelo pulmão? E tudo isso porque você fica bêbado mais rápido? Não tem nenhum outro benefício. Basta começar a beber antes e pronto, você tem o mesmo efeito do jeito convencional.

É como se você tivesse com dor de cabeça, eu te desse uma aspirina e você enfiasse na bunda dizendo que a absorção pela membrana anal é mais rápida. Ok, MAS SERÁ QUE COMPENSA?

Pense nisso.

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Project Natal: parece que o futuro chegou, e eu tenho medo dele

Tá rolando a E3 nos EUA. Como sei que meu público é plural e diversificado, peço uma pausa para explicar aos não-nerds o que é a E3.

E3 é a maior feira de games do mundo, palco para as fabricantes apresentarem as tecnologias que possivelmente dominarão o mundo no ano vindouro.

Explico também ao leitor leigo que os videogames, antes considerados artigos de nicho, reservados somente a um grupo restrito de aficionados, acabaram popularizados entre todos os gêneros e idades pela Nintendo com o lançamento do Nintendo Wii, aquele videogame maneiro que tem um controle em formato de tijolo que reconhece os movimentos do jogador.

(Aproveitando, deixo um apelo: nunca joguei Wii. É, eu sei. Vergonhoso. Portanto, caso alguém esteja pensando em dar uma Wiiparty na Grande São Paulo, enviem o convite. Grata)

Obrigada pela paciência. Na E3, a Microsoft apresentou um esquema que chama Project Natal, um acessório para Xbox 360 que transforma o próprio jogador no controle.

Sim, aparentemente é tão preciso e assustador quanto o vídeo mostra. O acessório é capaz de reconhecer o corpo do jogador e transportar isso para dentro da interface do jogo, tornando desnecessário o uso de um controle plástico para direcionar seus movimentos. A idéia é – apenas faça o movimento e isso será replicado na tela.

Mais assustador ainda é o próximo vídeo, que dá uma dimensão de outra tecnologia de inteligência artificial que está sendo desenvolvida para funcionar junto com o Project Natal e que, tecnicamente, já poderia ser colocada a disposição para o consumidor final através de um console e do acessório necessário:

Nesta simulação (em inglês, e sem versão com legendas no YouTube, sorry), um personagem de dentro de um videogame conversa com alguém da vida real. Ele é capaz de reconhecer faces, então identifica quem essa pessoa é, e a chama pelo nome. Também é capaz de reconhecer expressões faciais e tons de voz, por isso, identifica a inclinação emocional da pessoa. Através de uma interação por câmera, a pessoa DESENHA ALGO EM UM PAPEL e mostra isso ao garoto do vídeo, que PEGA O PAPEL, olha o desenho, reconhece-o e comenta o desenho.

Parece filme de ficção científica daqueles que de tão exageradamente futuristas viraram trash-cult. Não são poucos os roteiros em que gente de verdade caminha e interage fisicamente dentro de um mundo virtual, e a concretização disso me parece, ao mesmo tempo que fantástica, assustadora.

Primeiro, tem a inteligência artificial dessa parada, que de tão próxima a nossa maneira de relacionar dá medo. Quanto mais próximo um organismo com IA é ao interpretar e responder a estímulos de seres humanos, mais a gente falha em reconhecer esse sistema como uma máquina desprovida de ‘personalidade’, ‘sentimentos’ ou seja lá o que isso for. A gente acaba atribuindo essas características àquilo sem querer, por instinto, porque bem ou mal aquela imagem ou robô se comporta como um de nós se comportaria.

Se isso já perturba pessoas que tem apenas leves desvios de personalidade (eu), imagina o que vai se tornar uma tecnologia dessa na mão das milhões de pessoas no mundo que tem problemas de interação social? Se você tem um computador que te trata melhor do que qualquer ser humano que você conhece, porque você vai tentar se relacionar com pessoas?

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Pra pedir cigarros

Num mundo onde as pessoas estão gradualmente mais individualistas, mais mal-educadas, mais egoístas, nem vai ser muito difícil desenvolver um robô que seja mais educado e simpático que a maioria das pessoas que a gente encontra por aí.

E eu fico pensando nas consequências sociais. Na adolescência, o período difícil, é possível que os jovens se enclausurem mais dentro de seus quartos, na frente dos videogames. Vão aparecer aqueles casos bisonhos, de gente que se apaixona por Lucy, a moça de dentro do videogame; do rapaz que entrou em depressão depois que o Xbox 360 deu 3 red lights e ele não pôde mais papear com Fred, seu melhor amigo virtual (virtual de ‘não existir’, e não como aquele conceito antigo, que diz que amigo virtual é amigo feito pela rede), e uma série de outras esquitices dignas da editoria Mundo Bizarro do G1.

Meu parecer? Prato cheio pra pós-graduandos em psiquiatria, psicanálise e campo de estudos muito vasto pros profissionais dessa área (vão ganhar grana pra caramba). Ademais, estamos entrando numa era que muitos escritores de ficção científica previram, e que muitos de nós duvidaram que seria verdade – um tempo em que se tornará cada vez mais difícil distinguir máquinas de gente.

Pela minha idade (se eu ignorar os índices de criminalidade do Brasil, as possibilidades de morrer em catástrofes naturais e o próprio fim do mundo em 2012), provavelmente estarei aqui pra ver isso. No fundo tenho medo, mas quer saber? Mal posso esperar pra testemunhar a tecnologia que deve selar nossa ascensão ou destruição definitiva. Ou não.

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O cara que previu o acidente com o voo da Air France no Orkut

Ontem à tarde, twittei uma mensagem que foi retwittada mais de 17 vezes. Ela dizia que aquele vidente Jucelino Nóbrega da Luz tinha previsto o desaparecimento do Voo 447 da Air France.

Nesse link, o ‘ambientalista e premonitor’ (ele se chama assim) publicou supostas cópias autenticadas em cartório de cartas que teria enviado em 2006, às autoridades, alertando-as sobre o acidente.

Eu me lembro desse cara – em 2007, ele ficou famoso por também ter alegado a previsão do acidente da TAM em São Paulo. E me lembro de, na ocasião, te rlido outras previsões dele. Ontem, achei sinceramente que tinha lido essa há dois anos.

O único jeito de descobrir a verdade seria verificar se a modificação de arquivos no servidor deixa algum registro que pode ser checado por alguém que entenda de sistemas. Se o cara incluiu o material antes da data do acidente, daí acreditamos nele. Se foi depois, as chances de que seja fraude são maiores.

Perguntei ao K-Max, companheiro de aventuras e entendido dessas paradas, se existia algum jeito de checar a data de alteração do arquivo.

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Ou seja – ou ele envia os documentos, deixa-os em casa e providencialmente escaneia só depois que a tragédia acontece, ou então temos um motivo a menos pra acreditar nesse tio.

Felizmente, o mesmo não acontece com o camarada aqui embaixo. Clique na imagem para ampliar:

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Observe a data de publicação – NÃO TEM ERRO. Este senhor, por algum motivo, sonhou um dia antes com um episódio muito semelhante ao que provavelmente aconteceu com o voo da Air France.

O tópico original é este. Nele, as pessoas alertam para o fato de que Flávio previu o acidente e ele conta o que aconteceu depois disso.

As perguntas que ficam:

- É possível alterar a data de publicação de uma mensagem no Orkut?
Não sei. Mas ainda que seja, há comentários embaixo do post, ou seja, exigiria que um grupo de pessoas se organizasse pra fraudar a história, todos mudando as datas de publicação dos posts. Improvável, mas possível.

- Quantas pessoas existem no mundo? Quantos sonhos existem por noite? Pensando em possibilidades e em caos, quais as chances de que muitas pessoas tenham sonhado com a queda de um avião da Air France na noite anterior ao do acidente?
Também não sei. Talvez pessoas sonhem com quedas de aviões da Air France todos os dias. Mas quando as quedas não acontecem, são apenas sonhos. Se as quedas acontecem, daí se tornam sonhos premonitórios.

Apenas reflita – é mais fácil acreditar no acaso (a entropia gera a harmonia, ainda mais nos sonhos), num grupo de maníacos que se organizou para forjar uma situação fantástica ou num sonho de fato premonitório?

Atualizado às 16h03: O Flávio, autor da mensagem que relata o sonho, a apagou. Parece que ficou assustado com a repercussão da coisa, e com as mensagens no perfil dele. Pelo menos, o print tá aí – e eu vi a mensagem postada, então tá tudo certo. Sobre apagar a mensagem, escolha do cara.

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Como redigir seu currículo: você quer ser um Futurólogo ou um Pai-de-Santo?

Eu percebi desde pequena que pra ser uma pessoa bem sucedida (na vida, mesmo) a fórmula a ser seguida é bem simples – você precisa sacar logo de cara o que as pessoas gostam de escutar e dizer isso pra elas. Demanda um pouco de empatia e inteligência comunicacional mas é sério, funciona em todos os campos dessa nossa vidinha. Venho aplicando desde que me dei conta.

Quando eu reclamei que tenho na faculdade uma matéria que avalia minha habilidade de argumentar bem,  não considerei essa máxima da vida em sociedade. Faz todo o sentido – senão, não haveria toda uma etiqueta a ser seguida em entrevista de emprego, palavras corretas a serem empregadas em diversas situações e até os termos mais adequados pra um currículo.

É, porque se você não consegue emprego, tenha certeza que o problema não está em você na sua notável incapacidade, pobre infeliz analfabeto. Está na maneira como você (não) se vendeu no seu currículo. Os analistas de carreira (a propósito, que tipo de metaprofissão é essa?) dizem que você precisa, hum, ‘florear’ as coisas, mas sem mentir.

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Tipo o Peter Pettigrew Nelson Rubens. Aumenta e não inventa.

Fica assim: se você, quando era criança, ajudou seu pai (que tem uma loja) a digitar no computador a ficha de todos os clientes, vai ficar muito mais atraente se você escrever que “ajudou a implementar e incluir dados de mais de X clientes no sistema de banco de dados da loja tal”.

Se você vendia limonada pros vizinhos, diz que era empreendedor em um pequeno negócio do ramo alimentício, que controlava desde administração de contas até projetos de marketing.

Até se você for analfabeto, cara, dá pra tornar a situação menos vexaminosa no currículo. Diga algo como “habilidade extremamente desenvolvida para analisar e observar figuras, imagens e ilustrações” (Lembra do “ler, ler eu não sei não, mas sei vê as figura”?). Resolvido.

E cara, isso é sério – funciona. Você já ouviu falar da profissão de Futurólogo?

Se não ouviu, te explico. Futurólogo é um cara pago pra dizer pras grandes empresas o que vai acontecer no futuro. Eles tem cargos de alta patente (e altos salários) nas maiores corporações do mundo. Se baseiam no que aconteceu no passado e nas tendências de mercado, além de cálculos envolvendo velocidade de aprimoramento da tecnologia, além de algo tipo ‘intuição’ (suponho), pra ‘prever’ coisas. Esses caras são ultra-respeitados, vivem dando entrevista pras publicações mais prestigiadas do mundo, e as previsões dele viram manchete.

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E, me diga por favor, qual é a diferença entre esses senhores e a pobre Mãe Dináh? Eu lhes digo. Quando a Mãe Dináh entrou na Lan-House com a plaquinha ‘Faz-se currículo’ na porta ela disse pro moço – “digita aí que eu sou vidente. Isso, vidente. Búzios, tarot, astrologia, amarração. Pode colocar tudo isso aí. Ah, e põe um ‘H’ no fim do meu nome. Isso, ‘Dináh’. É, com acento mesmo. Pega bem, as minhas amiga vidente tudo tem nome exótico assim, diferente”.

O Futurólogo, que já começa com a vantagem de ter um Q.I. maior, foi lá e escreveu que ele é… Futurólogo. Pronto.

Os futurólogos acertam? Às vezes, sim. Às vezes, não.

Mas a gente tende a ignorar os erros, nesses casos, e exaltar os acertos. Logo, se o cara errar 10 previsões e acertar uma com certa precisão, ele vai ser lembrado por aquela previsão que só ele conseguiu fazer. É um belo emprego – basta ter imaginação fértil pra ficção científica, boa capacidade de redação e de comunicação, quem sabe habilidades como ilustrador… você será muito bem pago pra pensar no que vai acontecer daqui 20 anos. E se errar, tudo bem, porque não é exatamente como se você pudesse, digamos, prever o futuro, né? A Wikipedia ainda descreve a profissão como ‘não o trabalho de indicar o que vai acontecer, mas o que pode acontecer…’ – COMO ASSIM BIAL? O que pode acontecer? Tudo pode acontecer, cara. Na boa, ser Futurólogo é moleza porque sua função é pensar em 20 possibilidades de futuro. 20, 30, 40, 50, 60. Se você acertar UMA delas, já tá bem sucedido na carreira.

E os pobres pais-de-santo, quiromantes, astrólogos e toda sorte de profissões do ramo considerado ‘charlatão’ pelo cidadão-padrão? Continuam sofrendo preconceito aí, na marginalidade, na dorga, na postrituição, só por causa de um termo mal empregado. Eles não tem a chance de fazer 10, 20 previsões do que PODE acontecer. Pra ter prestígio, um profissional da área da adivinhação precisa fazer uma previsão só e ser bem firme em relação a ela. Se for bem sucedido, bom; senão, está fadado à desgraça.

Porque na prática os dois fazem exatamente a mesma coisa. Tudo nessa vida é marketing pessoal. Mãe Dináh e Walter Mercado – vocês poderiam ter construído belíssimas carreiras na IBM, HP, Intel, Microsoft ou Apple como Futurólogos. Deviam ter previsto isso.

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Explicando a onipresença divina através da gastronomia

Quem vinha duvidando da onipresença de deus vai ter que morder a língua com as últimas descobertas da gastronomia contemporânea. Jesus, o filho do pai, está por aí fazendo a festa nos produtos alimentícios. É como se ele tivesse no céu sem nada pra fazer e resolvesse carimbar sua cara nas coisas por aí.

Os seres-humanos, que são malucos por definição (e passíveis de um fenômeno chamado pareidolia) veem jesus em tudo, o que é bonito e só comprova a tese de que ele está mesmo, em todo lugar. Quem não lembra dessa belíssima frase do (apócrifo) Evangelho de Tomé: “O Reino de Deus está dentro de Você e a Sua volta; nao em prédios de madeiras ou pedras. Rache uma lasca de madeira e EU estarei lá; Levante uma pedra e ME encontrará”.

Significa que você não precisa ir na igreja pra encontrar deus. Ele tem habitado mais as lojas de conveniência, mesmo:

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Observe com atenção (e fé) esse Kit Kat mordido. Lembra-se dele, o Kit Kat? Aquela versão genérica e, na minha opinião, mais saborosa do Bis? Pois é. Clique na imagem para ampliá-la e você vai se deparar com o poder de cristo de se materializar em qualquer lugar.

Não gosta de doces? Não tem problema. Jesus não faz distinção entre ninguém, e por isso, ele também se manifesta em aperitivos salgados:

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Batizado de ‘Cheesus’, esse salgadinho de queijo tem a forma de jesus orando, como é bem óbvio, e foi encontrado por um casal norte-americano. Apenas coincidência?

E, justiça seja feita, jesus demonstra humildade até na escolha dos lugares em que ele dá as caras. A foto abaixo é a maior prova de que ele está EM TODOS OS LUGARES:

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Pena que oportunistas se aproveitam de manifestações gastronômicas (e anatômicas) divinas tão verdadeiras para tentar enganar os fiéis mais afoitos. Esse vendedor do eBay, por exemplo, está vendendo uma torrada com a face de Jesus:

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Numa situação dessa, é importante se ater aos detalhes para não ser enganado. Primeiro, repare que não há coroa de espinhos nessa reprodução. A coroa de espinhos é item obrigatório em qualquer manifestação gastronômica de Jesus.

Além disso, a barba está muito rala, o que não caracteriza o salvador. Em terceiro lugar, a avidência mais marcante: o indivíduo na torrada usa óculos de natação, e todos sabemos que Jesus nunca precisou disso, porque caminhava pelas águas com destreza.

Ao fim, desvenda-se o mistério: a figura na torrada não é jesus coisa nenhuma. Não passa do saudoso Cersibon, mostrando que também o eterno personagem das webcomics  tem algo de místico e inexplicável.

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cersie jeus: separoadfos n nassimento1!”"!

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Uma análise da Season Finale de Lost por alguém que está provavelmente tão confuso quanto você

Eu evitei falar sobre Lost por muito tempo, porque é um post segregador. Nem todo mundo vê a série, nem todo mundo está no mesmo episódio que estou. Mas o fim da 5ª temporada me deu algumas dúvidas e muitas certezas, certezas que eu não vi ninguém mais comentar. Se você não vê Lost ou vê mas ainda não viu o último episódio da 5ª temporada, não leia o texto abaixo. Vou dar alternativas pra todos os gostos e perfis:

Avisado? Ok.

Spoilers TENSOS a partir daqui.

Seguinte. Eu sempre achei que Lost fosse seguir as leis da física, no geral. Não há distorções, se você estudar um pouquinho de física quântica (eu sei muito pouco). Conceitualmente, buracos de minhoca e os paradoxos que as viagens no tempo são capazes de criar sempre foram muito bem retratados no plot da série. Tem até referência a teoria das cordas. Eu sempre achei os caras geniais por isso – um plot enroladíssimo, com conceitos complicados, sem que no geral se pudesse apontar uma falha sequer.

Claro que isso, por um lado, é porque eles não responderam muitas coisas. Quando responderem, poderemos ver se houve falhas ou não. Mas divago. A questão é que minha teoria em Lost se baseava na seguinte premissa – o que aconteceu aconteceu. Ponto. Não há como explodir uma bomba que impeça o avião de cair, porque se o avião não cair, os Losties não estariam ali explodindo a bomba pra que ele não caísse. O tempo é uma linha contínua.

A não ser que consideremos a teoria dos universos paralelos. De qualquer forma, o último episódio, que deixa claro que a série é sobre bem x mal, livre arbítrio x destino, fé x ciência, me fez ver que Lost não está seguindo a regra que eu achei que estivesse – o que aconteceu pode não ter acontecido. Você sempre tem a escolha. Jacob repetiu isso muitas vezes.

Porque eu digo isso? Ok, está claro pra mim que, de certa forma, o incidente que Jack tentou evitar é exatamente o incidente que ele causou. Isso fica óbvio quando o Dr. Chang tem a mão machucada.

Mas o anti-Jacob, que certamente estava representado como Locke por causa das referências iniciais e finais ao ‘Loophole’, (deveríamos ter dado ouvidos às declarações dos produtores, que disseram que em Lost, quem está morto está morto), precisou intervir nesse suposto LIVRE-ARBÍTRIO para que Locke pudesse estar morto. Então HÁ A POSSIBILIDADE DE MUDAR. Explico.

O anti-Jacob foi quem disse a Richard pra que orientasse Locke (o de verdade) a voltar pra ilha e morrer por isso. Assim, o anti-Jacob garantiu que seus planos fossem cumpridos, porque aparentemente ele só pode ‘incorporar’ gente que já morreu (aí, têm referências às divindades egípcias do mundo inferior). Se ele não tivesse feito isso, haveria um futuro paralelo, em que algo diferente aconteceria. Ou não, mas acho que consegui provar o ponto.

Se o anti-Jacob manipulou uma pessoa comum pra que ela interferisse num ato do passado para causar uma ação futura, então qualquer um pode. Lembre-se que quem interferiu foi Alpert, e não o anti-Jacob ele mesmo, ou seja, ele não pode se envolver, mas sempre pode manipular alguém para fazer o que ele quer que aconteça.

Mas Jacob, parece, teria como saber o que aconteceria. Ele foi quem arquitetou, de certa forma, a volta de alguns dos Losties pra ilha. Ele estava sempre lá. Tipo o careca de Fringe. Ou o Linderman, de Heroes.

No geral, o que temos: duas divindades, uma representando o bem – provavelmente Jacob – e outra o mal, que é o moço de preto do início do episódio, e provavelmente o monstro de fumaça, e o Locke de volta à ilha. Jacob acredita nos homens. Acredita que no fim sai algo bom deles. O outro, não. E eles ficam brincando de provar um pro outro seu ponto. 

Sinceramente, não sei o que significa a morte de Jacob, porque acho que não existe, com Jacob e anti-Jacob, a morte literal, do corpo físico. Se eu fosse chutar, diria que a ilha é análoga a um graaande campo de xadrez, em que os dois ficam brincando de mostrar um pro outro quem tá certo e quem tá errado. Os dois estão na luta pelo controle dos ‘experimentos’ na ilha há milhões de anos; quando um consegue manipular o ser-humano pra vencer o argumento do outro, game0-over pro que foi destruído, ele sai do controle da ilha e no lugar dele entra o outro cara, que fica lá brincando com os peões atééé ser derrubado pelo outro fulano. Tipo um jogo eterno, em que dá um game-over e aí o fulano perde a vez, mas tem vidas infinitas.

Hum… alguém assistiu Constantine?

E pros que duvidavam que esse plot estava arquitetado desde o início, refresquemos a memória com uma cena que, agora, faz todo o sentido do mundo:

Não sou dessas especialistas em cultura pop. Tem muita coisa velha e legal, tipo Arquivo X, Twilight Zone e Twin Peaks, que não vivi e só vi depois de crescida. Mas a trama de Lost me lembra algo em Harry Potter – a referência em tramas desse tipo mais próxima da minha geração, por isso mencionei o ponto anterior.

Em Lost, como em Harry Potter, está tudo lá, sempre esteve – o início, o meio e o fim. Nós é que não estamos vendo as coisas na ordem. No fim, quando o quebra-cabeça estiver montadinho, veremos que não faltará quase nenhuma peça. As pessoas pensavam nos acontecimento da 5ª temporada como fatos que alterariam o futuro que já tínhamos visto, mas a gente só viu a coisa fora de ordem. Se você ordenar, está quase tudo ali.

Quase. Porque parece que dá pra mudar as coisas. Talvez, e só talvez, anti-Jacob ter interferido na linha do tempo (orientando Alpert pra que ele falasse que o Locke deveria morrer) pode ter gerado um futuro paralelo em que ele, o Anti-Jacob, se ferra. Ou não.

Chutar o que acontece na última temporada? Não faço idéia. Mas existe redenção ali. Existe redenção de Jack, o cara que era pura ciência e virou pura fé; existe redenção de Kate, que não se importava em tirar uma vida se fosse necessário e acabou disposta a se sacrificar pra não deixar que nenhuma vida fosse perdida; existe redenção de Sawyer, um cara que vivia uma mentira na verdade e depois foi viver uma verdade, ainda que na mentira. E tem Hurley, o cara que pode falar com os mortos; tem Walt (Waaaaaaaaaaaalt); tem Sayid baleado, e Desmond, ao qual as regras não se aplicam.

Agora, só em 2010. Sorte que o fim do mundo tá marcado pra 2012.

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Sobre ser sexy (e o oposto disso)

Eu sempre achei que essa palavra, sexy, era uma daquelas que a gente tem que ter vergonha de usar. Como… balada. Ou Mara, essa praga infeliz que se alastrou não sei como e que me causa arrepios toda vez que ouço ou leio.

É que eu achava que sexy era uma palavra totalmente desnecessária. Temos termos em português que se adequam ao conceito que sexy tem no inglês. Quando leio aquelas listas de 10 mais sexies não concordo com quase nenhuma. Porque eu discordo do conceito padrão de sexy – que pra mulher, é gostosa, e pra homem é qualquer coisa que que orbite a beleza do Gianechinni ou do Brad Pitt.

Sexy, a palavra que eu odeio usar, se diferencia do conceito padrão de ‘homem ou mulher desejável, porque semanticamente carrega algo a mais do que simplesmente alguém bonito. Se trata de uma aura, algo que não é físico. O cara pode ser bonito e não ser sexy. E pode ser sexy sem ser bonito.

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Este cidadão se chama Alex Kapranos, é escocês e é feio pra porra – se a gente considerar os padrões de beleza e tal. Além disso, se veste de um jeito esquisito – não mal, mas estranhamente fashion. Mas não consigo pensar em ninguém mais sexy que ele depois desse clipe:

Daí concluo – não há palavra em português que substitua com perfeição esse conceito de sexy. Não tem a ver com beleza física, e nem com identificação de personalidade. É um combo bizarro de características, e que de alguma forma varia (ainda que levemente) de pessoa pra pessoa. Gosto para beleza varia bastante, mas reconhecimento de alguém sexy é algo que normalmente tem uma unanimidade maior.

Ou não. Ah, e eu não sei como funciona para identificar mulheres sexy.

Mas falando em ser sexy (e não em estar cansado de ser, porque evito esses hypes), temos aí na praça um novo site que mostra como esse fantástico conceito de sexy pode ser tão pessoal.

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Esse é um dos retratos de beleza e sensualidade incontestáveis que podem ser encontrados no Sexy People, um blog cujo único objetivo é reunir retratos de gente muito, muito não sexy. Pra provar que a democracia está presente até nos conceitos de atração sexual, o site conta com toda sorte de tipos físicos, etnias, idades e origens. E não se trata de gente feia. Tem umas fotos de pessoas bem bonitas lá. É só sobre não ser sexy, o que prova que beleza não tem nada a ver com isso.

É difícil definir exatamente o que torna alguém sexy, mas olhando essas fotos a gente tem um sentimento intenso de que é exatamente o oposto do que está nelas, e isso é interessante – se você sabe o que não é sexy, já é um passo a mais pra descobrir o que é.

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Gripe suína, a moda e as lendas urbanas

É, a gripe suína se consolidou mesmo como a mais nova febre (há!) do verão outono. Mais contagiosa que música do Latino (que bela piada heim? Mas tem um paralelismo, juro), ela esta nós fazendo regredir um pouco na outrora fabulosa medicina moderna e serve como uma overdose de humildade pros que realmente acreditavam na supremacia da raça humana.

Topo da cadeia alimentar? Não sei não. Afinal, é tão século 12 as pessoas morrerem por causa de gripe. Eu já disse: o planeta tem meios de espirrar nossa espécie pra fora quando ele quiser, se julgar necessário. A possibilidade de uma pandemia no séc. XXI é só a prova.

Mas a vida continua, ainda que com máscaras cirúrgicas ridículas sendo usadas por 90% da população mundial. E eu fico imaginando se um acessório tão sóbrio pode, daqui algumas décadas, se tornar um adorno de vaidade. Porque assim que as pessoas começaram a usar colares e correntes com pingentes – acreditava-se que esses ‘patuás’ protegiam contra doenças e maldições dos deuses malignos da antiguidade.

Em décadas, quando as mutações dovirus da gripe forem tão letais, diversas e frequentes que não vai ser possível sair de casa sem máscara, a coisa vai passar a fazer parte da cultura humana. E ainda que a medicina futura encontre uma vacina contra todas as mutações, o uso da máscara perdurará. E como pra toda tendência moderna, já temos os vanguardistas. Já consigo até prever os editoriais de moda:

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Esse mexicano abusou do bom humor e dos estereótipos de seu país pra tornar o acessório único

FLU/
Uma borboleta, o símbolo da feminilidade, foi o tema escolhido por essa funcionária de um aeroporto mexicano

MÉXICO-GRIPE PORCINA
Rebeldia, criatividade e improvisação: três palavras que têm tudo a ver com juventude e com máscaras cirúrgicas

Daí vão te ensinar como combinar sua máscara com os outros acessórios, variações divertidas (máscara de bandido do faroeste; fantasia de médico). Pelo menos ainda não caímos no ridículo de colocar máscaras nos porquinhos. Aliás, uma máscara com um nariz de porquinho seria de uma criatividade e ironia formidáveis.

Mas a realidade é: eu tô morrendo de medo dessa gripe. Só consigo fazer um paralelo com a Peste Bubônica (sem exagero), com o fim do mundo, o apocalipse bíblico, Nostradamus, Inri Cristo (?) e todas essas figuras de fim do milênio. Mas sabe que essas coisas são necessárias de vez em quando, né? Pra dar uma segurada no crescimento populacional. A gente sabe que as pessoas morrem mais nos países mais pobres, que não contam com condições sanitárias adequadas pra suportar uma epidemia desse tipo. E é nos países mais pobres que as taxas de natalidade bombam. A natureza sabe das coisas.

E enquanto o governo brasileiro diz que reforça medidas contra a chegada da gripe por aqui, apesar de termos 12 casos de suspeita (impossível conter; não adianta mascarar os viajantes nos aeroportos, já que já tem gente contaminada nos países que fazem fronteira com a gente), hackers usam a história pra vender remédios falsos sobre a doença, eu fico pensando numa coisa só.

Me chame de maluca paranóica por teorias da conspiração. Mas se é sabido que as empresas que desenvolvem softwares de antivírus precisam investir na criação de novas tecnologias de vírus, porque isso não seria uma verdade no mundo real? Só dois laboratórios fabricam remédios que podem combater a gripe do porco.

E no mais, sábias mesmo são as palavras de @RonaldRios:

ronald

Eu também nunca conheci ninguém. Aliás, nem discuto mais esse negócio do Acre não existir. Pra mim, até Dengue é lenda.

artigoironico

PS.: Escrevi esse depois de assistir Charlie: the Unicorn 3. Acho que daí vem a psicodelia e a ausência de sentido.

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Eu não sei como me comportar quando cantam ‘Parabéns’ pra mim

A vida pode assumir uma série de definições, mas uma bem precisa é que é uma sucessão de acontecimentos constrangedores separados por intervalos em que acontecem o resto das coisas, sendo esse resto das coisas o dia-a-dia e os momentos em que você passa pelas coisas não memoráveis.

É, porque por mais triste que soe, a gente costuma se lembrar das coisas muito boas e das muito ruins, e normalmente as constrangedoras se enquadram nos momentos muito ruins e muito bons de tão engraçados – depois.

E o mais fantástico sobre a vida é que ainda que você seja uma dessas pessoas ultra sortudas, que nunca passam por situações em que podem se sentir muito envergonhadas, provavelmente não está livre de uma vez por ano estar num papel que é quase absolutamente constrangedor pra todo ser-humano padrão: o de  ser o alvo de um Parabéns a você numa festa de aniversário.

A sua, digo. Ou minha, no caso do domingo.

A sociedade é tão sacana que ela instituiu um mecanismo no qual uma convenção social profundamente arraigada é a causadora de um dos constrangimentos mais intensos que qualquer pessoa pode passar. Porque é um constrangimento diferente de qualquer outro: ele não é daqueles instantâneos, efêmeros.

Explico. Se alguém te pegar com o pinto dentro de um tubo de aspirador de pó vai ser chato. Certamente, é algo que vai gerar um certo constrangimento. Mas são segundos até que você tire a parada de lá, desligue o aparelho e se explique. Frações de tempo. É um constrangimento com início, meio e fim (ainda que bem intenso) e depois você ainda pode pensar numa desculpa pra ele, falar qualquer coisa, argumentar.

Parabéns é uma canção de uns 45 segundos durante a qual todo mundo olha pra você e você não sabe absolutamente o que fazer com as mãos, não sabe o que fazer com a boca – se canta, se fica quieto, se grita -, não sabe se bate palmas junto, se sorri, se fica sério, pra qual das 20 pessoas olha. E quando acaba não tem explicação pra dar, não tem nada pra consertar. Fora o perigo de cantarem Com quem será e entoarem O fulano faz anos…

O mais curioso é que exatamente a situação chata mais inevitável e mais difundida do mundo vai estar na tua vida pelo menos uma vez por ano. Não há como fugir – é como se a vida quisesse que toda pessoa passasse vergonha sem escapatória pelo menos uma vez por ano, só pra ficar esperto.

E você nunca pode pedir pra que as pessoas não te cantem Parabéns. É impressionante como você pode pedir praticamente tudo pras pessoas hoje em dia e ser capaz de encontrar um grupo que vá atender ao seu pedido. Mas isso nunca funciona pro Parabéns, porque ninguém entende como é possível fazer aniversário sem um e você não imagina as caras de horror ao sugerir que não se cante a música maldita. Não existe, é inadmissível, nem sequer se cogita.

Um dia desses, quando eu completar uns anos aí e tiver numa festa sem familiares que precisem da tradição do Parabéns e tal, vou sugerir que todo mundo me cante outra música. Pode ser Festa, da Ivete Sangalo. Ou o Créu. Pelo menos essas músicas têm coreografia e os aniversariantes vão saber o que fazer com as mãos.

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O que está acontecendo com as pombas?

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Pombas são bichos escrotos por natureza. Elas foram claramente criadas por deus para infestar as grandes cidades, e casam perfeitamente com o visual caótico e cinza das metrópoles.

Digo isso pelo seguinte: você consegue imaginar uma pomba selvagem, em habitat natural? Pombas voando livremente por entre as árvores, convivendo amigavelmente com tucanos, capivaras, onças-pintadas e animais tipicamente brasileiros?

Impossível. Pomba é um bicho branco. No mato, verde, seria presa fácil. Além do mais, em que elas cagariam? Quem lhes daria milho? Não haveria sacada ou beira de prédio pra pousar. Fato: pombas só foram criadas por deus depois da revolução industrial.

Pois bem, mas pombas costumavam ter pudores. Ainda que convivessem conosco nas grandes cidades de forma um pouco invasiva, costumavam saber onde era seu lugar. Você conseguia espantar uma pomba com facilidade, elas não chegavam a menos de um metro e meio de nenhum ser humano. Não entravam debaixo de rodas de carros. Não voavam pra cima de você.

Eu coloquei os verbos no passado porque estou observando um fenômeno muito estranho tomando conta da personalidade das pombas,  fenômeno esse que foi observado também por amigos e pessoas no Twitter: as pombas estão mais ousadas. Agressivas. Destemidas, até.

Tenho notado uma mudança no comportamento delas. Como se as pombas estivessem afetadas pelo vírus bizarro do último filme do M. Night Shyamalan, elas perderam o medo da morte. Se colocam na frente dos carros de maneira arriscada, voam pra cima das pessoas sem pudores, não fogem desesperadas se você bate o pé ao lado delas.

“Minha irmã adora assustar pombas. Estávamos na praia, e ela pulou de maneira exagerada para espantar uma delas, mas surpreendentemente a pomba avançou em direção à minha irmã!”, relatou com temor uma colega de trabalho que preferiu não se identificar, com medo de represálias por parte dos pássaros.

“Em Florença, as pombas são bobas. Não são como as daqui”, relatou a mesma pessoa não-identificada, o que comprova minha tese de que o fenômeno está de fato acontecendo e é isolado, característico das pombas da Grande São Paulo.

E do ponto de vista evolutivo, isso não faz sentido nenhum. Pombas mais burras, mais ousadas, e que têm mais chances de morrer, não deveriam estar se multiplicando. Por morrerem com mais facilidade, transmitem menos o gene burro delas. Mas não é isso que está acontecendo – eu só vejo o fenômeno aumentar.

Olha aqui as pessoas concordando comigo:

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Seria uma temível versão de Os Pássaros acontecendo na vida real? Estariam os sentidos das pombas confusos e distorcidos por causa da poluição, das redes wi-fi, dos celulares, dos telefones sem-fio ou dos microondas? Comida não lhes falta, pois segundo fui informada durante a extensa pesquisa que fiz pra esse post, pombas comem absolutamente de tudo.

Estariam elas arredias pela chegada da crise econômica (a tese é do amigo Gabriel Pinheiro e do @leocoelho)? Com a escassez de comida, elas precisam se arriscar mais pra conseguir alimento e por isso estariam se aproximando dos humanos?

A teoria do meu irmão é um pouco mais simples. Embora ele também acredite que a crise econômica seja o motor dessa refilmagem de Hitchcock na vida real, a explicação é outra: “você atribui essa falta de medo delas a uma possível mudança biológica. Eu digo simplesmente que elas estão menos assustadas. Logo, mais calmas. Menos estressadas. Uma reação contrária natural às exigências da grande metrópole, uma tendência natural ao bucolismo, que inclusive já está sendo adotada por alguns indivíduos”. Ou seja – segundo meu irmão, o próximo passo dessas pombas-monstro é se mudar para o campo. E elas estão até arranjando bicos por fora pra atingirem esse objetivo.

Àquele que acha que isso é uma viagem, peço que antes de dizer qualquer coisa tente observar por um ou dois dias as pombas da sua região. Olhe, veja, perceba e traga seu relato. Se possível, filme. Eu tentei, mas não consegui – apesar de as pombas estarem mais exibicionistas, constatei, quando se trata de câmeras elas voltam ao estado normal e voam longe. Correm dela como dos paparazzi correm as celebridades – ou seja, não querem que as pessoas saibam que elas estão mudando.

Fique atento. Uma delas pode estar te observando agora.

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