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Entenda o papel da internet, das redes sociais e do Twitter no cenário no Irã – e não vai ser chato, eu juro

A história de luta no Irã é complexa e data de vários séculos - acredite ou não, começou com a invasão do território pelo Império Otomano, em 1500 e alguma coisa. Sei muito pouco sobre o Irã, antigo império Persa, mas aprendi bastante desse pouco depois que li, há um mês, o fabuloso Persépolis, de uma moça chamada Marjane Satrapi.

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Esse é o livro – clica aqui pra comprar

Nós, ocidentais, sabemos muito-pouco-quase-nada sobre o Oriente. Achamos que é tudo deserto, camelos, Alah e burcas. Felizmente, assim como nós no Brasil somos um pouco mais do que criadores de macacos selvagens, o Irã tem uma longa, loooonga história de oposição política à ditadura islâmica, marcada por muito sangue misturado a, adivinhem, petróleo. Não vou dar aula de história aqui – leia o livro, vale a pena, é uma graphic novel: ou seja, quadrinhos, as edições encadernadas num livrão. A questão é que a polêmica da fraude da reeleição de Ahmadinejad está se tornando um case fantástico para mostrar o poder das novas mídias e isso me deixa estranhamente feliz.

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Os defensores da democracia lutam por ela naquele país há quarenta anos, sem esmorecer. Eles passaram por torturas, desaparecimentos, opressões semelhantes ou piores às que a gente passou aqui nos anos de ferro. A censura lá é brava, não há absolutamente liberdade de expressão, algo que pra gente do ocidente e que nasceu no fim dos anos 80 é inconcebível. E boa parte dos que continuam lutando e morrendo pela democracia (alguns, inclusive, pelo direito de não ter dogmas religiosos instituídos) são estudantes. A Universidade de Teerã, por exemplo, ficou cercada pelas forças nacionais na última semana.

Até aí, nada de novo. Jovens curtem essas paradas subversivas, essa é a história. Aqui a gente assiste Malhação, lá eles confrontam as forças nacionais, acontece. A coisa é – eles estão se organizando pelo Twitter. E de maneira brilhante, sem precedentes.

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O Twitter já foi usado de forma igualmente brilhante em coberturas de desastres, em outros casos de acusações de fraudes eleitorais e já mostrou que é uma ferramenta de valor incontestável nesse sentido. O governo iraniano, inclusive, tentou bloquear as conexões ao site, mas os usuários contornaram e usaram proxies. Depois, o governo bloqueou a busca pela tag que estava sendo usada pelos iranianos para cobrir os massacres e as repressões, #iranelection, e eles se organizaram e trocaram de tag (para #Teeran); e por último, mas não menos importante – os iranianos mobilizaram usuários do Twitter ao redor do mundo inteiro para que troquem a nacionalidade de seus perfis, todos, para Teeran, fuso horário +3:30 GMT.

Isso é para confundir os censores iranianos, que podem buscar os perfis de quem tem twittado com as tags em questão, e perseguir aqueles que se dizem de nacionalidade iraniana. MAS se todo mundo no mundo viver em Teeran, bem, talvez eles tenham dificuldade em identificar quem tá falando a verdade e quem não tá.

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Pela internet, os iranianos fizeram toda a cobertura que o governo impediu que a imprensa fizesse. Está tudo no Twitter, no Flickr, no YouTube. Só não vê quem não quer. E a partir do momento que os usuários fazem o tema se tornar relevante na internet, a mídia de todo o mundo passa a considerar o assunto pauta. Mesmo se não fosse. E começam a noticiar o conflito a partir das poucas, únicas fontes disponíveis – os twitteiros e flickeiros que estão nas ruas de Teerã relatando os fatos.

Tem censura de internet em outros lugares, também. A China é um exemplo. Mas na China não há conflitos tão longos, que envolvem questões econômicas, políticas e religiosas, não há o cenário de instabilidade política que o Irã tem agora, e há um crescimento econômico vertiginoso – tudo isso ‘amansa’ as pessoas. Quem me explicou essa parada foi o Pedro Dória, há duas semanas, numa entrevista que gravei com ele, por telefone, para o site do Link (mas que acabou não indo pro ar, infelizmente).

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A conclusão que eu chego, ajudada pela análise que ouvi do Dória na outra semana e por tudo que tenho lido sobre a questão iraniana: você não consegue bloquear a internet e impedir que os usuários se manifestem de forma satisfatória se o povo estiver economicamente insatisfeito e se você não tiver apoio das grandes empresas de internet. O Google, o Yahoo – todos se submeteram às regras da China. No Irã isso não aconteceu, os bloqueios foram governamentais, deliberados. Facilmente dribláveis, especialmentepor uma comunidade intelectual.

E o mais impressionante: através de uma ferramenta de uso extremamente simples, um grupo de oprimidos em um país lá no canto do planeta consegue mobilizar uma comunidade online local e, em segundo lugar, no mundo inteiro, em direção a uma causa. Unir ocidente e oriente, de certa forma – não totalmente, mas é uma união. E consegue mostrar para o mundo o que está acontecendo, não importa o quanto o governo daquele país tente esconder isso. Ver isso acontecendo, meu amigo, é revolucionário. Fazer parte disso, de alguma forma, é viver história. Espero que você esteja se dando conta disso nesse momento.

*Se eu escrevi alguma bobagem histórica, qualquer um de vocês é bem-vindo para me corrigir nos comentários.

**O blog do Pedro Dória tá cobrindo a treta no Irã com bem mais propriedade do que eu (observação óbvia). E o texto é leve também, exceto pelos nomes dos Aiatolás. Cola lá.

***O post tá ilustrado com trechos de Persépolis, o filme. Isso, aleatório mesmo. Também tem no Submarino.

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Project Natal: parece que o futuro chegou, e eu tenho medo dele

Tá rolando a E3 nos EUA. Como sei que meu público é plural e diversificado, peço uma pausa para explicar aos não-nerds o que é a E3.

E3 é a maior feira de games do mundo, palco para as fabricantes apresentarem as tecnologias que possivelmente dominarão o mundo no ano vindouro.

Explico também ao leitor leigo que os videogames, antes considerados artigos de nicho, reservados somente a um grupo restrito de aficionados, acabaram popularizados entre todos os gêneros e idades pela Nintendo com o lançamento do Nintendo Wii, aquele videogame maneiro que tem um controle em formato de tijolo que reconhece os movimentos do jogador.

(Aproveitando, deixo um apelo: nunca joguei Wii. É, eu sei. Vergonhoso. Portanto, caso alguém esteja pensando em dar uma Wiiparty na Grande São Paulo, enviem o convite. Grata)

Obrigada pela paciência. Na E3, a Microsoft apresentou um esquema que chama Project Natal, um acessório para Xbox 360 que transforma o próprio jogador no controle.

Sim, aparentemente é tão preciso e assustador quanto o vídeo mostra. O acessório é capaz de reconhecer o corpo do jogador e transportar isso para dentro da interface do jogo, tornando desnecessário o uso de um controle plástico para direcionar seus movimentos. A idéia é – apenas faça o movimento e isso será replicado na tela.

Mais assustador ainda é o próximo vídeo, que dá uma dimensão de outra tecnologia de inteligência artificial que está sendo desenvolvida para funcionar junto com o Project Natal e que, tecnicamente, já poderia ser colocada a disposição para o consumidor final através de um console e do acessório necessário:

Nesta simulação (em inglês, e sem versão com legendas no YouTube, sorry), um personagem de dentro de um videogame conversa com alguém da vida real. Ele é capaz de reconhecer faces, então identifica quem essa pessoa é, e a chama pelo nome. Também é capaz de reconhecer expressões faciais e tons de voz, por isso, identifica a inclinação emocional da pessoa. Através de uma interação por câmera, a pessoa DESENHA ALGO EM UM PAPEL e mostra isso ao garoto do vídeo, que PEGA O PAPEL, olha o desenho, reconhece-o e comenta o desenho.

Parece filme de ficção científica daqueles que de tão exageradamente futuristas viraram trash-cult. Não são poucos os roteiros em que gente de verdade caminha e interage fisicamente dentro de um mundo virtual, e a concretização disso me parece, ao mesmo tempo que fantástica, assustadora.

Primeiro, tem a inteligência artificial dessa parada, que de tão próxima a nossa maneira de relacionar dá medo. Quanto mais próximo um organismo com IA é ao interpretar e responder a estímulos de seres humanos, mais a gente falha em reconhecer esse sistema como uma máquina desprovida de ‘personalidade’, ‘sentimentos’ ou seja lá o que isso for. A gente acaba atribuindo essas características àquilo sem querer, por instinto, porque bem ou mal aquela imagem ou robô se comporta como um de nós se comportaria.

Se isso já perturba pessoas que tem apenas leves desvios de personalidade (eu), imagina o que vai se tornar uma tecnologia dessa na mão das milhões de pessoas no mundo que tem problemas de interação social? Se você tem um computador que te trata melhor do que qualquer ser humano que você conhece, porque você vai tentar se relacionar com pessoas?

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Pra pedir cigarros

Num mundo onde as pessoas estão gradualmente mais individualistas, mais mal-educadas, mais egoístas, nem vai ser muito difícil desenvolver um robô que seja mais educado e simpático que a maioria das pessoas que a gente encontra por aí.

E eu fico pensando nas consequências sociais. Na adolescência, o período difícil, é possível que os jovens se enclausurem mais dentro de seus quartos, na frente dos videogames. Vão aparecer aqueles casos bisonhos, de gente que se apaixona por Lucy, a moça de dentro do videogame; do rapaz que entrou em depressão depois que o Xbox 360 deu 3 red lights e ele não pôde mais papear com Fred, seu melhor amigo virtual (virtual de ‘não existir’, e não como aquele conceito antigo, que diz que amigo virtual é amigo feito pela rede), e uma série de outras esquitices dignas da editoria Mundo Bizarro do G1.

Meu parecer? Prato cheio pra pós-graduandos em psiquiatria, psicanálise e campo de estudos muito vasto pros profissionais dessa área (vão ganhar grana pra caramba). Ademais, estamos entrando numa era que muitos escritores de ficção científica previram, e que muitos de nós duvidaram que seria verdade – um tempo em que se tornará cada vez mais difícil distinguir máquinas de gente.

Pela minha idade (se eu ignorar os índices de criminalidade do Brasil, as possibilidades de morrer em catástrofes naturais e o próprio fim do mundo em 2012), provavelmente estarei aqui pra ver isso. No fundo tenho medo, mas quer saber? Mal posso esperar pra testemunhar a tecnologia que deve selar nossa ascensão ou destruição definitiva. Ou não.

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Juventude tem que ‘despendurar’ da internet e voltar a ver TV, diz ministro


Juventude tem que “despendurar” da Internet e voltar a ver TV, diz ministro

Opa. Mas é claro, senhor Ministro das Telecomunicações Hélio Costa. Minha mãe me faz essa recomendação todo dia. Ela diz: “menina, sai desse computador e vai um pouco pra frente da televisão!” ou então “pára de ouvir música nesse computador e liga o rádio!”. É, minha mãe não desiste. Porque ficar pendurado na TV e no rádio é comprovadamente mais saudável do que ficar pendurado no computador.

Mas eu não saio do computador, senhor ministro. E o senhor sabe por quê? Porque o computador é capaz de uma proeza que, vou te contar, é dessas coisas realmente impressionantes. O computador consegue – não me pergunte como – reunir numa coisa só não só a TV e o rádio, mas uma série de outras coisas que a TV e o rádio, inclusive, não oferecem.

Então, as crianças vêem TV sim, e ouvem rádio sim. Mas é no computador, ou seja, provavelmente não do jeito que o senhor gostaria.

Quando eu era pequena e minha mãe realmente me dizia pra sair do computador, eu explicava a ela que a questão não era o computador em si, mas sim a multiplicidade de tarefas que ele proporcionava. Explicava que, se o microondas me permitisse conversar com os amigos de forma instantânea, eu usaria o microondas.

Ok, ela não entendia o argumento. O que quero dizer é – a internet é uma rede de pessoas, não de computadores. Usar o computador pra se comunicar com outras pessoas não diminui o valor desse contato. Ou seja, eu não estava ‘pendurada’ no computador, estava apenas expandindo minha rede social – passava o dia na rua, com os amigos, e à noite continuava com eles, só que na internet.

É a mesma relação nesse caso – o computador é uma central multimídia, e usá-lo em detrimento da TV não significa que não vejo TV. Pelo contrário.

Mas a grande questão aqui é a seguinte: nós deveríamos MESMO ter que explicar isso pra um cara cujo cargo é MINISTRO DAS TELECOMUNICAÇÕES?

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É que tô com tendinite de tanto mexer no PC tá ligado

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A disciplina mais estúpida do mundo

Eu tenho várias idéias de textos legais pra postar aqui. Aconteceram coisas engraçadas no fim de semana, tive novos insights de coisas da vida e tudo o mais.

Mas só to aqui pra dizer PORQUE eu não tive tempo pra escrever nada disso: é por causa de uma disciplina infeliz do penúltimo semestre de jornalismo chamada Atividades Complementares. E de um relatório estúpido associado a ela que eu precisei entregar há pouco mais de 7 minutos.

Esse texto, que será o mais curto possível, é apenas um desabafo. A disciplina consiste no seguinte: um semestre de aula uma vez por semana. Mas você tira nota apresentando, no fim do semestre, um relatório com tudo o que você já produziu jornalisticamente desde que entrou na faculdade, com os cursos que fez, as palestras que viu e essa coisa toda.

Eles estipulam uma pontuação pra cada tipo atividade, e cabe a você descrever num documento o que você fez ou não e entregar, junto com comprovante e/ou cópias de tudo. Mas não é que simplesmente você entrega isso e eles te dão a pontuação.

Você precisa JUSTIFICAR o quanto aquilo agregou na sua vida profissional. Com palavras bonitas, frases enriquecedoras e, hum, lábia.

Basicamente, no penúltimo semestre eu tenho uma matéria que avalia minha capacidade de convencer o professor de que escrever uma reportagem foi realmente excelente pra mim. Ou seja – uma disciplina que avalia, simplesmente, minha capacidade de levar as pessoas no papo.

Nada mais apropriado pra um curso de jornalismo.

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Uma análise da Season Finale de Lost por alguém que está provavelmente tão confuso quanto você

Eu evitei falar sobre Lost por muito tempo, porque é um post segregador. Nem todo mundo vê a série, nem todo mundo está no mesmo episódio que estou. Mas o fim da 5ª temporada me deu algumas dúvidas e muitas certezas, certezas que eu não vi ninguém mais comentar. Se você não vê Lost ou vê mas ainda não viu o último episódio da 5ª temporada, não leia o texto abaixo. Vou dar alternativas pra todos os gostos e perfis:

Avisado? Ok.

Spoilers TENSOS a partir daqui.

Seguinte. Eu sempre achei que Lost fosse seguir as leis da física, no geral. Não há distorções, se você estudar um pouquinho de física quântica (eu sei muito pouco). Conceitualmente, buracos de minhoca e os paradoxos que as viagens no tempo são capazes de criar sempre foram muito bem retratados no plot da série. Tem até referência a teoria das cordas. Eu sempre achei os caras geniais por isso – um plot enroladíssimo, com conceitos complicados, sem que no geral se pudesse apontar uma falha sequer.

Claro que isso, por um lado, é porque eles não responderam muitas coisas. Quando responderem, poderemos ver se houve falhas ou não. Mas divago. A questão é que minha teoria em Lost se baseava na seguinte premissa – o que aconteceu aconteceu. Ponto. Não há como explodir uma bomba que impeça o avião de cair, porque se o avião não cair, os Losties não estariam ali explodindo a bomba pra que ele não caísse. O tempo é uma linha contínua.

A não ser que consideremos a teoria dos universos paralelos. De qualquer forma, o último episódio, que deixa claro que a série é sobre bem x mal, livre arbítrio x destino, fé x ciência, me fez ver que Lost não está seguindo a regra que eu achei que estivesse – o que aconteceu pode não ter acontecido. Você sempre tem a escolha. Jacob repetiu isso muitas vezes.

Porque eu digo isso? Ok, está claro pra mim que, de certa forma, o incidente que Jack tentou evitar é exatamente o incidente que ele causou. Isso fica óbvio quando o Dr. Chang tem a mão machucada.

Mas o anti-Jacob, que certamente estava representado como Locke por causa das referências iniciais e finais ao ‘Loophole’, (deveríamos ter dado ouvidos às declarações dos produtores, que disseram que em Lost, quem está morto está morto), precisou intervir nesse suposto LIVRE-ARBÍTRIO para que Locke pudesse estar morto. Então HÁ A POSSIBILIDADE DE MUDAR. Explico.

O anti-Jacob foi quem disse a Richard pra que orientasse Locke (o de verdade) a voltar pra ilha e morrer por isso. Assim, o anti-Jacob garantiu que seus planos fossem cumpridos, porque aparentemente ele só pode ‘incorporar’ gente que já morreu (aí, têm referências às divindades egípcias do mundo inferior). Se ele não tivesse feito isso, haveria um futuro paralelo, em que algo diferente aconteceria. Ou não, mas acho que consegui provar o ponto.

Se o anti-Jacob manipulou uma pessoa comum pra que ela interferisse num ato do passado para causar uma ação futura, então qualquer um pode. Lembre-se que quem interferiu foi Alpert, e não o anti-Jacob ele mesmo, ou seja, ele não pode se envolver, mas sempre pode manipular alguém para fazer o que ele quer que aconteça.

Mas Jacob, parece, teria como saber o que aconteceria. Ele foi quem arquitetou, de certa forma, a volta de alguns dos Losties pra ilha. Ele estava sempre lá. Tipo o careca de Fringe. Ou o Linderman, de Heroes.

No geral, o que temos: duas divindades, uma representando o bem – provavelmente Jacob – e outra o mal, que é o moço de preto do início do episódio, e provavelmente o monstro de fumaça, e o Locke de volta à ilha. Jacob acredita nos homens. Acredita que no fim sai algo bom deles. O outro, não. E eles ficam brincando de provar um pro outro seu ponto. 

Sinceramente, não sei o que significa a morte de Jacob, porque acho que não existe, com Jacob e anti-Jacob, a morte literal, do corpo físico. Se eu fosse chutar, diria que a ilha é análoga a um graaande campo de xadrez, em que os dois ficam brincando de mostrar um pro outro quem tá certo e quem tá errado. Os dois estão na luta pelo controle dos ‘experimentos’ na ilha há milhões de anos; quando um consegue manipular o ser-humano pra vencer o argumento do outro, game0-over pro que foi destruído, ele sai do controle da ilha e no lugar dele entra o outro cara, que fica lá brincando com os peões atééé ser derrubado pelo outro fulano. Tipo um jogo eterno, em que dá um game-over e aí o fulano perde a vez, mas tem vidas infinitas.

Hum… alguém assistiu Constantine?

E pros que duvidavam que esse plot estava arquitetado desde o início, refresquemos a memória com uma cena que, agora, faz todo o sentido do mundo:

Não sou dessas especialistas em cultura pop. Tem muita coisa velha e legal, tipo Arquivo X, Twilight Zone e Twin Peaks, que não vivi e só vi depois de crescida. Mas a trama de Lost me lembra algo em Harry Potter – a referência em tramas desse tipo mais próxima da minha geração, por isso mencionei o ponto anterior.

Em Lost, como em Harry Potter, está tudo lá, sempre esteve – o início, o meio e o fim. Nós é que não estamos vendo as coisas na ordem. No fim, quando o quebra-cabeça estiver montadinho, veremos que não faltará quase nenhuma peça. As pessoas pensavam nos acontecimento da 5ª temporada como fatos que alterariam o futuro que já tínhamos visto, mas a gente só viu a coisa fora de ordem. Se você ordenar, está quase tudo ali.

Quase. Porque parece que dá pra mudar as coisas. Talvez, e só talvez, anti-Jacob ter interferido na linha do tempo (orientando Alpert pra que ele falasse que o Locke deveria morrer) pode ter gerado um futuro paralelo em que ele, o Anti-Jacob, se ferra. Ou não.

Chutar o que acontece na última temporada? Não faço idéia. Mas existe redenção ali. Existe redenção de Jack, o cara que era pura ciência e virou pura fé; existe redenção de Kate, que não se importava em tirar uma vida se fosse necessário e acabou disposta a se sacrificar pra não deixar que nenhuma vida fosse perdida; existe redenção de Sawyer, um cara que vivia uma mentira na verdade e depois foi viver uma verdade, ainda que na mentira. E tem Hurley, o cara que pode falar com os mortos; tem Walt (Waaaaaaaaaaaalt); tem Sayid baleado, e Desmond, ao qual as regras não se aplicam.

Agora, só em 2010. Sorte que o fim do mundo tá marcado pra 2012.

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Gripe suína, a moda e as lendas urbanas

É, a gripe suína se consolidou mesmo como a mais nova febre (há!) do verão outono. Mais contagiosa que música do Latino (que bela piada heim? Mas tem um paralelismo, juro), ela esta nós fazendo regredir um pouco na outrora fabulosa medicina moderna e serve como uma overdose de humildade pros que realmente acreditavam na supremacia da raça humana.

Topo da cadeia alimentar? Não sei não. Afinal, é tão século 12 as pessoas morrerem por causa de gripe. Eu já disse: o planeta tem meios de espirrar nossa espécie pra fora quando ele quiser, se julgar necessário. A possibilidade de uma pandemia no séc. XXI é só a prova.

Mas a vida continua, ainda que com máscaras cirúrgicas ridículas sendo usadas por 90% da população mundial. E eu fico imaginando se um acessório tão sóbrio pode, daqui algumas décadas, se tornar um adorno de vaidade. Porque assim que as pessoas começaram a usar colares e correntes com pingentes – acreditava-se que esses ‘patuás’ protegiam contra doenças e maldições dos deuses malignos da antiguidade.

Em décadas, quando as mutações dovirus da gripe forem tão letais, diversas e frequentes que não vai ser possível sair de casa sem máscara, a coisa vai passar a fazer parte da cultura humana. E ainda que a medicina futura encontre uma vacina contra todas as mutações, o uso da máscara perdurará. E como pra toda tendência moderna, já temos os vanguardistas. Já consigo até prever os editoriais de moda:

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Esse mexicano abusou do bom humor e dos estereótipos de seu país pra tornar o acessório único

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Uma borboleta, o símbolo da feminilidade, foi o tema escolhido por essa funcionária de um aeroporto mexicano

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Rebeldia, criatividade e improvisação: três palavras que têm tudo a ver com juventude e com máscaras cirúrgicas

Daí vão te ensinar como combinar sua máscara com os outros acessórios, variações divertidas (máscara de bandido do faroeste; fantasia de médico). Pelo menos ainda não caímos no ridículo de colocar máscaras nos porquinhos. Aliás, uma máscara com um nariz de porquinho seria de uma criatividade e ironia formidáveis.

Mas a realidade é: eu tô morrendo de medo dessa gripe. Só consigo fazer um paralelo com a Peste Bubônica (sem exagero), com o fim do mundo, o apocalipse bíblico, Nostradamus, Inri Cristo (?) e todas essas figuras de fim do milênio. Mas sabe que essas coisas são necessárias de vez em quando, né? Pra dar uma segurada no crescimento populacional. A gente sabe que as pessoas morrem mais nos países mais pobres, que não contam com condições sanitárias adequadas pra suportar uma epidemia desse tipo. E é nos países mais pobres que as taxas de natalidade bombam. A natureza sabe das coisas.

E enquanto o governo brasileiro diz que reforça medidas contra a chegada da gripe por aqui, apesar de termos 12 casos de suspeita (impossível conter; não adianta mascarar os viajantes nos aeroportos, já que já tem gente contaminada nos países que fazem fronteira com a gente), hackers usam a história pra vender remédios falsos sobre a doença, eu fico pensando numa coisa só.

Me chame de maluca paranóica por teorias da conspiração. Mas se é sabido que as empresas que desenvolvem softwares de antivírus precisam investir na criação de novas tecnologias de vírus, porque isso não seria uma verdade no mundo real? Só dois laboratórios fabricam remédios que podem combater a gripe do porco.

E no mais, sábias mesmo são as palavras de @RonaldRios:

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Eu também nunca conheci ninguém. Aliás, nem discuto mais esse negócio do Acre não existir. Pra mim, até Dengue é lenda.

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PS.: Escrevi esse depois de assistir Charlie: the Unicorn 3. Acho que daí vem a psicodelia e a ausência de sentido.

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Quando a vida imita a arte e se transforma nela

Quando eu assisti Show de Truman, eu ainda tava naquela fase em que a gente achava que o Jim Carrey só servia pra fazer personagem babaca. Não que eu tenha saído dessa fase, mas depois ele fez Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, caiu no gosto dos descolados e agora todo mundo gosta dele. Mas naquela época não havia perspectiva de que ele fizesse algo legal, então você já ia pro filme com algum preconceito, esperando caretas e piadas escatológicas.

E o filme – que todo mundo já viu na Tela Quente, acredito – acaba por ser bom. Tem uma crítica maluca à era dos reality shows, uma maluquice de Mito da Caverna (tudo tem mito da caverna nesse mundo de deus), um pouco de humor ácido, a previsão de um futuro absurdo e voyeurístico com uma pitada de Orwell, um final que muitos acham muito bom e outros acham insatisfatório… e deixa aquele gosto de paranóia na boca, algo como ‘mas… será que isso não poderia de fato acontecer?’

A pergunta está finalmente respondida.

Nadya Suleman

Mãe americana de óctuplos diz que fará série documental

Ela tinha seis filhos. Engravidou de mais 8. Não satisfeita em contribuir com 20% da explosão demográfica registrada no planeta nos últimos 8 meses, a mãe doida com barriga horrível de 20 mil crianças vai, aparentemente, negociar a filmagem de um reality show com seus 8 filhinhos. As câmeras vão acompanhar o crescimento dos seis meninos e duas meninas até eles completarem 18 anos.

[pausa] (Breve reflexão: só eu acho que Mãe de Óctuplos parece Mãe de Octóplus, em que Octóplus é como se fosse o vilão do Homem-Aranha? Ou do 007?)

octopus

[/pausa]

Eu não quero nem imaginar o que vai acontecer com essas crianças. Se elas ficarem iguais à Maísa, estamos todos no lucro, porque as possibilidades de tragédias maiores são inúmeras se o negócio acontecer mesmo. Simpsons já previu a situação e não foi nada agradável para Apu e Manjula.

A questão é que… não deveríamos estar chocados com esta “superexposição”, esta “absurda e já profetizada orwellização da sociedade”, essa “irresponsável exploração monetizada de crianças sem capacidade de decidirem por si mesmas”. Não, não podemos nos chocar.

Afinal, caso vocês não tenha notado, estamos na era do Show de Truman. Apesar dos reality shows não serem mais exatamente uma novidade, a ferramenta de mídia social que é alardeada como o divisor de águas da disseminação da informação pela rede consiste nada mais nada menos do que um reality show bizarro de centenas de pessoas, ao mesmo tempo, ao vivo.

Bem vindo ao Twitter.

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Inquisição virtual: quando vão começar a mandar os piratas pra fogueira?

Ok, teve o julgamento contra o Pirate Bay. Mas no geral, na gringa, parece que o pessoal tá desistindo:

Gravadoras americanas jogam a toalha contra pirataria

Parlamento francês rejeita lei para bloquear internet por download ilegal

Mas como é de praxe, as coisas por aqui sempre chegam com um pouco do atraso natural que é característico do 3º mundo. Se blog e Twitter são agora a sensação tupiniquim, então dá pra estranhar que o governo comece a fechar o cerco para os usuários de internet em tentativas esdrúxulas de conter o incontrolável – com ações-formiguinha como prender moleques que baixam música, ameaçar comunidades que compartilham links de downloads e tirar sites de legendas do ar, que têm o claro objetivo de intimidar grupos de pessoas que em grande parte só compartilham conteúdo sem fins lucrativos.

Quanto mais leio sobre iniciativas de grandes corporações para inibir o acesso do grande público à democracia e liberdade cultural que a pirataria proporciona, mais eu penso que não pode ser verdade que alguém que conheça a dinâmica da internet acredite que ainda é possível reeducar toda uma geração no sentido de ensinar que baixar música é errado.

Em vez de concentrar os esforços em alternativas economicamente viáveis e interessantes pro consumidor e pro artista, os babacas continuam perdendo tempo, prendendo meninos com HD cheio de CDs e usando-os como bode-expiatório de uma situação que é claramente incontrolável.

O projeto de lei francês mencionado no topo foi o que mais me chocou nos últimos tempos. Ele prevê punição os piratas com o banimento do uso da internet por uma quantidade determinada de tempo (dias a meses). E por um breve momento eu tive medo de que a inquisição virtual começasse, de que houvesse de fato o início de uma ditadura maluca na internet – que deveria ser a coisa mais livre do mundo.

Felizmente, foi rejeitado, ao menos em primeira instância, pelo que entendi. Mas aqui no Brasil o projeto do Azeredo continua a pleno vapor.

E eu desconfio que o bicho vai começar a pegar. Sabe por que? Porque as grandes corporações estão começando a perder muito, muito dinheiro por causa da internet no Brasil. Não que já não perdessem, mas a coisa está se espalhando por outros segmentos, coisa que não rolava aqui antes. Olha:

Internet faz receita com ligações internacionais despencarem, diz IBGE

A inclusão digital, a popularização da internet por banda larga, o computador do Milhão e as lan-houses até no inferno conectaram nosso país e estão gerando um fenômeno massivo de gente conectada, coisa que a gente não conhecia antes. O Brasil usa a internet, hoje. Não é mais só a classe média.

Só que o jovem vem pra rede com a mentalidade do nativo digital. E o nativo digital não pensa como o dono da corporações, e nunca vai pensar. Nesse post, Felipe Tofani menciona algumas das características desse grupo. Mas a mais marcante, e que mais contrasta com a vida real – sim, porque a vida na internet é só um reflexo da vida real – é essa aqui:

O poder vem através do compartilhamento de informação, não da mentalidade de escassez. Para ganhar influência e status online, você precisará doar seu conteúdo e conhecimento.

No mundo real, o de carne-e-osso, a mentalidade é a da escassez, a da usura, porque é com a usura que a sociedade capitalista lucra, e time is money – você não perde seu tempo ensinando ou doando nada pra ninguém. Os não-nativos não entendem o poder do compartilhamento, nem compreendem a vontade de compartilhar por compartilhar. No mundo de verdade, há pouco ou nenhum status em compartilhar. Na internet, por um motivo divino e bonito, vale o contrário. Vale a generosidade.

Enquanto os profanos virtuais, os não-nativos, não puderem compreender essa dinâmica, cada dia será um a menos na contagem até a inquisição virtual, em que laranjas serão punidos para ‘dar o exemplo’ à grande comunidade que comete ‘crimes horrendos’, com downloads de música tendo punições comparáveis a homicídio em alguns casos.

Seria fácil se eles aprendessem com os erros dos gringos e observassem que se lá não deu pra proibir, aqui não vai dar. Mas esses caras parecem ser daqueles tipos teimosos, que não aceitam perder milhões. Nós já vimos esse filme. Mas dono de gravadora não pode pedir ajuda pro governo quando perde grana. Sacanagem.

Some isso ao lobby que as grandes e velhas corporações farão contra a cultura do conteúdo livre na web e voilà – no Brasil, nós – usuários de internet – ainda teremos um longo caminho antes que os engravatados percebam que não podem lutar contra o inevitável.

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Sobre a experiência de comer uma larva tailandesa frita

A verdade é que eu comi uma larva.

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Ok, acho que isso seria o suficiente pra te fazer continuar lendo. Pois é, comi uma larva. Uma editora daqui do lugar onde eu trabalho foi para a Tailândia e trouxe de volta um potinho cheio delas, fritinhas, crocantes e reluzentes, e saiu oferecendo os petiscos pela redação. Quando ela chegou até mim, eu estiquei a mão, peguei uma e coloquei na boca.

Se eu dissesse que fiz sem pensar, estaria mentindo. Eu pensei, sim – e o primeiro pensamento foi ‘cacete, se milhares de pessoas comem isso na Tailândia, não deve ser tão ruim assim’. Claro que o volume de pessoas que faz algo nunca é indicador qualitativo (e muitas vezes a razão é proporcionalmente inversa), mas ao menos eu conclui que as chances de morrer seriam mais baixas. Também pensei que eu não vislumbro uma oportunidade próxima de visitar a Tailândia e provar as larvas, e isso foi o fator decisivo pra que eu esticasse a mão e pegasse o bicho.

Foi corajoso, porque se tem algo que eu tenho nojo nesse mundão véio de deus, são larvas. Ô, coisa nojenta. Não tenho nojo de barata, nem de minhoca; de mariposa, tenho mais medo do que nojo. Mas de larvas e ovinhos de insetos, argh, eu tenho muito nojo. Muito. Nunca esqueci daquele cena em ‘O Rei do Gado’ em que o Antônio Fagundes se perde no meio do mato e acaba comendo uma larva de alguma coisa pra poder sobreviver [achei a cena, mas só com dublagem Romena (!)]. E no clipe de Hakuna Matata, sempre preciso pular a parte do ‘viscoso, mas gostoso!’.

É, mas aí eu comi. O gosto é assim: no começo, é um salgadinho vagabundo beeeem engordurado, sem gosto de nada, só de fritura. Daí, quando você tá pensando “nossa, não é tão ruim ass-” você é interrompido por um gostinho final um pouco nojento, que não sei comparar a nada que conheço – meio amargo, talvez – algo muito ligeiro, mas suficiente pra te lembrar que tem algo errado com o salgadinho.

Tente formular a imagem mental de alguém comendo isso – primeiro, a pessoa põe na boca e mastiga, e faz uma cara de ‘está tudo bem’, e em seguida contorce muito ligeiramente a face, num início muito sutil de careta que indica ‘é, na verdade de fato não é exatamente bom, mas não chega a ser ruim’. E sim, tudo isso expresso num movimento muscular facial. Fascinante.

E não me arrependo. Até explico porque: a gente come merda diariamente. É, eu sei que é triste, mas tá numa resolução de 2001 da Anvisa (que você pode ler aqui, mas que está mais didática num texto da Folha Online): a agência impõe um limite de 100 organismos fecais por grama de comida. Mais que isso, o alimento é considerado contaminado e impróprio pra consumo.

Vamos assumir que SÓ COMAMOS alimentos cujo índice de organismos fecais fique abaixo de 100, o que é improvável. Vamos supôr, ainda, que toda a comida que a gente ingere tenha o nível de contaminação muito abaixo do limite, algo como 50 organismos a cada 1 grama de comida – ou 50.000 organismos a cada 1 quilo. Prossigamos.

O ser humano ingere, em média, 3 quilos de comida por dia, ou cerca de uma tonelada/ano. No mínimo, segundo essa estimativa bem otimista, você tá comendo 150.000 organismos fecais por dia, ou cerca de 50.000.000  – 50 MILHÕES – de nanounidades de merda por ano. E a lei permite isso por escrito.

Eu prefiro ficar com a minha larva. E pensando bem, numa saladinha esses bichinhos substituiriam bem aqueles ‘crôutons’.

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Uma ótima idéia de TCC (se você não tiver um olho)

Vamos supôr que você não tenha um olho.

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Esse camarada claramente tem um, embora não esteja exatamente no lugar tradicional

Provavelmente é uma situação difícil, no começo. Mas devem ser daquele tipo de coisas às quais você logo se acostuma. Olhos de vidro e próteses são bem parecidas com os de verdade, quase não dá pra notar a diferença. E também existem alternativas: usar um tapa-olho e parecer o cara mais legal da sua escola (ou bairro, ou trabalho, ou hospício) e pedir dinheiro no trem sem o olho. Uma mulher pede, e o efeito que a falta do olho causa nas pessoas aparentemente é bem eficiente para que elas lhe dêem dinheiro (e ela suma logo da frente delas, porque é uma visão esteticamente desagradável).

Mas sempre dá para fazer limonada se te dão limões, não é? Foi isso que fez o canadense Rob Spence, o camarada da foto ali em cima, que perdeu um dos olhos há 3 anos (perdeu tipo, porque tinha um problema desde um acidente na infância e o olho precisou ser retirado. Ele não deixou cair ou esqueceu no bolso da jaqueta). Rob teve uma dessas idéias animais, dessas que gente que não tem um olho pula da cadeira e diz ‘como não tinha pensado nisso antes?’

Ele buscou patrocínio de centros acadêmicos de pesquisa em tecnologia e de empresas que desenvolvem equipamentos microscópicos e conseguiu que desenvolvessem para ele um olho prostético com uma câmera dentro. A idéia é que a câmera enxergue exatamente o que Rob enxergaria e transmita os dados através de um dispositivo wi-fi acoplado.

Ele até se auto-apelidou de Eyeborg, e em seu site oficial um vídeo (em inglês, sem legendas) conta toda a história de Rob – que veja você, teve a fantástica idéia do tapa-olho de pirata antes do olho ferido ter de ser retirado! Imagina o quão LEGAL é ser amigo de um cara que usa um tapa-olho.


EYEBORG– The Two Week Trial from eyeborg on Vimeo

A questão é que Rob vai filmar um documentário usando a câmera acoplada à sua prótese ocular. O tema: a ‘orwellização’ da sociedade, ou seja, para os que ouvem Lil’ Wayne, a massificação da instalação de câmeras de vigilância em todas as instâncias dos espaços sociais públicos e privados. Ele vai entrevistar as pessoas sobre o que elas acham de estarem sendo espionadas o tempo todo, muitas vezes sem saberem – e elas estarão sendo espionadas durante esse processo!

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Se os tradutores forem espertos, chamarão a versão brasileira do documentário de ‘Olhômetro’ (e se eu for esperta, os processarei)

Naturalmente, Rob pretende avisar depois da entrevista que filmou tudo usando seu olho (claro que isso vai parecer perfeitamente natural para o entrevistado) e pedir autorização para a veiculação da entrevista no documentário. Ele quer discutir essas questões de privacidade e tudo mais. 

Tem toda uma questão muito doida aí, que envolve Big Brother, Google Maps e no que essa sociedade está se tornando – ao mesmo tempo que as pessoas cada vez mais se fecham dentro de condomínios fechados, com cercas elétricas e carros blindados, nunca a vida das pessoas esteve tão exposta, e tudo isso por causa da internet.

Mas isso não é importante. Importante é você voltar na primeira foto, ampliar e olhar muito, muito bem para a cara desse camarada. Assista ao vídeo, ouça a história dele e grave a fisionomia. Se um dia ele vier falar com você, corra para as montanhas.

E não confie em gente com próteses nos olhos. Se todo celular tem câmera, daqui a uns 10 anos todo olho protético vai ter. Mesmo que seja uma VGA, não confie mais em pessoas com olhos de vidro. É mais seguro, embora assustador, encarar a tiazinha que deixa a órbita à mostra. E caras com tapa-olho serão, além de muito legais, ultra-confiáveis.

É um futuro esquisito. Acho que por essa nem Orwell esperava.

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