OEsquema

Arquivo: jornalismo

O jornalismo está morto, vida longa ao jornalismo

Eu me formei em jornalismo em 2009, trinta anos atrás. É que esses três anos e meio, na escala de tempo que corre como oficial nesses tempos loucos, meio que significam uns trinta, talvez. Ainda quando eu me formei, quando a comunicação e o jornalismo em si ainda eram tão diferentes e ainda não tinham se integrado completamente com a cobertura colaborativa via redes sociais, o papo de que o jornalismo estava morrendo já era um dos tópicos preferidos pelos professores pra discutir com a gente.

No futuro, historiados considerarão essa notícia do Ego o marco para o fim do jornalismo como conhecemos

A diferença é que eles achavam que o jornalismo ia morrer por causa da internet, do celular, do tablet e, em menor escala, por causa do Ego. Todo mundo estava pensando em hardware, em forma. A gente não discutia a morte do jornalismo em conteúdo, porque nem se cogitava isso. Não havíamos ainda presenciado como a primavera árabe usaria o Twitter e o YouTube, nem Julian Assange e os Anonymous, nem a cobertura real de qualquer tragédia grande via redes sociais. Além disso, na época, smartphones não eram tão populares quanto hoje.

Eu não sei se tem algum estudante de jornalismo aí, mas vocês já estão falando da morte do jornalismo per se? Ok, “na minha época” já se falava, ainda que timidamente e de maneira um pouco ingênua, até, em descentralização da comunicação, fim do gatekeeper e tudo mais. Mas algum professor em alguma faculdade por aí já decretou que todo o formato tradicional de jornalismo que a gente conhece é insustentável por causa das novas dinâmicas de fluxo de informação?

Não vá embora; esse texto é sobre você

Eu sei que provavelmente todo mundo que tinha que abandonar esse texto já o fez, porque estamos no quarto parágrafo, mas vou lembrar aqueles que ainda continuam comigo que esse não é um post cabeçudo destinado somente às únicas pessoas no mundo que se interessam por discutir o conceito de jornalismo: jornalistas. É um post sobre você mesmo, pessoa casualmente normal, que agora é envolvida no estranho fenômeno que te faz se apressar pra publicar uma notícia no seu Twitter ou no seu perfil no Facebook. Se você lê em inglês, muitas vezes acaba furando (dando a notícia antes, no jargão) grandes veículos. Você, que fica comentando resultado de futebol no seu Facebook ou você que quis publicar antes de todo mundo na sua timeline que o novo Papa se chamava Chico.

Essa semana, nos EUA, os princípios básicos do jornalismo desmoronaram todos de vez. A única diferença que existia entre mim, supostamente melhor qualificada que você para dar notícias, e você, que tem acesso a fontes primárias de informação na mesma velocidade que eu ou mais rapidamente, é que eu supostamente sei que preciso checar tudo antes e falar tudo que não tenho certeza com a maior cautela do mundo. É pela falta dessa “técnica”, um sexto sentido de eterna dúvida e curiosidade, que todas as coisas bizarras acabam espalhadas pelo Facebook, de “compartilhe para doar 50 centavos para essa ovelha albina” a “veja esse lindo texto da Clarice Lispector sobre o Large Hadron Collider que com certeza é real, apesar de Clarice estar morta há 36 anos e o LHC ter sido ativado em 2008″. Essa semana, grandes jornais americanos estamparam suas capas com fotos de suspeitos do atentado na maratona de Boston – suspeitos apontados pelo 4chan e pelo Reddit, depois de uma minuciosa e super confiável análise das fotos.

Não precisa nem ter feito um período de ética pra saber que você não publica fotos de gente que um bando de anônimos em um fórum apontou como suspeitos – baseados em fotos em baixa resolução – na capa de um jornal, sob o risco de tornar a vida desses “suspeitos” um inferno, o que realmente aconteceu.

“Eu não tenho ideia do que estou fazendo”

Eu não culpo os jornalistas nas redações, porque ninguém sabe exatamente o que fazer quando toda a internet tem uma informação que você supostamente não tem. E o pior, você não tem nada mais confiável pra dar. O jornal, infelizmente, não pode sair em branco com uma manchete escrita “BREAKING NEWS: não há nada de novo neste caso e estamos esperando informações oficiais do FBI porque a gente não confia no 4chan e no Reddit por motivos óbvios, e não vamos arruinar a vida de inocentes na ânsia de não ficar pra trás”.

O lance é que ninguém sabe exatamente o que fazer porque não há o que fazer – nesse formato novo de como a informação flui, não há espaço para jornais de papel com hard news (hard news é o “últimas notícias”). E quase todos os jornais de papel são baseados em hard news.

Só que está todo mundo no meio disso e é difícil dar um passo pra trás pra analisar o que fazer porque o que fazer seria:
1. uma disruptura total do que é tradicionalmente feito em todas as instâncias, de forma a conteúdo e publico alvo, o que é financeiramente bem arriscado, eu reconheço;
2. reconhecer a derrota e acabar com formato “coisa impressa de papel que dá notícias sobre coisas que supostamente acabaram de acontecer mas que todo mundo já viu na internet ontem”, o que também é improvável porque é tipo o equivalente a isso;
3. se tornar o Buzzfeed, que basicamente seguiu o passo 1 e 2 e faz um grande exemplo de algo que eu vou chamar aqui de pós-jornalismo, pra parecer que eu sei tão bem do que eu to falando que eu até ouso batizar isso com um nome legal.

Se esse jornal de papel mantivesse o papel (risos) de filtrar com precisão o que é real ou não entre aquela tralha de coisas que eu leio no Facebook ou no Twitter, ele talvez até faça algum sentido. Mas agora que ele só reproduz o que todo mundo já está dizendo nesses outros lugares…

E agora, Bial?

Trate de começar a desconfiar das coisas que lê por aí, sempre. O Mashable publicou um texto muito bom com um guia passo-a-passo sobre como questionar o que você lê nas redes sociais. Aliás, deviam começar a ensinar isso pra crianças na escola. Quer dizer, desde sempre deveriam ter ensinado isso na escola, mas em todo caso agora é ainda mais importante, sob o risco de todo mundo ficar seriamente desinformado. Use o Google para aquilo que ele faz de melhor, pornografia que é comparar dezenas de fontes de diferentes da mesma notícia e tentar chegar na fonte original (via Google Translate, se for o caso) antes de passar algo pra frente. Você se espantaria se eu dissesse que uma boa parte dos jornalistas de veículos online não faz isso e usa notícias de outros veículos, que já foram escritas baseadas em outras fontes secundárias, pra escrever suas notas. Não é culpa deles; eles estão sendo pressionados de maneira insalubre pra publicar mais rápido, e se antes a concorrência era só com outros sites, agora ela é com todo mundo que tem uma conta no Twitter.

Sim, trata-se de um imenso telefone sem fio, mas dá pra contornar, e eu não posso enfatizar isso mais ainda: duvide. Não transmita informação que não pareça certa. E se mesmo assim você quiser transmitir, não esqueça de dizer que você não sabe se aquilo é verdade. Esse super conselho inovador é provavelmente uma das coisas mais ingênuas que eu propaguei nesse blog desde 2009, e das mais óbvias também. Por outro lado, se fossem tão óbvias, Arnaldo Jabor não seria o autor mais prolífico da história desde os monges copistas, com uma média de 12 novos textos atribuídos a ele por minuto, de acordo com as minhas observações, então resolvi escrever esse parágrafo mesmo assim.

Finalmente, com cada um de nós se tornando uma fonte secundária de informação, a única coisa que resta ao jornalista se ele quiser fazer algo que fuja dessa lógica (além de mudar de profissão, claro) é ser ele mesmo a mais confiável fonte secundária de informação. Ele precisa ser uma pessoa cujas opiniões as outras pessoas queiram ouvir, acima de tudo. É preciso criar uma persona online, por mais esquisito e meio showbiz que isso soe. É um caminho – dá mais trabalho pra ganhar dinheiro, mas é um caminho.

22 Comentários

Sobre pessoas peladas

Um supermercado aqui na Alemanha deu 250 euros de desconto pras primeiras 100 pessoas que chegassem pra fazer compras peladas

Eu não precisei de muito tempo aqui pra ver gente pelada.

Na realidade, eu nem morava na Alemanha quando eu vi gente pelada na Alemanha pela primeira vez. Em 2011, em um festival de música no interior do país, onde eu acampei por três dias, tive a infelicidade de presenciar não um, não dois, mas três coitados que, muito bêbados e debaixo de um frio de 11 graus, abaixaram as calças na frente de todo mundo e fizeram xixi.

No meio do acampamento. Não era nem entre as barracas ou em uma árvore: nego tirou a calça no meio do acampamento, em plena vista, e se aliviou ali mesmo.

Claro que, na ocasião, não associei isso com um comportamento cultural (mesmo tendo visto três caras fazendo isso em só dois dias). Na minha cabeça, foi mais uma coisa de ‘nossa, eles estão tão bêbados que fizeram xixi na frente de todo mundo’. Eu devia ter me ligado, já que o banheiro também era ‘esquisito’: os chuveiros não tinham divisórias. Todas as mulheres ficavam ali tomando banho, uma ao lado das outras.

Mas foi só morando aqui que eu entendi como os alemães têm uma relação completamente diferente com o corpo nu do que a que nós, brasileiros, temos. Um corpo nu, pra eles, é só um corpo nu, dissociado de qualquer conotação sensual ou sexual – e esse corpo só ganha essa conotação em um contexto apropriado. Fora de contexto, não significa nada. Ninguém olha, ninguém repara, ninguém se importa nem com ficar pelado, nem em estar rodeado de gente pelada.

Tem a ver com a quase absoluta igualdade de gêneros aqui. Eu ainda estou tentando entender como a etnia alemã perpetuou-se ao longo da história, porque aqui a mulher é tão respeitada como igual ao homem que não há faísca nenhuma entre os gêneros. Como eles flertam, namoram, se reproduzem? Uma conhecida, alemã e psicóloga, me disse que ela mesmo não compreende e acha que seu povo está fadado à extinção. Claro que essa falta de machismo tem muitas vantagens: já vi moças andando de bicicleta de minissaia, com partes importantes à mostra, e nenhum homem se atrevou a lançar um olhar de rabo de olho que fosse. Não importa como você esteja vestida, se é que estiver: se for fora de contexto, eles não vão olhar. Nem elas, aliás. E isso é ótimo.

Tio pelado no metrô em Berlim

Mas a coisa pode chegar a níveis prejudiciais: no metrô, não é costume oferecer lugar pras mulheres grávidas. Dificilmente alguém vai te oferecer ajuda se você for mulher e estiver na rua carregando algo pesado. Não há ‘cavalheirismo’, e por mais que isso seja um produto da diferença de gêneros, há mulheres que sentem falta. E não há troca de olhares, de toques, nem em ambientes apropriados pra isso, como um nightclub. É tudo muito plano.

É por isso que aqui, no verão, quando eles vão pros lagos próximos a Berlim andar de barco e tomar sol, todo mundo fica pelado. Homens e mulheres não se preocupam com bíquini, maiô, sunga. Nas saunas, é tudo sem roupa – e em alguns casos, são mistas. E eu já vi fotos de gente pelada no metrô, sem contar o cheiro de xixi que você sente às vezes dentro de um vagão. Não sei se torço pra que seja um cachorro com o dono mal-educado.

Como eles não veem a nudez de maneira sexual, a pressão social pelo ‘corpo perfeito’ é menor. E dá pra entender, já que por aqui, você passa a maior parte do ano com o corpo bem coberto. Dá uma olhada nesse relato no Yahoo! Respostas pra ter uma ideia – tem até escolas secundárias com vestiários mistos, por exemplo.

O nudismo sempre foi algo muito mais tolerado pelos alemães culturalmente, e há registros de grupos sociais defendendo o hábito (ou a falta dele, se a pessoa for uma feira ou um padre) desde o fim do século 19. Existe até um orgão (risos) responsável por promover o nudismo no país, a German Association of Free Body Culture, e os naturistas por aqui tem até força política (sério!). Durante o nazismo, Hitler passou uma lei pra tentar proibir essa amoralidade inaceitável. Daí, ficar pelado acabou se tornando uma forma de protesto: com tantos banimentos, essa era a maneira dos alemães de mostrarem um controle, ainda que mínimo, pela última coisa que lhes restava controlar: o próprio corpo. A proibição durou um mês.

Daí que há pouco mais de duas semanas eu comecei a frequentar uma academia aqui em Berlim. E apesar de os vestiários não serem mistos (acho que eu não saberia lidar com isso), o vestiário feminino é uma grande profusão de corpos de mulheres nus.

Veja bem – qualquer corpo nu chama a atenção pra quem não está acostumado. Elas não se preocupam em usar toalha pra ir do chuveiro até o armário. Na sauna, permanecem sem roupa. E o vestiário tem uma centena de espelhos posicionados estrategicamente de maneira que, não importa onde você se esconda, alguém do outro lado do recinto vai estar vendo você pelada.

Nos chuveiros, tem uma antesala em que você pendura sua toalha e só.

No primeiro dia, eu preferi não tomar banho na academia. Mas o treino foi se intensificando e, no segundo dia, sair suada não era uma opção, não com -8 graus lá fora. E aí eu precisava entender qual era a etiqueta da nudez ali. Sabe, tipo aquelas regras que dizem que homem tem dentro do banheiro masculino?

Quer dizer, se eu ia tomar banho com todo mundo e caminhar pelada pelo vestiário, eu precisava entender o que estava dentro da normalidade pra eles. Entenda que a partir do momento em que a normalidade é todo mundo estar pelado, fica difícil estabelecer novos parâmetros. Mas eu precisava descobrir ser era aceitável me secar no vestiário ou se eu tinha que me secar na antesala dos chuveiros; se eu precisava levar calcinha e sutiã pro chuveiro ou se podia colocar tudo na frente do meu armário, mesmo.

Alguns dias de observação depois e eu entendi como funcionava. No chuveiro, as regras parecem sensatas – cruzar olhar com alguém pareceu não aconselhável. Conversar também não é uma prática comum enquanto as pessoas estão ali, nuas (ao menos na academia). Todo mundo toma banho muito rápido, só o essencial.

E todas as mulheres tomam banho viradas pra parede. Não é como se você não fosse de fato ver tudo de qualquer jeito, mas ficar olhando pra bunda das outras pessoas é desnecessário. Então todo mundo toma banho virada pra parede e tá tudo certo.

Menos essa mulher esquisita. Eu tava lá tomando meu banho e tinha uma moça imediatamente na minha frente, na linha oposta de duchas. E ela estava virada pra mim. Completamente. E ela não estava, digamos, tomando banho. Ela estava com um olhar morto apenas deixando a água cair nas costas. Imóvel.

Ainda estou tentando entender se o que ela fez é socialmente aceitável em um ambiente pelado. Mas acho que não seria normal nem se todo mundo estivesse de roupa.

 

19 Comentários

Montes de gente de camisa xadrez vão agora frequentar a rua Augusta… OH WAIT

Gata me liga, mais tarde tem balada. Quer dizer, essa música não é dele, mas achei que tinha a ver

Quando eu li que uns empresários coxinhas (o do Luan Santana e o Marcus Buaiz, pai do bisneto de Francisco) estavam investindo oito milhões pra abrir uma casa de sertanejo na Augusta, já antecipei o butthurt. Apesar de todo mundo lá já usar camisa xadrez (ou seja, a nova galera que vai chegar já vai estar parcialmente paramentada de acordo com o código de vestimenta da região), nas SOCIAL NETWORK os caubóis não receberam as boas-vindas ao templo intocável do cool de SP.

Se tem algo curioso sobre o povo moderno e cabeça-aberta que frequenta a Augusta é que eles são justamente o contrário disso. É complicado falar sobre pessoas que frequentam um lugar assim, de maneira geral, mas é que existe um fenômeno curioso entre a garotada descolada de SP: apesar de a gente querer mostrar o quanto é tolerante, essa tolerância é toda falsa. Entre jovens paulistanos, como eu as pessoas com quem eu me relaciono, é super fácil ser gay, mãe solteira, praticante de swing, usuário de cocaína. Essas coisas são todas aceitáveis socialmente, vistas de maneira cuja reação varia entre a condescendência e o orgulho.

Tente, no entanto, ser evangélico, PSDBista, vida loka ou então fã de sertanejo pra você ver se vai ser visto, assim, como uma pessoa muito diferente e portanto super legal.


Rodolfinho já tentou, mas o pessoal da Augusta não quer dar rolê com ele

A Augusta, que costumava ser esse lugar exemplo de convivência de diferenças, virou um lugar cheia de gente igual e casas noturnas iguais, pra onde as pessoas vão pra sentirem o máximo por tolerarem uma dúzia de piercings e tatuagens em lugares que eliminam sua chance de conseguir emprego em escritórios.

E olha, antes que alguém venha argumentar que sertanejo é mesmo uma merda e que, portanto, fãs de sertanejo são pessoais detestáveis e que vão estragar a aura alternativa do lugar que você frequenta, eu adianto: a questão é pensar assim enquanto ao mesmo tempo você acredita ser um bastião das diferenças, um grande embaixador do conceito de liberdade individual, um faminto das novas experiências. Você sabe, essas coisas que você adora pensar de você mesmo.

Veja, I ain’t no Madre Teresa. Mas essa ideia de que a gente é melhor porque vai pra Augusta e eles vão pro lado coxinha de SP tem a mesma base que o argumento usado pra justificar muitas das coisas tristes que já aconteceram nessa cidade. Além disso, sempre teve babaca na Augusta e em todo lugar. Não tenho pesquisas pra provar que babacas são igualmente numerosos entre fãs de sertanejo e entre fãs do indie rock que você escuta, e muito embora eu tenha passado anos convicta de que eles eram mais comuns entre o grupo dos sertanejos, há já algum tempo descobri que (infelizmente) babacas sabem se camuflar muito bem em todos os tipos de grupos sociais e que não há regras nem fórmulas pra tentar prever os hábitos deles, o que escutam ou os lugares que frequentam.

Pessoas legais, então, também não deveriam ter restrição sobre o tipo de lugar aonde vão. Isso ajudaria a diluir os babacas e daria ao nosso lazer um caráter social importante – quer dizer, se a gente que é legal for mais numeroso que os babacas, eles não vão se destacar. Ah, e tem aquele papo de ocupar a cidade, também.

A Augusta é só uma rua. Tem lugar pra todo mundo, na mesma rua ou em todas as outras. De preferência, bem misturado, que é pra gente aprender bem direitinho a conviver com as diferenças.

56 Comentários

O que a princesa do Japão tem a dizer sobre os segredos desconhecidos do mundo

 

Ela realmente é princesa do Japão, filha do imperador (eu chequei porque, né, vai saber). É jornalista e especialista em relações internacionais; é frequentemente fonte pra jornalistas pra comentar política internacional, ações humanitárias e essas coisas. Apesar de que achar que ela até fala umas coisas que fazem sentido, eu me recuso a acreditar (assim, muito) que no dia 22 de dezembro o mundo vai mesmo acabar, que as pessoas más vão reencarnar em outro planeta etc etc.

Assim, é que se o mundo tivesse dando uma guinada pra uma era super espiritual, cheia de coisas inexplicáveis, eu esperaria que a grande inteligencia do universo fizesse isso aos poucos, e não em uma guinada, sabe? A gente vive em uma era extremamente materialista, e que cada vez mais considera esses materialismo uma verdade absoluta, sem questionamento. Então se as coisas vão de repente parar de fazer sentido, tudo que eu acharia justo é que isso acontecesse aos poucos. Não sei – de repente uma aparição de UFO em frente a uma câmera oficial de alguma emissora de TV filmando ao vivo, pela primeira vez, ou então um fantasma que desse as caras na mesma linha.

Se o mundo de repente ficar completamente místico de uma hora pra outra, assim, vai ser meio difícil de lidar.

9 Comentários

Cowbird, uma plataforma pra contar histórias

Você lembra daquele projeto chamado We Feel Fine?

Eu escrevi uma matéria sobre ele no Link em abril de 2010. O We Feel Fine, em poucas palavras, é uma interface gráfica para o sentimento do mundo. Ele agrega palavras chaves em gráficos que dão uma ideia de como o mundo está se sentindo em determinado momento. O resultado é fantástico, graficamente e conceitualmente. Você pode filtrar por gênero, nacionalidade, idade, datas – e pode saber, por exemplo, como os EUA se sentiu no dia 2 de maio de 2011, no dia segunte ao anúncio da morte de Bin Laden: nessa data, as pessoas os EUA se sentiram 6 vezes mais sortudas do que o normal.

Um dos criadores do We Feel Fine, Jonathan Harris, aparentemente guardou meu e-mail e me incluiu hoje nos destinatários pros quais ele enviou o endereço do seu novo projeto, o Cowbird.

O Cowbird é um contador de histórias coletivo, que a plataforma chama de sagas. É pra organizar histórias e fazer jornalismo com crowdsourcing parecer lindo, bem editado. Dá pra incluir personagens, áudio, fotos, diálogos. Você cria uma saga e observa ela se desenvolver, à medida em que as pessoas acrescentam suas impressões, seus diálogos, as fotos que tiraram. Eu sei: “e no que isso se difere de um blog?”

Olha, de cara, em algumas coisas. Mas eu acho de verdade que é preciso entender uma coisa sobre a internet – talvez você não tenha percebido ainda, mas as ideias inovadoras da última década são consideradas grandes porque mudam a maneira como a informação é organizada pra gente e como a gente mostra essa informação pros outros. O que as pessoas compartilham não é o que importa – o que importa é como. Em que dispositivos, com que roupagem, com qual interface. É esse tipo de coisa que muda paradigmas.

Imagina usar o Cowbird pra uma cobertura coletiva nas revoluções no oriente médio? Durante uma tragédia natural? Durante uma eleição?

No Cowbird, você pode olhar a história do ponto de vista dos personagens que ela tem, dos lugares em que ela aconteceu ou das histórias que ela gerou, entre outras muitas coisas muito legais. Serve até pra fazer um diário muito foda da história da sua (da minha, da nossa) vida. No site, uma das descrições diz que o projeto é a primeira biblioteca pública sobre experiências humanas.

O Cowbird por enquanto está em beta e só funciona com convite. Eu já pedi o meu, já que adoro contar umas histórias e tal. A saga-teste que está sendo contada no Cowbird se chama Occupy e é sobre, obviamente, o movimento Occupy nos EUA.

É tipo o próximo passo pro que fez o The Guardian recentemente. O jornal anunciou que ia ‘abrir’ sua reunião de pauta pros leitores, isso é, publicar no início do dia as sugestões de pauta e esperar que o parecer do público agregasse informações relevantes pro encaminhamento dos temas. O que o Cowbird faz é justamente trazer uma edição profissional, visualmente interessante e enriquecedora, pro que já vem acontecendo no mundo há um tempo: as coberturas espontâneas, descentralizadas, ricas, feitas por gente normal, do que acontece no mundo. Como deveria ser, é uma maneira de mostrar cada vez mais lados de uma história em um lugar só.

Enquanto isso, em uma vibe que vem direto dos anos 1900, tem gente que acha a discussão sobre a obrigatoriedade do diploma super relevante. Tsc.

1 Comentário

Pelo direito de dirigir embriagado

Primeiro, assiste o vídeo:

Ok, o cara é um babaca. Mas ele não tá dizendo mentira nenhuma. Parece que repetir esse discurso com certo orgulho é uma maneira que ele encontrou de ridicularizar a falta de rigor da legislação pra acidentes de trânsito. Claro que assumir isso é confiar no melhor cenário, mas acho que eu sou otimista.

E aí eu achei esse manifesto pelo direito de dirigir embriagado, que prega o fim da proibição de beber e dirigir, alegando que o crime que deve ser punido não é o de ter no sangue uma substância, mas sim o crime EM SI, no caso de a pessoa com a substância no sangue acabar fazendo alguma merda grande.

Eu não sei sobre isso. Se você raciocionar, existe realmente um aspecto Minority Report nas leis que proibem álcool e volante. Pos outro lado, punir só os motoristas embriagados que efetivamente cometerem algum crime parece impraticável num mundo com tanta gente (veja, talvez funcionasse em outros tempos: populações menores, maior senso de proximidade e cidadania etc).

E aí? Opiniões?

18 Comentários

Um cara ocupado

Como não dá pra prever de jeito nenhum os caminhos pelos quais a vida nos leva, eu tenho feito muitas coisas sobre as quais eu, em outros tempos, faria piada. Uma delas é um curso de Cabala. Outra é que eu ando ATACANDO DE DJ. Muita coisa mudou na minha vida ultimamente – uma que não mudou foi a minha capacidade de fazer piada de uma pessoa que faz curso de Cabala, é jornalista e ataca de DJ.

Jornalista + DJ + Cabala = Madonna + Jesus Luz


O lance é que meu ATACAR DE DJ é bem amador. Eu não sei direito mexer no CDJ, que é aquele aparelho em que você coloca os dois CDs e vai alternando o que quer tocar. Você precisa fazer algo que pode ser fácil pro Jesus Luz, mas pra mim exige mais processamento do que meu chip permite, que é basicamente igualar as batidas por minuto das músicas pra fazer a transição de uma faixa pra outra de maneira não traumática pras pessoas que naquele momento se ocupam com mexer o corpo no ritmo do que você toca.
Como se não bastasse eu não ser capaz de fazer isso, no último sábado, em que eu toquei em Santo André, eu usei um programa no notebook que simula o CDJ, a porra do programa travou e a música parou, entrou uma do iTunes em cima, ai parou de novo, aí voltou a tocar uma que já tinha tocado. Depois desse caos eu toquei HEAVEN KNOWS IM MISERABLE NOW, que é chata pra cacete, mas eu achei que era apropriada.
A banda da noite era o Cícero – que não é uma banda, cara, é um cara chamado Cícero. Eu sei que isso é o óbvio, mas eu quando vi o cover so Strokes dos caras, eu pensei “PUXA, se fosse mesmo um cara chamado CÍCERO com uma banda de apoio, seria SEI LÁ, CÍCERO & banda, ou então algo como CÍCERO MARTINS, sei lá. DEVE SER UM BOM NOME DE BANDA”. Em todo caso, cagou tudo o set e eu fiquei com vergonha dos caras da banda porque o show deles foi tão bom que a primeira música até me deixou meio emocionada (sério, meio sem ar). Eu tinha ouvido só aquele cover dos Strokes, e pra ser sincera, o Cícero e a banda dele de Cíceros tem muito, muito mais a mostrar ao vivo.


Essa é boa, mas ao vivo é muito melhor

O lance é que quando vc é DJ as pessoas pedem música, o que eu acho extremamente deselegante. No sábado, o garçon veio me falar que ‘o pessoal tá pedindo uma MPB ali (!), você tem alguma coisa?’, e puxa, o que é MPB em 2011? É Jorge Vercilo? É Ivete? É os dois ou nada disso? Mas o grande lance é que ser DJ atrai gente doida e tal. Segue o diálogo mais surreal que minha nova ocupação nas horas de lazer me proporcionou. Pra efeitos ilustrativos, vamos chamar o protagonista dessa cena de CARA OCUPADO:
cara ocupado: MEU! Que demais essa música, meu, que som irado, curti muito esse som!
eu: pôxa, obrigada! :)
cara ocupado: não, mas eu curti MUITO MESMO esse som. Queria ouvir ele assim no meu carro, sabe, num momento de lazer… sabe?
eu: sei… é, bora ouvir né! rs (rs é o que melhor descreve a maneira como eu sorri pra ele naquela hora)
cara ocupado: você não tem mais desse som aí?
eu: tenho, claro… vou tocar mais umas coisas assim.
cara ocupado: não, é que eu queria um CD!
eu, preocupada: mas… mas… eu não tenho um CD, amigo.
cara ocupado: mas eu queria que você gravasse um pra mim.
eu: …
cara ocupado: tem como gravar um cd desse pra mim, a gente vê um esquema de eu te encontrar pra pegar esse CD…
(nesse momento eu pensei que ele pudesse estar dando em cima de mim, mas VEJA, ele estava com a garota dele. Então não fazia sentido)
eu, mais preocupada: nossa, cara, mas isso vai dar um trabalhão… você não acha mais fácil eu te passar o nome da música, daí você baixa?
cara ocupado: não, meu! isso não funciona pra mim, não tenho tempo de ficar procurando, baixar. Eu sou um cara ocupado, trabalho demais. Eu faço adesivação de móveis, sabe?
eu: CLARO, FRITAS ACOMPANHAM?
Importante dizer que ele se manteve com um sorriso eufórico e maníaco durante toda conversa. E enquanto os fiéis do Edir Macedo passam anos doando os tubos pra comprar vaga no céu, eu garanti a minha sábado PASSANDO MEU E-MAIL PRA ESSE MANO. Eu continuo sem acreditar, mas acho que ele era meio doido. Aguardemos os próximos capítulos.

6 Comentários

O lado escuro de Amsterdam (ou quase isso)

A aura de misticismo em torno de Amsterdam tem mesmo razão de ser, mas eu acho que não dá pra sentir isso se você visita a cidade por três ou quatro dias. Ir pra Amsterdam de onde eu moro, como eu já contei no post sobre o Queen’s Day, leva mais ou menos uma hora, entre ônibus e trem – o que é quase o mesmo esforço que eu tinha quando saia de Santo André pra SP, mas menor, porque pegar ônibus e trem aqui é quase prazeroso. Nos últimos dois meses, fui pra Amsterdam quase todos os finais de semana. E pra mim Amsterdam virou um daqueles lugares que, quanto mais você visita, mais você gosta.

Amsterdam é um lugar diferente. Pelas ruas, você quase não escuta holandês. Nesse fim de semana, inclusive, parece que a cidade foi invadida por brasileiros (deve ter sido o feriado) e eu e a Marcela escutamos português o tempo todo. Mas também muito italiano, e espanhol, e inglês. O lance é que Amsterdam tem esse equilíbrio bizarro entre uma cidade funcional, cheia de habitantes locais, e uma população flutuante imensa, todos os dias da semana.

Show no canal

OLHA A POPULAÇÃO FLUTUANTE IMENSA brinks. Isso é o que rola quando tem show nos canais.

E tem uma combinação de elementos completamente opostos, mas que por algum motivo, funciona. A Holanda é um país velho, e aqui as pessoas envelhecem com dignidade. Sério: saudáveis, com vida social, bem humoradas e educadas. Então não é anormal quando uma velhinha de andador cruza o Red Light District cumprimentando as FUNCIONÁRIAS, porque ela mora ali e conhece todo mundo, nem quando um senhor recusa o assento no tram porque prefere ficar de pé “com sua garota” – foi o que ele me disse.

A velhinha do Red Light District

Ela deu boa tarde a todas as moças da vitrine. Eu e a Ângela vimos

E aí a cada esquina tem uma loja que vende drogas. Não são só os coffee shops, que vendem maconha e haxixe, mas as smart shops, onde você pode comprar ervas alucinógenas de toda sorte, cogumelos, drogas sintetizadas legais, sementes. Sem contar os caras que te oferecem drogas ilegais na rua.

Por causa disso, se você observar as pessoas em Amsterdam, vai ver muita gente com o olho caído e vermelho pelas ruas, ou pessoas mais assustadoras, andando rápido e olhando pra trás, pálidas, suando muito, pupilas dilatadas. Tudo isso é comum por lá.

Amsterdam tem todo tipo de artista de rua, daquelas estátuas vivas até quem se veste de bichinho – tipo, sério, uma fantasia de coelhinho, de cachorrinho – ou com máscara do pânico, sei lá, e cobra pra tirar foto. Tem o cara que toca violino de maneira sublime e um tio sujo com chapéu pedindo moedas enquanto bate as mãos na corda do violão sem fazer acorde nenhum, que nem quando o seu sobrinho de três anos toca. E tem moedas no chapéu dele.

O mano do violino

Esse moço tocava violino bem, e o chapéu dele tava vazio :(

Mas também comum é o trânsito complicado. Gente, nada vai te assustar no quesito “trânsito de Amsterdam” se você vive em qualquer capital do Brasil, mas é que a cidade aqui tem outros PLAYERS. Os trams, cuja tradução mais próxima do português seria o “bondinho”, mas que se parecem mais com metrôs de superfície, correm por trilhos que muitas vezes cortam calçadões turísticos. Têm as bicicletas, que podem vir de vários lados, e os carros – especialmente os táxis, que guiam como malucos pra cima do turistas. Ah, e os canais, que muitas vezes não contam com barreiras na calçada.

O saldo é uma cidade cheia de gente com a percepção alterada, tentando atravessar a rua tendo que olhar pra cinco lados, sem esquecer que também não pode correr e cair na água, ou se distrair com a estátua viva, ou com uma mulher que de tão magra parecia uma caveira (ela certamente era doente), que tinha a coxa mais próxima de um fêmur que eu já vi em uma pessoa que anda e pra completar o cenário carregava um fuzil de plástico em tamanho real junto com a bolsa.

E o que você mais vai ver em Amsterdam é gente sendo salva de ser atropelada por um tram ou uma bike no último segundo segundo. Adrenalina e tal, turismo de aventura.

A host da Marcela é cirurgiã, e nos descortinou o lado negro dessa combinação. O trabalho dela é consertar gente que acaba vítima dos encantos de Amsterdam de algum jeito, desde os que engolem cápsula de cocaína pra traficar droga pra fora do país, até os que se jogam da sacada, bem loucos de de cogumelo, ou quem quebra a perna porque caiu no canal chapado. Na madrugada desse sábado, ela trabalhou a noite inteira.

Com tudo isso, Amsterdam ainda é uma cidade que não te dá, de jeito nenhum, uma sensação de insegurança. Toda a região central, bem pequena pros padrões paulistanos, é bem segura pra qualquer um, acompanhado ou não, caminhar a noite. Não significa que você não vai ver nóias, mas por algum motivo os nóias não incomodam.

Vondelpark

Vondelpark, que é lindo e seguro, mas onde não é bom de andar a noite, dizem - mano, óbvio, é um parque. Mata densa e tal.

E ainda que você vire a esquina e veja uma porção de homens afoitos em corredores do Red Light tão estreitos que fariam aquelas da favela parecerem bem confortáveis, você vira na próxima esquina e tem um maestro em cima de um ponto de ônibus regendo um coral de velhinhos na sacada de um teatro.

Em frente à Dam

Ele parou a rua - e alguns turistas ficavam maravilhados e começavam a tirar fotos e se esqueciam do tram, bem atrás do ponto. Eu salvei uma fotógrafa, juro

É essa dicotomia que dá a Amsterdam essa aura mágica – não é per se o fato de ter um casal de 65 anos fumando maconha no ponto de ônibus ou de você poder olhar prostitutas com lingerie que brilham na luz negra em uma vitrine. É justamente que haja todo o resto: as orquestras nos canais e os corais da terceira idade, as galerias de arte, as pessoas que vivem e trabalham ali, e que tudo conviva em relativa harmonia.

Gosta de ler sobre viagens? Visite o http://www.drumbun.com.br – lá eu escrevo só sobre os lugares que visito. :)

5 Comentários

Viajando de graça (e comendo comida do lixo)

Nesse tempo na Europa, percebi que dá pra viajar baratinho por aqui – e em qualquer lugar – se planejando com alguma antecedência e sendo uma pessoa, hum, simples. Com as companhias aéreas low cost e as passagens de ônibus, dá pra cruzar distâncias longas com 30, 50 euros. As passagens noturnas de trem te economizam na hospedagem. Tem os hostels, que no leste oferecem uma cama honesta e, às vezes, café da manhã tipo hotel, por uns 15 euros. E se você não for comer naqueles lugares que são claramente pra turistas e procurar os restaurantes e cantinas em que os locais fazem as refeições, bom, dá pra passar o dia com 25, 20 euros numa boa em alguns países.

Claro que você vai passar por coisas tipo ninguém falar inglês no restaurante e não ter um menu em inglês, ou você chegar de noite e ter alguém na sua cama no dormitório, ou dormir em um cubículo chacoalhante de 6 metros quadrados num trem de 15 horas onde se acomodam 6 pessoas em bancos que viram leitos. Mas foi por isso que eu mencionei o termo ‘pessoa simples’ lá em cima: é que precisa estar disposto a algum nível de aventura. Quem não tá, e pode pagar a mais pelo conforto, contrata uma agência de viagem. Mas também viaja sem surpresa.

Esse só tem três leitos, mas coloque mais três do lado direito pra ter uma ideia

E bem, é duplamente divertido viajar sozinha e em baixo custo. As coisas são bem mais espontâneas, apesar de um planejamento inicial ser necessário pra manter o budget baixo. Você conhece bem mais gente sozinho, e não precisa entrar em uma discussão só porque metade do grupo quer ir ver o museu e a outra metade quer ir ver a estátua. Não corre o risco de brigar com seu melhor amigo, o que é frequente, já que os melhores amigos na terra natal podem se tornar as piores companhias do mundo pra viajar se os dois não estiverem no mesmo ritmo. E com menos bagagem e menos roupa, você viaja mais confortável, carregando menos peso e fica mais livre. Principalmente, se questiona sobre o que é realmente essencial pra viver bem.

Mas esses clichês existencialistas não são a questão aqui. A questão é que eu fiquei sabendo, durante meu último mochilão, que tem gente que viaja o mundo de graça. Eu passei pela Grécia, pela Romênia, pela Hungria e terminei na República Tcheca. Também a propósito, Budapeste foi minha preferida, de longe, mas isso fica em outro post.

Não se trata daquela história BE A TRAVEL WRITER AND TRAVEL THE WORLD FOR FREE, que né, isso aí não funciona exatamente assim. As técnicas pra quem viaja de graça não são nada sofisticadas, e embora não sejam o créu, exigem disposição e habilidade.

Desculpe. Meu humor piorou muito aqui na Holanda.

De todo modo, na Romênia surfamos no mesmo couch eu e um espanhol chamado Guillermo, um professor de matemática barbudo e de cabelo comprido, com uns dentinhos bem brancos, que não devia ter 30 anos. No fim, passamos só uma noite no mesmo apartamento: cheguei e ele se foi na manhã seguinte. Mas conversamos bastante. Os papos de couchsurfers são sempre os mesmos, na verdade – idiomas, costumes, comida, viagens. Geralmente é isso, ao menos no começo. E eu não tô reclamando.

Daí que os hosts tão querendo fazer uma viagem de volta ao mundo daqui um ano ou dois, e perguntaram ao Guillermo, que já tá na estrada há um tempo, quanto ele gasta por mês viajando. Guillermo disse que geralmente gasta de 150 a 200 euros por mês, o que já é bem pouco. Mas que poderia chegar a 50 euros. E que conhece gente que viaja a zero.

Não duvidei, porque ele não é o tipo de pessoa de quem a gente duvida. Mas perguntei como, claro, porque qualquer um perguntaria.

Ele explicou.

“Eu acampo, faço couchsurfing, pego carona. Se vejo uma árvore cheia de frutas, encho os bolsos e a mochila. Acabo gastando só com comida, e no supermercado.”

É, mais isso não explica quem viaja de graça. Ele terminou. “E quem chega a zero, faz tudo isso, e também procura o que comer no lixo.”

"Você se surpreenderia com o que encontraria no lixo"

Ele explicou que fez isso uma vez e que a gente se surpreenderia se visse o que as pessoas jogam fora. E que os melhores lixos são os de supermercado, porque eles dispensam embalagens fechadas que passaram da validade recentemente, mas que segundo o bom senso, ainda podem ser consumidas.

Ah, além disso, quem opta por esse ESTILO DE VIDA também fica rondando turistas marotos em restaurantes e se apossa dos restos que nego deixa no prato. Justo.

Procurar coisa no lixo tem um nome em inglês, e chama Dumpster Diving, ou Skipping, na Inglaterra. O NYT tem uma matéria legal sobre o assunto. Eu tenho muitos amigos que moraram nos EUA, na Inglaterra e na Austrália, e lembro que todos eles vasculhavam o lixo em busca de eletrônicos e móveis: encontravam de bicicleta a sofá e iMac funcionando. Tinha gente que mobiliava a casa nessa onda aí.

Mas nunca tinha ouvido falar de quem faz isso pra procurar comida, quer dizer, por opção. Porque Dumpster Diving pra viajantes é uma opção, afinal, você sempre pode pegar uma carona de volta pra casa se não tiver mais dinheiro pra comprar comida. O mais perto que eu cheguei disso foi aos 13 anos, quando alguém no prédio jogou fora uma raquete de tênis bem pesada, e quando eu fui lá jogar o lixo vi a raquete. E peguei pra mim, só porque achei legal. Nunca joguei tênis.

Sei de gente (muita, muita) que passa a vida inteira reclamando que não tem dinheiro pra viajar e tal, mas depois dessa temporada eu descobri que dá pra fazer muita coisa com pouco dinheiro. Não necessariamente precisa ir pra longe de casa, né, que o Brasil tá cheio de coisa pra ver. Eu mesma nunca fui pra Paranapiacaba, por exemplo, que fica perto de casa. Esse post da Helô é um exemplo legal de que dá pra sair por aí sem gastar muito, e veja você, ela nem pegou comida no lixo.

Sim, essa refeição é composta apenas de itens que foram encontrados exatamente como você está pensando que foram

Percebi que Dumpster Diving é mesmo um estilo de vida porque tem todo um conceito acoplado. Primeiro o nome chique – magina que aqueles mendigos que pegam coisa do lixo aí no Brasil sabem que tem um nome tão legal pro que eles provavelmente consideram bem ruim de fazer? Depois, tem um conceito de sustentabilidade, reaproveitar e tal. A gente sabe que normalmente se desperdiça muito, e essas pessoas estão só se aproveitando disso. Todos os outros pilares da ideia de viajar de graça se baseiam em conceitos que envolvem reciclar, dividir, reaproveitar – Couchsurfing, caronas, acampar. No fim, você vai precisar de uma mochila com umas trocas de roupas e uma toalha leve, um computador, uma barraca e só pra sair no mundo.

A pessoa que eu sou hoje não comeria comida do lixo por opção. Mas não tenho nada contra, até porque sou contra pouca coisa nessa vida. A pergunta que eu te faço, caro leitor leite com pêra, é: você faria? E antes de responder, analise o blog desses caras e as fotos das refeições que eles fizeram durante uma viagem em que só comeram coisas que acharam do lixo. A foto aqui em cima é de um dos banquetes deles.

E se você curtir a ideia, o WikiHOW tem até um guia pra você são sair catando coisa errada nos lixos por aí. Vai lá

Gosta de ler sobre viagens? Visite o http://www.drumbun.com.br - lá eu escrevo só sobre os lugares que visito. :)

27 Comentários

O F.A.Q. de Paris

Eu fui pra Paris (ok, já faz um tempo… mas sabe como é) e devido a alta demanda de informações sobre a cidade por parte de amigos e familiares resolvi começar esse post em forma de FAQ.

1. Uau você ta chique heim???
É o que parece. Mas se você me visse com os joelhos encolhidinhos na poltrona do Eurolines (é um ônibus) de 35 euros as 2h da manhã, tentando dormir sem a possibilidade de reclinar a poltrona, TALVEZ não achasse isso.

Não estou reclamando, apenas expondo os fatos.

2. Mas você vai sozinha? Paris é uma cidade pra ir acompanhada!!!
Não exigiram acompanhante na imigração. Ainda bem, porque meu namorado tava trabalhando lá na Holanda, por isso não pode ir. Não vi o tal do romantismo, quer dizer, não mais do que a gente vê em toda linda cidade europeia e tal.

07052011-P1030747

Olha aí, a parede que tem 'eu te amo' em todas as línguas possíveis

3. E ai??? Viu a Monalisa???
Puxa, apesar de aparentemente o museu ser de graça pra residentes na Europa de menos de 26 anos, eu fiquei com preguiça. Tambem, depois de ouvir tantas vezes que é um quadrinho de 30 cm de altura meio decepcionante…

4. Mas nem no Louvre você foi?
Não!

5. Mas onde você foi então?
Gente… Vários agentes de turismo em potencial, não?

6. Tá, ai, desculpa. Onde você ficou, hostel?
Não. Couchsurfing.

05052011-P1030666

A Ponte das Artes, onde as pessoas colocam cadeados com o nome da pessoa amada

 

7. Ai… você não tem medo?
Hum… não fui sequestrada, violentada, maltratada, não fiquei desconfortável: dormi em um belo sofá-cama na casa de um ativista político colombiano que mora em Paris há 20 anos, fala português, e até bicicleta oferecia pros couchsurfers na casa dele.

8. Que sorte!
Claro, sorte é certamente o fator maior aqui: o menor é as mais de 100 qualificações positivas de viajantes pra ele no couchsurfing.com.

E acabou o FAQ. Se ficou alguma dúvida, favor incluí-la nos comentários. Voltando a Paris (metaforicamente), eu fui a Torre Efiffel e ela existe mesmo, posso provar com fotos. Além disso, ela é muito, muito grande, daquelas que são super maiores do que parecem. Não é assim, bonita, sabem? A estrutura de metal retorcido passa aquela impressão de arquitetura de revolução industrial que não é necessariamente algo agradável para os olhos. Impressionante mesmo é a Champs-Elysees, gigante, linda, o seus entornos, com parques fantásticos, fontes lindas e tudo o mais. E tem Montmartre, com suas casinhas e predinhos tão bonitinhos, bares frequentados por Van Gogh e Picasso. E a Ile de la Cite, de onde se vê o Sena por quase todos os ângulos. E ele é bonito, mesmo.

As coisas mais legais que eu vi foram a gravação de um clipe de Bollywood na Ponte das Artes (a dos cadeados) e um cara que fazia embaixadinhas em cima de um poste em frente da Sacre Coeur em Montmartre.

05052011-P1030667

OLHA RIVALDO SAI DESSE LAGO

 

07052011-P1030712

O maluco ganhou muitos aplausos da multidão de turistas

O charme que todo mundo menciona quando fala de Paris é todo verdade. E olha que eu nem botava fé nisso. Paris é aconchegante onde você for, dos bairros mais abastados aos mais periféricos. E é impressionante conseguir manter esse ar mesmo quase não tendo casas, só predios, com tanta gente indiferente por todo lado, gente dormindo na rua e no metrô, aquela frieza de cidade grande. Mesmo com tudo isso – aliás, somando tudo isso -, Paris e suas centenas de monumentos e cantinhos escondidos cheios de história da arte e da literatura têm sim o charme que atribuem à cidade.

Eu fiquei num bairro chamado Chateau Rouge, cerca de 15 minutos (de metrô) do centro da cidade, a Ile da la Cité, um pedaço de terra no meio do Sena que originou a cidade de Paris. Só que entrar e sair pela porta do metrô, no caso, parecia muito mais com entrar em um portal de teletransporte – Chateau Rouge era um pedaço de Luanda no meio da capital da França.

Em Chateau Rouge...

Em Chateau Rouge...

Vi muitos pombos, muito cinza, muita gente apressada, poucas bicicletas, ouvi muitas buzinas e quase fui atropelada por um motoqueiro sem coração. Senti cheiro de pão fresco a cada esquina, odor insuportável de urina no metrô, e até frango assado rodando no espeto de domingo eu vi.

Paris me lembrou São Paulo, se São Paulo tivesse uns mil anos de história e, com eles, tivesse tantos monumentos, muitos parques, alguma organizaçao e gente falando francês. Paris deve ser a a única capital europeia que eu chamaria de prima próxima das grandes cidades brasileiras. Não sei se são os muitos prédios com cara dos anos 50 misturados aos edifícios do início do século, o metrô que corre por cima da cidade, a sujeira nas ruas… pode ser tudo isso junto.

 

07052011-P1030726

Ai, ai...

 Gosta de ler sobre viagens? Visite o http://www.drumbun.com.br - lá eu escrevo só sobre os lugares que visito. :)

13 Comentários
Página 1 de 6123456