22 de abril de 2013 às 9h33
O jornalismo está morto, vida longa ao jornalismo
Eu me formei em jornalismo em 2009, trinta anos atrás. É que esses três anos e meio, na escala de tempo que corre como oficial nesses tempos loucos, meio que significam uns trinta, talvez. Ainda quando eu me formei, quando a comunicação e o jornalismo em si ainda eram tão diferentes e ainda não tinham se integrado completamente com a cobertura colaborativa via redes sociais, o papo de que o jornalismo estava morrendo já era um dos tópicos preferidos pelos professores pra discutir com a gente.

No futuro, historiados considerarão essa notícia do Ego o marco para o fim do jornalismo como conhecemos
A diferença é que eles achavam que o jornalismo ia morrer por causa da internet, do celular, do tablet e, em menor escala, por causa do Ego. Todo mundo estava pensando em hardware, em forma. A gente não discutia a morte do jornalismo em conteúdo, porque nem se cogitava isso. Não havíamos ainda presenciado como a primavera árabe usaria o Twitter e o YouTube, nem Julian Assange e os Anonymous, nem a cobertura real de qualquer tragédia grande via redes sociais. Além disso, na época, smartphones não eram tão populares quanto hoje.
Eu não sei se tem algum estudante de jornalismo aí, mas vocês já estão falando da morte do jornalismo per se? Ok, “na minha época” já se falava, ainda que timidamente e de maneira um pouco ingênua, até, em descentralização da comunicação, fim do gatekeeper e tudo mais. Mas algum professor em alguma faculdade por aí já decretou que todo o formato tradicional de jornalismo que a gente conhece é insustentável por causa das novas dinâmicas de fluxo de informação?
Não vá embora; esse texto é sobre você
Eu sei que provavelmente todo mundo que tinha que abandonar esse texto já o fez, porque estamos no quarto parágrafo, mas vou lembrar aqueles que ainda continuam comigo que esse não é um post cabeçudo destinado somente às únicas pessoas no mundo que se interessam por discutir o conceito de jornalismo: jornalistas. É um post sobre você mesmo, pessoa casualmente normal, que agora é envolvida no estranho fenômeno que te faz se apressar pra publicar uma notícia no seu Twitter ou no seu perfil no Facebook. Se você lê em inglês, muitas vezes acaba furando (dando a notícia antes, no jargão) grandes veículos. Você, que fica comentando resultado de futebol no seu Facebook ou você que quis publicar antes de todo mundo na sua timeline que o novo Papa se chamava Chico.
Essa semana, nos EUA, os princípios básicos do jornalismo desmoronaram todos de vez. A única diferença que existia entre mim, supostamente melhor qualificada que você para dar notícias, e você, que tem acesso a fontes primárias de informação na mesma velocidade que eu ou mais rapidamente, é que eu supostamente sei que preciso checar tudo antes e falar tudo que não tenho certeza com a maior cautela do mundo. É pela falta dessa “técnica”, um sexto sentido de eterna dúvida e curiosidade, que todas as coisas bizarras acabam espalhadas pelo Facebook, de “compartilhe para doar 50 centavos para essa ovelha albina” a “veja esse lindo texto da Clarice Lispector sobre o Large Hadron Collider que com certeza é real, apesar de Clarice estar morta há 36 anos e o LHC ter sido ativado em 2008″. Essa semana, grandes jornais americanos estamparam suas capas com fotos de suspeitos do atentado na maratona de Boston – suspeitos apontados pelo 4chan e pelo Reddit, depois de uma minuciosa e super confiável análise das fotos.
Não precisa nem ter feito um período de ética pra saber que você não publica fotos de gente que um bando de anônimos em um fórum apontou como suspeitos – baseados em fotos em baixa resolução – na capa de um jornal, sob o risco de tornar a vida desses “suspeitos” um inferno, o que realmente aconteceu.
“Eu não tenho ideia do que estou fazendo”
Eu não culpo os jornalistas nas redações, porque ninguém sabe exatamente o que fazer quando toda a internet tem uma informação que você supostamente não tem. E o pior, você não tem nada mais confiável pra dar. O jornal, infelizmente, não pode sair em branco com uma manchete escrita “BREAKING NEWS: não há nada de novo neste caso e estamos esperando informações oficiais do FBI porque a gente não confia no 4chan e no Reddit por motivos óbvios, e não vamos arruinar a vida de inocentes na ânsia de não ficar pra trás”.
O lance é que ninguém sabe exatamente o que fazer porque não há o que fazer – nesse formato novo de como a informação flui, não há espaço para jornais de papel com hard news (hard news é o “últimas notícias”). E quase todos os jornais de papel são baseados em hard news.
Só que está todo mundo no meio disso e é difícil dar um passo pra trás pra analisar o que fazer porque o que fazer seria:
1. uma disruptura total do que é tradicionalmente feito em todas as instâncias, de forma a conteúdo e publico alvo, o que é financeiramente bem arriscado, eu reconheço;
2. reconhecer a derrota e acabar com formato “coisa impressa de papel que dá notícias sobre coisas que supostamente acabaram de acontecer mas que todo mundo já viu na internet ontem”, o que também é improvável porque é tipo o equivalente a isso;
3. se tornar o Buzzfeed, que basicamente seguiu o passo 1 e 2 e faz um grande exemplo de algo que eu vou chamar aqui de pós-jornalismo, pra parecer que eu sei tão bem do que eu to falando que eu até ouso batizar isso com um nome legal.
Se esse jornal de papel mantivesse o papel (risos) de filtrar com precisão o que é real ou não entre aquela tralha de coisas que eu leio no Facebook ou no Twitter, ele talvez até faça algum sentido. Mas agora que ele só reproduz o que todo mundo já está dizendo nesses outros lugares…
E agora, Bial?
Trate de começar a desconfiar das coisas que lê por aí, sempre. O Mashable publicou um texto muito bom com um guia passo-a-passo sobre como questionar o que você lê nas redes sociais. Aliás, deviam começar a ensinar isso pra crianças na escola. Quer dizer, desde sempre deveriam ter ensinado isso na escola, mas em todo caso agora é ainda mais importante, sob o risco de todo mundo ficar seriamente desinformado. Use o Google para aquilo que ele faz de melhor, pornografia que é comparar dezenas de fontes de diferentes da mesma notícia e tentar chegar na fonte original (via Google Translate, se for o caso) antes de passar algo pra frente. Você se espantaria se eu dissesse que uma boa parte dos jornalistas de veículos online não faz isso e usa notícias de outros veículos, que já foram escritas baseadas em outras fontes secundárias, pra escrever suas notas. Não é culpa deles; eles estão sendo pressionados de maneira insalubre pra publicar mais rápido, e se antes a concorrência era só com outros sites, agora ela é com todo mundo que tem uma conta no Twitter.
Sim, trata-se de um imenso telefone sem fio, mas dá pra contornar, e eu não posso enfatizar isso mais ainda: duvide. Não transmita informação que não pareça certa. E se mesmo assim você quiser transmitir, não esqueça de dizer que você não sabe se aquilo é verdade. Esse super conselho inovador é provavelmente uma das coisas mais ingênuas que eu propaguei nesse blog desde 2009, e das mais óbvias também. Por outro lado, se fossem tão óbvias, Arnaldo Jabor não seria o autor mais prolífico da história desde os monges copistas, com uma média de 12 novos textos atribuídos a ele por minuto, de acordo com as minhas observações, então resolvi escrever esse parágrafo mesmo assim.
Finalmente, com cada um de nós se tornando uma fonte secundária de informação, a única coisa que resta ao jornalista se ele quiser fazer algo que fuja dessa lógica (além de mudar de profissão, claro) é ser ele mesmo a mais confiável fonte secundária de informação. Ele precisa ser uma pessoa cujas opiniões as outras pessoas queiram ouvir, acima de tudo. É preciso criar uma persona online, por mais esquisito e meio showbiz que isso soe. É um caminho – dá mais trabalho pra ganhar dinheiro, mas é um caminho.

























23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 





