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#ForaSarney e a revolução com a bunda no sofá

Olha só, que alegria. O Irã entra pra história depois de usar o Twitter como principal ferramenta pra cobrir as manifestações contra a reeleição de Ahmadinejad. Coisa linda, a gente vivendo história, capa de todas as revistas.

Daê no Brasil a gente acha que tem poder porque emplaca um #chupa como Trending Topic (para leigos: palavras mais faladas) no Twitter. E porque recebeu uma resposta do Ahston Kutcher.

Como se não tivessem aprendido o suficiente depois da palhaçada que foi aquele MOVIMENTO CANSEI, algumas celebridades brasileiras que usam o Twitter acharam que a vida é fácil assim, e que poderiam usar O PODER DA INTERNET pra tirar o Sarney do Senado. Se você tá desinformado, resumo:

Gente famosa que tem Twitter, tipo o Christian Pior, o Marcos Mion e o Junior Lima supostamente se reuniram em um movimento pra fazer com que as pessoas no Brasil twitassem a palavra #forasarney e essa palavra entrasse também nos Trending Topics, como aconteceu com o #chupa.

Ok, então é o seguinte – eles perceberam no domingo, na partida contra os EUA, que os twitteiros brasileiros tinham força suficiente pra emplacar um trending topic e serem notados pelo Ashton Kutcher, a.k.a marido da Demi Moore, a.k.a Kelso, a.k.a @aplusk.

Até que pediram para que o Ashton Kutcher AJUDASSE, twittando o termo #forasarney e pedindo pra que os seguidores dele fizessem o mesmo. Ok, vamos fingir que isso não é patético. Estamos fingindo. Fingindo. Ainda bem que o próprio Ashton Kutcher não finge. Ele respondeu:

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“Só VOCÊS tem o poder de tirar seu senador. É SEU país. Vocês têm que lutar pelo que VOCÊS acreditam. Eu não tenho voto”

O óbvio, que qualquer pessoa de bom-senso responderia na face da terra, mas que meia-dúzia de celebridades descabeçadas não enxergaram de primeira e precisaram que o Ashton Kutcher as lembrasse. FAIL. O Lucas fala de maneira majestosa sobre o showzinho das celebridades brasileiras neste post.

Acho que eles pensaram que esse negócio de internet é realmente revolucionário, que você pode fazer a revolução sem levantar sua bunda do sofá. Até eu que sou mais boba sei que não funciona assim, amiguinhos. Não é porque você coloca uma tag lá no topo de um site gringo que os governantes olham aquilo e dizem: “Oh! O povo brasileiro está realmente indignado e furioso. É melhor convencermos o Sarney a deixar o cargo.”

A cobertura e a revolução que o Irã provocou não foi fabulosa simplesmente porque aconteceu no Twitter, senhores famosos. Foi fabulosa porque o Twitter serviu como TRANSMISSOR de algo que estava NAS RUAS. Foi feita por pessoas, gente comum, e não VJs da MTV, cantores infanto-juvenis de moicano e apresentadores de programas dominicais. Aliás – foi feita também pelos VJs, pelos cantores, e apresentadores, mas os holofotes, eu garanto, estavam sobre o povo que se manifestava nas ruas pela recontagem nos votos. O Twitter revolucionou apenas a maneira de MOSTRAR isso pros outros.

Esse ‘movimento’ que eles chamaram de #forasarney entra no meu TOP 5 VERGONHA ALHEIA 2009.

Não esqueça: Sarney e a família dele estão em cargos públicos desde antes da gente, que usa o Twitter, NASCER. E desde aquele tempo eles são também donos de uma porção de veículos midiáticos. Isso não nos impede de derrubá-lo da presidência do senado, mas eu posso garantir que isso não será feito caso consigamos fazer um número muito grande pessoas escrever uma palavra em uma rede social.

Não sei vocês, mas eu gostaria muito que mudar o mundo fosse fácil assim. Emplacou um Trending Topic no Twitter, voilà. Já pensou? Teríamos evitado uma série de tragédias, ainda mais considerando a possibilidade de o Twitter existir antes, como cogitou o Huffington Post esses dias. Teriam possíveis #InquisiçãoNão, #ForaLuísXIV ou #DiretasJá evitado guerras ou contribuído para o triunfo de movimentos sociais?

Ou mesmo se houvesse a possibilidade de coberturas colaborativas em outras épocas, veríamos coisas como “#Auschwitz eu e minha família fomos encontrados no sotão por esses fdps da SS. Por favor, RT!” ou “#RevoluçãoFrancesa acabamos de derrubar a Bastilha!”?

Ok, teria sido engraçado. De qualquer forma, nesses casos – em todos eles, aliás – o Twitter teria eficácia. Porque ele estaria apenas reportando algo que estaria de fato acontecendo nas ruas. Mas se fosse algo do tipo “#CaiBastilha vamos acabar com essa palhaçada pessoal, RETWITTEM!“, well, os livros de história como conhecemos TALVEZ estivessem um pouco diferente hoje.

A revolução não será criada na internet – a internet só tem o poder de espalhá-la mais.

Infelizmente, leva um pouco mais do que Trending Topics pra fazer as coisas mudarem.

Baseada na lógica da simplicidade de mudar o mundo dos amigos famosos aí, o Danilo Gentili, andreense e pertinente como sempre </rimas>, soltou:

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E eu aderi à causa, claro. Sou entusiasta da #PazMundial e não vejo jeito melhor de fazer essa benção ser instuída do que escrever essa tag no meu Twitter. Criei inclusive a #PazMundial DOS BROTHER. Obtive bastantes retweets com essa brincadeira – ou seja, usei o humor e fiz a minha parte para chegar mais perto da #PazMundial. AH! E também pedi para o Ashton Kutcher nos ajudar nessa, ou seja, segui todo o protocolo de revolução via Twitter. Quando alcançarmos a #PazMundial, poderei dizer – fiz a minha parte rumo à #PazMundial! Ainda não somos Trending Topic, mas eu sou brasileira e não desisto nunca da #PazMundial.

Editado: a pedidos, esclareço uma posição que temo que não tenha ficado clara no post pra algumas pessoas. Não sou contra o ‘movimento’ #ForaSarney no Twitter nem em lugar nenhum. Ser ‘contra’ não é a palavra correta aqui. Só acho que algumas celebridades engajadas nisso o estão fazendo de maneira oportunista e irresponsável, já que na minha opinião o objetivo real deles não é tirar o Sarney da presidência do Senado, e sim se promover. Acho legal quando a manifestação parte dos usuários do Twitter em si e endosso mais ainda o uso da tag como agregador de notícias sobre a causa em si, como fizeram Rafinha Bastos e Marcelo Tas

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Seu tatuador é ladrão?

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Não? Porquê ele roubou todas as estrelas do céu e colocou na sua cara.

HÁ.

Com 56 estrelas no rosto, garota denuncia tatuador

Não sei, POSSO ESTAR SENDO MALDOSA. Mas quem tem tatuagem sabe que, assim, né? Tem alguém cortando você e pintando esse corte. Se você pede 3 estrelas e fazem 56 em você, eu diria que você seria capaz de notar que há algo errado PELO MENOS lá pela décima estrela, se você for ruim de percepção.

Tem aquela música do Offspring, Pretty Fly (for a white guy), que tem um trecho que diz algo como: “Now he’s getting a tattoo, yeah/He’s getting ink done/He asked for a 13/But they drew a 31″.

Foi uma das primeiras músicas que eu aprendi a cantar em inglês, e aprendi o significado. Tinha uns 11 anos e pensei “HÁÁÁÁ, que loser. Queria um 13, desenharam um 31. Cara otário”. A situação dele tá ok perto da dessa menina.

Quando a gente ouve falar dessas pessoas, celebridades ou não, que tatuam o nome do namorado/a, acho que todo mundo faz um facepalm. Tipo, bate a mão na testa e pensa “puta merda, que burro”. Mas po. Não é tão ruim – todo mundo que faz isso faz escondido, tipo atrás da orelha, no tornozelo, na parte de trás do ombro. E geralmente é pequena. Terminou, cobre com outra coisa e bola pra frente.

Essa menina vai cobrir com o que, meu deus? Vai complementar com galáxias? Dizer que a tattoo é uma supernova? Vai desenhar a bandeira do Brasil em volta? Ahh, ops, não dá. O Brasil não tem 56 estados.

Acho que tem alguém aí que se arrependeu e quer tirar uma grana de um tatuador esquisito.

Mas é um palpite leviano. Quem sou eu pra julgar.

Editado: no Blog do Link, o Rafael postou uma dica imperdível – o Kimberlizer. Trata-se de um site que te dá a oportunidade de ver como você ficaria se quisesse tatuar 1, 2 ou 3 estrelas estrelas na cara, IGUAL À KIMBERLEY! UHU! Clica aqui pra ler sobre a idéia genial. É por isso que eu adoro a internet. Eu escolhi 3 ESTRELAS. VEJA COMO FIQUEI INCRÍVEL!

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*Esse seria o típico post pro Piada Pronta, meu outro blog, o da MTV. Mas tenho tanta ideia separada pra lá e essa história era tão boa que deixei pra cá. Ou seja, vou continuar tocando os dois paralelamente que tá tudo certo. Peace out.

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Blá blá blá diploma blá blá blá jornalismo blá blá blá absurdo

Ai que saco. Odeio ter que falar sobre alguma coisa, sabe? Quando você precisa escrever sobre algo, mesmo que não considere aquilo algo com que se perder tempo com. Mas todo mundo fica me perguntando o que eu acho disso, então vou escrever aqui – daí, quando perguntarem só mando o link.

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Jornais estão morrendo, jornalistas também. Nada mais apropriado!

Na quarta-feira o STF votou, por 8 a 1 (uhú!), o fim da obrigatoriedade de diploma de jornalismo para exercer a profissão. Eu trabalho numa redação, uma das maiores do país, e sinceramente não vi ninguém chorando por lá. Mas no Twitter eu vi. Ah, como vi gente se lamentando. “Ai, porque é um absurdo”. “Ai, porque isso é desvalorização da educação no país”. “Ai, porque agora qualquer um pode ser jornalista…”

Aaaahh, a tradicional arrogância da classe. A maior prova dela é uma porção de gente ter se ofendido com a comparação do ministro de jornalista com cozinheiro. Gente escrota. Desde quando ser jornalista é melhor do que ser cozinheiro? Quem devia se ofender é o cozinheiro, po.

Amigo que não é jornalista, tem algumas coisas que você precisa saber. A primeira delas é que o mercado de jornalistas está repleto de gente que exerce a profissão de maneira formidável e não é formado, desde muito tempo. A segunda é que a faculdade de jornalismo no Brasil forma pequenos especialistas em grandes generalidades com vagas noções de técnicas de redação. A terceira é que… sei lá, não tem terceira. Sou jornalista, não sei contar.

Pra ser jornalista, e eu sempre achei isso, não adianta ter faculdade. Jornalismo é espírito. Envolve gostar de estar bem informado, ser curioso, em alguns casos gostar ou saber escrever, gostar de ler, ter visão global de fatos, saber editar, uma série de coisas. Faculdade pode ensinar algumas técnicas, mas se algumas características já não estiverem lá, incubadas, faculdade não faz milagre. E essas técnicas você só aprende de fato exercendo, no mercado – ou seja, não precisa exatamente cursar jornalismo pra aprendê-las, precisa é trabalhar com jornalismo. Idem pras questões éticas que envolvem a profissão: elas estão em pauta o tempo todo no dia-a-dia, e você não precisa de sala de aula pra discutí-las, porque pode fazer isso com seus amigos no bar, já que necessariamente precisará tomar decisões que envolvem ética no cotidiano, e se não fizer isso de maneira adequada não vai durar muito tempo no mercado.

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O Tintin, por exemplo – não precisa de diploma, é claramente
jornalista por vocação. Simples assim

Além disso, você acha que por causa da queda da obrigatoriedade do diploma alguma empresa vai mudar os critérios de contratação? De maneira alguma. Vão continuar exigindo os mesmos conhecimentos gerais (talvez até mais!), as mesmas habilidades em texto, as mesmas capacidades multimídia. A faculdade, talvez, se torne um diferencial desejável. O mercado vai ficar sim mais concorrido, e isso é ótimo pra sociedade!

A Folha de S. Paulo nunca exigiu formação jornalística pra contratar repórteres. É o maior jornal do país. E quem você considera mais qualificado para falar sobre economia – um economista que domine as técnicas jornalísticas ou um jornalista que entende um pouco de economia?

Pois é. A Folha prefere o primeiro cara. E eu acho justo.

Não reclamo da não obrigatoriedade do diploma porque acho que os profissionais qualificados continuarão tendo espaço no mercado, por motivos mais que óbvios. A qualidade da informação vai aumentar, porque a concorrência vai ser maior e aquele carinha que só tinha formação em jornalismo vai precisar de uma pós em história pra competir com o historiador que tem bom texto no mercado.

É hipócrita o jornalista que chegar aqui e me disser que a faculdade o ensinou a ser jornalista. Ensinou-o a beber bem, a fazer bons contatos profissionais, a ir no Juca. Se na minha faculdade (e nas de todos os meus amigos) os próprios professores fazem vista grossa pras nossas faltas já a partir da metade do curso, por compreenderem que nessa altura do campeonato a maioria das pessoas já está no mercado e a faculdade se torna supérflua, como alguém tem coragem de dizer que 4 anos de faculdade de jornalismo são realmente necessários?

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Zé Bob, por outro lado, tenho certeza que tinha diploma,
mas nunca conheci um jornalista que trabalhasse tão pouco

Sou defensora de um curso técnico de dois anos de jornalismo, em formato de pós graduação. Os profissionais de outras áreas cursariam suas faculdades – direito, geografia, medicina – e com mais dois aninhos de técnicas jornalísticas e discussões sobre ética profissional e estariam habilitados plenamente a falar em veículos sobre o assunto. Felizmente, me parece que com essa mudança legislativa, essa possibilidade se torna mais atraente para as faculdades por aí. Espero ansiosamente uma posição por parte do MEC. Seria bem legal.

Conclusão: com a mudança se ferram os profissionais medíocres. Os bons, ganham, porque continuam no mercado seja como for; a sociedade, que consome notícias, também, porque a concorrência aumenta e logo qualificação dos profissionais também.

A única coisa que eu lamento nessa lei é que ela poderia ter saído há uns 5 anos, coisa assim. Eu poderia ter feito relações internacionais, e hoje estaria tinindo em Jornalismo Internacional. Mas é a vida.

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E o Clark, que tinha diploma, era jornalista,
mas que na verdade tinha por vocação o super-heroísmo?

A propósito: já que exerço a profissão há 4 anos, e não preciso mais do diploma pra me considerar profissional, já posso dizer que sou, sim, jornalista. Não é pelo título, glamour, nada disso. Não acredito nessas bobagens. É só porque isso diminui drasticamente as chances de ter o telefone desligado na cara ao ligar pras fontes dizendo “Oi, eu sou estudante de jornalismo….”

*Tenho prova até o fim dessa semana. Tava afim de faltar, ligar pro professor que orienta o TCC e rir da cara dele. Ele é legal, mas só pela graça que isso teria. Mas.. só faltam seis meses, né? Melhor eu terminar. E só faltam dois dias de provas.

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Entenda o papel da internet, das redes sociais e do Twitter no cenário no Irã – e não vai ser chato, eu juro

A história de luta no Irã é complexa e data de vários séculos - acredite ou não, começou com a invasão do território pelo Império Otomano, em 1500 e alguma coisa. Sei muito pouco sobre o Irã, antigo império Persa, mas aprendi bastante desse pouco depois que li, há um mês, o fabuloso Persépolis, de uma moça chamada Marjane Satrapi.

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Esse é o livro – clica aqui pra comprar

Nós, ocidentais, sabemos muito-pouco-quase-nada sobre o Oriente. Achamos que é tudo deserto, camelos, Alah e burcas. Felizmente, assim como nós no Brasil somos um pouco mais do que criadores de macacos selvagens, o Irã tem uma longa, loooonga história de oposição política à ditadura islâmica, marcada por muito sangue misturado a, adivinhem, petróleo. Não vou dar aula de história aqui – leia o livro, vale a pena, é uma graphic novel: ou seja, quadrinhos, as edições encadernadas num livrão. A questão é que a polêmica da fraude da reeleição de Ahmadinejad está se tornando um case fantástico para mostrar o poder das novas mídias e isso me deixa estranhamente feliz.

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Os defensores da democracia lutam por ela naquele país há quarenta anos, sem esmorecer. Eles passaram por torturas, desaparecimentos, opressões semelhantes ou piores às que a gente passou aqui nos anos de ferro. A censura lá é brava, não há absolutamente liberdade de expressão, algo que pra gente do ocidente e que nasceu no fim dos anos 80 é inconcebível. E boa parte dos que continuam lutando e morrendo pela democracia (alguns, inclusive, pelo direito de não ter dogmas religiosos instituídos) são estudantes. A Universidade de Teerã, por exemplo, ficou cercada pelas forças nacionais na última semana.

Até aí, nada de novo. Jovens curtem essas paradas subversivas, essa é a história. Aqui a gente assiste Malhação, lá eles confrontam as forças nacionais, acontece. A coisa é – eles estão se organizando pelo Twitter. E de maneira brilhante, sem precedentes.

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O Twitter já foi usado de forma igualmente brilhante em coberturas de desastres, em outros casos de acusações de fraudes eleitorais e já mostrou que é uma ferramenta de valor incontestável nesse sentido. O governo iraniano, inclusive, tentou bloquear as conexões ao site, mas os usuários contornaram e usaram proxies. Depois, o governo bloqueou a busca pela tag que estava sendo usada pelos iranianos para cobrir os massacres e as repressões, #iranelection, e eles se organizaram e trocaram de tag (para #Teeran); e por último, mas não menos importante – os iranianos mobilizaram usuários do Twitter ao redor do mundo inteiro para que troquem a nacionalidade de seus perfis, todos, para Teeran, fuso horário +3:30 GMT.

Isso é para confundir os censores iranianos, que podem buscar os perfis de quem tem twittado com as tags em questão, e perseguir aqueles que se dizem de nacionalidade iraniana. MAS se todo mundo no mundo viver em Teeran, bem, talvez eles tenham dificuldade em identificar quem tá falando a verdade e quem não tá.

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Pela internet, os iranianos fizeram toda a cobertura que o governo impediu que a imprensa fizesse. Está tudo no Twitter, no Flickr, no YouTube. Só não vê quem não quer. E a partir do momento que os usuários fazem o tema se tornar relevante na internet, a mídia de todo o mundo passa a considerar o assunto pauta. Mesmo se não fosse. E começam a noticiar o conflito a partir das poucas, únicas fontes disponíveis – os twitteiros e flickeiros que estão nas ruas de Teerã relatando os fatos.

Tem censura de internet em outros lugares, também. A China é um exemplo. Mas na China não há conflitos tão longos, que envolvem questões econômicas, políticas e religiosas, não há o cenário de instabilidade política que o Irã tem agora, e há um crescimento econômico vertiginoso – tudo isso ‘amansa’ as pessoas. Quem me explicou essa parada foi o Pedro Dória, há duas semanas, numa entrevista que gravei com ele, por telefone, para o site do Link (mas que acabou não indo pro ar, infelizmente).

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A conclusão que eu chego, ajudada pela análise que ouvi do Dória na outra semana e por tudo que tenho lido sobre a questão iraniana: você não consegue bloquear a internet e impedir que os usuários se manifestem de forma satisfatória se o povo estiver economicamente insatisfeito e se você não tiver apoio das grandes empresas de internet. O Google, o Yahoo – todos se submeteram às regras da China. No Irã isso não aconteceu, os bloqueios foram governamentais, deliberados. Facilmente dribláveis, especialmentepor uma comunidade intelectual.

E o mais impressionante: através de uma ferramenta de uso extremamente simples, um grupo de oprimidos em um país lá no canto do planeta consegue mobilizar uma comunidade online local e, em segundo lugar, no mundo inteiro, em direção a uma causa. Unir ocidente e oriente, de certa forma – não totalmente, mas é uma união. E consegue mostrar para o mundo o que está acontecendo, não importa o quanto o governo daquele país tente esconder isso. Ver isso acontecendo, meu amigo, é revolucionário. Fazer parte disso, de alguma forma, é viver história. Espero que você esteja se dando conta disso nesse momento.

*Se eu escrevi alguma bobagem histórica, qualquer um de vocês é bem-vindo para me corrigir nos comentários.

**O blog do Pedro Dória tá cobrindo a treta no Irã com bem mais propriedade do que eu (observação óbvia). E o texto é leve também, exceto pelos nomes dos Aiatolás. Cola lá.

***O post tá ilustrado com trechos de Persépolis, o filme. Isso, aleatório mesmo. Também tem no Submarino.

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O cara que previu o acidente com o voo da Air France no Orkut

Ontem à tarde, twittei uma mensagem que foi retwittada mais de 17 vezes. Ela dizia que aquele vidente Jucelino Nóbrega da Luz tinha previsto o desaparecimento do Voo 447 da Air France.

Nesse link, o ‘ambientalista e premonitor’ (ele se chama assim) publicou supostas cópias autenticadas em cartório de cartas que teria enviado em 2006, às autoridades, alertando-as sobre o acidente.

Eu me lembro desse cara – em 2007, ele ficou famoso por também ter alegado a previsão do acidente da TAM em São Paulo. E me lembro de, na ocasião, te rlido outras previsões dele. Ontem, achei sinceramente que tinha lido essa há dois anos.

O único jeito de descobrir a verdade seria verificar se a modificação de arquivos no servidor deixa algum registro que pode ser checado por alguém que entenda de sistemas. Se o cara incluiu o material antes da data do acidente, daí acreditamos nele. Se foi depois, as chances de que seja fraude são maiores.

Perguntei ao K-Max, companheiro de aventuras e entendido dessas paradas, se existia algum jeito de checar a data de alteração do arquivo.

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Ou seja – ou ele envia os documentos, deixa-os em casa e providencialmente escaneia só depois que a tragédia acontece, ou então temos um motivo a menos pra acreditar nesse tio.

Felizmente, o mesmo não acontece com o camarada aqui embaixo. Clique na imagem para ampliar:

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Observe a data de publicação – NÃO TEM ERRO. Este senhor, por algum motivo, sonhou um dia antes com um episódio muito semelhante ao que provavelmente aconteceu com o voo da Air France.

O tópico original é este. Nele, as pessoas alertam para o fato de que Flávio previu o acidente e ele conta o que aconteceu depois disso.

As perguntas que ficam:

- É possível alterar a data de publicação de uma mensagem no Orkut?
Não sei. Mas ainda que seja, há comentários embaixo do post, ou seja, exigiria que um grupo de pessoas se organizasse pra fraudar a história, todos mudando as datas de publicação dos posts. Improvável, mas possível.

- Quantas pessoas existem no mundo? Quantos sonhos existem por noite? Pensando em possibilidades e em caos, quais as chances de que muitas pessoas tenham sonhado com a queda de um avião da Air France na noite anterior ao do acidente?
Também não sei. Talvez pessoas sonhem com quedas de aviões da Air France todos os dias. Mas quando as quedas não acontecem, são apenas sonhos. Se as quedas acontecem, daí se tornam sonhos premonitórios.

Apenas reflita – é mais fácil acreditar no acaso (a entropia gera a harmonia, ainda mais nos sonhos), num grupo de maníacos que se organizou para forjar uma situação fantástica ou num sonho de fato premonitório?

Atualizado às 16h03: O Flávio, autor da mensagem que relata o sonho, a apagou. Parece que ficou assustado com a repercussão da coisa, e com as mensagens no perfil dele. Pelo menos, o print tá aí – e eu vi a mensagem postada, então tá tudo certo. Sobre apagar a mensagem, escolha do cara.

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A disciplina mais estúpida do mundo

Eu tenho várias idéias de textos legais pra postar aqui. Aconteceram coisas engraçadas no fim de semana, tive novos insights de coisas da vida e tudo o mais.

Mas só to aqui pra dizer PORQUE eu não tive tempo pra escrever nada disso: é por causa de uma disciplina infeliz do penúltimo semestre de jornalismo chamada Atividades Complementares. E de um relatório estúpido associado a ela que eu precisei entregar há pouco mais de 7 minutos.

Esse texto, que será o mais curto possível, é apenas um desabafo. A disciplina consiste no seguinte: um semestre de aula uma vez por semana. Mas você tira nota apresentando, no fim do semestre, um relatório com tudo o que você já produziu jornalisticamente desde que entrou na faculdade, com os cursos que fez, as palestras que viu e essa coisa toda.

Eles estipulam uma pontuação pra cada tipo atividade, e cabe a você descrever num documento o que você fez ou não e entregar, junto com comprovante e/ou cópias de tudo. Mas não é que simplesmente você entrega isso e eles te dão a pontuação.

Você precisa JUSTIFICAR o quanto aquilo agregou na sua vida profissional. Com palavras bonitas, frases enriquecedoras e, hum, lábia.

Basicamente, no penúltimo semestre eu tenho uma matéria que avalia minha capacidade de convencer o professor de que escrever uma reportagem foi realmente excelente pra mim. Ou seja – uma disciplina que avalia, simplesmente, minha capacidade de levar as pessoas no papo.

Nada mais apropriado pra um curso de jornalismo.

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Quem canta, seus males espanta. Ou não


Lavagem das mãos deve durar dois “Parabéns a você”, diz OMS

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Então, funciona assim. A lavagem de mãos IDEAL, pra deixar você completamente longe de todas as pragas malditas que infestam esse mundo sujo, precisa durar de 15-20 segundos.

Basicamente, a notícia é essa. Lave as mãos, cante Parabéns e evite a Gripe Suína.

Só que a OMS quis fazer uma brincadeira. Não saquei qual foi, sério. Deve ter um assessor de imprensa que disse ‘precisamos tornar as coisas divertidas pras crianças. Precisamos traduzir esses 20 segundos numa linguagem que a população saiba entender’.

Na verdade, na faculdade de jornalismo a gente aprende que precisa levar pro leitor a notícia de um jeito que ele entenda. Então, em vez de dizer que ‘X hectares da Mata Atlântica foram desmatados em um ano’, é mais impactante explicar que isso equivale a sei lá quantos campos de futebol. Trazer a notícia pra uma dimensão que o leitor conheça.

Só que eu desconfio que mesmo uma boa parcela dos analfabetos no mundo saiba contar pelo menos até 20. É só um feeling, porque não é exatamente algo muito sofisticado, e essas pessoas precisam aprender a contar de qualquer forma – elas contam filhos, contam telhas da casa, contam dinheiro. Até 10 todo mundo sabe – 20 é dez duas vezes, pronto. Mas ainda assim a OMS resolveu fazer a piadinha.

De acordo com eles, enquanto a gente lava as mãos precisa cantar Parabéns a Você duas vezes. Mas sem a parte do É pique, é pique…. Entendeu? Tipo, só até …muitos anos de vida!, ai começa de novo.

Acessibilidade, essa é a palavra. Porque na mesma matéria uma enfermeira diz que outra solução é ‘pensar no alfabeto’, sem especificar se a gente deve falar todas as letras de A a Z ou sei lá, o que se torna estranho. E um analfabeto pode até pensar no alfabeto, mas não pode recitá-lo, e isso o excluiria automaticamente de lavar as mãos caso a OMS dissesse ‘lavar as mãos deve ter a duração de um alfabeto’. Então tá explicado o negócio do ‘conte até vinte’.

Só tem um problema: quero ver alguém fazer esta merda. Porque me parece a cena mais ridícula pela qual alguém pode passar voluntariamente (excetuando-se eventos de Cosplay). Vai no banheiro do trabalho, finge que não tem ninguém lá se tiver, aperta o botãozinho do sabão, abre a torneira e começa ‘Parabééééns…’. O legal é que quando todo mundo começar a te olhar estranho, você vai RECOMEÇAR, essa é a parte mais interessante. Se der, grava um vídeo, e manda pra OMS, pra eles deixarem de ser otários. Porque vão resolver problema de gripe mas vão acabar criando um monte de gente com distúrbio psíquico. Porque se você canta Parabéns enquanto lava as mãos, e duas vezes, e acha isso OK, tem algo de errado com você.

Mas se tiver mesmo, quero ver você lavar as mãos cantando Parabéns e fazendo cosplay.

E se você assistiu Castelo Rá-Tim-Bum, então sabe que a gente não precisa parecer COMPLETAMENTE LOUCO pra deixar as mãos limpinhas:

A propósito, se quiser usar essa música como marcação em vez do ‘Parabéns’, esfregue as mãos até a parte em que o fabuloso Arnaldo Antunes diz ‘Depois de brincar no chão de areia a tarde inteira’. Daí dá certinho. Bem mais legal, né?

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Cilada Cultural 2009

Da primeira vez em que eu fui na Virada Cultural, no Centro de SP, ano passado, achei que o evento era um modelo de coisa legal pra se fazer numa cidade como São Paulo. Poder andar no centro velho à noite, com tanta gente diferente e todo tipo de maluco – porque São Paulo tem a maior concentração de gente louca por metro quadrado e essa concentração cresce à medida que você se aproxima das regiões centrais – é um desses programas de bicho grilo que pessoas como fazem poucas vezes na vida.

Mas no ano passado eu não consegui ver nada. Apesar de ter me programado, na hora tinha muita gente, era tudo meio longe e no fim só fiquei andando atrás de algo legal e não vi nenhum show.

Ok, FAIL. Daí pensei: esse ano vou me programar. Vai dar tudo certinho. Vou de metrô de um lugar pro outro. Vai ser legal, muitas bandas boas, alegria, azaração.

Mas a prefeitura de SP achou que seria divertido furar não sei o que no metrô República JUSTO NA NOITE DA VIRADA CULTURAL. Temos outros 354 dias no ano pra fazer isso, mas eles escolheram a madrugada da virada.

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LHC e Tatuzão: separados no nascimento

Isso significa que o metrô Anhangabaú estava um caos do cacete.

Some isso ao número infinito de pessoas que resolveram ir ao centro de SP no sábado à noite (muito, muito mais gente que no ano passado) e você tem o seguinte cenário: grupos de pessoas que querem muito ver alguns shows, mas aí não conseguem, porque tem muita gente e não dá pra ver nada, porque tão esperando fulano amigo do ciclano, porque se perderam do beltrano, porque, porque, porque.

Daí eu encontrei outros grupos de amigos e todo mundo tava na mesma. E falei com outras pessoas, depois, e todo mundo falou a mesma coisa. Isso é: a gente não cobseguiu ver nada, porque onde a gente ia tinha muita gente, e ai a gente ia procurar outra coisa pra ver, mas aí sempre tinha muita gente, e daí fomos embora.

Gente demais, sujeira demais, babacas demais. Depredaram uns ônibus e banheiros químicos, eu vi, e todos os idiotas eram uns emos playboys. Sério, todos emos, querendo demonstrar toda a rebeldia contida no rock’n'roll. E é esse tipo de moleque idiota que faz a coisa virar merda.

Foi legal poder andar pelas ruas de SP, apesar do cheiro constante de urina e de outras coisas, e de forma geral a coisa pareceu organizada – shows pontuais, bastante policiamento, poucas (e isoladas) brigas. O som sempre tava ruim, mas não dá pra reclamar – não é uma casa noturna, não tem como exigir acústica boa.

Mas tinha gente demais. O mundo tem gente demais. E, de novo, eu quase acabei cansada, com fome, puta da vida e sem ver nada. Quase porque achamos um concerto de piano ali pelas 5 da manhã, na Praça Dom José Gaspar, e lá ficamos, e foi um dos shows mais agradáveis que eu já fui (acho que porque tinha cadeirinhas e eu tava super cansada).

De qualquer forma, houve sim momentos imperdíveis, que devem ser mencionados:

  • No fim do show de jazz do pianista, um carinha subiu no palco pra afinar o piano. No fim de todas aquelas notas esquisitas e sons dissionantes, um grupo de moleques aplaudiu vigorosamente (e era sério, você tinha que ter visto a cara deles).
  • Um doido escalou o Teatro Municipal com direito a passar de uma quina pra outra, que nem eles fazem nos filmes e dá mó medo. Todo mundo achando que ele ia se jogar, veio ambulância e tudo. Daí ele chegou no terraço e entrou pela porta. Só queria ver o show sem pegar fila, acho.
  • Uma intervenção artística urbana – flashmob bizarro (gosto de chamar de Piracema de Loucos) mobilizou vários grupos durante a virada. As pessoas chegavam, levantavam os braços e ficavam caminhando em círculos. Dasí uma mina e um cara ficavam saltando e dando piruetas e golpes de capoeira. Nesse ponto, outros 30 maolucos ao redor já tinham se juntado ao grupo. Foi provavelmente a cena mais surreal que eu já vi na vida. Filmei um pouco, e apesar da má qualidade (tava muito escuro), dá pra ver os retardados pulando:
  • Vi umas 10 pessoas de máscara contra Gripe Suína, mas acho que era brincadeira. Espero. Gostaria.
  • Esse cara é o bêbado morto mais à vontade que eu já tinha visto:

bebado

Antes que me crucifiquem, eu chequei e ele estava respirando.

A solução: ano que vem, nada de centro de SP. Tem muitas atrações legais rolando fora dos circuito do centro, e em 2010 eu vou escolher apenas um ou dois shows muito legais que acontecerem na puta que pariu e ir até eles. É o único jeito de não passar de novo por uma Virada FAIL.

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Inquisição virtual: quando vão começar a mandar os piratas pra fogueira?

Ok, teve o julgamento contra o Pirate Bay. Mas no geral, na gringa, parece que o pessoal tá desistindo:

Gravadoras americanas jogam a toalha contra pirataria

Parlamento francês rejeita lei para bloquear internet por download ilegal

Mas como é de praxe, as coisas por aqui sempre chegam com um pouco do atraso natural que é característico do 3º mundo. Se blog e Twitter são agora a sensação tupiniquim, então dá pra estranhar que o governo comece a fechar o cerco para os usuários de internet em tentativas esdrúxulas de conter o incontrolável – com ações-formiguinha como prender moleques que baixam música, ameaçar comunidades que compartilham links de downloads e tirar sites de legendas do ar, que têm o claro objetivo de intimidar grupos de pessoas que em grande parte só compartilham conteúdo sem fins lucrativos.

Quanto mais leio sobre iniciativas de grandes corporações para inibir o acesso do grande público à democracia e liberdade cultural que a pirataria proporciona, mais eu penso que não pode ser verdade que alguém que conheça a dinâmica da internet acredite que ainda é possível reeducar toda uma geração no sentido de ensinar que baixar música é errado.

Em vez de concentrar os esforços em alternativas economicamente viáveis e interessantes pro consumidor e pro artista, os babacas continuam perdendo tempo, prendendo meninos com HD cheio de CDs e usando-os como bode-expiatório de uma situação que é claramente incontrolável.

O projeto de lei francês mencionado no topo foi o que mais me chocou nos últimos tempos. Ele prevê punição os piratas com o banimento do uso da internet por uma quantidade determinada de tempo (dias a meses). E por um breve momento eu tive medo de que a inquisição virtual começasse, de que houvesse de fato o início de uma ditadura maluca na internet – que deveria ser a coisa mais livre do mundo.

Felizmente, foi rejeitado, ao menos em primeira instância, pelo que entendi. Mas aqui no Brasil o projeto do Azeredo continua a pleno vapor.

E eu desconfio que o bicho vai começar a pegar. Sabe por que? Porque as grandes corporações estão começando a perder muito, muito dinheiro por causa da internet no Brasil. Não que já não perdessem, mas a coisa está se espalhando por outros segmentos, coisa que não rolava aqui antes. Olha:

Internet faz receita com ligações internacionais despencarem, diz IBGE

A inclusão digital, a popularização da internet por banda larga, o computador do Milhão e as lan-houses até no inferno conectaram nosso país e estão gerando um fenômeno massivo de gente conectada, coisa que a gente não conhecia antes. O Brasil usa a internet, hoje. Não é mais só a classe média.

Só que o jovem vem pra rede com a mentalidade do nativo digital. E o nativo digital não pensa como o dono da corporações, e nunca vai pensar. Nesse post, Felipe Tofani menciona algumas das características desse grupo. Mas a mais marcante, e que mais contrasta com a vida real – sim, porque a vida na internet é só um reflexo da vida real – é essa aqui:

O poder vem através do compartilhamento de informação, não da mentalidade de escassez. Para ganhar influência e status online, você precisará doar seu conteúdo e conhecimento.

No mundo real, o de carne-e-osso, a mentalidade é a da escassez, a da usura, porque é com a usura que a sociedade capitalista lucra, e time is money – você não perde seu tempo ensinando ou doando nada pra ninguém. Os não-nativos não entendem o poder do compartilhamento, nem compreendem a vontade de compartilhar por compartilhar. No mundo de verdade, há pouco ou nenhum status em compartilhar. Na internet, por um motivo divino e bonito, vale o contrário. Vale a generosidade.

Enquanto os profanos virtuais, os não-nativos, não puderem compreender essa dinâmica, cada dia será um a menos na contagem até a inquisição virtual, em que laranjas serão punidos para ‘dar o exemplo’ à grande comunidade que comete ‘crimes horrendos’, com downloads de música tendo punições comparáveis a homicídio em alguns casos.

Seria fácil se eles aprendessem com os erros dos gringos e observassem que se lá não deu pra proibir, aqui não vai dar. Mas esses caras parecem ser daqueles tipos teimosos, que não aceitam perder milhões. Nós já vimos esse filme. Mas dono de gravadora não pode pedir ajuda pro governo quando perde grana. Sacanagem.

Some isso ao lobby que as grandes e velhas corporações farão contra a cultura do conteúdo livre na web e voilà – no Brasil, nós – usuários de internet – ainda teremos um longo caminho antes que os engravatados percebam que não podem lutar contra o inevitável.

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Doritos, a homofobia e a armadilha do preconceito

Assiste o vídeo. Te dou os 30 segundos.

Beleza. O que você achou? Pensa um pouco. Te dou mais 30.

A resposta mais preconceituosa que alguém pode dar para a pergunta “Você é homofóbico?” é “Claro que não, até tenho muitos amigos gays.” Porque caracteriza que a orientação sexual de alguém é uma informação importante para sua escolha de amigos e não-amigos. Denota que você acha que o homossexualismo a homossexualidade poderia de alguma forma influenciar a personalidade dele a ponto de vocês não poderem ser amigos só porque ele é gay – mas não, você é bom e misericordioso e não tem preconceito. Logo, “até tem alguns amigos gays”.

Por outro lado, a resposta a essa pergunta que denota menos preconceito poderia ser algo do tipo “claro que não. O cara mais burro e desagradável que eu conheço é gay”.

Todo mundo te olharia com uma cara esquisita, achando que você não entendeu a pergunta, daí você confirmaria e eles te achariam muito homofóbico. Você poderia continuar: o “segundo mais burro e desagradável, por sua vez, é heterossexual. Curiosamente, desconheço a orientação sexual da terceira pessoa mais burra e desagradável que conheço.” Daí alguns deles sairiam andando, outros te julgariam com olhares horríveis e você sairia caminhando com a consciência de que não tem, absolutamente, nenhum tipo de preconceito contra homossexuais.

Eu acredito no seguinte: essa propaganda tem sim um quê homofóbico. E reconhecer isso é caracterizar-se, infeliz e involuntariamente, como alguém ligeiramente preconceituoso (no mínimo). Não preconceituoso daquele jeito pejorativo e horrível – não significa que você deixa de se aproximar de gays por eles serem gays (ou então se aproxima de gays por eles serem gays, o que também denota alguma espécie de preconceito, a não ser que você também seja gay, porque aí é interesse mesmo).

Se preconceito é pré-conceito, é rotular e conceituar indivíduos que são únicos por definição a partir de uma característica qualquer que não diz 1/100 do que a pessoa é na verdade, então considerar essa propaganda homofóbica denota pelo menos dois pré-conceitos:

1. Você acha que todo gay gosta de YMCA.

2. Você acha que dançar YMCA é coisa de gay.

Eu por exemplo, acho que YMCA antes de tudo é uma música brega. Daí, logo de cara, poderia achar que ele está sendo zuado pelos amigos por dançar uma música brega. Plenamente plausível, embora dê margem pra discussão da Doritos criticando que o “ser diferente”, ou “gostar de brega”, é ruim, mas não entremos nessa hoje.

Vou dar um outro exemplo, que me foi sugerido pelo Gustavo Miranda.

Você é casado? Tem filhos?

Fui preconceituosa ao perguntar isso pra você? Claro que não, não é?

Então porque a Marta foi quando perguntou isso para o Kassab?

A questão aqui é que numa sociedade em que o preconceito é velado cria-se uma redoma em volta das minorias. As pessoas têm medo que manifestações contra essas minorias, manifestações que nem têm relação com a orientação ou a cor de pele, possam ser confundidas com preconceito só por estarem sendo direcionadas para um membro da minoria.

Amigo, aqui você é vítima da sua própria vontade de tratar todo mundo igual: se você se controla pra não dizer coisas pras pessoas por medo de ser considerado preconceituoso, então você está automaticamente tratando essas pessoas de maneira diferente só por causa da cor da pele delas, do quanto elas pesam ou do parceiro sexual delas.

Qualquer tipo de estereótipo pré-formado a respeito de qualquer pessoa é preconceito. Infelizmente. Ou seja, somos preconceituosos o tempo todo. Essa matéria, por exemplo:

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FOTO: Jairo treina de vestido rosa como castigo adotado por Roberto Fernandes

Você acha que existe preconceito na atitude do técnico? Porque ele considera que vestir um jogador com uma camisola feminina é algo que pode ser considerado vergonhoso? Porque caracterizá-lo assim é um “mico”?

Não tô dizendo nada, até porque são perguntas pras quais não sei a resposta. A própria ingenuidade do técnico em fazer algo assim sem esperar retaliações já pode denotar total ausência de preconceito – lembre-se, quem não deve, não teme. Mas viver num país em que assumir intolerância é intolerável, mas em cujo a discriminação se faz presente em vários níveis da sociedade, demanda que você dê toda atenção pra questões delicadas assim e realmente analise as reações que tem diante desse tipo de coisa. O preconceito é uma armadilha na qual é muito fácil de cair, especialmente porque alguns indivíduos de determinadas minorias, acostumados a sofrer preconceito, se aproveitam disso para criar situações que eu chamo de “só porque eu sou _________” (insira aqui qualquer classe que sofra preconceito, tipo “negro”, “gay”, “mulher”, “deficiente físico” etc).

Assim: existe preconceito na sociedade, fato. Quem sofre preconceito frequentemente encontra mais dificuldades e menos oportunidades, fato. Mas sempre tem o cara que culpa todas as desgraças da vida dele no preconceito que têm contra ele. Atribui tudo ao fato dele pertencer a determinado grupo que é excluído. Se você não gosta dele, é porque você é homofóbico. Se ele não conseguiu emprego, é porque a empresa não contrata negros. Se ele não tem namorada, é porque as mulheres só gostam de caras magros.

Esses indivíduos existem e só servem para fomentar a existência da tal redoma de imunidade das minorias. Se há uma  pessoa acha que tudo o que acontece com ela tem raiz no preconceito, então é melhor você fingir que gosta dela, mesmo que não goste e que isso não tenha nada a ver com a cor dela. Vai que ela o acusa de preconceito?

É um assunto delicado e muito específico – cada situação envolve milhares de variáveis. Mas o que quero concluir aqui é que na maioria dos casos a nossa cabeça é que está cheia de estereótipos e por isso enxerga o politicamente incorreto em tudo. Os preconceitos que a gente enxerga em um monte de relações são um espelho dos nossos próprios preconceitos. O medo de ser preconceituoso é tanto – por causa do tabu – que as pessoas acabam agindo diferente com as minorias mesmo sem perceber. E esse talvez seja o tipo de discriminação mais perigosa que existe – aquela que é tratada justamente como a ausência de discriminação.

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