29 de outubro de 2012 às 8h41
Todo mundo virou analista político – e isso é ótimo
Eu comecei a assistir Downton Abbey esse fim de semana, uma série inglesa que retrata as tramas de poder da aristocracia britânica do início do séc. 20. O recorte é a família e os criados de um nobre – acho que dá pra chamá-lo de nobre – de uma cidadezinha no interior da Inglaterra.
Com a maratona de 7 ou 8 episódios que vi, fui tomada pelo espírito inglês extremamente polido. Eles são super educados – até a maneira como tratam os empregados, e isso há mais de 100 anos, ainda é superior ao jeito que muita gente por aí fala com a diarista. Uma frase me marcou: a matriarca da família, interpretada pela Maggie Smith – que pra mim vai ser sempre a McGonagall – que tem aquele humor inglês de um sarcasmo quase cortante, encontrou a maneira mais elegante do mundo de dizer pra alguém: “você nunca está satisfeito com nada”.
Ela diz: “Me encanta a maneira como você sempre é capaz de enxergar algo que possa melhorar em todas as coisas.”
Então, pra não ser mal-educada, é isso que eu vou dizer pra alguns. Me encanta a maneira como vocês sempre são capazes de encontrar algo a ser melhorar em qualquer coisa. E eu estou falando de um aspecto muito específico das eleições no Brasil, que é algumas reclamações recorrentes de que “agora, todo mundo tem uma opinião pra dar sobre política”, ou “agora, todo mundo é analista político”.
Pois adivinha – todo mundo tem direito a ter uma opinião sobre política e a enunciá-la, felizmente. Além do mais, não é disso que a gente tem reclamado a vida inteira? De que o “povo brasileiro” é alienado, não é politizado, não se interessa por política, vota e não se lembra em quem votou, que só tem opinião sobre futebol… Eu credito isso às redes sociais, mas a gente – o brasileiro – está num momento de crescente politização. Acho até que a condenação dos mensaleiros pode ter restaurado nossa esperança com a política, de leve. Até quem não entende nada e repete opinião dos outros está se sentindo na obrigação e no direito de opinar. E acompanhada disso, vem a vontade de se informar, de ler opiniões que podem ser contrárias – e, quem sabe um dia, considerar a possibilidade de se questionar. Vale lembrar: duvide sempre.
Não tô falando daquelas opiniões escrotas e vazias, daquele povo que fica ofendendo quem votou na oposição ou de quem fica torcendo pra que os pŕoximos anos da cidade sejam horríveis só pra poder estar certo (aliás, que coisa horrível de se fazer). Me refiro a crescente tendência das pessoas em opinar sobre política, e não é só na internet, porque pessoalmente os papos envolvendo os candidatos também estão mais frequentes.
Mesmo com tanta abstinência nas eleições (em SP e em Santo André, pelo menos, girou nos 30%), o que é a maior prova que muita gente ainda prefere ficar longe da política, eu fico feliz que tenha tanta gente virando ‘analista político’. Na maioria dos casos, é melhor ter alguma opinião do que não ter nenhuma.
Mais uma coisa (editado): não estou falando de ativismo de sofá, tipo colocar o sobrenome “Guarani-Caiowá” no Facebook. Estou falando de sentir mais seguro, mais confortável e mais apto a discutir política em qualquer plataforma online e offline, e de fazer isso com mais frequência. Isso é importante e deveríamos estar comemorando o fato de que há tem mais gente fazendo isso.





























23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 





