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Das ideias super boas da humanidade: o reCAPTCHA

Captcha, pra quem não sabe, é o nome convencionado daquelas letras super esquisitas que você precisa digitar pela internet antes de clicar em um botão de ‘enviar’ e servem para provar para o sistema que você uma pessoa e não um robô. São tempos estranhos esse em que vivemos, quando se torna necessário digitar letrinhas pra provar que não somos robôs e, pior ainda, quando a gente não consegue ler a merda das letras e, portanto, pro sistema em questão somos indistinguíveis de um robô.

"humm... one e queporrtaescritoaqui?"

 

Quando eu falo “robô” aqui, acho que é necessário explicar para alguns usuários que estamos falando de softwares conhecidos como “bots”, e não de robôs de lata e circuitos tipo o Homem Bicentenário (infelizmente, já que esse é um grande personagem de Robin Williams). Só para ficar claro.

sei la como escreve

O sistema de Captcha mais famoso chama reCAPTCHA e – ADIVINHA! – é do Google. É gratuito e é só botar o código no seu software e o computador ligado à internet será capaz de verificar se está diante de um homem ou uma máquina. O que sempre me intrigou é que frequentemente esses Captchas do Google vêm com imagens realmente ilegíveis. Por “ilegíveis”, entenda algo na linha “eu não preciso usar óculos e mesmo assim não faço ideia do que está escrito aqui’. Além da clara falta de praticidade de um sistema assim, o mais perturbador é pensar que se aquelas letrinhas estão ali, em um campo de verificação, o sistema precisa saber de verdade o que está escrito, claro, pra checar se você acertou. E se alguém foi capaz de ler uma palavra toda cagada e você não, bom, você começa a se questionar sobre a possibilidade de você ser, de fato, um robô.

Felizmente, eu descobri esse temor como sendo infundado depois de entrar no site do reCAPTCHA e ler como a parada funciona. E quer saber? Como quase tudo do Google, com exceção talvez do Google+ e do Google Nexus, há de ser parabenizado pela sua engenhosidade.

O reCAPTCHA atende a dois propósitos: além de servir como um eficiente repelente para robôs malandros que estejam tentando usar o computador dos humanos da casa na ausência dos últimos HEH, ele serve como uma ferramenta gratuita de crowdsourcing (se não souber o que é isso, você está com sorte hoje: escrevi em 2011 uma reportagem para o Link que explica crowdsourcing tintim por tintim) que ajuda na digitalização de manuscritos antigos. Isso explica outra coisa que me intrigava no ReCaptcha: eu era frequentemente confrontada com palavras que conhecia, em português ou outras línguas. Outros Captchas costumam exibir caracteres randômicos.

O método empregado pelo reCAPTCHA é simples, simples: ele exibe duas palavras escaneadas de livros e jornais antigos. O servidor conhece o significado de apenas uma delas – que é de fácil leitura e, portanto, o computador foi capaz de ler corretamente. Se você acertar essa, ele vai assumir que aquilo que você identificou na outra palavra da dupla está correto, e então usa seu conhecimento de ser humano para digitalizar literatura que já é patrimônio da humanidade. E o melhor: não é necessário pagar ninguém. É assim que o Google coloca a disposição dos usuários aquele monte de coisas no Google Books, ou edições antigas do New York Times. E também explica algumas palavras incompreensíveis – nem o software sabe a resposta pra elas. Ele vai simplesmente tomar o que você disse como verdadeiro!

Com o esforço de milhões de usuários que usam o reCAPTCHA diariamente em um monte de atividades corriqueiras na rede, são 200 milhões de palavras decifradas por dia – se cada usuário levar 10 segundos por palavra, o Google então se beneficia de 150 mil horas diárias de trabalho gratuito. Nada mal pra um monte de gente que precisa provar que não é um robô.

 

 

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Cowbird, uma plataforma pra contar histórias

Você lembra daquele projeto chamado We Feel Fine?

Eu escrevi uma matéria sobre ele no Link em abril de 2010. O We Feel Fine, em poucas palavras, é uma interface gráfica para o sentimento do mundo. Ele agrega palavras chaves em gráficos que dão uma ideia de como o mundo está se sentindo em determinado momento. O resultado é fantástico, graficamente e conceitualmente. Você pode filtrar por gênero, nacionalidade, idade, datas – e pode saber, por exemplo, como os EUA se sentiu no dia 2 de maio de 2011, no dia segunte ao anúncio da morte de Bin Laden: nessa data, as pessoas os EUA se sentiram 6 vezes mais sortudas do que o normal.

Um dos criadores do We Feel Fine, Jonathan Harris, aparentemente guardou meu e-mail e me incluiu hoje nos destinatários pros quais ele enviou o endereço do seu novo projeto, o Cowbird.

O Cowbird é um contador de histórias coletivo, que a plataforma chama de sagas. É pra organizar histórias e fazer jornalismo com crowdsourcing parecer lindo, bem editado. Dá pra incluir personagens, áudio, fotos, diálogos. Você cria uma saga e observa ela se desenvolver, à medida em que as pessoas acrescentam suas impressões, seus diálogos, as fotos que tiraram. Eu sei: “e no que isso se difere de um blog?”

Olha, de cara, em algumas coisas. Mas eu acho de verdade que é preciso entender uma coisa sobre a internet – talvez você não tenha percebido ainda, mas as ideias inovadoras da última década são consideradas grandes porque mudam a maneira como a informação é organizada pra gente e como a gente mostra essa informação pros outros. O que as pessoas compartilham não é o que importa – o que importa é como. Em que dispositivos, com que roupagem, com qual interface. É esse tipo de coisa que muda paradigmas.

Imagina usar o Cowbird pra uma cobertura coletiva nas revoluções no oriente médio? Durante uma tragédia natural? Durante uma eleição?

No Cowbird, você pode olhar a história do ponto de vista dos personagens que ela tem, dos lugares em que ela aconteceu ou das histórias que ela gerou, entre outras muitas coisas muito legais. Serve até pra fazer um diário muito foda da história da sua (da minha, da nossa) vida. No site, uma das descrições diz que o projeto é a primeira biblioteca pública sobre experiências humanas.

O Cowbird por enquanto está em beta e só funciona com convite. Eu já pedi o meu, já que adoro contar umas histórias e tal. A saga-teste que está sendo contada no Cowbird se chama Occupy e é sobre, obviamente, o movimento Occupy nos EUA.

É tipo o próximo passo pro que fez o The Guardian recentemente. O jornal anunciou que ia ‘abrir’ sua reunião de pauta pros leitores, isso é, publicar no início do dia as sugestões de pauta e esperar que o parecer do público agregasse informações relevantes pro encaminhamento dos temas. O que o Cowbird faz é justamente trazer uma edição profissional, visualmente interessante e enriquecedora, pro que já vem acontecendo no mundo há um tempo: as coberturas espontâneas, descentralizadas, ricas, feitas por gente normal, do que acontece no mundo. Como deveria ser, é uma maneira de mostrar cada vez mais lados de uma história em um lugar só.

Enquanto isso, em uma vibe que vem direto dos anos 1900, tem gente que acha a discussão sobre a obrigatoriedade do diploma super relevante. Tsc.

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E o Qwiki, você conhece?

Que Google e Wikipedia, que nada. O jeito mais legal de descobrir coisas hoje se chama Qwiki.

Quik

O que faz do leite uma alegria?

Não é desse Quik que eu to falando, muito embora esse tenha um significado muito maior pra mim. Só o cheiro já me lembra a minha mais tenra infância. De todo modo falo do Qwiki, que como o Murilo, violeiro de mão cheia, bem explicou nesse post lá no Link, é aposta até do Eduardo Saverin, o brasileiro que é sócio do Facebook.

Felismente, O Qwiki não é mais uma rede social, não é mais uma ferramenta de geolocalização ou um microblog. Trata-se de um sistema de busca que exibe os resultados de uma maneira muito mais amigável e multimídia, usando para isso conteúdo aberto, um gerador de vídeos e uma tecnologia de simulação de voz humana que deixaria o mais simpática PABX de SAC ao telefone completamente desconcertado, se sentindo um robô sem emoção. Microsoft Sam chora ao ouvir a moça do Qwiki contando histórias.

O Qwiki, aliás, é bem isso: um buscador que conta histórias. Olha aí um exemplo legal:

E bastou digitar NETHERLANDS no campo de busca para que o Qwiki retornasse com esse vídeo, que aliás é perfeitamente embedável. Aí você diz – mas Bial, eu não falo inglês, não entendo porra nenhuma do que essa mulher fala! E eu respondo: amigo, se a essa altura do campeonato você não fala inglês, corre atrás do prejuízo. E respondo também: mas tudo bem, você entendeu a lógica do negócio e entendeu que isso seria muito, muito legal se tivesse uma versão em português.

Os verbetes são bem variados, mas por enquanto as buscas funcionam melhor para nomes de pessoas e de lugares, acontecimentos importantes, instituições de grande prestígio, além de coisas importantes, tipo… cerveja. Eu já migrei pro Qwiki quando preciso de uma definição rápida de um lugar. O importante é ter em mente que toda e qualquer coisa cuja Wikipedia apresentar uma boa definição a respeito estará em um vídeo detalhado no Qwiki.

Enquanto você pensa em como a aquisição de conhecimento pode se tornar uma coisa mais simples e divertida se iniciativas como o Qwiki se tornarem padrão na internet, e faz apostas de quanto tempo vai demorar para que o Google compre e implemente a tecnologia do Qwiki em suas buscas, conheça um pouco mais sobre o bacon, um oferecimento Qwiki. Escolhi o bacon por ser algo que quase todo mundo gosta.

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O mundo, os hackers e o viquiliques


“Cuméquichama… viquiliques lácumé”

Todo mundo mantém em segredo alguma parcela da opinião que tem sobre os outros. Às vezes, porque os defeitos não importam muito quando a gente gosta do outro. Às vezes, porque sinceridade demais é indelicado e, às vezes, porque sua opinião simplesmente não foi requisitada.

Imagina só se, de repente, todas as nossas opiniões desimportantes e um pouco críticas sobre os outros, aquelas que a gente diplomaticamente mantém em segredo pra garantir bom convívio social e sobrevivência, de alguma maneira viessem a tona? Consegue imaginar o casos? Provavelmente não sobraria ninguém gostando de ninguém. Seria um mundo repleto de rancor, fofocas, despeito e vingança.

O mundo diplomático está passando por uma crise parecida com essa aí por causa de um maluco chamado Julian Assange, um cara que criou um site – o Wikileaks, para quem ainda não fez a ligação, o Viquiliques, para o presidente – para onde qualquer um pode mandar documentos confidenciais, aqueles segredos de estado top secret. Pela primeira vez na história, as pessoas que definem como são as relações entre os países, e portanto, definem se estaremos vivos ou se seremos atingidos por um míssil nuclear na semana que vem, precisam tomar cuidado com o que dizem.

Elas não estão acostumadas a isso, e eu não as culpo; ninguém está. No lugar delas, eu também gostaria de ver o responsável por isso morto. No meu lugar, eu acho tudo muito engraçado e revolucionário (desde que não chegue na parte que envolve os mísseis nucleares).

A parte ruim é que estão querendo encurralar o pobre do Julian Assange (é o cara que criou o site, gente).

Jornalista só se fode

Acusaram-no de estupro lá na Suécia. Acabou que o crime foi não usar camisinha com duas mulheres com quem ele se relacionou em uma semana (a maior prova que ter um site famoso faz você comer mais gente), e isso pode ser considerado uma espécie de assédio sexual de menor intensidade lá na Suécia. Pra começar, se vira moda isso ser crime, eu não quero nem pensar no que aconteceria. Em segundo, a moça que o acusou tem ligações com a CIA e não é a primeira vez que trabalha para a organização nessa história de incriminar alguém sexualmente. Em terceiro, colocar a INTERPOL atrás de um cara porque ele transou sem camisinha, novamente, abre uma jurisprudência perigosa.

Julian não cometeu crime nenhum. Ele divulga documentos liberados por informantes – não é que ele invade os escritórios e rouba papéis das pastas -, trabalha em conjunto com grandes jornais como o El País e o The New York Times, que o ajudam a checar a veracidade das informações que recebe e divulgou, na metade do ano, crimes de guerra importantes cometidos pelos EUA no Iraque.

E a cruzada contra ele é GERAL. Da Amazon à Visa, todos estão tentando impedir que o cara continue fazendo o que faz, e ele já se entregou pelos crimes dos quais é acusado na Suécia (RISOS, CRIME, RISOS). E como mencionou o copanhêro lá em cima, são todas formas de mascarar violações severas da liberdade de expressão.

Ainda bem que podemos contar com o submundo da internet para garantir que nossos direitos não sejam cerceados. Há uma CYBERGUERRA em andamento, agora: um grupo organizado de ativistas hackers está focando as organizações que boicotaram deliberadamente o Wikileaks e provocando ataques organizados contra os sites dessas empresas. Mastercard e Visa já caíram; Paypal é o próximo alvo.

Julian Assange não é ingênuo – provavelmente, em algum momento nas últimas semanas depois do cablegate, ele soube que DEU MERDA. Por isso, se eu (que sou menos inteligente) estivesse no lugar dele, a essa hora já teria criado centenas de mirrors (cópias online) do Wikileaks, (QUER DIZER, http://213.251.145.96/mirrors.html, obrigada @felds) além de orientar algumas outras pessoas para que elas continuassem recebendo os documentos enviados pelos informantes. Se eu estiver certa, a treta felizmente está longe de acabar.

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Os homens, as máquinas e os óculos de sol

Chilli Beans lança máquina de venda semelhante às de refrigerante

Essas medidas que apontam para uma gradativa substituição do homem pelas máquinas são sempre preocupantes, mas no caso da Chiili Beans pode causar um problema social grande nos círculos descolados. A Chilli Beans tem uma função social importante, que é a de empregar todas as pessoas cheias de tatuagens, piercings e alargadores, que não conseguiriam emprego em quase nenhum outro lugar além de a Chilli Beans e um estúdio de tatuagens, piercings e alargadores.

Além disso, ela também preenche a função de ser a empresa que emprega estudantes de moda que ainda não conseguiram um emprego na área (mas que, trabalhando na Chilli Beans, podem dizer que trabalham “na área”) e de empresas que empregam gente que fala usando as mesmas gírias e cadência do Paulo Vilhena e de artistas da Malhação.

As consequências econômicas da implantação em larga escala dessas máquinas de óculos serão desastrosas. Os festivais descolados vão perder público, bem como as marcas hypados. É possível que a blogosfera e o Twitter cresçam, contudo, meio a essa desocupação generalizada de gente descolada. Mas a crise econômica que essa medida irresponsável pode gerar na região do baixo-Augusta é sem precedentes; só um Bolsa Descolados poderia resolver.

Pelo menos, ao comprar óculos nessas máquinas, você não vai ser abordado de maneira invasiva por um vendedor jovem e cheio de disposição que parece que está sob efeito de ecstasy de tão animado de trabalhar na Chilli Beans, que quer muito saber se o “óculos é pra você mesmo, brother?” E a máquina, se você resolver comprar um óculos pra sua namorada, certamente não vai mandar um “Pô, mas que tipo de lupa sua mina curte, você acha que é algo mais moderno? Chegou uma coleção nova aqui irada, viu!”, ou então te oferecer dezenas de cases coloridos para óculos, pintados como uma banana ou como uma melancia, além de relógios, bonés, mochilas, sprays de limpar lentes e essa coisa toda.


Isso tudo considerando que o software que opera as máquinas da Chilli Beans não tenha sido inspirado no animado computador de bordo da nave Coração de Ouro, cujo entusiasmo irritante fica claro no fim do vídeo acima.

A máquina de óculos provavelmente não vai fazer todas essas coisas que eu falei. Mas a Funhouse vai precisar abaixar o preço da entrada.

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Como medir a felicidade do mundo através da internet

Ontem, me apresentaram um jeito de medir a felicidade do mundo através da internet. O WeFeelFine.org, que parece ser uma novidade antiga mas da qual eu nunca tinha ouvido falar, tem como objetivo agregar todas as manifestações em blogs que contém o trecho ‘I feel’. A partir daí, o sistema tem como mostrar gráficos de como as pessoas estão se sentindo agora.

É uma pena que ele só monitore os textos em inglês. Ou seja, é um resultado um pouco distorcido da felicidade no mundo: é a felicidade só daqueles que falam inglês. E quem fala inglês deve ser um pouco mais feliz do que o resto do mundo. Ou não. Mas enfim.

WeFeelFine.org

Mas o mais legal é a interface da parada. O WeFeelFine disponibiliza 6 jeitos de navegar pelas mensagens das pessoas. O primeiro deles, chamado Madness, mostra um monte de bolinhas e quadradinhos malucos flutuantes (igual ai em cima. Cada um deles representa um post, uma foto, uma twittada – daí você clica e lê. E se você clicar em um lugar vazio da tela, as bolinhas todas começam a se aglomerar ali. Sério, dá pra brincar a tarde inteira. Tem também outros jeitos de visualizar, menos divertidos, mas tão bonitos quanto.

Mas falemos agora de como o mundo está. Na maioria das vezes, me parece que o mundo se sente BETTER, ou seja, a coisa tá ficando melhor. Pena que em segundo vem o BAD, mas é normal – normalmente, se a gente se sente bem não fala sobre isso na internet. Só vai reclamar se tá com problema. Ok, depois vem o GOOD e o RIGHT, que também denotam bons auspícios. Mas dá pra filtrar por todas as palavras possíveis. Eu encontrei várias pessoas que se sentiram ou se sentem ABDUZIDAS, ACELERADAS, RADIOATIVAS e até LÂNGUIDAS, que em inglês tem uma palavra muito mais legal: lackadaisical.

O legal é poder checar as mudanças nos gráficos diante de grandes tragédias. Daí a gente vai poder confirmar se o WeFeelFine é um retrato da felicidade do mundo ou um buscador que mais parece um joguinho.

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O Twitter precisou cair pra eu me tocar do verdadeiro barato dele

Eu sei que o Twitter não é uma ferramenta exatamente utilizada por todos os leitores do meu blog. E nem os culpo. Não acho que ninguém é obrigado a ter perfil em nenhuma rede social. No máximo, acho que precisa saber o que é e como funciona – tipo conhecimentos gerais. Assim como é preciso saber o que tá acontecendo com o Sarney e o que são atos secretos. Conhecimentos gerais.

Como nem todo mundo usa, sei que nem todo mundo ficou solitário essa manhã com a queda do sistema. O Twitter está a manhã toda fora do ar. O blog oficial da ferramenta diz que eles estão sofrendo um ataque de Denial-of-service, que aparentemente significa que alguém ou um grupo força um número descomunal de acessos ao servidor para que ele não aguente e caia.

E aí eu entendi.

Entendi porque é que o Twitter vicia tanto, porque a gente sente tanta falta quando ele se vai depois que tá acostumado com ele. É porque se você está usando o Twitter, a sensação é de que você está sempre acompanhado por um monte de gente. Com o Twitter subindo toda hora ali na barrinha do lado direito, você nunca está sozinho. Sempre tem alguém ali, falando algo. E você sempre vai ter alguém pra te escutar.

Não se trata de velocidade, de número reduzido de caracteres. Se trata de suprir, ainda que de forma ilusória, a vontade de ter gente ao redor mesmo não tendo. Como diz aquele vídeo supimpa, é como se você estivesse trocando ideia com seus amigos o tempo todo. Aliás, pra quem não viu, segura aí que vale a pena:

Talvez isso represente o fim da privacidade, a instituição da teletela que Orwell previu. Talvez o Twitter só tenha feito sucesso porque estamos numa era em que as relações estão decadentes, as intituições familiares são deterioridadas, todo mundo tem problemas psicológicos e de relacionamento.

O meu grande medo é que a gente esqueça o valor de estar sozinho. Porque ficar sozinho às vezes é muito bom. É necessário inclusive pra auto-conhecimento, pra poder avaliar a vida e as ações, essas coisas. A gente precisa ficar sozinho às vezes. E se você usa Twitter, na frente do computador não está mais sozinho. Ao menos não se sente assim.

Fora que, focado nos seus amigos na internet, é muito possível que você não repare nas pessoas que estão, de verdade (fisicamente), em volta de você. Ou não é muito fácil imergir no PC, no trabalho, e viver naquele mundo divertido que envolve seu Twitter e as coisas que são faladas lá, em vez de falar besteira com teus amigos ao redor?

Quem nunca esteve rodeado de gente e ainda assim se sentiu sozinho? Pois é – o Twitter é o inverso disso. Mesmo que totalmente sozinho, você se sente rodeado de gente. E eu me senti idiota por me sentir sozinha esta manhã.

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Sobre tatuagens bluetooth, Tarso e um futuro apocalíptico

Às vezes minha cabeça pára de funcionar. E não é quando eu durmo. É como se, atrapalhada pelo excesso de informação e principalmente preocupada pela quantidade enorme de coisas na lista de tarefas e obrigações praquele dia, a parte que se comunica do meu cérebro ficasse momentaneamente incapacitada de produzir.

Eu tô experimentando essa situação nesse momento, já que faz algumas linhas que venho tentando começar um texto sobre uma tatuagem bizarra sobre a qual li esses dias. É uma mistura de tatuagem de Harry Potter (elas se mexem) com chip futurista à là Tarso (clique para ampliar):

montagem

É uma tattoo de interface digital, implantada na pele via microcirurgia, que interage com Bluetooth e usa como energia pra funcionar o nosso próprio sangue, por um processo explicado bem por cima no link original. Sério. Ela tem interface touchscreen, mas não é touchscreen porque NÉ, não tem uma tela. Mas poderia ser touchskin, daria certinho e ainda rolaria um trocadilho maroto.

Não sei se essa parada funciona em seres humanos, se não é uma pegadinha de primeiro de abril, se dá câncer ou interfere no sinal do telefone-sem-fio. Na verdade, ainda estou meio chocada. Sei que depois que você tiver uma pode atender seu celular pela tatuagem. Ela pode exibir vídeos e fotos. Puxa, eu não me surpreenderia se ela tocasse música, tivesse 8GB de memória interna. Ela tem bluetooth! Daria até pra usar fone sem fio. Eu assistiria LOST no meu antebraço, e cara, o quão legal isso seria?

A gente fica discutindo aí a revolução do mobile, da música digital, como a internet vai mudar a maneira de fazer jornalismo… mas daqui a pouco a parada está debaixo da nossa pele e a gente nem vai precisar ser abduzido pra isso. A gente vai QUERER por essa parada debaixo da pele. Especialmente se for um modelo Apple.

É mesmo tão assustador e futurista e Jetsons-like quanto parece, e os Testemunhas de Jeová vão dizer que isso é a prova de que o Messias está chegando, e os evangélicos dirão que essa é a marca da Besta que será implantada em todos os pulsos das pessoas… tanto faz, é sempre a mesma coisa, mesmo. A questão é que está chegando uma era em que os profetas mendigos de rua vão começar a anunciar o apocalipse, e eu vou acreditar neles. Um era em que nos confudiremos com as máquinas. Em que nanorobôs viajarão pela nossa corrente sanguínea curando doenças e aquelas capas aparentemente fictícias da SuperInteressante farão sentido.

Pra mim, só interessa que inventem um dispositivo bluetooth que seja semelhante à penseira do Harry Potter – através de um botão na minha têmpora, eu transmitiria todo o excesso de dados para um cartão microSD localizado, digamos, na unha do meu polegar. Assim, talvez, eu conseguisse organizar meus pensamentos e ideias em pastas e minha mente não fosse essa bagunça. Com ou sem anúncio de apocalipse, aguardo por esse dia.

Por enquanto, fico com minha tatuagem analógica de Dr. Manhattan.

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#ForaSarney e a revolução com a bunda no sofá

Olha só, que alegria. O Irã entra pra história depois de usar o Twitter como principal ferramenta pra cobrir as manifestações contra a reeleição de Ahmadinejad. Coisa linda, a gente vivendo história, capa de todas as revistas.

Daê no Brasil a gente acha que tem poder porque emplaca um #chupa como Trending Topic (para leigos: palavras mais faladas) no Twitter. E porque recebeu uma resposta do Ahston Kutcher.

Como se não tivessem aprendido o suficiente depois da palhaçada que foi aquele MOVIMENTO CANSEI, algumas celebridades brasileiras que usam o Twitter acharam que a vida é fácil assim, e que poderiam usar O PODER DA INTERNET pra tirar o Sarney do Senado. Se você tá desinformado, resumo:

Gente famosa que tem Twitter, tipo o Christian Pior, o Marcos Mion e o Junior Lima supostamente se reuniram em um movimento pra fazer com que as pessoas no Brasil twitassem a palavra #forasarney e essa palavra entrasse também nos Trending Topics, como aconteceu com o #chupa.

Ok, então é o seguinte – eles perceberam no domingo, na partida contra os EUA, que os twitteiros brasileiros tinham força suficiente pra emplacar um trending topic e serem notados pelo Ashton Kutcher, a.k.a marido da Demi Moore, a.k.a Kelso, a.k.a @aplusk.

Até que pediram para que o Ashton Kutcher AJUDASSE, twittando o termo #forasarney e pedindo pra que os seguidores dele fizessem o mesmo. Ok, vamos fingir que isso não é patético. Estamos fingindo. Fingindo. Ainda bem que o próprio Ashton Kutcher não finge. Ele respondeu:

ashton_01

“Só VOCÊS tem o poder de tirar seu senador. É SEU país. Vocês têm que lutar pelo que VOCÊS acreditam. Eu não tenho voto”

O óbvio, que qualquer pessoa de bom-senso responderia na face da terra, mas que meia-dúzia de celebridades descabeçadas não enxergaram de primeira e precisaram que o Ashton Kutcher as lembrasse. FAIL. O Lucas fala de maneira majestosa sobre o showzinho das celebridades brasileiras neste post.

Acho que eles pensaram que esse negócio de internet é realmente revolucionário, que você pode fazer a revolução sem levantar sua bunda do sofá. Até eu que sou mais boba sei que não funciona assim, amiguinhos. Não é porque você coloca uma tag lá no topo de um site gringo que os governantes olham aquilo e dizem: “Oh! O povo brasileiro está realmente indignado e furioso. É melhor convencermos o Sarney a deixar o cargo.”

A cobertura e a revolução que o Irã provocou não foi fabulosa simplesmente porque aconteceu no Twitter, senhores famosos. Foi fabulosa porque o Twitter serviu como TRANSMISSOR de algo que estava NAS RUAS. Foi feita por pessoas, gente comum, e não VJs da MTV, cantores infanto-juvenis de moicano e apresentadores de programas dominicais. Aliás – foi feita também pelos VJs, pelos cantores, e apresentadores, mas os holofotes, eu garanto, estavam sobre o povo que se manifestava nas ruas pela recontagem nos votos. O Twitter revolucionou apenas a maneira de MOSTRAR isso pros outros.

Esse ‘movimento’ que eles chamaram de #forasarney entra no meu TOP 5 VERGONHA ALHEIA 2009.

Não esqueça: Sarney e a família dele estão em cargos públicos desde antes da gente, que usa o Twitter, NASCER. E desde aquele tempo eles são também donos de uma porção de veículos midiáticos. Isso não nos impede de derrubá-lo da presidência do senado, mas eu posso garantir que isso não será feito caso consigamos fazer um número muito grande pessoas escrever uma palavra em uma rede social.

Não sei vocês, mas eu gostaria muito que mudar o mundo fosse fácil assim. Emplacou um Trending Topic no Twitter, voilà. Já pensou? Teríamos evitado uma série de tragédias, ainda mais considerando a possibilidade de o Twitter existir antes, como cogitou o Huffington Post esses dias. Teriam possíveis #InquisiçãoNão, #ForaLuísXIV ou #DiretasJá evitado guerras ou contribuído para o triunfo de movimentos sociais?

Ou mesmo se houvesse a possibilidade de coberturas colaborativas em outras épocas, veríamos coisas como “#Auschwitz eu e minha família fomos encontrados no sotão por esses fdps da SS. Por favor, RT!” ou “#RevoluçãoFrancesa acabamos de derrubar a Bastilha!”?

Ok, teria sido engraçado. De qualquer forma, nesses casos – em todos eles, aliás – o Twitter teria eficácia. Porque ele estaria apenas reportando algo que estaria de fato acontecendo nas ruas. Mas se fosse algo do tipo “#CaiBastilha vamos acabar com essa palhaçada pessoal, RETWITTEM!“, well, os livros de história como conhecemos TALVEZ estivessem um pouco diferente hoje.

A revolução não será criada na internet – a internet só tem o poder de espalhá-la mais.

Infelizmente, leva um pouco mais do que Trending Topics pra fazer as coisas mudarem.

Baseada na lógica da simplicidade de mudar o mundo dos amigos famosos aí, o Danilo Gentili, andreense e pertinente como sempre </rimas>, soltou:

pazmundial

E eu aderi à causa, claro. Sou entusiasta da #PazMundial e não vejo jeito melhor de fazer essa benção ser instuída do que escrever essa tag no meu Twitter. Criei inclusive a #PazMundial DOS BROTHER. Obtive bastantes retweets com essa brincadeira – ou seja, usei o humor e fiz a minha parte para chegar mais perto da #PazMundial. AH! E também pedi para o Ashton Kutcher nos ajudar nessa, ou seja, segui todo o protocolo de revolução via Twitter. Quando alcançarmos a #PazMundial, poderei dizer – fiz a minha parte rumo à #PazMundial! Ainda não somos Trending Topic, mas eu sou brasileira e não desisto nunca da #PazMundial.

Editado: a pedidos, esclareço uma posição que temo que não tenha ficado clara no post pra algumas pessoas. Não sou contra o ‘movimento’ #ForaSarney no Twitter nem em lugar nenhum. Ser ‘contra’ não é a palavra correta aqui. Só acho que algumas celebridades engajadas nisso o estão fazendo de maneira oportunista e irresponsável, já que na minha opinião o objetivo real deles não é tirar o Sarney da presidência do Senado, e sim se promover. Acho legal quando a manifestação parte dos usuários do Twitter em si e endosso mais ainda o uso da tag como agregador de notícias sobre a causa em si, como fizeram Rafinha Bastos e Marcelo Tas

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Entenda o papel da internet, das redes sociais e do Twitter no cenário no Irã – e não vai ser chato, eu juro

A história de luta no Irã é complexa e data de vários séculos - acredite ou não, começou com a invasão do território pelo Império Otomano, em 1500 e alguma coisa. Sei muito pouco sobre o Irã, antigo império Persa, mas aprendi bastante desse pouco depois que li, há um mês, o fabuloso Persépolis, de uma moça chamada Marjane Satrapi.

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Esse é o livro – clica aqui pra comprar

Nós, ocidentais, sabemos muito-pouco-quase-nada sobre o Oriente. Achamos que é tudo deserto, camelos, Alah e burcas. Felizmente, assim como nós no Brasil somos um pouco mais do que criadores de macacos selvagens, o Irã tem uma longa, loooonga história de oposição política à ditadura islâmica, marcada por muito sangue misturado a, adivinhem, petróleo. Não vou dar aula de história aqui – leia o livro, vale a pena, é uma graphic novel: ou seja, quadrinhos, as edições encadernadas num livrão. A questão é que a polêmica da fraude da reeleição de Ahmadinejad está se tornando um case fantástico para mostrar o poder das novas mídias e isso me deixa estranhamente feliz.

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Os defensores da democracia lutam por ela naquele país há quarenta anos, sem esmorecer. Eles passaram por torturas, desaparecimentos, opressões semelhantes ou piores às que a gente passou aqui nos anos de ferro. A censura lá é brava, não há absolutamente liberdade de expressão, algo que pra gente do ocidente e que nasceu no fim dos anos 80 é inconcebível. E boa parte dos que continuam lutando e morrendo pela democracia (alguns, inclusive, pelo direito de não ter dogmas religiosos instituídos) são estudantes. A Universidade de Teerã, por exemplo, ficou cercada pelas forças nacionais na última semana.

Até aí, nada de novo. Jovens curtem essas paradas subversivas, essa é a história. Aqui a gente assiste Malhação, lá eles confrontam as forças nacionais, acontece. A coisa é – eles estão se organizando pelo Twitter. E de maneira brilhante, sem precedentes.

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O Twitter já foi usado de forma igualmente brilhante em coberturas de desastres, em outros casos de acusações de fraudes eleitorais e já mostrou que é uma ferramenta de valor incontestável nesse sentido. O governo iraniano, inclusive, tentou bloquear as conexões ao site, mas os usuários contornaram e usaram proxies. Depois, o governo bloqueou a busca pela tag que estava sendo usada pelos iranianos para cobrir os massacres e as repressões, #iranelection, e eles se organizaram e trocaram de tag (para #Teeran); e por último, mas não menos importante – os iranianos mobilizaram usuários do Twitter ao redor do mundo inteiro para que troquem a nacionalidade de seus perfis, todos, para Teeran, fuso horário +3:30 GMT.

Isso é para confundir os censores iranianos, que podem buscar os perfis de quem tem twittado com as tags em questão, e perseguir aqueles que se dizem de nacionalidade iraniana. MAS se todo mundo no mundo viver em Teeran, bem, talvez eles tenham dificuldade em identificar quem tá falando a verdade e quem não tá.

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Pela internet, os iranianos fizeram toda a cobertura que o governo impediu que a imprensa fizesse. Está tudo no Twitter, no Flickr, no YouTube. Só não vê quem não quer. E a partir do momento que os usuários fazem o tema se tornar relevante na internet, a mídia de todo o mundo passa a considerar o assunto pauta. Mesmo se não fosse. E começam a noticiar o conflito a partir das poucas, únicas fontes disponíveis – os twitteiros e flickeiros que estão nas ruas de Teerã relatando os fatos.

Tem censura de internet em outros lugares, também. A China é um exemplo. Mas na China não há conflitos tão longos, que envolvem questões econômicas, políticas e religiosas, não há o cenário de instabilidade política que o Irã tem agora, e há um crescimento econômico vertiginoso – tudo isso ‘amansa’ as pessoas. Quem me explicou essa parada foi o Pedro Dória, há duas semanas, numa entrevista que gravei com ele, por telefone, para o site do Link (mas que acabou não indo pro ar, infelizmente).

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A conclusão que eu chego, ajudada pela análise que ouvi do Dória na outra semana e por tudo que tenho lido sobre a questão iraniana: você não consegue bloquear a internet e impedir que os usuários se manifestem de forma satisfatória se o povo estiver economicamente insatisfeito e se você não tiver apoio das grandes empresas de internet. O Google, o Yahoo – todos se submeteram às regras da China. No Irã isso não aconteceu, os bloqueios foram governamentais, deliberados. Facilmente dribláveis, especialmentepor uma comunidade intelectual.

E o mais impressionante: através de uma ferramenta de uso extremamente simples, um grupo de oprimidos em um país lá no canto do planeta consegue mobilizar uma comunidade online local e, em segundo lugar, no mundo inteiro, em direção a uma causa. Unir ocidente e oriente, de certa forma – não totalmente, mas é uma união. E consegue mostrar para o mundo o que está acontecendo, não importa o quanto o governo daquele país tente esconder isso. Ver isso acontecendo, meu amigo, é revolucionário. Fazer parte disso, de alguma forma, é viver história. Espero que você esteja se dando conta disso nesse momento.

*Se eu escrevi alguma bobagem histórica, qualquer um de vocês é bem-vindo para me corrigir nos comentários.

**O blog do Pedro Dória tá cobrindo a treta no Irã com bem mais propriedade do que eu (observação óbvia). E o texto é leve também, exceto pelos nomes dos Aiatolás. Cola lá.

***O post tá ilustrado com trechos de Persépolis, o filme. Isso, aleatório mesmo. Também tem no Submarino.

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