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O lado escuro de Amsterdam (ou quase isso)

A aura de misticismo em torno de Amsterdam tem mesmo razão de ser, mas eu acho que não dá pra sentir isso se você visita a cidade por três ou quatro dias. Ir pra Amsterdam de onde eu moro, como eu já contei no post sobre o Queen’s Day, leva mais ou menos uma hora, entre ônibus e trem – o que é quase o mesmo esforço que eu tinha quando saia de Santo André pra SP, mas menor, porque pegar ônibus e trem aqui é quase prazeroso. Nos últimos dois meses, fui pra Amsterdam quase todos os finais de semana. E pra mim Amsterdam virou um daqueles lugares que, quanto mais você visita, mais você gosta.

Amsterdam é um lugar diferente. Pelas ruas, você quase não escuta holandês. Nesse fim de semana, inclusive, parece que a cidade foi invadida por brasileiros (deve ter sido o feriado) e eu e a Marcela escutamos português o tempo todo. Mas também muito italiano, e espanhol, e inglês. O lance é que Amsterdam tem esse equilíbrio bizarro entre uma cidade funcional, cheia de habitantes locais, e uma população flutuante imensa, todos os dias da semana.

Show no canal

OLHA A POPULAÇÃO FLUTUANTE IMENSA brinks. Isso é o que rola quando tem show nos canais.

E tem uma combinação de elementos completamente opostos, mas que por algum motivo, funciona. A Holanda é um país velho, e aqui as pessoas envelhecem com dignidade. Sério: saudáveis, com vida social, bem humoradas e educadas. Então não é anormal quando uma velhinha de andador cruza o Red Light District cumprimentando as FUNCIONÁRIAS, porque ela mora ali e conhece todo mundo, nem quando um senhor recusa o assento no tram porque prefere ficar de pé “com sua garota” – foi o que ele me disse.

A velhinha do Red Light District

Ela deu boa tarde a todas as moças da vitrine. Eu e a Ângela vimos

E aí a cada esquina tem uma loja que vende drogas. Não são só os coffee shops, que vendem maconha e haxixe, mas as smart shops, onde você pode comprar ervas alucinógenas de toda sorte, cogumelos, drogas sintetizadas legais, sementes. Sem contar os caras que te oferecem drogas ilegais na rua.

Por causa disso, se você observar as pessoas em Amsterdam, vai ver muita gente com o olho caído e vermelho pelas ruas, ou pessoas mais assustadoras, andando rápido e olhando pra trás, pálidas, suando muito, pupilas dilatadas. Tudo isso é comum por lá.

Amsterdam tem todo tipo de artista de rua, daquelas estátuas vivas até quem se veste de bichinho – tipo, sério, uma fantasia de coelhinho, de cachorrinho – ou com máscara do pânico, sei lá, e cobra pra tirar foto. Tem o cara que toca violino de maneira sublime e um tio sujo com chapéu pedindo moedas enquanto bate as mãos na corda do violão sem fazer acorde nenhum, que nem quando o seu sobrinho de três anos toca. E tem moedas no chapéu dele.

O mano do violino

Esse moço tocava violino bem, e o chapéu dele tava vazio :(

Mas também comum é o trânsito complicado. Gente, nada vai te assustar no quesito “trânsito de Amsterdam” se você vive em qualquer capital do Brasil, mas é que a cidade aqui tem outros PLAYERS. Os trams, cuja tradução mais próxima do português seria o “bondinho”, mas que se parecem mais com metrôs de superfície, correm por trilhos que muitas vezes cortam calçadões turísticos. Têm as bicicletas, que podem vir de vários lados, e os carros – especialmente os táxis, que guiam como malucos pra cima do turistas. Ah, e os canais, que muitas vezes não contam com barreiras na calçada.

O saldo é uma cidade cheia de gente com a percepção alterada, tentando atravessar a rua tendo que olhar pra cinco lados, sem esquecer que também não pode correr e cair na água, ou se distrair com a estátua viva, ou com uma mulher que de tão magra parecia uma caveira (ela certamente era doente), que tinha a coxa mais próxima de um fêmur que eu já vi em uma pessoa que anda e pra completar o cenário carregava um fuzil de plástico em tamanho real junto com a bolsa.

E o que você mais vai ver em Amsterdam é gente sendo salva de ser atropelada por um tram ou uma bike no último segundo segundo. Adrenalina e tal, turismo de aventura.

A host da Marcela é cirurgiã, e nos descortinou o lado negro dessa combinação. O trabalho dela é consertar gente que acaba vítima dos encantos de Amsterdam de algum jeito, desde os que engolem cápsula de cocaína pra traficar droga pra fora do país, até os que se jogam da sacada, bem loucos de de cogumelo, ou quem quebra a perna porque caiu no canal chapado. Na madrugada desse sábado, ela trabalhou a noite inteira.

Com tudo isso, Amsterdam ainda é uma cidade que não te dá, de jeito nenhum, uma sensação de insegurança. Toda a região central, bem pequena pros padrões paulistanos, é bem segura pra qualquer um, acompanhado ou não, caminhar a noite. Não significa que você não vai ver nóias, mas por algum motivo os nóias não incomodam.

Vondelpark

Vondelpark, que é lindo e seguro, mas onde não é bom de andar a noite, dizem - mano, óbvio, é um parque. Mata densa e tal.

E ainda que você vire a esquina e veja uma porção de homens afoitos em corredores do Red Light tão estreitos que fariam aquelas da favela parecerem bem confortáveis, você vira na próxima esquina e tem um maestro em cima de um ponto de ônibus regendo um coral de velhinhos na sacada de um teatro.

Em frente à Dam

Ele parou a rua - e alguns turistas ficavam maravilhados e começavam a tirar fotos e se esqueciam do tram, bem atrás do ponto. Eu salvei uma fotógrafa, juro

É essa dicotomia que dá a Amsterdam essa aura mágica – não é per se o fato de ter um casal de 65 anos fumando maconha no ponto de ônibus ou de você poder olhar prostitutas com lingerie que brilham na luz negra em uma vitrine. É justamente que haja todo o resto: as orquestras nos canais e os corais da terceira idade, as galerias de arte, as pessoas que vivem e trabalham ali, e que tudo conviva em relativa harmonia.

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Ah, Budapeste

Quem leu o livro do Chico Buarque já sabe, mas Budapeste tem esse nome porque é formada por duas cidades: Buda, do lado esquerdo do Danúbio (que os húngaros chamam de Duna) e Peste, do lado direito. Na verdade, há um terceiro distrito, Obuda, a parte velha de Buda, que se une aos outros dois pra formar o que é a moderna Budapeste.

Os húngaros, coitados, sofrem de crise de identidade. A primeira coisa que deveria chamar sua atenção quando você pisa na Hungria é que o nome do país, aquele pelo qual os húngaros mesmo o chamam, não é Hungria. É Magyarország. Por razões óbvias, vamos ficar com Hungria mesmo – a verdade é que os Magyar (a tribo que deu origem ao povo húngaro) foi confundida com os Hunos (do Átila), e aí fora do país deram o nome de Hungria. E assim ficou.

Ruas e prédios

Também foi de Chico Buarque a frase ‘O húngaro é a única língua que o diabo respeita’. E dá pra entender, também quando você pisa no país. Foi a única vez em todas as minhas viagens em que não era possível entender nada, nem inferir, por associação, nenhuma palavra que eu lia nas placas, nos banners em lojas, nas bancas de jornal. Mesmo na Grécia e em Praga deu pra se virar com leitura de placas; na primeira, porque se você se esforça pra aprender aquele alfabeto, não é tão difícil, e uma vez que consegue ler o que tá escrito algumas palavras são identificáveis. E a segunda porque o Tcheco, por algum motivo, tem algumas palavras com a mesma origem do inglês ou do latim, e muita coisa nos bares e nas ruas é escrito em inglês.

Estação de trem

Não em Budapeste.

A língua é uma barreira porque é impossível pronunciar o nome dos lugares onde você quer ir, por exemplo. E na capital a maioria dos húngaros não parece falar inglês. Só que eles não fazem disso um problema ou uma desculpa pra maltratar turista. Todos os húngaros pra quem eu pedi informação, falantes de inglês ou não, se desdobraram pra me ajudar – desenharam mapa, apontaram, o diabo a quatro.

Budapeste, como também disse o Chico, é amarela. O Danúbio, que de cara inspira bem mais respeito do que o Sena ou o Tâmisa, é amarelinho. É ele quem separa a cidade medieval, com suas ruelas emaranhadas de paralelepípedos, ladeiras, árvores e castelos, da cidade moderna, com avenidas paralelas, prédios de arquitetura neoclássica e comunista, transporte público bom e barato, o segundo metrô mais antigo do mundo, McDonalds e Burger King.

Vista de Budapeste

Centro

Budapest, pelos húngaros, é pronunciada assim com o “s” chiado, igual ao de um carioca, e o “t” mudo. E eles fazem questão de ressaltar essa pronúncia, mesmo se estiverem conversando em inglês com você, o que é raro. Quer dizer, quando você fala pra um gringo “I’m from Brazil”, você pronuncia “Brazil” do jeito deles, não do seu.

Os húngaros foram oprimidos pelos turcos, pelos otomanos (minha tribo primitiva preferida. Certamente era um monte de maluco da periferia e tal), pelos alemães, pelos russos. Eles perderam praticamente todas as guerras em que estiveram envolvidos. Hoje, são a parte pobre da cisão do que era o império Austro-Húngaro. A desigualdade social, especialmente fora da capital, é grande. E não deve ser legal passar por isso especialmente se a gente considerar a situação da Áustria, que tá numa boa com seus bons drink.

Mas nem tudo podia ser ruim pra eles, sabe. A cidade não foi só abençoada com o Danúbio, as colinas hipnotizantes, o castelo, a arquitetura incrível ou o povo gentil. TEM MAIS: Budapeste fica sobre uma das maiores fontes termais da Europa. E quando os Turcos chegaram lá, há mais de 500 anos, eles acharam que fazia sentido instalar em um lugar desses suas famosas cadas de banho. Hoje, os banhos são parte da cultura de Budapeste, e sinceramente, é o tipo de coisa que você precisa fazer se for pra lá. Eu NUNCA ACHEI que podia ficar seis horas dentro de uma piscina quente com cheiro de enxofre e ainda me sentir muito, muito bem depois disso. Sem contar a arquitetura do lugar, fantástica – as piscinas e o prédio foram construídos por turcos em 1500 e qualquer coisa.

Rudas Bath, o banho termal que eu visitei

E Budapeste, ao contrário de muitas capitais europeias, não dorme. A qualquer dia da semana, a qualquer hora do dia e da noite, dá pra encontrar gente na rua, um mercadinho aberto, um bar tocando música. E acho que isso conclui, junto com a cerveja de um euro e o vinho de 80 centavos, os motivos pelos quais Budapeste foi minha cidade preferida. Entre todas.

Ficou com vontade de ir?

Eu apoio. E ainda dou umas dicas…

Budapest card
Um cartão que dá direito a transporte público de graça, descontos em atrações turísticas e restaurantes, em museus e nos banhos termais. Tem versões pra um, dois e três dias e realmente vale a pena se você for ficar lá pouco tempo e quiser fazer bastante coisa. Você pode comprar direto no site.

Hostel Casa de La Musica
Casa de la música

Foi aí que eu fiquei a maioria dos dias e foi o melhor custo-benefício da minha viagem. É uma escola de música, centro cultural e tem um bar e um bar-restaurante. É barato – algumas noites saíram por 6 euros! -, bonito e muito limpo, fica no centro, de fácil acesso ao metrô. Tem café da manhã quente e frio, por 4 e 3 euros, respectivamente, cozinha, chá e café a vontade e Wi-Fi na sala comum. E uma piscina inflável, que eu suponho, só deve ficar lá no verão.

Maria Hostel
Caído, sujo e aparentemente serve como residência estudantil, além de hostel. Parece bastante uma escola. Mas tem quartos exclusivos, single, por 17 euros.

Metrô
É o segundo mais antigo do mundo (só perde pro de Londres), e funciona bem, apesar dos trens antigos. O bilhete custa 1 euro. Os metrôs não tem catracas, mas o que eu mais vi foi fiscal multando turista, inclusive aqueles desavisados, que tinham bilhete mas não os validaram na máquina antes da escada rolante. Sério, acho que rola uma indústria da multa de pobres turistas que não podem ler húngaro, porque se a pessoa tem o bilhete e é turista, compreende-se se ela não soube validar, até porque não tem aviso nenhum em inglês.

Táxi
Baratos – uma corrida do centro de Peste a Buda não passou de 1200 forints – mas pelo que eu entendi, vão te sacanear. Se possível, peça direto do hotel/hostel, ou ligue para uma companhia. A maioria dos taxistas não fala nada de inglês.

Free tour
Como toda cidade europeia, Budapeste tem um free tour, isso é, um tour guiado que não funciona com valor fixo, só com gorjetas no final. Achei o de Budapeste historicamente meio raso, mas é ótimo pra quem quer ir mais fundo na cidade – as guias são húngaras e, se você perguntar pra elas no final, consegue dicas excelentes de lugares pra sair e pra comer. Pra saber os horários e de onde os tours saem, visite o site oficial. A mesma companhia também faz um tours (esse pago) do castelo, mas eu não fiz, então não saberia dizer se é bom ou ruim.

Banhos termais
A maioria dos banhos termais turísticos está ao longo do Danúbio, do lado de Buda. Eles custam, em média, 3 mil forints (ou uns 12 euros), mas saem mais barato com o Budapest Card. Uma coisa importante é checar a modalidade de banho que vai rolar no dia em que você pretende ir, pras coisas não ficarem esquisitas. Tem dia de banho misto, dia de banho só de homem ou só de mulher, dia de banho com ou sem roupa. Ah, leve uma toalha.

Outras coisas que você deve saber

  • Utca., que você vai ver bastante, é ‘rua’. E se pronuncia ‘útça’.
  • Um monte de húngaros se chama Gábor ou Lazlo, e na Hungria, meu nome seria Freitas Ana Paula – eles escrevem o sobrenome primeiro.
  • Palinka é a bebida oficial húngara. É feita de ameixas, principalmente, mas eu tomei uma de maçã. Possui modestos 40% a 70% de álcool na composição, por isso É BOM FICAR LIGADINHO nas consequências do consumo excessivo.
  • Os húngaros comem bastante sopa, batata e schnitzel, tipo um filé de carne de porco empanado.
  • Eles tem um calendário – não me pergunte como ele funciona – que diz que cada nome, dependendo da letra com a qual começa, tem uma semana de aniversário.
  • Cortar o cabelo é barato (pros padrões europeus) e tem um salão a cada esquina no centro.
  • O Mercado Municipal, apesar de ser listado como uma das atrações a se conferir, não é nada além de um… mercado municipal. O prédio é bonito, mas se você já viu o mercadão de SP, nada ali vai te surpreender. Vale se você quiser comprar linguiça tradicional húngara, ou mostarda, que são boas e baratas. Ah, também vende Foie Gras a preços atraentes.

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Viajando de graça (e comendo comida do lixo)

Nesse tempo na Europa, percebi que dá pra viajar baratinho por aqui – e em qualquer lugar – se planejando com alguma antecedência e sendo uma pessoa, hum, simples. Com as companhias aéreas low cost e as passagens de ônibus, dá pra cruzar distâncias longas com 30, 50 euros. As passagens noturnas de trem te economizam na hospedagem. Tem os hostels, que no leste oferecem uma cama honesta e, às vezes, café da manhã tipo hotel, por uns 15 euros. E se você não for comer naqueles lugares que são claramente pra turistas e procurar os restaurantes e cantinas em que os locais fazem as refeições, bom, dá pra passar o dia com 25, 20 euros numa boa em alguns países.

Claro que você vai passar por coisas tipo ninguém falar inglês no restaurante e não ter um menu em inglês, ou você chegar de noite e ter alguém na sua cama no dormitório, ou dormir em um cubículo chacoalhante de 6 metros quadrados num trem de 15 horas onde se acomodam 6 pessoas em bancos que viram leitos. Mas foi por isso que eu mencionei o termo ‘pessoa simples’ lá em cima: é que precisa estar disposto a algum nível de aventura. Quem não tá, e pode pagar a mais pelo conforto, contrata uma agência de viagem. Mas também viaja sem surpresa.

Esse só tem três leitos, mas coloque mais três do lado direito pra ter uma ideia

E bem, é duplamente divertido viajar sozinha e em baixo custo. As coisas são bem mais espontâneas, apesar de um planejamento inicial ser necessário pra manter o budget baixo. Você conhece bem mais gente sozinho, e não precisa entrar em uma discussão só porque metade do grupo quer ir ver o museu e a outra metade quer ir ver a estátua. Não corre o risco de brigar com seu melhor amigo, o que é frequente, já que os melhores amigos na terra natal podem se tornar as piores companhias do mundo pra viajar se os dois não estiverem no mesmo ritmo. E com menos bagagem e menos roupa, você viaja mais confortável, carregando menos peso e fica mais livre. Principalmente, se questiona sobre o que é realmente essencial pra viver bem.

Mas esses clichês existencialistas não são a questão aqui. A questão é que eu fiquei sabendo, durante meu último mochilão, que tem gente que viaja o mundo de graça. Eu passei pela Grécia, pela Romênia, pela Hungria e terminei na República Tcheca. Também a propósito, Budapeste foi minha preferida, de longe, mas isso fica em outro post.

Não se trata daquela história BE A TRAVEL WRITER AND TRAVEL THE WORLD FOR FREE, que né, isso aí não funciona exatamente assim. As técnicas pra quem viaja de graça não são nada sofisticadas, e embora não sejam o créu, exigem disposição e habilidade.

Desculpe. Meu humor piorou muito aqui na Holanda.

De todo modo, na Romênia surfamos no mesmo couch eu e um espanhol chamado Guillermo, um professor de matemática barbudo e de cabelo comprido, com uns dentinhos bem brancos, que não devia ter 30 anos. No fim, passamos só uma noite no mesmo apartamento: cheguei e ele se foi na manhã seguinte. Mas conversamos bastante. Os papos de couchsurfers são sempre os mesmos, na verdade – idiomas, costumes, comida, viagens. Geralmente é isso, ao menos no começo. E eu não tô reclamando.

Daí que os hosts tão querendo fazer uma viagem de volta ao mundo daqui um ano ou dois, e perguntaram ao Guillermo, que já tá na estrada há um tempo, quanto ele gasta por mês viajando. Guillermo disse que geralmente gasta de 150 a 200 euros por mês, o que já é bem pouco. Mas que poderia chegar a 50 euros. E que conhece gente que viaja a zero.

Não duvidei, porque ele não é o tipo de pessoa de quem a gente duvida. Mas perguntei como, claro, porque qualquer um perguntaria.

Ele explicou.

“Eu acampo, faço couchsurfing, pego carona. Se vejo uma árvore cheia de frutas, encho os bolsos e a mochila. Acabo gastando só com comida, e no supermercado.”

É, mais isso não explica quem viaja de graça. Ele terminou. “E quem chega a zero, faz tudo isso, e também procura o que comer no lixo.”

"Você se surpreenderia com o que encontraria no lixo"

Ele explicou que fez isso uma vez e que a gente se surpreenderia se visse o que as pessoas jogam fora. E que os melhores lixos são os de supermercado, porque eles dispensam embalagens fechadas que passaram da validade recentemente, mas que segundo o bom senso, ainda podem ser consumidas.

Ah, além disso, quem opta por esse ESTILO DE VIDA também fica rondando turistas marotos em restaurantes e se apossa dos restos que nego deixa no prato. Justo.

Procurar coisa no lixo tem um nome em inglês, e chama Dumpster Diving, ou Skipping, na Inglaterra. O NYT tem uma matéria legal sobre o assunto. Eu tenho muitos amigos que moraram nos EUA, na Inglaterra e na Austrália, e lembro que todos eles vasculhavam o lixo em busca de eletrônicos e móveis: encontravam de bicicleta a sofá e iMac funcionando. Tinha gente que mobiliava a casa nessa onda aí.

Mas nunca tinha ouvido falar de quem faz isso pra procurar comida, quer dizer, por opção. Porque Dumpster Diving pra viajantes é uma opção, afinal, você sempre pode pegar uma carona de volta pra casa se não tiver mais dinheiro pra comprar comida. O mais perto que eu cheguei disso foi aos 13 anos, quando alguém no prédio jogou fora uma raquete de tênis bem pesada, e quando eu fui lá jogar o lixo vi a raquete. E peguei pra mim, só porque achei legal. Nunca joguei tênis.

Sei de gente (muita, muita) que passa a vida inteira reclamando que não tem dinheiro pra viajar e tal, mas depois dessa temporada eu descobri que dá pra fazer muita coisa com pouco dinheiro. Não necessariamente precisa ir pra longe de casa, né, que o Brasil tá cheio de coisa pra ver. Eu mesma nunca fui pra Paranapiacaba, por exemplo, que fica perto de casa. Esse post da Helô é um exemplo legal de que dá pra sair por aí sem gastar muito, e veja você, ela nem pegou comida no lixo.

Sim, essa refeição é composta apenas de itens que foram encontrados exatamente como você está pensando que foram

Percebi que Dumpster Diving é mesmo um estilo de vida porque tem todo um conceito acoplado. Primeiro o nome chique – magina que aqueles mendigos que pegam coisa do lixo aí no Brasil sabem que tem um nome tão legal pro que eles provavelmente consideram bem ruim de fazer? Depois, tem um conceito de sustentabilidade, reaproveitar e tal. A gente sabe que normalmente se desperdiça muito, e essas pessoas estão só se aproveitando disso. Todos os outros pilares da ideia de viajar de graça se baseiam em conceitos que envolvem reciclar, dividir, reaproveitar – Couchsurfing, caronas, acampar. No fim, você vai precisar de uma mochila com umas trocas de roupas e uma toalha leve, um computador, uma barraca e só pra sair no mundo.

A pessoa que eu sou hoje não comeria comida do lixo por opção. Mas não tenho nada contra, até porque sou contra pouca coisa nessa vida. A pergunta que eu te faço, caro leitor leite com pêra, é: você faria? E antes de responder, analise o blog desses caras e as fotos das refeições que eles fizeram durante uma viagem em que só comeram coisas que acharam do lixo. A foto aqui em cima é de um dos banquetes deles.

E se você curtir a ideia, o WikiHOW tem até um guia pra você são sair catando coisa errada nos lixos por aí. Vai lá

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O F.A.Q. de Paris

Eu fui pra Paris (ok, já faz um tempo… mas sabe como é) e devido a alta demanda de informações sobre a cidade por parte de amigos e familiares resolvi começar esse post em forma de FAQ.

1. Uau você ta chique heim???
É o que parece. Mas se você me visse com os joelhos encolhidinhos na poltrona do Eurolines (é um ônibus) de 35 euros as 2h da manhã, tentando dormir sem a possibilidade de reclinar a poltrona, TALVEZ não achasse isso.

Não estou reclamando, apenas expondo os fatos.

2. Mas você vai sozinha? Paris é uma cidade pra ir acompanhada!!!
Não exigiram acompanhante na imigração. Ainda bem, porque meu namorado tava trabalhando lá na Holanda, por isso não pode ir. Não vi o tal do romantismo, quer dizer, não mais do que a gente vê em toda linda cidade europeia e tal.

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Olha aí, a parede que tem 'eu te amo' em todas as línguas possíveis

3. E ai??? Viu a Monalisa???
Puxa, apesar de aparentemente o museu ser de graça pra residentes na Europa de menos de 26 anos, eu fiquei com preguiça. Tambem, depois de ouvir tantas vezes que é um quadrinho de 30 cm de altura meio decepcionante…

4. Mas nem no Louvre você foi?
Não!

5. Mas onde você foi então?
Gente… Vários agentes de turismo em potencial, não?

6. Tá, ai, desculpa. Onde você ficou, hostel?
Não. Couchsurfing.

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A Ponte das Artes, onde as pessoas colocam cadeados com o nome da pessoa amada

 

7. Ai… você não tem medo?
Hum… não fui sequestrada, violentada, maltratada, não fiquei desconfortável: dormi em um belo sofá-cama na casa de um ativista político colombiano que mora em Paris há 20 anos, fala português, e até bicicleta oferecia pros couchsurfers na casa dele.

8. Que sorte!
Claro, sorte é certamente o fator maior aqui: o menor é as mais de 100 qualificações positivas de viajantes pra ele no couchsurfing.com.

E acabou o FAQ. Se ficou alguma dúvida, favor incluí-la nos comentários. Voltando a Paris (metaforicamente), eu fui a Torre Efiffel e ela existe mesmo, posso provar com fotos. Além disso, ela é muito, muito grande, daquelas que são super maiores do que parecem. Não é assim, bonita, sabem? A estrutura de metal retorcido passa aquela impressão de arquitetura de revolução industrial que não é necessariamente algo agradável para os olhos. Impressionante mesmo é a Champs-Elysees, gigante, linda, o seus entornos, com parques fantásticos, fontes lindas e tudo o mais. E tem Montmartre, com suas casinhas e predinhos tão bonitinhos, bares frequentados por Van Gogh e Picasso. E a Ile de la Cite, de onde se vê o Sena por quase todos os ângulos. E ele é bonito, mesmo.

As coisas mais legais que eu vi foram a gravação de um clipe de Bollywood na Ponte das Artes (a dos cadeados) e um cara que fazia embaixadinhas em cima de um poste em frente da Sacre Coeur em Montmartre.

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OLHA RIVALDO SAI DESSE LAGO

 

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O maluco ganhou muitos aplausos da multidão de turistas

O charme que todo mundo menciona quando fala de Paris é todo verdade. E olha que eu nem botava fé nisso. Paris é aconchegante onde você for, dos bairros mais abastados aos mais periféricos. E é impressionante conseguir manter esse ar mesmo quase não tendo casas, só predios, com tanta gente indiferente por todo lado, gente dormindo na rua e no metrô, aquela frieza de cidade grande. Mesmo com tudo isso – aliás, somando tudo isso -, Paris e suas centenas de monumentos e cantinhos escondidos cheios de história da arte e da literatura têm sim o charme que atribuem à cidade.

Eu fiquei num bairro chamado Chateau Rouge, cerca de 15 minutos (de metrô) do centro da cidade, a Ile da la Cité, um pedaço de terra no meio do Sena que originou a cidade de Paris. Só que entrar e sair pela porta do metrô, no caso, parecia muito mais com entrar em um portal de teletransporte – Chateau Rouge era um pedaço de Luanda no meio da capital da França.

Em Chateau Rouge...

Em Chateau Rouge...

Vi muitos pombos, muito cinza, muita gente apressada, poucas bicicletas, ouvi muitas buzinas e quase fui atropelada por um motoqueiro sem coração. Senti cheiro de pão fresco a cada esquina, odor insuportável de urina no metrô, e até frango assado rodando no espeto de domingo eu vi.

Paris me lembrou São Paulo, se São Paulo tivesse uns mil anos de história e, com eles, tivesse tantos monumentos, muitos parques, alguma organizaçao e gente falando francês. Paris deve ser a a única capital europeia que eu chamaria de prima próxima das grandes cidades brasileiras. Não sei se são os muitos prédios com cara dos anos 50 misturados aos edifícios do início do século, o metrô que corre por cima da cidade, a sujeira nas ruas… pode ser tudo isso junto.

 

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Ai, ai...

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Nós somos o povo

Essa noite, eu tive um sonho meio descritivo do que tá acontecendo com a liberdade de expressão em SP. Eu tinha viajado com amigos pra uma cidade do interior. Veio a polícia e me multou por SER EXPANSIVA, de acordo com ela: falar alto e mexendo as mãos e os braços e tal (qualquer influência desse post do Matias na minha percepção de mim mesma é mera coinciência).

E ai a Marcha da Liberdade foi proibida. O juiz entendeu que a marcha é a mesma de antes, só que com outro nome, o que provavelmente implica que ele nem entrou no site da marcha pra ler o número de entidades não relacionadas com luta pela descriminalização de drogas que aderiram.

Imagina só se todo tipo de manifestação pudesse ser reprimida cada vez que um juiz entedesse que ela não é exatamente para o que é, considerando que o argumento do juiz é baseado (DESCULPE POR USAR ESSA PALAVRA POR FAVOR NÃO PROIBAM MEU TEXTO POR APOLOGIA), hum, no que ele acha.

Não vou nem citar aquele trecho da constituição que diz que todo mundo tem direito de manifestar o que quiser sem autorização de nenhuma instituição porque, né, todo mundo já cansou de ler aquilo e diante da situação atual todo mundo também já sabe que constituição não serve pra nada a não ser pegar trechos pra colocar em posts ilustrando indignação. Manifestação nenhuma, nem a Marcha da Maconha, nem nenhuma marcha, pode ser proibida por motivo que seja. Não vejo ninguém reclamando de como a Marcha pra Jesus também obstrui o trânsito e cerceia o direito de ir e vir, aliás.

Mas isso não é importante agora, porque como já ficou claro, não se trata mais de marcha pela legalização de droga nenhuma. Trata-se de uma marcha pelo direito de marchar, o que faz caber todo mundo. Quão fantástico é isso? Não importa se você é contra ou a favor o direito do aborto, ou contra ou a favor do vegetarianismo, da alta do preço da gasolina ou do valor exorbitante das passagens de ônibus. Contra ou a favor de qualquer coisa: tenho certeza que você quer defender o seu direito de ser contra ou a favor do que quiser, porque se há algo que nos resta, é isso.

Plaza Zocodover

Dá pra compôr um reggaeton, tipo TOMA TOMA TOMA LA CALLE/TOMA TOMA TOMA LA CALLE

Porque no Brasil a gente não tem nada pelo que paga ao Estado – nada, nada. Nem escola, nem hospital, nem teatro, nem cinema, nem bem-estar, nem transporte, nem segurança. E a gente não tá acostumado a reclamar, né? Mas se tem algo que de mim eles não vão tirar, é meu direito de falar.

Ontem o bicho pegou em Barcelona. Eu estava em Madrid no dia das eleições, na Puerta del Sol, e vi aquela molecada meio hippie, meio punk, meio politizada – vi gente de todo tipo, na verdade, e de todas as idade – e vi que eles estavam organizados, tranquilos, pacíficos. Que não havia motivo para bater neles. Consigo imaginar que em Barcelona seja igualzinho. E ainda assim, olha o que aconteceu:

 

Existe muito em comum entre os cenários na Espanha e os cenários no Brasil, embora os manifestos em si tenham sido fomentados por situações completamente diferentes. É que, na essência, tá todo mundo cansado do status quo, e encontrou nas redes sociais uma maneira de se organizar pra poder ter direito de brigar pelo que quer na vida real.

Não sei o de vocês, mas dada a minha condição de pessoa muito falante desde sempre na vida, não teria como abrir mão disso. Eu não estou ai pra ir ao vão do MASP nesse sábado, o que é uma pena, porque eu consigo prever que com a proibição e a repressão as consequências vão ser memoráveis de um jeito ruim. Mas memoráveis. Sei que parece injusto, já que eu mesma não vou por impossibilidades técnicas, mas rogo as meus amigos que leem essa budega que nunca fala sério que dispensem uma tarde de seu sábado para tentar tirar São Paulo de 1964, porque parece que a cidade nunca saiu de lá.

Se você não mora em SP, e de alguma maneira isso incomoda, com certeza tem algo que você pode fazer. A minha revolução é com a bunda no sofá e tal, muito embora eu tenha protestado em Madrid (pausa para foto reveladora):

Puerta del Sol

Foi a única placa que a gente achou no chão

Enfim, a minha é de sofá porque o preço da passagem de avião me impossibilita de pensar GENTE ESSE FDS VOU PRA SP Q TAL???. Se a mesma coisa acontece com você e o que te resta é a revolução com a bunda no sofá que, aparentemente, é melhor que nenhuma (preciso remendar minha opinião nesse texto aqui), faz alguma coisa. Nem que seja postar no FEICE uma mensagem indignada clamando por justiça. Sair de casa e organizar uma Marcha da Liberdade na sua cidade também não é ruim, não.

Não que você precise me escutar porque não tem coisa mais babaca do que alguém dizendo VAI LÁ, PROTESTA. Né.

Puerta del Sol

Em Madrid eles são sérios. No Brasil, eu sou a favor de comprar uns engradados e levar pra manifestação e tal

Pra aquecer: o MANIFESTO DA ESQUERDA FESTIVA, na Carta Capital, um texto com o espírito que a coisa toda tem e deve ter. E não esquece do título desse post. Gás lacrimogêneo arde o olho, mas ó, tem coisa pior. Bala de borracha eu nunca tomei, mas se alguma te acertar, tem um consolo… essa geração estúpida, tacanha, de juízes que proibem manifestações populares legítimas de qualquer tipo, e de policiais herdeiros da ditadura que batem em estudantes desarmados e pacíficos, logo logo estará na cova devido ao inevitável: bom, eles estão velhos. Não vão durar muito mais.

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O dia em que a Holanda pira

Eu sei que estou em falta com este ESPAÇO VIRTUAL. Mas você deve imaginar que três crianças, um curso de holandês e um freela fixo tomam bastante do tempo de uma pessoa. O que interessa é que finalmente descolei um tempinho (5h40 da manhã no aeroporto de Madrid, esperando um voo de volta pra Holanda) pra contar aqui minha última grande aventura na Holanda, quase um mês depois dela acontecer, é verdade: o Queensday.

Tipo que uma vez por ano os holandeses piram. Eles comemoram, no dia 30 de abril, a festa da rainha. É um feriado itinerante, porque o Queensday é teoricamente comemorado no dia do aniversário da rainha, e bem, eventualmente o país troca de rainha, então eles teriam que trocar de data da festa a cada, sei lá, muitos anos – porque, geralmente, a probabilidade que duas rainhas façam aniversário em dias diferentes é alta.

Só que a atual rainha não trocou a data do feriado quando ganhou a coroa. Sua mãe, a dona do aniversário do dia 30 de abril, faz anos numa época de temperatura muito mais agradável do que ela, que comemora no inverno, e como ninguém quer ter que comprar casaco de frio, gorro, luva e cachecol laranja, manteve-se o dia 30.

E bem, como você já notou pelas fotos, parece a Metodista no JUCA. Eles usam laranja, a cor oficial da família real holandesa. A festa dá pra resumir assim: imagina que as empresas que recolhem lixo em SP resolveram fazer uma festa de fim de ano pros funcionários e todos eles vão direto do expediente sem ter tempo de se trocar. Vai ter show do Zezé di Camargo e Luciano, do Exaltasamba e do Restart.

Queensday 2011

Não enche, eu tenho direito à babaquice, sou estrangeira!

Pegue a ideia geral e transporte pra Holanda, adaptando as bandas e o que elas representam em cada cultura: Queensday é um monte de gente bêbada que nem gambá, vestida de laranja, nas ruas, ouvindo música alta ruim, apertadas em um espaço pequeno demais pra elas.

Amsterdam fica uma loucura um inferno, com os canais virando o Anhembi e os barcos sendo os trios elétricos deles.

Queensday 2011

Congestionamento no canal

Tem algo de FESTA DE RODEIO ou de BAILE FUNK, porque muita gente produz fantasias personalizadas pro grupo, com camisetas escrito coisas tipo BONDE DOS VAN DER MEER ou COMISSÃO AQUI PODE TUDO, SOMOS HOLANDESES.

 

Dãr. Mentira que essas coisas tavam escritas, né, mas eles fazem sim umas camisetas personalizadas laranjas pra identificar um grupo de amigos e tal.

Ah, esqueci de dizer que, da micareta e da festa de rodeio, pra equação ficar certinha você precisa subtrair o clima de paquera. Você até vê uns babacas loiros de olhos azuis puxando o cabelo das meninas e tal, eventualmente, mas elas nem dão bola e eles não passam disso.

Queensday 2011

Vuvuz... O QUÊ? NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOO

O lance com o Queensday é que ele é simbólico pros holandeses justamente porque é um dia em que tudo pode entre outros 364 em que você precisa estar atento pra tudo o que faz porque pode levar uma multa. Tem lixo no chão (em camadas, coisa nojenta), maconha na rua, bebida barata, mercados de rua liberados (é, no Queensday qualquer um pode montar uma barraquinha e colocar coisas à venda e tal), azaração (até onde isso é possível para holandeses)… É uma redenção. Imagino que se não existisse o Queensday a taxa de loucos homicidas na Holanda subiria, dada a quantidade de regras e o metodismo que você é obrigado a se submeter nesse país no resto do ano.

Se você ficou curioso e resolveu ajeitar sua viagem pra passar na Holanda no dia 30 de abril de 2012, puxa, que ideia infeliz. Tipo, imagino que você já não fique confortável em micaretas e aglomerações urbanas no teu país, ai você vai pegar um AVIÃO pra passar por isso? Não faça isso, amigo. Mesmo. Quer micareta de laranja, descola um convite pra festa de fim de ano da Conlurb que o Rio de Janeiro é muito mais lindo – e a gente, sim, sabe fazer festa.

Queensday 2011

Algumas fotos não precisam de legenda.

 

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Garota de Berlim por dois dias

Em dois dias em Berlim, eu vi mais de quatro pessoas com o nariz sangrando. Some isso à fama de belicosos dos alemães e você pensará que lá todo mundo se soca frequentemente. Mas não se tratava de porrada comendo solta, é claro, dado que os Berlinenses são muito tolerantes e civilizados: era só o sol forte no cucuruto (ou cocoruto? ou cucoruto?) mal acostumado às altas temperaturas o provável causador da hemorragia coletiva.

(Pronto, esqueceu o título infame, né? Vim aqui te lembrar)

Oi

Classificam Amsterdam como a capital do ‘aqui pode tudo’, mas Berlim sim devia ficar em primeiro no quesito tolerância. Porque lá, apesar de tudo, os imigrantes parecem bem mais misturados aos nativos do que seriam aqui ou na Bélgica, por exemplo. E as pessoas são diferentes como querem. Há uma desorganização natural de cidade muito grande em Berlim, que chega até a lembrar São Paulo, e que permita que todos os tipos de habitantes de centros urbanos saiam das tocas como queiram e a hora que queiram. Dez da noite, óculos escuro, cachecol e bermuda em um frio de 8 graus? Ok. O sol torrando às 14h e chega um grupo de sobretudo, cabelo roxo e mais piercings do que eu fui capaz de contar? Ok, também. Esses tipos são mais difíceis de encontrar em Amsterdam, que é mais uma praça da Sé da Europa. Berlim é como a Augusta daqui.

Em Berlim, souvenir é ushanka (o chapeuzinho russo), máscara de gás e bandeira com a foice e o martelo

Dizem que os alemães são travados, frios. Mas em poucos lugares do mundo um grupo de quase duas mil pessoas sóbrias, dentro de um parque em um domingo de sol, se disporia a participar de um karaoke a céu aberto. Na maioria dos lugares que eu conheço, o MC responsável pela ideia teria dificuldade em encontrar gente sóbria com coragem de se apresentar informalmente em frente a um bando de gente desconhecida. No Mauerpark, em Berlim, as mais de cinco horas que o dono do karaoke dedica à atividade são poucas diante da quantidade de gente que escolhe uma canção pra interpretar. Tem de tudo, de gente tímida à performances dignas de um Berliner Idol.

E isso é só metade (o que coube na foto) da galera que foi ver o karaoke no Mauerpark

E se, dizem, Milão é espelho das passarelas, Berlim é o que dita o que estará nas passarelas ou não. O engraçado é que lá todo mundo se veste bem, homens e mulheres, dos 12 aos 72. E quando você olha pra todos eles fica muito claro que eles não fizeram esforço nenhum pra se vestir tão bem, e a maioria nem sequer gastou muita grana. Eles simplesmente sabem.

Berlim tem museus estonteantes. Digo, isso é o que tava escrito no folhetinho e o que dava pra dizer só de olhar os prédios de fora. Eu só fui mesmo em um deles, que aliás, deveria ser o único museu a visitar em Berlim se você for escolher só um museu para ir em Berlim.

Chama Pergammon e tem milhares de obras de arte e artefatos super ultra muito antigos. Tipo, o Pergammon levou o conceito de MUSEU realmente a sério aqui, porque as peças mais novas têm algo como uns 2200 anos. Tem um templo grego quase inteiro montado dentro do museu. Tapeçarias árabes de 3000 anos atrás, jóias, vasos, estátuas com textos em Aramaico ao longo do corpo são comuns nos corredores. É impressionante. E também faz você se sentir insignificante, mas acho que essa deve ser a definição de um bom museu: ele te faz sentir insignificante.

Isso é um templo grego quase inteiro (chamado Pergammon, heh) dentro de um museu

Contrariando meu post anterior, eu resolvi pagar um tour guiado por Berlim. Em espanhol, mesmo sabendo que teria problema em acompanhar o espanhol ibérico, já que – apesar de mais fácil, na minha opinião – ele é bem diferente do sotaque colombiano/panamenho ao qual me acostumei. E de repente, o cara abriu a boca e eu compreendia tudo. Me achei um prodígio dos idiomas, fiquei radiante.

Mas aí alguém mencionou e eu percebi: ele era gago. Isso explicava muito coisa.

O guia-gago espanhol, que aliás falava galego então entendia meu português, nos levou aos principais pontos históricos de Berlim, que são mais de uma dúzia só no centro da cidade e juntos contam basicamente a história do mundo moderno. Quer dizer, também contam um pouco de história mais antiga, até. Seis horas em Berlim substituem uns dois anos de aulas ruins de história no ensino fundamental. De prédios de 400 ou 500 anos que nunca precisaram ser restaurados, a prédios de 50 anos cheios de marcas de balas que precisaram ser restaurados tipo doze vezes, a cidade é um paraíso pra quem gosta de história.

Napoleão passou por aí, gostou, levou pra França. Os alemães foram lá, ganharam a guerra, pegaram de volta. Heh

Depois do tour, de ouvir mais e mais sobre a história daquele maluco de bigodinho, me dei conta. Hitler tinha tudo, tudo pra ter sido um desses malucos que moram no ponto de ônibus e começam a berrar incisivamente (ele sabia fazer isso, falar cuspindo) sobre alguma teoria maluca que não faz nenhum sentido. Dessas que você escuta atentamente justamente porque são muito mirabolantes. Entre uma observação e outra sobre como ele seria escolhido para liderar a raça ariana até a hegemonia étnica, e como transformaria Berlim na Germania, que seria a capital do mundo puro, ele daria um gole em uma garrafa de gin barato. Daí seu ônibus chegaria e você nem ia lembrar do cara – talvez comentasse do louco engraçado pra um ou dois amigos.

A Alemanha é um lugar tão peculiar que lá esse cara louco virou chefe de Estado. E quase botou sua fantasia nonsense em prática. Claro que existe um contexto: o orgulho nacional enfraquecido pós I guerra, a falta de emprego generalizada (e o fato de Hitler ter criado emprego)… AINDA ASSIM, ELE PODIA TER SIDO UM INDIGENTE.

Fala aí, se não tinha potencial pra mendigão/pregador? E BREAKING NEWS, a Wikipedia me conta que ele realmente JÁ FOI UM MENDIGO! E que os outros mendigos chamavam ele de Ohm Kruger (tio Kruger). Mais info na mãe dos burros.

Na Alemanha, senti falta de conhecer alemães. Eu até ensaiei dizer que eles não são amigáveis com turistas, mas não é exatamente isso. É que, além de não falarem inglês tanto e tão bem quando os holandeses, os alemães aplicam o ‘não tô nem aí pros outros’ que vivem no dia-a-dia também com os turistas. O motivo pelo qual nós brasileiros recebemos turistas com tanta atenção é porque eles são novidade. Aqui na Europa tem tanto estrangeiro que ninguém se preocuparia em tratá-los bem.

Hauptbanhof, a estação de trem que só não é um shopping porque shopping não tem trilho de trem dentro, cheia de alemães que não sabem falar inglês

Se eu falasse alemão, ainda, talvez tivesse mais chances. Mas fiquei encabulada de sair falando inglês assumindo que eles entederiam. Me parece um pouco insensível fazer isso com um bando de gente que durante trinta anos ficou refém de um jogo de estratégia onde eles, sua língua e sua cultura eram tratados como desimportantes frente ao russo, ao francês e, especialmente, ao inglês.

Um dos lugares mais famosos da cidade, o checkpoint Charlie, onde costumava ficar um dos acessos no muro. A placa dá uma ideia da importância que a língua alemã (e portanto, os alemães) não tinha durante a guerra fria, HEH

Senti falta, também, de mais referências à história de Hitler e dos soldados alemães. Há monumentos e museus e homenagens a todos os grupos envolvidos na 2ª GM: aos judeus, aos gays, aos testemunhas de jeová, aos soldados russos, americanos, franceses… todos eles têm memoriais em sua homenagem. Como se fosse possível esquecer o que Adolf (tô íntima) fez, eles querem fingir que nada aconteceu e assim acabam apagando a história do cara (Mein Kampf não pode ser editado na Alemanha, por exemplo) e daqueles que lutaram ao lado dele. Óbvio que eles não merecem homenagens ou memoriais, mas essa vibe tipo ‘gente, vamo falar de coisa boa, TEKPIX! Esquece isso de Holocausto’ eu acho que não cola. A história das pessoas responsáveis pelas coisas horríveis não está em lugar nenhum em Berlim. :/

Foto 'TÔ CURTINO BERLIN MUITAUM11!!11' no monumento em homenagem aos judeus mortos no holocausto, cuja disposição das pedras, aliás, lembra lápides e é meio opressora: você está fazendo isso errado

 

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Meu jeito de viajar

Quando eu viajo, eu costumo ser uma companhia frustrante pra maioria das pessoas que viajam comigo. É que eu não sinto vontade, exatamente, de visitar os pontos turísticos “imperdíveis”. Na verdade, eu acho a maioria deles bem perdíveis.

Só que isso geralmente provoca indignação nas pessoas que me perguntam o que eu fiz e onde fui. Na verdade, elas parecem achar meus programas bem entediantes. E acaba que eu fico meio sem graça de contar o que eu fiz, porque pra algumas pessoas, se eu não fui no museu, no bairro dos turistas ou nos monumentos históricos, eu não fiz nada que valesse a viagem.

Você achava que entendia de Matrioshkas? Essas estão à venda no Waterlooplein Market, em Amsterdam

Acontece que, quando eu viajo, meu barato é ler um pouco sobre a cidade, aprender duas dúzias de expressões, mais meia dúzia de pratos típicos, pegar o mapa e sair andando. Se possível, de bicicleta ou de skate. E aí eu vou vendo as pessoas e os lugares, aprendendo a me locomover, olhando os nomes das ruas, vez ou outra parando em um ou outro ponto turístico que cruzar meu caminho. Gosto de comprar umas tranqueiras, de parar pra comer algo e pedir alguma coisa que eu nunca provei antes na vida.

Esses são os famosos campos de tulipas. Esse fica em Den Haag

Em dois meses aqui, eu já fui a Amsterdam umas três ou quatro vezes, pra passar o dia, quase sempre. Eu moro mais ou menos a uma hora e pouco de lá, o que dá um ônibus e um trem e demanda certo planejamento, mas nada que alguém que seja de Santo André não esteja acostumada. Daí eu volto pra casa, e ouço: “E aí, o que você fez em Amsterdam?”

Sucateada mesmo essa profissão, gente. OAB duvido que eles tenham

Eu tenho vontade de responder que fiquei horas só olhando os canais, olhando pra dentro daqueles barcos-casas, observando os moradores na varanda enquanto eles, bem europeus, leem um livro e tomam chá. Que depois, eu fiquei mais meia hora brincando de tentar adivinhar de que país as pessoas são só de olhar pra elas. E que aí eu fui no Vondelpark e fiquei sentada na grama só vendo como os holandeses transformam qualquer dia de sol em um grande festival ao ar livre improvisado de última hora. Ou que depois, eu fiquei meia hora sentada no meio da Dam Square, assistindo uma dupla tocar algo que lembrava Dire Straits, e em seguida fui à Spui pra garimpar livros baratos em uma daquelas livrarias geniais. Que eu passei horas só tirando fotos, e outra hora conversando em uma mistura de italiano e espanhol com o tiozinho da barraquinha de hot dog americano. Que eu preferi passar uma estação de trem e depois voltar só pra poder assistir um pouco mais da paisagem, que eu peguei a bicicleta e sai pedalando entre uma cidade e outra só pra saber onde ia dar.

6 graus na Dam, e a galera fazendo fogueira "em homenagem à vítimas do Tsunami no Japão". Sei

Mas quando eu tento dizer essas coisas, parece tudo um pouco chato. Até pra mim não soa como algo grande e empolgante pra se fazer em Amsterdam, sabe? Porque eu não vi o museu do Van Gogh, nem a casa da Ana Frank, nem o museu de cera, muito menos o museu da Heineken. Não tirei foto em I Amsterdam. Na Argentina, eu não fui ao Caminito. Em Barcelona, eu não vi a Sagrada Família. No Rio, Cristo Redentor e Pão de Açúcar, só em cartão postal.

SCIENTOLOGY CHURCH! ESTOU SALVA!

E não é que eu me programei pra não fazer o roteiro turístico, porque isso também seria de uma estupidez absurda. É simplesmente que eu prefiro que meu primeiro contato com a cidade, nossa primeira troca de olhares e tal, seja a mais pessoal possível. Gosto de andar nela, fazer parte dela, entendê-la de verdade. Museu e ponto turístico eu deixo pra quando o nosso relacionamento já estiver bem maduro.

A VILA, num bosque entre Leiden e Den Haag

Então eu acabo dizendo que eu comi alguma coisa, tomei um café, encontrei um amigo, essas coisas mais aceitas socialmente. Eles perguntam dos museus, insistem, e eu fico meio sem graça, tipo.. “aaahhn, não fui em nenhum museu”. E eu obviamente tenho nada contra museus (a propósito, existe alguém contra ou a favor de museus? Tipo, da existência deles? “Museus” não costuma ser um tópico polêmico). Mas sempre deixo eles (os museus) pro final. E se tenho poucas horas ou dias na cidade, bem, museus definitivamente não são prioridade.

A melhor casa de todas, com a bike mais legal de todas. Na água

 

E as pessoas que escutam parecem sempre me achar meio estúpida por ir a Amsterdam só pra comer e tomar um café, afinal, não é como se Wassenaar não tivesse restaurantes e cafeterias. Por isso inclusive que eu incluo o “encontrar um amigo” no roteiro, porque aí se torna mais compreensível. Dizer que eu fui tomar um café e passei a tarde inteira observando as pessoas sozinha é algo teoricamente inaceitável.

É assustador, eu sei. Em Leiden

As fotos desse post são de coisas que eu achei só porque saí sozinha por aí nos lugares mais improváveis. Não tenho fotos óbvias, mas tenho essas. Elas provam que meu jeito estranho de viajar às vezes me rende achados curiosos, sim. E vou ter tempo suficiente pra tirar as fotos óbvias, também. :) Porque é meio como a Helô me disse no GTalk:

quando vc quiser ver obra de arte do século 16, é só ir ao museu e ver
é claro que se der vontade de ir ao museu, vá
porque museu é legal
(…)
mas importante mesmo é entender a cidade
ver como as pessoas vivem
zanzar
comer na barraquinha
aprender a gíria
andar de metro
essas coisas
igreja e museu vc pode ver quando tiver 40 anos, casada, com filhos

O pôr-do-sol que eu teria perdido, pra sempre, se tivesse escolhido ir de ônibus e não de bike até Den Haag um dia desses

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Aqui nos Países Baixos

Eu precisei dar uma sumida, veja, porque de repente surgiram três crianças na minha vida. Surgiram também moinhos de vento, igrejas medievais, flores cheirosas, morangos que de tão doces parecem que vêm com açúcar de fábrica, bicicletas e pessoas gentis que falam uma língua estranha, uma mistura de alemão, francês e sons guturais.

Eu não tomei um ácido, gente, embora seja quase isso. Eu me mudei para a Holanda para trabalhar como babá.

Meu trabalho é bem diferente do que eu fazia como jornalista, como você pode imaginar. Cheguei há uma semana e parece que passou um mês – tanto pela quantidade de coisas diferentes que eu vi e fiz, quanto porque, bem, eu já trabalhei um bocado. E nesses dois aspectos, creia, o trabalho chega bem perto do que eu estava acostumada no jornalismo.

A Holanda, ainda bem, é mais do que tudo aquilo que eu mencione lá em cima. Também é pessoas fumando maconha dentro de bares e prostitutas dançando com pouca roupa em vitrines.

Amsterdam

OLHA AÍ O BECK LEGALIZADO

Aqui, se vê muito do Brasil na simpatia e hospitalidade do povo – como estrangeira, eu fui bem recebida onde fui, e todo mundo tá sempre disposto a me ajudar – e na paixão pelo futebol. Ah, sem falar no hábito constrangedor de ouvir música alta no trem, que também está por aqui.

Mas num resumo, é só isso. Porque, diferente daí, aqui os campinhos (digo, quadras) de futebol são apinhados de meninos loiros, muito loiros, alguns até bons de bola, veja só. Aqui, todo adolescente de 16 anos que você vê na rua está fumando um cigarro. Muitos se acham muito, muito malandros (tadinhos, não durariam por dois minutos no Capão Redondo).

Aqui, crianças de 3 ou 4 anos atravessam a rua sem olhar, e apesar de ser um hábito ruim, elas o adquirem simplesmente porque PODEM, já que têm a certeza de que os carros vão parar (e eles vão). Velhinhas de 80 anos vão ao supermercado de bicileta, e aqueles já com dificuldade de locomoção usam um fantástico andador com um compartimento – como ninguém pensou nisso antes? Nos pontos de ônibus e nos lagos, em vez de pombos ou lixo, a Holanda tem patos, aqueles dos desenhos, com penas verdes e azuis.

Apesar de comerem pão doce com queijo no almoço, eles inventaram, veja você, a C&A, as Bakfiets, uma torneira de onde sai água fervendo (sério, uma das invenções mais úteis da história), a Kombi (mano, foi um holandês que inventou a Kombi), e bem… eles aperfeiçoaram MUITO a tecnologia de diques.

108: Stephanie's Bakfiets

Caso você esteja se perguntando, ainda, o que são Bakfiets: é esse negócio aí em cima. ATENÇÃO ESSA NÃO SOU EU

É que a Holanda (Países Baixos, gente, é o real nome do país) é um país, hum, baixo. Isso significa que boa parte do terreno aqui está abaixo do nível do mar. E aí, pra tornar a terra habitável, os holandeses precisaram BOTAR A MÃO NA MASSA. Pensa que é Ilha de Vera Cruz, onde se plantando, tudo dá? Que é só chegar, montar a barraca e ficar? Não é assim. Ok, pra começar, é abaixo do nível do mar, ou seja, precisava tirar aquela água dali. Em segundo, faz um frio legal no inverno.
Explico-me. Eles precisaram dar um belo trampo pra poder morar nesse lugar, fazê-lo habitável. E para que ele se mantivesse assim, precisaram impôr regras. Precisaram colaborar uns com os outros.

Penso que é daí que vem a gentileza dos holandeses, entre si e com os estrangeiros, seu respeito quase irrestrito às regras (e, bem, o excesso delas também), seu metodismo. É da falta de sol que vêm o hábito, que para nós é hilário, de em um dia quente, sentar-se na calçada com as cadeiras viradas para o sol, como se o astro-rei fosse um espetáculo a ser assistido.

Haarlem

Sessão de sol, meia-entrada, as 3h15. Sala 8

É provavelmente daí também que vem a habilidade de conservar os prédios históricos, já que deu trabalho pra que eles pudessem ser erguidos lá, naquele solo aterrado. Além do mais, não dá pra simplesmente viver ao ar livre por causa das chuvas e do frio, então ninguém vai querer de fato destruir um abrigo que é necessário para a sobrevivência.

Também da necessidade de se concentrar em sobreviver vem o liberalismo a tolerância, o espírito open-minded (troquei a palavra porque, bem, apesar de todo mundo entender o que eu quis dizer, como bem apontou um anônimo chamado Rafael nos comentários, estritamente ‘liberalismo’ ainda é sistema político-econômico). Mesmo durante a inquisição, os holandeses recebiam seguidores de outras religiões. Eles não tavam nem aí para quem era seu Deus, porque tinham que se preocupar em manter os diques em pé e a água longe. Essa tolerância é o que permite que a Holanda, hoje, seja tão livre. É o que permite que em Amsterdam você possa se vestir COMO QUISER e não receba nem um olhar esquisito por isso. Tudo é aceito. Tinha um ratinho no Burger King da estação central da cidade e, na boa, ninguém sequer fez nada além de dizer ‘olha, um rato’. Nem levantamos o pé.

Nada disso explica o pão-durismo deles e o fato de eles economizarem até na salada.

Haarlem

O pôr do sol de um domingo em Haarlem, uma das cidades mais antigas. Tem prédios de 400 anos lá

Essas coisas explicam, contudo, alguns efeitos colaterais. Eles são obcecados com conversas sobre o tempo – sério, um dos assuntos preferidos é falar se nos próximos dias vai estar nublado ou se vai ter sol. Claro que não entra na discussão se vai estar frio ou não, porque certamente estará. O que se discute é se será frio com sol ou frio com chuva.

Além disso, eles são meio metódicos DEMAIS, o que é bom mas pode ser ruim às vezes. O excesso de regras e a necessidade de seguí-las torna os holandeses meio engessados, com uma certa falta de trato social e jogo de cintura. E por fim, esse olhar que aceita tudo tem seu lado negativo, já que eles não se surpreendem com nada. Bem, com exceção do sol – com isso, eles sempre se surpreendem.

Ah, botei umas fotos lá no Flickr.

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Panamá: um guia de compras

Vou tentar passar pra vocês a sensação única que é a de consumir no Panamá. Manja quando você compra algo na promoção, consegue um preço legal, e sai da loja com aquela sensação boa de negócio bem feito?

Agora imagina sentir isso o tempo todo. Quer dizer, virtualmente a gente consome o tempo todo – de pedágio à vendinha na esquina. Então imagina que, o tempo todo, você anda por aí com aquela sensação gostosa de EU FIZ UM BOM NEGÓCIO.

Em alguns momentos especiais, em que você encontra preços realmente assustadores (de baixos), bate uma espécie de DORMÊNCIA MENTAL. É que vem, então, uma grande revolta por comparar o quanto você sempre pagou por tudo no Brasil e o quanto as coisas realmente valem. E aí a gente fica, um pouco, que nem o Chaves quando dá aquela travada. Eu fiquei assim em uma loja em que comprei shorts jeans por 5 dólares. Tipo, não literalmente, mas fiquei um pouco chocada. Durante um tempo, não conseguia pensar direito – e não é que sai fazendo compras, nem nada, mas fiquei por alguns minutos contemplando por quanto tempo fui feita de idiota e acho que a MINDNUMBNESS foi uma maneira do meu cérebro de evitar o trauma.

PIRIPAQUE

As sensações são conflitantes e constantes, mas bem ou mal, eu aprendi a fazer compras no Panamá, sei onde ir, e garanto que isso por si só é uma das várias atrações turísticas daqui. Inspirada por esse sentimento libertador chamado livre consumismo, escrevi um guia para quem, como eu, deseja fazer compras no Panamá e em seus arredores. AH: se você não quer saber de nada disso porque não pretende vir pro Panamá tão cedo, pule direto pro bônus do final.

Pra começar, dicas fundamentais para se aventurar por aqui:

  • Pechinche SEMPRE. Aqui é comum e na maioria das vezes dá pra conseguir um descontinho, ainda mais se você estiver levando mais de uma peça de qualquer coisa. Se falar espanhol, melhor ainda.
  • Os produtos aqui não tem imposto embutido. O imposto, de 7%, é acrescido no caixa. Ou seja: pense em todo preço de etiqueta com 7% a mais.
  • Sempre que entrar em uma loja, pergunte se há peças em REBAJAS, ou seja, com desconto. A maioria das lojas tem sempre uma ou mais araras com peças em promoção, que costumam ser muito, muito mais em conta. Se não tiver seu número para uma roupa que gostou, peça à vendedora. Não é como no Brasil, onde as promoções rolam com as últimas peças: aqui, eles têm peças de estoque ‘rebajadas’, e geralmente colocam as coisas ON SALE quando vão receber coleções novas.
  • No meio da semana, tipo na quarta-feira, eu fui até a Zara pra ver se conseguia um bom preço em casacos de frio, daqueles bem pesados, porque vou precisar na Europa. A Zara tem coleções parecidas com a da Renner e, por aqui, preços também. Achei um excelente por 79 dólares, já que a Zara está em rebajas, um bom preço comparado ao quanto pagaria na Europa e definitivamente uma pechincha se comparasse ao Brasil. Voltei hoje, último dia das rebajas, e o mesmo casaco estava custando 59 dólares. E tinha um monte deles. Moral: quanto mais próximo do fim da promoção você puder ir a uma loja, melhor. Mas pense também que, quando mais tarde você for, menos peças legais vai encontrar. Eu dei sorte porque, assim, quem compra casaco pra enfrentar neve no Panamá?

Los Pueblos

Bom para: roupas, sapatos, artigos de decoração, celulares, brinquedos.

Preços: são ótimos, ainda mais com disposição para garimpar peças boas em lojas como a SAKS, Steven’s, REBAJAMODAS (essa só com roupas para homens)

Compras

Eeeerr, então, encontrei isso no provador... melhor não deixar suas coisas no chão se for a uma loja chamada SAK'S. É o preço que se paga por camisetas a 2 USD

Se você perguntar a um panamenho bem de vida, ele vai fazer uma cara de fresco quando você disser que vai a Los Pueblos pra fazer compras. Eles não vão pra lá pelo mesmo motivo que não frequentam as praias na costa de Colón: não gostam do aspecto pobre da região. E de fato, Los Pueblos é bem pobrinho, mas não é nenhuma periferia a qual um brasileiro não esteja acostumado. Quer dizer, eu imagino: ao menos você deveria estar acostumado a uma periferiazinha ou outra, mesmo que seja um empresário rico ou uma madame que vive indo pra Miami. Desculpa falar.

Los Pueblos é um bairro com um centro de compras que é como um graaaande shopping a céu aberto. Tem lojas de tudo quando é tranqueira que você possa imaginar: roupas, eletrônicos, celulares, artigos para decoração, material de construção, calçados, brinquedos… o lance é que lá tem uns outlets em que rolam promoções muito boas. A maioria delas, contudo, precisa de um fino trabalho de GARIMPO pra que seja possível arrancar algo utilizável. Pra homens é mais fácil encontrar coisas usáveis, tipo camisas da Lacoste a 10 dólares com pequenos defeitos de costura. Pras mulheres é mais difícil, mas foi lá que eu encontrei meu short de 5 dólares e as camisetas de 2 US$, então um pouco de paciência vai bem.

Prepare-se para andar MUITO. Sério, MUITO. O lugar é gigante, então leve seu chapéu (PANAMÁ DE PREFERÊNCIA NÉ RSRSRS) e filtro solar. Ah: lá não pode provar roupa.

Shoppings

Importante saber que nos shopping aqui, tem um trenzinho que fica passando com uma musiquinha, levando crianças dentro. E como os carros panamenhos, ele são bem barbeiros e desgovernados. TOME CUIDADO. Vou descrever os dois principais shoppings da região central, os que conheço bem. Ao chegar, procure o guichê para fazer o cartão de descontos para turistas. Basta ter passaporte para poder fazer: é de graça e em algumas lojas o desconto chega a ser de 20%.

Allbrook

Bom para: crianças. Não comprar crianças, seu pervertido, para levá-las. É que o shopping é muito colorido e as entradas têm nomes de bichos, com as estátuas respectivas, além de um carrossel colorido e musical no meio da praça de alimentação, com unicórnios de chifres peludos com as cores do arco-íris. O shopping é tipo uma viagem de ácido, como você pode ver.

 

LSDDDDDDDDDD

 

Mas enfim: no geral, é legal para comprar brinquedos, eletrônicos e roupas, além de cosméticos na Riviera. Para roupas femininas, uma loja chamada Estampa tem preços excelentes e peças interessantes.

Preços: são bons, os melhores para um shopping panamenho. Comparados com o Brasil, dá pra ver bastante vantagem. Se encontram bons preços e muitas opções de eletrônicos.

O Allbrook é um shopping gigante perto do principal terminal de ônibus da Cidade do Panamá, o Terminal Allbrook. Ele é o shopping mais feio que eu já vi na vida, e shoppings por definição não são bonitos. É frequentados por panamenhos da classe C, no geral, e alguns poucos turistas de naipe mais mochileiro. A arquitetura lembra um pouco uma caixa de sapato feita de concreto e pintada com todas as cores existentes na paleta da Suvinil. É cafona pra cacete, mas nada disso importa, porque ele é gigante e tem de tudo, e dos shoppings panamenhos próximos ao centro, é o mais barato.

Dificilmente você vai conseguir andar o shopping inteiro em um dia, mas dá pra encontrar lojas de todas as categorias imagináveis, de souvenirs de cinema a artigos para amantes da cultura oriental. O shopping tem uma porção de lojas de videogames e de eletrônicos com várias opções e preços razoáveis, como a Multimaz e a Panafoto, além de uma loja da Apple e um lugar maravilhoso chamado Premier, que vende todo tipo de eletrônico chinês por preços ridículos. A saber: compramos uma sanduicheira elétrica por 8 dólares, e ela é uma maravilha.

A praça de alimentação é super completa, deve ter entre 20 a 30 opções de restaurantes.

Multiplaza

Bom para: roupas de gente rica, tipo Dolce & Gabana, Armani, Louis Vuitton, jóias, relógios.

Preços: melhores do que no Brasil, mas caros em comparação com o Allbrook ou a outros lugares no Panamá.

O Multiplaza é um shopping de playboy. Frequentado por turistas e panamenhos que não têm cara de panamenhos, ou seja, da classe AAA, ele fica numa região de alta concentração de prédios de alto padrão, a Punta Pacífica. Ao contrário do Allbrook, ele é bem bonitinho (pra um shopping – sabe né, o básico, aquelas coisas envidraçadas, terrações e tal), mas os preços acompanham os frequentadores e é um shopping ligeiramente mais caro do que o Allbrook. As rebajas são menores, as promoções duram menos e tem menos peças em promoção, no geral.

Tem, contudo, uma pista de patinação no gelo em dezembro, janeiro e julho, um quiosque da Haagen-Dasz bem legal (sorvetes são legais!) e várias opções diferentes de alimentação, um pouquinho mais sofisticadas e um pouquinho mais caras.

Via España

Bom para: cosméticos, roupas, eletrônicos, souvenir e artesanato. E pra ver o povo panamenho e o trânsito maluco.

Preços: interessantes. Chegam a ser melhores do que no Allbrook Mall para eletrônicos, e semelhantes em cosméticos, roupas e perfumes.

A Via España é uma das principais avenidas do Panamá. Ela é gigantesca, mas tem um trecho de alguns quarteirões cheio de lojas e pequenas galerias, na altura do McDonalds. O mesmo trecho é cheio de casinos e hotéis, então é cheio de turistas, então as lojas estão acostumadas com visitantes estrangeiros. Há muitas lojas de sapatos, óticas com bons preços, roupas para homens e magazines com acessórios e roupas femininas, além de algumas lojas de esportes, que vendem Nike, Reebok, Puma e Adidas a preços legais. Procure pela Galeria Lafayette para comprar malas de viagem, câmeras digitais e analógicas, profissionais ou não. Lá também tem artigos de decoração e eletrônicos, tudo a preços impressionantes. O dono, parece, compra lotes antigos de coisas então vende-as a preços fora do comum.

Na esquina do McDonalds, tem uma travessa cheia de hotéis, casinos, puteiros e lojas pra turistas, com lembranças do Panamá e os chapeús Panamá que você tanto queria comprar. PECHINCHE, em espanhol, e você conseguira preços razoáveis. Depois, volte à Via España e peça orientação para caminhar sentido El Cangrejo. Tem lojas dos dois lados da rua, mas por favor, cuidado para atravessar. Tente encontrar um farol, use a passarela de uma galeria que tem no meio da avenida ou procure um grupo de panamenhos, porque é muito difícil atravessar na Via Espanha, quase impossível.

Zona Libre de Colón

Zona Libre de Colón

Nós também estamos confusos com a quantidade de opções, tio

Bom para: eletrônicos, roupas de marcas como Abercrombie, Reebok, Vans, Nike, Billabong, Hurley, tênis e sapatos, bolsas, perfumes e cosméticos em geral, brinquedos. Tem mais coisas, como motos e bicicletas, mas se você vai tentar sair sem que percebam que você comprou, talvez seja difícil esconder uma bicicleta.

Preços: os mais baratos que você já viu na sua vida. Sem dúvida. Como referência, um Playstation 3 de 320GB custa 370 dólares, e dá pra pechinchar. Um tênis da Vans que no Brasil sai por cerca de 300 reais custa 20 dólares.

A Zona Libre de Colón é como uma cidade dentro da cidade. É um bairro emparedado, onde só estrangeiros, comprovando com passaporte, podem comprar, apesar de os panamenhos terem a entrada liberada. Fica a uma hora e meia da Cidade do Panamá; um taxi te cobraria um 100 dólares para fazer o passeio, ida e volta, saindo da capital, e também na Cidade do Panamá saem ônibus regulares do terminal de Allbrook para lá. A graça da parada está no fato que a Zona Libre é um lugar onde você pode comprar produtos sem nenhum imposto, e daí fica bem claro que aquela bolsa que no Brasil te custaria 200 reais pode ser vendida por 16 dólares com margem de luro pelo vendedor, porque são lojas intermediárias, não de fabricantes.

A lógica é que a Zona Libre seja um lugar em que comerciantes negociem mercadorias em atacado, paguem e enviem, via containers, direto para o porto ou para o aeroporto, para exportar. Na teoria, o que se vende em Colón não pode entrar no Panamá – porque senão, teria que pagar impostos. Então você não pode sair de lá com o que compra, e nem comprar coisas em pequenas quantidades. E aí você me pergunta: então, qual a graça de ir a um lugar desses?

É que na prática essas regras não funcionam. As lojas dentro de Colón pertencem a comerciantes independentes, que vendem sim a granel. Sair é uma loteria: os guardas param carro por carro e, por padrão, pedem para abrir o porta-malas. Só que, como você sabe, há outros lugares onde guardar as coisas, tipo embaixo do banco ou dentro da sua bolsa. Roupas e sapatos, por exemplo, podem ser VESTIDOS, as etiquetas retiradas. E assim as pessoas levam pra casa roupas, perfumes e eletrônicos por menos da metade do preço que pagariam no Brasil, e algo como 20% mais barato do que na própria Cidade do Panamá, em que as coisas já são bem interessantes no quesito PREÇOS.

E se pegarem os produtos na saída? Bom, vão apreender sua mercadoria e você vai pagar imposto sobre ela. Isso é o que deveria acontecer; na prática, a maioria das pessoas negocia algo que no Brasil a gente conhece muito bem: se chama propina e, como tudo aqui, até a propina é muito mais barata do que aí. NÃO ESTOU FAZENDO APOLOGIA A DAR PROPINA, só estou dizendo como as coisas funcionam por lá.

Bônus: Todo a Dollar

Bom para: todas as tranqueiras que possivelmente cruzarem sua mente fértil.

Preços: UM DÓLAR! É o mesmo conceito das lojas de R$ 1,99.

Então você descobre que o Panamá tem uma rede de lojas de preço único, a Todo a Dollar. Entra lá esperando encontrar o que encontraria em lojas de R$ 1,99 no Brasil. E encontra não só isso, mas toda a sorte de bizarrices. Esse bônus é mais uma espécie de galeria de fotos com a bizarrices. Algumas dessas coisas estavam até no mesmo corredor, pra você entender a VARIEDADE da loja. Todas as fotos estão no Flickr, mas selecionei alguns dos produtos mais incríveis que encontrei por um dólar:

Religião

Para os religiosos

Copos

Lindos copo de requeijão (2 por 1, heim)

Copos de shot

Esse não é um dólar, mas é um kit de copos de SHOT de tequila temáticos, com um DVD, e por 2,50 USD

Refrigerante desconhecido

Refrigerante de marca desconhecida, equivalente ao Dolly e com sabores bizarros tipo Tutti-Frutti

ATUM

É como eu sempre digo: atum é fundamental. E aqui é 2 por 1

Anatomia

Estudando anatomia por 1 dólar

Vamos nadar!

Nadar, na Todo a Dollar, é seguro. E colorido

Jonas Bros.

Adesivo de parede do Jonas Brothers, utilíssimo

Uma cueca

O Léo encontrou uma cueca por um dólar. Comprou

APROVECHE

Legumes e frutas, imprescindíveis (PLÁSTICOS - os de verdade costumam ser ainda mais baratos)

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