5 de janeiro de 2011 às 22h09
Mi Buenos Aires queridos
Eu estive em Buenos Aires nos últimos dez dias pela primeira vez. E minha principal impressão é que a a cidade é tudo o que São Paulo poderia ser e não foi, e isso tem muito mais vantagens do que desvantagens.
O sotaque porteño é uma versão mooquense do castellano. Também descendentes de italianos e de espanhóis, os porteños falam alto, com as mãos, com aquela entonação que os espectadores de Passione conhecem tão bem. São bonitos, os argentinos: vi lixeiros bonitos, motoristas de caminhão bonitos, taxistas bonitos, carregadores de verduras bonitos. E educados, também, o que joga no lixo mesmo aquele papo que diz que são arrogantes. Os argentinos são simpáticos e amáveis com estrangeiros: gostam de garantir que a gente se sinta muito, muito bem na cidade deles. Dos porteños, recebi desde dicas de restaurantes baratos até companhia voluntária para um lugar difícil de encontrar – uma senhora me acompanhou até meu destino, na direção oposta da casa dela, se despediu e foi-se.
Mesmo o jeito terrivelmente estúpido não prático de darem informações – algo do tipo “vire ali, depois três quadras lá, e mais três quadras para cima” – não é um hábito cultivado por mal ou à toa. É que as ruas da capital argentina são todas planas, a maioria de mão única. Daí, especificar direita ou esquerda acaba sendo substituído por gestos e ‘para lá’ e ‘para cá’.
Eu fiquei em San Telmo, o único bairro que eu visitei na vida que realmente merece o adjetivo ‘charmoso’, ainda que muitos bairros sejam assim classificados por corretores de imóveis. Nas ruas de paralelepípedos, ficam casinhas de estilo colonial super conservadas, que abrigam desde senhorinhas respeitáveis até dezenas de imigrantes no estilo cortiço. Não importa, na verdade. As lojas de antiguidade, as livrarias, os mercadinhos e açougues – tudo contribui para a atmosfera de ‘meu tempo já passou’ de San Telmo.

Tiozinho anda de bike em uma rua de San Telmo
A Argentina passa por uma crise de inflação curiosa. Não há moeda. Sacar dinheiro é impossível – de banco em banco, todos os caixas eletrônicos nos informam que não há ‘billetas disponibles’. O lado bom (para nós) é que, nesse cenário, o preço do real dispara. O lado ruim é que o preço das coisas lá também sobe. Ainda assim, elas custam metade do que custam aqui – de comida em restaurantes a mantimentos, de presentes a roupas.
Disseram que o ano novo Argentino é caído. Quem disse isso não foi pra mesma Buenos Aires que eu fui. Meus amigos brasileiros transformaram Puerto Madero em um caos. E eu, que fiquei em San Telmo, primeiro dançando salsa e cumbia no hostel, e depois vendo um grupo de cumbia ao vivo na Plaza Dorrego, tive um dos anos-novos mais surpreendentes da minha vida. Imagine 200 pessoas de nacionalidades diversas dançando ao som de um batuque maluco, uma espécie de maracatu com baião, enquanto três ou quatro argentinos no centro da roda dançavam uma coreografia que lembrava frevo com capoeira. Por uma hora e meia, sem parar.
O tal Puerto Madero, ao que parece, costumava ser uma região portuária perigosíssima. Aí o governo revitalizou a parada e agora é um lugar lindo, lindo, cheio de turistas babacas e restaurantes caros.
A Plaza Dorrego abriga todos os dias e noites grupos de estrangeiros e de locais afim de tomar Quilmes, ver apresentações de Tango e conhecer gente. De domingo, rola a feira de antiguidades, que tem de relógios antigos a discos de vinil e obras de artistas independentes.
Andar de skate ou de bike em Buenos Aires é moleza. As ruas são bem asfaltadas e, apesar do trânsito maluco, todos os lugares com exceção do centro e do microcentro têm calçadas e ruas largas. Mas a pé e de taxi também se faz muito – com a cidade plana e os taxis baratos, dá pra visitar muito por muito pouco. Atravessando a cidade, gasta-se no máximo 30 pesos.
Come-se de tudo por pouco, e bebe-se de tudo, também por pouco. Mas também come-se uma torrada com queijo por 20 pesos e cobram pelos seus talheres, se você não ficar esperto. Conheci um mineiro gente fina que tem um monte de TOCs curiosos, um hippie peruano que vende pulseiras e viaja, um grupo de atores cariocas, um turco que mora há dois anos em um hostel e cuja história de verdade ninguém sabe, mesmo. Aprendi a falar um portuñol ainda mais elaborado. Cozinhei risotto para uma sueca, uma inglesa e dois brasileiros (eles aprovaram). Fui ao zoológico, mas também vi animais ao ar livre, perto da Reserva Ecológica Costanera, em Puerto Madero.
Buenos Aires é uma cidade para casar – e no dicionário das cidades, isso significa que ela é apaixonante, completa e do tipo em que se pensa em morar. Subiu ao topo da minha lista de ‘cidades para viver um dia’, tomando o lugar de Barcelona, que é demais, mas mais cara e menos acessível para mim. Não vá a Buenos Aires se você não quer ter vontade de viver lá.
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23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 





