OEsquema

Panamá: um guia de compras

Vou tentar passar pra vocês a sensação única que é a de consumir no Panamá. Manja quando você compra algo na promoção, consegue um preço legal, e sai da loja com aquela sensação boa de negócio bem feito?

Agora imagina sentir isso o tempo todo. Quer dizer, virtualmente a gente consome o tempo todo – de pedágio à vendinha na esquina. Então imagina que, o tempo todo, você anda por aí com aquela sensação gostosa de EU FIZ UM BOM NEGÓCIO.

Em alguns momentos especiais, em que você encontra preços realmente assustadores (de baixos), bate uma espécie de DORMÊNCIA MENTAL. É que vem, então, uma grande revolta por comparar o quanto você sempre pagou por tudo no Brasil e o quanto as coisas realmente valem. E aí a gente fica, um pouco, que nem o Chaves quando dá aquela travada. Eu fiquei assim em uma loja em que comprei shorts jeans por 5 dólares. Tipo, não literalmente, mas fiquei um pouco chocada. Durante um tempo, não conseguia pensar direito – e não é que sai fazendo compras, nem nada, mas fiquei por alguns minutos contemplando por quanto tempo fui feita de idiota e acho que a MINDNUMBNESS foi uma maneira do meu cérebro de evitar o trauma.

PIRIPAQUE

As sensações são conflitantes e constantes, mas bem ou mal, eu aprendi a fazer compras no Panamá, sei onde ir, e garanto que isso por si só é uma das várias atrações turísticas daqui. Inspirada por esse sentimento libertador chamado livre consumismo, escrevi um guia para quem, como eu, deseja fazer compras no Panamá e em seus arredores. AH: se você não quer saber de nada disso porque não pretende vir pro Panamá tão cedo, pule direto pro bônus do final.

Pra começar, dicas fundamentais para se aventurar por aqui:

  • Pechinche SEMPRE. Aqui é comum e na maioria das vezes dá pra conseguir um descontinho, ainda mais se você estiver levando mais de uma peça de qualquer coisa. Se falar espanhol, melhor ainda.
  • Os produtos aqui não tem imposto embutido. O imposto, de 7%, é acrescido no caixa. Ou seja: pense em todo preço de etiqueta com 7% a mais.
  • Sempre que entrar em uma loja, pergunte se há peças em REBAJAS, ou seja, com desconto. A maioria das lojas tem sempre uma ou mais araras com peças em promoção, que costumam ser muito, muito mais em conta. Se não tiver seu número para uma roupa que gostou, peça à vendedora. Não é como no Brasil, onde as promoções rolam com as últimas peças: aqui, eles têm peças de estoque ‘rebajadas’, e geralmente colocam as coisas ON SALE quando vão receber coleções novas.
  • No meio da semana, tipo na quarta-feira, eu fui até a Zara pra ver se conseguia um bom preço em casacos de frio, daqueles bem pesados, porque vou precisar na Europa. A Zara tem coleções parecidas com a da Renner e, por aqui, preços também. Achei um excelente por 79 dólares, já que a Zara está em rebajas, um bom preço comparado ao quanto pagaria na Europa e definitivamente uma pechincha se comparasse ao Brasil. Voltei hoje, último dia das rebajas, e o mesmo casaco estava custando 59 dólares. E tinha um monte deles. Moral: quanto mais próximo do fim da promoção você puder ir a uma loja, melhor. Mas pense também que, quando mais tarde você for, menos peças legais vai encontrar. Eu dei sorte porque, assim, quem compra casaco pra enfrentar neve no Panamá?

Los Pueblos

Bom para: roupas, sapatos, artigos de decoração, celulares, brinquedos.

Preços: são ótimos, ainda mais com disposição para garimpar peças boas em lojas como a SAKS, Steven’s, REBAJAMODAS (essa só com roupas para homens)

Compras

Eeeerr, então, encontrei isso no provador… melhor não deixar suas coisas no chão se for a uma loja chamada SAK’S. É o preço que se paga por camisetas a 2 USD

Se você perguntar a um panamenho bem de vida, ele vai fazer uma cara de fresco quando você disser que vai a Los Pueblos pra fazer compras. Eles não vão pra lá pelo mesmo motivo que não frequentam as praias na costa de Colón: não gostam do aspecto pobre da região. E de fato, Los Pueblos é bem pobrinho, mas não é nenhuma periferia a qual um brasileiro não esteja acostumado. Quer dizer, eu imagino: ao menos você deveria estar acostumado a uma periferiazinha ou outra, mesmo que seja um empresário rico ou uma madame que vive indo pra Miami. Desculpa falar.

Los Pueblos é um bairro com um centro de compras que é como um graaaande shopping a céu aberto. Tem lojas de tudo quando é tranqueira que você possa imaginar: roupas, eletrônicos, celulares, artigos para decoração, material de construção, calçados, brinquedos… o lance é que lá tem uns outlets em que rolam promoções muito boas. A maioria delas, contudo, precisa de um fino trabalho de GARIMPO pra que seja possível arrancar algo utilizável. Pra homens é mais fácil encontrar coisas usáveis, tipo camisas da Lacoste a 10 dólares com pequenos defeitos de costura. Pras mulheres é mais difícil, mas foi lá que eu encontrei meu short de 5 dólares e as camisetas de 2 US$, então um pouco de paciência vai bem.

Prepare-se para andar MUITO. Sério, MUITO. O lugar é gigante, então leve seu chapéu (PANAMÁ DE PREFERÊNCIA NÉ RSRSRS) e filtro solar. Ah: lá não pode provar roupa.

Shoppings

Importante saber que nos shopping aqui, tem um trenzinho que fica passando com uma musiquinha, levando crianças dentro. E como os carros panamenhos, ele são bem barbeiros e desgovernados. TOME CUIDADO. Vou descrever os dois principais shoppings da região central, os que conheço bem. Ao chegar, procure o guichê para fazer o cartão de descontos para turistas. Basta ter passaporte para poder fazer: é de graça e em algumas lojas o desconto chega a ser de 20%.

Allbrook

Bom para: crianças. Não comprar crianças, seu pervertido, para levá-las. É que o shopping é muito colorido e as entradas têm nomes de bichos, com as estátuas respectivas, além de um carrossel colorido e musical no meio da praça de alimentação, com unicórnios de chifres peludos com as cores do arco-íris. O shopping é tipo uma viagem de ácido, como você pode ver.

 

LSDDDDDDDDDD

 

Mas enfim: no geral, é legal para comprar brinquedos, eletrônicos e roupas, além de cosméticos na Riviera. Para roupas femininas, uma loja chamada Estampa tem preços excelentes e peças interessantes.

Preços: são bons, os melhores para um shopping panamenho. Comparados com o Brasil, dá pra ver bastante vantagem. Se encontram bons preços e muitas opções de eletrônicos.

O Allbrook é um shopping gigante perto do principal terminal de ônibus da Cidade do Panamá, o Terminal Allbrook. Ele é o shopping mais feio que eu já vi na vida, e shoppings por definição não são bonitos. É frequentados por panamenhos da classe C, no geral, e alguns poucos turistas de naipe mais mochileiro. A arquitetura lembra um pouco uma caixa de sapato feita de concreto e pintada com todas as cores existentes na paleta da Suvinil. É cafona pra cacete, mas nada disso importa, porque ele é gigante e tem de tudo, e dos shoppings panamenhos próximos ao centro, é o mais barato.

Dificilmente você vai conseguir andar o shopping inteiro em um dia, mas dá pra encontrar lojas de todas as categorias imagináveis, de souvenirs de cinema a artigos para amantes da cultura oriental. O shopping tem uma porção de lojas de videogames e de eletrônicos com várias opções e preços razoáveis, como a Multimaz e a Panafoto, além de uma loja da Apple e um lugar maravilhoso chamado Premier, que vende todo tipo de eletrônico chinês por preços ridículos. A saber: compramos uma sanduicheira elétrica por 8 dólares, e ela é uma maravilha.

A praça de alimentação é super completa, deve ter entre 20 a 30 opções de restaurantes.

Multiplaza

Bom para: roupas de gente rica, tipo Dolce & Gabana, Armani, Louis Vuitton, jóias, relógios.

Preços: melhores do que no Brasil, mas caros em comparação com o Allbrook ou a outros lugares no Panamá.

O Multiplaza é um shopping de playboy. Frequentado por turistas e panamenhos que não têm cara de panamenhos, ou seja, da classe AAA, ele fica numa região de alta concentração de prédios de alto padrão, a Punta Pacífica. Ao contrário do Allbrook, ele é bem bonitinho (pra um shopping – sabe né, o básico, aquelas coisas envidraçadas, terrações e tal), mas os preços acompanham os frequentadores e é um shopping ligeiramente mais caro do que o Allbrook. As rebajas são menores, as promoções duram menos e tem menos peças em promoção, no geral.

Tem, contudo, uma pista de patinação no gelo em dezembro, janeiro e julho, um quiosque da Haagen-Dasz bem legal (sorvetes são legais!) e várias opções diferentes de alimentação, um pouquinho mais sofisticadas e um pouquinho mais caras.

Via España

Bom para: cosméticos, roupas, eletrônicos, souvenir e artesanato. E pra ver o povo panamenho e o trânsito maluco.

Preços: interessantes. Chegam a ser melhores do que no Allbrook Mall para eletrônicos, e semelhantes em cosméticos, roupas e perfumes.

A Via España é uma das principais avenidas do Panamá. Ela é gigantesca, mas tem um trecho de alguns quarteirões cheio de lojas e pequenas galerias, na altura do McDonalds. O mesmo trecho é cheio de casinos e hotéis, então é cheio de turistas, então as lojas estão acostumadas com visitantes estrangeiros. Há muitas lojas de sapatos, óticas com bons preços, roupas para homens e magazines com acessórios e roupas femininas, além de algumas lojas de esportes, que vendem Nike, Reebok, Puma e Adidas a preços legais. Procure pela Galeria Lafayette para comprar malas de viagem, câmeras digitais e analógicas, profissionais ou não. Lá também tem artigos de decoração e eletrônicos, tudo a preços impressionantes. O dono, parece, compra lotes antigos de coisas então vende-as a preços fora do comum.

Na esquina do McDonalds, tem uma travessa cheia de hotéis, casinos, puteiros e lojas pra turistas, com lembranças do Panamá e os chapeús Panamá que você tanto queria comprar. PECHINCHE, em espanhol, e você conseguira preços razoáveis. Depois, volte à Via España e peça orientação para caminhar sentido El Cangrejo. Tem lojas dos dois lados da rua, mas por favor, cuidado para atravessar. Tente encontrar um farol, use a passarela de uma galeria que tem no meio da avenida ou procure um grupo de panamenhos, porque é muito difícil atravessar na Via Espanha, quase impossível.

Zona Libre de Colón

Zona Libre de Colón

Nós também estamos confusos com a quantidade de opções, tio

Bom para: eletrônicos, roupas de marcas como Abercrombie, Reebok, Vans, Nike, Billabong, Hurley, tênis e sapatos, bolsas, perfumes e cosméticos em geral, brinquedos. Tem mais coisas, como motos e bicicletas, mas se você vai tentar sair sem que percebam que você comprou, talvez seja difícil esconder uma bicicleta.

Preços: os mais baratos que você já viu na sua vida. Sem dúvida. Como referência, um Playstation 3 de 320GB custa 370 dólares, e dá pra pechinchar. Um tênis da Vans que no Brasil sai por cerca de 300 reais custa 20 dólares.

A Zona Libre de Colón é como uma cidade dentro da cidade. É um bairro emparedado, onde só estrangeiros, comprovando com passaporte, podem comprar, apesar de os panamenhos terem a entrada liberada. Fica a uma hora e meia da Cidade do Panamá; um taxi te cobraria um 100 dólares para fazer o passeio, ida e volta, saindo da capital, e também na Cidade do Panamá saem ônibus regulares do terminal de Allbrook para lá. A graça da parada está no fato que a Zona Libre é um lugar onde você pode comprar produtos sem nenhum imposto, e daí fica bem claro que aquela bolsa que no Brasil te custaria 200 reais pode ser vendida por 16 dólares com margem de luro pelo vendedor, porque são lojas intermediárias, não de fabricantes.

A lógica é que a Zona Libre seja um lugar em que comerciantes negociem mercadorias em atacado, paguem e enviem, via containers, direto para o porto ou para o aeroporto, para exportar. Na teoria, o que se vende em Colón não pode entrar no Panamá – porque senão, teria que pagar impostos. Então você não pode sair de lá com o que compra, e nem comprar coisas em pequenas quantidades. E aí você me pergunta: então, qual a graça de ir a um lugar desses?

É que na prática essas regras não funcionam. As lojas dentro de Colón pertencem a comerciantes independentes, que vendem sim a granel. Sair é uma loteria: os guardas param carro por carro e, por padrão, pedem para abrir o porta-malas. Só que, como você sabe, há outros lugares onde guardar as coisas, tipo embaixo do banco ou dentro da sua bolsa. Roupas e sapatos, por exemplo, podem ser VESTIDOS, as etiquetas retiradas. E assim as pessoas levam pra casa roupas, perfumes e eletrônicos por menos da metade do preço que pagariam no Brasil, e algo como 20% mais barato do que na própria Cidade do Panamá, em que as coisas já são bem interessantes no quesito PREÇOS.

E se pegarem os produtos na saída? Bom, vão apreender sua mercadoria e você vai pagar imposto sobre ela. Isso é o que deveria acontecer; na prática, a maioria das pessoas negocia algo que no Brasil a gente conhece muito bem: se chama propina e, como tudo aqui, até a propina é muito mais barata do que aí. NÃO ESTOU FAZENDO APOLOGIA A DAR PROPINA, só estou dizendo como as coisas funcionam por lá.

Quem estiver procurando por um guia turístico que fale português na Cidade do Panamá, eu não posso ajudar, mas meu pai ainda está por lá e presta serviços incríveis de guia turístico – seja pra conhecer os melhores lugares pra fazer compras, as melhores praias ou então tirar o melhor daquela escala de 24 horas. O e-mail dele é roque.freitas [@] gmail . com. Pode escrever ;)

Bônus: Todo a Dollar

Bom para: todas as tranqueiras que possivelmente cruzarem sua mente fértil.

Preços: UM DÓLAR! É o mesmo conceito das lojas de R$ 1,99.

Então você descobre que o Panamá tem uma rede de lojas de preço único, a Todo a Dollar. Entra lá esperando encontrar o que encontraria em lojas de R$ 1,99 no Brasil. E encontra não só isso, mas toda a sorte de bizarrices. Esse bônus é mais uma espécie de galeria de fotos com a bizarrices. Algumas dessas coisas estavam até no mesmo corredor, pra você entender a VARIEDADE da loja. Todas as fotos estão no Flickr, mas selecionei alguns dos produtos mais incríveis que encontrei por um dólar:

Religião

Para os religiosos

Copos

Lindos copo de requeijão (2 por 1, heim)

Copos de shot

Esse não é um dólar, mas é um kit de copos de SHOT de tequila temáticos, com um DVD, e por 2,50 USD

Refrigerante desconhecido

Refrigerante de marca desconhecida, equivalente ao Dolly e com sabores bizarros tipo Tutti-Frutti

ATUM

É como eu sempre digo: atum é fundamental. E aqui é 2 por 1

Anatomia

Estudando anatomia por 1 dólar

Vamos nadar!

Nadar, na Todo a Dollar, é seguro. E colorido

Jonas Bros.

Adesivo de parede do Jonas Brothers, utilíssimo

Uma cueca

O Léo encontrou uma cueca por um dólar. Comprou

APROVECHE

Legumes e frutas, imprescindíveis (PLÁSTICOS – os de verdade costumam ser ainda mais baratos)

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E a música panamenha?

O Panamá não é, como você já percebeu a essa altura da sua vida, o que se pode chamar de POTÊNCIA EXPORTADORA DE TALENTOS MUSICAIS. E apesar de a maioria do que toca aqui ser importado da Colômbia e do México, o Panamá tem sim sua produção musical própria. Por assim dizer.

Só que o que eu devo mencionar é que boa parte é reggaeton e música típíca. O reggaeton é, bem, reggaeton. O que mais tem tocado é de um cara chamado Mr. Saik e chama “Que Xopá?” Dá uma olhada e tente, em seguida, tirar da sua cabeça o trecho “Quiero una sapatilla, papi!”

Agora imagine viver em um lugar em que isso é tocado à exaustão, cantarolado pelas pessoas na rua, trilha sonora ambiente de lojas no shopping. É ‘sapatilla’ o dia inteiro. “Que xopá?” – pronuncia-se ‘sopá’ -, como informa minha madrasta boa, versada em cultura popular panamenha, é tipo uma maneira malandra de dizer “QUE PASÓ”. É que eles invertem as sílabas. É como uma gíria pra “QUE QUE TÁ PEGANO”, aparentemente. A música fala, como 75% de toda a música popular produzida ao redor do globo, de uma mulher que fica pedindo pra que o namorado lhe compre tudo.

Vamos, agora, à música típica. Pra nós, brasileiros, ela não é nada surpreendente. Parece muito com o nosso brega, com a música Paraense, tem elementos do baião, do forró. Ó:

É possível prever que uma versão em castellano daquela “Quero não, posso não, minha mulher não deixa não” venderia milhões aqui. Milhões é modo de dizer, mas enfim. Algo como “No voy, quiero no, puedo no, mi mujer no me deja no”. Aqui estou eu, mais uma vez, provando porque sou pobre: quando tenho boas ideias, dou-as de lambuja a gente desconhecida.

Tem outro tipo de música típica que envolve, basicamente, crianças cantando de maneira completamente desafinada tentando se aproximar de música flamenca e acordeons. Tem até um programa que é tipo um Panamanian Idol infantil, onde essas crianças competem pra ver quem canta melhor. Só que todos são horríveis, então não entendo os critérios… ah, o chapéu é uma coisa típica do interior panamenho. Não é o chapéu Panamá que eles usam na roça, é esse aí do vídeo:

CONTUDO, há também coisas bem legais sendo feitas aqui. A minha preferida se chama Cienfue, e faz algo entre rock e folcore típico, mas não tem nada a ver com, sei lá, Cordel do Fogo Encantado. Ou Teatro Mágico, graças a deus. “La Dércima Tercera”, uma das mais legais, foi gravada em Panamá La Vieja, um lugar que eu visitei e cujas fotos até postei no Flickr:

No site do Cienfue tem os discos deles pra baixar na faixa. Nem todas as músicas são boas, mas tem umas bem legais, inclusive instrumentais. Outra boa, chamada “Isla Del Diablo”:

Aparentemente, a única coisa que o reggaeton, a música típica e o rock panamenho têm em comum são o baixo orçamento na produção de videoclipes.

E falando nessa coisa de fazer música misturando elementos latinos, no Brasil a gente não faz isso tanto quanto poderia, né? Digo, misturar elementos próprios da cultura brasileira – tipo o samba, o baião, o funk carioca – com música pop ou rock. Quando é feito, se não é MUITO DILUÍDO não entra nas PARADAS DE SUCESSO. E isso não acontece no resto da América Latina. Na Colômbia tem um cara chamado Juanes, que aliás já ganhou mais de um Grammy (ele é famosão lá. É tipo a Shakira homem) que toca pop rock com uma guitarrinha latina. Se liga:

E não é ruim, manja? Eu seria feliz em um país com música pop assim. Ok que o tal do Juanes também tem outras coisas meio ruins no repertório, mas não dá pra esperar perfeição, de todo modo. Melhor que Jota Quest e Luan Santana.

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Sequestro em Ribeirão Preto


Tem várias possibilidades. A primeira é o ladrão ter tomado um ácido ou comido uns cogumelos – isso explicaria a necessidade dele de resgatar o gnomo e seus companheiros de jardim, que há anos estão oprimidos pela grade (do jardim). A segunda é alguém ter assistido Amelie Poulain demais, e ai já viu, tem esse negócio de viajar com o gnomo de jardim, tirar foto com o gnomo de jardim…

Pode rolar do cara ser um louco que está lutando pela libertação de todos os gnomos de jardim. Nesse caso, nos resta aguardar e observar o noticiário ribeiro-pretano, em busca das próximas estátuas de cerâmica sortudas a ganharem o mundo. A propósito, eu mesma sou totalmente a favor da libertação dos gnomos de jardim, bem como dos cones de estacionamento. Acho inclusive absurdo chamar o responsável de ‘ladrão’; ele é um revolucionário, um libertário. Mas isso não vem ao caso.

Outra possibilidade é o cara querer sacanear alguém que claramente se importa muito com seus enfeites de jardim, porque só isso explica alguém ir até a delegacia para dar queixa de uma centopéia, um sapo e um gnomo de cerâmica. Não sou insensível, só realista.

Qualquer que sejam as motivações, fica claro que ele não é tão experiente quanto um profissional, e provavelmente não faz parte da Frente de Libertação dos Gnomos de Jardim, entidade francesa responsável pela libertação de muitos gnomos encarcerados. Nem tampouco é um justiceiro independente, como esse, que conseguiu dar liberdade a 170 gnomos na França.

Eu ia dizer que também é possível que os bonecos tenham criado vida e fugido por conta própria, mas isso claramente não aconteceu, e a própria polícia, pra não dar margem pra essa interpretação, deixa claro à reportagem que há marcas de pés sujos nas paredes. Agora, faro mesmo tem essa repórter aí, a Luiza Pellicani. Ter a presença de espírito de sacar que uma matéria de três parágrafos sobre um roubo de gnomos de jardim em Ribeirão Preto poderia ser comprada pela Folha de São Paulo (eu sei que ela foi comprada porque não é matéria da sucursal, é colaboração) exige muita perspicácia (e eu não tô zuando). Fosse eu a Luiza, no máximo riria da história e publicaria ela aqui. Por isso que eu tô pobre :/

VAZEI

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Muito bem bolado esse Canal do Panamá

Eu finalmente visitei a única coisa que realmente importa sobre o Panamá pra maioria das pessoas: o Canal. Agora, elas vão parar de me encher o saco quando eu disser que estive no Panamá, porque elas sempre perguntavam se eu tinha ido ao Canal e eu dizia que não. Não aguentava mais o ‘coooooomo assim você não foi no Canal?’, perguntado sempre com tom de indignação e voz estridente.

Canal do Panamá

É por aí que os navios passam - não essas portinhas, esse vão paralelo

O negócio é que assim, puxa, que obra fantástica de engenharia, eu reconheço… mas sério, grandes navios passando? Não via e não vejo grande atração nisso. ME CRUCIFIQUEM, mas é isso. Vale a visita se você tiver tempo, mas não é nada que se diga OH MEU DEUS.

Sem querer desanimar ninguém, claro. É interessante.

De todo modo, na última sexta-feira eu e um amigo norueguês, que conheci no Couchsurfing, resolvemos que iríamos nos aventurar pelo transporte público panamenho, ou seja, que iríamos tomar os Diablos Rojos – assim se chamam os ônibus – para ir ao Canal. Foi mais tranquilo do que imaginamos, apesar de eles dirigirem muito, muito mal. Só que isso não é nada que assusta ou surpreende depois de um mês observando o trânsito panamenho, então você deve ficar bem se optar, como nós, pela EXPERIÊNCIA ANTROPOLÓGICA.

Indo para o Canal

Olha o SACA aí!

Assim, antropológica mesmo não foi, até porque, não é como se eu precisasse ver mais panamenhos, eu os vejo todos os dias por todos os lados. Mas foi legal quando entrou um tipo caipira, que aliás, é igual aos tipos caipiras do Brasil: chapéu de palha com aba virada pra cima (à moda sertão-Panamá), mascando um galhinho, calça jeans, bota, mochilinha. Coisa fina. E quando um vendedor ofereceu duas escovas de dentes por 1 dólar (eram daquelas boas, com mil cerdas e borrachas!), e quando uma senhorinha foi à frente do ônibus e disse:

“Algum cavalheiro poderia ceder o lugar a essa velha senhora?”

E um tiozinho lá atrás, uma espécie de Hector Bonilha depois dos 50, fez a gentileza. É que os ônibus panamenhos não têm assentos preferenciais, obviamente. Outra coisa legal (“legal”) é que aqui os bancos dos ônibus são, como quase todos os bancos de ônibus do mundo, projetados para comportar duas pessoas, ainda que meio desconfortáveis. Até aí, nada de mais – o lance é que eles fazem do limão limonada, e é comum ocupar um banco com três pessoas. E elas simplesmente vão chegar e sentar-se, apertando você e seu brother de banco. Se um dia você vier e isso lhe acontecer, não estranhe (ou estranhe, mas de todo modo, você já foi avisado, então apenas dê uma risadinha e lembre-se desse blog).

E aí, bem, o Canal.

Olho no mapa!

A história é assim: desde que descobriram essas terras, já sacaram que a distância entre o Atlântico e o Pacífico por terra era tipo supercurta. Há registros de cartas dos exploradores para o rei da Espanha mencionando que seria legal ter um canal aqui pra não precisar dar tooooda a volta. Eu fico me perguntando como é que o cara saiu andando, chegou em outro pedaço de água e soube que não era o mesmo. Porque ele certamente não contornou a costa do continente inteira a pé pra ter certeza, e a terra podia muito bem acabar ali na frente, mais adiante. Podia já existir um vão no meio, aliás. Não sei como eles sabiam, MISTÉRIOS DA FÉ.

De todo modo, primeiro os franceses tentaram construir o Canal e fracassaram – esquema MAD MARIA, nego morrendo por causa de Malária e Febre Amarela. Foram 20 mil trabalhadores franceses pra vala. Daí anos depois vieram os americanos fazer o negócio direito. Aproveitaram escavações começadas pelos franceses, mandaram bala e, com mais grana, investiram em pesquisas pra tentar achar uma solução pra Febre Amarela. Erradicaram o mosquito, o que diminuiu as epidemias, e no fim, os surtos acabaram imunizando a população do Panamá contra Malária – hoje, tem Malária na América Central e Latina inteira, praticamente, menos aqui.

A construção do Canal era um acordo dos EUA com o governo daqui e era super justo: os EUA pagavam 10 milhoes de dólares, construiam o Canal e praticamente toda a arrecadação do Canal depois de pronto iria para os EUA, e a área se tornaria território americano. PERPETUAMENTE. FOR GOOD.

E aí você diz: ‘mano, como eles toparam?’

Naquela época, no começo do séc. XX, o Panamá ainda fazia parte da Colômbia (ololco, dessa você não sabia). Os EUA tentaram negociar a construção do Canal com a Colômbia, que ficou enrolando. Daí, DIZEM QUE eles apoiaram os rebeldes panamenhos que queriam a independência, colocando inclusive barcos na costa da Colômbia sob o pretexto de ‘treinamento’, só pra por aquela pressão, né? O Panamá conseguiu a independência e devolveu o favor. É, o mundo é sujo.

Aí, milhares de trabalhadores do muuuuundo inteiro, dezenas de milhares mesmo, vieram ajudar a cavar um riozinho entre o lado A e o lado B do mar, igual a gente faz quando quer ligar aqueles dois pocinhos de água que fez na areia da praia. E já tinha um lago no meio, o que só ajudou.

Dez anos depois, em 1913, estava pronto o Canal do Panamá. Ficou lindão, os EUA começaram a cobrar uma bica dos barcos que passavam, obviamente porque qualquer valor cobrado provavelmente seria menor do que dar a volta lá por baixo no continente, e começaram a fazer grana. Nos anos 70, rolaram uns protestos dos panamenhos, coisa EGÍPCIA ASSIM, PANCADARIA, e o Panamá conseguiu um acordo com os EUA para retomar aos poucos o controle do Canal, chegando a 100%  em 1999.

Canal do Panamá

Eu estava lá e posso afirmar, REALMENTE FUNCIONA. 'Bem bolado', diria Silvio Santos

E assim foi. Exceto que quando os EUA saíram, em 1999, eles deixaram um monte de gente sem emprego, HEH. E geral achou que o Panamá, então com desemprego recorde, não ia saber gerir o Canal sozinho nem realocar essas pessoas apropriadamente no mercado de trabalho. Mas ó, tá rolando. Eles reformaram as estruturas, aumentaram o tráfego de barcos e a arrecadação, estão construindo novas eclusas e é por causa da grana que tiram de lá que as coisas aqui melhoraram – tipo a segurança, ou a modernização da cidade, por exemplo.

Moral da história: o vilão é sempre os EUA. Exceto quando ele é o terceiro país que mais lê o blog, depois de Brasil e Portugal. Aí ele é mocinho.

O Canal tem um prédio turístico, com um museu bem legal que conta a história da construção e vááárias espécies de insetos e peixes que vivem ali na região biodiversidade essa que foi toda prejudicada com a construção do Canal, provavelmente, mesmo que isso não seja mencionado em nenhuma plaquinha explicativa do museu. Acho que foi a parte em que mais diverti, gosto de insetos.

E tem uma varanda grande, de onde é possível ver – tchanam! – as eclusas funcionando e os grandes barcos passando! É interessante, mas um pouco monótono porque demora uma meia hora ou até demais dependendo do tamanho do barco. Basicamente, o sistema tem várias comportas que se abrem e fecham para encher os compartimentos de água, igualar os níveis e transportar a embarcação… é, eu sei que não fez sentido. Mas é meio difícil de explicar, mesmo, então olha aí como funciona:

Ah: tem uma loja de souvenirs, óbvio, mas concluí que é, sem dúvida, o estabelecimento comercial com preços mais desproporcionalmente caros do país.

Quero ir ao Canal!

A parte que inclui vir ao Panamá eu não preciso explicar, né? Bem, considerando que você já está aqui, o melhor horário em dias de semana é chegar lá até umas 13h30, no máximo. Mais tarde do que isso, começa a encher.

Você é rico e quer contratar um guia? Ótimo, mas é meio desnecessário. O museu é cheio de plaquinhas bem explicativas e, além disso, se você comprar a entrada completa, de 8 dólares, tem direito a um filme de 15 minutos com toda história do Canal e muita propaganda governista e a conhecer o museu. A entrada que dá acesso somente à varanda pra ver as eclusas custa 5 dólares.

Há dois jeitos de ir até o Canal, que fica cerca de 30 minutos do centro da cidade (sem trânsito, e se você conseguir isso no Panamá, você não está no Panamá). É possível negociar com um taxista por uns 40 dólares, se você falar um ótimo espanhol, que ele te leve ao Canal e depois de volta ao hotel. Se negociar em inglês, o preço pode passar dos 60 dólares. Essa é a opção COXINHA.

O outro jeito é se aventurar nos fantásticos ônibus panamenhos, que aqui custam no máximo 35 centavos de dólar. O roteiro é o seguinte:

1. da cidade, tome um ônibus até a estação de Allbrook. Há vários, basta se informar na recepção do hotel em qual ponto você deve pegá-lo. Outra opção é ir de táxi até a estação – das regiões centrais e hoteleiras, não deve sair por mais do que 2 dólares.

2. quando chegar na estação de Allbrook, siga até a praça de alimentação, ache o Burger King escondido lááá no fundo e vire à direita ali. Você vai sair no pequeno terminal de onde saem os ônibus para o Canal – o nome do ônibus é Saca. É um Diablo Rojo igual aos outros, aliás. Dali, pegue o busão. Até agora, você deve ter gastado no máximo 3 dólares e no mínimo 75 centavos com transporte. AH: no Panamá, você paga o ônibus na saída.

3. para descer, peça ao motorista para avisar ou então desça no ponto em que saírem as únicas pessoas loiras ou caucasianas que estiverem no ônibus, ou seja, os gringos.

4. na volta, você pode esperar pelo mesmo ônibus no ponto do lado oposto da estrada, e ele demora meia hora, dar a sorte de avistar um taxi e fazer sinal (e gastar uma bica) ou então aproveitar os ‘taxis clandestinos’. Espere no ponto e cedo ou tarde um carro vai parar e perguntar ‘Donde te quedas?’. Diga a onde vai e ele dirá um preço, geralmente muito mais baixo do que um taxista cobraria de um turista – algo como entre 2 e 3 dólares. Se são seguros? Eu usei um e foi. O cara dirigia feito um maluco, mas no Panamá, quem não dirige? Peguei muito taxista pior que ele. E ainda rolava um reggaeton de trilha sonora.

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E o Qwiki, você conhece?

Que Google e Wikipedia, que nada. O jeito mais legal de descobrir coisas hoje se chama Qwiki.

Quik

O que faz do leite uma alegria?

Não é desse Quik que eu to falando, muito embora esse tenha um significado muito maior pra mim. Só o cheiro já me lembra a minha mais tenra infância. De todo modo falo do Qwiki, que como o Murilo, violeiro de mão cheia, bem explicou nesse post lá no Link, é aposta até do Eduardo Saverin, o brasileiro que é sócio do Facebook.

Felismente, O Qwiki não é mais uma rede social, não é mais uma ferramenta de geolocalização ou um microblog. Trata-se de um sistema de busca que exibe os resultados de uma maneira muito mais amigável e multimídia, usando para isso conteúdo aberto, um gerador de vídeos e uma tecnologia de simulação de voz humana que deixaria o mais simpática PABX de SAC ao telefone completamente desconcertado, se sentindo um robô sem emoção. Microsoft Sam chora ao ouvir a moça do Qwiki contando histórias.

O Qwiki, aliás, é bem isso: um buscador que conta histórias. Olha aí um exemplo legal:

E bastou digitar NETHERLANDS no campo de busca para que o Qwiki retornasse com esse vídeo, que aliás é perfeitamente embedável. Aí você diz – mas Bial, eu não falo inglês, não entendo porra nenhuma do que essa mulher fala! E eu respondo: amigo, se a essa altura do campeonato você não fala inglês, corre atrás do prejuízo. E respondo também: mas tudo bem, você entendeu a lógica do negócio e entendeu que isso seria muito, muito legal se tivesse uma versão em português.

Os verbetes são bem variados, mas por enquanto as buscas funcionam melhor para nomes de pessoas e de lugares, acontecimentos importantes, instituições de grande prestígio, além de coisas importantes, tipo… cerveja. Eu já migrei pro Qwiki quando preciso de uma definição rápida de um lugar. O importante é ter em mente que toda e qualquer coisa cuja Wikipedia apresentar uma boa definição a respeito estará em um vídeo detalhado no Qwiki.

Enquanto você pensa em como a aquisição de conhecimento pode se tornar uma coisa mais simples e divertida se iniciativas como o Qwiki se tornarem padrão na internet, e faz apostas de quanto tempo vai demorar para que o Google compre e implemente a tecnologia do Qwiki em suas buscas, conheça um pouco mais sobre o bacon, um oferecimento Qwiki. Escolhi o bacon por ser algo que quase todo mundo gosta.

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Eu estive no paraíso e voltei para contar

Eu nunca achei que fosse conhecer uma ilha paradisíaca. Também não era nada que tivesse no meu checklist de objetivos de vida – o que é uma pena, e um erro grave. E digo mais: se no seu checklist de objetivos de vida você não tiver ‘conhecer uma praia paradisíaca’, talvez seja legal acrescentar. E eu acho que vou te convencer depois dessas fotos.

Isla Mamey

É tudo de verdade

Isla Mamey

Sério.

Ontem eu fui a uma ilhota no Caribe chamada Ilha de Caras Isla Mamey, na costa de Portobelo, uma cidade na província de Colón, a cerca de uma hora de Cidade do Panamá. Era o principal porto pelo qual a Espanha tirava as riquezas daqui na era colonial, e o lugarzinho é considerado patrimônio mundial pela Unesco. Da estrada, dá pra ver o forte de uns 400 anos de idade, cheio de canhões enferrujados, e a aduana que controlava a saída de ouro e matéria prima que era enviada da colônia até a Espanha. O forte não foi forte o suficiente (HEH) para impedir que o pirata safado Henry Morgan, o mesmo que arruinou toda a Cidade do Panamá no séc. XXI, botasse fogo, saqueasse e matasse todo mundo também em Portobelo, em 1668. Daí depois os ingleses tomaram a região, os espanhóis pegaram de volta e essas coisas que acontecem na história. Era um lugar agitado; quem vê hoje, não diz.

O forte

O forte de Portobelo

O lance é que eu sempre achei que ilhas paradisíacas só fossem acessíveis pra gente rica ou pra quem tivesse acesso a grandes estúdios de cinema, com complexos de cenários artificiais. Mas chegar a Portobelo da Cidade do Panamá só leva uma hora e meia de carro. Dá pra pegar um ônibus de viagem por menos de 50 dólares, ou acertar com um taxista por uns 80 dólares. Chegando na cidade, além das casinhas expurgadas de pobres, que lembram a periferia de GTA: Vice City (Panamá é um pouco o GTA Vice City no geral, mas essa é uma teoria pra um outro dia), dá pra ver placas oferecendo barcos pras principais ilhas da região.

A mais famosa chama Isla Grande, e era onde a gente ia a princípio, mas ouvimos falar que a tal Isla Mamey, uma ilhota particular, de um espanhol que tem mais três ilhas na região (NA HUMILDADE) era mais limpa e mais vazia. Além de muito rico, ele é generoso, porque apesar de ser dono da ilha, permite que a galera chegue lá pra usar a praia numa boa. A ilha é tão pequenininha, tão cheia dos estereótipos de ilhas paradisíacas como aquelas de filmes, que a todo momento eu ficava pensando em coisas que poderiam ter sido filmadas ali, como um reality show louco, A ILHA, A LAGOA AZUL, A PRAIA, O NÁUFRAGO e, é claro…

WE HAVE TO GO BACK

Chegamos no estacionamento do portinho e já avistamos uns três moleques, entre 10 e 13 anos, discutindo com um cara mais velho que parecia o Seu Boneco da Jamaica, um negão com uma toca feita de meia-calça. Aparentemente, eles estavam disputando o direito de olhar nosso carro. Não acompanhei a discussão até o fim, mas acho que eles acabaram dividindo entre si os carros a responsabilidade dos quatro veículos – cujo estacionamento, aliás, nos custou 3 dólares por carro.

Panamá e seu ecleticismo musical

Essa era a van dos flanelinhas, exibindo todo um ecleticismo característico da Am. Central

O próximo passo era acertar com um barqueiro o transporte até a Isla Mamey. Por 5 dólares por cabeça, um mulato gente fina chamado Manuel topou fazer a ida e a volta. Além de operar o motor da parada, ele garantiu que todos nós estivéssemos vestindo os lindíssimos coletes salva-vidas e fez as vezes de guia turístico, explicando o nome e um pouquinho de cada ilha pela qual passávamos. Ofereceu inclusive a versão COM EMOÇÃO do rolê, um caminho que passa por dentro de um túnel feito com vegetação de um mangue (El Tunel Del Amor, e eu juro que esse é o nome), um lugar lindo, que me lembrou a Amazônia se eu já tivesse ido a Amazônia, e que na saída pega uma correnteza e ondas dos diabos, o que quase upgradeou nosso passeio de traslado até a ilha para rafting em alto mar pelo mesmo valor. VALEU A PENA!

Doca em Portobelo

Docas em que pegamos o barquinho pras ilhas

A caminho da ilha

Manuel, barqueiro brother

A caminho da ilha

EL TÚNEL DEL AMOR (não fui eu que dei o nome. E sim, eu sei que isso parece nome de outra coisa)

Pro Manuel, adiantamos 20 dólares da gasolina e combinamos de pagar o resto quando ele voltasse. E quando eu cheguei, demorou um tempão pra que eu acreditasse que um lugar tão foda fosse tão simples e barato de chegar. E vazio. E desconhecido. Como a Isla Mamey não está nos guias de viagem? Porque os panamenhos não alardeiam esse tipo de turismo pra todo mundo?

Isla Mamey

CHEGAMOS PASSA A FAROFA

Isla Mamey

TÔ NA LOCAÇÃO DE LAGOA AZUL

Ok que o esquema da Isla Mamey é BEM roots. A parte utilizável da ilha e da praia é minúscula, o resto é mato – lindo e bem aparado, até, mas mato. Não tem resort, barraca, o banheiro é improvisado dentro de uma construção do lado direito do terreno. Mesmo assim, dá pra acampar numa boa, levando comida pra assar e água engarrafada. Mas o lugar é lindo e limpo, e o dono espanhol generoso até mandou construir umas tendas pras pessoas poderem passar o dia, ou a noite, e uns plateaus de cimento ocasionais, pra montar barracas e tal. Ou seja: não explica porque ali só tinha, em maioria, turistas europeus. No dia inteiro que passamos, convivemos com uns 8 ou 9 grupos, entre casais e famílias cheias de crianças, em maioria – pelo que escutei – da Espanha, da Itália, da Grécia e de algum lugar do Leste Europeu. Onde estavam os panamenhos? Por que eles não vão a essas praias?

Saiu panorâmica

No fim da tarde, com a maré baixa

Colón e Portobelo são regiões extremamente pobres. Lembram, aliás, cidades rurais de baixa renda do interior de São Paulo – Itapecerica da Serra seria um bom exemplo pra comparar, só que com menos ou zero encostas. Acontece que, pros panamenhos, parece que esses lugares lindos não são frequentáveis porque, para ir até eles, é necessário passar por regiões mais feias. E aí, o Guarujá deles não fica na lagoa azul, fica nas praias do pacífico, na costa oposta. Não há nada de errado com isso, é claro, exceto que eles estão desperdiçando uma das coisas mais fantásticas que o país tem e inclusive esquecendo de contar pro mundo que essas coisas estão ali.

Portobelo

As casinhas pobrinhas em Colón

Mas tudo bem, PORQUE EU ESTOU AQUI PRA ISSO! Alô MINISTÉRIO DO TURISMO DO PANAMÁ, ME CONTRATE.

Daí a ilha tinha um ZELADOR. Ainda acho que o cara era só um aproveitador, alguém que vai pra lá de manhã e inventa um papo pra cobrar dos turistas desavisados. De todo modo, ele veio com uma história de uns 20 minutos sobre como ele entendia que ninguém tinha avisado mas que se cobrava sim e que o dono espanhol pedia pra ele cuidar e que não era de graça não blá blá blá… resultado: 3 dólares por cabeça. A gente achando que o cara fosse falar COBRO 20 POR PESSOA, LIBERA A GRANA OU VAZA NADANDO, ele pediu 3 dólares por pessoa, só. Achamos justo: ele ainda cedeu o banheirinho – ok, não era grande coisa, mas… – e descolou umas porções de frango frito. Além disso, aparentemente ele também organizava as latas de lixo e no fim do dia recolhia tudo.

Isla Mamey

Tendas de sapé na ilha

Nota: importante avisar aqui que ele ‘descolou’ porque a parada funciona de um jeito um pouco heterodoxo. Você chega pro tio e pede uma porção de frango frito e ele cobra, sei lá, cinco dólares. Aí ele pega o CELULAR – o celular funciona! – e dali a uns 20 minutos CHEGA UM BARCO COM UMA PORÇÃO DE FRANGO FRITO. O tio não fica fazendo nada o dia inteiro na parada; tá ele, a mulher e umas três crianças lá, na ilha, o dia inteiro coçando, e nem pra temperar e fritar um frango, ELE MANDA TRAZER.

Isla Mamey

O BARCO DO FRANGO CHEGOOOU (baseado no clássico O CARRO DA MELANCIA CHEGOOOU)

Nadei bastante na água cristalina e até fiz mergulho – com snorkel, gente, que sou simples – mas tinha peixe pra cacete, de todos os tamanhos e cores, além dos sirizinhos e dos caramujos. E eles são meio ousados, meio que vão indo pra cima. Não são tipo pombas do mar, sabe, que se assustam com presenças estranhas. Você chega e ele começa a nadar perto de você, parece que vai tentar ver se sua pele tem comidinhas.

Isla Mamey

<3

De verdade, em alguns momentos não acreditei que estava em um lugar com paisagens tão incríveis, dessas que servem de catálogo em agência de turismo e se publicam em guias de viagem, e por tão pouco. A câmera trabalhou pra caramba, tirei umas 500 fotos, todas já no Flickr. Até entrei com a câmera dentro da água pra poder tirar foto das pessoas lá – quer dizer, eu entrei na água com a câmera em mãos, não coloquei a câmera na água porque isso seria estúpido.

Dá pra ver meu pé

Dá pra ver meu pé na água do mar

Depois de um dia de sol ardido, muito estímulo visual e um cansaço mortal, no fim da tarde, pouco antes do horário combinado com o Manuel, estendi na grama um saco de dormir e tirei um cochilo embaixo do coqueiro. Uma meia hora depois, arrumando as coisas pra ir embora, vejo os filhos do ZELADOR DA ILHA atrás da nossa tenda pegando uns cocos e aí, de repente, eles começam a arremessar umas pedras no tronco do coqueiro. O motivo:

Uma intrusa

SAAAAAAAAAAAAAAAAAI MANO

Meu pai, membro do PETApreocupado com a sustentabilidade do ecossistema da ilha, pediu e eles acabaram deixando o bicho vivo.

Na volta, paramos em um restaurante em Portobelo chamado Los Cañones e comemos comida típica da região, que é claro são aranhas caranguejeiras fritas frutos do mar com várias outras coisas, tipo arroz com coco, que eu comi e é bom pra cacete, além do melhor ceviche de polvo da minha vida. E como se não bastassem as paisagens lá da ilha e todos esses lugares maravilhosos – sério, se vocês vissem as fotos que eu apaguei hoje, me achariam louca, mas é que eu tirei tantas e todas são tão lindas que algumas ficaram até ruins, o que seria impossível – o meu dia de Lost terminou com outra vista fantástica, da varanda do restaurante:

É MUITA LINDEZA

Ah, não esquece de entrar no Facebook e curtir a página do Olhômetro – dá pra ser avisado das atualizações e ler direto lá. E eu também quero saber o que você, leitor amigo, está achando desses últimos posts na vibe LONELY PLANET. Tá legal? Tá uma merda? Conversa comigo, pelos comentários ou pelo Facebook do blog. <3

Gosta de ler sobre viagens? Visite o http://www.drumbun.com.br - lá eu escrevo só sobre os lugares que visito. :)

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Cidade do Panamá for dummies

Como vocês notaram, o design mudou, mas por enquanto só funciona no Chrome. Peço paciência: meu programador prometeu que arruma até hoje (sexta, 28) e eu tô confiante.

O Panamá é um lugar legal e quente pra caramba, quente demais. É tipo uma sauna a céu aberto: todo lugar tem um ar condicionado muito, muito frio, e quando você sai parece que entrou em um carro que ficou 8 horas no sol, sabe? Aí, você tem choque térmico e fica doente. Eu fiquei quando cheguei, mas agora já tô boa. Parei de suar, também. Você chega e fica suando que nem um porco, o tempo todo. Depois de uns 3 dias passa, acho que o corpo se acostuma ao calor. O lado bom: tô bebendo litros de água todo dia.

Tô aqui na casa do meu pai, um apartamento de três quartos no 18º andar de um bairro que é tipo uma Vila Mariana, por assim dizer. Se chama El Cangrejo. É um bairro bom, e dá pra fazer bastante coisa a pé, que é o que eu tenho feito.

A vista da sacada do apartamento

Aqui na Cidade do Panamá nao tem misééééria, assim. Não tem gente que mora na rua. Rolam alguns poucos pedintes, que geralmente se focam nos turistas, e tem uns cortiços. Mas também não tem classe média: é tipo classe AAA, classe A e classe C, uma classe C que aliás tem acesso a bens de consumo porque aqui tudo é muito barato – roupas, comida, eletrônicos. Então não tem mendigos maltrapilhos, porque uma calça jeans em um oulet custa entre 5 e 10 dolares, e uma camiseta, 1,50 dolar. Ah, sim: a moeda oficial se chama Balboa, mas eu só vi Balboas de um centavo. A moeda que circula é o dólar. Mas digresso: dá pra comprar camisa da Lacoste com pequenos defeitos – sabe, uma costura rasgada, uma manchinha – por 8, 6 dolares. Entao fica todo mundo NA ESTICA. Não tem gente passando fome, não tem analfabetismo, a educação é barata e todo mundo que quiser fazer faculdade de graça faz, porque tem vaga pra todo mundo.

TODO A DOLLAR

O TODO A DOLLAR é uma loja que vende tudo por um dólar. E quando eu digo tudo, realmente quero dizer tudo

Geralmente, nos dias de semana, eu saio pra dar rolê em algum dos lugares interessantes na cidade – um parque, um ponto turístico, uma avenida com lojas baratas – ou vou ao shopping garimpar roupas em promoção. Já fiz compras suficientes pro meu dinheiro acabar, o que provavelmente significa que não vou conhecer as ilhas paradisíacas na costa do Panamá, mas isso não me incomoda muito a essa altura. Há muito para se ver na Cidade do Panamá e nos arredores, e por pouco dinheiro.

Ruínas

Uma parte das ruínas de Panamá La Vieja, vista de cima de uma catedral que tem uns 500 anos

Já fui a Panamá La Vieja, que é o local onde a primeira cidade do Panamá foi construída – quer dizer, uma vila medieval, em 1530, e a região ainda tem um monte de ruínas. E só são ruínas porque um pirata-bucaneiro sacana chamado Henry Morgan (que não é pouca merda, tem até verbete na Wikipedia) passou aqui em 1650 e qualquer coisa e botou fogo na porra toda. Só sobraram umas pedras, mas são pedras bonitas, de todo modo. Também fui a um lugar chamado Causeway, uma via tipo avenida-da-praia, mas com mar dos dois lados. Liga a costa a uma ilha próxima e foi construída com areia que tiraram do Canal. É um lugar lindo, com ciclovia e coqueiros margeando o espaço todo, um porto com barcos, lojas e coisas pra turista ver na ilha e uma paisagem estonteante.

Causeway

A Causeway

Conheci poucos panamenhos – só o sócio do meu pai, o Ernesto, um baixinho atarracado gente fina, a faxineira aqui de casa e umas amigas da mulher do meu pai. Da minha idade, ninguém. Para os padrões de beleza brasileiros, o panamenho ou panamenha média podem ser considerados feios, o que nos torna – a mim e ao meu irmão – muito lindos ou muito exóticos. E eu presumo isso porque todo mundo fica olhando pra gente quando passamos em um lugar muito panamenho.

Barcos

E aí, tamo gato?

Aqui tem uma cultura à estética forte, maior do que no Brasil. Tem um salão de beleza a cada esquina, e as mulheres agendam horários pela manhã pra fazer escova todo dia antes de ir pro trabalho. Na rua, os homens mexem com qualquer ser do sexo feminino que esteja de shorts, de taxistas a funcionários da prefeitura em carros oficiais. A altura média de um homem panamenho é a minha, meio que 1,65, o que tira um pouco do impacto das cantadas.

Na média, nos estabelecimentos comerciais, os panamenhos atendem mal, porque ganham mal e porque não têm simplesmente uma cultura de ‘gentileza’ com o próximo. Mas há exceções, especialmente nas regiões com muitos estrangeiros. E muita gente é bem simpática, atenciosa e receptiva com turistas. Reparam que você precisa de informação e se oferecem pra ajudar, dão toques sobre onde e como ir e onde e como não ir, perguntam de onde você é e se está sendo bem tratados e até arranham umas palavras em português. São um povo muito HOSPITALAR, como diria o Zanata.

Aqui come-se muito, muito bem e por muito pouco. Os fast foods, que têm de monte, e os supermercados têm todos padrão americano, das porções exageradas às marcas. Mas há restaurantes de todos os tipos a preços ridículos – o próprio preço do McDonalds, que vende um número de Big Tasty, que aliás é maior do que no Brasil, com batata grande e refrigerante grande pro 4 dólares, já é um bom termômetro. E todo lugar tem brownies – alguns melhores, outros piores, mas eles estão por todo lugar.

O trânsito daqui é maluco, só tem SUVs, aqueles carros americanos grandes, tipo TUCSON, porque eles são ultra baratos: custam tipo 7 ou 8 mil dólares. E todo mundo dirige que nem retardado, como naqueles vídeos de trânsito na Índia, onde não há regras. Nego fecha cruzamento, buzina pra tudo, costura no trânsito, passa a 15 centímetros de você quando você atravessa a rua e tudo isso é muito comum. Atravessar a rua aqui exige, inclusive, uma inteligência que não é nata pra nós, acostumados a outro tipo de lógica de trânsito. É kamikase: bote o pé na rua, mesmo que o carro esteja vindo, calcule se será possível correr e corra. Ele não vai diminuir a velocidade e é possível que acelere. Mas se você for esperar ‘dar tempo’, vai ficar 10 minutos parado na calçada. E é permitido passar no farol vermelho se, por exemplo, você estiver na pista da direita e for entrar a direita em uma via cujo fluxo corre nessa direção.

Trânsito panamenho

Desse ângulo dá pra ter noção que não é possível aceitar a maneira como os carros estão dispostos na via

Ah. Tem uma avenida chamada VIA PORRAS, e uma cidade próxima chamada BOQUETE.

Não tem poluição, nem violência, e a cidade é pequena – o país inteiro tem 3 milhões de habitantes, e a Cidade do Panamá tem 1,5 milhão. Vive-se com muito, muito mais qualidade de vida do que em SP. O pôr do sol é lindo, todos os dias. E apesar de ser uma grande metrópole e ter muitos prédios, não é o suficiente para impedir uma vista foda do pôr-do-sol todos os dias.

Pôr do sol

Pôr-do-sol em um dia mais feio, assim

Os panamenhos são como portugueses perdidos na América Latina – digamos que eles entendem as coisas um pouco ao pé da letra demais. Tem um bandejão servindo frango com batatas, e você quer só batatas: não pode, leve o frango junto e joga fora se quiser. No meu primeiro dia, eu precisava de um benjamim (gente, que nome estranho que isso tem em português. É um nome próprio. É tipo chegar na Rússia e descobrir que CABO USB chama, sei lá, Roberto. E aí?), e fui arranhar meu portuñol numa loja cheia de trecos elétricos.

- Yo queria algo así como un… adaptador. Si, un adaptador – diante da cara de confuso do tio, eu completei – para plugs…?
- Hum… no, no tenemos. Lo que tenemos és solo esto – disse o tiozinho de óculos, me mostrando um benjamim.
- Por supuesto, era isto que yo buscava. Todavía, como se llama esto?
- Adaptador.

TRUE STORY.

Eu batizei de Panamense o espanhol falado no Panamá, que é um pouco fanho, suprime consoantes e principalmente os S das palavras, além de misturar inglês com sotaque latino no meio: bonito é PRITI, com aquele T da Moóca, se o mar tá sem onda ele tá FLÁT, um gato feliz é um RÁPICAT. E eu sofro pra entender a YAMI (pronuncia-se JAMIL, mais ou menos), a diarista aqui de casa. Outro dia ela chegou e começou:

- Ana DIATUPAPA QUESEABOELSUAITEL – é, foi assim mesmo.
- AHN – essa fui eu, chocada. Ela repetiu, ficou igual. Pedi – Habla mas de espacio, por favor. No te entiendo.
- DIRRATU PAPA QUE SE AGABO EL SUABITEL.
- Humm… que és SUAVITEL?, perguntei. Pelo menos tinha entendido a lógica da frase.
- NOSABE QUE ÉS SUAITEL?, continuou YAMI, um pouco esnobe.
- No.
- EPA ENAUÁLAROPA.

Outro desafio. Respirei fundo.

- QUÊ? (por incrível que pareça, eles entendem um ‘QUÊ?’)
- ENAUÁ.
- AHHHNNN???
- E-NA-UÁ!

E num golpe de sagacidade extrema, consegui deduzir que ela estava dizendo ENJUAGAR, panamense para o nosso bom e velho ENXAGUAR. Ah, Suavitel é amaciante.

ENAUÁÁÁÁ

Esse texto, ou quase ele, é o que escrevi aos meus amigos mais próximos ontem a noite sobre o lugar onde estarei pelo próximo mês e onde passei as últimas duas semanas. Todo mundo gostou tanto que resolvi editar e publicar aqui – e pensando bem, é um bom guia da Cidade do Panamá pra quem não faz ideia de como é esse lugar, ou seja, todo mundo que não mora na Colômbia ou na Costa Rica ou no máximo no Peru.

Volto ao Brasil no dia 28 de fevereiro e no dia 15 de março embarco para a Holanda, onde fico por um ano, e onde terei (suponho) outras impressões como essas pra dividir. Não que eu não vá publicar mais nada sobre o Panamá, já tenho mais posts no gatilho. Um deles é sobre compras: aqui é tão legal pra fazer compras que eu comprei até uma lâmpada do gênio.

A lâmpada do gênio

Eu sei que é inútil DEPOIS DO ÚLTIMO DESEJO, mas foi só 7 dólares

Ah, se você gostou da amostra grátis no post, dá pra ver todas as fotos que eu tirei no meu Flickr.

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De El Cangrejo a Punta Pacífica

Esse texto foi postado originalmente no 3meia5.

Fim de tarde em El Cangrejo

A minha sina é esse negócio de viver em lugares que as pessoas consideram de menor importância. Como Santo André, ninguém sabe nada sobre o Panamá – bem como Santo André, onde eu morava antes de vir pra cá, as pessoas têm ideias completamente equivocadas do que esse lugar pode ser.

Palavras-chave sobre o Panama na cabeça do brasileiro de classe média minimamente bem informado:

  • Canal do Panamá
  • ET do Panamá
  • América Central

A maioria nem sequer tem certeza de que a língua falada aqui é o Espanhol, não faz ideia que a moeda corrente é o dólar norte-americano e que aqui se vive de maneira muito parecida com o Brasil, com diferenças peculiares, algumas que nem sequer caberão aqui. De todo modo, nos isenta de reclamar que os americanos não saibam que falamos português, ou que nossa capital é Brasília, quando nada sabemos sobre um país tão próximo da gente, geograficamente e em outros aspectos.

O meu dia no Panamá começou como todos os dias no Panamá começam: quente e com barulho de construção civil. Aqui em El Cangrejo, o bairro em que eu moro, a especulação imobiliária está a toda. Tem um prédio residencial grande sendo construído a uns 50 metros do meu, os operários botam a mão na massa a partir das 6h30 da manhã e, com eles e com o sol quente, eu pulo da cama. Acontece que o Panamá não foi tão legal comigo desde que cheguei e eu venho me sentindo meio doente. Tive que tomar a chata e dispendiosa decisão de ir, pela segunda vez, a um hospital panamenho.

O Punta Pacífica Hospital cobra até pela medição de sinais vitais que, eu juro, foi feita por uma máquina e, também juro, estavam bem evidentes, já que eu cheguei lá andando e falando. Cobram as seringas, o oxigênio usado nas três inalações, as agulhas, o lençol que eu usei pra me cobrir naquele ar condicionado de 14 graus… tudo. Na verdade, essa observação é isenta de julgamento, porque dá pra entender que se cobre por tudo, mesmo – o hospital é realmente excelente, de atendimento excepcional. E afinal, três inalações depois, o médico hispanofalante de dicção exemplar para um panamenho (sei lá se ele era panamenho – nesse lugar, tem gente do mundo inteiro) explicou que segundo o exame de sangue e a chapa eu não tinha infecção nenhuma, e as profundas dores para respirar, que cessaram depois das EBULICIONES (inalações, em espanhol), eram provenientes de broncoespasmos resultantes de processos alérgicos.

Ah, o Panamá e os processos alérgicos decorrentes dele. Imagine andar pela rua com um sol de 40 graus na cabeça e o quanto você vai transpirar com isso. Agora, imagine você, com as roupas úmidas de suor e da umidade da Cidade do Panamá, entrando em QUALQUER LUGAR e sendo atingido por uma temperatura repentinamente 20 graus mais baixa, proveniente de um aparelho de ar condicionado. Nem a vovó aconselharia, nem a resistência do corpo do brasileiro aprecia Essa semana eu conheci outro brasileiro na mesma situação, com febre alta e dor de garganta, além da tosse – como eu, durante a semana – , e do meu lado no atendimento do hospital Punta Pacífica havia também um grupo de brasileiros de Salvador acompanhando uma moça com, adivinhe, problemas respiratórios. O lance aqui é que, ao contrário de nós, eles não sacaram que havia brasileiros ao lado, e ficaram falando várias coisas engraçadas, tipo que sei lá quem tinha diarreia, e que não sei quem apanhava do marido (isso não é realmente engraçado, mas na hora foi inusitado).

Ok, processos médicos resolvidos e muito mais calma (não sou hipondríaca, só prevenida – quase morri de pneumonia há um ano), saí do Punta Pacífica com o xale nas costas pra evitar o choque térmico da sauna que estava lá fora e fui, com meu pai e irmão, comer umas empanadas argentinas no Caminito (é o nome do restaurante). No caminho, entre amostras do trânsito panamenho, que é como o paulista, mas com carros com o dobro do tamanho – os SUVs – e uma inteligência de tráfego portuguesa, conhecemos o flanelinha que salvou o dia.

Como aqueles que nós paulistanos conhecemos bem, chegou quase jogando a garrafa de detergente e água – ou seja lá o que realmente haja naquela mistura – no vidro, sem nem perguntar, rodinho na outra mão. Logo ouviu um ‘NÃO’ sonoro do meu pai, em português mesmo. Insistiu no gesto mas se deteve na lavagem: mesmo sob os NÃOs, o que ele fez foi desenhar um coração no vidro com o rodinho. Tipo ‘VIM EM MISSÃO DE PAZ’. Amolecido, meu pai ouviu o que ele tinha a dizer – “DÁ-ME UNA OPORTUNIDAD” -, disse a ele ‘és muy bueno’, deu-lhe uns dois dólares (amigo, aqui com dois dólares você compra umas três latas de coca-cola) e saímos, revigorados pelo amor gratuito e pela criatividade do tiozinho flanelinha panamenho.

Mais uma horinha de trânsito LOCO e, em casa, resolvi registrar o momento aqui no El Cangrejo, um bairro parecidinho com a Vila Mariana, mas cheio de estrangeiros. Sabe, porque eu sabia que teria que escrever o post e precisaria ilustrar, e sem a câmera durante o dia, precisava de uma boa imagem panamenha. Esse por do sol eu vejo todos os dias. Aquele era como eu acharia que ele seria no fim do dia, quando acordei puta da vida por estar mais um dia doente, sem aproveitar a viagem. E esse aqui embaixo é como ele terminou de fato.

Fim de tarde em El Cangrejo

(Sei que a primeira, lá em cima, não é feia, nem triste. Mas é melancólica, como eu estava quando acordei. A segunda expressa um pouco mais de esperança, e é por isso que ela está no fim do texto. Foram tiradas, as duas, umas 18h30 da tarde, da sacada do 18D, com uma Lumix FZ35, e não viram sinal de Photoshop).

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Os taxistas do Panamá

Amarelinhos, como os do Rio (com a diferença que são meio velhos, as vezes batidos, sem placa etc)

Não é fácil ser taxista no Panamá. É que, pra começar, aqui não existe taxímetro. Eles usam uma tabela de preço (cuja lógica eu não entendo e, como turista, somente acato) que determina o valor de acordo com a região em que você está e a região aonde você vai. Até aí, ok, só que o que eu ainda não mencionei e estarei mencionando no próximo período é que esse valor raramente passa dos 2,50 dólares.

É isso: a corrida mais cara que um taxista padrão no Panamá faz custa 3 dólares, e só. Se você for sair de destinos turísticos, como o Canal ou o aeroporto, o valor pode aumentar muito, mas no dia-a-dia você pode usar só táxi. Mas não vai dando sinal pro táxi e entrando assim, na moral, pra depois dizer pra onde você vai – precisa dizer o destino antes de entrar, porque pode ser que o taxista não esteja indo pra lá, sabe como é (é sério, e fica pior).

O lance é que, de taxi, além de gastar pouco pra se locomover bastante (se ficar esperto, porque a Lei de Gerson é bem pior aqui do que no Brasil), você pode fazer amigos. E não é pela simpatia dos taxistas – até porque, ainda que simpáticos, esse espanhol panamenho é bem difícil de pegar. É porque, no meio do caminho, o taxista pode parar pra pegar outros passageiros. Quantos ele quiser.

Tá vendo essas pessoas dentro do taxi? PODE TER CERTEZA QUE ELAS NÃO SE CONHECEM

E assim, a regra diz que o primeiro passageiro deve ser deixado primeiro, e que a rota do segundo ou do terceiro ou do quarto passageiro deve fazer sentido dentro da rota do primeiro… mas na prática, se você estiver dentro de um taxi e alguém der sinal, o taxi vai parar ONDE ESTIVER (MARGINAL TIETÊ? Esquece, ele para. Nem liga o pisca alerta), e se a outra corrida for mais vantajosa e a sua corrida for atrapalhar a rota da nova corrida, bom, ele vai pedir pra você descer.

Normal, a vida é feita de desencontros E de rejeições, e no Panamá você pode sim tomar um fora de um taxista. Por que eles podem ganhar pouquinho, mas têm direito de escolher COMO e SE vão fazer a corrida. Em tempo: eles também vão parar pra abastecer, vão te dar troco errado de propósito, vão parar no McDonalds pra tentar trocar a nota de 20 do camarada que está sentado no banco da frente porque estão sem troco, e também pode acontecer de você entrar num carro MUITO VELHO, com o vidro da frente quebrado, sem cinto de segurança, que faz uns barulhos estranhos. E aí você vai pensar ‘cara, só faltava essa taxi quebrar’, e obviamente o taxi vai quebrar no meio de uma via expressa, o motorista vai falar várias coisas que você não compreende enquanto empurra o carro, e você vai dar um dólar pra ele, desejar SUERTE e dar sinal pro próximo táxi, que não demora nem 30 segundos, porque a cidade é apinhada deles. TRUE STORY

Meu brother de corrida, todo pimpão depois de conseguir trocar a grana no Mc pra pagar a corrida



Pra não dizer que eu tava mentindo, tá aí o valor da corrida: 1,50 dolar

Uma das coisas que não dá pra entender é porque esses caras cobram tão barato (ok, depois dessa incrível história dá, mas siga meu raciocínio). Quer dizer, isso foi um recurso retórico: primeiro que o custo de vida aqui é baixo porque os salários são baixos, segundo que essa maneira de cobrar é determinação do governo. Mas quero dizer que eles poderiam tranquilamente cobrar mais porque não dá pra considerar pegar ônibus aqui. Nem sequer cogitar.

Os ônibus aqui, pasme, são de condutores privados. Isso acarreta coisas curiosas:

  • Os motoristas donos dos ônibus pintam eles de maneiras teoricamente atrativas, pra que você possa então optar pelo ônibus dele;

"MEU ÔNIBUS É UMA LINDA OBRA DE ARTE E VAI COM CERTEZA ATRAIR MAIS PASSAGEIROS"


Olha a variedade de cores e decorações e - REPAROU NA QUANTIDADE DE TAXIS?

  • Ele enfia quantas pessoas ele quiser dentro do ônibus dele;
  • Se em SP, onde o transporte é público, os motoristas de ônibus são conhecidos pelas várias atrocidades que cometem, imagina se o ônibus for SEU e você não dever NADA PRA NINGUÉM? Negócio é o seguinte, nego dirigindo que nem um maluco, gente expurgando pelas janelas, quatro pessoas sentadas em um banco pra duas em um calor de 30 graus com sensação térmica de 40 por causa da umidade. AGRADÁVEL.

Esse post faz parte de uma série que vai rolar no blog a partir de agora. Cheguei no Panamá há dois dias, e fico aqui até o fim de fevereiro, reportando as bizarrices de um país minúsculo esquecido logo na entrada da América Central. O Panamá, como você vai ver, não é o Paraná, nem, o Amapá, como algumas pessoas já insistiram para mim, e tem pouco de Brasil e muito de EUA, de México, de América Latina, somado a um calor bizarro, gente com cara índio, trânsito terrível e uma população multicultural.

Gosta de ler sobre viagens? Visite o http://www.drumbun.com.br - lá eu escrevo só sobre os lugares que visito. :)

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Mi Buenos Aires queridos

Eu estive em Buenos Aires nos últimos dez dias pela primeira vez. E minha principal impressão é que a a cidade é tudo o que São Paulo poderia ser e não foi, e isso tem muito mais vantagens do que desvantagens.


Buenos Aires, sua linda

O sotaque porteño é uma versão mooquense do castellano. Também descendentes de italianos e de espanhóis, os porteños falam alto, com as mãos, com aquela entonação que os espectadores de Passione conhecem tão bem. São bonitos, os argentinos: vi lixeiros bonitos, motoristas de caminhão bonitos, taxistas bonitos, carregadores de verduras bonitos. E educados, também, o que joga no lixo mesmo aquele papo que diz que são arrogantes. Os argentinos são simpáticos e amáveis com estrangeiros: gostam de garantir que a gente se sinta muito, muito bem na cidade deles. Dos porteños, recebi desde dicas de restaurantes baratos até companhia voluntária para um lugar difícil de encontrar – uma senhora me acompanhou até meu destino, na direção oposta da casa dela, se despediu e foi-se.

Mesmo o jeito terrivelmente estúpido não prático de darem informações – algo do tipo “vire ali, depois três quadras lá, e mais três quadras para cima” – não é um hábito cultivado por mal ou à toa. É que as ruas da capital argentina são todas planas, a maioria de mão única. Daí, especificar direita ou esquerda acaba sendo substituído por gestos e ‘para lá’ e ‘para cá’.

Eu fiquei em San Telmo, o único bairro que eu visitei na vida que realmente merece o adjetivo ‘charmoso’, ainda que muitos bairros sejam assim classificados por corretores de imóveis. Nas ruas de paralelepípedos, ficam casinhas de estilo colonial super conservadas, que abrigam desde senhorinhas respeitáveis até dezenas de imigrantes no estilo cortiço. Não importa, na verdade. As lojas de antiguidade, as livrarias, os mercadinhos e açougues – tudo contribui para a atmosfera de ‘meu tempo já passou’ de San Telmo.


Tiozinho anda de bike em uma rua de San Telmo

A Argentina passa por uma crise de inflação curiosa. Não há moeda. Sacar dinheiro é impossível – de banco em banco, todos os caixas eletrônicos nos informam que não há ‘billetas disponibles’. O lado bom (para nós) é que, nesse cenário, o preço do real dispara. O lado ruim é que o preço das coisas lá também sobe. Ainda assim, elas custam metade do que custam aqui – de comida em restaurantes a mantimentos, de presentes a roupas.

Disseram que o ano novo Argentino é caído. Quem disse isso não foi pra mesma Buenos Aires que eu fui. Meus amigos brasileiros transformaram Puerto Madero em um caos. E eu, que fiquei em San Telmo, primeiro dançando salsa e cumbia no hostel, e depois vendo um grupo de cumbia ao vivo na Plaza Dorrego, tive um dos anos-novos mais surpreendentes da minha vida. Imagine 200 pessoas de nacionalidades diversas dançando ao som de um batuque maluco, uma espécie de maracatu com baião, enquanto três ou quatro argentinos no centro da roda dançavam uma coreografia que lembrava frevo com capoeira. Por uma hora e meia, sem parar.

O tal Puerto Madero, ao que parece, costumava ser uma região portuária perigosíssima. Aí o governo revitalizou a parada e agora é um lugar lindo, lindo, cheio de turistas babacas e restaurantes caros.

Puerto Madero

A Plaza Dorrego abriga todos os dias e noites grupos de estrangeiros e de locais afim de tomar Quilmes, ver apresentações de Tango e conhecer gente. De domingo, rola a feira de antiguidades, que tem de relógios antigos a discos de vinil e obras de artistas independentes.

Hipster porteño na Plaza Dorrego

Andar de skate ou de bike em Buenos Aires é moleza. As ruas são bem asfaltadas e, apesar do trânsito maluco, todos os lugares com exceção do centro e do microcentro têm calçadas e ruas largas. Mas a pé e de taxi também se faz muito – com a cidade plana e os taxis baratos, dá pra visitar muito por muito pouco. Atravessando a cidade, gasta-se no máximo 30 pesos.

Alugando bikes na rua da Universidad del Cine, uma travessa da Calle Defensa, em San Telmo

Come-se de tudo por pouco, e bebe-se de tudo, também por pouco. Mas também come-se uma torrada com queijo por 20 pesos e cobram pelos seus talheres, se você não ficar esperto. Conheci um mineiro gente fina que tem um monte de TOCs curiosos, um hippie peruano que vende pulseiras e viaja, um grupo de atores cariocas, um turco que mora há dois anos em um hostel e cuja história de verdade ninguém sabe, mesmo. Aprendi a falar um portuñol ainda mais elaborado. Cozinhei risotto para uma sueca, uma inglesa e dois brasileiros (eles aprovaram). Fui ao zoológico, mas também vi animais ao ar livre, perto da Reserva Ecológica Costanera, em Puerto Madero.

Buenos Aires é uma cidade para casar – e no dicionário das cidades, isso significa que ela é apaixonante, completa e do tipo em que se pensa em morar. Subiu ao topo da minha lista de ‘cidades para viver um dia’, tomando o lugar de Barcelona, que é demais, mas mais cara e menos acessível para mim. Não vá a Buenos Aires se você não quer ter vontade de viver lá.

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