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O que o caso Mayara Petruso nos ensina sobre o ódio

Você soube da Mayara?
Tô um pouco atrasada na pauta. Nesses tempos de Twitter, tudo o que rolou há mais de 20 horas é old, né? Mas o tópico Mayara entra na categoria ‘old, but gold’.

A Mayara Petruso é uma estudante de Direito paulista que, depois da eleição da presidenta Dilma, há duas semanas, mandou no Twitter umas pérolas acerca de todo mundo que nasce pra cima de, digamos, Minas Gerais (a.k.a. nordestinos). A saber:

Daí toda a INTERNETZ não perdeu tempo em, obviamente, fazer da vida da menina um inferno. Ela apagou os perfis em redes sociais, foi demitida do trabalho, nem o pai (pobre pai) sabe onde a garota tá. Ela sumiu. Foi recomeçar a vida em, sei lá, em Corguinho, junto com a galera super tolerante do Projeto Portal.

O que eu ainda estou tentando entender é como tanta gente perdeu tanto tempo e energia dando atenção a declarações de estupidez óbvia de uma menina que é… uma estudante de Direito. Só isso. Ela não é ganhadora de um Nobel, ela não é atriz da novela, gente. Não é, sei lá, Ministra da Inclusão Social. E nada contra os estudantes de Direito, heim. Amo todos S2

As pessoas, no geral, são estúpidas, tacanhas. Se você ainda não entendeu isso, sugiro que abra a página de comentários de qualquer site – pode ser até um post polêmico desse blog – e leia os comentários. Você não se assustará mais com a existência de gente como a Mayara, que não percebe ou não admite, mas odeia o presidente porque ele é pobre e nordestino. Se teve até quem, depois da eleição de Dilma, desejasse a volta do linfoma dela, que tipo de fé a gente pode ter na humanidade?

Eu li algumas das reações contra e a favor da Mayara, coisas tão ou mais horríveis do que ela escreveu. O episódio serve pra que a gente possa ver quem de nós é capaz de barrar a corrente de ódio. Porque uma pessoa fala uma merda dessa, então você passa a odiá-la por isso. E aí pronto – ela ganhou. É tipo com os trolls. Não os alimente.

É, eu sei, teve um homem que disse a mesma coisa há dois mil anos. Mas onde quero chegar é que, infelizmente, todo mundo que crucifica a menina está ao lado dela na capacidade de odiar, de espalhar o ódio. E isso é muito ruim.


“E Jesus disse: ‘não darás do pão e do vinho aos trolls, pois feito isso, a eles darás a vitória’”.

Recebi uns e-mails essa semana de alguns leitores me pedindo pra denunciar um site horrível, provavelmente uma das maiores coleções de merda que já li na vida. É uma espécie de manifesto neonacionalista com uns conceitos meio bizarros – super conservador, mas ateu, a favor de esteróides e do culto à aparência, a favor da segregação étnica e de gênero. Claramente foi escrito por uns 2 ou 3 moleques babacas, de uns 20 e poucos anos, bem instruídos pelo nível do texto, mas muito, muito burros. Era tão absurdo que parecia a maior trollagem do século.

Mas aí me pediram pra denunciar e eu pensei: “puta merda. Eu não vou fazer um post sobre isso, não vou alimentá-los.” A parada ia espalhar feito pólvora, eu ia ganhar um monte de views, e com certeza o site seria tirado do ar rapidamente, porque tá cheio de crime ali. Inclusive tá fora do ar agora, denúncias ao MP não devem ter faltado.

Eu não fiz o post porque tinha tanto lixo ali, tanto lixo, que aquilo era capaz de deixar pessoas normais – eu – cheias de ódio contra tanta imbecilidade. Chegou a passar pela minha cabeça que pessoas como aquelas que escreveram e tentam espalhar conceitos como aqueles não merecem o direito de viver. Denunciar os autores causaria uma cruzada contra eles (cuja identidade seria, cedo ou tarde, revelada por alguns desses detetives virtuais ociosos), uma corrente de ódio muito maior do que aquela que eles estavam tentando causar.

Uma vez que aqueles textos transformam uma pessoa em alguém cheia de ódio, seja lá qual tipo de ódio for, eles atingiram o objetivo. É MUITO FÁCIL odiar a Mayara, os babacas do Movimento República por São Paulo, os responsáveis por esse site que eu mencionei.

Difícil é não odiar. E é só não odiando que é possível contra-atacar efetivamente esse tipo de coisa.

Em homenagem a essa minha vibe tão Família Restart S2, fiquem com essa pérola do rock colorido, a grande manifestação musical jovem cheia de mensagens de paz e amor e esperança. Ah, agora em español.

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Manifestando intimidade com taxistas e porteiros

Olá, Stepan Nercessian. Posso te cumprimentar? Só um beijo de despedida.

Sabe quando você, sem querer, acaba tratando como íntimo alguém que não é? Tipo quando o porteiro interfona pra dizer que chegou um Sedex e você agradece e emenda um ‘beijo, tchau!’?

(Peço licença para contar o causo que aconteceu com uma amiguinha de quarta série que eu nunca esqueci – a menina, eu nunca mais vi e nem lembro direito da cara, mas a história jamais me saiu da cabeça: ela tinha acabado de falar com a mãe pelo telefone e se despediu como a gente se despede de mãe, ‘beijo, te amo, tchau’. O porteiro interfonou pra dizer que a Capricho tinha chegado. Ela, é claro, repetiu: ‘Ok, obrigada. Te amo, tchau.’ HEH)

Bom. O que acontece comigo é que sempre que eu uso serviços de motorista, isso é, pego um taxi ou sou levada para casa pelos motoristas da empresa, quando eu vou descer do carro eu quase sempre quase (sim, ‘quase sempre quase’, mesmo) dou um beijo no rosto do cara, sabe? De despedida. É terrível, eu preciso sempre ficar me policiando pra não deixar todo esse carinho transbordante se manifestar com um desconhecido. Fica ainda mais forte o ímpeto se eu tiver passado a viagem inteira conversando com o tiozinho.

Alguém tem solução pra esse distúrbio social grave? Nem me venha dizer que é carência. No máximo, excesso de simpatia.

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DesencalhaWanderson.com.br: um exemplo de atitude

Me falta um desprendimento em relação à sociedade. A gente tá sempre na expectativa do que as pessoas vão achar de tudo que a gente faz. Há, é claro, uma reputação a zelar. E isso fica ainda pior quando você tem uma identidade na rede, por exemplo.

Eu explico. Já fiz coisas na internet, no passado, das quais me envergonho. Já participei de fóruns e grupos de discussão sobre Harry Potter. Já fiz cursos on-line de Quenya, a língua oficial dos elfos da Terra-Média, de Tolkien. Já escrevi aventuras de RPG, pro mundo de Tormenta. Já fiz protesto em frente a prefeitura de SP para não cancelarem um show do Pearl Jam. Acho que já é o suficiente pra você me achar uma perdedora, né?

O interessante é que eu fiz tudo isso em fases muito distintas da minha ‘vida na rede’ (já são quase 14 anos de internet), sempre com nicknames diferentes, de maneira que dificilmente um conteúdo se relaciona a outro – quer dizer, você ainda vai encontrar muita coisa de Harry Potter relacionada a mim, e eu me envergonho disso, mas o que posso fazer? Meu passado é o que me trouxe aqui hoje, preciso ser justa. Eu sempre fui nerd, não dá pra fugir disso.

Dessa maneira, quando alguém digita meu nome do Google, além dos trilhares de homônimos, não vai encontrar as aventuras que escrevi aos 11 anos pro mundo de Tormenta, ou minhas elucubrações sobre a pronúncia do Y na língua dos elfos, simplesmente porque eu me identificava com outros nicks, totalmente diferentes do meu nome (normalmente relacionados ao assunto em questão) e igualmente passíveis de vergonha.

Algo que nunca fiz, contudo, foi participar de sites que prometem encontrar a alma gêmea. Provavelmente, trata-se do velho preconceito de “quem procura a alma gêmea na internet deve ser muito fudido”, ou porque de fato eu nunca parei pra pensar a respeito. Mas é provavelmente um dos poucos tipos de serviços difundidos na rede que nunca utilizei, e de certa forma, é bom dizer isso, porque dá certa vergonha admitir que você usou esse tipo de site. No geral, as pessoas te vêem como um desesperado.

Não deixa de ser verdade, mas na etiqueta social da conquista ser visto como um desesperado diminui consideravelmente suas chances de encontrar sua alma gêmea.

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O Wanderson aqui não se preocupou em parecer desesperado. Nem em ter seu nome associado a um dos maiores motivadores de vergonha alheia na rede nos últimos tempos. O domínio de seu site já deixa bem clara a situação: http://www.desencalhawanderson.com.br/

Desencalhar não seria difícil. Wanderson é um rapaz bem apessoado. Se veste bem, tem bom gosto para fotografia, um sorriso enigmático meio Monalisesco. A questão é que Wanderson quer muito mais do que uma mulher. Atente para as exigências (clique na imagem para ampliar):

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O site traz também uma pequena descrição de Wanderson, que sabiamente informa que o nome dele é pronunciado ‘Uanderson’, e não ‘Vanderson’, como a princípio pode-se pensar, e evita que as pretendentes se enganem logo de cara, já com o nome. Além disso, o texto também mostra características pessoais, religiosas e profissionais do rapaz.

Interessadas (só mulheres, desculpem rapazes. Ele deixa bem claro no texto) podem encaminhar CV entrar em contato través de link de e-mail no site em questão. E apesar da comicidade da situação, devo exaltar sobretudo a bravura de Wanderson ao se expôr assim na web sem temer julgamentos dos outros. Wanderson não tem nem aí pro que vão pensar da iniciativa, e isso é bem claro – até por isso faço questão de divulgar o apelo dele. Um dia, quem sabe, eu terei a coragem de reunir todo meu passado negro envolvendo textos sobre Harry Potter e RPG num site de fundo preto com letras amarelas, colocar na rede e ver se alguém me quer. Só pelo desprendimento demonstrado, já terei me livrado de karma suficiente para atrair um bom-partido tipo o Wanderson.

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