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Eu não sei como me comportar quando cantam ‘Parabéns’ pra mim

A vida pode assumir uma série de definições, mas uma bem precisa é que é uma sucessão de acontecimentos constrangedores separados por intervalos em que acontecem o resto das coisas, sendo esse resto das coisas o dia-a-dia e os momentos em que você passa pelas coisas não memoráveis.

É, porque por mais triste que soe, a gente costuma se lembrar das coisas muito boas e das muito ruins, e normalmente as constrangedoras se enquadram nos momentos muito ruins e muito bons de tão engraçados – depois.

E o mais fantástico sobre a vida é que ainda que você seja uma dessas pessoas ultra sortudas, que nunca passam por situações em que podem se sentir muito envergonhadas, provavelmente não está livre de uma vez por ano estar num papel que é quase absolutamente constrangedor pra todo ser-humano padrão: o de  ser o alvo de um Parabéns a você numa festa de aniversário.

A sua, digo. Ou minha, no caso do domingo.

A sociedade é tão sacana que ela instituiu um mecanismo no qual uma convenção social profundamente arraigada é a causadora de um dos constrangimentos mais intensos que qualquer pessoa pode passar. Porque é um constrangimento diferente de qualquer outro: ele não é daqueles instantâneos, efêmeros.

Explico. Se alguém te pegar com o pinto dentro de um tubo de aspirador de pó vai ser chato. Certamente, é algo que vai gerar um certo constrangimento. Mas são segundos até que você tire a parada de lá, desligue o aparelho e se explique. Frações de tempo. É um constrangimento com início, meio e fim (ainda que bem intenso) e depois você ainda pode pensar numa desculpa pra ele, falar qualquer coisa, argumentar.

Parabéns é uma canção de uns 45 segundos durante a qual todo mundo olha pra você e você não sabe absolutamente o que fazer com as mãos, não sabe o que fazer com a boca – se canta, se fica quieto, se grita -, não sabe se bate palmas junto, se sorri, se fica sério, pra qual das 20 pessoas olha. E quando acaba não tem explicação pra dar, não tem nada pra consertar. Fora o perigo de cantarem Com quem será e entoarem O fulano faz anos…

O mais curioso é que exatamente a situação chata mais inevitável e mais difundida do mundo vai estar na tua vida pelo menos uma vez por ano. Não há como fugir – é como se a vida quisesse que toda pessoa passasse vergonha sem escapatória pelo menos uma vez por ano, só pra ficar esperto.

E você nunca pode pedir pra que as pessoas não te cantem Parabéns. É impressionante como você pode pedir praticamente tudo pras pessoas hoje em dia e ser capaz de encontrar um grupo que vá atender ao seu pedido. Mas isso nunca funciona pro Parabéns, porque ninguém entende como é possível fazer aniversário sem um e você não imagina as caras de horror ao sugerir que não se cante a música maldita. Não existe, é inadmissível, nem sequer se cogita.

Um dia desses, quando eu completar uns anos aí e tiver numa festa sem familiares que precisem da tradição do Parabéns e tal, vou sugerir que todo mundo me cante outra música. Pode ser Festa, da Ivete Sangalo. Ou o Créu. Pelo menos essas músicas têm coreografia e os aniversariantes vão saber o que fazer com as mãos.

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A mulher que nunca esquece (e não sou eu)

Por um momento, achei que seria bom ser como Jill Price, a mulher que nunca esquece.

A pobre diaba (putz, sempre quis falar isso) não esquece nenhum detalhes de todos os dias dela desde os 14 anos, sendo bem sucinta. Literalmente isso. Como se fosse uma habilidade do Sylar ou coisa assim.

A verdade é que eu nunca estive tão feliz com a minha capacidade de esquecer depois de descobrir essa mulher. Me dei conta do valor da memória fraca, valor que o esquecimento tem pra nossa sanidade psicológica. E não falo de esquecer situações, porque essas, quando são marcantes ficam na memória – é principalmente esquecer os sentimentos associados a essas situações. Esquecer a sensação ruim de errar e ficar só com a parte boa, que ensinou; esquecer a sensação ruim que os erros dos outros podem causar e conseguir perdoá-los.

Imagina como deve ser difícil pra essa Jill Price, digamos, perdoar alguém. A gente diz que o tempo é o remédio pra tudo, e não percebemos que essa ‘diluição’ da memória, causada pelo tempo, é que é o verdadeiro remédio. Pra tal da Jill, não há remédio. E tipo – brega ou não, é uma dádiva que tenhamos a habilidade de esquecer.

Acontece o seguinte: se eu fizesse uma comparação simples entre quem eu era há um ano, quando fiz 20, e quem eu sou agora, daria pra enumerar algumas diferenças expressivas. Há um ano, eu tinha mais ou menos 25 quilos além do que eu tenho hoje; não tinha um óculos de sol nem roupas tão legais, meu blog não meu dava tantas alegrias, eu não me dava tão bem com meus amigos e nem tinha um encontro marcado pra semana seguinte. Há um ano eu não poderia estar escrevendo esse post do trem num iPod Touch, ouvindo Oasis, porque eu não tinha iPod Touch nem gostava de Oasis.

Por outro lado, um ano atrás eu não sonharia que O Pior Dia Da Minha Vida aconteceria do jeito que aconteceu, e quase um ano depois. Ah – e há um ano, eu tinha uma memória. Das boas, dessas de se orgulhar. E eu sinto falta dela.

Achava que esse era um dos meus principais problemas, estar tão estressada e cheia de informação que a minha memória foi para o saco. Naquela época, a quantidade ínfima de stress que me atormentava não era suficiente pra me transformar na Dóri.

dori
Em quem?

E hoje, to pior do que a Drew Barrymore em Como se fosse a primeira vez (se preferir, Minha namorada tem amnésia, no incrivelmente franco título da versão lusitana.

(Quando meu lembro disso), eu lamento. Preciso anotar tarefas, pedir pros amigos me lembrarem do que eu estava falando no meio das frases, anotar idéias, nomes, números, cores, funções, tarefas – tudo. Nada fica na cabeça, e isso me preocupa. Eu só tenho 20. Quando tiver 40? Alzheimer?

O problema é se dar conta, em tratamento de choque, que único presente de aniversário que eu realmente preciso esse ano é de uma memória ainda mais diluída, que me permita esquecer tudo o que ´necessário pra poder continuar vivendo bem.

eternalsunshine

Uhum.

Completo 21 no dia 26 – mais feliz, mais completa, melhor, mas com a certeza de que não ligo se minha memória tá um caco – talvez, seja melhor desse jeito. Talvez seja o primeiro passo pra conseguir esquecer de verdade de coisas que não podem ficar na cabeça, porque senão vão enlouquecer a gente.

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Vamos festejar, os amigos receber!

Eu ando com a memória péssima. Isso me assusta, porque sempre fui muito boa para lembrar coisas. Minha memória fotográfica era impecável; eu conseguia lembrar em que altura da página de um livro se encontrava um trecho que me marcou. Jamais esquecia rostos, ainda mais associado a frases. E ontem, me vi com muita dificuldade para lembrar quem é que, no dia anterior, tinha dito algo que me passou pela cabeça(que eu nem me lembro mais, olha só). Isso é absurdo, já que eu convivo com o mesmo grupo restrito de pessoas todos os dias. Não existem muitas opções, sabe?

Já de aniversários, nunca fui boa. Depois que inventaram o Orkut eu me salvei, mas daí, se eu esquecer tudo bem – afinal, não é mais mérito nenhum ‘lembrar’, porque você não lembrou. Se não há mérito em lembrar, então esquecer não é demérito.

O excesso de coisas para fazer esfarelou minha memória. Uma pena. Eu esqueci até mesmo o aniversário do meu próprio blog.

Empolgada pela chegada dos ETs, não me lembrei de comemorar o dia em que esse espaço veio mundo. Outrora hospedado num humilde domínio wordpress.com, meu bloguxo tomou proporções dantes inesperadas e eu tive que migrar para o www.olhometro.com, que vocês conhecem hoje.

Foi um ano de alegrias. Eu criei esse blog com o seguinte objetivo (juro): cobrir shows e posteriormente ser convidada para cobrí-los. Criei o blog na véspera do Festival Planeta Terra de 2007, empolgada pela maratona de shows do ano e desempolgada pela falta de grana. Num sincronismo perfeito dos elementos do universo [/quiroga], um ano depois, eu recebo o convite para cobrir – pelo blog – o mesmo festival que teve papel em ‘inspirar’ a criação disso.

Como vocês perceberam, a intenção inicial desvirtuou um pouco. Mas parece que isso não foi algo ruim. Será que, se eu tivesse ficado falando só de música, eu estaria – 365 dias depois – com quase 300 leitores de feed, 1.500 visitas diárias e tanta empolgação para fazer isso funcionar direitinho?

Não dá para saber com certeza, mas acho que tô no caminho certo. Odeio esses clichês de agradecimentos, mas não dá para não agradecer a todo mundo que entra, lê, quem comenta e quem divulga. Muito obrigada por permitir que algo tão legal acontecesse para mim.

Aguardem, para breve, um promoção que os presenteará devidamente. Não a todos, naturalmente, que eu ainda não tô ganhando tanto dinheiro assim.

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Como você sabe que está ficando velha

De uns tempos pra cá, eu comecei a desconfiar que estava ficando velha. Os sinais:

- Não agüentava mais sair de noite pra chegar na manhã seguinte, dormir até as 17h, acordar e achar que tá tudo bem.

- Lugares cheios, filas, gente falando alto: antigamente, era algo que eu provavelmente suportaria em nome da diversão com os amigos. Há alguns anos, se tornou impensável passar por situações assim se a intenção é se divertir.


Odeio filas.

- Música alta. Dizem que “se está muito alto, é porquê você está muito velho”. Eu adoro música, mas mais do que isso gosto de conversar. E música alta não te deixa conversar. Você chega em casa sem voz. E se importar com isso é coisa de velho.

Mas a maior comprovação para a minha suspeita chegou essa semana. Há duas semanas, eu completei 20 anos. E você sabe que está ficando velho quando o dia do seu aniversário é um dia como qualquer outro.

Quando você é criança, aguarda o aniversário ansiosamente. Faz contagem regressiva no mês anterior, e sabe que cada dia a mais é um a menos pro graaande dia. E quando ele chega, é muito divertido; afinal, é o seu dia. Você ganha presentes, às vezes faz uma festinha, vê os amiguinhos e recebe abraços da família.

Esse ano, eu nem vi meu aniversário chegar; quando percebi, ele já estava lá. O dia em que fiz 20 anos foi como qualquer outro. Eu até dormi no fim da tarde, o que chega a caracterizar monotonia, e isso seria impensável no meu aniversário de 12 anos, por exemplo. Tudo isso caracteriza um caso irreversível de envelhecimento crônico. Ou adultismo. Eu costumo chamar assim.

Ah! Já ia esquecendo de mencionar a dor nas costas.

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