12 de fevereiro de 2009 às 2h07
Crônica sobre chutar a bengala de um velhinho
Eu nunca atrapalho ninguém. Esse é meu mote na convivência social urbana. Apesar da cidade ter me transformado num monstro apressado, que sai pela estação desviando das pessoas com habilidade, dificilmente eu trombo nas pessoas, deixo de pedir licença ou as atrapalho. Sou educada, simpática e até converso com pessoas que puxam assunto na rua, sejam as loucas ou as normais. Mas hoje aconteceu. Digo, hoje atrapalhei uma pessoa. Não que nunca tivesse atrapalhado antes – provavelmente já aconteceu, mas sem querer. E não que dessa vez tenha sido proposital… ok, explico:
Eu vinha pegar o ônibus para o trabalho e comecei a descer as escadas que levavam à plataforma. De lá de cima, vi que o ônibus já estava estacionado, o que significava que poderia partir a qualquer momento. Comecei a técnica que consiste em tentar descer as escadas rapidamente desviando das pessoas. Tinha na minha frente um carinha descendo devagar, que não dava espaço pra que eu fosse pela esquerda. Logo paramos – um grupo de surdos-mudos conversava no meio da escada. Daí desviei deles e continuei. Outro cara veio, subindo, na minha frente. Desviei; mais outra pessoa descendo com calma e tranquilidade, já no pé da escada, e um cara que foi subir pelo lado errado (o direito meu, esquerdo dele) bruscamente e do qual eu consegui desviar. Ufa.
Mas no desvio desse último, acabei sendo jogada pra cima de um senhor que vinha caminhado pela plataforma, de bengala. Ele tinha uma loooonga barba branca, à lá papai-noel, e caminhava lentamente. Eu o vi – e, embora tenha feito isso muito rapidamente, não parei, porque provavelmente meu cérebro calculou que se eu levantasse um pouco a perna, conseguiria passar o pé por cima da bengala e continuar correndo em direção ao ônibus.
Não sei se calculei mal. Não sei se ele me viu e assumiu que, como era deficiente físico, eu pararia e o deixaria passar. Só sei que eu acabei, sem querer, esbarrando o pé na bengala do velhinho.
Não cheguei a chutar, nem nada. Ele também não chegou a se desequilibrar, bambear as pernas ou coisa assim. Foi um esbarrão – mas ele ganhou um contorno de crueldade terrível, porque era um senhor de bengala. E porque eu nunca vou me esquecer da maneira como ele me olhou.
Foi mais do que indignação. Foi algo como “cansei de ser humilhado por esses jovens”. Ele ficou boquiaberto, de verdade. Parou, abriu um pouco a boca e me olhou como o monstro horrível que eu fui ao esbarrar na bengalinha dele.
Envergonhada, e percebendo que ele só estava indignado mesmo (e que eu não o havia machucado ou algo do gênero), pedi desculpas de maneira audível e com as mãos levantadas e continuei correndo em direção ao ônibus, que consegui pegar (e demorou mais uns 5 minutos pra sair).
Nesses 5 minutos, o velhinho passou ao lado da janela. Não tive coragem de olhar. Percebi que ele voltou, pra direção contrária de onde tinha vindo – isso despertou na minha cabeça uma espécie de “também, o véio fica passeando de bengala na plataforma de ônibus”, pensamento que foi logo podado pela culpa que ainda toma conta do meu ser.
Tava um puta trânsito no caminho, o que me fez sentir mais culpada – afinal, atropelei o velhinho pra nada. Mas fiquei pensando, e pensando, e pensando. E pelo menos a situação toda me fez ver muita coisa de um jeito diferente.
Por natureza, sou uma pessoa meio ansiosa. Vocês precisam me ver falando – eu sou muito esquisita. Falo super rápido. Eu tenho uns níveis de rapidez da fala, e eu regulo de acordo com o interlocutor: por exemplo, com familiares próximos eu falo numa velocidade abismal, porque sei que eles vão compreender; com gente desconhecida, quase sempre me lembro de falar devagarinho. Mas às vezes, se deixo a emoção tomar conta, o filtro que mede a velocidade de compreensão do interlocutor acaba falhando e eu falo rápido demais e ninguém entende.
Isso acontece porque a minha cabeça funciona a mil. Se eu não falar logo, meu pensamento ultrapassa a velocidade da fala, e aí eu acabo me perdendo no raciocínio. Pra escrever, sou igualzinha. Todo mundo fica dizendo “OH MEU DEUS COMO VOCÊ DIGITA RÁPIDO”. Mas não é exatamente porque eu quero. É porque se eu não fizer assim, me perco no meio da coisa.
Da mesma maneira, minha paciência é ultra-limitada. Não sei se foi o ‘morar na cidade’, mas eu sou um pouco… impaciente ao andar na rua. Tenho um objetivo, chegar até o lugar X – logo, vou fazer isso da maneira mais rápida possível, especialmente se tenho um compromisso com hora marcada. Portanto, me irritam muito pessoas que param no meio de escada pra amarrar o sapato, gente que para no meio do corredor da estação pra olhar pra qual dos lados ir… parar é permitido, ok, mas pare num lugar apropriado. Ou sinalize que vai parar, sei lá. Sempre que eu vou parar no meio de uma calçada, eu dou uma olhadinha pra ver se tem gente andando atrás. Se tiver, em vez de parar bruscamente, eu faço uma curva rápida na direção daquilo que eu vou observar. Assim, paro e saio do caminho do fulano atrás de mim. Não atrapalho ninguém.
Quando eu ando pela rua e vejo (o tempo todo) gente mal-educada, que esbarra nas pessoas e não pede desculpas, empurra velhinhos, não dá lugar pra aleijados… eu julgo essas pessoas. Eu as acho animais incivilizados e sem educação, que não pensam no próximo, que atrapalham as outras pessoas.
Mas naquele momento em que sem querer chutei a bengala do velhinho eu percebi que existem animais incivilizados sem educação e existem pessoas que estão num dia ruim, com pressa, ou que às vezes fazem uma merda tão grande que têm vergonha de pedir desculpas, mas que não são gente ruim e mal-educada. São pessoas normais num momento ruim, com um movimento mal-calculado.
O problema é que tem tanta, mas tanta gente no mundo, que mesmo se considerarmos que todo mundo é educado por definição, e tiver um dia ruim, digamos, por mês, será muito fácil que encontremos várias pessoas sendo mal-educadas por dia.
É estatística, é injusto, e se o velhinho entendesse isso ele provavelmente não me fulminaria com aquele olhar que eu jamais esquecerei.






23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 

