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Arquivo: arte urbana

Crônica sobre chutar a bengala de um velhinho

Eu nunca atrapalho ninguém. Esse é meu mote na convivência social urbana. Apesar da cidade ter me transformado num monstro apressado, que sai pela estação desviando das pessoas com habilidade, dificilmente eu trombo nas pessoas, deixo de pedir licença ou as atrapalho. Sou educada, simpática e até converso com pessoas que puxam assunto na rua, sejam as loucas ou as normais. Mas hoje aconteceu. Digo, hoje atrapalhei uma pessoa. Não que nunca tivesse atrapalhado antes – provavelmente já aconteceu, mas sem querer. E não que dessa vez tenha sido proposital… ok, explico:


Eu vinha pegar o ônibus para o trabalho e comecei a descer as escadas que levavam à plataforma. De lá de cima, vi que o ônibus já estava estacionado, o que significava que poderia partir a qualquer momento. Comecei a técnica que consiste em tentar descer as escadas rapidamente desviando das pessoas. Tinha na minha frente um carinha descendo devagar, que não dava espaço pra que eu fosse pela esquerda. Logo paramos – um grupo de surdos-mudos conversava no meio da escada. Daí desviei deles e continuei. Outro cara veio, subindo, na minha frente. Desviei; mais outra pessoa descendo com calma e tranquilidade, já no pé da escada, e um cara que foi subir pelo lado errado (o direito meu, esquerdo dele) bruscamente e do qual eu consegui desviar. Ufa.


Mas no desvio desse último, acabei sendo jogada pra cima de um senhor que vinha caminhado pela plataforma, de bengala. Ele tinha uma loooonga barba branca, à lá papai-noel, e caminhava lentamente. Eu o vi – e, embora tenha feito isso muito rapidamente, não parei, porque provavelmente meu cérebro calculou que se eu levantasse um pouco a perna, conseguiria passar o pé por cima da bengala e continuar correndo em direção ao ônibus.


Não sei se calculei mal. Não sei se ele me viu e assumiu que, como era deficiente físico, eu pararia e o deixaria passar. Só sei que eu acabei, sem querer, esbarrando o pé na bengala do velhinho.


Não cheguei a chutar, nem nada. Ele também não chegou a se desequilibrar, bambear as pernas ou coisa assim. Foi um esbarrão – mas ele ganhou um contorno de crueldade terrível, porque era um senhor de bengala. E porque eu nunca vou me esquecer da maneira como ele me olhou.


Foi mais do que indignação. Foi algo como “cansei de ser humilhado por esses jovens”. Ele ficou boquiaberto, de verdade. Parou, abriu um pouco a boca e me olhou como o monstro horrível que eu fui ao esbarrar na bengalinha dele.


Envergonhada, e percebendo que ele só estava indignado mesmo (e que eu não o havia machucado ou algo do gênero), pedi desculpas de maneira audível e com as mãos levantadas e continuei correndo em direção ao ônibus, que consegui pegar (e demorou mais uns 5 minutos pra sair).


Nesses 5 minutos, o velhinho passou ao lado da janela. Não tive coragem de olhar. Percebi que ele voltou, pra direção contrária de onde tinha vindo – isso despertou na minha cabeça uma espécie de “também, o véio fica passeando de bengala na plataforma de ônibus”, pensamento que foi logo podado pela culpa que ainda toma conta do meu ser.


Tava um puta trânsito no caminho, o que me fez sentir mais culpada – afinal, atropelei o velhinho pra nada. Mas fiquei pensando, e pensando, e pensando. E pelo menos a situação toda me fez ver muita coisa de um jeito diferente.


Por natureza, sou uma pessoa meio ansiosa. Vocês precisam me ver falando – eu sou muito esquisita. Falo super rápido. Eu tenho uns níveis de rapidez da fala, e eu regulo de acordo com o interlocutor: por exemplo, com familiares próximos eu falo numa velocidade abismal, porque sei que eles vão compreender; com gente desconhecida, quase sempre me lembro de falar devagarinho. Mas às vezes, se deixo a emoção tomar conta, o filtro que mede a velocidade de compreensão do interlocutor acaba falhando e eu falo rápido demais e ninguém entende.


Isso acontece porque a minha cabeça funciona a mil. Se eu não falar logo, meu pensamento ultrapassa a velocidade da fala, e aí eu acabo me perdendo no raciocínio. Pra escrever, sou igualzinha. Todo mundo fica dizendo “OH MEU DEUS COMO VOCÊ DIGITA RÁPIDO”. Mas não é exatamente porque eu quero. É porque se eu não fizer assim, me perco no meio da coisa.


Da mesma maneira, minha paciência é ultra-limitada. Não sei se foi o ‘morar na cidade’, mas eu sou um pouco… impaciente ao andar na rua. Tenho um objetivo, chegar até o lugar X – logo, vou fazer isso da maneira mais rápida possível, especialmente se tenho um compromisso com hora marcada. Portanto, me irritam muito pessoas que param no meio de escada pra amarrar o sapato, gente que para no meio do corredor da estação pra olhar pra qual dos lados ir… parar é permitido, ok, mas pare num lugar apropriado. Ou sinalize que vai parar, sei lá. Sempre que eu vou parar no meio de uma calçada, eu dou uma olhadinha pra ver se tem gente andando atrás. Se tiver, em vez de parar bruscamente, eu faço uma curva rápida na direção daquilo que eu vou observar. Assim, paro e saio do caminho do fulano atrás de mim. Não atrapalho ninguém.


Quando eu ando pela rua e vejo (o tempo todo) gente mal-educada, que esbarra nas pessoas e não pede desculpas, empurra velhinhos, não dá lugar pra aleijados… eu julgo essas pessoas. Eu as acho animais incivilizados e sem educação, que não pensam no próximo, que atrapalham as outras pessoas.


Mas naquele momento em que sem querer chutei a bengala do velhinho eu percebi que existem animais incivilizados sem educação e existem pessoas que estão num dia ruim, com pressa, ou que às vezes fazem uma merda tão grande que têm vergonha de pedir desculpas, mas que não são gente ruim e mal-educada. São pessoas normais num momento ruim, com um movimento mal-calculado.


O problema é que tem tanta, mas tanta gente no mundo, que mesmo se considerarmos que todo mundo é educado por definição, e tiver um dia ruim, digamos, por mês, será muito fácil que encontremos várias pessoas sendo mal-educadas por dia.


É estatística, é injusto, e se o velhinho entendesse isso ele provavelmente não me fulminaria com aquele olhar que eu jamais esquecerei.


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Terrorismo poético, Pixobomb e o pelado na Bienal

A partir desta terça, durante 13 dias um cara chamado Maurício Ianês se encarregará de uma inusitada performance na Bienal de São Paulo. Ianês ficará vagando nu pelo saguão do segundo andar e só fará uso de coisas que o público lhe der – incluindo comida, roupas, móveis e qualquer coisa que lhe entregarem, pelo que eu entendi.

Ou seja: se derem roupas para ele, ele veste. Se derem cama, ele dorme. Se derem comida, ele come. O trabalho se chama A Bondade de Estranhos e vai contar, hum, com a bondade de estranhos. Ianês é um artística plástico e sua performance, certamente, será considerada genial por muitos entusiastas da Bienal.

David Sedaris, humorista americano autor de Eu Falar Bonito um Dia, fez artes mas não poupa piadas direcionadas a esse tipo de artista plástico performático mala. Nesse livro, ele explica como toda a sorte de idéia idiota acaba sendo considerada revolucionária e de uma sensibilidade artística inigualável se sua carteira e seu nome permitirem.

Mas David, na época que era artista plástico e fazia essas performances esquisitas, também era duro. E não sei como ele não pensou nesse número, que além de alçá-lo à condição de gênio performático, ainda seria capaz de angariar umas boas dúzias de peças de roupas, teto e rango grátis por 13 dias.

Existe uma característica importante que o ser humano, especialmente o artista, deve cuidar para nunca perder -  e ela se chama senso do ridículo. É perigoso quando você nem percebe mais que todo mundo está rindo de você enquanto você atua de maneira inteiramente séria. Claro que o meio termo é necessário, e ninguém precisa deixar de fazer nada preocupado com o que os outros vão pensar. Mas nenhum extremo é válido.

Não sei se isso é arte. Mas supondo que seja, por que a ‘manifestação’ do Rafael Pixobomb e do grupo de pichadores que invadiu primeiro a Belas Artes e depois a própria Bienal, aqui em cima, não é?

O que separa esse tipo de ação da ação dos outros caras? No caso do Pixobomb, ele diz que as invasões são um manifesto contra a capitalização do grafitti, que foi concebido como uma arte ilegal. Ianês, segundo o UOL, pretende com sua instalação “questionar a comunicação entre artista e público, e a responsabilidade do trabalho nesta comunicação.” Oi? É triste, mas a justificativa dos pichadores é muito mais coerente e bem menos hermética.

E a pichações, ou a maneira como elas aconteceram, ainda têm origem num um cara chamado Hakim Bey, que prega o terrorismo poético, cujo conceito é difícil de definir, mas tem seu maior expoente hoje em dia num cara que tá super famoso: o Banksy. Terrorismo poético envolve intervenções urbanas, arte de guerrilha, e é uma maneira ligeiramente invasiva de inserir arte e protesto no contexto urbano, no dia-a-dia, em situações em que não se espera que haja arte e contestação.

Crianças jurando bandeira à rede de lojas Tesco, por Banksy

E aí? Qual dos dois é mais arte, qual dos dois é mais questionador? O pelado que quer contestar a relação entre arte e o público (ou seja, até existe uma relação com o terrorismo poético, que também questiona e subverte essa relação) e é aclamado por isso ou o bando de pichadores, que invade uma galeria de artistas engomadinhos para pichar uma parede vazia e com isso contestar o que é estabelecido como arte?

*Colaborou Nina Ramos (com a discussão)

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Eu pratico caridade… mas só se não precisar comprar tintas

Hoje eu vou falar da solução para a poluição visual urbana que mais gera controvérsia dentro da minha cabeça, já que é a medida mais inútil que alguém pode ter tido a infelicidade de considerar. As pessoas têm disso né? ‘Soluções criativas para os problemas’. É muito fácil ser criativo. As pessoas só esquecem de pensar na viabilização e na real efetividade das idéias.

Nos últimos tempos, um dos exemplos urbanos mais curiosos desse tipo de comportamento se manifesta naquelas plaquinhas em fachadas de empresas e estabelecimentos comerciais, que dizem: ‘Srs. pichadores: a cada mês que essa fachada não estiver pichada, doaremos o dinheiro que seria usado na manutenção dela a uma instituição de caridade. Os recibos estão disponíveis na recepção.’

Tipo essa, mas parece que não funcionou… e eles nem compraram as tintas, porque isso tá aí há meses

Sou só eu ou essa é a pseudo-solução mais estúpida e cínica que alguém tentou viabilizar para acabar com a pichação nas fachadas?

Pra começar, se eu sou um pichador motherfucker, é de se assumir que em 90% dos casos eu tô bem loko pelas ruas da cidade, quero fazer meu corre suavemente e, numa boa, não dou a mínima pras doações que alguém faz ou vai deixar de fazer a uma terceira pessoa se eu não pichar um muro. Quem realmente acreditou que essas placas comoveriam um vândalo em potencial? Se as pessoas normais não lêem as placas de ‘assentos reservados’ no metrô, o que te faz pensar que os pichadores leriam essa?

Seria muito mais convincente, muito, se a placa dissesse algo como ‘Srs. pichador: a cada mês que essa fachada não estiver pichada, doaremos o dinheiro que seria usado na manutenção dela a você. Passe na recepção, assine o recibo e receba seu pagamento. Obrigada!’ Bem mais prático e eficiente.

Em segundo lugar, tenho motivos pra acreditar que esse mesmo pichador não vai de maneira nenhuma pedir os recibos. Essa é a parte mais estúpida da idéia. Tipo, imaginem a cena:

‘Oi, eu tava afim de pichar o muro de vocês ali fora, né? Mas vi aquela placa, e quer saber, vim aqui porque gostaria de ler os recibos. Porque eu quero confirmar, sabe? É só pra saber mesmo. Posso ver os recibos… por favor?’

Não, né? Imagino o cara que teve essa idéia da plaquinha (que foi imediatamente mimetizada por 98% dos lugares que sofriam com as pichações no país): ‘Pô, vou colocar uma plaquinha dizendo que a gente vai DOAR DINHEIRO se eles não picharem. Não pra eles, né. Pros pobres. E pra eles não pensarem que é mentira, eles podem PEDIR OS RECIBOS DA DOAÇÃO, cara. Isso sim é uma grande idéia. Como sou perspicaz!

Outra coisa: as placas não especificam quantidade de pichações. Eu posso fechar aquela parede com spray ou rabiscar um coraçãozinho de giz: DANE-SE, não vai ter doação naquele mês, mesmo que a quantidade necessária pra pintar o coração caiba dentro de um pote de guache.

Depois, tem a parte mais cruel da história. Ninguém percebe o quão sacana é dizer que você só vai doar dinheiro pra instituições de caridade se pichadores não picharem? Não é legal basear um ato de altruísmo na boa-vontade de um terceiro que nada tem a ver com isso. Especialmente um terceiro que tem altas chance de realmente fazer o que ele está ali pra fazer (gente, PICHADORES PICHAM. Lidem com isso)

Óbvio, as empresas deveriam doar com ou sem pichações. Assumir numa plaquinha, pra todo mundo, que só vai doar se não tiver que comprar tinta e pagar pintor naquele mês é tipo a coisa mais mesquinha que alguém podia fazer.

No fim, explico porque a plaquinha só gera mais problemas: pra começar, os pichadores não vão deixar de pichar se encontrarem a plaquinha e as empresas vão continuar sem doar dinheiro pras instituições de caridade (enunciando que eles têm um motivo pra isso, no que vai todo mundo concordar que eles até tentaram ser legais com a humanidade, ok, mas os pichadores malvados não deixaram!).

Ou imagine um lugar que acabe doando só por alguns meses-sem-pichação do ano, e nos outros não doe, para poder comprar as tintas. E as pobres criancinhas que, durante determinado mês, vão ficar sem comer seu macarrão com salsicha? CLARO que elas pensarão ‘oh, não temos o que comer, mas não é culpa dos nossos benfeitores. Eles realmente tentaram, mas os pichadores não permitiram que comêssemos este mês! Eles são os verdadeiros vilões!’

Muito mais prático pintar com aquelas tintas anti-pichação. Evitaria todos os problemas. E as criancinhas que se danem.

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