12 de novembro de 2008 às 9h18
CFV(eS), ou Curso de Formação para a Vida (em Sociedade)
A sociedade se organizou de maneira a regular as atividades do indivíduo para restringir a possibilidade de que ele avance sobre a individualidade do outro. Isso, dito assim, soa fabuloso. Parece que a gente deu um jeito de fazer com que ninguém encha o saco de ninguém. Na prática, não funciona, e o Estado acaba se intrometendo na sua vida de maneira mais profunda do que seria justificável – algumas proibições, como a do casamento gay e a da eutanásia, acabam na verdade invadindo a individualidade de certas pessoas.
Por outro lado, o Estado se abstém de algumas relações e atividades humanas nas quais ele deveria sem dúvida intervir. Da mesma maneira que você é obrigado a fazer um curso de muitas horas para tirar carta de motorista, existem outras atividades do dia-a-dia que deveriam exigir uma habilitação.
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Andar de transporte público é provavelmente uma delas. A sociedade superestimou o homem quando achou que ele, por si só, seria capaz de se portar adequadamente dentro de uma máquina transportadora de alumínio junto com um monte de gente. As pessoas deveriam ser treinadas para isso. O curso para andar de ônibus, trem e metrô incluiria diversos módulos, a saber:
1. 8 técnicas para deixar o lado esquerdo da escada rolante livre para circulação sem ônus;
2. A importância de sair da porta se você não vai descer na próxima estação;
3. Higiene pessoal: as vantagens de banhar-se antes de pegar a condução, uso de desodorante e escova de dentes – o que é, como usar;
4. Idoso, grávida ou deficiente por um dia: sinta na pele o que é ter seu assento preferencial ocupado;
5. Como regular a altura de seu tom de voz de maneira inversamente proporcional à intimidade daquilo que você está relatando à sua colega de firma (e não o contrário);
6. Fone de ouvido versus alto-falante do celular: quais as vantagens de ouvir a sua música de maneira individual, maneiras de usar fones de ouvido;
7. Entrando: se a porta não fecha, é hora de esperar o próximo trem;
No final, o camarada que passasse no teste prático receberia um kit com desodorante, escova e pasta de dente, além de um fone de ouvidos.
Diante da popularização do computador entre as classes mais populares, faz-se necessário também sugerir a obrigatoriedade de um cursinho básico de informática, que seria requisito essencial para financiar um computador nas Casas Bahia em 36 vezes. Como um carro, o dono do PC seria obrigado a apresentar a habilitação para comprá-lo. No curso, além de informática, o cidadão aprenderia a ler e intepretar textos, a identificar fotos manipuladas, a não usar o drive de CD como porta-copos, a não escrever de maneira que ninguém consiga entender o que ele está dizendo. Além disso, seria fundamental aprender a diferença entre Software e Hardware, para compreender que não dá para ‘baixar o speedy‘ ou ir fisicamente até o Mercado Livre.
Outras orientações estabeleceriam regras quanto a publicação de fotos na rede. Velórios e cadáveres seriam terminantemente proibidos. Ensaios sensuais com tijolos sem reboque de fundo, em esgotos ou em palafitas também (não clique no último se estiver no trabalho).
Por último, o usuário de PC aprenderia português básico.
Clientes de banco, especialmente os mais idosos, deveriam poder passar por um cursinho intensivo de formação antes de receberem seu cartão. Em primeiro lugar, seriam instruídos a jamais compartilharem sua senha e númerio com aquele atendente de cara esquisita. Depois, seriam ensinados que podem sacar dinheiro direto no caixa eletrônico, de maneira prática e quase instantânea, e que não precisam tomar fila para fazê-lo na boca do caixa, criando uma imensa fila preferencial cheia de gente querendo sacar.
A verdade é que eu posso pensar em centenas de coisas que as pessoas não são capazes de fazer sozinhas de forma educada e satisfatória, e é por isso que talvez a solução fosse um curso para a vida no século XXI, ministrado quando as pessoas ainda fossem crianças – um lugar que ensinasse as pessoas a se portarem nas mais diversas situações respeitando os espaços dos outros e demonstrando cidadania.
Ouvi dizer que havia um lugar chamado ‘escola’ que fazia algo parecido, mas acho que é boato. Outro rumor dá conta que entidades chamadas ‘pais’ e ‘família’ também tinham papel nisso, mas eu nunca vi acontecer.




23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 

