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Convenção de Genebra: regulando o irregulável

Guerra é uma parada sinistra. E isso eu só posso supor, porque nunca estive em uma. Mas as evidências de que a guerra não é legal são muitas. A principal se configura pelo princípio da guerra – é um bando de homens brigando com outro bando de homens em nome de um conceito tecnicamente vazio, o de pátria.

Apesar de todo mundo ser igual todo mundo, a gente inventa que é parte de algo representando por uma bandeira e que aquilo nos une num só espírito. Isso nos diferencia de outro grupo igualzinho o nosso, só que unido por outra alcunha que é representada por uma bandeira diferente (às vezes nem tão diferente assim).

Dentro dessa premissa, cria-se a obrigação de matar outras pessoas e de morrer porque você precisa defender o espírito daquele negócio que é representado por uma bandeira. Você mata e morre em nome da pátria, que não é nada, na verdade. Mas lá está você, bravo e faceiro, no front de batalha.

Lá é vida ou morte, rapá. A coisa é braba. Você passa o dia inteiro, por dias, meses, com um único objetivo: matar outras pessoas antes que elas possam matar você. Não é exatamente algo tranquilo. Certamente precisa de um ligeiro preparo psicológico.

É o caos, a absoluta irracionalidade. Não existe nada mais irracional do que juntar dois grupos para que eles se matem por um conceito que é frágil como o de pátria.

Logo, é idiotice tentar ‘racionalizar’ algo que é por definição tão primitivo. Você não pode regular o irregulável. Tentar estabelecer regras de conduta em um conflito é a maior prova da infinita estupidez do ser humano. É muito burro, parece hipócrita. Você permite que os soldados inimigos sejam mortos com tiros de metralhadoras, mas proíbe que eles sejam mortos com o uso de determinadas armas químicas? Se eu fosse um historiador de uma civilização futura e estivesse estudando nossos costumes, certamente isso seria algo de que eu gargalharia. Parece coisa de português. É como dizer a um assassino ‘você pode esfaquear essas pessoas porque elas se alistaram e estão cientes dessa possibilidade, mas não pode esfaquear aquelas outras.’

É que existe uma tal Convenção de Genebra, que instituiu uma espécie de lista do que você pode fazer e do que não pode fazer se for um país em guerra. Olha a versão atual da Convenção:

§1- Os países em guerra não podem utilizar armas químicas uns contra os outros.
§2- O uso de balas explosivas ou de material que cause sofrimento desnecessário nas vítimas é proibido.
§3- O bombardeio de balões com projéteis é proibido.
§4- Prisioneiros de guerra devem ser tratados com humanidade e protegidos da violência. Não podem ser espancados ou utilizados com interesses propagandísticos.
§5- Prisioneiros de guerra devem fornecer seu nome legítimo e patente. Aquele que mentir pode perder sua proteção.
§6- As nações devem identificar os mortos e feridos e informar seus familiares.
§7- É proibido matar alguém que tenha se rendido.
§8- Nas áreas de batalha, devem existir zonas demarcadas para onde os doentes e feridos possam ser transferidos e tratados.
§9- Proteção especial contra ataques será garantida aos hospitais civis marcados com a cruz vermelha.
§10- É permitida a passagem livre de medicamentos.
§11- Tripulantes de navios afundados pelo adversário devem ser resgatados e levados para terra firme com segurança.
§12- Qualquer exército que tome o controle de um país deve providenciar comida para seus habitantes locais.
§13- Ataques a cidades desprotegidas são proibidos.
§14- Submarinos não podem afundar navios comerciais ou de passageiros sem antes retirar seus passageiros e tripulação.
§15- Um prisioneiro pode ser visitado por um representante de seu país. Eles têm o direito de conversar reservadamente, sem a presença do inimigo.

Essa coisa tem as manhas de institucionalizar a guerra. Pior do que tentar colocar regras em algo que é o maior exemplo de incivilidade da nossa espécie, é oficializar isso em documentos assinados pelo mundo.

Você pode argumentar dizendo que muitas dessas regras visam a proteção dos civis. Mas ISSO NÃO EXISTE e é hipocrisia tentar criar um conjunto de regras nesse sentido. Civis morrem e morrerão na guerra. Muitos alvos ficam no meio das cidades, e hoje em dia as guerras acontecem no meio das pessoas. Fazer guerra é assumir o risco da morte de civis, e não adianta assinar um documento dizendo o contrário só pra pagar de politicamente correto.

Guerra é guerra. Não importa se 300 crianças vão morrer hoje de bomba ou no ano que vem de câncer gerado por fósforo branco. É tudo uma merda – ainda são 300 crianças morrendo. Proibir o uso dessas armas químicas que causam danos a longo prazo é compreensível, mas é patético no contexto, porque parece o mesmo que dizer ‘se for matar, mata agora. não use artifícios que causem a morte depois’. Se pode proibir as armas químicas, porque não pode proibir as outras, também? Humanidade portuga.

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Fuja para as colinas

Foto por Evelson de Freitas, da Agência Estado

Corrão!1111! todos. Fuja enquanto é tempo. Coloque sua família num carro e dirija sem destino. Estoque mantimentos no porta-malas. Compre um manual de sobrevivência de bolso, baixe centenas de audiobooks para tocar no som do carro e adquira revistas de caça-palavras para exercitar a memória. Daí, declare seu próprio exílio e suma daqui. É o fim do mundo, meu amigo. E sua única chance é correr.

Nenhuma outra situação explicaria o que aconteceu nessa quente e arrastada quinta-feira de outubro em Santo André. Nada explica a polícia ter DEVOLVIDO uma das reféns – menor de idade – para o sr. Lindembergue sob o pretexto de que ela ajudaria a negociar a libertação da pobre moça Eloá. Oi? O cara faz concurso público, estuda uma porção de anos, ouve grito de Capitão Nascimento no ouvido para aprender a lidar com seqüestrador em situação de negociador. Ele até ganha um uniforme bonitão, colete à prova de balas e tudo, com a palavra NEGOCIADOR bordado atrás. Formidável.

Aí ele manda uma menina de 15 anos subir no apartamento e fazer o trabalho por ele. Faltou desconfiar que em hipótese nenhuma isso daria certo.

Que tipo de polícia devolve refém menor de idade para seqüestrador?

Vai ver é do mesmo tipo de polícia que luta com polícia no meio da rua. Eu nunca imaginei que veria algo desse tipo. Na mesma quinta-feira quente e arrastada, mas uns 30km mais longe, policiais do Estado de São Paulo esbofetearam-se entre si numa briga sem precedentes. A pergunta que fica: enquanto eles brigam entre si, quem briga pela gente? Beleza que é no Rio, mas você sabe que faz parte do contexto – quem briga pelo diretor do Bangu 3, o sétimo diretor de presídio fluminense a ser assassinado em oito anos? Relatos diziam que ele era um servidor exemplar – óbvio que era, se não fosse e tivesse aceitado grana do CV não tinha morrido.

Eu avisei: corra enquanto é tempo. O ‘Servir e Proteger’ já se aposentou há um tempão. Com salário integral. Mas sem reajuste há uns 15 anos.

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