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Arquivo: brilho eterno de uma mente sem lembranças

A mulher que nunca esquece (e não sou eu)

Por um momento, achei que seria bom ser como Jill Price, a mulher que nunca esquece.

A pobre diaba (putz, sempre quis falar isso) não esquece nenhum detalhes de todos os dias dela desde os 14 anos, sendo bem sucinta. Literalmente isso. Como se fosse uma habilidade do Sylar ou coisa assim.

A verdade é que eu nunca estive tão feliz com a minha capacidade de esquecer depois de descobrir essa mulher. Me dei conta do valor da memória fraca, valor que o esquecimento tem pra nossa sanidade psicológica. E não falo de esquecer situações, porque essas, quando são marcantes ficam na memória – é principalmente esquecer os sentimentos associados a essas situações. Esquecer a sensação ruim de errar e ficar só com a parte boa, que ensinou; esquecer a sensação ruim que os erros dos outros podem causar e conseguir perdoá-los.

Imagina como deve ser difícil pra essa Jill Price, digamos, perdoar alguém. A gente diz que o tempo é o remédio pra tudo, e não percebemos que essa ‘diluição’ da memória, causada pelo tempo, é que é o verdadeiro remédio. Pra tal da Jill, não há remédio. E tipo – brega ou não, é uma dádiva que tenhamos a habilidade de esquecer.

Acontece o seguinte: se eu fizesse uma comparação simples entre quem eu era há um ano, quando fiz 20, e quem eu sou agora, daria pra enumerar algumas diferenças expressivas. Há um ano, eu tinha mais ou menos 25 quilos além do que eu tenho hoje; não tinha um óculos de sol nem roupas tão legais, meu blog não meu dava tantas alegrias, eu não me dava tão bem com meus amigos e nem tinha um encontro marcado pra semana seguinte. Há um ano eu não poderia estar escrevendo esse post do trem num iPod Touch, ouvindo Oasis, porque eu não tinha iPod Touch nem gostava de Oasis.

Por outro lado, um ano atrás eu não sonharia que O Pior Dia Da Minha Vida aconteceria do jeito que aconteceu, e quase um ano depois. Ah – e há um ano, eu tinha uma memória. Das boas, dessas de se orgulhar. E eu sinto falta dela.

Achava que esse era um dos meus principais problemas, estar tão estressada e cheia de informação que a minha memória foi para o saco. Naquela época, a quantidade ínfima de stress que me atormentava não era suficiente pra me transformar na Dóri.

dori
Em quem?

E hoje, to pior do que a Drew Barrymore em Como se fosse a primeira vez (se preferir, Minha namorada tem amnésia, no incrivelmente franco título da versão lusitana.

(Quando meu lembro disso), eu lamento. Preciso anotar tarefas, pedir pros amigos me lembrarem do que eu estava falando no meio das frases, anotar idéias, nomes, números, cores, funções, tarefas – tudo. Nada fica na cabeça, e isso me preocupa. Eu só tenho 20. Quando tiver 40? Alzheimer?

O problema é se dar conta, em tratamento de choque, que único presente de aniversário que eu realmente preciso esse ano é de uma memória ainda mais diluída, que me permita esquecer tudo o que ´necessário pra poder continuar vivendo bem.

eternalsunshine

Uhum.

Completo 21 no dia 26 – mais feliz, mais completa, melhor, mas com a certeza de que não ligo se minha memória tá um caco – talvez, seja melhor desse jeito. Talvez seja o primeiro passo pra conseguir esquecer de verdade de coisas que não podem ficar na cabeça, porque senão vão enlouquecer a gente.

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