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Arquivo: capitalismo

Sua imagem, eternamente, congelada num bloco de cristal

Tem essa lenda de que as pessoas costumavam ter medo de fotografia quando esse fantástico recurso que captura o momento foi descoberto. Ou inventado. Enfim. Os antigos achavam que a câmera fotográfica era capaz de aprisionar a
alma das pessoas.

Tinha uma parada semelhante com espelhos. Acreditava-se que eles eram também capazes de capturar a alma das pessoas. Por isso, inclusive, que vampiros (os tradicionais, não os de Crepúsculo, parece) não têm reflexo em espelho – eles não têm alma.

Claro que a pessoa que chegou a essa brilhante conclusão lá na idade média não parou pra pensar que se o espelho só refletisse coisas com alma, tudo o que veríamos diante de um deles seria… nós. Ou a cama, a parede e o resto das coisas têm alma? Ok, divago.

De qualquer forma, se tem alguma invenção do ser humano que é capaz de aprisionar a alma de forma medonha, eu descobri ela neste sábado. Se chama Cristal Image.

slogan

Será que em nenhum momento, da criação do slogan até a aprovação dele, ninguém reparou que o que ele oferece não é exatamente algo, digamos, a se desejar? “Você, eternamente dentro de um cristal” pra mim soa como plot vagabundo pra episódio de Goosebumps. Eu não quero ficar eternamente aprisionada num cristal. Isso dá medo.

De qualquer forma, a Cristal Image vende blocos de cristal (que parecem acrílico) com uma imagem do que você quiser. Eles esculpem lá dentro, em 3D, uma reprodução de algo – pode ser o brasão de um time, um objeto, ou mais comumente…

Dramatic Chipmunk animated gift

…uma pessoa.

robertobizarro

É isso mesmo. Você dá uma chegada no quiosque do shopping (eu tirei a foto do Roberto na vitrine), eles fazem um scan louco 3D de você e colocam esse scan dentro de um bloquinho transparente. Esse do Roberto tinha uns 15 centímetros de altura. Aí você captura essa imagem bisonha, transforma sua pessoa (ou quem você quiser, sei lá) numa reprodução assustadora daqueles efeitos especiais de filme de terror em que a expressão dos indivíduos é congelada para a eternidade e, a cereja do bolo – DÁ ISSO DE PRESENTE PARA ALGUÉM.

Sim. A idéia é registrar as cabeças e presentear entes queridos. É um esquema moderno e um pouco menos cruel daquelas tribos que encolhem as cabeças dos inimigos e as colecionam como recordação.

Na primeira vez que vi, fiquei em volta do quiosque, chorando de medo, e me assustando com as pessoas que chegavam, olhavam a vitrine e diziam “olha, que legal!” Não vou nem comentar a pertinência decorativa do acessório (ok, eu vou – puta negócio feio pra pôr na estante, de um mau-gosto fenomenal), mas não é só isso, é pelo aspecto assustador que tem um bloco de vidro com a expressão de alguém congelada. E alguém deve fazer dinheiro com isso – não é pouco, vide o preço do Roberto.

AH. E falando no preço do Roberto, aí vem a parte esquisita – eles vendem blocos prontos lá na vitrine. É como se eu chegasse no quiosquezinho e dissesse:

- Opa. Quero um bloco de cristal com a imagem de alguém aprisionada eternamente.
- Pois não, senhora. De quem é a imagem?

- Hum, deixa eu dar uma olhada… tem alguma sugestão?
- A Tatiane e o Morelli têm saído bastante, senhora.

tatianeemorelli

- É mesmo? É, eles parecem bem felizes. Acho que vou levá-los, vão ficar lindos no aparador da sala de estar.

I mean, QUEM PAGA R$129,00 por um bloco de vidro com um cidadão desconhecido chamado Roberto, sua expressão de insanidade congelada para o resto da eternidade congelada sobre a mesinha de canto? Por quê?

Parece que a resposta é difícil mesmo, porque segundo o site da Cristal Image, que é uma marca no estilo franquia, só existem duas lojas – uma no Shopping ABC (uhú!) e outra no Mauá. Sucesso.

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Devo sim, e to pagando. Me desculpe. Quer um café?

Alguém teve uma idéia muito, muito assustadora, lá na Espanha. Já ouviu falar dos Cobradores de Fraque?

Cobrador de Fraque

Uma empresa disponibiliza uma série de sujeitos especializados em cobrar devedores de uma forma bem mais inteligente, específica e ‘sob demanda’. Esses sujeitos, vestidos de fraque (de um jeito até meio circense), visitam os devedores que já foram cobrados pelos ‘métodos tradicionais’ mas ainda assim não pagaram a dívida.

O Cobrador tem como objetivo constranger o devedor. Ele vai até sua casa, te diz alegremente que você está devendo. Se você disser que vai pagar, e não pagar, ele volta e toca a campainha de todos seus vizinhos e os avisa que você está devendo, quanto e para quem. Se for o caso, volta para o escritório e faz um intenso trabalho de pesquisa para descobrir alguns de seus contatos profissionais, potenciais clientes e parceiros, liga para todos e conta tudo sobre sua dívida e a maneira como você não a paga desde 2002. A Band fez uma matéria sobre eles no fim do ano passado:

Na Espanha, a prática já está tão difundida que o cobrador não chega ao nível do ‘vou espalhar pra todo mundo’. Normalmente, a pessoa trata de pagar rapidinho se receber o cobrador em sua porta, que é pra evitar todo o resto. A idéia é basicamente o seguinte – se você deve, vou fazer com que todo mundo saiba disso. A probabilidade de que você pague é maior.

Os serviços estão funcionando, e a Cobrador recebe como pagamento parte da dívida paga. Em alguns casos, chega a comprar toda a dívida por um desconto, e quando recebe tem bons lucros. Apesar de estar se expandindo e abrindo filiais na Itália e em Portugal, no Brasil ela nunca vai chegar. O Código de Defesa do Consumidor veta qualquer tipo de ‘constrangimento’ público por parte de credores pra forçar o pagamento de dívida.

Bom para mim, já que ninguém me deve. Mas se devesse, eu juro que ia gostar de ter um serviço desse à disposição.

Muita gente deve desde sempre, a crise só intensificou a coisa. Tirando o possível aumento depois da invenção do cheque especial e do cartão de crédito, porque merda acontece, e às vezes você gasta com a certeza de que terá um dinheiro que por algum motivo não vem.

E ai começam as cobranças. Fica um fulano de uma financeira ligando pra você pra supostamente te lembrar o tempo todo que você deve, o que é absolutamente ineficaz. Normalmente ninguém que pretende pagar esquece que deve. A não ser que seja uma conta que você esqueceu de pagar, você sabe quando deveria ter pago algo e deliberadamente não pagou porque não teve dinheiro para isso. Acho que a maioria das pessoas normais é assim. E se você esqueceu que deve e precisa ser lembrado seguidamente, é provavelmente porque não tem intenção de quitar a dívida. Embora talvez Alzheimer também gere sintomas semelhantes.

De qualquer forma, o objetivo da mulher que te liga da financeira pra ‘te lembrar’ que você precisa pagar alguma coisa é te encher o saco até que você desista de ouvir encheção (e fique com medo de ter o nome registrado no SPC, também) e pague.  Claro que há maneiras de contornar isso, o que torna o sistema todo ainda mais ineficaz. Você pode não atender telefones na sua casa, e pedir pra que ninguém te passe telefonemas provenientes do Banco Y; você pode instalar um bina e decorar pelo menos o prefixo do número que normalmente liga cobrando, daí não atende mais àquelas ligações;  e, no último caso, se você quiser for do tipo estelionatário, não paga, deixa teu nome ir pro SPC e espera ele sair, três anos depois. A dívida continua existindo, mas seu nome não está mais sujo e você pode contrair mais delas.

Tudo isso, no fim, significa o seguinte: pagar uma equipe de telemarketing pra cobrar indivíduos devedores não compensa financeiramente. Quem quer e pode pagar não precisa ser cobrado duas vezes por semana. E quem não quer não vai fazê-lo porque tem uma mulher que fica ligando. Pros credores, uma empresa dessa é muito, muito mais eficiente. E destaca a bizarrice do sistema, que consegue capitalizar tudo, até mesmo a não-capitalização.

(Li sobre a Cobradores na piauí do mês de fevereiro, e boa parte das informações do texto vem de lá. Tem também uma matéria no G1, da qual eu tirei a foto)

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As abelhas estão desaparecendo da Terra

O último filme do M. Night Shyamalan que eu assisti se chama The Happening, cujo nome em português é O Fim dos Tempos, e nele acontece mais ou menos o mesmo que acontece em quase todos os filmes desse cara (menos em Sexto Sentido): algo estranho está acontecendo, embora ninguém saiba muito bem o quê e embora algumas pessoas pareçam saber, porque agem estranhamente, mas não sabem.

M Night Shyamalan

O figurante de Caminho das Índias diretor de cinema M. Night Shyamalan


No final, ninguém fica sabendo o que de fato estava acontecendo, a coisa estranha que estava acontecendo pára de acontecer e espera-se que dali você tire uma moral, porque tudo é na verdade uma metáfora para alguma crítica social.

Ah! E nos filmes dele ninguém gargalha – exceto as crianças, ainda que muito raramente.

Foi assim em Sinais, A Vila, Dama da Água (o único que eu de fato não gostei) e com esse de agora, O Fim dos Tempos. Mas foquemos no último, de novo. Nesse, as pessoas começam a morrer misteriosamente. Daí descobre-se que é algo no ar – uma espécie de veneno, que faz com que as pessoas entrem em pane, percam o senso de sobrevivência e provoquem sua própria morte do jeito que estiver à mão.

O negócio é que esse filme começa da premissa que as abelhas estão sumindo da terra. O Mark Wahlberg, que é o professor-mocinho no filme, explica aos alunos que as abelhas estavam desaparecendo das colméias. Os apicultores não sabiam explicar o que estava acontecendo, porque não encontravam os corpos nem nada – elas simplesmente evaporavam.

Pois que eu fui pesquisar sobre isso aí e parece que é verdade.

As abelhas começaram a sumir no meio de 2007 nos EUA e isso afetou muito as safras da época, já que gerou desequilíbrio no ecossistema. As abelhas são responsáveis pela fertilização cruzada das florzinhas, porque passam em uma, pegam pólen, depois vão para outra e no processo acabam levando pólen da planta anterior.

Os relatos dos apicultores partiram de 22 estados dos EUA simultaneamente. No início, não havia nenhum tipo de indicação do motivo do sumiço. Biólogos, cientistas – ninguém sabia explicar que diabos acontecia. Em setembro de 2007, uma pista: um vírus australiano podia estar causando a morte das abelhas. Mas nada foi comprovado. Um documentário sobre o assunto está sendo produzido, mas parece que nada ainda foi concluído.

No filme, a explicação que se dá pra isso é nenhuma, porque como eu disse, a gente nunca fica sabendo o que está acontecendo. Mas tem uma moralzinha do tipo ‘a natureza às vezes faz coisas catastróficas que a gente jamais vai entender’.

E quer saber? Eu acredito nisso. Se eu fosse uma abelha, e tivesse descoberto um jeito de cair fora, já tinha ido. Se a Terra é um ecossistema de ecossistemas, ou seja, um organismo formado por um monte de orgãos, uma analogia de um ser vivo, ela tem sim meios de repelir e inibir predadores – opa, nós. Todo mundo fala em ‘fim do mundo’ e ‘destruição da terra’, mas a Terra tem meios de se regenerar e de se defender. É com a nossa espécie que devemos nos preocupar.

Aliás, a mulher nesse vídeo diz isso:

Tem mais um monte de capítulos, todos disponíveis no Youtube, através desse link. Mas a questão principal nem tem a ver com eco-xiitismo ou qualquer outra coisa assim. O mais importante é entender pra onde foram as abelhas e por quê – e o pior é que talvez nunca saibamos a razão real.

Só que, no fundo, todo mundo sabe que só uma pessoa poderia ser responsável por esse genocídio de abelhas…

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A Flora tá destruindo a fauna! (RÁÁÁÁÁ)

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Sem opção: como o sistema te obriga a fazer o mal

As próximas linhas, de certa forma, serão um desabafo. É que todas as coisas que tenho visto e pensado, nos últimos meses – e não foi coincidência, mas sincronicidade – me levam cada vez mais à certeza que viver nesse mundo é muito prejudicial pra você, se você for alguém preocupado com o bem estar alheio.

Pode parecer óbvio para as pessoas iluminadas – a gente aprende já na escola que o capitalismo é um sistema baseado na exploração de mão-de-obra – mas essa coisa só me atingiu, na totalidade, nas últimas semanas.

O negócio é que, se você vive nesse sistema, não basta ser alguém bom, que não faz o mal diretamente. Nada basta, porque viver em sociedade hoje é, direta e indiretamente, causar sofrimento a um monte de bichos e gente ao redor do mundo. E o que fazer a respeito disso?

Compre um carro e remonte, na sua cabeça, o caminho que todas aquelas toneladas de ferro e borracha percorreram para estar ali, e você vai perceber que houve países de terceiro mundo explorados, gente recebendo centavos pela extração de determinado commoditie e você, indiretamente, causando o mal (fora a poluição que vai gerar depois, mas nem entremos nesse mérito).

Compre um tênis e leia onde ele foi produzido. Dos R$300 que você pagou, a mão-obra-explorada tirou menos de R$2. E você só quer vestir um tênis legal e sair com os seus amigos.

Coma um belo bifinho, frito pela sua mãe com tanto amor, com arroz e fritas, e pergunte-se o quanto aquele boi sofreu pra carne estar ali. OK, e se não liga pros bichos, pense nos salários baixos e condições desumanas dos funcionários de matadouros.

E quando eu digo ‘pense’, cara, me desculpe. Não quero te deixar com a consciência pesada, porque apesar de ter culpa, você não tem. É só uma constatação de que estamos imersos em algo que nos obriga a provocar o mal, massivamente. E não há escolha. Porque você é um cara legal, que é educado com todo mundo, ajuda sua mãe em casa, dá um beijo na avó quando tá com vontade, tem vários amigos e só quer ter um tênis que achou bonito, comer a comida que acha gostosa, ter um carro legal. Não há nada de errado nisso na essência, e justamente por isso é assustador: a gente causa o mal sem sequer desejá-lo.

Comecei a pensar em alternativas, OK? Eu juro. Algo pro futuro, porque não é assim também – não vou virar hippie, e a história de Christopher McCandless é admirável, mas eu não tenho, nem de longe, essa iluminação espiritual, essa coragem e esse desprendimento. Só que eu não encontrei nenhuma saída viável. Pensei em ficar rica (muito rica) e comprar uma fazenda auto-sustentável, mas o mundo é tão babaca que a própria fazenda auto-sustentável demanda muito dinheiro, adquirido – veja só – fazendo mal para as pessoas indiretamente. O caminho até ficar rica é cruel, sem mencionar que não é algo que eu possa simplesmente fazer acontecer. Nada garante que eu vá ficar rica.

Olha, nem penso nas obviedades. Viver sem iPod, sem internet – isso seria o de menos, sério. Estive pensando que, com a cabeça ocupada em tirar leite da vaca, regar horta e essas coisas de gente sustentável, que precisa produzir seu próprio alimento, nem teria tempo para internet. Mas se fosse para abdicar completamente da civilização, isso significaria excluir remédios.

E eu não tô disposta a voltar ao século XIII e morrer com uma infecção idiota provocada, sei lá, por uma picada de pernilongo que coçou demais, só porque não havia antibiótico. Sem mencionar a facilidade proporcionada pela invenção do absorvente, e isso seria impossível de abdicar.

Eu não posso escolher viver totalmente fora disso. Não sendo radical, é possível viver uma vida menos dependente dos bens de consumo, sim. Mas acho que se você pode ter um papel higiênico, vai poder ter também lenços de papel. Daí vai comprar papel toalha, uma privada, vai precisar ter água encanada, luz… e aí, meu amigo, ferrou.

Fico pensando que poderia tentar viver numa comunidade indígena, abdicar dos meus hábitos de civilizada e começar uma nova vida. Mas esses índios de hoje estão muito integrados na sociedade, né? Acho que não seria, ainda, o ideal.

Como eu disse no começo, é um desabafo diante da minha impotência e do duplipensar. Porquê se de um lado eu estou extremamente insatisfeita com o que o estilo de vida que eu levo causa no mundo, de outro eu não vejo compensação prática em abandonar todo o conforto que ele me proporciona – exceto, é claro, o meu karma, que vai ficar muuuito mais leve (pra quem acredita nessas coisas).

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O texto pode soar demagogo, e até ingênuo, mas juro que é sincero. Foi escrito numa tacada só há cerca de um mês, mas não tive coragem de publicar na ocasião. Achei legal soltar hoje, porque reli e achei que é provavelmente uma das coisas mais automáticas que eu já escrevi, quase uma psicografia (só que não de terceiros).

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Cheat codes não tornam a vida mais fácil

Viver, em si, não é um negócio fácil. Existem algumas complexidades em viver que a gente só compreende vivendo. Fico satisfeita em constatar que, seja lá quem estiver lendo isso, compreenderá o que estou dizendo, porque certamente estará vivo. De qualquer forma, a vida no dia-a-dia vem com monte de exigências sociais, expectativas suas e dos outros. É preciso lidar com todos os estímulos, com as diferenças, com as outras pessoas, tudo ao mesmo tempo.

Às vezes, eu desejo que a vida fosse um pouco mais fácil. Não tô dizendo que ‘oh, eu tenho muitas dificuldades’, mas algumas coisas são bem enroladas e poderiam ser mais simples. Mas e só um pouco. Uma facilidade aqui e outra acolá, não uma vida muito fácil. Porque olha só o que acontece com as pessoas cuja vida é (ou se torna) muito fácil: muitas acabam enfiando o carro do pai num poste, outras ficam esquisitas, outras perdem a cabeça

Paris Hilton entediada

Não é a toa que ela vive com cara de 'tô de saco cheio'

Quando penso em ‘vida fácil’, a primeira pessoa que me vem à cabeça é a Paris Hilton, que deve ser uma pessoa absolutamente entediada. Muito divertidade, no começo, mas entediante num segundo momento. Exemplifico: eu tenho algum motor pra continuar vivendo, que é conquistar algumas coisas que não posso agora. Ok. Mas ela não têm isso. Posso estar julgando mal, mas arrisco dizer que a Paris Hilton não almeja nenhuma conquista espiritual ou pessoal em grande escala, assim. Tipo atingir um estado de iluminação. Logo, dá pra supôr que todas a soutras aspirações dela podem ser compradas com dinheiro. Então, não há nada que a impeça de ter tudo o que ela quiser e fazer tudo o que lhe convir agora. E isso deve ser muito legal no começo, mas depois é algo que provavelmente me entediaria. É por isso que essas pessoas normalmente são pegas fazendo coisas absurdas, tipo o Boy George e o George Michael. O que resta de interessante para essas pessoas fazerem que não possa ser comprado com dinheiro?

E ainda assim a vida da Paris Hilton, em alguns aspectos, deve ser mais difícil do que a minha: ela lida com pressão de todo mundo, por causa da visibilidade que tem, e precisa decidir o que fazer com tanto dinheiro. NOT

Daí leio coisas como essa (clica pra ler):

Carol Miranda tira costela

Carol Miranda, aos desinformados, trata-se da sobrinha da Gretchen que fez um filme pornô e perdeu a virgindade na frente das câmeras. Supostamente.

Sabe quando você joga videogame? Você joga um pedação, passa várias fases na honestidade e no suor, e daí descobre que tem uns cheat codes disponíveis. Você resiste um pouco, mas chega num trecho especialmente difícil, em que você vai precisar daquele código que te dá munição infinita. Daí você pensa ‘vou fazer só esse código, só pra passar dessa fase. Depois eu desabilito, continuo a jogar e tudo bem’. Mas você faz o código da munição infinita. E você vê que é bom. E você resolve que não há mal em continuar jogando com ele. Daí, vem outra fase com um trecho difícil, e você habilita outra função do cheat code. E em breve o jogo não terá nenhuma graça.

Tirar duas costelas, para mim, é o equivalente na vida real a fazer cheat codes no video-game. No geral, compulsão por cirurgias plásticas, pra mim, é exatamente isso. Por algum motivo, a gente chegou num ponto em que consegue comprar praticamente tudo com dinheiro. E daí a gente quer mudar cirurgicamente, o que é uma intervenção agressiva no corpo humano, tudo o que dificulta nossa vida. Mesmo que seja só um pouco, e mesmo que fosse possível, digamos, jogar por mais tempo em fases chatas para recolher mais cartuchos. Só que isso levaria mais tempo. Seria mais natural, menos agressivo, mas é difícil. E você não quer mais dificuldades, né?

Há limites no video-game quando a gente coloca um cheat code? Não. E é assim que a gente tá vivendo, sem limites, no sentido de que tudo que incomoda pode ser mudado com dinheiro. Ninguém mais enfrenta as coisas de fato, busca o meio natural de resolvê-las. E pode aplicar isso a todas as coisas: quando você fica insatisfeito com um serviço público, por exemplo, você luta melhora melhora dele ou pagar por ele? Escola pública, segurança particular, plano de saúde…

Temo que, como no videogame, quando o jogo fica muito chato quando você pode fazer tudo, a gente acabe assim, pra sempre insatisfeito e entediado. Sobre o tédio, como já vimos, ele pode gerar fenômenos sociais que são aberrações. E quanto à satisfação, infelizmente, não dá pra comprar satisfação eterna, mesmo com todas as plásticas, escolas particulares e festas homéricas à là Paris Hilton do mundo.

Donatella Versace deformada

Donatella Versace que o diga


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O tiro que saiu pela culatra

Aquelas armas misteriosas escondidas no celular, na caneta ou no grampo de cabelo de James Bond não são tão fantasia assim, meus amigos. A diferenças é que eles estão nas mãos dos bandidos. E que, bem…  os filmes tornam a coisa um pouco mais sofisticada.

Por enquanto, parece empolgante. Vanguardista. Afinal, sabemos que os celulares já fazem de tudo – caso você não seja entusiasta de tecnologia, saiba que no Japão, além das funções às quais já estamos acostumados, celular serve também como cartão de débito e bilhete de metrô -, e só faltava um que atirasse mesmo. Justo.

Mas daí vem a imagem da coisa.

É um brinquedo inútil, porque ninguém pode possivelmente confundir isso com um celular de verdade. Se alguém tira do bolso um aparelho moderno, desses com que a gente tá acostumado, daí sim é um disfarce perfeito. Passa batido.

Um negócio desse chamaria atenção demais, exatamente o contrário do esperado, provavelmente – ninguém enfia uma arma dentro de um suposto celular se não quer ser discreto. E a real é que esse trambolho talvez até seja mais vistoso que uma arma.

A figura imponente e sofisticada de um mafioso destoa completamente de um um celular de RS$1,99 escrito NOKITEL. NOKITEL nem quer dizer nada, pelo amor de deus. Um italiano vestido de terno Armani de risca de giz JAMAIS tiraria algo assim do bolso. Os dois símbolos combinados provocariam imediatamente uma confusão mental no observador atento.

Ou seja: elemento surpresa FAIL, porque assim que o cara sacasse essa parada qualquer um notaria que existe algo errado. Se você fosse um pouco mais esperto, seria o tempo suficiente para reagir. No fim, tendo a pensar que um mafioso com uma arma é um conjunto bem mais discreto do que um mafioso com um celular de brinquedo parcamente parecido com modelos dos anos 90.

O negócio seria um iPhone com pente para oito balas. Ai sim…

Para finalizar, gostaria de pedir atenção para o fantástico trocadilho alcançado por mim no título do texto. Veja bem, faço um paralelo entre a tentativa vã dessa coisa de se parecer com um celular de verdade e o fato de ser uma arma, por isso o termo ‘tiro’. Formidável, não?

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O início do fim do capitalismo

Eu sou ‘de esquerda’ desde antes de saber o que isso queria dizer. Sempre fui a favor dos direitos das minorias, bem antes de eu saber que isso significaria uma posição política.

Não acho que existe contradição entre ser socialista e, sei lá, comer no McDonalds de vez em quando. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu não concordo com as condições do sistema estabelecido, mas ele é o sistema estabelecido e eu vivo sob essas condições. E também não enxergo contradição nenhuma entre querer ganhar dinheiro e ser a favor de um regime de esquerda. Eu gosto de conforto. E para adquirir conforto, preciso de dinheiro. É bem simples. Se eu precisasse de palitinhos, ficaria empenhada em ganhar palitinhos.

Não existe nada de errado com o capitalismo, exceto o fato de que tem muita gente ganhando muito pouco dinheiro, o que não lhes permite ter condições básicas de vida, e pouca gente ganhando mais do que o necessário para ter uma vida confortável. Para mim, isso é o suficiente para dizer que é um sistema que não funciona.

Depois que entrei na faculdade, estudei (muito pouco) sobre os sistemas econômicos, seu início, meio, fim e substituição. E dois professores nos fizeram entender que todo sistema econômico já implantado teve contradições, e ruiu sob suas próprias contradições, dando lugar a outro sistema – esse, que corrigiria as contradições do anterior, mas apresentaria novas contradições, eventualmente, e seria substituído por outro… e assim sucessivamente.

A primeira contradição do capitalismo se apresenta de maneira bem simples. Como é um sistema baseado na acumulação de capital e no lucro, ele gera a redução do poder de compra da população, que vê seu salário reduzido para aumentar os lucros dos donos das empresas. Com salário baixo, não há consumo; se não há consumo, não há lucro.

A outra contradição do capitalismo reside no consumo desenfreado de recursos. A matéria prima para a maioria das coisas é esgotável. E se não há mais petróleo, não se produz plástico; se não há mais ferro, não se fazem mais latinhas. E quanto maior o consumo, maior a produção e maior o consumo etc.

E as coisas estão ficando complicadas para o capitalismo.

A verdade é que o capitalismo é tão frágil quanto qualquer outro sistema. ‘Livre-mercado’ é papo furado – só é defendido quando a intervenção do Estado acaba prejudicando os investidores. Agora, que eles precisam de ajuda financeira do povo – o pacote americano custa 700 bilhões de dólares, o suficiente para comprar, tipo, duas Dinamarcas – a intervenção do Estado não é só bem vinda. É fundamental.

Não me lembro dos investidores de Wall Street recorrendo ao Estado interessados em dividir com a população os lucros astrônomicos  conquistados em épocas de vacas gordas. Ironicamente, há sim algo que os capitalistas ficam felizes em socializar – o prejuízo.

Não costumo falar dessas coisas aqui, mas para começar, é um assunto simples – embora pareça complicado – e que diz respeito a todo mundo. Em segundo, eu esperei muito tempo por esse momento para deixar que ele passe em branco.

Os especialistas dizem que esse é só o primeiro dominó caindo. As conseqüências podem ser gritantes. Mas é a grande chance de tentarmos alguma outra coisa. E aqui não falo de um sistema Marxista propriamente, mas alguma outra coisa, se é que existe um sistema 100% justo.

Enquanto isso, estoure a pipoca, acomode-se em sua poltrona e assista ao espetáculo da queda do capitalismo. Vai ser memorável.

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