1 de maio de 2009 às 15h33
Uma geração de malucos (MALUCOS!)
Em 1969, o mestre Chico Anísio já fazia ’stand-up comedy’ de maneira genial, surpreendentemente atual. É por causa de caras como ele que a gente percebe que humor pode ser atemporal – se o cara é muito bom, ele não precisa fazer piada sazonal, que o humor não é algo ‘de época’. Caras como ele ou como o Monty Python provam que há quase 50 anos atrás faziam humor que não perdeu a graça com o tempo.
Mas beleza, que o vídeo não é pra falar disso. É que no fim dele o Chico faz uma piada sobre crianças neuróticas. Qual a cor do chapéu da mulher que passa atrás dele nessa hora? [/topatudopordinheiro]
Brinks. Continuando com a prosa, ele diz que esse negócio de criança neurótica é um absurdo, isso não existe, que inclusive ele discutiu isso com o filho dele naquele dia depois do menino voltar do psiquiatra. RÁ! E eu tava me perguntando – esse negócio da nossa geração ser toda louca, será que é de agora ou sempre foi assim?
Por ‘nossa geração’, entenda fim dos anos 80 – começo dos anos 90. E por ‘toda louca’, entenda todos os problemas psiquiátricos que a gente enfrenta. É, porque eu por exemplo seu esquisita pra cacete. E só tenho amigo doido. Todos meus amigos tem algum problema bizarro, daqueles que Freud explica ou que são originados por trauma na infância.
É o tipo de coisa que minha vó diria que é falta de apanhar. Acho que a gente foi criado muito a leite com pêra e ovolmaltino, sabe? Hoje criança pode tudo, criança dá palpite, criança manda na casa, criança consome – criança pode ser até o principal vetor de consumo de uma família. A publicidade explora isso, claro, e acho que isso faz mal pra nossa cabeça.
Minhas suspeitas começaram quando minha mãe contou pela primeira vez a história de que, aos 3 anos, eu pedi a ela que me comprasse Tampax. Sim, Tampax, o famoso absorvente interno. Minha mãe, intrigada, perguntou por que motivo eu, uma garotinha de três anos, cobiçava um absorvente higiênico interno. Segundo ela mesma, eu relatei que queria um Tampax porque gostaria de comê-lo.
Minha mesma mãe conta outra história curiosa relacionada a maneira como as crianças absorvem (sem trocadilhos) esse tipo de estímulo. Minha mãe tinha uma máquina de lavar, mas não era assim… bem, não era muito boa. Quer dizer, vai ver era; mas na minha cabeça, não era. Porque ela ficava lá lavando roupa e não tinha tempo pra brincar comigo. Daí, eu comecei a trabalhar.
Eu tinha 4 anos, e trabalhar consistia em andar em círculos no quintal com minha bicicletinha, claro, com uma maleta debaixo do braço (meu pai saía pra trabalhar de moto com uma mala). A partir daí, já com o trabalho me tornando mais digna, me senti no direito de me queixar para minha mãe sobre a falta de tempo dela para brincar comigo. Ela me explicou docemente que precisava lavar a roupa. Mas eu tinha uma solução para aquele transtorno, causado claramente pela baixa qualidade da máquina de lavar, e lhe disse: Mãe, vou trabalhar, trabalhar e trabalhar, e comprar uma Brastemp pra você.
Daí eu trabalhei, e ok. Até hoje não sei se fiquei esquisita por causa dos estímulos da publicidade ou por ter sido precocemente envolvida com trabalho infantil. Mas o negócio é que a gente é tudo doido, as crianças de hoje tão todas malucas, e eu queria muito saber porque. Pode ter a ver com a publicidade, com a inversão de valores gerada pelo capitalismo, com o mundo que tá maluco, até com a gripe suína pode ter a ver.
Ok, não tem a ver com gripe suína. Mas a situação tá complicada, e quando eu analiso os meus problemas e os dos meus amigos, eu encontro só um motivo – nossos pais.
Quer dizer: eu não sei o que os pais fizeram todos de uma vez pra coisa ficar assim. A gente pára pra pensar e todos os pais dos meus amigos doidos, e os meus pais, são ótimos pais (ok que isso depende da comparação que você faz e a gente tem Alexandre Nardoni aí pra manter os padrões lá embaixo). Pisam na bola daqui e dali, mas nada drástico. Mas parece que uma coisinha, um errinho na nossa infância, uma cobrança a mais ou a menos, uma demonstração de desapontamento, essas coisas viram uma bola de neve. E quando você vê, tá escrevendo um blog tá indo no psiquiatra.
E eu não vou cantar Legião Urbana agora, mas descobri também que, além das nossas neuras todas serem plenamente explicáveis por analogias Freudianas relacionadas a maneira como enxergamos nossos progenitores, o único jeito de ficar bem é descomplicar as coisas.
É uma mistura de Carpe Diem com Don’t worry, be happy, Hakuna Matata e A Festa, a última de Ivete Sangalo, tudo com muito suíngue e descontração, mas sem os clichês. Essa deve ser a vida. Ela precisa ser leve, e você precisa rir dela sempre – igual ao Chico Anísio lá no começo -, porque ela ri de você o tempo todo. Precisa ser despretensiosa, porque precisa ser surpreendente sempre. Você precisa olhar pras coisas com mais compaixão, mais magnânimidade, mais bom-humor e um pouquinho mais de paciência. Também ajuda só fazer pros outros o que você gostaria que fizessem com você. Daí, é só esperar as coisas acontecerem, porque parece que a fórmula funciona.
Funciona naquelas. Tipo, descobri que diante das pessoas MUITO NORMAIS – o gado – mesmo depois do deploy da sua maluquice (ou seja, o relaxamento que vai levar a uma maluquice beleza, por assim dizer) você vai continuar parecendo louco. Eu, por exemplo, por mais normal que pareça no geral, reconheço uma pessoa normal demais pelo jeito que ela me olha, como se observasse um animal esquisito. Isso é curioso. Mas só deixa a coisa toda mais engraçada e mais fácil de suportar.
Outra coisa que ajuda é observar as pessoas e entender exatamente o que parece normal pra elas, e replicar isso. Daí você parece normal pra elas, mas só esse seu comportamento te torna mais louco ainda. E se você por acaso ainda achar graça nesse disfarce, puta merda, você é dos meus.
Ah, e uma dica pras gerações vindouras: você, que nasceu no fim dos anos 90 – a profissão do futuro não é engenheiro ambiental, infectologista, ufólogo. É psiquiatra, amigão. O mundo está cada vez mais cheio de gente doida, e elas têm dinheiro. Se for pra ser doido, que seja rico, porque aí te consideram excêntrico.
*Esse post foi perdido devido a um problema no servidor. Os comentários dele se foram (inclusive, pela segunda vez). Peço perdão aos que comentaram – eu tenho os comentários guardados no meu e-mail. Se vocês se sentirem a vontade pra isso, re-comentem (alguns pela terceira vez). O post foi publicado novamente.





23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 

