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9 coisas sobre mim

A Gabi foi quem jogou a bola pra mim, então vou aproveitar pra falar 9 coisas sobre mim. Acho que eu sou tão simples que não tem 9 coisas interessantes sobre mim, mas eu vou tentar:

NOSA QTOS NENEN, TO CONFUZA

1. A da troca
Eu fui trocada no nascimento. É sério! Nasci, e quando me levaram para minha mãe ver, horas depois, eu não era eu. Minha mãe reconheceu porque eu nasci careca, e aquele bebê tinha cabelo (ou o contrário). A enfermeira foi demitida e eu, até hoje, procuro nas comunidades ‘Nascidos no dia 26 de abril’ e ‘Maternidade Neomater’ quem é essa menina que eu poderia ter sido, pra poder saber como minha vida seria diferente.

fiquei esperta

2. A dos florais da ingenuidade
Quando eu era pequenininha, minha mãe conta que eu era meio bobinha demais. Ingênua. Sim, eu sei que é o que se espera de uma criança de três anos, mas vou explicar. Parece que todos os meus amiguinhos me faziam de idiota (AMIGO QUE É AMIGO NÃO FAZ A GENTE DE IDIOTA, ENTÃO RETIRO O TERMO ‘AMIGUINHO’), e eu era do tipo que era enganada e topava trocas de coisas que não compensavam (tipo ‘Amiguinho, me dá essa balinha que eu te dou meu Lego?’). Minha mãe não sabia o que fazer, daí comprou um floral (é, de Bach) e, segundo ela, só isso me curou. Eu me considero meio bobinha até hoje.

Foi mais ou menos assim, eu lembro

3. A do ferro de passar
Um dia, também lá pelos três, eu queria muito colocar o dedo no ferro de passar. É, na parte quente. Minha mãe, por razões óbvias, não permitiu e eu comecei a chorar, muito, muito. Como eu não parava, ela pegou me dedinho e colocou na chapa quente do ferro, já que era tanto o que eu queria e ela está presa desde então por infringir o estatuto da criança e do adolescente.

TÔ COM VERGONHA, ESSA NÃO TEM FOTO.

4. A da VERGONHA
Meu primeiro site nunca chegou a ir pro ar, foi um teste na aula de HTML. Cada página tinha uma cor de fundo e fonte diferente. Mas o primeiro que foi pro ar é uma pérola da vergonha alheia elevado à milésima potência, então sinta-se realmente privilegiado que eu vá compartilhar esse link com você agora. Sim, eu fiz o layout, os textos, tudo. Sim, esse era meu nick. Porra, você nunca teve 12 anos e gostou de RPG?

5. A da astrologia
Eu acredito em astrologia. Não em horóscopo diário (Ok, o Quiroga é muito bom, e ler a Susan Miller é engraçado), mas em Astrologia Hermética. Tanto que não gosto nem do termo ‘acreditar’, porque não acho a que o termo ‘acreditar’ se aplique…

6. A das tatuagens
Tenho três tatuagens: essa, essa e uma terceira, da qual não tenho foto. É uma frase no braço direito, um pouco acima do cotovelo.

7. A do longboard
Eu ando de skate. Longboard, pra ser mais precisa. Não sou boa, mas acabei me viciando e não consigo passar uma semana sem andar que já sinto falta.

8. A das decepções populares
Eu não gosto de dadinho, nem de milk-shake e nem de pipoca. Me desculpe por decepcioná-lo (essas são as minhas três características que mais decepcionam as pessoas, geralmente).

9. A da larva
Eu já comi uma larva tailandesa frita. E até que não achei, assim, RUUUUIM…

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Bacon de cenoura is the new tofupiry

Eu não como bacon com frequência, apesar de adorar bacon. Que me perdoem os leitores vegetarianos (eu devo ter alguns), mas bacon é demais mesmo – e tudo de bacon geralmente é bom, de torresmo a Baconzitos. Acontece que ultimamente eu só tenho sentido o gosto do toucinho (como eu gosto de falar essa palavra, ‘toucinho’, é como ‘cousa’) no feijão. Porque a Gláucia, que trabalha aqui em casa, coloca bacon no feijão, daí eu só pego o caldo e já posso degustar essa maravilha que os porquinhos nos oferecem. O motivo: eu tô de regime. Ou reeducando minha alimentação, como a nutricionista diz. Eu sempre estive na minha vida, em tese, então isso não é nenhuma novidade. Mas eu evito bacon puro, aquele gostoso, torradinho, que a gente põe em cima das fritas, da pizza e do hamburguer.

Tem a coisa do colesterol, também, isso é importante. Mas BOM, como sobreviver à abstinência de bacon é esse desafio que eu venho enfrentando nos últimos, tipo, dois meses. A primeira dica é:

1. Peça para a Gláucia colocar bacon no feijão e coma o feijão sem bacon, com o gosto do bacon.

Essa é uma dica importante e plenamente realizável, mesmo se você não tiver uma Gláucia. Adapte-a às suas necessidades. Mas é aquilo – igual a comer Trakinas sabor limão e Ruffles sabor frango assado. Não é bacon, não tem textura de bacon, não tem cor de bacon…

A outra dica é essa que eu descobri no Google Reader pelo Boing Boing: como fazer bacon frito com cenoura! É não é fritar bacon e comer com cenoura. É transformar cenoura em algo muito próximo de bacon frito!

Eu sei que, não importa o que alguém faça com uma cenoura, ela nunca se transformará em um bacon frito. Isso está bem claro para mim neste momento. Mas veja bem – minha alternativa anterior era sentir o gosto do bacon em caldo de feijão. Essa segunda opção me dá algo que tem aparência de bacon e textura mais próxima de bacon (ignore que qualquer outro alimento tem textura mais próxima de bacon do que feijão). Então olha aí, por curiosidade, o que diz a receita dos brothers que tiveram essa ideia lá no Flickr:

1. Plante e colha sua cenoura;
2. Use um cortador de legumes (mano, vende no trem e custa 1,50) pra cortar suas cenouras em finas e deliciosas fatias que se pareçam com bacon (USE A IMAGINAÇÃO AQUI)
3. Use um DEEP FRYER (comé que traduz isso? FRITADOR PROFUNDO? São aquelas panelas em que você imerge o alimento no óleo, sabe? Tem em restaurantes que fritam batatas, você já deve ter visto uma) para fritar suas SOON-TO-BE-BACONCARROTS em oléo de canola a 375 graus por um minuto e meio.

A verdade é que eu não faço ideia de como fazer esse passo. Só estou reproduzindo. Se alguém tiver uma boa ideia, por favor, use e abuse dos comentários, eles estão à sua disposição. Alô galere do Paladar, me ajudem aqui.

4. Coloque sal trufado nas suas cenouras, a essa altura já bacons. Coisa fina e tal.

E aí é isso. E sim, eu sei que eu deveria desencanar de regime e comer bacon de verdade – só achei que era uma informação interessante que tinha gente por aí substituindo bacon por cenoura, ainda que isso seja triste e, de certa forma, um pouco patético. Até porque, se você já vai comer cenoura frita, que coma o bacon, né.

No fim, bacon de cenoura vai acabar entrando na mesma categoria do TOFUPIRY e da proteína de soja (SOJA NÃO É UM BICHO, LOGO, NÃO DÁ PRA TER CARNE DE SOJA, POR DEUS. Parem de usar esse termo, por favor).

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UMA MISTURA DE SABORES

Eu não sou tipo uma gourmet. Até cozinho umas paradas de vez em quando. Mas sempre na vibe MENOS É MAIS. Essas paradas tipo Spoletto, em que você escolhe 80 ingredientes diferentes que não têm nenhuma relação entre si, mas as pessoas apreciam pela quantidade, não me agradam. Tipo – azeitona com champignon com orégano com manjericão com molho vermelho com calabreza com bacon com gorgonzola com ervilha. Ou aqueles hot dogs completos que têm até, sei lá, coisas estranhas e inapropriadas que alguns hot dogs chamados ‘completos’ têm.

Então você deve imaginar o que eu achei desse PORCOPIZZA. Isso é um monstro, um homicídio gastronômico bizarro. E tipo, quase um homicídio real, porque deus, como alguém consegue tornar algo tão, tão escrotamente gorduroso? Tipo, já é um leitão. Ele diz que é um LEITÃO LIGHT, mas isso é tão engraçado por si só que vamos ignorar, é tipo tomar Coca-Zero no Burger King (fiz isso hoje, ABS).

Enfim, a parada já é pesada pra caramba. Você vai conversar com o PORCOPIZZA (HEH) por um longo tempo depois de deglutí-lo. Você ainda ac rescenta 2 QUILOS de carne de frango? UM QUILO E MEIO de coração de galinha? Calabreza? Catupiry e mussarela? Você é megalomaníaco.Ninguém se perguntou se essas coisas, além de pimentão, ervilha, são REALMENTE NECESSÁRIAS?

E ainda se chama PORCOPIZZA, que além de ser sonoramente engraçado, na melhor das hipóteses lembra PORCUPINE (que é porco-espinho em inglês), e na pior lembra aquelas piadas do filme dos Simpsons, com o Porco Potter e o Porco Aranha.

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Como sempre, fico imaginando o momento em que o inventor dessa iguaria gaúcha teve o insight que o levaria a criar a receita mais gordurosa de todos os tempos. “Tenho um leitão assado, que já é um dos maiores entupidores de artéiras já conhecidos… como torná-lo ainda pior? Já sei. Posso colocar queijo. Posso colocar dois queijos, um deles sendo meio quilo de catupiry. Mas não estou satisfeito. Ainda não é tudo que posso fazer… já sei! Porco combina com… porco! Posso colocar calabreza. E corações de frango, o que será uma espécie de implante interespécies. Já que tô botando coração, coloco peito de frango também. Tomate, ervilha, milho, tudo isso só pra temperar… ah, vamos jogar molho de tomate também, né? E que tal PIMENTÃO, essa iguaria de sabor tão leve e delicado, que de maneira alguma se impõe sobre os outros sabores?”

Sabe, senti falta do ovo.

Tipo, podia ser tudo o que a pessoa tinha na cozinha no momento. Ela jogou dentro do porco e o colocou de volta no forno, basicamente. Chamou de PORCOPIZZA, mas podia ter chamado de PORCO-TUDO tranquilamente.

É o tipo de coisa ideal pro This Is Why You’re Fat, um sitezinho batuta com imagens de coisas muito, muito gordurosas e over, tipo esse leitão, que são fritas e têm bacon só porque isso as torna mais calóricas ainda, mas não exatamente porque elas ficam gostosas desse jeito. Tipo essa bomba de chocolate com bacon e calda de chocolate por cima:

Tipo essa bomba de chocolate com bacon e calda de chocolate por cima

Ou esse hambúrguer, que eu já nem sei mais o que tem dentro

Ou esse hambúrguer, que eu já nem sei mais o que tem dentro

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O gatinho que vai virar refeição se a Hannah Montana não usar o Twitter

Eu sempre digo que jamais poderia trabalhar de vendendora. É porque eu  nunca conseguiria convencer alguém de comprar algo se essa pessoa não demonstrasse que realmente quer isso. Eu diria: “mas por que você não leva esse lindo echarpe pra sua tia?”, e o cliente diria “não posso, esse mês não tenho dinheiro”, e eu completaria “puxa vida. Eu te entendo, tá certo em não levar”. E mais um pouco emprestaria uma grana.

Parêntese: obviamente já parei pra pensar que se passasse fome e tivesse que trabalhar como vendedora daí eu conseguiria né, porque na vida é tudo assim, a gente é tudo criado a leite com pêra e ovomaltino, não sabe o que é passar necessidade.

Fecha o parêntese.

Enfim, disse isso pra explicar que não sou boa em convencer as pessoas se eu não acreditar no meu argumento. Tem gente que consegue convencer sem acreditar no que está dizendo, eu sou completamente incapaz. Quando acredito, até que sou bem boa. Chata, na verdade.

Mas cada um tem seu método de persuasão. Tem gente que argumenta. Tem os que barganhem. Tem os que ameaçam a pessoa que querem convencer. Há até os que façam vídeos implorando, ou blogs, ou coisas loser assim.

Nunca tinha ouvido falar de alguém que tivesse ameaçado cozinhar um gato pra convencer alguém a fazer algo.

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Esse é o Fuzzy, que deve virar iguaria em breve

Veja bem, a grande desgraça dessa iniciativa não reside na tragédia de se sacrificar um gatinho por uma causa tão tosca quanto a volta de Miley Cyrus para o Twitter. Até porque que atire a primeira pedra quem nunca comeu um churrasquinho de gato na beira da estação de trem achando que era carne de porco (e você acreditou na boa fé do churrasqueiro).

O negócio é que esse cara, que fez o Miley Save Fuzzy, certamente não é fã da Miley Cyrus. Ele escreve bem demais para isso e tem o humor fino demais. Nenhum fã da Miley Cyrus, adolescentes fofinhos e pretensamente rebeldes, até onde a adolescência fofinha permite que a rebeldia vá, cozinharia um gato. É uma coisa terrível de se fazer (pra um fã da Miley Cyrus).

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Falando em salvar os gatinhos, um toque pros fãs da Miley Cyrus

O idealizador dessa parada é um gênio – não só porque está disponibilizando no próprio site as receitinhas com carne de gatinho, meu deus. Mas também porque a menina fez um vídeo todo marketeiro dizendo que nunca voltaria pro Twitter, em forma de rap. Mas agora, se não voltar, um gatinho será cozido e comido. Cozinhar e comer um gato é antítese de tudo que a Miley Cyrus é e representa. Se ela permitir isso, será uma tragédia. Todos poderão culpá-la para sempre pelo banquete que Fuzzy terá se tornado. E se ela voltar, como ela tanto diz que jamais faria, vai ser igualmente engraçado, porque… bem, porque ela disse que odeia o Twitter então estará fazendo isso forçadamente e isso é engraçado. Etc.

Não me julguem mal, adoro gatos (mesmo), mas também não tenho nada contra comê-los. Então não acho grande coisa que ele vá cozinhar o gato, quer dizer, que dó e tal, mas acredito nessa coisa bonita que é a pirâmide alimentar. E é hipócrita, de qualquer forma, ter dó do gatinho e não ter dó da vaquinha.

O tal superfã faz a ressalva no texto do site e garante que a história não é um uma brincadeira. Mas será que Miley Cyrus pode se dar ao luxo de pagar para ver?

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Mas se for sianês criado na ração tudo bem

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A surpresinha traiçoeira da vovó

Vovós são seres, em boa parte das vezes, bonzinhos e angelicais. No meu caso, minha  vovó é conhecida por me engordar para o abate (ela cozinha ignorantemente bem e muito) e por fazer virtualmente tudo o que eu peço a ela e que estiver dentro das possibilidades. Conheça minha avó:

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A expressão angelical de tia do pão e queijo esconde um segredo

Pois bem. Como você já leu, eu fiquei adoentada recentemente. Desde então, minha vó tem vindo aqui em casa frequentemente (A.K.A. TODOS OS DIAS) para trazer-me bolos, doces, comida em geral e medir minha pressão. Só que desde terça ela tem vindo para preparar uma tal vitamina que, segundo ela, me livraria de todo o mal amém me ajudaria a na cura da pneumonia (eu ainda estou em processo de recuperação).

Só que eu odeio vitamina, pelo mesmo motivo que eu odeio salada de frutas: as frutas que eu não gosto, tipo banana e mamão, acabando roubando o gosto de todas as outras. E essa vitamina, eu sabia, tinha beterraba, uma parada que eu odeio. Mas vamos tomar, né? Agradar a vovó. Melhorar, quem sabe. Custa nada.

Até que tomei o primeiro gole daquela coisa horrível. Eu só conseguia sentir o gosto da banana, da beterraba e um gosto horrível e muito forte de algo que parecia ser um bife.

Obviamente eu ignorei meu paladar que dizia que tinha um bife na minha vitamina, porque né, nem dá pra cogitar a possibilidade de ter carne lá. E continuei tomando a parada, tampando o nariz e mandando pra dentro, obediente que sou. Ingênua. No último dia que minha vó veio, ela achou legal fazer a parada num copo GIGANTE:

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À esquerda, copo normal. À direita, COPO DESCOMUNAL no qual eu tive de beber a ‘vitamina’ nesta quinta

Pois é, a tortura ia longe. Eu quase tirei uma foto hoje de manhã e enviei via Twitter – a parada era realmente horrível. Ainda bem que a vovó não forçava o chorinho, porque eu não aguentava nem o que já tava no copo.

Daí de tarde fui visitar meu pai. Estávamos conversando sobre as visitas frequentes da minha vó e acabamos caindo no assunto ‘vitamina do capeta’. Eis que ele solta:

- AQUELA VITAMINA TEM FÍGADO.

E começa a rir.

Mal sabia ele que naquele momento eu me dei conta que aquilo não era uma piada. Não, meu amigo. O gosto de bife que eu sentia, o enjôo, a força de vontade para não botar a parada toda pra fora antes mesmo de engolir, todos eles eram originados num singelo PEDAÇO DE FIGADO DE BOI CRU que vovó, em toda sua sabedoria, decidiu colocar para bater junto com as outras coisas terríveis que estavam naquele copo.

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UMA RODADA DE SUCO PRA GALERAAAAAAAAAAAAAAAAAARGH

Papai continuou rindo e tentou fingir que estava brincando, mas eu tive certeza que ele não estava. Afinal, aquilo explicava o gosto terrível. Confrontada, vovó confessou: colocava sim fígado na tal vitamina. Eu perguntei se ela não podia, sei lá, fritar o bife pro almoço, e fazer o suco só com coisas com as quais você realmente faz suco, sem incluir carne esquisita crua ou coisas heterodoxas no campo das vitaminas. Vovó disse que não – ou o suco era feito completo, ou então não haveria suco nenhum. E ela pararia de vir aqui.

Optei pela presença de vovó. Consegui, contudo, negociar a banana. Ela estará fora da próxima vitamina. A beterraba continua. Quanto ao fígado, vamos fingir que eu não sei. É como disse mamãe, ao tentar me consolar: “veja pelo lado bom, filha: pelo menos não tem ovo cru”.

Sim, pode ficar pior.

Em defesa dos métodos da vovó: fígado, um super alimento. Mas precisa ser cru? E misturado num suco? Com beterraba?

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Saboreando as ilusões do mundo moderno

Vai ver eu tô meio velha.

É que eu sou de uma época, desculpa a caretice, em que se você tá com vontade de comer, digamos, um frango assado, vai à padaria de domingo e pede um frango assado. Se tá com vontade de comer peito de peru, vai lá, manda fatiar 300 gramas, embrulha, chega em casam bota no pão e come. Tradicional mesmo, sabe? Culinária moleque. Uma época em que, se você quisesse tomar Coca-Cola com limão, você espremia o limão no copo, colocava a Coca e tomava. Lembra aquele barulho da Coca caindo no copo? Você bebendo? O “aaaaaaaaaahhh”?

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Sim, essa batata frita é sabor champanhe. Não, não quero falar sobre isso. Grata.

Sou dessa época aí. É que hoje em dia tá tudo meio esquisito. Você chega pra comprar refrigerante, já tem a opção que vem com limão. Vai pegar a batata frita, e encontra as versões frango assado, presunto e queijo, azeitonas… peraí, bicho. Se eu quiser frango assado, vou comprar um. Eu quero batata frita, pô. É tão mais barato comprar azeitona. Se eu quisesse azeitona, comprava um potinho de azeitona. E eu tenho capacidade mental de espremer o limão num copo antes de tomar o refri.

Daí, vai comprar Miojo. Miojo tem de tudo né – galinha (e é caipira, não é de granja. É sabor ‘galinha caipira’), bacon, carne, churrasco, caldo de feijão, creme de brócolis, pizza, quatro queijos… porra, tu quer me fazer acreditar que eu vou simular, com 10 gramas de pó amarelo, um molho quatro queijos?

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Desconfio que o sabor picanha é um meio termo entre o sabor churrasco e o sabor carne. Mas é só suposição

Pior é aquelas coisas sabor ‘churrasco’. Veja bem, ‘churrasco’ não é nada. Pode ser qualquer coisa que vai na brasa. O mais curioso é que esses quitutes têm de fato o poder de ter gosto de qualquer coisa que vai na brasa! Não sei o que é, talvez uma mistura de fumaça com curry. É tipo o ‘sabor pizza’. É uma puta invenção sacana o tal sabor pizza, porque não existe ser nesse mundo que ligue na pizzaria e peça uma pizza sem especificar um outro elemento, que geralmente é o sabor dela. Ou seja, pizza necessariamente tem sabor da outra coisa que tá em cima dela. Mas ninguém vai fazer um salgado sabor ‘pizza de quatro queijos’.

Outra parada que virou moda, sério, é doce de limão. Tipo, não torta e bolo de limão, que são bons – tipo WAFER DE LIMÃO e TRAKINAS DE LIMÃO, de cor verde, com o corante gritando desesperado EU NÃO PERTENÇO A ESTE LUGAR, POR FAVOR, ME TIRE DAQUI. Quem gosta de limão (e na boa, eu posso falar de limão) sabe que limão é tipo das melhores coisas do mundo, e justamente por isso sabor artifical de limão é uma merda, porque qualquer pessoa que tentar copiar um dos melhores sabores do mundo falhará miseravelmente. Não é bom. Por favor, não façam mais bolachas de limão.

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A cor dá uma aparência bem natural pras bolachinhas

E há, também nesse campo dos sabores, o grande mistério do tutti-frutti. Outro dia li assim numa embalagem: ‘sabor artificial idêntico ao natural de tutti-frutti’. Alguém já comeu um tutti-frutti? Não existe sabor natural de tutti-frutti, a não ser que alguém tenha sido capaz de misturar todas as frutas numa grande… argh. Mesmo assim, tenho uma certa quantidade de certeza que o gosto dessa gororoba não seria parecido com o dessas coisas tutti-frutti.

É a concretização daquelas previsões de filmes de ficção científica antigos, que mostravam astronautas consumindo comida em forma de pílulas. Nessa toada, isso não tá muito distante. Pílula sabor pizza. Pílula sabor Miojo de galinha caipira. Pílula sabor Miojo sabor pizza sabor frango com catupiry. É a beleza da metalinguagem da flavorização.

Pois bem. Voltando ao que rolava na minha época, lá quando você queria ter um cachorro, comprava um cachorro. Queria um lhama, comprava um lhama. Um caracol? Comprava um. Uma fada? Comprava uma fada.

Nos nossos tempos, um filho da puta vai lá e transforma o pobre poodle dele nesses bichos.

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Conheça assuste-se com o garboso Poodle-Camelo. E fica mais cruel que isso, porque não chegamos ainda ao Poodle-Panda (imagens fortes):

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Clica no link lá em cima, por favor. Tem Poodle-Cavalo, Poodle-Jack Sparrow, Poodle-Galinha e até, deus me perdoe, Poodle-Buffalo. O ser humano dá passos longos em direção ao inferno quando bola essas aberrações.

Tudo o que consigo pensar ao olhar para a cara desses cãezinhos é: ainda bem que você são cãezinhos. Porque têm mães que fazem coisas parecidas com os filhos, vestindo eles com fantasias e achando tudo muito bonitinho.

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Sobre pessoas que dão satisfações sem serem solicitadas

Daí você tá todo sossegado lá na fila do quilinho.

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Quilinho é o bandejão restaurante self-service de sua preferência

Pegou o pratinho, seus talheres e está preparado para a fase inicial da maratona, que consiste geralmente em selecionar as saladas que mais lhe apetecem e começar o preenchimento do seu prato.

Só que tem pessoas no mundo, e elas não são raras viu – podem ser eu ou você – que são indecisas naturalmente. E essa natureza que manifesta confusão diante de tantas opções dá as casas também na fila do self-service.

Você já entendeu de quem eu tô falando. São aquelas pessoas que vão pegar, digamos, uma porção média de arroz, mas que por algum motivo não fazem isso com uma ou duas investidas contra aquele bagulho de alumínio. São aqueles sujeitos que, para construir a porção almejada de arroz no prato, enchem a escumadeira 6 vezes com pequenos montinhos, até que estejam satisfeitas com a quantidade avançada.

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Acho que eu gostaria de mais oito grãos. (…) Não. Talvez 12. É, 12 vão me satisfazer, com toda certeza.

Se pudesse dizer algo pra essas pessoas, diria pra que elas enchessem a escumadeira com o alimento-alvo, observassem na própria escumadeira se a quantidade está de seu agrado e então colocassem a comidinha no prato. Caso a estimativa de quantidade parecesse menor do que o objetivo inicial, daí bastaria pegar o que faltava e colocar no prato.

Mas eu não posso e nem quero dizer, porque como destaquei no começo, ‘você tá lá sossegado na fila do quilinho’. Então não há motivo para se preocupar com essas pessoas. Basta esperar e pegar sua comida, porque na maioria das vezes vai sobrar pra você.

CONTUDO, os próprios indivíduos indecisos se sentem incomodados socialmente por estarem fazendo a fila do self-service dobrar a esquina, sendo que ele tá parado no arroz, que é um negócio que todo mundo vai pegar, então não pode passar na frente. Por mais que ninguém fale nada, ou bufe, ou olhe torto, o cara vai se sentir mal quando enfiar a colher lá no arroz pela quarta vez. Então ele se justifica – sem que alguém tenha solicitado.

Elas vão te olhar com um sorrisinho simpático e vão exclamar, amistosas – “ai, é tanta coisa que a gente não sabe o que escolher, né?” ou “nossa, essa escumadeira não é prática, fica caindo tudo da colher, aí a gente precisa pegar de novo, que inconveniente!”

(Existe outra técnica, que consiste em enrolar perguntando pra pessoa de trás se ela sabe o que é aquele empanado que parece peixe mas que, até onde a gente bem entende sobre carnes, pode ser frango. Ou porco. Mesmo quando tem uma plaquinha verde limão na frente da comida indicando do que se trata. Mas daí a pessoa é de outro tipo, não entra na categoria – embora a estratégia funcione e seja até socialmente mais aceita)

A fila do self-service é um dos lugares mais fáceis de encontrar um gênero social que eu chamo de pessoas que dão satisfação sem que você tenha pedido que elas fizessem isso. Elas estão por aí: na sua casa, no seu trabalho, na fila do banco, na chuva, na casinha de sapê. E quando você menos esperar, elas vão te dar satisfação sobre algo que você realmente não deseja saber.

Essa característica, como no caso dos enroladores de fila de self-service, muitas vezes advém da consciência pesada. O cara se sente culpado por estar causando um problema e então desanda a falar pra ver se justifica. Mas a situação toda piora. Porque:

1. se você está realmente puto com o sujeito, vai dar um sorriso amarelo e continuar puto com a desculpinha;

2. se você tá sossegado esperando ele, vai dar um sorriso amarelo e de repente vai se tocar que ele tava enrolando, daí vai ficar puto com a desculpinha.

Ou seja, dar satisfação sem que alguém te peça satisfações nunca é bom, de um jeito ou de outro. Não funciona quando você sai da fila do banco pra ir perguntar um negócio pro caixa, volta e sem que te perguntem nada explica pras pessoas de trás que já estava ali desde as 10h e que o senhor de bigode atrás de você viu você saindo e tudo. Não funciona quando você chega em casa depois do horário e sua mulher nem te pergunta nada mas você já desanda a tagarelar sobre reuniões do trabalho e um chefe chato e careca. Não tente.

AINDA ASSIM é um comportamente interessantíssimo, até divertido de observar. Comece a reparar nas pessoas que têm necessidade de se explicar sem que alguém tenha pedido explicações – sua linguagem corporal, o tom de voz, os recursos amistosos (como uma risadinha, um papinho casual) e você verá que o mundo e o comportamente humano se tornará muito mais divertido.

Mal posso esperar por um programa no Discovery Channel que, com uma câmera escondida de alta-precisão instalada no ventilador do restaurante, capte com minúcia o modus-operandi e o comportamento peculiar desse gênero tão comum na nossa espécie. Eu assistiria.

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Saladas e fast-food: sutilezas de uma vida em dieta das quais ninguém fala

Existem algumas sutilezas da vida de uma pessoa em dieta que não são mencionadas pelo médico, pela nutricionista ou por essas revistas que prometem 6 quilos a menos em uma semana com o chá milagroso da Síria.

kcal

Você dorme enquanto nós amputamos seus membros inferiores – acorde 9 quilos mais magra!

Dietas, infelizmente, podem gerar mal-estares sociais absolutamente imprevistos, já que a maioria dos lugares usados para reunir os amigos incluem comida, e normalmente essa comida não se encaixa na dieta.

É pior se você realmente sai pra comer, e não tipo, pra bater papo e a comida é coadjuvante. Vamos supôr que você está lá, faceiro e contente com seus camaradas, voltando de uma noitada divertida. Todos estão com fome e resolvem passar, digamos, no McDonalds.

O McDonalds (em itálico) é um exemplo genérico. Representa aqui o ‘restaurante fast food gostoso sem opções minimamente razoáveis pra quem não quer ingerir um mês de sódio em uma refeição’. É como chamaremos esse gênero de restaurantes, mas não representa exclusivamente a rede mencionada. Pode ser qualquer outra que se encaixe no padrão.

A verdade é que optar pelo menu light em lugares que vendem por princípio e tradição junkie food gera um mal-estar coletivo (comumente) feminino. A única pessoa no lugar que não se assusta durante o pedido é a atendente. O indivíduo que pede salada sente o tempo parando e todas as mulheres do restaurante lançando um olhar de canto de olho, um misto de culpa, ódio e admiração. E é aí que o suicídio social começa. Quando você pede salada nesses lugares, lembra as pessoas ao redor que elas poderiam estar comendo algo um pouco mais saudável mas não o fizeram por opção, e isso as faz sentirem-se mal. Terrivelmente mal.

Além dos olhares desconhecidos de desconforto, a prática da salada também gera constrangimento na propria mesa da pessoa em regime, em alguns casos. Se você estiver acompanhado/a de mulheres e se elas não forem muito próximas de você, vai reparar que algumas frases de ressalva começarão a surgir. São os argumentos de auto-comiseração, que num contexto social funcionam para a moça que de sobremesa pede o Sundae e não a maçã (blergh!) como amenizadoras da culpa enorme que você e sua outrora inofensiva dieta despertaram nela. São coisas faladas entre dentes e como se fossem uma piada, e variam entre coisas como “veja como sou gorda, enquanto como um Big Mac nojento você se delicia com um talinho de agrião”.

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Uma sinfonia de sabores e texturas infinitas, o agrião contém

E você quer saber de uma coisa? Desculpe, mas ir ao McDonalds e pedir salada é como pedir um Big Mac e um refrigerante diet. É completamente inócuo e só vai fazer você parecer idiota. Se você tá na chuva, guarda-chuva não serve pra nada.

Primeiro que não adianta sair com os amigos e fazer eles se sentirem mal todas as vezes porque você não compartilha das coisas gostosas que, convenhamos, fazem parte da confraternização. O bolinho de queijo, o chopp, as fritas – tudo isso faz parte do happy-hour, você está no happy-hour, então coma e por favor não peça uma porçãozinha de queijo minas grelhado porque isso vai ser chato. E se acontecer sempre, as pessoas vão começar a te achar a/o mala que nunca bebe a cerveja ou come o provolone à milanesa. De que adianta ficar mais magro e saudável se você ficar chato?

Sair pra ficar se preocupando com calorias? Na boa, prefiro ficar em casa. E se o seu regime é tão rigoroso que na sexta você não possa sair de casa e desviar um pouco dele, provavelmente quando vocêm tiver uma recaída vai comer tanta coisa proibida que vai desistir da dieta. Ou seja – a não ser que você vá a happy hours todos os dias, petiscos de bar uma vez por semana não vão acabar com você.

É por isso que eu, como defensora constante da verdade (pfff) e combatedora da hipocrisia social, clamo: ainda que você esteja de regime, nunca vá ao McDonalds e peça a salada. McDonalds é lugar de comer coisas gostosas, cheias de óleo, que bloqueiam as artérias e te fazem sentir entupida de comida altamente não saudável. Salada não faz isso. Salada a gente come em casa, mais gostosa, com molho preparado em casa, com os ingredientes que a gente quiser.

Se você realmente for dar-se ao trabalho de sair de casa para ir ao McDonalds, mas não quiser mesmo enfiar (tanto) o pé na jaca, é só trocar o refrigerante por um suco e pedir um lanchinho daqueles com frango grelhado. E mesmo assim, ainda defendo que se você for ao McDonalds, coma o lanche que mais gosta, não importa o quão vilão ele for.

Ainda assim, se você optar pelo lanchinho nhé com franguinho grelhadinho e saladinha bléh, mais o suquinho esquisito, vai surgir a inevitável questão: ‘E quanto à batata frita?’. E eu respondo – coma. Senão, não faz sentido ir ao McDonalds. Não faz sentido viver se privando das coisas legais – isso inclui comidas gostosas e momentos legais com os amigos -, não importa o motivo.

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O admirador secreto das barras de cereais

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Eu emagreci mais ou menos 14 quilos nos últimos três meses. Entre outras coisas, isso significa que eu adquiri o hábito de consumir barrinhas de cereais à tarde, nos momentos de perrengue. Em vez de recorrer ao salgado da cantina ou à batata frita da máquina da redação, saco da gaveta uma das barrinhas de cereal – minha mãe compra duas caixinhas com 3 delas por semana – e saboreio aquela deliciosa mistura prensada de alpiste, serragem e flavorizante artificial (que varia entre o sabor coco e o o morango, no meu caso).

A verdade, que sinto admitir, é que eu acabei me afeiçoando por esses pequenos pedaços embutidos de frutas com cereais. Eu gosto de barra de cereal. Não é exatamente algo que eu escolheria pra comer se fosse minha última refeição, mas não chega a me incomodar, nem é um esforço muito grande. Vou lá, como uma mexerica, uma barrinha de cereal e voilà, quem é que precisa de jantar?

Ainda assim, reconheço que barras de cereal, do ponto de vista gastronômico, não são preferência nacional. E é por esse motivo que fiquei absolutamente chocada quando roubaram da minha gaveta uma caixa fechada com três barrinhas Neston sabor morango essa semana.

Eu deixo as comidinhas na gaveta, sempre deixei desde muito tempo, e nunca tinha sumido nada, embora os companheiros de baia sempre tivessem reclamado que as coisas deles eventualmente desapareciam. Um dia desses abri a gaveta pro lanchinho das 17h e CADÊ A CAIXINHA NOVINHA QUE EU TINHA GUARDADO NO DIA ANTERIOR?

Junto com ela, se foi também um dos dois pacotinhos de Club Social recheado (ganhei uns 5 no Skol Sensation e guardei pros lanchinhos da tarde).

Eu nunca tinha passado por situação semelhante no trabalho. Achei que pessoas que roubam comida dos outros fossem lenda – especialmente em ambientes onde, supostamente, não tem ninguém literalmente passando fome. Nunca achei que aconteceria comigo e, quando lia aquelas crônicas engraçadas sobre gente que deixava o lanche no frigobar coletivo e era extorquido, ria gostosamente da ficção impensável.

marmita

Fica aqui o apelo: embora eu não estimule e nem concorde com tal ato, eu posso entender quando o peão rouba a mistura da marmita do outro peão. É uma atitude que tem uma certa utilidade do ponto de vista da necessidade de diversidade alimentícia. Vai lá, abre a marmita, troca o ovo frito pela carne de panela, tudo certo. Expande as possibilidades de maneiras inimagináveis pra uma simples marmita. Se a obra for grande e tiver muitos operários, po, dá pra fazer um esquema de self-service.

Da mesma maneira, embora também não seja a favor, posso compreender o que leva um filho da puta a roubar comida dos outros na geladeira coletiva no trabalho, por exemplo. Normalmente são coisas gostosas – sei lá, um suquinho, uma fruta, quase sempre um sanduíche preparado com esmero. Existe uma motivação. Bate aquela fominha, você é um filho da puta, o que fazem filhos da puta quando estão com fome? Fodem com gente de bem. Mas ok, é um lanchinho gostoso geralmente.

Mas que tipo de pessoa rouba uma caixa fechada de barra de cereais? Quem, no mundo, cobiça de verdade um alimento desse?

Eu entenderia se a caixa aparecesse aberta com menos uma barrinha. Sei lá, o fulano quis experimentar. Mas porra – levar a caixa inteira? Excetuando-se as situações onde há cleptomania (e pra ser sincera, acho que no caso de barra de cereais mesmo a possibilidade de cleptomania é anulada), eu imagino que alguém roube algo porque deseja realmente aquilo. No caso de comida, a não ser que esteja morrendo de fome, rouba coisas gostosas de comer. Aquele clube social recheado, de tomate seco com queijo, é realmente gostoso. Justifica o assalto. Mas uma porra de uma barra de cereal? Tem gente que prefere não comer nada a comer isso. As pessoas se manifestaram contra vôos que ofereciam barras de cereal, todo mundo odeia esta merda. Menos eu. E existe uma outra pessoa, que trabalha comigo, que também não odeia. Ou só quer me sacanear.

O jeito vai ser deixar um bilhete na gaveta (algo como “Pense bem antes de fazer isso. É apenas uma barra de cereal, amigo”), prensar uma mosca junto da barra (tipo, quem já comeu a de morango sabe que aqueles pedaços de frutas podem passar facilmente por mosquitos esmagados) ou trancar a gaveta. A última solução é boa, mas acho um pouco complicada, porque as chances de que eu perca a chave são altas.

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O ideal mesmo seria que inventassem uma versão disso aqui para barras de cereais.

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Sobre a experiência de comer uma larva tailandesa frita

A verdade é que eu comi uma larva.

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Ok, acho que isso seria o suficiente pra te fazer continuar lendo. Pois é, comi uma larva. Uma editora daqui do lugar onde eu trabalho foi para a Tailândia e trouxe de volta um potinho cheio delas, fritinhas, crocantes e reluzentes, e saiu oferecendo os petiscos pela redação. Quando ela chegou até mim, eu estiquei a mão, peguei uma e coloquei na boca.

Se eu dissesse que fiz sem pensar, estaria mentindo. Eu pensei, sim – e o primeiro pensamento foi ‘cacete, se milhares de pessoas comem isso na Tailândia, não deve ser tão ruim assim’. Claro que o volume de pessoas que faz algo nunca é indicador qualitativo (e muitas vezes a razão é proporcionalmente inversa), mas ao menos eu conclui que as chances de morrer seriam mais baixas. Também pensei que eu não vislumbro uma oportunidade próxima de visitar a Tailândia e provar as larvas, e isso foi o fator decisivo pra que eu esticasse a mão e pegasse o bicho.

Foi corajoso, porque se tem algo que eu tenho nojo nesse mundão véio de deus, são larvas. Ô, coisa nojenta. Não tenho nojo de barata, nem de minhoca; de mariposa, tenho mais medo do que nojo. Mas de larvas e ovinhos de insetos, argh, eu tenho muito nojo. Muito. Nunca esqueci daquele cena em ‘O Rei do Gado’ em que o Antônio Fagundes se perde no meio do mato e acaba comendo uma larva de alguma coisa pra poder sobreviver [achei a cena, mas só com dublagem Romena (!)]. E no clipe de Hakuna Matata, sempre preciso pular a parte do ‘viscoso, mas gostoso!’.

É, mas aí eu comi. O gosto é assim: no começo, é um salgadinho vagabundo beeeem engordurado, sem gosto de nada, só de fritura. Daí, quando você tá pensando “nossa, não é tão ruim ass-” você é interrompido por um gostinho final um pouco nojento, que não sei comparar a nada que conheço – meio amargo, talvez – algo muito ligeiro, mas suficiente pra te lembrar que tem algo errado com o salgadinho.

Tente formular a imagem mental de alguém comendo isso – primeiro, a pessoa põe na boca e mastiga, e faz uma cara de ‘está tudo bem’, e em seguida contorce muito ligeiramente a face, num início muito sutil de careta que indica ‘é, na verdade de fato não é exatamente bom, mas não chega a ser ruim’. E sim, tudo isso expresso num movimento muscular facial. Fascinante.

E não me arrependo. Até explico porque: a gente come merda diariamente. É, eu sei que é triste, mas tá numa resolução de 2001 da Anvisa (que você pode ler aqui, mas que está mais didática num texto da Folha Online): a agência impõe um limite de 100 organismos fecais por grama de comida. Mais que isso, o alimento é considerado contaminado e impróprio pra consumo.

Vamos assumir que SÓ COMAMOS alimentos cujo índice de organismos fecais fique abaixo de 100, o que é improvável. Vamos supôr, ainda, que toda a comida que a gente ingere tenha o nível de contaminação muito abaixo do limite, algo como 50 organismos a cada 1 grama de comida – ou 50.000 organismos a cada 1 quilo. Prossigamos.

O ser humano ingere, em média, 3 quilos de comida por dia, ou cerca de uma tonelada/ano. No mínimo, segundo essa estimativa bem otimista, você tá comendo 150.000 organismos fecais por dia, ou cerca de 50.000.000  – 50 MILHÕES – de nanounidades de merda por ano. E a lei permite isso por escrito.

Eu prefiro ficar com a minha larva. E pensando bem, numa saladinha esses bichinhos substituiriam bem aqueles ‘crôutons’.

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