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Arquivo: como educar crianças

As coisas que a pré-escola nos ensina sobre as pessoas (mas que nós somos jovens demais para enxergar)

Tem um monte de músicas em inglês com a seguinte letra em algum ponto: “If I knew then what I know now”. Numa tradução rústica, isso é algo como “Ah, se eu soubesse então o que sei agora.” Em português, não soa bem numa música (a não ser que seja uma do Los Hermanos), mas é a mais pura verdade – ou você nunca parou pra pensar no sofrimento que teria evitado no passado se tivesse a experiência de vida que tem hoje?

Eu não me lembro se a minha mãe me deu alguma orientação específica antes do meu primeiro dia de aula na vida, nos idos do pré. Algo do tipo “seja boazinha com seus amigos”, “não aceite lanche de estranhos” ou “não atinja a tia com esses lápis”. Me lembro que chorei quando ela me deixou na porta do Mundo Mágico (que de mágico tinha muito pouco), e que o primeiro diálogo que travei nesse ambiente inóspito e desconhecido (enquanto me esgoelava, me esforçava para responder) foi:

- Oi. Por que você está chorando?
- Porque (suspiro) eu (suspiro) quero (suspiro) a minha (suspiro) mããããããããe (berro)!!!!!!!!!!!!!!
- Qual seu nome?

Veja, que simpatia. Crianças de 6 anos, largadas à própria sorte durante 5 longas horas no pátio de uma escolinha de bairro são capazes de, em poucos minutos, sentirem compaixão umas pelas outras. Esse rapazinho veio até mim e se interessou pelo meu sofrimento, então comecei a me acalmar e respondi:

- É Ana Paula.
- Ah. Então para de chorar senão vou contar pra tia que a Ana Paula tá chorando.

E daí que eu concluo que, apesar de a minha mãe não ter me dado nenhuma indicação antes do primeiro dia, ela deveria. Ela deveria ter me alertado já naquela hora: filha, os filhos da puta existem. São congênitos e estão por toda parte. Você vai começar a encontrá-los hoje.

Pré-escola
Hostilidade, selvageria e Lei do Mais Forte são as palavras de ordem aqui

Quero abrir seus olhos para isso. A maioria das pessoas com quem você gostaria ou não de sair é reconhecível já na pré-escola. E não se trata daquele menino gordinho que senta em cima dos outros garotinhos, ou da menina loira com olhos estranhos que te morde. Esses são óbvios. Tô falando de nuances mais sutis da personalidade, de características que aqueles doces pimpolhos virão a demonstrar quando adultos, mas que já na pré-escola dão as caras.

Eu me lembro com certa clareza que costumava jogar as coisas na mochila – lápis, borracha, régua – de maneira aleatória, por algum motivo que eu desconheço, em vez de agrupá-los na bolsinha que eu tinha e que havia sido criada para isso (conhecida popularmente como estojo). Isso já no pré. Daí eu não achava nada na mochila (estava tudo lá, mas eu não achava), então pedia um lápis emprestado para minha amiga Beatriz*, que tinha um estojo com toda a sorte de lápis e canetas possíveis, incluindo aquelas com brilhinhos, cheirinhos, luzinhas e todas essas firulinhas.

A minha amiguinha Beatriz*, em vez de me emprestar a porra de um lápis pra eu desenhar na aula da tia, dizia: “Minha mãe não me deixa emprestar material”.

Eu tinha vontade de dizer à minha amiguinha Beatriz* que ela estava sendo uma escrota, já que a mãe dela não estava ali naquele momento, e que por esse motivo não a veria me emprestando o lápis. Como a mãe dela não tinha, até onde eu soubesse, mediunidade, ela não saberia que a Beatriz* tinha me emprestado o lápis se ela não contasse. Daí eu devolveria o lápis no fim da aula e tudo estaria bem.

Mas eu não dizia nada disso. Afinal, minha amiguinha Beatriz* poderia ficar magoada. E eu acho que essas coisas não passavam de verdade pela minha cabeça de 6 anos.

Mas nesse pequeno exemplo hipotético, já pudemos identificar dois comportamentos que se estenderam pro resto das nossas vidas (minha e da Beatriz*):

Eu continuo desorganizada. Coloco as coisas na mochila por impulso, em vez de alocá-las nos compartimentos reservados para elas, de modo que quando preciso de coisas como as chaves de casa ou uma caneta, não as encontro mesmo evirando a mochila, e preciso pedir (no caso da caneta) uma emprestada aos colegas de sala, que felizmente não dizem mais “minha mãe não me deixa emprestar material”, mas sim “eu só tenho essa”, o que é uma mentira muito mais convincente;

A Beatriz* continuou uma egoistinha mimada, com sua lancheirinha, mochilinha, estojinho e sandalinhas da Barbie, e hoje provavelmente mantém o estojo cheio de canetas com cheirinhos e brilhinhos e coisinhas, e provavelmente até empresta o material para suas asseclas, mas em troca de favores sociais;

E é só se lembrar de todas as pessoas que estudaram com você na vida inteira: mesmo depois que a gente cresce e vai, sei lá, pro ginásio, e depois pro colégio e depois pra faculdade, todos esses perfis continuam existindo (e aqui só dou exemplos reais): a menina que te regula um gole de água, o cara que rouba chaveiros das bolsas das meninas, o outro que nunca leva caderno, nem caneta e sempre que tem atividade pede uma folha de fichário emprestada… eles estão lá, e sempre estiveram. É que na pré-escola você ainda não tinha experiência suficiente pra notá-los. Bem que nossas mães poderiam ter nos avisado. Vai ver que é por isso que a gente chora no primeiro dia.

*Nome provavelmente fictício. Não lembro do nome de nenhuma dessas meninas que regulavam lápis com a desculpa idiota de que a mãe não deixava emprestar, mas uma delas podia muito bem se chamar Beatriz. Mas isso é mera coincidência.

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Juventude perdida

Na minha época, a gente chamava de ‘pestinha’ aquelas crianças mal-comportadas. Mas naquela longínquia época, ser travesso era colocar um papel escrito ‘me chute’ na blusa do inspetor. Aquelas crianças seriam pequenos e doces anjos comparados aos monstrinhos de hoje.

Isso sim é saber lidar com valores desde cedo. Sacou? Ahn?

Eu tenho aversão a crianças mal-educadas – e a seus pais. Adoro crianças gentis, inteligentes, que não gritam e não se jogam no chão e não são o Pedro Lourenço, mas elas são cada vez mais raras hoje em dia.

É claro que os pais são responsáveis por um criança chata, mas ainda assim eu acho complicado culpar alguém por isso, porque criar uma criança deve ser algo muito difícil. Se diz ‘sim’, ela fica mimada e não sabe lidar com derrota; se diz ‘não’, frustra a criança. Penso que não é como um bichinho virtual, que só precisa de comidinha e brincadeiras, mas também não é como o bebezinho que a gente cria no The Sims, que impossibilita que você mantenha qualquer outra atividade, tipo ir ao banheiro e se alimentar, já que ele demanda 102% do seu tempo. Acho que eles exageram, nunca ouvi falar de mães que façam xixi nas calças na vida real por falta de tempo de ir ao banheiro, e no The Sims isso já aconteceu umas 5 vezes comigo.

Acontece que a criança é o mimetizador mais eficiente do universo. Todas as coisas que ela faz, aparentemente, são produzidas por repetição daquilo que vê os adultos fazendo. E isso é algo muito ruim. Imagine que, se você tiver um filho, terá que se policiar todo o tempo com as coisas que diz e com a maneira como se porta em relação aos outros.

E daí explica-se por que existe tanta criança babaca no mundo: os pais babacas, provavelmente sem se darem conta disso, se portam como babacas o tempo todo, inclusive na frente dos filhos, que se tornam pequenas cópias fofas (até certo ponto) e insuportáveis deles.

Claro que isso resulta um mercado fantástico para as psicólogas por aí, e é por isso que eu acredito que nesse mundo de deus tudo tem seu papel. A Supernanny que o diga.

Tô rica rsrsrsrs

Os buffets infantis, por exemplo, se aproveitam da existência desses pais babacas no lindo ecossistema que é o capitalismo. Esse lugares oferecem um rol de atrações cada vez mais excêntrico, sob o prisma de ‘original’, ‘divertido’ e ‘entretenimento’, e os pais acham isso fantástico, claro, pois festa infantil para crianças até uns 3 anos é para pais e familiares exibirem o herdeiro e ganharem presentes, que a criança mesmo nem sabe o que tá havendo. Entre essas novas features de festas de crianças, já vi slideshow com retrospectiva da VIDA de uma criança de DOIS ANOS, show de mágico, tirolesa e mini-balada, e o mais recente e mais escroto, que é uma foto do busto da criança de uns dois metros de altura na frente do buffet, que é para os convidados identificarem o lugar já da rua (e os seqüestradores saberem direitinho quem devem levar).

Isso é algo que eu não faria em nenhuma hipótese, já que eu correria o risco de fazer meu filho pensar que ele é mais importante do que é. E veja bem, o problema nem seria frustração de quando ele descobrisse que não é tão importante, anos depois, mas sim a possibilidade de que ele jamais descubra – isso realmente me assusta.

Se eu tiver um filho, o que eu queria é que ele fosse tão astuto quanto uma menininha de uns 9 anos que vi hoje na livraria do shopping. Apontando para a capa da biografia da Amy Winehouse, ela disse: “olha, mãe. Essa é aquela mulher louca. A cantora louca, sabe?”

Tão nova e já por dentro das nuances da cultura pop.

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