11 de maio de 2009 às 22h39
O tênue limite entre a simpatia e a loucura
Você certamente já encontrou com alguém cuja simpatia ultrapassava o limite do que é considerado socialmente aceito. Se trata daquelas pessoas sorridentes e solícitas, que diante da menor inclinação da sua boca demonstrando um sorriso desatam a falar sobre coisas que você certamente não perguntou e pelas quais, na maioria das vezes, não tem interesse nenhum.
Eu posso ser uma dessas pessoas.
É triste admitir. Mas se você somar minha personalidade extrovertida e conciliadora com um dia de bom humor e uma deixa boa, eu posso ser uma daquelas pessoas que se intrometem sem querer na conversa de outras pessoas e, quando vê, já estão palpitando sobre coisas para as quais não foram convidadas.
Junte isso ao meu jeito estranho de falar – caso você não me conheça, eu falo exatamente como escrevo aqui, com as mesmas palavras e as mesmas pausas e todo o resto – e você me terá como uma desconhecida louca nos lugares públicos, dessas que as pessoas evitam.
E assim, é mais forte que eu. Nesse fim de semana, por exemplo, eu estava na fila da Renner, pra pagar uma calça, e uma senhora perguntou (ok, eu achei que era pra mim, mas era pra filha dela que estava na minha frente) se a outra fila estava menor. Eu respondi com desenvoltura, como se ela fosse minha melhor amiga. Normalmente, nessas horas, se a pessoa está acompanhada, ela troca olhares de profunda estranheza com o companheiro, o que é absolutamente constrangedor pras pessoas simpáticas loucas como eu.
Felizmente, minha simpatia louca tem seu lado bom. Não foram poucas as vezes em que fiz amigos e influenciei pessoas desse jeito. E na prática, no fim acabam me considerando só simpática, e um pouco esquisita, mas não exatamente louca.
Isso é porque, na maioria das vezes, eu sei me manter do lado de cá do tênue limite entre a simpatia com estranhos e a intromissão considerada maluca. É, é uma tarefa delicada, e demanda anos de prática e leitura corporal, mas eu só sei que sei e ponto.
Como eu sei disso? Porque já lidei algumas vezes com pessoas simpáticas realmente loucas. E eu não faço, definitivamente, o que elas fazem. Por exemplo: um rapaz que se vestia esquisito me acordou no trem, dizendo que eu ia perder a estação – como se ele pudesse adivinhar a estação em que eu desceria. Me fez perguntas esquisitas sobre onde eu morava e com quem, conversou comigo como se fôssemos amigos de anos e depois de um tempo tomou seu rumo.
O outro, um tio com crachá da Apae, se sentou ao meu lado e resolveu trocar idéia. Perguntou se eu não queria tomar suco na casa dele, tomar guaraná, ser amiga dele, ser irmã dele, pediu meu telefone (eu passei errado) e toda a sorte de coisas esquisitas. O ônibus inteiro riu da situação até que ele desceu e eu fiquei aliviada, porque ele parecia esquisito além do que podia ser seguro.
Essas pessoas são suicidas sociais, por definição. O primeiro, porque é esquisito. O segundo realmente tinha algum nível de deficiência mental, ou seja, não conta como exemplo. Mas como ser simpático e louco sem ser esquisito e intrometido? Como não parecer um ridículo que quer chamar a atenção?
Não é assim
A regra principal é saber se seu comportamento é bem-vindo. Pode parecer uma ilusão, mas existe gente no mundo que é simpática aos malucos-simpáticos (normalmente, outros malucos simpáticos, ou velhinhos). Essas pessoas vão ficar felizes com a sua intromissão. E elas vão demonstrar isso, não sendo monossilábicas e puxando papo.
Acho que a diferença principal entre o simpático e o maluco-simpático é justamente essa – o maluco não se toca que está sendo inconveniente. Ou, se percebe, realmente não se incomoda com isso. Nós, simpáticos em excesso-quase-malucos, tentamos uma aproximação mas nos afastamos assim que notamos que não somos bem-vindos.
Ou escrevemos um blog.
Mas essa preocupação em se adequar só deve ocorrer porque o comportamento simpático-maluco não é socialmente aceito, e a gente precisa de amigos. Eu não vejo nada de errado com essa extroversão maluca – até porque não é sinal de saúde estar inserido numa sociedade que não me parece estar muito bem das pernas.










23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 

