12 de abril de 2011 às 18h50
Meu jeito de viajar
Quando eu viajo, eu costumo ser uma companhia frustrante pra maioria das pessoas que viajam comigo. É que eu não sinto vontade, exatamente, de visitar os pontos turísticos “imperdíveis”. Na verdade, eu acho a maioria deles bem perdíveis.
Só que isso geralmente provoca indignação nas pessoas que me perguntam o que eu fiz e onde fui. Na verdade, elas parecem achar meus programas bem entediantes. E acaba que eu fico meio sem graça de contar o que eu fiz, porque pra algumas pessoas, se eu não fui no museu, no bairro dos turistas ou nos monumentos históricos, eu não fiz nada que valesse a viagem.
Acontece que, quando eu viajo, meu barato é ler um pouco sobre a cidade, aprender duas dúzias de expressões, mais meia dúzia de pratos típicos, pegar o mapa e sair andando. Se possível, de bicicleta ou de skate. E aí eu vou vendo as pessoas e os lugares, aprendendo a me locomover, olhando os nomes das ruas, vez ou outra parando em um ou outro ponto turístico que cruzar meu caminho. Gosto de comprar umas tranqueiras, de parar pra comer algo e pedir alguma coisa que eu nunca provei antes na vida.
Em dois meses aqui, eu já fui a Amsterdam umas três ou quatro vezes, pra passar o dia, quase sempre. Eu moro mais ou menos a uma hora e pouco de lá, o que dá um ônibus e um trem e demanda certo planejamento, mas nada que alguém que seja de Santo André não esteja acostumada. Daí eu volto pra casa, e ouço: “E aí, o que você fez em Amsterdam?”
Eu tenho vontade de responder que fiquei horas só olhando os canais, olhando pra dentro daqueles barcos-casas, observando os moradores na varanda enquanto eles, bem europeus, leem um livro e tomam chá. Que depois, eu fiquei mais meia hora brincando de tentar adivinhar de que país as pessoas são só de olhar pra elas. E que aí eu fui no Vondelpark e fiquei sentada na grama só vendo como os holandeses transformam qualquer dia de sol em um grande festival ao ar livre improvisado de última hora. Ou que depois, eu fiquei meia hora sentada no meio da Dam Square, assistindo uma dupla tocar algo que lembrava Dire Straits, e em seguida fui à Spui pra garimpar livros baratos em uma daquelas livrarias geniais. Que eu passei horas só tirando fotos, e outra hora conversando em uma mistura de italiano e espanhol com o tiozinho da barraquinha de hot dog americano. Que eu preferi passar uma estação de trem e depois voltar só pra poder assistir um pouco mais da paisagem, que eu peguei a bicicleta e sai pedalando entre uma cidade e outra só pra saber onde ia dar.
Mas quando eu tento dizer essas coisas, parece tudo um pouco chato. Até pra mim não soa como algo grande e empolgante pra se fazer em Amsterdam, sabe? Porque eu não vi o museu do Van Gogh, nem a casa da Ana Frank, nem o museu de cera, muito menos o museu da Heineken. Não tirei foto em I Amsterdam. Na Argentina, eu não fui ao Caminito. Em Barcelona, eu não vi a Sagrada Família. No Rio, Cristo Redentor e Pão de Açúcar, só em cartão postal.
E não é que eu me programei pra não fazer o roteiro turístico, porque isso também seria de uma estupidez absurda. É simplesmente que eu prefiro que meu primeiro contato com a cidade, nossa primeira troca de olhares e tal, seja a mais pessoal possível. Gosto de andar nela, fazer parte dela, entendê-la de verdade. Museu e ponto turístico eu deixo pra quando o nosso relacionamento já estiver bem maduro.
Então eu acabo dizendo que eu comi alguma coisa, tomei um café, encontrei um amigo, essas coisas mais aceitas socialmente. Eles perguntam dos museus, insistem, e eu fico meio sem graça, tipo.. “aaahhn, não fui em nenhum museu”. E eu obviamente tenho nada contra museus (a propósito, existe alguém contra ou a favor de museus? Tipo, da existência deles? “Museus” não costuma ser um tópico polêmico). Mas sempre deixo eles (os museus) pro final. E se tenho poucas horas ou dias na cidade, bem, museus definitivamente não são prioridade.
E as pessoas que escutam parecem sempre me achar meio estúpida por ir a Amsterdam só pra comer e tomar um café, afinal, não é como se Wassenaar não tivesse restaurantes e cafeterias. Por isso inclusive que eu incluo o “encontrar um amigo” no roteiro, porque aí se torna mais compreensível. Dizer que eu fui tomar um café e passei a tarde inteira observando as pessoas sozinha é algo teoricamente inaceitável.
As fotos desse post são de coisas que eu achei só porque saí sozinha por aí nos lugares mais improváveis. Não tenho fotos óbvias, mas tenho essas. Elas provam que meu jeito estranho de viajar às vezes me rende achados curiosos, sim. E vou ter tempo suficiente pra tirar as fotos óbvias, também.
Porque é meio como a Helô me disse no GTalk:
quando vc quiser ver obra de arte do século 16, é só ir ao museu e veré claro que se der vontade de ir ao museu, váporque museu é legal(…)mas importante mesmo é entender a cidadever como as pessoas vivemzanzarcomer na barraquinhaaprender a gíriaandar de metroessas coisasigreja e museu vc pode ver quando tiver 40 anos, casada, com filhos























23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 

