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Eu em Aparecida

Eu, que fui criada para respeitar os mais velhos sempre e sem questionar, devo dizer que nunca foi um problema ceder assento ou o meu lugar nas filas para idosos (ainda que eu seja contra a meritocracia baseada no tempo em que se viveu, porque aquele velho/a pode ser muito bem um escroto, e nesses casos ele deveria ser punido por viver tanto sendo um escroto ficando de pé nos lugares). Mas basicamente, eu respeito as leis em relação a velhinhos sem maiores problemas. Simples assim.

É importante notar, contudo, que se você for à cidade de Aparecida e resolver ceder seu lugar na fila para todo indivíduo com mais de 60 anos que estiver atrás de você, é muito possível que você fique eternamente sendo recolocado no fim da fila, em looping, sempre sem chances reais de se aproximar do caixa.


Vamo dá preferença pros idosos, gente

O lance é: se você é velho ou velha e você está em Aparecida, por favor, abra mão do seu direito de preferencial porque a coisa fica ridícula a partir do momento que o sr./sra. está em maioria no local, competindo para ver quem nasceu em 1935 e quem nasceu em 1936 e, portanto, pode se aproximar primeiro do caixa 7.

Eu fui a Aparecida duas semanas atrás pagar uma promessa da minha vó. É, eu sei, ela faz a promessa e eu pago, é estranho. Acontece que foi uma promessa feita enquanto eu me encontrava na UTI, minha vó é demais, e vai demorar até que eu seja mesquinha o suficiente pra negar algo tão simples assim pra minha vó. Além do mais, eu imaginei que seria uma experiência interessante ir conhecer a cidade.

E realmente foi (sem brinks). Foi curioso, por exemplo, observar que toda a grana que a cidade arrecada com turismo não é revertida nem em infra-estrutura para os moradores (sério, a cidade tem várias partes bem miseráveis) nem em infra-estrutura para os turistas. As salas do santuário enorme são todas ventiladas com a maravilhosa tecnologia do VENTILADOR que, todos sabemos, num calor de 40º vira um circulador de ar quente. Pensa em dezenas de velhinhas com os cabelinhos ralos empapados de suor, grudados na testa. :/

Aparecida vive – abusa, até – do consumo bizarro que tem como álibi a fé. É todo tipo de lembrança e souvenir bizarro, coisas que devem fazer com que Nossa Senhora Aparecida queira desaparecer de vergonha (GENTE, OLHA O TROCADILHO MARAVILHOSO). Dentre as bizarrices, elegi como vencedores as velas em formato de partes do corpo, de pés e mãos e braços a BAÇOS, pâncreas, rins e pulmões, e a VELA ELETRÔNICA ECOLOGICAMENTE CORRETA, que é nada mais nada menos que um brinquedo de plástico, a pilha, com um LED vermelho em cima. O produto é vendido sob o mote de que é econômico e consome menos matéria prima do que as tradicionais e ultrapassadas velas de cera. Quando eu questionei a validade da vela perante Deus (tipo, ‘senhor, vou ligar minha vela para pedir proteção’ é patético), uma senhora que estava na frente da minha vó argumentou, convicta e sorridente, que ‘Deus acompanha essas modernidades’. Ainda assim, ela optou pelo o modelo tradicional e conservador, aquele que demanda fósforo pra acender.


Tô perdida. Deus podia ter acrescentado um mandamento esclarecendo se essas velas valem ou não

Chegando na sala das promessas, O HORROR. Manja aqueles filmes de terror na cena em que encontram o covil (vazio) do assassino e ele está cheio de recortes de jornal, fotos de vítimas e PRINCIPALMENTE souvenirs bizarros? Isso é a sala das promessas. A começar pela encenação de belíssimo bom gosto (bonecos horríveis de argila em tamanho real dentro de barcos feitos de papel laminado, algo entre o trabalho de artes da quarta série e uma escultura disforme de argila que você faz e pinta com guache quanto tem cinco anos), as coisas ficam piores quando chegamos na parte em que as pessoas contam suas histórias – as de promessas que deram certo.


Edward Mãos de Tesoura pediu uma noiva – e conseguiu (não tô zuando, isso ESTAVA LÁ E É ASSUSTADOR, EU SEI)

É meio escrota a lógica da promessa. Entendo mais que se trata da fé e da confiança que a pessoa adquire quando a faz, a mas a ideia de que um Deus onipresente e todo misericordioso está disposto a trocar favores esdrúxulos com seres que ele tanto ama é negar a própria natureza que é atribuida a esse Deus. Mano, que tipo de pessoa diz “Ok, eu salvo sua filha do câncer, mas você precisa acender uma vela da altura dela e subir uma escadaria de joelhos”? É ser muito sacana. Fora que é possível presumir que, para esse Deus, quem não acende uma vela em uma cidade quente no interior de SP merece menos do que quem faz isso, o que também é bem escroto. Na boa, quem inventou essa lógica da promessa provavelmente trabalhava com testes laboratoriais envolvendo ratos.


Vencendo Nsa. Sra. Aparecida pelo cansaço

Mas aí grande vencedora, no fim, foi um manequim todo vestido de motoqueiro, do qual eu me aproximei crente de que se trataria de uma linda história de superação envolvendo Os Abutres, muito álcool e algum acidente de moto. Quando li o sulfite anexado ao manequim bizarro, a promessa alardeada se tratava do seguinte: o MOTOCLUBE DE VARGINHA não conseguia fazer um encontro de seus membros há dois anos, gente. DOIS ANOS. SEM. ENCONTRO. DE MOTOQUEIROS. DE VARGINHA. Daí eles disseram pra Nossa Senhora Aparecida que se ela conseguisse fazer com que a parada acontecesse, eles iriam até Aparecida (de moto, ou seja, viajariam de moto, o que é tecnicamente o que eles mais gostam de fazer, pois fazem parte de um motoclube. E eu aqui achando que promessa tinha que envolver um sacrifício) e vestiriam um manequim de motoqueiro.

Deu certo.

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Do dia em que eu virei a Dra. Manhattan

Tatuagem é uma dessas coisas que eu sempre soube que faria, mas nunca pensei muito sobre o assunto, porque sabia que só ia tomar a atitude quando encontrasse algo que valesse a pena tatuar. Eu sabia que seria assim, de cara, e foi. Literalmente.

Eu comecei a (e terminei de) ler Watchmen na semana passada. Não, não vi o filme. E pirei no conceito por trás da HQ e especialmente desse cara azul aqui:

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Ele é o Dr. Manhattan, um camarada que acabou dentro de uma câmara de separação de campos intrínsecos junto com um relógio de pulso e se tornou um ser azul capaz de manipular atomicamente todas as coisas e para o qual o tempo é uma dimensão diferente.

Brisas do Dr. Manhattan à parte, acabou que gostei muito dessa parada que ele tem tatuada na testa, uma bolinha com uma outra bolinha no centro e uma terceira ‘orbitando’. Viajei na idéia de que isso tinha a ver com o fato de o tempo, pra ele, não ser presente, passado ou futuro, fiz uma puta relação bizarra do símbolo com a idéia, e no fim descobri que não passava da representação simbólica de um átomo de hidrogênio.

Oh.

Um átomo de hidrogênio. O elemento mais abundante do universo, constitui 75% dele – não me pergunte como alguém calcula isso. É a primeira coisa na tabela periódica. Estrelas, o berço da vida, as fênix espaciais, são tipo abarrotadas com essa coisa. Hidrogênio é o início, o fim e o meio. De tudo.

E foi nessa hora que soube que era isso que deveria tatuar. No dia seguinte levei o desenho para o tatuador, que tinha um horário livre e perguntou se eu queria fazer na hora. Eu fiz. Eu, a pessoa do mundo que mais pensa e cogita milhões de possibilidades antes de fazer as coisas, fiz uma tatuagem assim, de um minuto pro outro.

E ficou legal pra cacete.

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Legal. Só tem um problema. Eu inventei alguns significados falsos pra tatuagem, porque acho que uma das coisas legais de ter tatuagem é poder ficar explicando pros outros o signifcado dela (quando ela não é óbvia) e inventando novos a cada semana. Como os caras que inventam significados nada a ver pros nomes de bandas. Alguns deles são:

  • É a representação do plug do Neo em Matrix.
  • O círculo externo representa a maldade orbitando ao meu redor, e a bolinha central é a minha essência, que fica isolada dessa influências negativas.
  • É um alvo.
  • É o logo do meu blog.
  • É a reprodução do Crop Circle que apareceu misteriosamente da noite pro dia nos campos de trigo da minha fazenda.
  • O centro representa o universo, e a bolinha em volta representa eu orbitando em volta de tudo.
  • Não sei como isso apareceu aí. Da última vez que me lembro, estava caminhando pela rua – depois, acordei e estava no meio de um matagal com esse negócio no pescoço.

Beleza, algumas colaram. A do blog, e a a das ‘influências negativas’. A do alvo, também. Só tem um problema – TODAS as pessoas pra quem eu contei a piada ficaram mais satisfeitas com a explicação falsa do que com a verdadeira. Diante da revelação de que aquilo era, na verdade, um átomo de hidrogênio, elas deram o famoso sorrisinho-amarelo-de-quem-não-aprovou-sua-tatuagem.

O sorrisinho amarelo existe por uma demanda de manutenção das relações sociais e só vem provar que a sinceridade, muitas vezes, pode ser prejudicial. Explico: você poder ser o cara chato e sincero que vai dizer pro teu amigo que a camisa dele é brega ou que tem um feijão no dente dele (alto e na frente de todo mundo). Você pode ser esse cara, essas pessoas existem e estão por aí. Mas não existe o ‘inconveniente da tatuagem’. Não existe um chato que olhe uma tatuagem que ache uma bosta e diga ‘sua tatuagem é uma merda’. Porque não é como uma calça feia que você pode trocar. Então as pessoas ativam o sorrisinho amarelo, que normalmente é acompanhado de um silêncio e um “-ah.” E foi essa a reação delas em todos os casos. Teve gente que aceitou melhor que eu tatuasse o logo do blog do que um átomo de hidrogênio, puta merda. Borboletinha e estrelinha pode, né. Porque não pode um átomo de hidrogênio?

Mas acho que ok, vou superar a desaprovação popular. Até porque estou bem satisfeita com o desenho. E doeu menos que depilação.

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Guarda-chuva é uma invenção superestimada

Você já parou pra pensar que boa parte das invenções que prometem facilitar nossas vidas trazem com elas uma porção de problemas que nós não tínhamos antes?

Dá pra mencionar dezenas, centenas de coisas. Mas a mais emblemática, na minha opinião, é o guarda-chuva. E isso é um desabafo.

guarda_chuva

Você mora na cidade? Então tenho certeza que você odeia chuva. Chuva é uma coisa muito desgraçada na cidade. O chão de concreto não foi feito pra lidar com água caindo do céu. Isso é fato, e alguém deveria fazer algo a respeito.

Os que andam de carro podem até reclamar que passam horas parados no engarrafamento quando chove e dá enchente em São Paulo. Mas amigo -  pelo menos, você está dentro de um carro. Você poderia estar fora dele, ou pior, dentro de um ônibus/trem lotado, sem ar condicionado e com as janelas fechadas, porque se abrir, chove dentro. Esses lugares têm cheiro de Cheetos – é sério. O trem é um lugar tão nojento que tem cheiro de Cheetos. O de queijo. E eu odeio Cheetos. Imagina como fica a coisa quando chove.

De qualquer forma, posso garantir que a chuva prejudica muito, muito mais quem anda a pé do que quem tem carro. Primeiro, porque chuva não significa frio – daí chove, mas tá calor, aí você põe uma calça e não um vestido, pra não molhar a perna com a chuva, mas a calça é quente demais, e ainda tá quente e úmido. Não pode usar sandália, sapato baixo, nada – tem que ser tênis, e de preferência impermeável. Precisa ficar cuidando pra que a barra da calça não molhe no chão. Precisa manter a mochila/bolsa e todo seu corpo dentro do diâmetro do guarda-chuva. E tudo isso segurando em cima da sua cabeça um pedaço de pano impermeável sustentado por uns arames que devia ser capaz de manter a chuva longe de você, mas não é.

Existe a ilusão de que a chuva é uma aguinha cujas gotas fazem ângulo de 90º com o chão, mas isso é mentira. Existe o vento. E o vento faz com que a água te pegue, mesmo com o guarda-chuva sobre a cabeça. Normalmente, é um grande paradoxo: chove o suficiente pra que você precise abrir o guarda-chuva se não vai se molhar mais do que o suportável, mas o guarda-chuva não protege o suficiente pra compensar o trabalho que ele dá depois da chuva – balançar pra sair a água sem atingir ninguém em volta, fechar, amarrar, pôr dentro da capinha, arrumar uma sacola plástica e finalmente jogar esta merda dentro da mochila, pra ter que tirar 5 minutos depois de novo porque ela molhou todos seus livros, e ficar carregando na mão enquanto anda, tentando evitar que ele encoste na sua calça e te molhe, o que inevitavelmente irá acontecer… já consegui te convencer que é muito mais fácil tomar chuva?

O filho da puta que inventou isso era muito sádico. Queria sacanear um monte de gente. ‘Vou inventar uma coisa que sacaneie muitos as pessoas sem que elas percebam. Vou fazer de um jeito que elas achem que valha a pena ser sacaneado. E depois vou ficar rindo pela eternidade.’

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A pergunta errada para a pessoa certa

O ano era 2001. Eu, uma jovem adolescente em busca de novos horizontes, resolvo num sábado à tarde tomar um ônibus até o centro de SP e visitar a catedral dos roqueiros em São Paulo, a Galeria do Rock.

Foto: Claudio Rocha

Essa é a galeria do rock

Naquela época, não havia Google Maps e eu não tinha amigos que pudessem me ensinar. Mas me informei e descobri que o ônibus que me levaria ao centro de SP passava numa avenida que ficava perto da minha rua, uma famosa pela enorme oferta de, digamos, favores sexuais pagos provenientes de mulheres (porque a outra avenida, de baixo, oferece opções mais, assim, masculinas.)

Me sentei no ponto de ônibus e eis que chega uma tia. Ela tava vestida de uma maneira estranhamente pseudo-provocante, mas eu nem liguei pra isso e resolvi perguntar se o ônibus que eu estava esperando realmente ia pra onde eu queria ir.

Nas fotos com Creative Commons do Flickr (clique na foto para visualizar os créditos), tive sorte de achar essa. Para ajudar na composição da imagem mental, o tio da direita é bem parecido com a minha anfitriã da ocasião. Sem exageros.

Ela foi bem simpática e me explicou direitinho qual eu deveria pegar e onde eu deveria descer.

Eu sou uma pessoa simpática, sabe. Não do tipo que puxa papo com desconhecidos, mas do tipo que dá corda para desconhecidos que puxam papo. Não contente em me dar informações sobre o itinerário, minha bus-stop anfitriã resolveu puxar assunto e eu correspondi, alegre por ter um passatempo além do discman que me acompanhava.

- Aonde você vai ali no centro?

- Na Galeria do Rock. Sabe?

- Uhm.

- E você?

- Ehr, eu… eu trabalho aqui.

FAIL.

Cara, eu perguntei aonde a mulher tava indo. Acontece que ela não tava indo pra lugar nenhum. Era tipo umas… sei lá, 11h30 da manhã de um sábado. Segundo as minhas concepções para o horário adequado de pessoas se prostituindo na rua, 11h30 da manhã não era mais parte do expediente, sabe? Pra mim, era igual na TV: sexo só depois das 23h, cara. Só na madrugada. Mas eu me enganei. E eu descobri o engano da pior maneira possível.

Por sorte, o ônibus chegou logo em seguida, eu me despedi alegremente e fingi que minha ingenuidade era algo de que deveríamos rir todos juntos. Moral da história: nunca, nunca pergunte a uma prostituta parada num ponto de ônibus qual ônibus ela vai pegar ou para onde ela vai, cara. Porque eu dei sorte: ela podia ter sido sincera comigo e respondido que ia para a casa do ca*****.

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Síndrome do sábado à noite

É como eu batizo a depressão que me atinge se eu não sair de casa nesse fatídico dia da semana. Quero dizer, à noite.

Explico. Quando eu costumava trabalhar, a noite de sábado era a única da semana que antecedia uma manhã sem a necessidade de acordar cedo. Era óbvio que, como todas as pessoas normais, eu reservaria o período de horas compreendendo o fim da noite de sábado e o ínicio da noite de domingo para fazer o que eu não podia fazer a semana inteira: me divertir com meus bons amiguinhos.

A depressão de sábado à noite se manifesta quando essas pessoas não te ligam no sábado à noite – e quando você mesmo liga pra ver o que houve, descobre que elas tem outro programa e que ele não te inclui. Absolutamente. Tipo, com outros amigos.

E beleza, claro que você não é uma criança estúpida e mimada (?), e então você compreende porque seus amigos não são exclusivos, e você simplesmente desliga e liga pra outro amigo.

Que também vai sair com outras pessoas.

Mas não!, você é bravo. E maduro. Você sorri e respira fundo. Busca outro telefone, afinal, você tem muitos amigos. E liga. Pra descobrir que a terceira pessoa também tem outro programa.

Beleza, beleza. Então essa noite de sábado foi regada à terceira temporada de Lost, Lavanderia MTV e A Shot at Love, o programa da MTV cuja protagonista é uma mulher desinibida, bissexual e com nome de tequila. E bem, eu me diverti, e tentei não ficar paranóica, porque afinal, eu não posso desmonstrar cíumes e possessividade insatisfação com meus amigos – eles não têm culpa de nada.

Tipo, se você for parar pra pensar, isso é só uma tentativa minha de ser a amiguinha legal, madura e politicamente correta, mas está óbvio que na hora eu fiquei muito puta da vida com todos eles, que pensei todas as coisas horríveis, que jurei que ia ficar indiferente no próximo sábado… tudo isso é sintoma da síndrome. Sério. E, claro, todo mundo é meio que normal e se sente assim. E tem que assumir que ficou puto. Acho.

Só que um sonho relacionado, que eu prefiro não descrever o conteúdo, fudeu tudo. Agora, estou de mau-humor. Uma extensão, tipo um efeito colateral da síndrome de ontem à noite. Isso não tinha acontecido antes – se bem que meus domingos normalmente são uma droga se eu não saio de sábado…

Estou digredindo, óbvio, afinal estou meio com sangue nos olhos (porque sim, o domingo está sendo uma merda). Mas olha, acho que o único jeito é, por hora, mandar todos meus amigos insensíveis tomarem no cu. Vão tomar no cu! Sério, muito.

Outra saída é descolar um remédio pra TPM. Porque, vamos combinar, ficar pensando “ninguém gosta de mim” não é normal. Sério.

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A saga da artesã

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Daí eu tava esperando o ônibus que me levaria à faculdade e noto um menino esquisito atrás de mim na fila. Nesse preciso momento, uma simpática tiazinha se aproximou vendendo pulseirinhas de palha e seguiu-se o diálogo que reproduzo abaixo:

Tia: Compra uma pulseira pra me ajudar. É só 1 real.

Menino esquisito: Aaah. Uma pulsiera. Uma pulseira?

Tia: É, pra me ajudar. Custa só um real, ai você já me ajuda.

(Eles sempre usam esse argumento do “pra me ajudar”. É óbvio que é pra ajudar, mas é uma coisa tão estúpida dizer “é pra me ajudar”, porque parece que eles estão assumindo o quão indesejável é o produto deles. Tipo, “compra essa pulseirinha pra me ajudar, afinal, por ela mesmo que não vai ser, porque é feia pra caralho”)

Menino esquisito: Ah! Quanto é?

(Repare que nesse momento ela já havia dito – não uma, mas duas vezes – o valor do regalo.)

Tia: É um real.

Menino esquisito: Hum. Você tem troco?

Aí, eu notei que o menino esquisito era do segundo tipo de pessoas que eu mais odeio na terra: aquelas que vão comprar itens de 0,30 R$ e entregam uma nota de 20 R$. Já o vi tirando 50 paus da carteira e esperando que a tia, que vendia pulseirinhas a um real – e portanto teria, além das moedas e das notas de um, no máximo umas duas de cinco – tivesse troco. Mas eu estava profundamente enganada.

Tia: Pra quanto?

Menino esquisito: Pra R$ 2,00.

É!

E não acaba aí. Ela disse que tinha troco sim, e ele continuou. Aqui, uma pequena observação: não sei vocês, mas eu quase sempre reconheço uma pulseira e suas principais funções quando vejo uma – aliás, a taxa de reconhecimento é de praticamente 100% quando a pessoa que me mostra a pulseira diz que está vendendo uma pulseira. Ainda mais no caso de pulseirinhas de palha com conchinhas, hit do verão de 84 que tem sido, desde então, reproduzido incessantemente por artesãos ao redor dos trópicos. I mean – é um teco de palha. Você só pode usá-lo amarrando em algum lugar, naturalmente.

Menino esquisito: E… como é que se usa isso?

Tia (entrando no jogo e se esforçando pelo 1 real mais suado de sua vida de vendedora de tranqueiras): Você pode usar no pulso, como uma pulseira, ou no tornozelo, como tornozeleira.

:O

O menino ficou olhando com uma expressão surpresa para o incrível acessório que tinha acabado de adquirir. Era, afinal, uma pulseira que podia ainda servir como tornozeleira e tinha custado apenas um real. A tia percebeu que ele ainda estava confuso e resolveu amarrar o pedaço de palha no pulso dele.

Tia: Olha, amarra assim, bem forte, e aí depois você corta-

Menino esquisito interreompendo a tia brucamente: Não! Não precisa amarar forte…

Ela deu um sorriso amarelo diante da intervenção inesperada, mas terminou de amarrar, sorriu, agradeceu e foi embora*. Assim que ela virou as costas, o menino tirou a pulseira e enfiou no bolso.

*A conversa durou muito mais. Ele inclusive chegou a perguntar se era difícil de fazer a pulseirinha. Ele também perguntou pra mim umas 15 vezes (sem exagero, a mulher que tava atrás na fila até olhou pra minha cara) se eu já tinha pegado aquele ônibus antes. Mas a tia foi ficando impaciente, e vocês também, então eu resumi a estória.

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Uma crônica sobre situações chatas de passar

Poucas coisas são mais constrangedoras nesse mundo do que as várias situações que envolvem encontrar na rua pessoas conhecidas ou quase conhecidas.

As possibilidades de constrangimento são inúmeras. Falo, hoje, de uma situação em especial: quando alguém te cutuca e você não se lembra da pessoa.

Ontem, porque a vida é uma caixinha de surpresas e isso nunca acontece, rolou um stress na estação de trem Tamanduateí. Enquanto eu corria de uma plataforma para a outra tentando pegar o trem certo, senti um toque (uh!) no meu ombro.

Me virei lentamente, e me deparei com a expressão sorridente e estranhamente familiar de uma menina que tinha mais ou menos a minha idade. Acontece que a familiaridade dela, na hora, me pareceu daquele tipo de ‘expressão que todo mundo acha familiar’. Sabe aquele fulano que, todo mundo que vê, diz que conhece de algum lugar? Então. Existem umas pessoas assim, de fisionomia familiar. Essa moça era uma delas. E eu sou boa de fisionomias… da dela, não me lembrava. Nada. Um tiquinho.

Na hora, desesperada com o sorriso de puro reconhecimento e contentamento da moça, minha mente entrou em parafuso. Tudo isso, gostaria de salientar, aconteceu em fração de segundos. O que você faria se alguém absolutamente desconhecido sorrisse para você de maneira simpática, claramente dizendo – ainda que sem pronunciar uma palavra – “olá minha grande amiga, é maravilhoso te reencontrar por acaso!”

Como ela não disse nada, só sorriu, eu tinha algumas opções. A primeira era dizer… “Oi?”, com um tom claro de dúvida, o que a faria dizer quem ela era. A segunda era corresponder alegremente e sorrir tanto quanto ela, mas essa nunca dá certo, a não ser nos filmes. A terceira… a terceira não existe, oficialmente, mas eu inventei-a na hora.

Eu disse, com toda segurança e auto-confiança adquirida em anos de terapia jungiana:

“Eu não te conheço.”

Não foi de maneira dura, ou ofensiva, contudo. Meus lábios até se curvavam num meio sorriso. Eu apenas afirmei, com toda a certeza, que nunca tinha visto aquela louca na minha frente.

Notei uma breve, mas quase imperceptível, mudança de expressão. Ela se virou para a amiga que a acompanhava e gargalhou. Voltou-se para mim, de novo, e disse: “você não é amiga do giu?”

E bem, aí fudeu tudo, porquê eu realmente sou, lembrei vagamente de onde a conhecia e a cena, que antes tinha TUDO ao meu favor, deu um rodopio. Pra caralho. Ela sorria, triunfante.

Gaguejando, eu disse que era, sim, amiga do Giu. A estranha começou a balbuciar coisas sobre outra amiga em comum nossa, eu fiquei sem graça e arrematei, claro, porque eu não consigo deixar de falar merda um segundo sequer da minha adorável vida: “ah, então eu te conheço. Quer dizer, eu não te conheço, porque não lembro de você, mas você me conhece…”

Antes que ela me estapeasse, perguntei seu nome – que, cazzo, não lembro, ou seja, foi só pra ganhar tempo -, e aquele silêncio palpável de tão denso se estabeleceu. Aí, antes que eu pudesse dizer tchau, ela foi mais rápida e rumou em direção ao lado oposto da plataforma. Sabiamente.

Moral da estória: da próxima vez, vou tentar ir só pelo “Oi?”, mesmo.

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Uma semana chata

Eu venho passando por um dias complicados. Vou expôr as dificuldades que estão cruzando meu caminho nos últimos tempos (dizem que problema a gente divide pra poder ficar menor):

- Eu quebrei meu computador. Sabia que essa mania de técnica-autodidata ainda ia me fuder. Fui tirar o cooler do processador pra limpar (tava fazendo um barulhão), mas na hora de colocar de volta, alguma coisa deu errado. Agora só o CPU liga, e por cerca de 7 segundos. Baixei dezenas de filmes e CDs fodas na semana, pra atualizar o iPod e minha videoteca, e agora estão todos lá, aprisionados no HD do computador inoperante. Sorte que ainda estou com o notebook do trabalho.

- Meu editor me pautou para a matéria de capa da revista de março. Por um lado, isso é muito legal, mas por outro, vai ser trabalho pra cacete, e lá no trabalho a gente tem que ficar atualizando o site todo dia, então eu quero só ver que horas vou conseguir parar pra escrever o texto.

- Minhas aulas voltaram, e voltaram com tudo. Tenho oficina de telejornalismo em 3 dos 5 dias da semana, por cerca de um mês, no qual terei que produzir 1 matéria por semana. Nessa primeira, sou pauteira – ou seja, dá-lhe amanhã ligar pra 35 negos (no horário de trabalho) pra apurar matéria e marcar externa e etc.

- Ainda não descobriram exatamente o que eu tenho. Tipos que a pedra na vesícula está lá, mas segundo o gastro não é ela que está causando a dor. Mas a gente ainda não sabe exatamente o que é. E, enquanto a gente não sabe, minha dieta diária se resume a Ades, bolacha de água e sal (que vai fasrinha, também, até onde eu sei), frango grelhado e legumes cozidos. Ah, e chá de Espinheira Santa. Todo um sabor, uma delícia.

- Eu estou apanhando MUITO do wordpress.org, o sistema instalado no novo domínio. Na migração, todas as tags de posts antigos se converteram em números (aparentemente, vou ter que mudar post por post), a maioria dos layouts dos posts quebrou (e não há cristo nesse mundo que os faça ficar ok), meu Google Analytics e meu Feedburner aparentemente não estão funcionando e – vamos concordar – NINGUÉM vai clicar nesse negócio aqui do lado. Tá muito separado do texto.

Não quero ouvir aquela merda de “você não tem problemas, as criancinhas na África é que têm”, porque eu nunca acreditei nesse argumento. Ele vem embutido com uma vibe Polyanna. A gente sempre se sente culpado de estar mal pelos nossos problemas, desse jeito, porque o mundo anda tão fudido que não importa a merda que aconteça na sua vida, SEMPRE poderia ser pior e sempre vai ter alguém que se fudeu mais que você.

Moral da estória: se a gente for pensar desse jeito, a verdade é que devem ter duas ou três pessoas no mundo que realmente têm problemas. Eu prefiro pensar do jeito mimado normal e trabalhar com a hipótese do relativismo, ou seja, cada um vê a vida de um jeito e meus problemas, que parecem ridículos, podem ser realmente grandes pra mim, sim. Você é que não tem a… sensibilidade de compreender as diferenças. Hunf.

Logo, meus problemas são meus e pra mim são bem grandes, é tudo um saco e eu estou sim de mau humor, o que torna todo o meu fim de semana um grande bloco chato de dias sem fazer nada.

Fim do desabafo… blog é pra essas coisas, né? “Diário virtual”, é como chamam.

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