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Aqui nos Países Baixos

Eu precisei dar uma sumida, veja, porque de repente surgiram três crianças na minha vida. Surgiram também moinhos de vento, igrejas medievais, flores cheirosas, morangos que de tão doces parecem que vêm com açúcar de fábrica, bicicletas e pessoas gentis que falam uma língua estranha, uma mistura de alemão, francês e sons guturais.

Eu não tomei um ácido, gente, embora seja quase isso. Eu me mudei para a Holanda para trabalhar como babá.

Meu trabalho é bem diferente do que eu fazia como jornalista, como você pode imaginar. Cheguei há uma semana e parece que passou um mês – tanto pela quantidade de coisas diferentes que eu vi e fiz, quanto porque, bem, eu já trabalhei um bocado. E nesses dois aspectos, creia, o trabalho chega bem perto do que eu estava acostumada no jornalismo.

A Holanda, ainda bem, é mais do que tudo aquilo que eu mencione lá em cima. Também é pessoas fumando maconha dentro de bares e prostitutas dançando com pouca roupa em vitrines.

Amsterdam

OLHA AÍ O BECK LEGALIZADO

Aqui, se vê muito do Brasil na simpatia e hospitalidade do povo – como estrangeira, eu fui bem recebida onde fui, e todo mundo tá sempre disposto a me ajudar – e na paixão pelo futebol. Ah, sem falar no hábito constrangedor de ouvir música alta no trem, que também está por aqui.

Mas num resumo, é só isso. Porque, diferente daí, aqui os campinhos (digo, quadras) de futebol são apinhados de meninos loiros, muito loiros, alguns até bons de bola, veja só. Aqui, todo adolescente de 16 anos que você vê na rua está fumando um cigarro. Muitos se acham muito, muito malandros (tadinhos, não durariam por dois minutos no Capão Redondo).

Aqui, crianças de 3 ou 4 anos atravessam a rua sem olhar, e apesar de ser um hábito ruim, elas o adquirem simplesmente porque PODEM, já que têm a certeza de que os carros vão parar (e eles vão). Velhinhas de 80 anos vão ao supermercado de bicileta, e aqueles já com dificuldade de locomoção usam um fantástico andador com um compartimento – como ninguém pensou nisso antes? Nos pontos de ônibus e nos lagos, em vez de pombos ou lixo, a Holanda tem patos, aqueles dos desenhos, com penas verdes e azuis.

Apesar de comerem pão doce com queijo no almoço, eles inventaram, veja você, a C&A, as Bakfiets, uma torneira de onde sai água fervendo (sério, uma das invenções mais úteis da história), a Kombi (mano, foi um holandês que inventou a Kombi), e bem… eles aperfeiçoaram MUITO a tecnologia de diques.

108: Stephanie's Bakfiets

Caso você esteja se perguntando, ainda, o que são Bakfiets: é esse negócio aí em cima. ATENÇÃO ESSA NÃO SOU EU

É que a Holanda (Países Baixos, gente, é o real nome do país) é um país, hum, baixo. Isso significa que boa parte do terreno aqui está abaixo do nível do mar. E aí, pra tornar a terra habitável, os holandeses precisaram BOTAR A MÃO NA MASSA. Pensa que é Ilha de Vera Cruz, onde se plantando, tudo dá? Que é só chegar, montar a barraca e ficar? Não é assim. Ok, pra começar, é abaixo do nível do mar, ou seja, precisava tirar aquela água dali. Em segundo, faz um frio legal no inverno.
Explico-me. Eles precisaram dar um belo trampo pra poder morar nesse lugar, fazê-lo habitável. E para que ele se mantivesse assim, precisaram impôr regras. Precisaram colaborar uns com os outros.

Penso que é daí que vem a gentileza dos holandeses, entre si e com os estrangeiros, seu respeito quase irrestrito às regras (e, bem, o excesso delas também), seu metodismo. É da falta de sol que vêm o hábito, que para nós é hilário, de em um dia quente, sentar-se na calçada com as cadeiras viradas para o sol, como se o astro-rei fosse um espetáculo a ser assistido.

Haarlem

Sessão de sol, meia-entrada, as 3h15. Sala 8

É provavelmente daí também que vem a habilidade de conservar os prédios históricos, já que deu trabalho pra que eles pudessem ser erguidos lá, naquele solo aterrado. Além do mais, não dá pra simplesmente viver ao ar livre por causa das chuvas e do frio, então ninguém vai querer de fato destruir um abrigo que é necessário para a sobrevivência.

Também da necessidade de se concentrar em sobreviver vem o liberalismo a tolerância, o espírito open-minded (troquei a palavra porque, bem, apesar de todo mundo entender o que eu quis dizer, como bem apontou um anônimo chamado Rafael nos comentários, estritamente ‘liberalismo’ ainda é sistema político-econômico). Mesmo durante a inquisição, os holandeses recebiam seguidores de outras religiões. Eles não tavam nem aí para quem era seu Deus, porque tinham que se preocupar em manter os diques em pé e a água longe. Essa tolerância é o que permite que a Holanda, hoje, seja tão livre. É o que permite que em Amsterdam você possa se vestir COMO QUISER e não receba nem um olhar esquisito por isso. Tudo é aceito. Tinha um ratinho no Burger King da estação central da cidade e, na boa, ninguém sequer fez nada além de dizer ‘olha, um rato’. Nem levantamos o pé.

Nada disso explica o pão-durismo deles e o fato de eles economizarem até na salada.

Haarlem

O pôr do sol de um domingo em Haarlem, uma das cidades mais antigas. Tem prédios de 400 anos lá

Essas coisas explicam, contudo, alguns efeitos colaterais. Eles são obcecados com conversas sobre o tempo – sério, um dos assuntos preferidos é falar se nos próximos dias vai estar nublado ou se vai ter sol. Claro que não entra na discussão se vai estar frio ou não, porque certamente estará. O que se discute é se será frio com sol ou frio com chuva.

Além disso, eles são meio metódicos DEMAIS, o que é bom mas pode ser ruim às vezes. O excesso de regras e a necessidade de seguí-las torna os holandeses meio engessados, com uma certa falta de trato social e jogo de cintura. E por fim, esse olhar que aceita tudo tem seu lado negativo, já que eles não se surpreendem com nada. Bem, com exceção do sol – com isso, eles sempre se surpreendem.

Ah, botei umas fotos lá no Flickr.

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O que é realmente necessário para representar o povo?

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Conhecimentos gerais. É isso que o CQC está checando no mais recente quadro deles, protagonizado pelo conterrâneo Danilo Gentili, que nesta segunda perguntou a parlamentares coisas que são exigidas em provas simples de admissão de estagiário de jornalismo nos lugares mais fuleiros, como ‘o que é a Jihad’, ‘o que é a Convenção de Genebra’ e ‘onde fica Guantánamo’. E alguns parlamentares não faziam idéia das respostas.

O Gravataí argumentou comigo que ele não considera esse tipo de conhecimento superficial necessário para ocupar esse tipo de cargo público. E eu até concordo com ele, mas veja bem – se você não sabe o que é Jihad, isso não significa apenas que você não sabe o que quer dizer uma palavra. Significa que existe todo um conhecimento geral, mesmo que não-aprofundado, sobre geopolítica, incluindo por exemplo acontecimentos recentes, como o ataque das torres gêmeas, que você não sabe dizer porque aconteceram. Porque se você tivesse lido um pouquinho sobre isso certamente teria se deparado aqui e ali com a palavra e saberia.

Ou seja, o que estou questionando é no que implica você não saber o que é a Jihad, onde fica Guantánamo ou o que é a Convenção de Genebra. Implica, por exemplo, em você ter lido muito pouco ou quase nada sobre conflitos armados recentes, porque os três termos curiosamente se relacionam a guerras. E isso, na minha opinião, te faz inapto a me representar em Brasília. Porque exigem de mim conhecimentos muito mais avançados para ocupar cargos de responsabilidade, salário e regalias muito, muito menores. E porque o mínimo que eu quero é que meus representantes saibam o que está acontecendo no mundo e porquê, mesmo que não for de forma aprofundada.

Eu sei que é uma posição polêmica, mas não acho que pra governar seja mandatório que o cara seja um acadêmico das mais altas qualificações. Acho que sim, ajuda muito se ele for, mas no quesito ‘conteúdo’ considero importante mesmo uma vasta cultura geral, que possibilite ao cara falar sobre tudo e ter uma visão ampla das coisas, bastante leitura, essas coisas. Mas não sou partidária dos literatos ocupando as cadeiras do poder.

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Tem aquele adorável discurso reacionário da classe média (ilustrado acima), que a gente costuma escutar da molecada mais não politizada que repete o que dizem os pais. Ele diz mais ou menos o seguinte: “como meu filho vai se sentir estimulado a estudar se o presidente só tem até o Ensino Médio?”

A resposta correta a essa pergunta provavelmente inclui algo como “basta não ter um pai como você”, mas isso é extremamente ofensivo. Então a gente só dá uma risadinha, ou finge que tá tudo ok. Mas o pai que aceitar do filho o argumento de que ele ‘não vai estudar’ porque ‘o presidente não estudou’ deve ser mais burro que o presidente.

O presidente não estudou mesmo, até onde sabemos. O Gravataí (de novo) me informou, inclusive, que ele já chegou a dizer que só leu um livro na vida (“A semente da vitória”, de Nuno Cobra), mas não achei fonte no Google pra essa info, tirando que o Lula cita muito o cara nos discursos. Eu não acho, contudo, que isso o torna menos capaz de exercer o cargo que ele exerce. Acho fundamental, contudo, que o presidente tenha conhecimentos gerais básicos – história, geografia, economia, ciências. O suficiente pra ler o jornal do dia e entender o que está acontecendo ali, o que está por trás daquilo. E eu, sinceramente, acho difícil ele ter chegado ali sem saber isso. É um voto meu, e posso estar enganada; mas acho realmente difícil.

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Habilidades musicais do presidente

De qualquer forma, o quadro me desanimou horrores. Me desanimou de ser cidadã, de ser jornalista, de ser estudante, de votar na próxima eleição. Sério – até desliguei a TV depois do quadro. O Arlindo Chinaglia ficou durante 20 segundos enrolando porque não sabia definir Jihad. Ele nem precisava explicar, sabe? Se ele dissesse ‘é a guerra santa islâmica’, tinha matado. Outro cara, do PMDB (não me pergunte nomes), versou durante um minuto sobre Genebra “e sua ‘sede’, a Suíça (sic)”, dizendo que a Convenção era um tratado muito importante assinado por todos os países que definia assuntos muito importantes a respeito do mundo. Assim que rolar um vídeo, eu coloco aqui e você sofre comigo.

Mas a verdade é que os nossos políticos não passam de um reflexo de nós mesmos. E se algumas dessas pessoas chegaram onde chegaram sem conhecimentos que eu considero tão básicos, a culpa é nossa.

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Inteligência corporal? É com Luiz Inácio!

Não tô pedindo muito. Queria só o básico, sério. O básico. Quem lê o jornal pro Lula não é ele, é o Franklin Martins e outros assessores, segundo entrevista que ele deu pra piauí nos últimos meses. Mas o que eu espero do presidente (e de quem me representa além dele nas instituições do país) é que ele saiba contextualizar o que o Franklin diz sem precisar perguntar “Mas ô companhêro, quem é esse Kremlin? É daquele filme da sessão da tarde?”


*Esse texto foi ilustrado com imagens do genial LulaLOL, que… que você só vai entender depois que entrar. A essa altura todo mundo já conhece, mas reza a lenda que eu tenho um público muito particular que não é antenado nessas coisas de internet então me sinto responsável por informá-los das boas coisas da rede.

*Resultado da promoção na terça à noite, sem falta – dando uma de Lúcio Ribeiro.

* Lúcio Ribeiro ainda existe?
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