8 de julho de 2008 às 5h20
Ser eclético é não gostar de música
Tem um mal assolando a humanidade nos últimos tempos. É a tolerância ao mau-gosto.
O discurso do politicamente correto, do ‘não gosto, mas devo respeitar’, se alastrou de forma assustadora. O resultado é que você não gosta de sertanejo, mas deve respeitar pessoas que usam chapéu de caubói, fivela gigante dourada e botas country no dia-a-dia. Tudo em nome do respeito ao próximo. Pfff.
O chapéu, botas com esporas, colete, calça com franjas e fivelas inspiram respeito
Mesma coisa pra música. Ser ‘eclético’ tá na moda, e todo mundo deve aceitar isso sem questionar. Acabaram com as incompatibilidades de gênero. O pessoal vai na micareta, gosta de psytrance e sobra tempo pra ouvir um Detonautas supimpa. Tudo na maior harmonia.
Sou só eu ou alguém não pode simplesmente sair por aí dizendo que gosta de coisas tão diferentes, ao mesmo tempo, e fingir que tá tudo bem? Essas coisas são incompatíveis, cara. Não dá pra ir no show da Ivete e voltar ouvindo Rage Against The Machine no carro (acredite, sei de gente que faz isso). Tem algo errado em algum lugar dessa história. E se você não enxerga isso, vou te dar um exemplo gráfico (o famoso ‘quer que eu desenhe?’ adaptado para a web) pra ver se fica mais fácil perceber que há algo… hum, um pouco deslocado:

Encontre o elemento que não faz parte da cena (Mi, essa é pra você)
E ai de nós, pessoas perceptoras do desvio de comportamento, se questionarmos a disparidade de conteúdos. Não há mal nenhum em ser eclético, eu costumo ouvir.
Uma vez eu perguntei pra uma pessoa se ela gostava de música. Ela me respondeu ‘e quem não gosta’?
Ué, até onde eu sei, a maioria das pessoas não gosta de música. A maioria das pessoas senta lá e escuta o que tá tocando. Baixa o que tocou na festa de sábado. É o gado musical. É o ‘em cima do muro’. Pior do que um fundamentalista pra um lado ou pro outro é não saber pra que lado ir.
Ser eclético, então, adquiriu essa maldita conotação pejorativa. Porque na nossa era, dizer que é eclético se traduz em não gostar de música. Num niilismo ligeiramente subvertido, a nossa sociedade transformou o gostar de tudo em gostar de nada. E a gente aceita isso como se fosse algo legal.
Ok, esse é o único caso em que você pode misturar as duas coisas sem parecer… hum, eclético




23 anos, jornalista, curiosa dos mistérios do mundo, odeia inveja e falsidade. 

